{"id":74492,"date":"2022-08-10T15:12:35","date_gmt":"2022-08-10T15:12:35","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=74492"},"modified":"2022-08-10T16:41:30","modified_gmt":"2022-08-10T16:41:30","slug":"paralisacao-nacional-de-junho-nova-jornada-historica-de-luta-do-povo-equatoriano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/08\/10\/paralisacao-nacional-de-junho-nova-jornada-historica-de-luta-do-povo-equatoriano\/","title":{"rendered":"Paralisa\u00e7\u00e3o Nacional de Junho: nova jornada hist\u00f3rica de luta do povo equatoriano!"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Balan\u00e7o da Paralisa\u00e7\u00e3o Nacional de Junho de 2022&nbsp;<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A PARALISA\u00c7\u00c3O NACIONAL iniciada em 13 de junho e conclu\u00edda com um acordo assinado em 30 de junho entre o governo e tr\u00eas organiza\u00e7\u00f5es representantes do movimento ind\u00edgena, foi uma jornada de 18 dias de uma luta heroica, liderada pelo movimento ind\u00edgena e apoiada por numerosas organiza\u00e7\u00f5es, movimentos sociais e amplos setores populares e da classe m\u00e9dia. Significa uma vit\u00f3ria do campo popular porque demonstrou mais uma vez que, somente atrav\u00e9s da organiza\u00e7\u00e3o e da luta dos trabalhadores e da popula\u00e7\u00e3o empobrecida pelo capitalismo, \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar direitos e conter governos reacion\u00e1rios como o de Lasso, que como tal expressa os interesses de uma burguesia voraz e insaci\u00e1vel que controlou as r\u00e9deas do poder desde o in\u00edcio da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Miguel Merino, ART-Equador<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, n\u00e3o podemos cair no triunfalismo e falar de uma vit\u00f3ria total, j\u00e1 que esta mobiliza\u00e7\u00e3o tem desafios e limita\u00e7\u00f5es que devemos abordar cr\u00edtica e objetivamente, na perspectiva de continuar avan\u00e7ando para o grande objetivo da transforma\u00e7\u00e3o social. Neste sentido, \u00e9 mais apropriado falar de uma vit\u00f3ria parcial, j\u00e1 que n\u00e3o se conseguiu a unidade e a presen\u00e7a ativa das organiza\u00e7\u00f5es sindicais, a dire\u00e7\u00e3o ind\u00edgena n\u00e3o prop\u00f4s a consigna da sa\u00edda de Lasso que foi o sentimento e o pedido das bases, e tamb\u00e9m n\u00e3o se aprofundou em um programa de mudan\u00e7as estruturais que v\u00e1 mais al\u00e9m da plataforma conjuntural dos 10 pontos da Agenda Nacional de Luta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Antecedentes hist\u00f3ricos.&nbsp;<\/strong> O protesto ind\u00edgena, apoiado pela maioria da popula\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a empobrecida, tem suas ra\u00edzes nos 500 anos de domina\u00e7\u00e3o colonial e neocolonial, per\u00edodo que corresponde ao surgimento e \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o do sistema capitalista mundial. A brutal conquista espanhola ocasionou o genoc\u00eddio, a escravid\u00e3o, a superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho ind\u00edgena nas <em>encomiendas<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>, nas <em>mitas<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em>, nos <em>obrajes<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a> <\/em>e as opress\u00f5es de todo o tipo sobre os povos e nacionalidades que viviam no territ\u00f3rio que hoje corresponde ao Equador. \u00c9 onde aparece o flagelo do racismo contra os ind\u00edgenas e negros que persiste at\u00e9 hoje, assim como a profunda desigualdade entre classes sociais que se manifesta na opul\u00eancia de alguns poucos e o empobrecimento da maioria.<\/p>\n\n\n\n<p>A independ\u00eancia da Espanha significou que o poder passou dos espanh\u00f3is para a aristocraciacrioula<em>,<\/em> mas n\u00e3o houve uma mudan\u00e7a nas condi\u00e7\u00f5es dos povos origin\u00e1rios que foram convertidos em servos dos grandes latifundi\u00e1rios do pa\u00eds. Mas a resist\u00eancia ind\u00edgena se manifestou em levantes como o de Fernando Daquilema (1871), na prov\u00edncia de Chimborazo, que foi aniquilada de forma sangrenta pelo governo tir\u00e2nico de Garc\u00eda Moreno. Com a Revolu\u00e7\u00e3o Liberal comandada por Alfaro, muitos latif\u00fandios passaram das m\u00e3os da Igreja Cat\u00f3lica para as m\u00e3os de generais alfaristas e acionistas burgueses, mas a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores do campo e das cidades permaneceu intacta. Na d\u00e9cada de 1960, a Reforma Agr\u00e1ria decretada pela ditadura militar que governou entre 1963-66, entregou minif\u00fandios aos camponeses (os chamados <em>huasipungos<\/em>) nas terras mais altas e \u00e1ridas, o que provocou ondas migrat\u00f3rias do campo para cidades como Quito e Guayaquil. Em 1990, durante o governo de Rodrigo Borja da ID (Esquerda Democr\u00e1tica), ocorreu o grande levante ind\u00edgena conhecido como Inti Raymi com v\u00e1rias reivindica\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e culturais, entre elas, a entrega das grandes fazendas e territ\u00f3rios ancestrais aos ind\u00edgenas e trabalhadores do agro e da constitui\u00e7\u00e3o de um Estado Plurinacional. Desde ent\u00e3o foram numerosas as lutas e mobiliza\u00e7\u00f5es lideradas pela Confedera\u00e7\u00e3o das Nacionalidades Ind\u00edgenas do Equador (CONAIE) e outras organiza\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>O antecedente mais imediato da recente paralisa\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 a grande insurrei\u00e7\u00e3o de Outubro de 2019, cuja lideran\u00e7a vis\u00edvel foi a CONAIE, em unidade com outras organiza\u00e7\u00f5es representativas como a FENOCIN (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional das