{"id":74999,"date":"2022-10-17T02:08:45","date_gmt":"2022-10-17T02:08:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=74999"},"modified":"2022-10-24T00:15:25","modified_gmt":"2022-10-24T00:15:25","slug":"stalinismo-e-pan-africanismo-parte-v","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/10\/17\/stalinismo-e-pan-africanismo-parte-v\/","title":{"rendered":"Stalinismo e Pan-africanismo \u2013 Parte V"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Nos artigos anteriores relembramos as lutas nacionais dos povos coloniais e semicoloniais, particularmente no continente africano; a cria\u00e7\u00e3o dos movimentos nacionalistas e pan-africanistas; e a interven\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es stalinistas que, apesar de zigue-zagues, sempre tiveram como objetivo a concilia\u00e7\u00e3o de classes e a capitula\u00e7\u00e3o ao imperialismo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Am\u00e9rico Gomes<\/p>\n\n\n\n<p>Este tema tem uma import\u00e2ncia grande na medida em que organiza\u00e7\u00f5es neo stalinistas e os pr\u00f3prios partidos comunistas, em v\u00e1rios pa\u00edses, tentam se apropriar desta hist\u00f3ria de luta dos povos oprimidos<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. O que \u00e9 uma inverdade baseada nos am\u00e1lgamas e nas mentiras stalinistas constru\u00eddas ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Os revolucion\u00e1rios marxistas sempre consideraram a luta anticolonial altamente progressista. Isso porque liberta popula\u00e7\u00f5es de pa\u00edses coloniais da servid\u00e3o estrangeira desferindo golpes poderosos no cora\u00e7\u00e3o do imperialismo, debilitando-o, e, ajudando na luta pelo socialismo dos trabalhadores destes pa\u00edses imperialistas e dos trabalhadores de todo o mundo, junto com isso inicia o combate aos sistemas internos de domina\u00e7\u00e3o de classe (castas, monarquias sanguin\u00e1rias etc.), abrindo caminho para conquistas de liberdades democr\u00e1ticas e avan\u00e7os econ\u00f4micos nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky atribuiu a Lenin \u201co m\u00e9rito pelo desenvolvimento de uma estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria para as nacionalidades oprimidas\u201d<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Lenin baseava-se nos trabalhos de Marx<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, e, em sua pr\u00f3pria caracteriza\u00e7\u00e3o do in\u00edcio da \u00e9poca imperialista, uma \u00e9poca de decad\u00eancia do capitalismo que impulsiona uma pol\u00edtica de opress\u00e3o, anexa\u00e7\u00f5es e guerras a servi\u00e7o da sanha de lucros dos grandes monop\u00f3lios.<\/p>\n\n\n\n<p>No bojo desse fen\u00f4meno, surgiram movimentos nacionais e independentistas nestes pa\u00edses colonizados e oprimidos. Por isso Lenin reiterou com veem\u00eancia: \u201c<em>\u00c9 necess\u00e1rio distinguir entre o nacionalismo da na\u00e7\u00e3o opressora e o nacionalismo da oprimida, entre o nacionalismo da na\u00e7\u00e3o grande e o nacionalismo da na\u00e7\u00e3o pequena<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Diferenciando os pa\u00edses capitalistas que ele chamava de \u201cadiantados\u201d, onde o nacionalismo n\u00e3o tem nada de progressista, do nacionalismo das col\u00f4nias e dos povos oprimidos. Lenin entendia que o combate pela emancipa\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es oprimidas e dos povos colonizados \u00e9 um componente fundamental da revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Stalinismo n\u00e3o \u00e9 leninismo<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este elemento da pol\u00edtica revolucion\u00e1ria foi bruscamente alterado pela pol\u00edtica stalinista baseadas na teoria do socialismo em um s\u00f3 pa\u00eds, na concilia\u00e7\u00e3o de classes e na conviv\u00eancia pac\u00edfica com o imperialismo. Como explicamos anteriormente, isso criou obst\u00e1culos e oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica revolucion\u00e1ria de defesa e impulsionamento da luta anticolonial.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica stalinista produziu casos vergonhosos, absurdos e emblem\u00e1ticos como o da se\u00e7\u00e3o portuguesa do Partido Comunista, que reivindica a pr\u00f3pria ocupa\u00e7\u00e3o imperialista da \u00c1frica como progressiva. Jose Augusto Esteves<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, afirma que \u00e9 necess\u00e1rio \u201c<em>distinguir\u201d <\/em>aspectos da coloniza\u00e7\u00e3o, pois apesar uma parte significativa e sanguin\u00e1ria da acumula\u00e7\u00e3o primitiva capitalista e respons\u00e1vel pelo trafico de escravos, tamb\u00e9m \u201c<em>significou de avan\u00e7o no conhecimento humano em v\u00e1rios dom\u00ednios (&#8230;) que trouxeram de novo na caminhada da hist\u00f3ria da Humanidade, ignorando-as ou vendo-as como simples epis\u00f3dio da expans\u00e3o europeia, hegem\u00f3nica e colonialista<\/em>\u201d<em>.