{"id":71208,"date":"2020-10-08T16:43:51","date_gmt":"2020-10-08T19:43:51","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=62017"},"modified":"2020-10-08T16:43:51","modified_gmt":"2020-10-08T19:43:51","slug":"valeu-quino-longa-vida-mafalda-a-humanidade-agradece","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2020\/10\/08\/valeu-quino-longa-vida-mafalda-a-humanidade-agradece\/","title":{"rendered":"Valeu, Quino! Longa vida, Mafalda! A humanidade agradece!"},"content":{"rendered":"<p><em>Joaqu\u00edn Salvador Lavado Tej\u00f3n, o cartunista argentino Quino, faleceu, aos 88 anos, v\u00edtima de um acidente vascular cerebral (AVC), em 30 de setembro passado, causando uma onda de lamentos e homenagens que, literalmente, varreu o mundo, muito em fun\u00e7\u00e3o de sua cria\u00e7\u00e3o mais conhecida, a esperta, curiosa, inquieta e desconcertante Mafalda.<\/em><br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor: Wilson Hon\u00f3rio da Silva<br \/>\nHomenagens mais do que justas e merecidas, j\u00e1 que Quino, com certeza, deixou sua marca na Hist\u00f3ria. E, diga-se de passagem, \u00e9 impressionante que tenha feita isto principalmente com uma personagem que, a priori, viveu entre 1964 e 1973.<br \/>\nAfinal, num mundo marcado por aquilo que o historiador Eric Hobsbawm chamou de \u201cpresente\u00edsmo\u201d; ou seja, a \u201cdestrui\u00e7\u00e3o do passado\u201d e o aprisionamento da humanidade em um tipo de \u201cpresente cont\u00ednuo\u201d, uma ditadura do \u201caqui e agora\u201d, frutos diretos do infeliz casamento do destrutivo imediatismo neoliberal e das ideologias p\u00f3s-modernas, n\u00e3o \u00e9 pouca coisa que Mafalda, sua fam\u00edlia e amigos (pra al\u00e9m de outras cria\u00e7\u00f5es de Quino) continuem estampando \u201cmemes\u201d, camisetas, cartazes de protestos, pra al\u00e9m de serem publicadas e republicadas em mais de 30 idiomas.<br \/>\n<strong>Quino, o humanismo na ponta do l\u00e1pis<\/strong><br \/>\nNascido na cidade de Mendoza, em 17 de julho de 1932, filhos de pais naturais da Andaluzia, na Espanha, Quino enveredou muito cedo pelo desenho e depois de uma breve passagem pela Escola de Belas Artes de sua cidade natal, e sem concluir o curso, passou a se dedicar inteiramente \u00e0s hist\u00f3rias em quadrinhos, mudando-se, aos 18 anos, para Buenos Aires, para tentar ganhar a vida publicando suas cria\u00e7\u00f5es em jornais da capital.<br \/>\nBatalhando pra ganhar a vida, em 1963 aceitou uma proposta tentadora de criar uma personagem para a campanha publicit\u00e1ria de uma firma de eletrodom\u00e9sticos. Foi assim que nasceu Mafalda e sua fam\u00edlia que, contudo, foram recusadas pelo cliente.<br \/>\nO projeto ficou engavetado at\u00e9 setembro do ano seguinte, quando a menina atrevida reganhou vida nas p\u00e1ginas do semin\u00e1rio \u201cPrimeira Plana\u201d. Um ano depois, Mafalda migrou para seis edi\u00e7\u00f5es semanais no \u201cEl Mundo\u201d, um dos jornais mais importantes da \u00e9poca. E o resto \u00e9 Hist\u00f3ria. Mafalda ilustrou \u00e1lbuns e colet\u00e2neas, foi traduzida mundo afora e chegou \u00e0s telas em desenhos animados.<br \/>\nUma hist\u00f3ria que poderia ter acabado em julho de 1973, quando Quino publicou sua \u00faltima tirinha. Oficialmente, a alega\u00e7\u00e3o era que precisava dar um tempo. Contudo, o fato de ter se exilado na Espanha pouco depois, em 1976, parece ser mais relevante. Mafalda, como veremos, j\u00e1 incomodava a muitos.<br \/>\nO fato \u00e9 que, em 1977, a personagem virou \u201ccelebridade\u201d internacional, ao ser escolhida pelo Fundo de Emerg\u00eancia Internacional das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (Unicef) para estampar a \u201cDeclara\u00e7\u00e3o dos Direitos da Crian\u00e7as\u201d.<br \/>\nMas, sua perman\u00eancia entre n\u00f3s, at\u00e9 hoje, tem a ver com algo muito mais importante que a \u201cfama\u201d. Mafalda \u00e9 atemporal, porque Quino foi demasiadamente humano e, como sintetizou a cartunista Laerte, sou como poucos traduzir isto para o mundo dos HQs: \u201cQuino nos ensinou que \u00e9 poss\u00edvel tratar dos problemas de fundo da sociedade e, ao mesmo tempo, retratar nosso entorno, o sujeito da padaria, o vizinho, os amiguinhos dos nossos filhos\u2026 (\u2026) \u00c9 dif\u00edcil encontrar quem consiga construir um paralelo como esse, sem ser algo t\u00e3o sanitizado [higienizado, tamb\u00e9m no sentido de preso aos padr\u00f5es \u2018aceit\u00e1veis\u2019] como fazem os norte-americanos\u201d.