{"id":74719,"date":"2022-09-15T17:06:18","date_gmt":"2022-09-15T17:06:18","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=74719"},"modified":"2022-09-15T17:06:22","modified_gmt":"2022-09-15T17:06:22","slug":"15-de-setembro-por-uma-segunda-independencia-centro-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/09\/15\/15-de-setembro-por-uma-segunda-independencia-centro-americana\/","title":{"rendered":"15 de setembro: por uma segunda independ\u00eancia Centro-americana"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Com a chegada de setembro, toda a Am\u00e9rica Central come\u00e7a a se preparar para a celebra\u00e7\u00e3o da &#8220;independ\u00eancia&#8221;. No dia 15, milhares de pessoas desfilar\u00e3o pelas ruas de nossos pa\u00edses para comemorar a data. Esta data, ao inv\u00e9s de unir nossos povos, serve para aumentar as falsas divis\u00f5es entre pa\u00edses sob a cor de uma ou outra bandeira e o chamado \u201corgulho nacional\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Independ\u00eancia da Espanha e dom\u00ednio gringo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de ser uma \u00fanica na\u00e7\u00e3o centro-americana, durante a col\u00f4nia foi dividida em territ\u00f3rios menores para facilitar sua explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, tend\u00eancia que continuou ap\u00f3s a independ\u00eancia. Apesar de que existiram tentativas de construir uma na\u00e7\u00e3o \u00fanica, todas foram derrotadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta data tem uma conota\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a independ\u00eancia do imp\u00e9rio espanhol \u00e9 comemorada em 15 de setembro de 1821, embora 15 de setembro n\u00e3o tenha sido ratificado como data hist\u00f3rica, mas 29 de outubro, que foi quando chegou a not\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, foi progressivo libertar-se do jugo espanhol. Uma domina\u00e7\u00e3o que a partir de 1492 exterminou os povos ind\u00edgenas de todo o continente, saqueou o ouro, outras riquezas e lan\u00e7ou as bases para o desenvolvimento capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, libertar-se da opress\u00e3o da coroa espanhola n\u00e3o significou realmente independ\u00eancia. Apenas mudamos o opressor, entrando nas garras do imperialismo estadunidense, que ap\u00f3s a independ\u00eancia come\u00e7ou a estender seus tent\u00e1culos econ\u00f4micos e pol\u00edticos sobre a Am\u00e9rica Central. Criaram-se enclaves bananeiros, orquestraram-se invas\u00f5es e apoiaram-se golpes, influ\u00eancia que perdura at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Situa\u00e7\u00e3o atual<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A heroica luta dos povos centro-americanos durante os processos revolucion\u00e1rios da d\u00e9cada dos anos 80 foi afogada em sangue e fogo com mais de 80.000 mortos e desmobilizada pelos trai\u00e7oeiros Acordos de Paz. A pol\u00edtica de rea\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica promovida pelo imperialismo gringo abriu as portas para a onda de reformas neoliberais durante a d\u00e9cada de 1990 que incluiu: privatiza\u00e7\u00f5es, cortes brutais na sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e mais endividamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A necessidade de uma segunda independ\u00eancia \u00e9 levantada com base na forma como a sociedade e a economia capitalistas mundiais se organizam em sua fase imperialista. Nesse quadro, o papel da Am\u00e9rica Central dentro dessa divis\u00e3o internacional do trabalho \u00e9 ser, de conjunto, uma semicol\u00f4nia do imperialismo norte-americano. Isso significa que, embora gozemos de independ\u00eancia administrativa e pol\u00edtica (estas s\u00e3o meramente formais), somos economicamente dependentes. Em resumo, tudo o que os pa\u00edses da regi\u00e3o fazem \u00e9 decidido em fun\u00e7\u00e3o do imperialismo, inclusive o que se produz em cada um dos pa\u00edses centro-americanos \u00e9 baseado no que o imperialismo quer e precisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Referimo-nos principalmente ao imperialismo estadunidense, mas as burguesias centro-americanas tamb\u00e9m est\u00e3o sujeitas ao imperialismo europeu e aos neg\u00f3cios do capitalismo russo e chin\u00eas; este \u00faltimo aumentou seus investimentos principalmente em obras p\u00fablicas ou maquilas.