Organiza\u00e7\u00f5es Camponesas, Ind\u00edgenas e Negras) e a FENASE. Sua principal demanda foi a revoga\u00e7\u00e3o do de decreto 883 que continha tr\u00eas quest\u00f5es: o aumento da gasolina e do diesel, reformas trabalhistas gravemente atentat\u00f3rias contra os direitos dos trabalhadores e medidas em benef\u00edcio do setor empresarial. A paralisa\u00e7\u00e3o nacional conseguiu reunir diversos setores de trabalhadores, movimentos sociais e gente tanto do campo como das cidades que espontaneamente &nbsp;aderiram aos protestos. &nbsp;Em Quito, houve uma grande solidariedade com os ind\u00edgenas que chegaram a Quito e se concentraram no parque del Arbolito (Casa da Cultura). &nbsp;Os jovens de diversos setores sociais se mobilizaram e fizeram parte da primeira linha do protesto no centro da cidade, mas tamb\u00e9m se levantaram numerosos bairros populares do sul, do norte, do Valle de los Chillos e outras zonas da periferia. Como ocorreu em quase todas as cidades da Serra e do Oriente. O saldo desta jornada de luta foi de 11 mortos, 1.340 feridos (v\u00e1rios deles com perda de seu olho) e 1.192 detidos, segundo o informe da Defensoria do Povo. A insurrei\u00e7\u00e3o terminou depois de 11 dias com a revoga\u00e7\u00e3o do decreto 883, principalmente o aumento do pre\u00e7o dos combust\u00edveis que foi a detonante do protesto.<\/p>\n\n\n\n<p>O sentimento de triunfo inicial foi substitu\u00eddo por um sentimento de frustra\u00e7\u00e3o e de engano, j\u00e1 que o governo de Moreno continuou com as pol\u00edticas neoliberais e antipopulares e desatou uma persegui\u00e7\u00e3o judicial contra v\u00e1rios dirigentes e ativistas. Al\u00e9m disso, manteve em seus postos a ministra do Governo Mar\u00eda Paula Romo e o ministro da Defesa General Gustavo Jarr\u00edn, que foram os principais respons\u00e1veis pela brutal repress\u00e3o contra o povo lutador e cuja sa\u00edda foi uma das demandas da paralisa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio de 2020, ocorreu a pandemia da Covid 19, que foi muito mal gerenciada pelo governo de Moreno, j\u00e1 que o sistema de sa\u00fade p\u00fablica havia sido desmantelado, al\u00e9m disso, afetado por graves esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o. O resultado foi um verdadeiro genoc\u00eddio, devido ao alto n\u00famero de v\u00edtimas que a pandemia causou, especialmente na cidade de Guayaquil. Entretanto, o regime servil de Moreno se aproveitou do medo gerado pela mesma para amortecer a luta social emergente. Em conclus\u00e3o, a pandemia agravou a situa\u00e7\u00e3o de crise social anterior caracterizada pelo desemprego, a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, a fome (desnutri\u00e7\u00e3o infantil entre as mais altas da Am\u00e9rica Latina) e a desigualdade social.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O governo de Lasso&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais realizadas em abril de 2021, o banqueiro de direita Guillermo Lasso imp\u00f5e-se frente ao candidato do corre\u00edsmo Andr\u00e9s Arauz. Desde que assumiu o poder executivo em maio do ano passado, ficou evidente que o novo mandat\u00e1rio n\u00e3o iria cumprir as demag\u00f3gicas promessas realizadas na campanha eleitoral; o modelo neoliberal j\u00e1 aplicado pelo seu antecessor Lenin Moreno continuou e se aprofundou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma Lasso se alinha com as pol\u00edticas do imperialismo, especialmente norte-americano e se submete totalmente aos ditames do FMI. Em seu primeiro ano de gest\u00e3o evidenciam-se dois fatos fundamentais: 1) O fortalecimento da burguesia especialmente financeira banc\u00e1ria, mas tamb\u00e9m da fra\u00e7\u00e3o importadora e alguns setores exportadores (camar\u00e3o, pescado, flores e minera\u00e7\u00e3o). O alto pre\u00e7o do petr\u00f3leo e da melhoria nas arrecada\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias geraram altos recursos que foram destinados a fortalecer a reserva monet\u00e1ria internacional, ou seja, para garantir o pagamento da d\u00edvida externa, fato que Lasso propagou com a frase &#8220;colocar a casa em ordem&#8221;. O investimento p\u00fablico foi m\u00ednimo em 2021 e mais reduzido ainda em 2022, pois os excedentes obtidos foram destinados ao pagamento da d\u00edvida externa e para diminuir o d\u00e9ficit fiscal.<\/p>\n\n\n\n<p>2) O agravamento da crise social que se expressa em problemas como a manuten\u00e7\u00e3o de altos n\u00edveis de desemprego e subemprego, a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e da informalidade, o alto custo de vida, o aumento da pobreza que afeta 40% da popula\u00e7\u00e3o em termos multidimensionais, uma grave crise na \u00e1rea da sa\u00fade p\u00fablica pelo desabastecimento de medicamentos, a deteriora\u00e7\u00e3o da infraestrutura de hospitais e centros de sa\u00fade, a demiss\u00e3o de centenas de m\u00e9dicos que deram a vida durante a pandemia e a crescente descapitaliza\u00e7\u00e3o do IESS (Instituto Equatoriano de Seguridade Social) principalmente pela falta de pagamento da d\u00edvida do Estado. O setor da educa\u00e7\u00e3o sofre um d\u00e9ficit em sua infraestrutura e servi\u00e7os b\u00e1sicos, a diminui\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento para as universidades, o descumprimento de aumentos salariais m\u00ednimos para os professores que aprovados pelo congresso nacional no per\u00edodo anterior e os desn\u00edveis provocados pela educa\u00e7\u00e3o virtual devido \u00e0 pandemia. O setor agropecu\u00e1rio sofreu uma hist\u00f3rica desaten\u00e7\u00e3o do Estado e atravessa uma forte crise pelos baixos pre\u00e7os de seus produtos, enquanto que os pre\u00e7os dos custos de produ\u00e7\u00e3o experimentaram altas consider\u00e1veis. Os \u00edndices de pobreza, desnutri\u00e7\u00e3o infantil, acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade e aos servi\u00e7os b\u00e1sicos s\u00e3o mais graves na \u00e1rea rural.