{"id":75019,"date":"2022-10-19T01:16:07","date_gmt":"2022-10-19T01:16:07","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=75019"},"modified":"2022-10-19T01:16:10","modified_gmt":"2022-10-19T01:16:10","slug":"sobre-os-protestos-contra-o-apagao-em-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/10\/19\/sobre-os-protestos-contra-o-apagao-em-cuba\/","title":{"rendered":"Sobre os protestos contra o apag\u00e3o em Cuba"},"content":{"rendered":"\n<p><em>No final de setembro passado, centenas de pessoas sa\u00edram para protestar em v\u00e1rios distritos e bairros de Havana (capital de Cuba) e em outras cidades do pa\u00eds, contra um apag\u00e3o generalizado de v\u00e1rios dias, em toda a Ilha. A pouco mais de um ano das manifesta\u00e7\u00f5es de 11 de julho de 2021 (11J), qual \u00e9 o significado destes novos protestos?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por: Alejandro Iturbe<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, vejamos os fatos recentes. Desde 23 de setembro passado, Cuba foi atravessada pelo furac\u00e3o Ian que assolou o pa\u00eds e depois atingiu o Estado da Fl\u00f3rida, nos EUA. As usinas produtoras e a rede de distribui\u00e7\u00e3o de eletricidade deixaram de funcionar e houve um apag\u00e3o total durante um dia. Segundo uma informa\u00e7\u00e3o da ag\u00eancia oficial brit\u00e2nica:<em> \u201cNos dias seguintes, algumas das usinas el\u00e9tricas distribu\u00eddas por toda a Ilha come\u00e7aram a funcionar de novo e o fornecimento em algumas zonas foi sendo pouco a pouco restabelecido. Entretanto, a maioria dos 11,1 milh\u00f5es de cubanos ainda n\u00e3o t\u00eam eletricidade ou s\u00f3 recebem energia durante algumas poucas horas ao dia<\/em><em>\u201d<\/em><a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><em><strong>[1]<\/strong><\/em><\/a><em>.<\/em> O governo do presidente Miguel D\u00edaz-Canel atribuiu totalmente a situa\u00e7\u00e3o da continuidade de cortes de energia aos efeitos do furac\u00e3o e <em>\u201cfez um pedido inusitado de ajuda \u00e0 Casa Branca pela emerg\u00eancia que a Ilha vive ap\u00f3s a passagem do furac\u00e3o Ian\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que a a\u00e7\u00e3o desta cat\u00e1strofe natural teve seu impacto, mas a explica\u00e7\u00e3o do governo cubano sobre as restri\u00e7\u00f5es permanentes ao fornecimento de energia nega a realidade de que esses cortes j\u00e1 existiam habitualmente antes do furac\u00e3o Ian. Uma not\u00edcia de julho passado, da mesma ag\u00eancia brit\u00e2nica, informava: <em>\u201cOs apag\u00f5es se tornaram um problema di\u00e1rio para milh\u00f5es de cubanos, que observam resignados como a energia se apaga cada vez mais e durante mais horas\u201d<\/em><a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><em><strong>[2]<\/strong><\/em><\/a><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o se deve ao fato de que <em>\u201cO sistema el\u00e9trico cubano enfrenta dois problemas fundamentais: a falta de combust\u00edvel e as avarias cada vez mais frequentes. A maioria das usinas el\u00e9tricas cubanas funciona com petr\u00f3leo, que escasseia no pa\u00eds. Por outro lado, a deteriora\u00e7\u00e3o das centrais el\u00e9tricas \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil de reverter devido \u00e0 <\/em><strong><em>falta de recursos&nbsp;<\/em><\/strong><em>para reparar as avarias e adquirir novas pe\u00e7as\u201d<\/em> (negrito no original)<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Ou seja, os cortes de energia que o povo cubano sofre evidenciam um problema muito mais estrutural e profundo, que o governo cubano se nega a reconhecer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mobiliza\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas e justas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, j\u00e1 em julho passado ocorreram rea\u00e7\u00f5es populares contra os cortes: <em>\u201cOs vizinhos