<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s da d\u00edvida externa os pa\u00edses centro-americanos s\u00e3o dominados. Por um lado, as empresas internacionais ficam com as riquezas, amparados por brechas legais como isen\u00e7\u00f5es fiscais e zonas francas, n\u00e3o deixando nada da riqueza que \u00e9 produzida dentro do pa\u00eds. Por outro lado, os pa\u00edses s\u00e3o obrigados a se endividar para investir em \u00e1reas necess\u00e1rias. Mas ent\u00e3o a d\u00edvida se torna impag\u00e1vel e s\u00e3o obrigados a continuar tomando empr\u00e9stimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso se expressa em diferentes iniciativas, todas em favor de grandes empres\u00e1rios nacionais e estrangeiros. Em Honduras vemos as cidades-modelo como um s\u00edmbolo dessa submiss\u00e3o e depend\u00eancia, enclaves econ\u00f4micos onde as empresas s\u00e3o isentas de pagar impostos e exploram os trabalhadores a torto e a direito. Inclusive, essas cidades, operam acima das leis e da constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, como uma esp\u00e9cie de estados dentro do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>As maquilas de El Salvador e Honduras apresentam um tra\u00e7o caracter\u00edstico da economia de enclave. No caso salvadorenho, s\u00e3o mais de 200 distribu\u00eddas em 17 zonas francas em todo o pa\u00eds. Os privil\u00e9gios fiscais representam 5% do PIB do pa\u00eds, ou seja, o pa\u00eds perde 1,2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano que essas empresas n\u00e3o pagam de impostos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta realidade de toda a regi\u00e3o, com especial impacto em Honduras e El Salvador, tem a ver com o fato de sermos verdadeiras economias de enclave. Nestas, toda a riqueza gerada fica nas m\u00e3os da grande burguesia, as empresas t\u00eam pouca ou nenhuma rela\u00e7\u00e3o com o mercado interno, operam acima das leis nacionais e violam constantemente direitos trabalhistas e sociais como o pagamento do sal\u00e1rio m\u00ednimo, a jornada de 8 horas, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra maneira pela qual o imperialismo opera \u00e9 entregando nossos recursos naturais \u00e0s m\u00e3os de corpora\u00e7\u00f5es transnacionais. As melhores terras s\u00e3o dedicadas \u00e0 monocultura, como \u00e9 o caso do abacaxi na Costa Rica, da banana e da palmeira africana em Honduras. Durante 2020, a exporta\u00e7\u00e3o deste produto gerou lucros de 986 milh\u00f5es de d\u00f3lares para o pa\u00eds. N\u00e3o s\u00f3 opera aqui a mesma l\u00f3gica do enclave, como essas terras s\u00e3o praticamente doadas \u00e0 custa da destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente e da produ\u00e7\u00e3o de milhares de camponeses que s\u00e3o desapropriados de suas terras.<\/p>\n\n\n\n<p>As grandes empresas americanas e europeias buscam lucrar a todo custo com nossos recursos e transform\u00e1-los em mercadoria. Na Guatemala h\u00e1 entrega de recursos minerais para grandes empresas e em El Salvador a \u00e1gua j\u00e1 est\u00e1 no mesmo caminho. Quem sofre as consequ\u00eancias da privatiza\u00e7\u00e3o e abastecimento dos recursos h\u00eddricos s\u00e3o as comunidades que, com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, sofrem com as secas que colocam em risco sua subsist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o migrat\u00f3ria \u00e9 constante nas agendas dos organismos imperialistas, mas na realidade elas s\u00e3o as \u00fanicas culpadas pelas caravanas. O modelo econ\u00f4mico neoliberal, longe de gerar desenvolvimento, joga milhares de centro-americanos na