{"id":70541,"date":"2022-05-23T10:52:23","date_gmt":"2022-05-23T13:52:23","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=66958"},"modified":"2022-05-23T10:52:23","modified_gmt":"2022-05-23T13:52:23","slug":"como-foi-revelado-um-massacre-de-quase-300-pessoas-na-siria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/05\/23\/como-foi-revelado-um-massacre-de-quase-300-pessoas-na-siria\/","title":{"rendered":"Como foi revelado um massacre de quase 300 pessoas na S\u00edria"},"content":{"rendered":"<p><em>Publicamos um relato completo sobre a investiga\u00e7\u00e3o de um massacre de 288 s\u00edrios no distrito de Al-Tadamoun em Damasco, S\u00edria. Dois pesquisadores de crimes de guerra enganaram oficiais de intelig\u00eancia de Assad para que confessassem o crime, e uma investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica arrepiante se seguiu.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o foi realizada por Ugur Umit Ungor, professor de estudos do holocausto e genoc\u00eddio da Universidade de Amsterd\u00e3 e no Instituto NIOD em Amsterd\u00e3; e Annsar Shahhoud que tem mestrado em estudos do holocausto e genoc\u00eddio. Sua pesquisa se concentra na viol\u00eancia estatal na S\u00edria.<\/p>\n<p>O artigo foi publicado por <a href=\"http:\/\/newslinesmag.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/newslinesmag.com <\/a>em 27\/04\/22 e em \u00e1rabe pelo Al Jumhuriya Collective.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>V\u00eddeos vazados mostram em detalhes assustadores e sem precedentes militares s\u00edrios cometendo um massacre em 2013 de 288 civis, incluindo sete mulheres e 12 crian\u00e7as. Nos 27 v\u00eddeos, que vazaram para os autores em 2019, mostram as diferentes etapas do massacre, inclusive com os rostos de militares que parecem estar \u00e0 vontade para as c\u00e2meras e ter total consci\u00eancia do que estavam fazendo antes de executar seus prisioneiros civis a sangue frio. Uma investiga\u00e7\u00e3o posterior que durou dois anos, com base em dados p\u00fablicos e in\u00fameras entrevistas, incluindo alguns dos carrascos que continuaram servindo como oficiais de elite da unidade de intelig\u00eancia militar da S\u00edria, revelou que o massacre ocorreu em 16 de abril de 2013, em Damasco, no distrito de Tadamon. A filmagem lan\u00e7a luz sobre o funcionamento interno de um regime que dependia de execu\u00e7\u00f5es em massa sistem\u00e1ticas de civis, al\u00e9m do bombardeio indiscriminado de \u00e1reas civis durante a guerra de 11 anos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A revista New Lines adquiriu detalhes desta investiga\u00e7\u00e3o e verificou a autenticidade das filmagens e provas apresentadas pelos autores.<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento, o debate p\u00fablico concentrou sua aten\u00e7\u00e3o nos confrontos da guerra, ou nos bombardeios impiedosos e ataques a\u00e9reos em territ\u00f3rios controlados pela oposi\u00e7\u00e3o.