{"id":74125,"date":"2022-07-12T19:09:01","date_gmt":"2022-07-12T22:09:01","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=67313"},"modified":"2022-08-08T15:10:29","modified_gmt":"2022-08-08T15:10:29","slug":"sri-lanka-uma-revolucao-em-curso-derruba-o-presidente-rajapaksa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/07\/12\/sri-lanka-uma-revolucao-em-curso-derruba-o-presidente-rajapaksa\/","title":{"rendered":"Sri Lanka: Uma revolu\u00e7\u00e3o em curso derruba o presidente Rajapaksa"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 poucos dias, a m\u00eddia de todo o mundo mostrou como uma multid\u00e3o enfurecida tomou a resid\u00eancia presidencial em Colombo (capital do pa\u00eds) e for\u00e7ou o odiado presidente Gotabaya Rajapaksa a renunciar. Foi o ponto alto de um processo de meses de greves e manifesta\u00e7\u00f5es de protesto contra a terr\u00edvel deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida, agravada pela pol\u00edtica governamental, e que a repress\u00e3o n\u00e3o conseguiu deter<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n<p>Em artigos deste site e de organiza\u00e7\u00f5es da LIT-QI tentamos acompanhar este processo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Esses artigos analisam a hist\u00f3ria moderna do Sri Lanka, a g\u00eanese da crise atual e o pr\u00f3prio processo de luta. Neste, vamos nos limitar a apresentar um breve resumo destes elementos e centrar nas suas perspectivas, com as \u00f3bvias limita\u00e7\u00f5es que a dist\u00e2ncia e a n\u00e3o participa\u00e7\u00e3o direta nos imp\u00f5em.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-67317 size-full\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Sri-Lanka-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\"><\/p>\n<p>Um primeiro elemento \u00e9 que esse processo revolucion\u00e1rio no Sri Lanka n\u00e3o ocorre como um evento isolado, mas se soma a outras respostas dos trabalhadores e das massas contra os ataques do capitalismo. Nas \u00faltimas semanas, quase simultaneamente, al\u00e9m do que aconteceu no pa\u00eds, vemos a continua\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia ucraniana \u00e0 invas\u00e3o russa, a revolta das massas equatorianas, as mobiliza\u00e7\u00f5es de mulheres americanas contra o ataque ao direito ao aborto, a greve dos ferrovi\u00e1rios brit\u00e2nicos, a greve dos petroleiros noruegueses, a onda de greves na Turquia\u2026<\/p>\n<p><strong>Um pouco de hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>O Sri Lanka \u00e9 uma pequena na\u00e7\u00e3o insular (com uma \u00e1rea de 65.600 km2), localizada ao sul da \u00cdndia, na Ba\u00eda de Bengala. Tem 22 milh\u00f5es de habitantes e \u00e9 um pa\u00eds pobre, com economia centrada na agricultura, com\u00e9rcio e turismo, e com pouco desenvolvimento industrial. Em 2021, seu PIB nominal per capita foi estimado em US$ 3.600 per capita (classificando-o em 120\u00ba no mundo), embora essa estimativa seja &#8220;inflada&#8221; pela atividade financeira.<\/p>\n<p>Entre 1802 e 1948 foi col\u00f4nia da Gr\u00e3-Bretanha, que a utilizou como grande produtora de ch\u00e1 e tamb\u00e9m como base militar a\u00e9rea e naval. Ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, obteve a independ\u00eancia nacional no quadro de uma s\u00e9rie de greves e mobiliza\u00e7\u00f5es reprimidas pelos brit\u00e2nicos, logo ap\u00f3s a conquista da \u00cdndia.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1950, a fraca burguesia cingalesa come\u00e7ou a impulsionar um projeto nacionalista burgu\u00eas atrav\u00e9s dos governos do SLFP (sigla em ingl\u00eas do Partido da Liberdade do Sri Lanka &#8211; Freedom Party), que continuou at\u00e9 a d\u00e9cada de 1960. Essa pol\u00edtica sem ultrapassar os limites do capitalismo, promoveu uma reforma agr\u00e1ria, nacionalizou algumas ind\u00fastrias e promoveu outras, como a gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica, o beneficiamento do petr\u00f3leo, a produ\u00e7\u00e3o de fertilizantes e cimento. A principal referente dessa pol\u00edtica foi a que foi v\u00e1rias vezes primeira-ministra Sirimavo Bandaranaike. Nesse quadro, o Sri Lanka era um importante promotor do Movimento dos N\u00e3o-Alinhados, que agrupava as na\u00e7\u00f5es nas quais pol\u00edticas semelhantes estavam sendo desenvolvidas.