<\/p>\n\n\n\n<p>Este curto per\u00edodo presidido por Lasso se caracterizou tamb\u00e9m pela crise da institucionalidade estatal e a exacerba\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia social, a delinqu\u00eancia e v\u00e1rios massacres no interior dos pres\u00eddios, fato pelo qual o governo responsabilizou os enfrentamentos entre quadrilhas de narcotraficantes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fatos e demandas da paralisa\u00e7\u00e3o nacional&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto de crise social e pol\u00edtica, a CONAIE convocou uma paralisa\u00e7\u00e3o nacional por tempo indeterminado que se iniciou na segunda-feira 13 de junho. Leonidas Iza, presidente da referida organiza\u00e7\u00e3o, destacou que o objetivo da medida, de fato, era exigir uma solu\u00e7\u00e3o \u00e0s demandas que n\u00e3o eram atendidas h\u00e1 anos. Como antecedente lembrou que seu setor havia se reunido com o executivo por quatro ocasi\u00f5es desde 2021, nas quais levantaram seis quest\u00f5es fundamentais, mas nenhuma teve eco ou respostas concretas do Executivo. Na mesma data, a Federa\u00e7\u00e3o Nacional de Produtores de Banana do Equador (FENABE) anunciou que tamb\u00e9m iniciavam uma mobiliza\u00e7\u00e3o, mas com pedidos diferentes aos do movimento ind\u00edgena. A CONAIE contou com o apoio da organiza\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas evang\u00e9licos do Equador (FEINE), da Federa\u00e7\u00e3o Nacional de Organiza\u00e7\u00f5es Campesinas (FENOC) e da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional de Organiza\u00e7\u00f5es Campesinas Ind\u00edgenas e Negras (FENOC\u00cdN).<\/p>\n\n\n\n<p>As demandas das organiza\u00e7\u00f5es assinaladas foram especificadas em 10 pontos da Agenda Nacional de Luta: 1. Redu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o mais aumento do <strong>pre\u00e7o dos combust\u00edveis.<\/strong> 2. Al\u00edvio econ\u00f4mico para mais de 4 milh\u00f5es de fam\u00edlias com a <strong>morat\u00f3ria de pelo menos um ano e renegocia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas <\/strong>com redu\u00e7\u00e3o das taxas de juros no sistema financeiro.3. Pre\u00e7os justos para os produtos do campo. 4.&nbsp;<strong>Emprego e direitos trabalhistas<\/strong>. Pol\u00edticas e investimento p\u00fablico para conter a precariza\u00e7\u00e3o no trabalho e garantir a sustentabilidade da economia popular. Exigir o pagamento das d\u00edvidas ao IESS. 5. Morat\u00f3ria da&nbsp;<strong>fronteira extrativa mineira\/petroleira;&nbsp;<\/strong>auditoria e repara\u00e7\u00e3o integral pelos impactos socioambientais. Revoga\u00e7\u00e3o dos decretos 95 e 151. 6. Respeito aos 21 direitos coletivos dos povos ind\u00edgenas. 7. Eliminar a privatiza\u00e7\u00e3o dos setores estrat\u00e9gicos (Banco del Pac\u00edfico, hidroel\u00e9tricas, IESS, CNT, rodovias, sa\u00fade, entre outros). 8. Pol\u00edticas de <strong>controle de pre\u00e7os <\/strong>e especula\u00e7\u00e3o nos mercados dos produtos de primeira necessidade e abuso dos produtos industrializados nas cadeias de supermercados. 9.&nbsp;<strong> Sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o.<\/strong> Or\u00e7amento urgente para o desabastecimento dos hospitais por falta de medicamentos e pessoal. Garantir o acesso da juventude \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior e melhoria da infraestrutura nas escolas, faculdades e universidades. 10.&nbsp;<strong> Seguran\u00e7a,<\/strong> prote\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas para conter a onda de viol\u00eancia, banditismo, delinqu\u00eancia, narcotr\u00e1fico, sequestro e crime organizado que mant\u00eam o Equador em perigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se pode observar, as demandas do movimento ind\u00edgena n\u00e3o se limitam \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de seu setor, mas se ampliam aos problemas socioecon\u00f4micos e pol\u00edticos que afetam o conjunto da sociedade. O ponto central que aglutinou o protesto, como em Outubro de 2019, foi o pre\u00e7o dos combust\u00edveis, quest\u00e3o que o governo disse inicialmente que era inegoci\u00e1vel, n\u00e3o tanto pelo seu custo econ\u00f4mico (como ficou evidente posteriormente), mas porque implicava em cair na descumprimento com o FMI. Cabe destacar que a lista de reivindica\u00e7\u00f5es \u00e9 conjuntural e n\u00e3o tem uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica que leve a mudan\u00e7as estruturais da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A paralisa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou de forma discreta, com bloqueio de rodovias em algumas zonas sens\u00edveis como a rodovia Panamericana, mas o mais importante foram as assembleias territoriais convocadas sobretudo pela CONAIE, com a finalidade de obter consensos nas bases e depois ir aumentando as a\u00e7\u00f5es. Em Quito e outras cidades foram realizadas passeatas pouco numerosas com participa\u00e7\u00e3o principalmente de setores juvenis e estudantis. O Ministro do Governo tentou minimizar a medida e declarou que eles esperavam maior n\u00famero de manifestantes.