\u00a0 Mas os bairros sob controle do regime, do outro lado das trincheiras, foram relativamente negligenciados. Os v\u00eddeos do massacre de Tadamon, nossas entrevistas com os que executaram o massacre e as testemunhas sobreviventes demonstram que havia uma opera\u00e7\u00e3o assassina de limpeza em andamento. Conforme aprofundamos nossa pesquisa, percebemos que esse massacre foi uma fotografia de uma pol\u00edtica muito mais ampla de destrui\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio que o regime promoveu nas periferias do Sul. A extens\u00e3o do genoc\u00eddio nesse microcosmo \u00e9 muito maior do que este que foi gravado em v\u00eddeo e inclui pelo menos quatro formas de viol\u00eancia: assassinatos em massa sistem\u00e1ticos, encarceramento, viol\u00eancia sexual e explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Nessa investiga\u00e7\u00e3o, vamos nos focar nos dois principais carrascos mostrados nas filmagens. Eles s\u00e3o Amjad Youssef, 36, que na \u00e9poca do massacre era subtenente, e o agora morto Najib al-Halabi, nascido em 1984, que n\u00e3o tinha nenhuma patente oficial, porque era integrante de uma mil\u00edcia conhecida como For\u00e7a de Defesa Nacional (FDN). Em tr\u00eas v\u00eddeos diferentes, com dura\u00e7\u00e3o de pelo menos 7 minutos cada, esses dois homens aparecem em plena luz do dia enquanto executam 41 civis. Ent\u00e3o, eles desovam os corpos em uma cova pr\u00e9-escavada, preparadas com pneus de carros para a incinera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na filmagem, Youssef \u00e9 visto vestido com uniforme militar verde e um chap\u00e9u de pescador cor de oliva. Ele parece focado, est\u00f3ico e preciso, e trabalha com efici\u00eancia para cumprir sua miss\u00e3o em 25 minutos. Seu irm\u00e3o em armas, Najib, est\u00e1 vestindo um uniforme militar cinza e parece bem \u00e0 vontade, sorrindo, fumando e at\u00e9 conversando diretamente com a lente da c\u00e2mera. Os tiroteios parecem ser uma rotina repetitiva: um dos agentes retira de uma van branca um civil amarrado e com os olhos vendados, e o leva at\u00e9 uma larga cova pr\u00e9-cavada. Outro agente o executa com um tiro de uma AK-47. Algumas poucas v\u00edtimas tomam um tiro de pistola. Os assassinos realizam as execu\u00e7\u00f5es de modo padronizado, como se estivessem seguindo um procedimento padr\u00e3o, falando pouco, exceto quando gritavam ordens para as v\u00edtimas (&#8220;levante-se&#8221;, &#8220;saia&#8221;, &#8220;ande&#8221;, &#8220;corra&#8221;). Um agente est\u00e1 filmando, enquanto os outros dois est\u00e3o atirando. Eles n\u00e3o esbo\u00e7am nenhuma emo\u00e7\u00e3o, mas est\u00e3o claramente gostando do trabalho. Em dado momento, Najib vira a c\u00e2mera para si e, sorrindo, envia uma mensagem de dever cumprido ao seu &#8220;chefe&#8221;: &#8220;sauda\u00e7\u00f5es a voc\u00ea, chefe (\u0645\u0639\u0644\u0645), pelos seus lindos olhos e seu uniforme oliva quando o usa&#8221;. De acordo com nossa pesquisa, a refer\u00eancia a &#8220;lindos olhos&#8221; seria ou para Jamal Ismail, ou para Abu Muntajab, ambos comandantes dos carrascos.<\/p>\n<div style=\"width: 432px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-70541-1\" width=\"432\" height=\"240\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Siria.mp4?_=1\" \/><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Siria.mp4\">http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Siria.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>Os agentes claramente prepararam o local para as condi\u00e7\u00f5es ideais de execu\u00e7\u00e3o, para assassinar as v\u00edtimas e depois queim\u00e1-las sem deixar vest\u00edgios. Eles parecem estar confort\u00e1veis e ter familiaridade com o local do massacre, matando em plena luz do dia, o que sugere que toda a \u00e1rea est\u00e1 sob seu controle. N\u00e3o parecem estar apressados nem preocupados com qualquer amea\u00e7a. Enganam suas v\u00edtimas dizendo que algumas estavam sendo transferidas para outra \u00e1rea e que essa parte da estrada estaria exposta a franco-atiradores (snipers).