de Los Palacios, uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de 38.000 habitantes na prov\u00edncia de <\/em><em>Pinar del R\u00edo, a oeste do pa\u00eds, <strong>protestaram com um panela\u00e7o<\/strong>&nbsp;na noite de quinta-feira \u2018aqui h\u00e1 crian\u00e7as sem comer porque n\u00e3o h\u00e1 energia\u2019, exclamava uma das participantes do protesto espont\u00e2neo, em um dos v\u00eddeos difundidos amplamente nas redes <\/em>(negrito no original)<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses \u201cprotestos espont\u00e2neos\u201d agora foram expressos em Havana e outras cidades do pa\u00eds. S\u00e3o <strong>protestos justos<\/strong> porque mostram o cansa\u00e7o cada vez maior do povo cubano contra uma realidade que agrava a deterioriza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida e aumenta as pen\u00farias cotidianas que grande parte do povo cubano sofre para assegurar sua sobreviv\u00eancia, em especial os setores mais empobrecidos. Realidade que o governo de D\u00edaz-Canel n\u00e3o apenas nega, mas longe de trabalhar para melhor\u00e1-la, a agrava cada vez mais. O grito mais manifestado nos protestos recentes, com centenas de participantes batendo panelas em cada uma delas, foi <em>\u201cQueremos luz!\u201d. <\/em>Muitas delas foram realizadas <em>\u201cem bairros de baixos recursos da capital\u201d<\/em><a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\"><em><strong>[5]<\/strong><\/em><\/a><em>. <\/em>Por esse car\u00e1ter de justa express\u00e3o de raiva do povo cubano, manifestamos nosso apoio a esses protestos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por seu lado, a resposta do governo de D\u00edaz-Canel foi, em primeiro lugar, negar sua responsabilidade na quest\u00e3o dos cortes de energia. Em segundo lugar, mostrou seu car\u00e1ter repressivo j\u00e1 que, uma vez iniciados os protestos <em>\u201cpouco depois chegaram agentes da pol\u00edcia que cercaram os manifestantes\u201d.<\/em> Segundo informa\u00e7\u00f5es, que transcenderam, a repress\u00e3o n\u00e3o chegou ao n\u00edvel do 11 J, que deixou como saldo centenas de manifestantes detidos, julgados e condenados. Muitos deles permanecem presos nas pris\u00f5es cubanas, por isso desenvolvemos uma campanha permanente pela sua liberta\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. O que sim se repetiu foram as restri\u00e7\u00f5es parciais ao uso das redes de internet no interior de Cuba e um bloqueio total das comunica\u00e7\u00f5es para o exterior.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que \u00e9 Cuba hoje?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando damos nosso apoio a estas mobiliza\u00e7\u00f5es, expressamos que a situa\u00e7\u00e3o que as gera \u00e9 responsabilidade do regime cubano, e repudiamos sua repress\u00e3o, inevitavelmente os debates que existem na esquerda mundial sobre o car\u00e1ter e o significado destas mobiliza\u00e7\u00f5es se reabrem, a defini\u00e7\u00e3o do que Cuba \u00e9 hoje, e, nesse marco, que papel o regime castrista desempenha.<\/p>\n\n\n\n<p>Em linhas gerais, na esquerda se apresentam tr\u00eas an\u00e1lises e caracteriza\u00e7\u00f5es diferentes sobre o que \u00e9 Cuba, e destes derivam tr\u00eas pol\u00edticas diferentes frente a este tipo de mobiliza\u00e7\u00f5es. Um debate que se v\u00ea cruzado pelo imenso impacto que a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana iniciada em 1959 teve na esquerda mundial e, especialmente, latino-americana, e pela grande influ\u00eancia e prest\u00edgio que tiveram seus principais l\u00edderes (Fidel Castro e Che Guevara).