<\/p>\n<p>O sistema institucional cingal\u00eas \u00e9 baseado no voto universal para eleger o parlamento e o presidente (com bastante poder de governo). Ao mesmo tempo, o presidente pode nomear um primeiro-ministro que tamb\u00e9m tem importantes fun\u00e7\u00f5es. Essa &#8220;duplica\u00e7\u00e3o&#8221; do poder executivo tem permitido n\u00e3o apenas coaliz\u00f5es entre partidos burgueses (outra importante organiza\u00e7\u00e3o burguesa \u00e9 o UNP &#8211; Partido Nacional Unido), mas tamb\u00e9m entre fra\u00e7\u00f5es de um mesmo partido. Porque as estruturas partid\u00e1rias s\u00e3o atravessadas por cl\u00e3s pol\u00edticos familiares, como o formado por Sirimavo Bandaranaike e sua filha Chandrika Kumaratunga ou o dos irm\u00e3os Rajapaksa.<\/p>\n<p>Como um fato hist\u00f3rico interessante, h\u00e1 um partido de origem trotskista no pa\u00eds: o LSSP (sigla em cingal\u00eas para o Partido da Igualdade Social do Sri Lanka). Gra\u00e7as ao seu papel de lideran\u00e7a na luta pela independ\u00eancia, ganhou grande peso na classe trabalhadora e nas massas e se tornou o maior partido trotskista do mundo naqueles anos. Infelizmente, acabou capitulando ao nacionalismo burgu\u00eas do SLFP e entrou em seu governo, pelo qual foi expulso da Quarta Internacional (em 1964, em seu sexto congresso) por transgredir o que todas as correntes trotskistas da \u00e9poca ainda consideravam um princ\u00edpio: nunca fazer parte de um governo burgu\u00eas. Hoje, o LSSP \u00e9 apenas mais uma for\u00e7a parlamentar, um membro regular de v\u00e1rias coaliz\u00f5es governamentais burguesas.<\/p>\n<p><strong>O fim do nacionalismo burgu\u00eas<\/strong><\/p>\n<p>No final da d\u00e9cada de 1970 (ou desde antes) todas as experi\u00eancias nacionalistas burguesas do mundo viviam uma profunda crise por terem mantido o capitalismo em n\u00edvel nacional e por n\u00e3o terem realmente combatido o imperialismo em n\u00edvel internacional.<\/p>\n<p>O Sri Lanka n\u00e3o foi exce\u00e7\u00e3o, e a burguesia cingalesa come\u00e7ou uma virada para &#8220;modernizar&#8221; o capitalismo, &#8220;atrav\u00e9s de abrir para o mundo\u201d e buscar um novo modelo de acumula\u00e7\u00e3o semicolonial para o pa\u00eds. Por isso, em 1979, o governo da UNP autorizou a abertura de bancos estrangeiros no pa\u00eds com o objetivo de promov\u00ea-lo como um centro financeiro internacional no sul da \u00c1sia, uma &#8220;plataforma de investimento&#8221; do imperialismo para as maquilas e ind\u00fastrias que se instalavam no v\u00e1rios pa\u00edses, especialmente para a \u00cdndia.<\/p>\n<p>Este projeto foi interrompido. Um dos principais fatores foi a eclos\u00e3o de uma revolta separatista da minoria t\u00e2mil, liderada pela organiza\u00e7\u00e3o chamada Tigres de Liberta\u00e7\u00e3o do Tamil Eelam. Os t\u00e2meis s\u00e3o uma minoria \u00e9tnica origin\u00e1ria do estado de Tamil Nadu, na \u00cdndia, com ra\u00edzes muito antigas e uma l\u00edngua pr\u00f3pria. No Sri Lanka, eles representam entre 15 e 20% da popula\u00e7\u00e3o e s\u00e3o oprimidos pela maioria cingalesa, com uma pol\u00edtica promovida pela burguesia dessa maioria, mesmo no per\u00edodo mais &#8220;progressista&#8221; do SLFP.