{"id":75210,"date":"2022-11-11T00:52:09","date_gmt":"2022-11-11T00:52:09","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75210"},"modified":"2022-11-11T14:35:32","modified_gmt":"2022-11-11T14:35:32","slug":"governos-progressistas-uma-onda-que-nao-sera-tao-rosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/11\/11\/governos-progressistas-uma-onda-que-nao-sera-tao-rosa\/","title":{"rendered":"\u201cGovernos progressistas\u201d: Uma onda que n\u00e3o ser\u00e1 t\u00e3o rosa"},"content":{"rendered":"\n<p><em>O ciclo de vit\u00f3rias eleitorais de partidos chamados progressistas, que j\u00e1 havia conduzido ao governo Gabriel Boric (Chile) e Gustavo Petro (Col\u00f4mbia), se confirma, agora, com a elei\u00e7\u00e3o de Lula, o \u00faltimo eleito da safra de 2022. Assim, a maior economia da Am\u00e9rica Latina se soma ao M\u00e9xico, governado por Lop\u00e9s Obrador, e \u00e0 Argentina, presidida por Alberto Fernandez, fazendo com que as cinco maiores economias da regi\u00e3o estejam sob governos que se proclamam \u201cfor\u00e7as progressistas\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Ricardo Ayala<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O capitalismo com \u201cface humana\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A rebeli\u00e3o das massas argentinas, em 2000, abriu um processo pol\u00edtico na Am\u00e9rica Latina que conduziu aos governos de v\u00e1rios pa\u00edses distintas for\u00e7as pol\u00edticas que se apresentaram como alternativa aos efeitos sociais do neoliberalismo no continente. Na Am\u00e9rica do Sul, o ascenso de Chavez, na Venezuela, e o seu \u201cSocialismo do s\u00e9culo 21\u201d, deu in\u00edcio a uma onda de governos que, em sua ret\u00f3rica, se colocavam contra o neoliberalismo no subcontinente.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada um destes governos expressou de distintas formas o que seria a sua alternativa ao neoliberalismo. Em 2003, Lula foi eleito presidente do Brasil e lan\u00e7ou o \u201cneodesenvolvimentismo\u201d. No mesmo ano, Nestor Kichner chegou \u00e0 Casa Rosada, na Argentina, dando in\u00edcio ao \u201ccapitalismo s\u00e9rio\u201d, e a Frente Ampla, encabe\u00e7ada por Tabar\u00e9 V\u00e0zquez, ganhou as elei\u00e7\u00f5es no Uruguai.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2006, depois de uma rebeli\u00e3o nacional contra a privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, Evo Morales foi eleito na Bol\u00edvia e lan\u00e7ou o \u201cprocesso de cambio\u201d (processo de mudan\u00e7a) e, no ano seguinte, no Equador, Rafael Correa iniciou sua \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3\u201d. Para finalizar este ciclo, em 2008, Fernando Lugo chegou \u00e0 presid\u00eancia do Paraguai, desbancando d\u00e9cadas de governos do Partido Colorado.<\/p>\n\n\n\n<p>No governo, estas for\u00e7as pol\u00edticas defenderam uma gest\u00e3o \u201ccivilizada\u201d do capitalismo semicolonial latino-americano (ou do neoliberalismo, dentro da ordem), em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia tradicional e seus partidos desgastados pela devasta\u00e7\u00e3o social, produzida, at\u00e9 ent\u00e3o, pela paralisia econ\u00f4mica decorrente da pol\u00edtica de libera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e financeira dos 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os principais pa\u00edses do continente, Col\u00f4mbia, Chile e Peru ficaram de fora desta primeira onda de governos supostamente antineoliberais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Col\u00f4mbia, a exist\u00eancia das For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias (Farcs), at\u00e9 ent\u00e3o a mais antiga guerrilha do mundo, deu origem ao seu polo oposto: um Estado paramilitar, conhecido por, at\u00e9 muito recentemente, assassinar mais de um l\u00edder campon\u00eas ou dirigente sindical por dia, com a desculpa de combater a guerrilha, e tamb\u00e9m por criar, no outro extremo, uma franja social que era base pol\u00edtica do governo contra a guerrilha, mantendo o movimento de massas \u201cemparedado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do Chile, os governos da chamada \u201cConcertaci\u00f3n\u201d (Coaliza\u00e7\u00e3o) da Democracia Crist\u00e3 e do Partido Socialista, que sucederam a ditadura, ainda detinham as expectativas da popula\u00e7\u00e3o e as consequ\u00eancias sociais da manuten\u00e7\u00e3o das contrarreformas implementadas por Pinochet ainda n\u00e3o tinham vindo \u00e0 tona. Ao mesmo tempo, a exporta\u00e7\u00e3o de cobre, pe\u00e7a chave de toda economia do pa\u00eds, mantinha, minimamente, a sobrevida dos trabalhadores, com um baixo desemprego.