pobreza e eles n\u00e3o t\u00eam outra sa\u00edda sen\u00e3o fugir para os Estados Unidos. Durante essa viagem muitas pessoas morrem, mulheres s\u00e3o agredidas e estupradas porque est\u00e3o \u00e0 merc\u00ea do crime organizado e do tr\u00e1fico de pessoas. Uma quantidade significativa n\u00e3o consegue chegar devido ao endurecimento da repress\u00e3o e das leis migrat\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqueles que conseguem cruzar a fronteira est\u00e3o sujeitos a condi\u00e7\u00f5es de superexplora\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos, al\u00e9m da forte opress\u00e3o que sofrem por serem centro-americanos. Hoje, as remessas representam um componente importante nas economias locais. Em El Salvador estamos falando de 26% do PIB e em toda a regi\u00e3o no ano passado entraram mais de 32 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Isso significa mais um importante mecanismo de submiss\u00e3o ao imperialismo e um a mostra do fracasso do modelo neoliberal que continua sendo impulsionado hoje.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Balan\u00e7o dos governos \u201cprogressistas\u201d da regi\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os diferentes governos supostamente de esquerda e progressistas est\u00e3o na regi\u00e3o h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas e por isso \u00e9 necess\u00e1rio localizar alguns elementos de seu balan\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Do retorno de Ortega na Nicar\u00e1gua e da FMLN em El Salvador, passando por Mel Zelaya em Honduras, todos expressam o descontentamento das massas com as pol\u00edticas neoliberais aplicadas na regi\u00e3o que significavam uma onda de submiss\u00e3o ao imperialismo. Os setores populares tinham expectativas de que esses governos realizariam transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>As mudan\u00e7as que anunciaram em suas campanhas n\u00e3o aconteceram, ao contr\u00e1rio, esses governos representavam a continua\u00e7\u00e3o das medidas neoliberais. Mantiveram-se as bases econ\u00f4micas que enriqueceram as grandes transnacionais agr\u00edcolas, as zonas francas e as maquiladoras. Os ataques \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores continuaram sendo implementados, as pol\u00edticas de endividamento e saque dos recursos naturais permaneceram.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas mesmas lideran\u00e7as s\u00e3o as verdadeiras culpadas de desacreditar as ideias da esquerda e da luta pelo socialismo. Hoje, por exemplo, a sanguin\u00e1ria ditadura de Ortega-Murillo \u00e9 promovida como um governo de esquerda, algo semelhante est\u00e1 acontecendo com Xiomara em Honduras. A maioria das dire\u00e7\u00f5es do movimento sindical e popular centro-americano tem uma grande responsabilidade porque s\u00e3o aliados desses governos que implementam uma agenda neoliberal, ou seja, essas dire\u00e7\u00f5es s\u00e3o traidoras porque abandonam qualquer perspectiva de luta e mobiliza\u00e7\u00e3o em favor das demandas da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ascens\u00e3o de governos autorit\u00e1rios<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O descontentamento com os planos neoliberais e as crises dos partidos tradicionais de direita e de esquerda foram canalizados com a ascens\u00e3o de governos autorit\u00e1rios. Vemos isso com o mandato de Nayib Bukele em El Salvador, que tenta se diferenciar dos governos anteriores, de forma autorit\u00e1ria, exerce uma concentra\u00e7\u00e3o de poder acima de outras inst\u00e2ncias estatais e at\u00e9 se projeta como um governo contr\u00e1rio ao imperialismo. Contraditoriamente, este governo goza de alta popularidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Costa Rica, o governo de Rodrigo Chaves surge como resultado de uma crise no regime pol\u00edtico-partid\u00e1rio e exerce um estilo autorit\u00e1rio semelhante ao de El Salvador, onde, com base em algumas medidas, se d\u00e1 a impress\u00e3o de que &#8220;agora h\u00e1 uma governo que est\u00e1 fazendo as coisas\u201d, mas nenhuma mudan\u00e7a significativa \u00e9 vista.