<\/p>\n<p>O que \u00e9 certo \u00e9 que essa burguesia usou esse sentimento antit\u00e2mil para fazer uma guerra para esmagar a revolta t\u00e2mil e se fortalecer contra os trabalhadores e as massas cingalesas. Foi nesse processo que o cl\u00e3 Rajapaksa se desenvolveu: o atual presidente Gotabaya ganhou muito prest\u00edgio pol\u00edtico, devido ao papel militar que desempenhou na guerra civil. Posteriormente, o Rajapaksa formou v\u00e1rios e sucessivos partidos pol\u00edticos. O \u00faltimo \u00e9 o SLPP (sigla em cingal\u00eas para o Partido Popular do Sri Lanka), com o qual venceu as elei\u00e7\u00f5es em 2019.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, embora o regime democr\u00e1tico burgu\u00eas n\u00e3o tenha mudado, a burguesia cingalesa aproveitou a guerra civil para aumentar a militariza\u00e7\u00e3o do Estado em termos de tropas e armas. Atualmente, as for\u00e7as armadas do pa\u00eds s\u00e3o 346.000 (sem contar a Pol\u00edcia). Cifra igual, em n\u00fameros, absolutos ao do Brasil, pa\u00eds com popula\u00e7\u00e3o dez vezes maior.<\/p>\n<p><strong>Prepara-se a \u201ctempestade perfeita\u201d <\/strong><\/p>\n<p>A guerra civil terminou formalmente em 2009, mas, de fato, a vit\u00f3ria cingalesa j\u00e1 havia ocorrido v\u00e1rios anos antes. Em seus \u00faltimos anos, a burguesia cingalesa aproveitou a guerra para justificar o endividamento do Estado e, com isso, tentar dinamizar a economia capitalista. Por exemplo, entre 2006 e 2008, o PIB nominal cingal\u00eas cresceu 7% ao ano.<\/p>\n<p>Essa pol\u00edtica de endividar o Estado (e tentar promover algum projeto) continuou nos anos seguintes. Desde 2008, foi iniciada a constru\u00e7\u00e3o do porto de Hambantota, como escala da rota mar\u00edtima do Oceano \u00cdndico (com financiamento da China)<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Um setor que conseguiu se desenvolver foi o turismo (principalmente com viajantes provenientes da \u00cdndia), que chegou a gerar 12% do PIB nos anos pr\u00e9-pandemia.<\/p>\n<p>Mas uma pol\u00edtica de d\u00edvida externa que n\u00e3o consegue desenvolver um projeto de acumula\u00e7\u00e3o capitalista vi\u00e1vel (mesmo que seja semicolonial) inevitavelmente termina em uma crise profunda. Atualmente, a d\u00edvida externa do pa\u00eds supera o seu PIB (h\u00e1 tamb\u00e9m uma enorme d\u00edvida p\u00fablica interna). O Estado, mesmo que tenha dedicado todo o seu or\u00e7amento a isso, n\u00e3o consegue pagar os juros da d\u00edvida, sem falar nos &#8220;servi\u00e7os&#8221; (parcelas), e os refinanciamentos s\u00e3o cada vez mais duros. Esta situa\u00e7\u00e3o de base foi agravada pela queda das receitas do turismo durante a pandemia.<\/p>\n<p>Uma das consequ\u00eancias da falta de divisas \u00e9 a dificuldade em pagar as importa\u00e7\u00f5es essenciais. Por exemplo, o petr\u00f3leo que \u00e9 refinado no pa\u00eds. A falta de combust\u00edvel paralisa ind\u00fastrias, como aliment\u00edcias ou t\u00eaxteis, gera escassez de fertilizantes para a agricultura e provoca cortes de 13 horas por dia no fornecimento de energia el\u00e9trica \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, al\u00e9m das suspens\u00f5es nas empresas, priva todo o setor da popula\u00e7\u00e3o que vive da venda ambulante de produtos por conta pr\u00f3pria nas ruas. O desemprego est\u00e1 avan\u00e7ando rapidamente: 200.000 empregos foram perdidos apenas no setor de turismo<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o governo Rajapaksa respondeu com ajustes e ataques contra os trabalhadores e as massas. Em primeiro lugar, contra os muitos trabalhadores do Estado; em segundo lugar, com o reajuste objetivo que representa a infla\u00e7\u00e3o e sua eros\u00e3o no poder aquisitivo dos sal\u00e1rios e na renda dos aut\u00f4nomos. Para piorar o quadro, ao mesmo tempo reduzia os impostos, o que beneficiava essencialmente a burguesia.