<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\"><strong>[7]<\/strong><\/a> <\/em>Jose Augusto Estevessubestima a escravid\u00e3o e a opress\u00e3o de toda ra\u00e7a negra e de na\u00e7\u00f5es do continente africano que levou a um tr\u00e1fico de escravosquemoveu cerca de 12 a 13 milh\u00f5es de seres humanos, arrancados de \u00c1frica e levados para o Brasil e Cara\u00edbas, transportados em condi\u00e7\u00f5es terr\u00edveis pelos navios negreiros portugueses (al\u00e9m de espanh\u00f3is, holandeses, ingleses e franceses), em 35 mil viagens entre 1514 e 1866 e dos quais os navios portugueses levaram mais de cinco milh\u00f5es e meio.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta teoria neo-stalinista do PC portugu\u00eas leva a conclus\u00e3o atual que \u201c<em>Portugal n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds racista<\/em>\u201d e, como consequ\u00eancia politica concreta atualmente o PCP \u00e9 contra uma pol\u00edtica de quotas ou outras medidas de a\u00e7\u00e3o afirmativa, defendendo de maneira geral \u201c<em>pol\u00edticas p\u00fablicas universais de base<\/em>\u201d. O PCP tamb\u00e9m foi contra a principal reivindica\u00e7\u00e3o da campanha por outra lei da nacionalidade, que defendia o direito de solo para todos os nascidos em territ\u00f3rio portugu\u00eas, independentemente do pa\u00eds de origem dos pais.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse racioc\u00ednio tamb\u00e9m fundamenta o apoio a governos burgueses nacionalistas e pr\u00f3 imperialistas, assim, abandonando a luta por uma real independ\u00eancia nacional, principalmente na \u00c1frica e \u00c1sia. No Brasil, <em>Jones <\/em><em>Manoel, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), defende que Gana, sob a dire\u00e7\u00e3o de Nkrumah, estava pavimentando a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista; da mesma maneira que em Burkina Faso, sob o comando de Thomas Sankara, e na Guin\u00e9 Bissau sob a dire\u00e7\u00e3o do Partido Africano da Independ\u00eancia da Guin\u00e9 e Cabo Verde (PAIGC).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Atualmente, vemos que a n\u00e3o constru\u00e7\u00e3o de dire\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias nestes pa\u00edses levaram a que hoje, apesar da heroica luta de independ\u00eancia nacional, a classe trabalhadora e o povo pobre destes pa\u00edses estejam completamente submetidos aos interesses imperialistas, atrav\u00e9s de governos ditatoriais e burocratizados. Em nenhum destes pa\u00edses as propriedades burguesas e imperialistas foram expropriadas, al\u00e9m do que, n\u00e3o permitiram a a\u00e7\u00e3o independente da classe trabalhadora, atrav\u00e9s de suas organiza\u00e7\u00f5es, ao contrario, reprimiram as lutas que os trabalhadores chegaram a desenvolver.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Jones Manoel e os PCs, do Brasil e Portugal, defendem, at\u00e9 hoje, que as ditaduras burocr\u00e1ticas constru\u00eddas em Angola e Mo\u00e7ambique, p\u00f3s-independ\u00eancia colonial, seriam exemplos de Estados governados pelos trabalhadores.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em Gana, sob a dire\u00e7\u00e3o de Nkruma, houve uma luta por uma nova ideologia pan-africanista, baseada em um \u201csocialismo com valores africanos\u201d; Am\u00edlcar Cabral buscou dar uma condu\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria \u00e0 luta pela independ\u00eancia da Guin\u00e9; e <em>Thomas Sankara,<\/em> como v\u00e1rios outros, foi um combatente nacionalista. Entretanto, nenhum destes pa\u00edses nem sequer chegaram tomar algumas medidas no sentido de uma sociedade socialista e tampouco os trabalhadores chegaram a governar estes Estados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Angola e Mo\u00e7ambique: a constru\u00e7\u00e3o de novas burguesias sob bases autorit\u00e1rias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em Mo\u00e7ambique e Angola, depois de uma gloriosa e heroica luta destes povos para se livrarem da opress\u00e3o colonial portuguesa, o stalinismo e o castrismo, como organiza\u00e7\u00f5es internacionais, estabeleceram na d\u00e9cada de 1970 ditaduras stalinistas sanguin\u00e1rias que deram base \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de novas burguesias.