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo dia da paralisa\u00e7\u00e3o amanheceu com a novidade de que Leonidas Iza havia sido preso violentamente de madrugada, sem respeitar os protocolos legais do caso e que seu paradeiro era desconhecido. Este fato inflamou as bases do movimento ind\u00edgena e de outros setores que apoiavam a paralisa\u00e7\u00e3o e sobretudo potencializou o protesto. Milhares de simpatizantes voltaram \u00e0s ruas para protestar e exigir sua liberta\u00e7\u00e3o. Na quarta-feira dia 15, a Ju\u00edza Paola Bed\u00f3n ordenou a imediata liberta\u00e7\u00e3o de Iza e lhe outorgou medidas substitutivas. Na prov\u00edncia de Cotopaxi as reivindica\u00e7\u00f5es populares desencadearam enfrentamentos com a pol\u00edcia at\u00e9 a noite de 15 de junho. Nos dias seguintes a paralisa\u00e7\u00e3o teve diversas express\u00f5es em 16 prov\u00edncias. Em Quito houve enfrentamentos entre estudantes do Col\u00e9gio Mej\u00eda e a Pol\u00edcia. A via Intervalles foi fechada pelos manifestantes da comunidade de La Toglla. Nas prov\u00edncias como Tungurahua e Bol\u00edvar houve ocupa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas dos governos. As diferen\u00e7as existentes no interior do movimento se unificaram em torno de Iza. A consigna Fora Lasso! come\u00e7ou a ganhar for\u00e7a junto com a solu\u00e7\u00e3o dos 10 pontos da plataforma de luta.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do quarto dia os protestos aumentaram em Quito e no resto do pa\u00eds. Iza anunciou sua inten\u00e7\u00e3o de chegar \u00e0 capital para liderar as mobiliza\u00e7\u00f5es. Na ter\u00e7a-feira dia 21 a paralisa\u00e7\u00e3o se intensificou em Quito; a cidade amanheceu com as vias bloqueadas e sem transporte. \u00c9 denunciada a morte do jovem Jhony F\u00e9lix Muenala no setor de Guayllabamba que caiu de um barranco ao fugir da repress\u00e3o policial. Os ind\u00edgenas foram recebidos nas Universidades Central e Salesiana. O presidente aceitou uma media\u00e7\u00e3o para o di\u00e1logo proposta por 300 organiza\u00e7\u00f5es sociais que n\u00e3o se concretizou. Na quarta-feira 22 de Junho a CONAIE apresentou um documento com quatro pedidos para aceitar o di\u00e1logo. O principal era eliminar o estado de exce\u00e7\u00e3o e desmilitarizar o parque del Arbolito e a Casa da Cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Na quinta-feira 23 de junho a CONAIE ocupa a Casa da Cultura ap\u00f3s o governo decidir retirar a Pol\u00edcia e as For\u00e7as Armadas. \u00c0 tarde, as for\u00e7as repressivas se enfrentam novamente com os manifestantes e Henry Quezada Espinosa de 29 anos falece, por causa de balas no peito. Em 21 de junho, nono dia do protesto, morre na cidade de Puyo o morador Byron Guatatoca por um impacto de bomba de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo em sua cabe\u00e7a. A popula\u00e7\u00e3o de Puyo reage com viol\u00eancia e incendeia um quartel de policia. Em 23 de junho falece tamb\u00e9m Franco I\u00f1iguez em San Antonio de Pichincha devido \u00e0 repress\u00e3o policial. No dia 24 morre o sargento Jos\u00e9 Chimarro, em um operativo militar na zona petroleira de Sushufindi na prov\u00edncia de Sucumb\u00edos. N\u00e3o h\u00e1 um saldo definitivo das v\u00edtimas da paralisa\u00e7\u00e3o nacional, mas foi confirmado um total de 7 mortos e um com morte cerebral, centenas de feridos tanto da popula\u00e7\u00e3o civil como dos policiais e militares, centenas de detidos, 6 desaparecidos e mais de 400 processos penais abertos pela Promotoria contra os manifestantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sexta-feira dia 24 o corre\u00edsmo obt\u00e9m as assinaturas para que na Assembleia Nacional seja tratada a quest\u00e3o de uma eventual destitui\u00e7\u00e3o do Presidente pela via constitucional, assunto que foi debatido e votado (80 votos pela destitui\u00e7\u00e3o, ou seja, a maioria), mas n\u00e3o alcan\u00e7a o n\u00famero de votos requerido para obt\u00ea-lo (92). Este resultado permitiu que um governo debilitado politicamente e que tem baixo apoio em tal organismo, respirasse.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estrat\u00e9gia do governo de Lasso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Frente ao avan\u00e7o da paralisa\u00e7\u00e3o nacional, o governo adotou a estrat\u00e9gia de desgastar a paralisa\u00e7\u00e3o mediante a repress\u00e3o, o desprest\u00edgio das mobiliza\u00e7\u00f5es, acusando-as de serem violentas, e para isso contou com o apoio da grande m\u00eddia. Al\u00e9m disso, tomou algumas medidas econ\u00f4micas para aliviar a situa\u00e7\u00e3o dos pequenos agricultores. Mas o que prevaleceu foi a resposta militarista e repressiva com o objetivo de por um fim \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o. P\u00f4de-se observar uma divis\u00e3o de pap\u00e9is entre os dois ministros encarregados da pol\u00edtica: o ministro de Governo, Francisco Jim\u00e9nez e o ministro da Seguran\u00e7a Patricio Carrillo, ex General da Pol\u00edcia, que comandou a brutal repress\u00e3o na insurrei\u00e7\u00e3o de Outubro de 2019. Enquanto o ministro Jim\u00e9nez falava do di\u00e1logo, o segundo impunha uma violenta repress\u00e3o contra os manifestantes, fechando a possibilidade de que o di\u00e1logo se concretizasse nos primeiros dias, at\u00e9 se tornar um fato inevit\u00e1vel pela for\u00e7a que as mobiliza\u00e7\u00f5es alcan\u00e7aram. &nbsp;O governo tentou desgastar a luta mediante a repress\u00e3o e medidas de consolo, mas n\u00e3o tinha previsto dialogar com a CONAIE, como o pr\u00f3prio Presidente expressou em v\u00e1rias ocasi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, depois do grave erro que supunha a ordem de pris\u00e3o contra Leonidas Iza, o governo continuou os atropelos contra o direito \u00e0 resist\u00eancia estabelecido no Art. 98 da Constitui\u00e7\u00e3o. Entre as a\u00e7\u00f5es mais graves que o governo realizou, temos as seguintes:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Mandato de busca da Pol\u00edcia na Casa da Cultura Equatoriana (domingo dia 19), alegando uma den\u00fancia an\u00f4nima pela exist\u00eancia de material b\u00e9lico, quando esta emblem\u00e1tica institui\u00e7\u00e3o nem sequer tinha sido ocupada pelos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Declara\u00e7\u00e3o de tr\u00eas decretos de estado de exce\u00e7\u00e3o: o primeiro, decretado em 18 de julho teve uma vig\u00eancia de tr\u00eas dias. O segundo entrou em vigor em 20 de julho (decreto 457) e foi para impedir que a Assembleia Nacional se pronunciasse e revogasse o primeiro. Este segundo decreto ampliava a medida \u00e0s prov\u00edncias de Chimborazo, Tungurahua e Pastaza (o qual foi qualificado como uma \u201cjogada de mestre\u201d por alguns porta vozes do regime). O terceiro, perto de finalizar a paralisa\u00e7\u00e3o, foi aplicado em quatro prov\u00edncias onde se considerava que estava localizado o epicentro das manifesta\u00e7\u00f5es (n\u00e3o incluiu Pichincha) e segue vigente at\u00e9 hoje, mas n\u00e3o inclui o toque de recolher.