<\/p>\n<p>Porque nem todos os setores sociais sofrem igualmente com essa profunda crise. Um artigo de fonte direta nos informa que: \u201cOs 20% mais ricos das fam\u00edlias do Sri Lanka ganham cerca de 53% de toda a renda do pa\u00eds, enquanto os 20% mais pobres recebem apenas 4,5%. As desigualdades s\u00e3o violentas\u2026\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> O pr\u00f3prio cl\u00e3 Rajapaksa enriqueceu-se grosseiramente com propriedades no pa\u00eds, no exterior e com a evas\u00e3o de dinheiro: Gotabaya \u00e9 um dos governantes que aparecem nos \u201cPap\u00e9is do Panam\u00e1\u201d.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p><strong>Irrompe o processo revolucion\u00e1rio <\/strong><\/p>\n<p>Finalmente, a gota d&#8217;\u00e1gua que fez transbordar o copo e a paci\u00eancia dos trabalhadores e do povo foi a acelera\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o e desabastecimento, que j\u00e1 vinham do ano anterior, mas que deram um salto com a guerra na Ucr\u00e2nia, especialmente em energia e alimentos. Essa situa\u00e7\u00e3o de intolerabilidade come\u00e7ou a se expressar claramente a partir do final de mar\u00e7o e in\u00edcio de abril, com as greves nos setores de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica, e com grandes manifesta\u00e7\u00f5es contra o governo. Rajapaksa respondeu &#8220;proibindo&#8221; greves e reprimindo manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_67314\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-67314\" class=\"wp-image-67314 size-large\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Mulheres-Sri-Lanka-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\"><p id=\"caption-attachment-67314\" class=\"wp-caption-text\">(Photo by Ishara S. KODIKARA \/ AFP)<\/p><\/div>\n<p>As mulheres desempenharam um papel muito importante nessa luta porque foram afetadas como oper\u00e1rias em f\u00e1bricas de alimentos e t\u00eaxteis (onde comp\u00f5em a maioria da for\u00e7a de trabalho), como trabalhadoras independentes que ficaram sem produtos para vender e, claro, como m\u00e3es de fam\u00edlia, por causa da infla\u00e7\u00e3o. At\u00e9 a tomada da resid\u00eancia presidencial havia sido precedida por uma \u201cguarda feminina\u201d em seu per\u00edmetro, que foi duramente reprimida pelo governo.<\/p>\n<p>No entanto, a repress\u00e3o n\u00e3o conseguiu deter o processo revolucion\u00e1rio, que continuou, cresceu e radicalizou-se at\u00e9 obrig\u00e1-lo a renunciar. Foi um primeiro triunfo importante deste processo revolucion\u00e1rio. Falamos de uma primeira vit\u00f3ria (ou de uma vit\u00f3ria parcial) porque as causas profundas dessa situa\u00e7\u00e3o permanecem intactas: o capitalismo semicolonial e suas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sobre esta quest\u00e3o institucional, Gotabaya entregou sua ren\u00fancia ao parlamento burgu\u00eas. Ao mesmo tempo, o parlamento n\u00e3o aceitou a ren\u00fancia do primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe (cuja casa foi incendiada pelas massas). Pelo contr\u00e1rio, a maioria das bancadas parlamentares pediu-lhe &#8220;para tomar as r\u00e9deas do governo e continuar as conversa\u00e7\u00f5es com o Fundo Monet\u00e1rio Internacional&#8221; enquanto se forma &#8220;um governo de unidade nacional&#8221;.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>Em outras palavras, o poder permanece nesta institui\u00e7\u00e3o burguesa do capitalismo semicolonial cuja pol\u00edtica \u00e9 manter essa semicoloniza\u00e7\u00e3o capitalista (as \u201cconversa\u00e7\u00f5es com o FMI\u201d), agora com todos os partidos burgueses juntos. Ao mesmo tempo, esses partidos tentar\u00e3o convencer as massas de que, com a sa\u00edda de Rajapaksa, \u201cas coisas est\u00e3o resolvidas\u201d.<\/p>\n<p>Como vimos, isso est\u00e1 longe de ser o caso, o que significa que este primeiro triunfo da luta revolucion\u00e1ria das massas do Sri Lanka deve ser um trampolim para continuar essa luta e avan\u00e7ar seus objetivos para uma mudan\u00e7a total das institui\u00e7\u00f5es do pa\u00eds e da base econ\u00f4mico-social capitalista semicolonial.<\/p>\n<p><strong>Quais seriam as tarefas?