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de Angola, Agostinho Neto e o Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (MPLA), sob o pretexto de acabar com qualquer diverg\u00eancia interna, eliminaram fisicamente v\u00e1rios dirigentes e quadros do pr\u00f3prio MPLA em massacres consecutivos. Massacres como o que ocorreu em maio de 1977, quando, calculam-se, foram mortos entre 30.000 e 80.000 pessoas, al\u00e9m das centenas de milhares de presos na cadeia de S\u00e3o Paulo, em Luanda, e em campos de concentra\u00e7\u00e3o espalhados em diversas partes do pa\u00eds, com pris\u00f5es de membros de movimentos revolucion\u00e1rios como \u201cRevolta Ativa\u201d e os jovens da \u201cOrganiza\u00e7\u00e3o Comunista de Angola\u201d (OCA), que defendiam a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao falecer em Moscou, em setembro de 1979, Agostinho Neto deixou o pa\u00eds sob o comando do MPLA e do corrupto, nepotista e ditatorial Jos\u00e9 Eduardo dos Santos, que fez de suas fam\u00edlias uma das mais ricas do continente. Sua filha, Isabel dos Santos, \u00e9 considerada a mulher mais rica da \u00c1frica, com investimentos em Portugal que chegam a tr\u00eas bilh\u00f5es de euros, a partir da apropria\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio nacional angolano.<\/p>\n\n\n\n<p>Angola \u00e9 o segundo pa\u00eds africano em produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e o quinto produtor mundial de diamantes. Ainda assim, quase 36% da popula\u00e7\u00e3o vive abaixo da linha da pobreza, 70% vive com menos de dois d\u00f3lares por dia e, em 2015, o pa\u00eds registrou a maior taxa de mortalidade infantil do mundo e a segunda pior taxa de expectativa de vida, de acordo com o relat\u00f3rio de 2016, da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS). Al\u00e9m disso, apenas 30% da popula\u00e7\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 eletricidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Mo\u00e7ambique, ainda antes da independ\u00eancia \u2013 quando o pa\u00eds estava sob a vig\u00eancia do governo de transi\u00e7\u00e3o partilhado com Portugal \u2013 a Frente de Liberta\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique (FRELIMO) tamb\u00e9m eliminou a oposi\u00e7\u00e3o e seus dissidentes no melhor (ou pior) estilo stalinista. Sujeitos a julgamentos sum\u00e1rios, presididos pelo pr\u00f3prio Samora Machel muitos, foram presos em \u201ccampos de reeduca\u00e7\u00e3o\u201d, sendo assassinados num espet\u00e1culo macabro, em 25 de junho de 1977 (segundo anivers\u00e1rio da independ\u00eancia de Mo\u00e7ambique), quando v\u00e1rios prisioneiros pol\u00edticos foram queimados vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>No poder, a FRELIMO desenvolveu uma pol\u00edtica externa de colabora\u00e7\u00e3o com o imperialismo, com Machel assinando um acordo de \u201cboa vizinhan\u00e7a\u201d com Pieter Botha, o presidente ultra racista da \u00c1frica do Sul durante o <em>apartheid<\/em>; organizou acordos com o Banco Mundial e com o FMI. Por estes servi\u00e7os, Machel foi recebido pelo ent\u00e3o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, em agosto de 1982, e recebeu o Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal. Internamente, os \u201cquadros\u201d da FRELIMO ganharam cada mais vez mais privil\u00e9gios, se apropriando de bens vetados ao demais cidad\u00e3os mo\u00e7ambicanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, governos como os de Angola e Mo\u00e7ambique formaram novas burguesias negras que continuaram e continuam explorando e oprimindo a maioria da popula\u00e7\u00e3o negra de seus pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, do ponto de vista pr\u00e1tico, a pol\u00edtica policlassista do pan-africanismo e stalinista, nos pa\u00edses em que chegaram ao poder, manteve a explora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora negra, al\u00e9m de n\u00e3o romper com a subordina\u00e7\u00e3o ao imperialismo. Consequentemente, de uma forma ou outra, essa situa\u00e7\u00e3o levou \u00e0 perda de apoio popular e o restabelecimento da for\u00e7a da pol\u00edtica colonial do imperialismo, que se v\u00ea em melhores condi\u00e7\u00f5es para instaurar nefastas ditaduras com dirigentes negros.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disto, podemos constatar que a estrat\u00e9gia pan-africanista, que dirigiu v\u00e1rias lutas anticoloniais e teve valentes dirigentes, ao ter se pautado na pol\u00edtica de colabora\u00e7\u00e3o de classes, fracassou em derrotar a domina\u00e7\u00e3o imperialista, eliminar a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o dos trabalhadores e do povo pobre em \u00c1frica.