{"id":71224,"date":"2020-11-03T16:07:51","date_gmt":"2020-11-03T19:07:51","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62297"},"modified":"2020-11-03T16:07:51","modified_gmt":"2020-11-03T19:07:51","slug":"to-jest-wojna-isto-e-guerra-a-luta-das-mulheres-polonesas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/11\/03\/to-jest-wojna-isto-e-guerra-a-luta-das-mulheres-polonesas\/","title":{"rendered":"To jest wojna! (Isto \u00e9 guerra!). A luta das mulheres polonesas"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cIsto \u00e9 guerra!\u201d com este grito de luta as mulheres polonesas reagiram ao en\u00e9simo ataque \u00e0 lei sobre aborto por parte do governo. Depois das mobiliza\u00e7\u00f5es de 2016, que impediram a primeira tentativa de reforma de uma das leis sobre aborto mais restritivas da Europa, as mulheres polonesas ocupam de novo ruas e pra\u00e7as, dando um exemplo de luta a todo o mundo.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Laura Sguazzabia<br \/>\n<strong>Os ataques ao direito ao aborto<\/strong><br \/>\nDurante anos, o governo conservador polon\u00eas, com o apoio da Igreja cat\u00f3lica, das organiza\u00e7\u00f5es pr\u00f3-vida e da extrema direita, tentou privar as mulheres, inclusive do mais m\u00ednimo, direito ao aborto. Um direito j\u00e1 quase inexistente no pa\u00eds desde princ\u00edpios dos anos 90: at\u00e9 agora esteve liberado s\u00f3 em casos de viol\u00eancia sexual e incesto, graves anomalias do feto e se a vida da m\u00e3e estivesse em perigo. \u00a0H\u00e1 quatro anos, com uma proposta legislativa tentou-se anular tamb\u00e9m estas exce\u00e7\u00f5es: a proposta chegou ao parlamento, mas milhares de mulheres polonesas (e n\u00e3o s\u00f3 elas) sa\u00edram \u00e0s ruas, em outubro de 2016, em todas as cidades, vestidas de luto. Uma mar\u00e9 negra. Foi a \u201cCzarny protest\u201d. O governo deu um passo atr\u00e1s, mas sem dar-se por vencido. Confiando no isolamento social derivado da pandemia, esperou para aprovar em total sil\u00eancio a revis\u00e3o da lei, tentando fazer em um \u00f3rg\u00e3o judicial o que era imposs\u00edvel a n\u00edvel governamental.<br \/>\nAssim, na quinta-feira 22 de outubro de 2020, o Tribunal Constitucional polon\u00eas, cuja presidente Julia Prylebska \u00e9 fiel ao governo, estabeleceu que o aborto \u00e9 inconstitucional tamb\u00e9m no caso em que o feto tenha graves malforma\u00e7\u00f5es. N\u00e3o obstante, ainda que a senten\u00e7a n\u00e3o tenha sido transformada em lei at\u00e9 agora, as cl\u00ednicas j\u00e1 come\u00e7aram a cancelar a agenda de quem estava na lista para a interrup\u00e7\u00e3o da gravidez. Dado que a maior parte dos abortos legais que ocorrem no pa\u00eds \u00e9 com esta base, a senten\u00e7a significa que oficialmente n\u00e3o se far\u00e1 quase nenhum aborto na Pol\u00f4nia: o risco \u00e9 que se d\u00ea um aumento de abortos clandestinos. Os abortos oficialmente praticados ao ano est\u00e3o entre 1.000 e 2.000 e 90% s\u00e3o justificados por malforma\u00e7\u00f5es fetais, mas se estima que o total chega a 80.000 ao ano: a enorme maioria, de fato, \u00e9 clandestina ou no exterior, uma possibilidade como esta j\u00e1 muito limitada pelos altos custos que s\u00e3o inacess\u00edveis para a maior parte das trabalhadoras, impratic\u00e1veis em tempos de pandemia.<br \/>\n<strong>A mobiliza\u00e7\u00e3o das mulheres<\/strong><br \/>\nA rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o se fez esperar: no dia seguinte da senten\u00e7a, passando por cima da proibi\u00e7\u00e3o de reuni\u00e3o imposta pelas normas sanit\u00e1rias na pandemia, as mulheres irromperam nas ruas e pra\u00e7as para manifestarem seu descontentamento. E n\u00e3o se detiveram mais.