<\/p>\n\n\n\n<p>A primeiras destas an\u00e1lises \u00e9 apresentada pela corrente que chamamos de \u201ccastro-chavismo\u201d, herdeira das posi\u00e7\u00f5es do estalinismo. Esta posi\u00e7\u00e3o parte da defini\u00e7\u00e3o de que Cuba \u00e9 <em>\u201co \u00faltimo basti\u00e3o do socialismo\u201d<\/em>, uma \u201cfortaleza sitiada e agredida\u201d pelo imperialismo estadunidense e pela burguesia cubana \u201cgusana\u201d que fugiu para Miami depois da revolu\u00e7\u00e3o. O principal instrumento desta agress\u00e3o \u00e9 o boicote comercial e financeiro contra Cuba, estabelecido desde 1960. Para esta posi\u00e7\u00e3o, todas as pen\u00farias que o povo cubano sofre s\u00e3o consequ\u00eancia deste boicote. Ao mesmo tempo, os protestos populares contra estas pen\u00farias (ou pela exig\u00eancia de liberdades democr\u00e1ticas), embora tenham algum motivo justo em sua origem, acabam sendo um instrumento reacion\u00e1rio nas m\u00e3os do imperialismo estadunidense e da burguesia \u201cgusana\u201d, na perspectiva de derrotar o regime castrista que \u201cdefende o socialismo\u201d. Nesse marco, temos que repudi\u00e1-las e apoiar a repress\u00e3o contra elas. Em numerosos artigos, a LIT-QI abordou o debate contra esta posi\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda posi\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentada por algumas organiza\u00e7\u00f5es que se reivindicam trotskistas, como a Fra\u00e7\u00e3o Trotskista pela Quarta Internacional (FTQI), liderada pelo PTS da Argentina. Para esta corrente, Cuba continua sendo um Estado oper\u00e1rio burocratizado que vive dois processos ou press\u00f5es para restaurar o capitalismo. Internamente, esta pol\u00edtica restauracionista \u00e9 promovida pelo pr\u00f3prio regime castrista; externamente, pelo imperialismo estadunidense e a burguesia \u201cgusana\u201d de Miami. S\u00e3o perigos ou inimigos equivalentes que temos que combater simultaneamente. Nesse marco, os protestos contra o regime castrista teriam um <em>\u201ccar\u00e1ter contradit\u00f3rio\u201d<\/em>. Por um lado, s\u00e3o \u201cjustas\u201d porque expressam a luta dos trabalhadores e do povo cubano contra um dos inimigos e as consequ\u00eancias de seu plano restauracionista; mas, por outro, s\u00e3o \u201creacion\u00e1rias\u201d porque favorecem \u201co outro inimigo\u201d. A partir dessa vis\u00e3o, adotam uma posi\u00e7\u00e3o \u201cnem-nem\u201d frente a estes protestos (\u201cnem os apoiamos nem os repudiamos\u201d) e, inclusive, chegam a guardar sil\u00eancio sobre os presos pol\u00edticos que a repress\u00e3o gerou. Tamb\u00e9m debatemos com esta posi\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O regime castrista restaurou o capitalismo na d\u00e9cada de 1990<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A posi\u00e7\u00e3o da LIT-QI (e de algumas poucas organiza\u00e7\u00f5es na esquerda) parte de uma caracteriza\u00e7\u00e3o completamente diferente: o pr\u00f3prio castrismo, que liderou a revolu\u00e7\u00e3o de 1959, foi quem restaurou o capitalismo nos anos 1990, durante o chamado \u201cper\u00edodo especial\u201d, atrav\u00e9s de diversas medidas chave<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o regime castrista continuasse no poder e continuasse mostrando as bandeiras vermelhas, Cuba tinha deixado de ser \u201cum basti\u00e3o do socialismo\u201d ou, segundo a terminologia trotskista, um Estado oper\u00e1rio burocratizado. Como aconteceu na China a partir de 1979 com Deng Xiaoping, as medidas do \u201cper\u00edodo especial\u201d destru\u00edram a economia central planificada e a substitu\u00edram pelo crit\u00e9rio capitalista do lucro. Cuba havia se transformado em um Estado capitalista. Ao mesmo tempo, dado que a falta de liberdades democr\u00e1ticas do per\u00edodo do Estado oper\u00e1rio burocratizado foi mantida, o regime castrista passava a ser uma ditadura capitalista \u201cvestida de vermelho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista trouxe profundas consequ\u00eancias na estrutura econ\u00f4mica e social do pa\u00eds. Por um lado, pela \u201cabertura\u201d e as facilidades concedidas aos investimentos estrangeiros, come\u00e7ou a perder aceleradamente a independ\u00eancia alcan\u00e7ada