<\/p>\n<p>&#8220;Sniper, seu desgra\u00e7ado!&#8221; grita Youssef, enquanto arrasta sua v\u00edtima cambaleante para dentro da vala comum, depois atira nele. Com uma das v\u00edtimas ele fica impaciente, culpando-o por n\u00e3o ter morrido nem no primeiro nem no segundo tiro. No terceiro tiro ele se irrita: &#8220;Morre, desgra\u00e7ado! Voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o teve o bastante?&#8221;. O final do v\u00eddeo sugere que o massacre acabou, ent\u00e3o um dos agentes pergunta &#8220;Existem outros?&#8221;, ent\u00e3o h\u00e1 um sil\u00eancio e \u00e9 poss\u00edvel ouvir gemidos fracos que emergem da massa de corpos que est\u00e3o abaixo das botas dos agentes.<\/p>\n<p>Os v\u00eddeos, j\u00e1 chocantes por sua atrocidade, destacam-se por sua brevidade e insensibilidade de todas as milhares de horas de filmagens que vimos em nossas carreiras de pesquisadores sobre viol\u00eancia em massa e genoc\u00eddio, seja na S\u00edria ou qualquer outro lugar. O mais chocante sobre os v\u00eddeos de Tadamon \u00e9 o fato de que os oficiais de intelig\u00eancia que cometeram o massacre estavam uniformizados e a servi\u00e7o; eles se reportam ao presidente Bashar al-Assad em pessoa e, mesmo assim, escolheram mostrar seus rostos nas imagens incriminadoras. Em v\u00e1rios momentos durante o v\u00eddeo, eles olharam diretamente para a c\u00e2mera, aparentando estar relaxados e sorridentes. Ao documentar suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es, utilizam v\u00eddeos com qualidade HD (alta defini\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Em um v\u00eddeo, Youssef \u00e9 visto dirigindo uma escavadora que depois ele usa para cavar a vala comum, que tem aproximadamente 3 metros de profundidade. A rua onde isso ocorre parece bombardeada, e a cena toda parece o resultado da destrui\u00e7\u00e3o em massa por bombardeamento, bombardeio e confrontos. H\u00e1 buracos de bala nas paredes. Voc\u00ea pode ver atrav\u00e9s de um edif\u00edcio. N\u00e3o h\u00e1 sons de guerra: nem bombardeios, nem tiros, nem confrontos. Simplesmente quieto, cortado pelos tiros das execu\u00e7\u00f5es e uma fuma\u00e7a ocasional das armas dos assassinos. O operador da c\u00e2mera disp\u00f5e de tempo para filmar a cena: ele foca principalmente na vala comum. As v\u00edtimas s\u00e3o ent\u00e3o trazidas para dentro do enquadramento e baleadas uma por uma. A vala \u00e9 preenchida rapidamente e se transforma numa confus\u00e3o emaranhada de corpos, roupas, sangue e pneus de carro.<\/p>\n<p>Os olhos das v\u00edtimas est\u00e3o vendados com uma fita adesiva transparente ou com um filme pl\u00e1stico de celofane. Suas m\u00e3os est\u00e3o amarradas com bra\u00e7adeiras de pl\u00e1stico branco, normalmente usadas para amarrar cabos (as mesmas bra\u00e7adeiras usadas pela pol\u00edcia pelo mundo como algemas pl\u00e1sticas). A maioria das v\u00edtimas est\u00e3o vestindo roupas modernas, casuais: jeans e camisas, moletons ou \u201cdishdashas\u201d (vestes brancas longas usadas pelos homens). Alguns est\u00e3o usando pijamas, sugerindo que foram arrancados de suas casas ou de postos de controle de seguran\u00e7a. Algumas v\u00edtimas parecem muito pobres, outros parecem bem vestidos; nenhum parece ter sido gravemente torturado ou como os presos macilentos que o regime mant\u00e9m nos campos de trabalhos for\u00e7ados tipo \u201cgulag\u201d. Eles s\u00e3o d\u00f3ceis e n\u00e3o resistem ou protestam, e seguem as ordens dos perpetradores: saem, caminham, levantam. Todos s\u00e3o baleados, com a exce\u00e7\u00e3o de um velho, que \u00e9 degolado por Youssef.