<\/strong><\/p>\n<p>Ao formular as tarefas, tomaremos os cuidados que apontamos no in\u00edcio devido \u00e0 dist\u00e2ncia e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o direta. Mas, ao mesmo tempo, h\u00e1 toda uma experi\u00eancia hist\u00f3rica, expressa em elabora\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e program\u00e1ticas do marxismo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Dissemos que o Sri Lanka \u00e9 um pa\u00eds capitalista semicolonial pobre que hoje vive em uma terr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica (n\u00e3o pode nem comprar o petr\u00f3leo de que precisa) que aumenta o sofrimento di\u00e1rio dos trabalhadores e das massas a um n\u00edvel intoler\u00e1vel. Nestas condi\u00e7\u00f5es, vemos ser necess\u00e1rio que, no curso da luta, as massas do Sri Lanka formem o que, em outros pa\u00edses, tem sido chamado de Plano Oper\u00e1rio e Popular de Emerg\u00eancia que, com base nos recursos dispon\u00edveis, defina prioridades em sua utiliza\u00e7\u00e3o. Primeiro, a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades urgentes dos trabalhadores e das massas (como alimentos e combust\u00edvel).<\/p>\n<p>Entre outras medidas que se aparecem como essenciais, este plano dever\u00e1 partir do N\u00e3o Pagamento da D\u00edvida Externa e do fim das &#8220;conversa\u00e7\u00f5es&#8221; com o FMI e incluir a expropria\u00e7\u00e3o de bens obtidos legal e ilegalmente pelo cl\u00e3 Rajapaksa e outros cl\u00e3s burgueses, a instala\u00e7\u00e3o de impostos progressivos sobre a burguesia e o controle oper\u00e1rio e popular da produ\u00e7\u00e3o e da cadeia de comercializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Especificamente, diante da minoria t\u00e2mil oprimida, \u00e9 necess\u00e1rio que os trabalhadores e as massas cingalesas n\u00e3o caiam na armadilha burguesa do nacionalismo antit\u00e2mil e entendam que essa minoria deve ter o direito de autodetermina\u00e7\u00e3o. No \u00e2mbito do reconhecimento deste direito, podem propor a constitui\u00e7\u00e3o de regi\u00f5es aut\u00f4nomas que fazem parte de uma federa\u00e7\u00e3o unificada, livremente constitu\u00edda pelo povo t\u00e2mil.<\/p>\n<p>Voltando ao Plano de Emerg\u00eancia dos Trabalhadores e do Povo, \u00e9 evidente que as atuais institui\u00e7\u00f5es semicoloniais do pa\u00eds n\u00e3o est\u00e3o dispostas a aplicar nenhuma dessas medidas. Talvez, se a luta o impuser, eles ser\u00e3o for\u00e7ados a aplicar parcialmente alguns deles. Mas ser\u00e1 para ganhar tempo e voltar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel \u00e0s \u201cconversa\u00e7\u00f5es\u201d com o FMI, ou seja, com o imperialismo.<\/p>\n<p>Um plano com essas caracter\u00edsticas s\u00f3 pode ser aplicado como um todo se os trabalhadores e as massas avan\u00e7arem para a tomada do poder e a constru\u00e7\u00e3o de um novo Estado, cujas a\u00e7\u00f5es, como o pr\u00f3prio Plano, estejam precisamente destinadas a satisfazer suas necessidades prementes.<\/p>\n<p>Isso levanta uma necessidade que \u00e9 presente e futura. No calor da luta, os trabalhadores e as massas precisam construir e centralizar organiza\u00e7\u00f5es que, com um funcionamento baseado na democracia oper\u00e1ria, mantenham e promovam a luta e, nesse processo de luta, avancem na consci\u00eancia da profundidade das mudan\u00e7as necess\u00e1rias (a tomada do poder para aplicar esse Plano de Emerg\u00eancia). Nesse sentido, construindo essas organiza\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas de luta, os trabalhadores e as massas do Sri Lanka estariam construindo as institui\u00e7\u00f5es que constituiriam as bases de um novo tipo de Estado.