<br \/>\n<strong>Muito de uma \u00e9poca, um pouco de todos n\u00f3s<\/strong><br \/>\nMafalda \u00e9 fruto das contradi\u00e7\u00f5es t\u00edpicas de sua \u00e9poca. \u00c9 prima-irm\u00e3 da juventude rebelde do Maio Franc\u00eas, companheira das mulheres que romperam padr\u00f5es com suas minissaias e queimas de suti\u00e3s; solid\u00e1ria com negros e vietnamitas, atenta \u00e0 fome na \u00c1frica, inimiga da gan\u00e2ncia capitalista. Sua sintonia com o mundo, diga-se passagem, deu origem a alguns de seus melhores momentos, em suas impag\u00e1veis conversas com o globo terrestre.<br \/>\nAl\u00e9m disso, os que a cercam s\u00e3o, ao mesmo tempo, express\u00f5es das contradi\u00e7\u00f5es daquele per\u00edodo mas, tamb\u00e9m, daquilo que paira sobre n\u00f3s at\u00e9 hoje. Afinal, vivemos sob o mesm\u00edssimo capitalismo. Para al\u00e9m de seus pais, permanentemente desconcertados pela filha contestadora, seus amigos s\u00e3o, como a Laerte disse, gente com quem a gente pode trombar todos os dias.<br \/>\nSusanita, para o horror do feminismo precoce da protagonista, parece ter despencado de uma telenovela para viver, ainda na inf\u00e2ncia, o sonho-ilus\u00e3o do pr\u00edncipe encantado e dos filhos obedientes que lhe garantam o futuro. J\u00e1 o capitalista-mirim Manolito, filho do dono da mercearia, que, com seu racioc\u00ednio lento e tortuoso, s\u00f3 pensa em lucros e \u00e9 porta-voz de um conservadorismo estampado do corte de cabelo ao terninho infantil \u00e9 contraponto constante para a rebeldia antissistema e a esperteza debochada e c\u00ednica de Mafalda.<br \/>\nFilipe \u00e9 um sonhador Filipe, avesso ao estudo formal, mas dono de uma encantadora sensibilidade. E duas figurinhas que surgiram nos anos finais tamb\u00e9m ecoavam aqueles rebeldes, mas repercutem at\u00e9 hoje: Miguelito, o amante de jazz, meio largad\u00e3o e fil\u00f3sofo diletante, e Libertad, uma existencialista, educada por uma m\u00e3e aficionada por Sartre, cuja ess\u00eancia est\u00e1 no pr\u00f3prio nome.<br \/>\n<strong>Nuestra hermanita<\/strong><br \/>\nPara aqueles e aquelas que viveram e militaram entre o final dos anos 1960 e 1970, Mafalda, ainda, \u00e9 um s\u00edmbolo de algo important\u00edssimo: a resist\u00eancia latino-americana \u00e0s sanguin\u00e1rias ditaduras militares que infectaram n\u00e3o s\u00f3 o nosso continente.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 um acaso que tenha sido censurada por aqui, mas tamb\u00e9m pela ditadura do general Franco, na Espanha. Como tamb\u00e9m vale lembrar o lament\u00e1vel epis\u00f3dio, em 1976, quando um cartaz com o desenho em que Mafalda aponta para um cassetete policial, chamando de \u201cbast\u00e3o pra amassar ideologias\u201d (traduzido, aqui, como \u201cborracha pra apagar ideologias\u201d), foi colocado, pelos militares, ao lado dos corpos torturados e chacinados de tr\u00eas padres e dois seminaristas que atuavam na luta contra a canalhada militar.<br \/>\nNa \u00e9poca, Mafalda j\u00e1 era quase como uma militante clandestina, cujos originais circulavam de pa\u00eds para pa\u00eds, levados nas bagagens de gente que se exilava ou ia \u00e0 luta nos pa\u00edses vizinhos. Tamb\u00e9m foi assim no Brasil, quando \u201cnuestra hermanita\u201d, ao lado dos trabalhos de gente como Henfil, ilustrou milhares de panfletos, boletins, cartazes e camisetas, nas lutas contra a ditadura.<br \/>\nPor estas e tantas outras, s\u00f3 podemos agradecer a Quino. E desejar que Mafalda continue nos inspirando at\u00e9 que, juntos, possamos celebrar, tamb\u00e9m, com ela, um mundo que seja liberto de tudo aquilo que sempre a irritou tremendamente e contra o\u00a0 que ela se rebelou de forma t\u00e3o inesquec\u00edvel.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joaqu\u00edn Salvador Lavado Tej\u00f3n, o cartunista argentino Quino, faleceu, aos 88 anos, v\u00edtima de um acidente vascular cerebral (AVC), em 30 de setembro passado, causando uma onda de lamentos e homenagens que, literalmente, varreu o mundo, muito em fun\u00e7\u00e3o de sua cria\u00e7\u00e3o mais conhecida, a esperta, curiosa, inquieta e desconcertante Mafalda.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":70765,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[38],"tags":[5856,5857,1692,1693,735],"class_list":["post-71208","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","tag-homenagem-a-quino","tag-joaquin-salvador-lavado-tejon","tag-mafalda","tag-quino","tag-wilson-honorio-da-silva"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Quino-e-Mafalda-1068x712-1-1.jpg","categories_names":["Cultura"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71208","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=71208"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71208\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70765"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=71208"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=71208"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=71208"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}