{"id":70542,"date":"2022-05-24T09:53:16","date_gmt":"2022-05-24T12:53:16","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=66968"},"modified":"2022-05-24T09:53:16","modified_gmt":"2022-05-24T12:53:16","slug":"os-chamados-retornos-espontaneos-das-mulheres-ucranianas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/05\/24\/os-chamados-retornos-espontaneos-das-mulheres-ucranianas\/","title":{"rendered":"Os chamados \u00abretornos espont\u00e2neos\u00bb das mulheres ucranianas"},"content":{"rendered":"<p>Desde o in\u00edcio da invas\u00e3o russa na Ucr\u00e2nia, foram milhares de refugiados em movimento em dire\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses em busca de seguran\u00e7a (sem considerar todos os deslocamentos internos das zonas de interesse dos combatentes \u00e0quelas mais seguras). Trata-se em sua maioria de mulheres, crian\u00e7as e idosos em condi\u00e7\u00f5es de se mover. No entanto, da metade de abril para c\u00e1, estamos vendo um novo fen\u00f4meno para um cen\u00e1rio de guerra: muitas dessas mulheres e dessas crian\u00e7as est\u00e3o voltando para as suas casas, n\u00e3o obstante o fim do conflito pare\u00e7a ainda distante. <!--more--><\/p>\n<p><!--more--> Por: Laura Sguazzabia<\/p>\n<p><strong>Por que retornam?<\/strong><\/p>\n<p>Segundo um relato do Servi\u00e7o de Guarda das fronteiras ucranianas, s\u00e3o cerca de 30.000 as pessoas que todos os dias retornam para a Ucr\u00e2nia, a maioria s\u00e3o mulheres e crian\u00e7as, diferente do que acontecia nos primeiros dias do conflito, quando os homens eram a maioria dos que retornavam \u00e0 p\u00e1tria para pegar em armas e colocar-se entre as fileiras do ex\u00e9rcito. At\u00e9 os volunt\u00e1rios no vilarejo polon\u00eas de Medyka, na fronteira com a Ucr\u00e2nia, confirmaram ao <em>Guardian<\/em> terem visto se intensificar o fluxo de pessoas que voltam. Uma situa\u00e7\u00e3o confirmada tamb\u00e9m por associa\u00e7\u00f5es italianas: segundo a estimativa chegou-se a 25% de retornos sobre as chegadas semanais.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es que impulsionam essas pessoas a voltarem para a Ucr\u00e2nia, um pa\u00eds ainda em guerra, s\u00e3o diversas. H\u00e1 quem retorne porque o conflito se deslocou para regi\u00f5es diferentes da sua resid\u00eancia. H\u00e1 quem retorne para reencontrar-se com os familiares. H\u00e1, no entanto, quem retorne simplesmente porque quer voltar, apesar de tudo. Mas s\u00e3o, sobretudo, muitas mulheres que voltam porque n\u00e3o sabem o que fazer para permanecer no exterior por tanto tempo sem recursos econ\u00f4micos para se sustentar, mesmo sabendo muito bem dos riscos que podem encontrar.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o principal desses retornos est\u00e1 ligada \u00e0 quest\u00e3o econ\u00f4mica. Porque os pa\u00edses estrangeiros que as acolheram, n\u00e3o conseguem garantir uma coloca\u00e7\u00e3o est\u00e1vel: a fase da acolhida \u00e9 breve e s\u00f3 garante condi\u00e7\u00f5es essenciais, para tempos mais longos a prote\u00e7\u00e3o diminui. A esperan\u00e7a de muitos era que essa guerra durasse pouco, mas agora, que percebemos que continuar\u00e1 por um longo per\u00edodo, muitas mulheres decidiram retornar porque n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas \u2013 nem lhes foram oferecidas \u2013 para permanecer no exterior por tanto tempo. Preferem voltar debaixo de bombas a viver em paz de migalhas e esmolas.<\/p>\n<p>E sobre esses chamados \u201cregressos espont\u00e2neos\u201d se levantou o coro dos cumprimentos pela coragem e a dignidade demonstrada. Os mesmos lugares comuns da \u201cintelectualidade\u201d burguesa que aplaudem a coragem e a dignidade dessas mulheres como se isso pudesse realmente proteg\u00ea-las dos estupros, das bombas ou da morte, e que n\u00e3o veem \u2013 ou fingem que n\u00e3o veem \u2013 as responsabilidades de um sistema que assiste em sil\u00eancio a agress\u00e3o \u00e0 Ucr\u00e2nia e lava a consci\u00eancia com uma acolhida de fachada.