durante a exist\u00eancia do Estado oper\u00e1rio. Quem aproveitou a fundo estas \u201coportunidades de neg\u00f3cios\u201d foram os imperialismos europeus (em especial, o espanhol) e canadense, que passaram a controlar o turismo estrangeiro, um setor chave da nova economia capitalista cubana. Tomemos como exemplo, a cadeia espanhola dos hot\u00e9is Meli\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o imperialismo tamb\u00e9m come\u00e7ou a investir e se associar em outros ramos, como os servi\u00e7os m\u00e9dicos ou de bebidas. Por exemplo, a mundialmente famosa marca de rum Bacardi que hoje pertence a <em>\u201cUma multinacional com sede nas Bermudas que continua sendo quase inteiramente propriedade da fam\u00edlia. Seu atual presidente \u00e9 Facundo Bacardi, bisneto do fundador, nascido nos EUA, e que se considera mais norte-americano que <\/em><em>cubano\u201d<\/em><a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\"><em><strong>[10]<\/strong><\/em><\/a><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A contradi\u00e7\u00e3o do imperialismo estadunidense<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O projeto do regime castrista \u00e9 que estas \u201coportunidades de neg\u00f3cios\u201d (a poucas milhas da costa de Miami) sejam amplamente aproveitadas pelo imperialismo estadunidense. No entanto, frente a esta \u201coferta\u201d, o imperialismo estadunidense tem uma profunda contradi\u00e7\u00e3o de interesses que o divide.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, est\u00e1 a burguesia gusana anticastrista residente em Miami, com fortes la\u00e7os e muito peso dentro do Partido Republicano, que coloca duas condi\u00e7\u00f5es para retomar rela\u00e7\u00f5es com Cuba (e liberar o com\u00e9rcio e os investimentos): a queda do regime castrista e a garantia de devolu\u00e7\u00e3o das propriedades expropriadas pela Revolu\u00e7\u00e3o. S\u00e3o os que insistem (e conseguem manter) o boicote e as restri\u00e7\u00f5es contra Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, tal como mostrou a visita do ent\u00e3o presidente Barack Obama a Cuba em 2016, diversos setores, na sua maioria ligados aos democratas, mas tamb\u00e9m com express\u00e3o dentro dos republicanos (como o senador de origem cubana Mark Rubio que participou da visita), viram como eram desperdi\u00e7adas excelentes possibilidades de neg\u00f3cios em um pa\u00eds t\u00e3o pr\u00f3ximo geograficamente, em \u00e1reas como turismo, finan\u00e7as, produ\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria, venda de produtos industriais, etc. De fato, algumas empresas estadunidenses j\u00e1 \u201ctrapaceavam\u201d a legisla\u00e7\u00e3o vigente nos EUA, e realizavam investimentos \u201ccamuflados\u201d por tr\u00e1s de empresas canadenses. A pol\u00edtica de Obama era avan\u00e7ar em eliminar todas as restri\u00e7\u00f5es e facilitar o \u201cfluxo investidor\u201d imperialista sem questionar o regime castrista<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa era a realidade e a din\u00e2mica em 2016. Mas o governo do republicano Donald Trump, em fun\u00e7\u00e3o de manter a alian\u00e7a com a burguesia gusana anticastrista, deu marcha a r\u00e9 na pol\u00edtica promovida por Obama\u2026e tudo foi congelado. O governo de Joe Biden manteve essencialmente a mesma pol\u00edtica de Trump.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Surge uma burguesia cubana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma segunda mudan\u00e7a \u00e9 que, no marco da restaura\u00e7\u00e3o capitalista, na c\u00fapula castrista (com os altos comandos do Ex\u00e9rcito e a pr\u00f3pria fam\u00edlia Castro no centro) surge uma nova burguesia cubana, a partir do usufruto do controle e da dire\u00e7\u00e3o que as For\u00e7as Armadas cubanas exercem sobre o GAESA (Grupo de Atividades Empresariais Sociedade An\u00f4nima).