<\/p>\n<p>A maioria das v\u00edtimas morre em sil\u00eancio. Alguns imploram, choram e uivam; outros tentam barganhar, conjurar ou implorar. Nenhuma das v\u00edtimas profere o \u201cShahadah,\u201d o testemunho de f\u00e9 mu\u00e7ulmano, antes da morte. Alguns s\u00e3o chutados ou empurrados para a cova, e ent\u00e3o baleados; alguns s\u00e3o baleados e s\u00f3 ent\u00e3o chutados para a cova; outros s\u00e3o baleados enquanto caem. Uma das v\u00edtimas apela: \u201cPor favor, em nome de Imam Ali,\u201d mas Youssef \u00e9 implac\u00e1vel e o arremessa: \u201cDane-se voc\u00ea, seu filho da puta\u201d. Alguns contratempos ocorrem durante as execu\u00e7\u00f5es: um velho caminha desajeitado na parede ao inv\u00e9s da cova, ent\u00e3o cai nela com uma perna e grita com dor pelo seu pai. Em outro caso, o executor erra uma v\u00edtima, o jovem cai, soltando suas m\u00e3os. Ele esfrega seus olhos mas ent\u00e3o \u00e9 baleado na cabe\u00e7a. Alguns corpos parecem se mover na cova, mas Youssef espreita, aponta sua Kalashnikov com uma m\u00e3o e os despacha com um tiro de miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>As \u00fanicas sete v\u00edtimas mulheres, usando hijabs e sobretudos que caracterizam a vestimenta feminina mul\u00e7umana conservadora, s\u00e3o mortas com uma ferocidade e \u00f3dio que de outra forma os frios assassinos n\u00e3o expressam contra os homens. Fora do enquadramento, uma das mulheres solu\u00e7a, latem para ela:\u201dLevante-se, sua puta!\u201d (!\u0637\u0644\u0639\u064a \u0634\u0631\u0645\u0648\u0637\u0629). Os apelos dela caem em ouvidos moucos, quando \u00e9 arrastada pelos cabelos e despejada no buraco. Duas mulheres gritam incontrolavelmente quando Youssef as chuta para a cova e as executa; outras encaram seu destino em sil\u00eancio. Em outro v\u00eddeo, a c\u00e2mera d\u00e1 uma panor\u00e2mica sobre um grupo de crian\u00e7as mortas, incluindo beb\u00eas que tinham sido esfaqueados ou baleados, deitados num quarto escuro enquanto o operador da c\u00e2mera fala suscintamente:\u201dAs crian\u00e7as dos maiores financistas do bairro de Ruknaddin. Sacrif\u00edcio para a alma do m\u00e1rtir Naim Youssef.\u201d<\/p>\n<p>Embora a vasta maioria das v\u00edtimas fossem Sunni (incluindo turcomanos \u00e9tnicos), alguns poderiam ser Ismaili,provavelmente alvos direcionados por atividades pol\u00edticas ou desobedi\u00eancia, como mostra nossa investiga\u00e7\u00e3o. Julgando a partir da percep\u00e7\u00e3o e atitude dos perpetradores, os homens de meia idade Sunni eram suspeitos por defini\u00e7\u00e3o, a menos que afirmassem sua lealdade e obedi\u00eancia a Assad. De outro modo, eram vistos e tratados como simpatizantes, agentes ocultos ou apoiadores em potencial da oposi\u00e7\u00e3o. A celebra\u00e7\u00e3o dos turcomanos \u00e9tnicos residentes e as boas vindas \u00e0 invas\u00e3o do bairro do Ex\u00e9rcito Livre S\u00edrio supostamente foi prova disso. Mas isso foi uma fantasia exagerada j\u00e1 que todas as v\u00edtimas