<\/p>\n<p><strong>A burocracia \u00e9 o verdadeiro problema!<\/strong><\/p>\n<p>Entre as justificativas para os problemas ligados \u00e0 perman\u00eancia nos territ\u00f3rios estrangeiros, est\u00e1 a lentid\u00e3o da burocracia que impede que muitas mulheres consigam rapidamente a prote\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria e assim os aux\u00edlios estatais. Mas j\u00e1 havia muita lentid\u00e3o antes mesmo da guerra na Ucr\u00e2nia. Na It\u00e1lia, por exemplo, existem muitas trabalhadoras ucranianas que ainda esperam a autoriza\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia da justi\u00e7a desde o ver\u00e3o de 2020. A It\u00e1lia \u00e9 o primeiro pa\u00eds europeu em presen\u00e7a de cidad\u00e3os ucranianos: 236.000 pessoas, dos quais 77,6% s\u00e3o mulheres e 65% est\u00e3o empregadas nos servi\u00e7os de cuidado \u00e0 pessoa. O decreto de 2020, em plena emerg\u00eancia pand\u00eamica, havia aberto as portas da regulariza\u00e7\u00e3o a mais de 200.000 trabalhadores, dos quais 85% apenas no setor dom\u00e9stico. Mas a norma estabelecia que quem estava \u00e0 espera da autoriza\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia n\u00e3o poderia deixar o territ\u00f3rio nacional. O problema \u00e9 que, enquanto na prefeitura a burocracia \u00e9 realizada lentamente, quem fez a solicita\u00e7\u00e3o h\u00e1 quase dois anos est\u00e1 de fato preso na It\u00e1lia. E com a explos\u00e3o da guerra a situa\u00e7\u00e3o se agravou. Sobretudo considerando a situa\u00e7\u00e3o ucraniana, com 18.639 solicita\u00e7\u00f5es feitas, \u00e9 a primeira nacionalidade entre os trabalhadores que aderiram \u00e0 regulariza\u00e7\u00e3o no setor dom\u00e9stico para sair do trabalho ilegal ou informal.<\/p>\n<p>Muitas dessas mulheres, empregadas por fam\u00edlias italianas como faxineiras e cuidadoras, gostariam de sair da It\u00e1lia para se juntar aos filhos e parentes que fogem das bombas russas e lev\u00e1-los a um lugar seguro. Mas, como dito, a norma prev\u00ea que n\u00e3o podem deixar a It\u00e1lia at\u00e9 a completa resolu\u00e7\u00e3o do processo para o direito de perman\u00eancia. San\u00e7\u00e3o: a recusa do pedido de regulariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da agress\u00e3o russa em 24 de fevereiro, muitas trabalhadoras ucranianas na It\u00e1lia n\u00e3o pensaram duas vezes e se juntaram aos familiares nas fronteiras entre a Pol\u00f4nia e a Ucr\u00e2nia, mesmo conhecendo o risco para o qual estariam indo ao encontro. A esperar, sobretudo filhos pequenos, acompanhados pelos pais, os quais a lei marcial impede de sa\u00edrem do pa\u00eds. E ao retornarem \u00e0 It\u00e1lia, com o carimbo no passaporte, se viram novamente no ponto de partida. Tantas outras trabalhadoras ucranianas, ao contr\u00e1rio, permaneceram \u201cpresas\u201d na It\u00e1lia e angustiadas pelos familiares em perigo. Decidiram n\u00e3o sair do pa\u00eds para n\u00e3o renunciarem \u00e0 autoriza\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia depois de dois anos de espera.<\/p>\n<p>E mesmo nos casos em que os filhos menores conseguem se juntar \u00e0s m\u00e3es em nosso pa\u00eds &#8211; explica a Associa\u00e7\u00e3o de Estudos Jur\u00eddicos sobre Imigra\u00e7\u00e3o (ASGI) &#8211; para o Estado italiano, de fato, essas imigrantes irregulares s\u00e3o como se n\u00e3o existissem, tornando mais dif\u00edcil at\u00e9 mesmo o reencontro das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>O problema tamb\u00e9m afeta as trabalhadoras que pediram a renova\u00e7\u00e3o da autoriza\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia e j\u00e1 possuem o documento que permite que elas da It\u00e1lia, pois s\u00f3 podem ir e voltar diretamente do pr\u00f3prio pa\u00eds, sem escalas intermedi\u00e1rias. Coisa que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel para os ucranianos que hoje se juntam aos familiares em fuga da guerra pelas fronteiras polonesas, romenas e moldavas.