<\/p>\n\n\n\n<p>A GAESA controla empresas <em>\u201cque <\/em><em>v\u00e3o desde o setor hoteleiro at\u00e9 as lojas varejistas de vendas de produtos em divisas, passando pelas alf\u00e2ndegas e portos, entre muitas outras\u201d<\/em><a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\"><em><strong>[12]<\/strong><\/em><\/a>. A partir da\u00ed, controla tamb\u00e9m uma alta porcentagem do PIB cubano.<\/p>\n\n\n\n<p>O regime castrista \u00e9 hoje a express\u00e3o desta nova burguesia cubana, que se oferece como s\u00f3cia menor e subordinada da semicoloniza\u00e7\u00e3o imperialista: a europeia e a canadense, j\u00e1 existentes, e a estadunidense que aspira que chegue.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ajustes permanentes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse marco o regime castrista se v\u00ea obrigado a aplicar planos de ajuste permanentes que liquidam as conquistas alcan\u00e7adas no passado pela revolu\u00e7\u00e3o e, face a cada dificuldade que a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds apresenta, aprofunda os ataques.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, em 2011 come\u00e7ou a aplica\u00e7\u00e3o de um plano de demiss\u00f5es em massa de funcion\u00e1rios do Estado: naquela \u00e9poca, estimava-se que poderia alcan\u00e7ar 1.300.000 pessoas<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. H\u00e1 v\u00e1rios anos a quantidade de benefici\u00e1rios da chamada \u201ccaderneta de abastecimento\u201d vem sendo restringida, pois muitos cubanos adquiriam produtos b\u00e1sicos a pre\u00e7os subvencionados. Produtos que, sem a caderneta, s\u00f3 poderiam adquirir no mercado negro a pre\u00e7os muito mais altos.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo destes planos de ajuste, foi um plano chamado de \u201cdia zero\u201d (lan\u00e7ado em janeiro de 2021) que unificou as duas moedas existentes no pa\u00eds: o peso n\u00e3o convers\u00edvel e o peso convers\u00edvel que, at\u00e9 ent\u00e3o, se trocava 1 x 1 com o d\u00f3lar (na verdade, a verdadeira moeda usada em Cuba), a um c\u00e2mbio de 24 pesos cada d\u00f3lar. Uma feroz desvaloriza\u00e7\u00e3o, t\u00edpica de um pa\u00eds capitalista semicolonial frente ao estrangulamento da entrada de divisas a partir da queda do turismo estrangeiro que a pandemia provocou<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. Claramente, quem pagou os custos desta mega desvaloriza\u00e7\u00e3o foram a classe oper\u00e1ria e o povo cubanos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A crise energ\u00e9tica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com todo este contexto, vejamos agora a quest\u00e3o da crise energ\u00e9tica que o pa\u00eds vive. Ela obedece a duas raz\u00f5es. A primeira \u00e9 o envelhecimento estrutural das usinas, que h\u00e1 d\u00e9cadas n\u00e3o recebem investimentos. Poder\u00e1 se dizer que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 consequ\u00eancia da falta de divisas estrangeiras. Mas isto \u00e9 apenas parte da verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2013-2014, o regime castrista iniciou a constru\u00e7\u00e3o da Zona Especial de Desenvolvimento Mariel. A ZED Mariel est\u00e1 destinada a receber investimentos estrangeiros para produ\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio, \u00e0s quais se d\u00e1 completa isen\u00e7\u00e3o de impostos e de cumprimento de obriga\u00e7\u00f5es trabalhistas<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. A obra foi realizada pela empresa brasileira Odebrecht (que contou com o financiamento do banco estatal brasileiro BNDES) junto com empresas cubanas<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. Ou seja, em seus planos de investimento em infraestrutura, o regime cubano privilegiou aquelas destinadas a facilitar a entrega ao capital estrangeiro, e n\u00e3o as que atenderiam as necessidades dos trabalhadores e do povo cubanos, como a renova\u00e7\u00e3o da rede el\u00e9trica.