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Invas\u00e3o e agress\u00e3o policial contra as Universidades mais importantes de Quito como a Universidade Central, a Escola Polit\u00e9cnica Nacional e a Universidade Salesiana, apesar de terem sido declaradas \u201czonas de paz\u201d posto que em suas instala\u00e7\u00f5es se abrigaram milhares de ind\u00edgenas e campesinos chegados de diferentes prov\u00edncias, com a presen\u00e7a de crian\u00e7as, mulheres e idosos que recebiam ajuda de abrigo, alimentos e sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Convoca\u00e7\u00e3o aos \u201ccidad\u00e3os do bem\u201d para realizar marchas pela paz respaldando as a\u00e7\u00f5es do governo e da pol\u00edcia, que tiveram certa acolhida, sobretudo nos bairros residenciais da classe endinheirada de Quito (Av Los Shyris e valles de Cumbay\u00e1 e Tumbaco) onde foram gritadas consignas racistas contra os ind\u00edgenas e inclusive algumas a\u00e7\u00f5es de agress\u00e3o foram realizadas contra os manifestantes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Concess\u00f5es do governo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na perspectiva de confundir os cidad\u00e3os e dividir os ind\u00edgenas, o governo adotou algumas medidas e concess\u00f5es tentando frear a paralisa\u00e7\u00e3o, tais como:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Controle dos pre\u00e7os dos produtos de primeira necessidade, em especial os sujeitos a pre\u00e7os oficiais, a fim de evitar a especula\u00e7\u00e3o. Esta medida foi confiada aos governadores das prov\u00edncias (decreto 452, 15 de junho).<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Declara\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia no setor da sa\u00fade, a fim de agilizar a provis\u00e3o de medicamentos e insumos necess\u00e1rios para operar a rede p\u00fablica integral de sa\u00fade, disposi\u00e7\u00e3o que deveria ter sido aplicada pela ex -ministra Ximena Garz\u00f3n (Decreto 454). Aumentar o or\u00e7amento da sa\u00fade em 200 milh\u00f5es de d\u00f3lares e desse valor 60 milh\u00f5es seriam destinados \u00e0 compra de medicamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Medidas pol\u00edticas p\u00fablicas para compensar o aumento do custo de vida ap\u00f3s a pandemia da covid 19 e a crise log\u00edstica internacional (Decreto 456 de 18 de junho). Estas foram:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Aumento do b\u00f4nus de desenvolvimento humano de 50 d\u00f3lares para 55, o que implicar\u00e1 70 milh\u00f5es de d\u00f3lares adicionais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Duplicar o or\u00e7amento para a educa\u00e7\u00e3o intercultural, com um total de 4,5 milh\u00f5es de d\u00f3lares, ao inv\u00e9s dos 2,27 milh\u00f5es or\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Subsidiar at\u00e9 em 50% da ureia para pequenos e m\u00e9dios produtores e um plano de subven\u00e7\u00e3o aos pequenos produtores de banana e kits de sementes e insumos agr\u00edcolas. O governo destinar\u00e1 46 milh\u00f5es para tal objetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Ban Ecuador perdoar\u00e1 todos os cr\u00e9ditos vencidos at\u00e9 USD 3000 e entregar\u00e1 cr\u00e9ditos agr\u00edcolas de at\u00e9 5000 a 1% e 30 anos de prazo, com um investimento de 200 milh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Pre\u00e7os dos combust\u00edveis: o Executivo anunciou a redu\u00e7\u00e3o de 10 centavos por gal\u00e3o no pre\u00e7o da gasolina e do diesel (decreto462) de 22 de junho, quantidade que foi considerada insuficiente pelos protagonistas da paralisa\u00e7\u00e3o que haviam proposto uma redu\u00e7\u00e3o de 40 centavos. No final a redu\u00e7\u00e3o foi de 15 centavos por gal\u00e3o para ambos combust\u00edveis. Segundo o governo esta medida representar\u00e1 340 milh\u00f5es anuais que podem variar em fun\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o internacional do petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento ind\u00edgena considerou que estas medidas eram o resultado da luta social, mas que eram insuficientes frente \u00e0 magnitude da crise.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conquistas da paralisa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das medidas econ\u00f4micas apresentadas que foram ratificadas na ata de compromisso das duas partes para dar por terminada a paralisa\u00e7\u00e3o nacional, pode-se destacar as seguintes conquistas pol\u00edticas:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013A paralisa\u00e7\u00e3o nacional permitiu a unidade e coes\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de base da CONAIE e a articula\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es mais representativas do campesinato como s\u00e3o a FENOCIN e a FENASE.