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no Peru, a corrupta ditadura de Fujimori, foi o polo oposto \u00e0 guerrilha do Sendero Luminoso, que, tal como Col\u00f4mbia, mantinha as massas espremidas entre uma guerrilha e a viol\u00eancia do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Neoextrativismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A economia baseada na exporta\u00e7\u00e3o dos recursos naturais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"640\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/principais-leis-federais-sobre-mineracao-capa-blogpost-1024x640-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-75212\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/principais-leis-federais-sobre-mineracao-capa-blogpost-1024x640-1.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/principais-leis-federais-sobre-mineracao-capa-blogpost-1024x640-1-300x188.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/principais-leis-federais-sobre-mineracao-capa-blogpost-1024x640-1-768x480.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/principais-leis-federais-sobre-mineracao-capa-blogpost-1024x640-1-150x94.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/principais-leis-federais-sobre-mineracao-capa-blogpost-1024x640-1-696x435.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Com diferen\u00e7as entre os distintos pa\u00edses, o modelo chileno (baseado na exporta\u00e7\u00e3o de recursos naturais) foi o eixo sobre o qual todos os chamados governos progressistas ou \u201cantineoliberais\u201d fundamentaram sua pol\u00edtica econ\u00f4mica, subordinada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o destes recursos para a industrializa\u00e7\u00e3o da China e do Sudeste da \u00c1sia, que demandavam min\u00e9rio de ferro, cobre, produtos agr\u00edcolas (como a soja) etc., em uma escala sem precedentes na hist\u00f3ria do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Subordina\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Cavalgando a eleva\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos pre\u00e7os destas mercadorias, os \u201cgovernos progressistas\u201d mantiveram intactas a subordina\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses \u00e0 divis\u00e3o mundial do trabalho imposta pelos pa\u00edses dominantes, que controlam o mercado mundial destes produtos. Abrindo m\u00e3o da soberania que diziam defender, aprofundaram a mesma estrutura produtiva que diziam ser contr\u00e1rios, fazendo com que o processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o avan\u00e7asse no continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Politicas sociais compensat\u00f3rias<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, os programas sociais, como o Bolsa-Fam\u00edlia, no Brasil, ou o est\u00edmulo aos pequenos neg\u00f3cios, foram incapazes de compensar o desemprego e o subemprego, quando se instalaram os efeitos da profunda crise do capitalismo mundial e os pre\u00e7os dos recursos naturais ca\u00edram. Resultado: os efeitos sociais foram devastadores em todo continente, assim como a decep\u00e7\u00e3o nas for\u00e7as pol\u00edticas que despertaram a ilus\u00e3o de uma mudan\u00e7a real na vida das massas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A crise<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O tsunami que varreu a \u201cprimeira onda\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O impeachment de Lugo no Paraguai, em junho de 2012, deu in\u00edcio \u00e0 crise destes governos. As mudan\u00e7as reais na vida das pessoas dentro da ordem burguesa nacional e internacional conduziram a uma crise social ainda mais profunda, de acordo com o grau de depend\u00eancia e subordina\u00e7\u00e3o em cada um dos diferentes pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Venezuela, a desindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, causada pela absoluta depend\u00eancia na exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, escancarou a verdadeira face do Chavismo. Em maio de 2019, o Banco Central da Venezuela estimou que infla\u00e7\u00e3o, at\u00e9 2021, chegaria a 282.000%. Neste mesmo ano, estimava-se uma retra\u00e7\u00e3o em 90% do Produto Interno Bruto (PIB) em rela\u00e7\u00e3o ao ano de 2013, per\u00edodo em que o poder de compra dos sal\u00e1rios encolhera 94%. Al\u00e9m disso, o valor da cesta b\u00e1sica era calculado em 1.218.147,82 bol\u00edvares (a moeda local), enquanto o sal\u00e1rio m\u00ednimo chegava a apenas 40.000 bol\u00edvares.