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo acontece com a escassez de divisas que entram pelo turismo estrangeiro, imprescind\u00edveis para importar o petr\u00f3leo e as pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o que as usinas cubanas necessitam. Essa entrada de divisas melhorou depois da diminui\u00e7\u00e3o provocada pela pandemia. Sobre esta quest\u00e3o, o pr\u00f3prio ministro de Turismo cubano, Juan Carlos Garc\u00eda Granda, declarou em maio passado:<em> \u201co turismo em Cuba mostra sinais de recupera\u00e7\u00e3o, uma amostra disso \u00e9 que nos primeiros quatro meses do ano o n\u00famero de visitantes cresceu, em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo do ano anterior\u201d, <\/em>devido ao maior afluxo de turistas europeus, especialmente brit\u00e2nicos<a href=\"#_ftn17\" id=\"_ftnref17\"><em><strong>[17]<\/strong><\/em><\/a><em>.<\/em>Em outras palavras, em Cuba ingressam mais d\u00f3lares, euros e libras esterlinas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, a \u201cparte do le\u00e3o\u201d dessas maiores entradas ficam com as empresas estrangeiras e algumas do GAESA, como os hot\u00e9is e lojas dolarizadas que possui. Novamente, a prioridade do regime cubano n\u00e3o \u00e9 atender as necessidades urgentes dos trabalhadores e do povo (importar petr\u00f3leo e pe\u00e7as para as usinas) mas garantir os lucros das empresas imperialistas e as do GAESA.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Algumas conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 totalmente compreens\u00edvel ent\u00e3o que, periodicamente, explodam protestos dos trabalhadores e do povo contra esta realidade cada vez mais insuport\u00e1vel (ao mesmo tempo que os altos representantes do regime exibem seu enriquecimento). \u00c9 l\u00f3gico tamb\u00e9m que nesses protestos se manifeste a demanda de liberdades democr\u00e1ticas contra o regime ditatorial e sua repress\u00e3o permanente. Nos \u00faltimos protestos o grito de \u201cQueremos luz!\u201d foi acompanhado pelo de\u201d Liberdade!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 um grito vazio de conte\u00fado j\u00e1 que, al\u00e9m de evitar sua responsabilidade nessas pen\u00farias que os cubanos vivem cotidianamente, o regime ditatorial aumenta e recrudesce sua repress\u00e3o permanente com os protestos<a href=\"#_ftn18\" id=\"_ftnref18\">[18]<\/a>. Assim o fez com o 11J; muitos de seus participantes e promotores tiveram que optar entre a emigra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada <a href=\"#_ftn19\" id=\"_ftnref19\">[19]<\/a> ou ver sua sa\u00fade deteriorada na pris\u00e3o<a href=\"#_ftn20\" id=\"_ftnref20\">[20]<\/a>. Por isso, afirmamos que um programa revolucion\u00e1rio para Cuba deve conter, entre seus elementos centrais, o apoio a estes protestos e manifesta\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e do povo, o rep\u00fadio \u00e0 repress\u00e3o do regime burgu\u00eas ditatorial do castrismo, e a exig\u00eancia da liberdade dos presos pol\u00edticos. Estes pontos se d\u00e3o no marco da necessidade de derrubar o regime atrav\u00e9s da luta oper\u00e1ria e popular. Estas propostas devem se combinar com a necessidade de lutar contra os planos de ajuste que este regime aplica, e a semicoloniza\u00e7\u00e3o imperialista da qual \u00e9 agente, na perspectiva de uma nova revolu\u00e7\u00e3o socialista em Cuba. No passado, essa luta contra o imperialismo e pelo socialismo foi liderada pelo castrismo; atualmente, mesmo que doa a muitos velhos lutadores de esquerda, a realidade mostra que<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-63097483\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-63097483<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-62187814\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-62187814<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ver nota 1.