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Recupera\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a no interior do movimento ind\u00edgena frente ao fracionamento causado pelos desvios da maioria dos membros da assembleia eleitos por Pachak\u00fatik que provocaram uma divis\u00e3o de seu bloco no interior da Assembleia Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Ter gerado novamente uma refer\u00eancia da luta popular que permitiu aglutinar os bairros populares das cidades, dos trabalhadores e dos setores mais empobrecidos afetados pelo desemprego, o subemprego e a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Ter posicionado perante a opini\u00e3o p\u00fablica os 10 pontos da plataforma de luta que re\u00fane boa parte das necessidades mais sentidas pelos setores populares e ter obrigado o governo a responder, embora parcialmente, a tais demandas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Fortalecer na consci\u00eancia e no imagin\u00e1rio dos setores populares a necessidade de enfrentar as desigualdades e opress\u00f5es que a sociedade experimenta e avan\u00e7ar para uma sociedade mais justa, equitativa, sustent\u00e1vel e solid\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Perder o medo da mobiliza\u00e7\u00e3o e da luta nas ruas e nas rodovias, como mecanismos fundamentais para exigir os direitos e as demandas de diversos setores da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Interpelar n\u00e3o somente o Executivo, mas tamb\u00e9m outras fun\u00e7\u00f5es do Estado como a Assembleia Nacional e a Justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Deslegitimar o governo como representante do povo e evidenciar seu car\u00e1ter burgu\u00eas e reacion\u00e1rio a servi\u00e7o das classes dominantes e do imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Presen\u00e7a de v\u00e1rias m\u00eddias alternativas e comunit\u00e1rias que acompanharam a paralisa\u00e7\u00e3o e informaram a partir da perspectiva e viv\u00eancias dos manifestantes, muito diferente da informa\u00e7\u00e3o totalmente parcial da grande m\u00eddia, alinhados com as posi\u00e7\u00f5es do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em s\u00edntese, como destaca Pablo D\u00e1valos: \u201cEste levante demonstra que o movimento ind\u00edgena equatoriano se constituiu em um sujeito pol\u00edtico que demonstra ter uma capacidade organizativa para paralisar quase todo o pa\u00eds, controlar os territ\u00f3rios nos quais tem estrutura organizativa, articular uma agenda program\u00e1tica que estimula a ades\u00e3o de muitos setores sociais e manter uma lideran\u00e7a que gera e estimula consensos e reconhecimento nacional\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Limita\u00e7\u00f5es da paralisa\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora a paralisa\u00e7\u00e3o nacional possa ser caracterizada como uma vit\u00f3ria do campo popular, n\u00e3o se deve cair no triunfalismo, mas fazer uma an\u00e1lise cr\u00edtica e objetiva das limita\u00e7\u00f5es deste fato hist\u00f3rico e reconhecer que foi uma vit\u00f3ria parcial que faz parte de um processo de luta de longo prazo para uma verdadeira transforma\u00e7\u00e3o social. Entre as limita\u00e7\u00f5es da paralisa\u00e7\u00e3o podemos destacar as seguintes:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013A presen\u00e7a quase nula do movimento sindical organizado e principalmente das centrais sindicais que formam a Frente Unit\u00e1ria de Trabalhadores (FUT). &nbsp;Foi convocada uma manifesta\u00e7\u00e3o em Quito em 22 de junho da Caja del Seguro, mas a mesma teve pouca participa\u00e7\u00e3o porque na zona era travado um forte enfrentamento entre os manifestantes e a pol\u00edcia. A Uni\u00e3o Geral dos trabalhadores do Equador (UGTE) controlada pela Unidade Popular (antes MPD) de tend\u00eancia estalinista teve alguma presen\u00e7a nas mobiliza\u00e7\u00f5es realizadas em Quito a partir da Universidade Central. A Confedera\u00e7\u00e3o Equatoriana de Organiza\u00e7\u00f5es Classistas (CEDOC), dirigida por Mes\u00edas Tatamuez h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, fez pronunciamentos gerais de apoio destacando \u00e0s consignas pr\u00f3prias dos trabalhadores, mas n\u00e3o conseguiu mobilizar seus sindicatos. &nbsp;A CEOSL, cujo m\u00e1ximo dirigente \u00e9 o presidente vigente da FUT, esteve totalmente ausente das mobiliza\u00e7\u00f5es e segundo coment\u00e1rios de pessoas pr\u00f3ximas ao movimento sindical, tem um acordo com o governo sob a mesa. A Central de Trabalhadores Equatorianos (CTE), controlada historicamente pelo Partido Comunista, atravessa um forte fracionamento interno e diminuiu sua for\u00e7a sindical. Em s\u00edntese, a FUT se debilitou quantitativa e qualitativamente h\u00e1 v\u00e1rios anos, sofre a burocratiza\u00e7\u00e3o de suas dire\u00e7\u00f5es e n\u00e3o teve uma posi\u00e7\u00e3o frontal frente \u00e0s pol\u00edticas antioper\u00e1rias e antipopulares do governo. Deixou de ser refer\u00eancia das lutas populares h\u00e1 v\u00e1rios anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013A aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica revolucion\u00e1ria com perspectiva anticapitalista e socialista. O grupo melhor organizado com influ\u00eancia de massas \u00e9 o Partido Comunista, Marxista, Leninista (PCML) de tend\u00eancia estalinista, mas desprestigiado pela contradi\u00e7\u00e3o entre seu discurso radical e suas posi\u00e7\u00f5es sect\u00e1rias e aparatistas, tendo priorizado a atividade eleitoral com maus resultados. Os partidos tradicionais da esquerda, principalmente o Partido Socialista e o Partido Comunista se debilitaram e se dividiram durante o per\u00edodo corre\u00edsta, j\u00e1 que o apoiaram pol\u00edtica e eleitoralmente, mas depois se dividiram pela exist\u00eancia de posi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas no interior de suas fileiras. Subsistem pequenos grupos que se reivindicam marxistas e revolucion\u00e1rios; no presente momento t\u00eam sido estigmatizados pelo governo e pela m\u00eddia afim, como \u00e9 o caso do Movimiento Guevarista, oito de seus integrantes se encontram detidos acusados de terrorismo e tr\u00e1fico de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013O descontentamento de algumas bases do movimento ind\u00edgena e organiza\u00e7\u00f5es como a FENOCIN pelos acordos assinados pelo governo que n\u00e3o satisfazem suas expectativas, especialmente no caso dos pre\u00e7os dos combust\u00edveis. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se prop\u00f4s com decis\u00e3o e firmeza a consigna de Fora Lasso! que era um sentimento das bases e da maioria da popula\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 evidente que o governo atual n\u00e3o cumpriu suas promessas e acordos e n\u00e3o dar\u00e1 solu\u00e7\u00f5es reais \u00e0s principais demandas da popula\u00e7\u00e3o empobrecida e oprimida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013A aus\u00eancia de uma alternativa de poder como a forma\u00e7\u00e3o de Assembleias Populares e Assembleias provinciais, para desembocar em uma Assembleia Nacional ou Parlamento dos Povos (em 2019 se formou o Parlamento dos Povos). \u00c9 muito importante que esta possibilidade se estenda para os bairros populares que participaram ativamente nas mobiliza\u00e7\u00f5es e na solidariedade com o movimento ind\u00edgena. Embora a pr\u00e1tica da democracia desde baixo (mandar obedecendo) foi levada a cabo no interior das comunidades ind\u00edgenas, essa atividade deve ser promovida nas organiza\u00e7\u00f5es sociais e nos bairros populares das cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013A falta de um programa que v\u00e1 al\u00e9m da conjuntura e proponha a necessidade de transforma\u00e7\u00f5es estruturais que permitam por um fim ao capitalismo e substitu\u00ed-lo por uma sociedade justa e igualit\u00e1ria, ou seja, sem explora\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o de uma classe sobre as outras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Falta de condi\u00e7\u00f5es adequadas para enfrentar a persegui\u00e7\u00e3o judicial que o governo anunciou atrav\u00e9s do Ministro Carrillo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por um programa de mudan\u00e7as estruturais&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Paralisa\u00e7\u00e3o Nacional de Junho \u00e9 uma n\u00edtida demonstra\u00e7\u00e3o de que o per\u00edodo de luta social que explodiu em Outubro de 2019 n\u00e3o acabou. As lutas e as mobiliza\u00e7\u00f5es continuar\u00e3o porque a crise social se agravou e o governo burgu\u00eas neoliberal de Lasso n\u00e3o foi nem ser\u00e1 capaz de responder \u00e0s necessidades acumuladas da classe trabalhadora e dos setores populares.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, para avan\u00e7ar na acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as para o campo popular, \u00e9 necess\u00e1rio impulsionar um <strong>programa de governo<\/strong> que n\u00e3o se limite \u00e0s 10 quest\u00f5es propostas pelo movimento ind\u00edgena e pela CONAIE, o mesmo que atualmente se negocia com o governo, mas que busque mudan\u00e7as estruturais econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas que garantam uma vida digna para todos os equatorianos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como ART propomos as seguintes quest\u00f5es program\u00e1ticas:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Nacionaliza\u00e7\u00e3o do sistema de sa\u00fade privado. Forma\u00e7\u00e3o de um sistema \u00fanico, p\u00fablico e universal de sa\u00fade. Fortalecimento do IESS atrav\u00e9s do exerc\u00edcio de sua autonomia, controle dos trabalhadores e pagamento imediato das d\u00edvidas do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Por um sistema nacional de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00fanico e universal, t\u00e9cnico e cient\u00edfico, com mais investimento e or\u00e7amento para a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, m\u00e9dia e superior que permita uma nivela\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios para os professores e a infraestrutura b\u00e1sica para alcan\u00e7ar uma qualidade adequada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Por moradia digna para todos. Promover um plano de emerg\u00eancia habitacional com um investimento de 7% do PIB na moradia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Por um plano nacional de obras p\u00fablicas para enfrentar o desemprego e resolver os problemas de moradia, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e sanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013N\u00e3o ao pagamento da d\u00edvida externa. Pela ruptura com o FMI e o Banco Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Expropria\u00e7\u00e3o das empresas petroleiras em m\u00e3os estrangeiras. Nacionaliza\u00e7\u00e3o da extra\u00e7\u00e3o, refina\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo. N\u00e3o \u00e0 extra\u00e7\u00e3o depredadora, por uma extra\u00e7\u00e3o que respeito o meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Expropria\u00e7\u00e3o e fechamento da minera\u00e7\u00e3o em grande escala em \u00e1reas protegidas e fontes de \u00e1gua para uso agr\u00edcola e humano.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Pela supera\u00e7\u00e3o do modelo extrativista e sua substitui\u00e7\u00e3o por um modelo que promova a produ\u00e7\u00e3o nacional, priorizando a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades b\u00e1sicas como alimenta\u00e7\u00e3o, moradia, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e transporte.