<\/p>\n\n\n\n<p>Men\u00e7\u00e3o especial merece a ditadura de Ortega-Murillo na Nicar\u00e1gua. Este regime, que em nome do socialismo aniquilou grande parte do ativismo durante a insurrei\u00e7\u00e3o de 2018, n\u00e3o parou de reprimir o povo ou perseguir qualquer forma de oposi\u00e7\u00e3o. Atualmente existem milhares de presos pol\u00edticos nas pris\u00f5es nicaraguenses e as vozes da oposi\u00e7\u00e3o no ex\u00edlio n\u00e3o param.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s desse car\u00e1ter autorit\u00e1rio e independente do imperialismo, vemos como a mesma agenda de ataques \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida da classe trabalhadora continua sendo aplicada porque esses governos defendem os interesses dos capitalistas. Isso tornou o imperialismo norte-americano tamb\u00e9m correspons\u00e1vel por fortalecer essas alternativas autorit\u00e1rias porque durante anos apoiou governos corruptos como o de JOH (Juan Orlando Hern\u00e1ndez) em Honduras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Precisamos de uma segunda independ\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para levar a cabo esta importante tarefa, prevalece a necessidade de construir uma verdadeira esquerda classista e socialista, uma alternativa revolucion\u00e1ria aos governos frente populistas e ditos de esquerda que durante todos esses anos foram respons\u00e1veis \u200b\u200bpelas pol\u00edticas de submiss\u00e3o e entrega total ao imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Essa alternativa envolve tamb\u00e9m a luta dentro das organiza\u00e7\u00f5es do movimento sindical e popular para formar novas dire\u00e7\u00f5es que defendam a independ\u00eancia de classe, a luta e a mobiliza\u00e7\u00e3o como as principais armas para enfrentar a investida neoliberal.<\/p>\n\n\n\n<p>A constru\u00e7\u00e3o dessa esquerda revolucion\u00e1ria e socialista passa pela defesa de um programa de ruptura com as pol\u00edticas imperialistas como base para promover as transforma\u00e7\u00f5es que a classe trabalhadora necessita.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade do povo centro-americano \u00e9 que precisamos de uma segunda independ\u00eancia para nos libertar do imperialismo estadunidense baseado na unidade dos povos centro-americanos. N\u00e3o estamos nos referindo \u00e0s propostas que surgem do alto, ou seja, da mesma burguesia que entregou as riquezas e recursos de nossos pa\u00edses \u00e0s pot\u00eancias imperialistas. Essas iniciativas s\u00f3 aumentar\u00e3o a submiss\u00e3o que se mant\u00e9m at\u00e9 o momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, ser\u00e1 necess\u00e1ria a m\u00e1xima unidade de nossos povos, combatendo a outra heran\u00e7a da primeira independ\u00eancia: a separa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Central em pequenos pa\u00edses quando realmente somos uma grande na\u00e7\u00e3o. Somente um programa socialista, formado pelas organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora regional, poder\u00e1 unificar a Am\u00e9rica Central na luta por uma revolu\u00e7\u00e3o socialista que nos leve a romper os la\u00e7os com o imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Partido dos Trabalhadores-Costa Rica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Partido Socialista dos Trabalhadores-Honduras<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Plataforma da Classe Trabalhadora-El Salvador<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Liga Internacional dos Trabalhadores<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a chegada de setembro, toda a Am\u00e9rica Central come\u00e7a a se preparar para a celebra\u00e7\u00e3o da &#8220;independ\u00eancia&#8221;. No dia 15, milhares de pessoas desfilar\u00e3o pelas ruas de nossos pa\u00edses para comemorar a data. 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