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ver nota 2.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ver nota 1.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ver, entre numerosos artigos e declara\u00e7\u00f5es: https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/03\/25\/cuba-o-regime-cubano-e-implacavel-com-os-presos-politicos-do-11j\/<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ver, por exemplo: https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/11\/01\/65240-2\/<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/08\/16\/que-politica-o-trotskismo-deve-ter-frente-ao-atual-processo-cubano\/<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> Sobre esta quest\u00e3o, ver a transcri\u00e7\u00e3o do debate realizado no F\u00f3rum Social Mundial de Porto Alegre, em 2001, entre a dire\u00e7\u00e3o da LIT-QI e dirigentes cubanos em:&nbsp;<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/debate-de-la-lit-ci-con-los-dirigentes-cubanos-2001\/\">https:\/\/litci.org\/es\/debate-de-la-lit-ci-con-los-dirigentes-cubanos-2001\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.brandstocker.com\/bacardi-y-el-origen-del-ron-cubano\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bacard\u00ed y el origen del ron cubano &#8211; BrandStocker<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/sobre-la-visita-de-obama-a-cuba\/\">https:\/\/litci.org\/es\/sobre-la-visita-de-obama-a-cuba\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> <a href=\"https:\/\/learngerman.dw.com\/es\/gaesa-el-consorcio-militar-que-controla-la-econom%C3%ADa-cubana\/a-42069997\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">GAESA: el consorcio militar que controla la econom\u00eda cubana | Aprender alem\u00e1n con DW<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> <a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2011\/01\/04\/actualidad\/1294095608_850215.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Comienzan en Cuba los despidos masivos | Internacional | EL PA\u00cdS (elpais.com)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/01\/14\/cuba-o-significado-do-dia-zero\/<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.zedmariel.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zona Especial de Desarrollo Mariel | Una puerta abierta al mundo (zedmariel.com)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a> <a href=\"https:\/\/cubanosporelmundo.com\/2016\/02\/03\/odebrecht-en-mariel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Odebrecht en Mariel &#8211; \u00daltimas noticias de Cuba, fotos y videos &#8211; Cubanos por el Mundo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\" id=\"_ftn17\"><\/a><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\" id=\"_ftn18\">[18]<\/a> Ver https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/07\/10\/um-ano-dos-protestos-de-11-de-julho-em-cuba\/<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\" id=\"_ftn19\">[19]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-60788280\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8220;Es un Mariel silencioso&#8221;: los miles de cubanos que usan Nicaragua como ruta para llegar a Estados Unidos &#8211; BBC News Mundo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn20\" href=\"#_ftnref20\">[20]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-59355383\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8220;Patria y vida&#8221;: Maikel Osorbo, el rapero cubano que gan\u00f3 dos Grammy desde la c\u00e1rcel y en un &#8220;delicado estado de salud&#8221; &#8211; BBC News Mundo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final de setembro passado, centenas de pessoas sa\u00edram para protestar em v\u00e1rios distritos e bairros de Havana (capital de Cuba) e em outras cidades do pa\u00eds, contra um apag\u00e3o generalizado de v\u00e1rios dias, em toda a Ilha. 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