<br \/>\nNa sexta-feira \u00e0 noite, dezenas de milhares de pessoas protestaram em Vars\u00f3via e encheram as principais pra\u00e7as de muitas outras cidades do pa\u00eds. Os protestos continuaram no fim de semana, chegando inclusive em localidades muito pequenas, povoados e aldeias. Os objetivos dos manifestantes foram os s\u00edmbolos da repress\u00e3o: os edif\u00edcios institucionais, as sedes do partido do governo, as igrejas com a interrup\u00e7\u00e3o de of\u00edcios religiosos (fato excepcional na cat\u00f3lica Pol\u00f4nia). A pol\u00edcia tentou em v\u00e3o dispersar os manifestantes com repress\u00e3o e lan\u00e7ando gases lacrimog\u00eaneos ou listando os supostos dirigentes do movimento. Mas o movimento cresceu apesar da dura repress\u00e3o policial e a ordem de isolamento pela Covid que se reduziu, como pretexto de 10 para 5 pessoas. E o movimento n\u00e3o aumentou s\u00f3 numericamente, mas se difundiu e ampliou, com mulheres trabalhadoras e muit\u00edssimas jovens na vanguarda.<br \/>\nNo domingo, os agricultores com seus tratores uniram-se ao protesto de mulheres em Nowy Dwor Gdanski, no norte da Pol\u00f4nia, uma zona notoriamente forte do partido do governo. Taxistas, pequenos comerciantes e numerosos m\u00e9dicos participaram com a\u00e7\u00f5es em diversas localidades e at\u00e9 membros das for\u00e7as da pol\u00edcia (em sua maioria mulheres) aplaudiram os manifestantes.<br \/>\nNa quarta-feira, a greve nacional de mulheres, apoiada por numerosos sindicatos, e a possibilidade nos locais de trabalho de aproveitar o \u201ctempo livre\u201d (um dos modos na Pol\u00f4nia para lutar sem arriscar a demiss\u00e3o), teve uma participa\u00e7\u00e3o alt\u00edssima de trabalhadoras e trabalhadores do setor p\u00fablico e do privado, o fechamento por aus\u00eancia de funcion\u00e1rios e estudantes de numerosas escolas e universidades. Causou furor o apoio dado por alguns altos funcion\u00e1rios do Estado at\u00e9 o dia de hoje, entre eles a filha do presidente Duda: provavelmente, um modo de devolver o protesto \u00e0 via institucional. Manifesta\u00e7\u00f5es imponentes de protesto foram realizadas em toda a Pol\u00f4nia, de Vars\u00f3via, Crac\u00f3via, Wroclaw, Szczecin e Lodz at\u00e9 os pequenos povoados das campinas \u2013 um evento in\u00e9dito para as \u00e1reas rurais, tradicionalmente conservadoras \u2013 assim como em numerosas capitais do mundo em sinal de solidariedade.<br \/>\n<strong>Um protesto que cresce<\/strong><br \/>\nMais uma vez, as mulheres polonesas se converteram em protagonistas de uma luta que nestes dias est\u00e1 adquirindo dimens\u00f5es e caracter\u00edsticas extraordin\u00e1rias. O protesto na Pol\u00f4nia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 das mulheres: ainda que atacar seu direito de escolha seja o objetivo principal, h\u00e1 outras quest\u00f5es colocadas no cotidiano dos manifestantes, como por exemplo o p\u00e9ssimo estado da assist\u00eancia de sa\u00fade p\u00fablica, a falta de pol\u00edticas sociais efetivas a favor da fam\u00edlia, os baixos sal\u00e1rios e a falta de contratos de trabalho em longo prazo que colocam a maioria da sociedade (especialmente as mulheres) em uma posi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria. A impress\u00e3o \u00e9 que chegou at\u00e9 aqui o exemplo das massas da Belarus que h\u00e1 semanas est\u00e3o rebeladas.<br \/>\nO que acontece agora se converteu em um fato nacional contra o governo que se encontra em tal dificuldade que deve recorrer \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito para reprimir o \u00edmpeto dos manifestantes. Uma grande dificuldade que pode levar a n\u00e3o transforma\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a em lei e, como j\u00e1 mencionaram ambas as partes, \u00e0 possibilidade de um en\u00e9simo compromisso sobre a quest\u00e3o do aborto, ou seja, a proposta de submeter \u00e0 senten\u00e7a \u00e0 opini\u00e3o popular atrav\u00e9s de um referendo. A porta voz da maior