<\/p>\n\n\n\n<p>Com diferen\u00e7as de ritmos e intensidade, esta mesma realidade social se abateu sobre todos os pa\u00edses governados pelas chamadas \u201cfor\u00e7as progressistas\u201d. A partir de ent\u00e3o, sua fun\u00e7\u00e3o de conter o descontentamento social perdeu o sentido para a classe dominante, ao mesmo tempo em que os \u201cde baixo\u201d se decepcionavam com o retrocesso em suas condi\u00e7\u00f5es de vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta da burguesia tradicional foi aprofundar o modelo extrativista, assim como dos pa\u00edses ainda governados pelo \u201cprogressismo\u201d, como Venezuela, abrindo zonas econ\u00f4micas especiais, entregues a corpora\u00e7\u00f5es multinacionais associadas aos militares, para intensificar a explora\u00e7\u00e3o de ouro, minerais, madeira etc.<\/p>\n\n\n\n<p>A burguesia tradicional tamb\u00e9m come\u00e7ou a lutar pelos governos e surgiram novas for\u00e7as de ultradireita, como express\u00e3o mais desenvolvida da necessidade de saque e espolia\u00e7\u00e3o. E, a\u00ed, a via da mudan\u00e7a por dentro da institucionalidade cobrou seu pre\u00e7o: em 2015, o kircherismo foi derrotado nas elei\u00e7\u00f5es na Argentina e, no ano seguinte, Dilma Rousseff foi apeada da presid\u00eancia pelo Congresso brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Os efeitos da crise fizeram com que o \u201cprogressismo\u201d passasse a se enfrentar diretamente com as massas. Na Bol\u00edvia, por exemplo, em 2016, a suspeita de fraude no plebiscito que daria a possibilidade de Morales ficar indefinidamente no poder gerou um levante da juventude, que foi capitalizado pela direita, que, contudo, fracassou em sua tentativa de golpe.<\/p>\n\n\n\n<p>No Equador, Lenin Moreno, sucessor de Rafael Correa, aplicou um profundo plano de ajuste estrutural, negociado com o FMI, que dentre as medidas mais duras implicou em um reajuste brutal dos pre\u00e7os dos combust\u00edveis, em outubro de 2019, o que provocou um levante das massas ind\u00edgenas. E foi esta rebeli\u00e3o do Equador que serviu como fa\u00edsca para detonar a revolta dos chilenos, que tomaram as com sua famosa palavra de ordem contra o aumento no pre\u00e7o das passagens: \u201cN\u00e3o s\u00e3o trinta pesos, s\u00e3o trinta anos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Retorno<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A nova onda \u201crosa\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo antes das massas chilenas e colombianas ganharem as ruas, colocando estes pa\u00edses (de forma tardia) dentro da onda dos governos tidos como progressistas, na contram\u00e3o da crise destes governos na Am\u00e9rica do Sul, em 2018, o governo do M\u00e9xico (a segunda economia do continente e, ao mesmo tempo, o pa\u00eds mais controlado pelos EUA, servindo-lhe como uma verdadeira col\u00f4nia) foi arrebatado por Lopez Obrador. Enquanto isto, no Brasil, Jair Bolsonaro capitalizava o desgaste do PT, alentando novas forma\u00e7\u00f5es de ultradireita na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de ent\u00e3o, a elei\u00e7\u00e3o de Fernandez, na Argentina, em 2019, abriu as portas para uma recomposi\u00e7\u00e3o eleitoral das chamadas \u201cfor\u00e7as progressistas\u201d na Am\u00e9rica do Sul. Em 2020, a administra\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio da pandemia pelos governos de turno detonou mobiliza\u00e7\u00f5es no Peru e na Col\u00f4mbia, al\u00e9m de manter a expectativa das massas chilenas, mesmo fora das ruas, pelo processo constituinte e a den\u00fancia da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, estes tr\u00eas pa\u00edses foram incorporados \u00e0 nova onda de \u201cgovernos progressistas\u201d, com as elei\u00e7\u00f5es de Castilho (Per\u00fa), de Boric (Chile) e Petro (Col\u00f4mbia). Um processo que, agora, no final de 2022, atingiu o Brasil, com a elei\u00e7\u00e3o de Lula.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ciclo de vit\u00f3rias eleitorais de partidos chamados progressistas, que j\u00e1 havia conduzido ao governo Gabriel Boric (Chile) e Gustavo Petro (Col\u00f4mbia), se confirma, agora, com a elei\u00e7\u00e3o de Lula, o \u00faltimo eleito da safra de 2022. 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