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pol\u00edtica marxista revolucion\u00e1ria para a \u00c1frica n\u00e3o pode passar por uma alian\u00e7a com a burguesia nacional, que sempre ser\u00e1 subordinada ao imperialismo e \u2013 na atual quadra da hist\u00f3ria \u2013 \u00e9 incapaz de levar adiante tarefas democr\u00e1ticas fundamentais tais como reforma agr\u00e1ria, combate \u00e0s opress\u00f5es etc. Uma pol\u00edtica revolucion\u00e1ria para os pa\u00edses africanos tem que ser baseada solidamente na independ\u00eancia de classe do proletariado negro e na luta unificada com o proletariado de outras na\u00e7\u00f5es e povos oprimidos no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossos irm\u00e3os no continente africano realizaram revolu\u00e7\u00f5es. Revolu\u00e7\u00f5es vitoriosas. Mas que n\u00e3o avan\u00e7aram ao socialismo porque as dire\u00e7\u00f5es destes processos impediram que se questionasse a explora\u00e7\u00e3o capitalista. Dire\u00e7\u00f5es n\u00e3o tinham uma organiza\u00e7\u00e3o, nem um programa socialista, tampouco se baseavam na classe trabalhadora como o sujeito social que seria capaz de realizar as tarefas de controlar politicamente o Estado e reorganizar a economia de forma planificada.<\/p>\n\n\n\n<p>Os processos revolucion\u00e1rios continuam a ocorrer em todos os continentes, no entanto o desafio que est\u00e1 colocado para o proletariado e o povo pobre na \u00c1frica \u00e9 o mesmo que temos que solucionar na Am\u00e9rica do Sul e no resto do mundo: superar as dire\u00e7\u00f5es reformistas e n\u00e3o revolucion\u00e1rias e construir um verdadeiro partido revolucion\u00e1rio do proletariado, com um programa revolucion\u00e1rio que leve a classe trabalhadora a se libertar definitivamente de seus grilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferente de uma pol\u00edtica policlassista e centrada exclusivamente na quest\u00e3o racial \u2013 como a defendida pelo stalinismo e pelo pan-africanismo \u2013 o socialismo revolucion\u00e1rio deve, utilizando o m\u00e9todo o Programa de Transi\u00e7\u00e3o, combinar de maneira dial\u00e9tica, as chamadas bandeiras democr\u00e1ticas, com a luta contra o imperialismo mundial e a necessidade de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista. \u00c9 o que falava Trotsky na <em>Revolu\u00e7\u00e3o Permanente<\/em>: \u201c<em>O peso espec\u00edfico das diversas reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas na luta do proletariado, suas m\u00fatuas rela\u00e7\u00f5es e sua ordem de sucess\u00e3o est\u00e3o determinadas pelas particularidades e pelas condi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias a cada pa\u00eds atrasado, em particular pelo grau de seu atraso. Entretanto, a dire\u00e7\u00e3o geral do desenvolvimento revolucion\u00e1rio pode ser determinada pela f\u00f3rmula da REVOLU\u00c7\u00c3O PERMANENTE, no sentido que lhe foi definitivamente dado pelas tr\u00eas revolu\u00e7\u00f5es na R\u00fassia (1905, fevereiro de 1917, outubro de 1917)\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um programa revolucion\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A \u201cTese Sobre a Quest\u00e3o Negra\u201d, aprovada no 4\u00ba Congresso da Internacional Comunista, em novembro de 1922, caracterizou que depois da Primeira Guerra, cresceu a resist\u00eancia contra a domina\u00e7\u00e3o do capital mundial, atrav\u00e9s do sistema imperialista. Ela se expressando categoricamente nos pa\u00edses coloniais: \u201c<em>A luta internacional da ra\u00e7a negra \u00e9 uma luta contra o inimigo comum. Um movimento negro internacional com base nesta luta deve ser organizado: nos Estados Unidos, o centro da cultura negra e protesto negro; na \u00c1frica, com a sua reserva de m\u00e3o-de-obra humana para o desenvolvimento do capitalismo; na Am\u00e9rica Central (Costa Rica, Guatemala, Col\u00f4mbia, Nicar\u00e1gua e outros pa\u00edses \u201cindependentes\u201d), onde o dom\u00ednio do capitalismo Americano \u00e9 absoluto; em Porto Rico, Haiti, S\u00e3o Domingos e outras ilhas do Caribe, onde o tratamento brutal dos nossos irm\u00e3os negros pela ocupa\u00e7\u00e3o Americana provocou um protesto em todo o mundo de negros conscientes e trabalhadores brancos revolucion\u00e1rios; na \u00c1frica do Sul e Congo, onde a industrializa\u00e7\u00e3o crescente da popula\u00e7\u00e3o negra levou a todos os tipos de revoltas; e no leste da \u00c1frica, onde as incurs\u00f5es do capital mundial levou a popula\u00e7\u00e3o local a iniciar um ativo movimento anti-imperialista (\u2026)\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na atualidade, uma organiza\u00e7\u00e3o revolucionaria deve partir desta base program\u00e1tica para a luta anticolonial: \u201c<em>mostrar aos negros que eles n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos a sofrer a opress\u00e3o capitalista e imperialista, que os trabalhadores e camponeses da Europa, \u00c1sia e Am\u00e9rica tamb\u00e9m s\u00e3o v\u00edtimas do imperialismo, que a luta negra contra o imperialismo n\u00e3o \u00e9 a luta de um \u00fanico povo, mas de todos os povos do mundo\u201d.