organiza\u00e7\u00e3o envolvida no movimento polon\u00eas disse estar contra esta hip\u00f3tese, sobretudo por temor de um \u00eaxito da consulta condicionado pelo controle do partido do governo sobre os meios de comunica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQualquer que seja a legisla\u00e7\u00e3o sobre aborto que se aprove na Pol\u00f4nia, \u00e9 um fato, demonstrado tamb\u00e9m pelas estat\u00edsticas, que as mulheres continuar\u00e3o abortando, mas clandestinamente. Em outras palavras, a penaliza\u00e7\u00e3o do aborto n\u00e3o implica que as mulheres desistam de abortar, mas que s\u00f3 o far\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es menos seguras e com consequ\u00eancias muito graves. O ataque \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 hoje mais violento do que nunca e responde a uma l\u00f3gica precisa de orienta\u00e7\u00e3o social e manejo econ\u00f4mico da crise, agora agudizada pela pandemia: atrav\u00e9s desta e outras manobras se tenta relegar \u00e0 mulher a gest\u00e3o no \u00e2mbito familiar e delegar \u00e0 fam\u00edlia fun\u00e7\u00f5es que deveriam estar a cargo da comunidade.<br \/>\n<strong>Junto com as mulheres polonesas!<\/strong><br \/>\nExpressamos toda nossa solidariedade revolucion\u00e1ria \u00e0 luta das mulheres polonesas, que se prolonga por dias e que n\u00e3o mostra sinais de diminuir: com este artigo queremos tamb\u00e9m combater a ofensiva da imprensa burguesa que mistifica seu alcance. \u00c9 evidente a tentativa de alguns partidos de tentar, pela en\u00e9sima vez, canalizar o protesto para uma fracassada via reformista. Para quem conhece a hist\u00f3ria, n\u00e3o a escrita nos manuais burgueses, mas aquela que os testemunhos dos participantes narram, as mulheres polonesas iniciaram espontaneamente uma luta que tem muita semelhan\u00e7a, tanto nas motiva\u00e7\u00f5es como no desenvolvimento, com as dos oper\u00e1rios t\u00eaxteis de Vyborg, um sub\u00farbio industrial de S\u00e3o Petersburgo, em fevereiro de 1917: com sua greve, com sua marcha ao grito de \u201cP\u00e3o e Paz\u201d para a Duma, com sua capacidade de convocar outros trabalhadores, foram a fa\u00edsca desse caminho revolucion\u00e1rio que levou o povo russo \u00e0 tomada do poder em Outubro de 1917 e que viu as mulheres obterem condi\u00e7\u00f5es de vida e direitos at\u00e9 ent\u00e3o inimagin\u00e1veis inclusive no pa\u00eds capitalista mais evolu\u00eddo.<br \/>\nO sistema econ\u00f4mico e social no qual vivemos hoje n\u00e3o tem para oferecer \u00e0s mulheres nada mais que opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, guerra, mis\u00e9ria e morte. Atrav\u00e9s de pol\u00edticas de controle de sua capacidade reprodutiva, precariza\u00e7\u00e3o e baixos sal\u00e1rios, falta de servi\u00e7os e de assist\u00eancia sanit\u00e1ria, em concord\u00e2ncia com governos de todas as orienta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, o capitalismo sempre reduziu mais as possibilidades de escolha para as mulheres, de uma vida digna para elas, para seus pr\u00f3prios filhos e para toda a classe trabalhadora. Os ataques aos direitos das mulheres s\u00e3o um ataque \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida de todos os trabalhadores: \u00e9 necess\u00e1rio, assim como est\u00e1 ocorrendo espontaneamente na Pol\u00f4nia, unir os esfor\u00e7os de todas e todos para derrubar este sistema para a realiza\u00e7\u00e3o de um mundo que coloque a vida das pessoas no centro.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o italiano\/espanhol: Nat\u00e1lia Estrada; espanhol\/portugu\u00eas: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cIsto \u00e9 guerra!\u201d com este grito de luta as mulheres polonesas reagiram ao en\u00e9simo ataque \u00e0 lei sobre aborto por parte do governo. 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