<\/p>\n<p>Neste ponto, \u00e9 necess\u00e1rio expor duas conclus\u00f5es (propostas) que surgem dessa experi\u00eancia hist\u00f3rica, te\u00f3rica e program\u00e1tica a que nos referimos. A primeira delas (que surge da experi\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917) \u00e9 que nesses processos \u00e9 preciso construir um partido revolucion\u00e1rio que promova de forma consciente e consistente a luta at\u00e9 o fim, ou seja, rumo \u00e0 tomada do poder e a constru\u00e7\u00e3o de um novo tipo de Estado.<\/p>\n<p>A mais radicalizada das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que promovem as mobiliza\u00e7\u00f5es, e que vem ganhando peso, \u00e9 a JVP (sigla em cingal\u00eas para a Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Popular) que, segundo uma reportagem citada anteriormente, \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o de &#8220;esquerda nacionalista, stalinistas e mao\u00edsta\u201d com um programa e uma estrat\u00e9gia totalmente limitados \u00e0s suas vis\u00f5es de separa\u00e7\u00e3o em \u201cetapas\u201d dos processos revolucion\u00e1rios<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Com organiza\u00e7\u00f5es como a JVP, por seu papel ativo nesse processo de luta, fica muito n\u00edtido que estaria colocada a unidade de a\u00e7\u00e3o para impulsion\u00e1-lo. Mas, ao mesmo tempo, \u00e9 necess\u00e1rio um profundo debate sobre suas concep\u00e7\u00f5es, programa e estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o de grande import\u00e2ncia \u00e9 que o Sri Lanka \u00e9 um pa\u00eds pequeno e pobre. Ainda que avance para a constru\u00e7\u00e3o de um Estado oper\u00e1rio, se permanecer isolado (ainda mais diante dos inevit\u00e1veis \u200b\u200bataques de todo tipo do imperialismo), sua experi\u00eancia, se limitada \u00e0s fronteiras nacionais, estaria fadada a sucumbir. Portanto, seria necess\u00e1rio que esse processo revolucion\u00e1rio se expandisse conscientemente para outros pa\u00edses. Especialmente em rela\u00e7\u00e3o ao seu gigantesco vizinho, a \u00cdndia.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ver entre outros os artigos e reportagens em: https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-internacional-62107038<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ver Sri Lanka: Colapso econ\u00f4mico e levante da classe trabalhadora em: <a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/67161-2\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/67161-2\/<\/a> e <a href=\"https:\/\/workersvoiceus.org\/2022\/04\/14\/sri-lanka-an-economic-massacre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/workersvoiceus.org\/2022\/04\/14\/sri-lanka-an-economic-massacre\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <a href=\"https:\/\/kripkit.com\/puerto-de-hambantota\/#:~:text=El%20puerto%20de%20Hambantota%20est%C3%A1%20construido%20en%20el,Banco%20EXIM%20de%20la%20Rep%C3%BAblica%20Popular%20de%20China.\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Puerto de Hambantota &#8211; Historia | KripKit<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> https:\/\/capiremov.org\/es\/analisis\/la-crisis-constitucional-en-sri-lanka-y-la-lucha-por-un-nuevo-gobierno\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Idem<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> https:\/\/www.antilavadodedinero.com\/como-la-pareja-de-sri-lanka-acumulo-casas-de-lujo-obras-de-arte-y-efectivo-en-el-extranjero\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> https:\/\/www.asianews.it\/noticias-es\/Colombo:-la-oposici%C3%B3n-propone-un-gobierno-de-unidad-nacional-56234.html<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Ver https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Janatha_Vimukthi_Peramuna<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 poucos dias, a m\u00eddia de todo o mundo mostrou como uma multid\u00e3o enfurecida tomou a resid\u00eancia presidencial em Colombo (capital do pa\u00eds) e for\u00e7ou o odiado presidente Gotabaya Rajapaksa a renunciar. 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