<\/em> Destacando que \u201c<em>a quest\u00e3o negra tornou-se parte integrante da revolu\u00e7\u00e3o mundial<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Trotsky concretizou a necessidade de constru\u00e7\u00e3o de rep\u00fablicasnegras nos pa\u00edses da \u00c1frica, onde h\u00e1 maioria da popula\u00e7\u00e3o negra. O que n\u00e3o exclui a igualdade total para os brancos, nem \u201c<em>as rela\u00e7\u00f5es fraternas entre as duas ra\u00e7as, dependendo principalmente da conduta dos brancos<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo nestas linhas o dirigente Nahuel Moreno apontou programaticamente a perspectiva de uma \u201c<em>Uni\u00e3o dos Estados do Sul Africano, em uma grande Federa\u00e7\u00e3o de Rep\u00fablicas Socialistas Negras<\/em>\u201d, como uma s\u00edntese program\u00e1tica.<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Somente poderemos mudar radicalmente as sociedades africanas expropriando a burguesia e colocando o poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico nas m\u00e3os da classe trabalhadora negra africana, abrindo caminho para a destrui\u00e7\u00e3o das bases materiais de toda forma de opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No Brasil al\u00e9m do Partido Comunista a Unidade Popular faz parte destas organiza\u00e7\u00f5es<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Trotsky, A 90 a\u00f1os del Manifiesto Comunista, octubre de 1937. Tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a>Marx, \u201c<em>Um povo que oprime a outro n\u00e3o pode liberar-se a si mesmo<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Lenin, La revoluci\u00f3n socialista y el derecho de las naciones a la autodeterminaci\u00f3n (Tesis). Febrero de 1916.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Lenin . \u201cBalan\u00e7o da discuss\u00e3o sobre autodetermina\u00e7\u00e3o\u201d (outubro 1916), apartado VI<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a>&nbsp; &nbsp;Dirigente do Partido Comunista Portugu\u00eas (PCP),<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a>\u201cDos descobrimentos a realidade de Portugal de abril &#8211; o combate ao colonialismo, ao racismo e xenofobia\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cAs quest\u00f5es agr\u00e1ria e nacional: observa\u00e7\u00f5es sobre o Projeto de Teses do Partido dos Trabalhadores da \u00c1frica do Sul\u201d, em abril de 1935.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nahuel Moreno Angola: La Revoluci\u00f3n Negra en marcha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos artigos anteriores relembramos as lutas nacionais dos povos coloniais e semicoloniais, particularmente no continente africano; a cria\u00e7\u00e3o dos movimentos nacionalistas e pan-africanistas; e a interven\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es stalinistas que, apesar de zigue-zagues, sempre tiveram como objetivo a concilia\u00e7\u00e3o de classes e a capitula\u00e7\u00e3o ao imperialismo. Por: Am\u00e9rico Gomes Este tema tem uma import\u00e2ncia grande [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":75001,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[208,1415,4417],"tags":[620,4006],"class_list":["post-74999","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-africa","category-angola","category-mocambique","tag-americo-gomes","tag-pan-africanismo"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Pan-1.jpeg","categories_names":["\u00c1frica","Angola","Mo\u00e7ambique"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74999","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=74999"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74999\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75049,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74999\/revisions\/75049"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75001"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=74999"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=74999"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=74999"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}