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Por uma reforma agr\u00e1ria que entregue a terra a quem trabalhe nela. Pela soberania alimentar que respeite e proteja o meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013N\u00e3o \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o das empresas p\u00fablicas estrat\u00e9gicas, em especial as do setor energ\u00e9tico como as el\u00e9tricas, petroleiras, telecomunica\u00e7\u00f5es, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Fortalecimento dos bancos p\u00fablicos e fomentar o cr\u00e9dito produtivo para empresas pequenas e m\u00e9dias, cooperativas e associa\u00e7\u00f5es, setor informal, priorizando os campesinos e outros setores rurais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Nacionaliza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o destes no CNT sob controle dos trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Aumentar drasticamente o imposto de renda \u00e0s grandes empresas pertencentes aos grupos econ\u00f4micos monopolistas, assim como implementar um imposto aos oligop\u00f3lios e aos lucros extraordin\u00e1rios. Eliminar o imposto de renda para micro e pequenas empresas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Reduzir o or\u00e7amento militar e policial, sobretudo o orientado para a repress\u00e3o interna e \u00e0 espionagem pol\u00edtica e similares.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Combate frontal \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, mediante a transpar\u00eancia das contas p\u00fablicas e privadas. Pris\u00e3o aos corruptos e confisco de seus bens.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Pelo direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o das comunidades ind\u00edgenas em quest\u00f5es como a sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a, preserva\u00e7\u00e3o de sua cultura e outros e reconhecimento legal de seus territ\u00f3rios ancestrais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Luta frontal contra o racismo e as opress\u00f5es em todos os n\u00edveis. N\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia machista. Pelos direitos da popula\u00e7\u00e3o LGBTI. N\u00e3o \u00e0 xenofobia e \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o contra os migrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013Acabar com a criminaliza\u00e7\u00e3o das lutas sociais e a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores e ind\u00edgenas, organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de esquerda, seus dirigentes e ativistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para conseguir levar \u00e0 pr\u00e1tica o programa e as consignas expostas, a tarefa central \u00e9 promover a unidade das organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores do campo e da cidade, dos ind\u00edgenas, campesinos, mesti\u00e7os e setores populares contra a crise instaurada. Esta unidade deve ser plasmada na constitui\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Popular a n\u00edvel nacional com delegados das assembleias de base unit\u00e1rias para organizar a luta. Dar continuidade \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es \u00e9 uma necessidade inadi\u00e1vel frente a um governo que n\u00e3o cumpre os acordos e n\u00e3o tem palavra. Os trabalhadores e os movimentos sociais em resist\u00eancia n\u00e3o devem depositar nenhuma confian\u00e7a no regime de Guillermo Lasso, mas preparar-se para a continua\u00e7\u00e3o da luta.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Institui\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica colonial por meio da qual um grupo de \u00edndios era concedido a um colonizador para trabalhar em troca de sua prote\u00e7\u00e3o e evangeliza\u00e7\u00e3o (NdT).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Sistema de trabalho compuls\u00f3rio. (NdT).<\/p>\n\n\n\n<p><a id=\"_ftn3\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Pequenas oficinas t\u00eaxteis dedicados \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o de tecidos de l\u00e3 de ovelha, algod\u00e3o ou l\u00e3 de alpaca (NdT).<\/p>\n\n\n\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00edlian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Balan\u00e7o da Paralisa\u00e7\u00e3o Nacional de Junho de 2022&nbsp; A PARALISA\u00c7\u00c3O NACIONAL iniciada em 13 de junho e conclu\u00edda com um acordo assinado em 30 de junho entre o governo e tr\u00eas organiza\u00e7\u00f5es representantes do movimento ind\u00edgena, foi uma jornada de 18 dias de uma luta heroica, liderada pelo movimento ind\u00edgena e apoiada por numerosas organiza\u00e7\u00f5es, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":74493,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3643],"tags":[4665,3808,8314,6430,8313,4672],"class_list":["post-74492","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-equador","tag-conaie","tag-guillermo-lasso","tag-leonidas-iza","tag-miguel-merino","tag-paralizacao-equador","tag-protestos-equador"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Equador-1.jpg","categories_names":["Equador"],"author_info":{"name":"lena","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/b9eb35b4c023b96c29c4a145a82c6c381b68f2c889c5427106ad5aab6df45b9d?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74492","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=74492"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74492\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":74496,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74492\/revisions\/74496"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/74493"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=74492"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=74492"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=74492"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}