<\/p>\n<p><strong>Assim \u00e9 o capitalismo<\/strong><\/p>\n<p>Os mais cultos comentadores poderiam definir essa situa\u00e7\u00e3o kafkiana: de um lado se esfor\u00e7am para fugir de um cen\u00e1rio de guerra no qual ningu\u00e9m interv\u00e9m e, por outro, com um suspiro reprimido de al\u00edvio e com evidente compaix\u00e3o se aprova o seu \u201cretorno espont\u00e2neo\u201d, justificando-o como ato de coragem e n\u00e3o como uma escolha entre um pior e outro pior ainda\u2026 de um lado se aprova a sua perman\u00eancia na It\u00e1lia para cuidar de filhos e idosos e, do outro, se exige que suportem a separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o uma, mas duas vezes, para se adequar a lei que tutela n\u00e3o os seus interesses, mas aqueles de outros.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tudo isso, esse sistema se baseia sobre esse princ\u00edpio kafkiano. Porque as mulheres sabem bem quanto o capitalismo joga sobre a corda de uma chantagem constante entre um pior e outro pior ainda: as mulheres que s\u00e3o constrangidas a sofrerem viol\u00eancias e abusos para n\u00e3o perderem o posto de trabalho ou os recursos econ\u00f4micos para sobreviverem sabem muito bem disso. Sabem as mulheres que renunciam a serem m\u00e3es porque n\u00e3o poderiam se permitir um filho, mas que depois s\u00e3o culpabilizadas porque n\u00e3o s\u00e3o m\u00e3es, ou pior ainda, por terem abortado; sabem as mulheres que fazem trabalhos com sal\u00e1rios baix\u00edssimos, prec\u00e1rios e dos quais s\u00e3o afastadas com facilidade, devendo no entanto, agradecer as pol\u00edticas parit\u00e1rias que as colocaram nessa situa\u00e7\u00e3o, iludindo-as de que se tratava de algo para o seu bem\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 nas reformas ou nas decis\u00f5es dos governos que podemos encontrar a nossa liberta\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o de g\u00eanero. Ningu\u00e9m nesse sistema se ocupa de n\u00f3s mulheres prolet\u00e1rias, e infelizmente \u00e9 o que est\u00e3o aprendendo as mulheres ucranianas que com as suas a\u00e7\u00f5es est\u00e3o nos mostrando o caminho a seguir: lutar por uma transforma\u00e7\u00e3o, ao lado dos nossos companheiros, em uma luta comum que nos leve um dia \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do capitalismo e \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o de um novo sistema, o socialismo, que abata toda forma de desigualdade, de discrimina\u00e7\u00e3o, de injusti\u00e7a, por um mundo onde possamos ser \u201csocialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres\u201d.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: N\u00edvia Le\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.partitodialternativacomunista.org\/doppie-oppressioni\/i-cosiddetti-rientri-spontanei-delle-donne-ucraine\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.partitodialternativacomunista.org\/doppie-oppressioni\/i-cosiddetti-rientri-spontanei-delle-donne-ucraine<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde o in\u00edcio da invas\u00e3o russa na Ucr\u00e2nia, foram milhares de refugiados em movimento em dire\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses em busca de seguran\u00e7a (sem considerar todos os deslocamentos internos das zonas de interesse dos combatentes \u00e0quelas mais seguras). 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