que n\u00f3s identificamos eram de fam\u00edlias apol\u00edticas, da classe m\u00e9dia trabalhadora. Eles foram presos em Tadamon ou nos postos de controle de seguran\u00e7a ao seu redor, transportados para o local do massacre e executados. Eles provavelmente nunca imaginaram que este n\u00edvel de viol\u00eancia pudesse suceder a eles no que teria sido um dia comum em suas vidas, levando a cabo seus neg\u00f3cios dentro de uma \u00e1rea controlada pelo regime durante os primeiros anos da guerra s\u00edria. E como a atrocidade foi cometida, eles provavelmente nunca entenderam porque isso estava acontecendo com eles.<\/p>\n<p>O bairro de Tadamon est\u00e1 localizado na entrada sul da Damasco antiga. O \u00e1rabe \u201ctadamon\u201d significa \u201csolidariedade\u201d \u2013 originalmente com aqueles que foram deslocados por Israel durante sua invas\u00e3o das Colinas de Golan em 1967. A popula\u00e7\u00e3o deslocada come\u00e7ou a viver na terra ar\u00e1vel no sul de Damasco e constru\u00edram habita\u00e7\u00f5es informais, usando fundos privados sem acesso a subs\u00eddios do estado. A comunidade florescente foi ent\u00e3o oficialmente reconhecida, retroativamente, como parte do bairro de Midan e foi batizada de Tadamon.<\/p>\n<p>Nos anos 1990, ondas de trabalhadores dom\u00e9sticos migrantes aflu\u00edram em massa da periferia do pa\u00eds. A seca de 2003 afetou profundamente o setor agr\u00edcola do pa\u00eds for\u00e7ando muitos fazendeiros a abandonar suas terras num ato desesperado para encontrar um meio de sobreviv\u00eancia em Damasco. Os alde\u00f5es seguiram seus camponeses, e Tadamon absorveu essa cadeia de migra\u00e7\u00e3o interna at\u00e9 se tornar um distrito informal consider\u00e1vel com a maior densidade populacional em Damasco.<\/p>\n<p>A maioria da popula\u00e7\u00e3o era \u00c1rabe Sunni, mas Alau\u00edtas, Druzos, Ismailis, Turcomanos e Curdos tamb\u00e9m a chamaram de lar. A diverg\u00eancia entre essas comunidades estava baseada na sobreposi\u00e7\u00e3o entre suas filia\u00e7\u00f5es sect\u00e1rias e regionais. Por exemplo, Alau\u00edtas na Rua Nisreen eram identificados com seu vilarejo original Ein Feet, enquanto que os Druzos da rua al-Jalaa tinham fugido do Monte Hermon. Para entender a din\u00e2mica da viol\u00eancia em massa em Tadamon, \u00e9 importante olhar para essas divis\u00f5es s\u00f3cio-espaciais que foram formadas pelas comunidades concorrentes.<\/p>\n<p>A grande m\u00eddia s\u00edria referiu-se a Tadamon como a \u201cPequena S\u00edria\u201d, baseada na supostamente fachada\u00a0 secular do regime de Assad e\u00a0 ret\u00f3rica da coexist\u00eancia no pa\u00eds. Mas Tadamon era um espa\u00e7o paradoxal: sim, s\u00edrios de diversas forma\u00e7\u00f5es sect\u00e1rias, \u00e9tnicas, pol\u00edticas e regionais viveram juntos na intimidade, mas era um ambiente tenso que se tornou crescentemente polarizado. Tadamon \u00e9 um dos poucos lugares onde v\u00edtimas e seus perpetradores eram vizinhos diretos.<\/p>\n<p>Como essas complexidades moldaram o conflito? Os segmentos sociais no bairro podem ter causado desconfian\u00e7a entre os diferentes grupos, mas h\u00e1 incont\u00e1veis bairros pelo mundo onde esse \u00e9 o caso. N\u00e3o h\u00e1 nada de especial sobre coexist\u00eancia desconfort\u00e1vel. Mas foi apenas sob um processo de polariza\u00e7\u00e3o insidiosa em 2011 que o regime s\u00edrio foi capaz de fomentar antagonismo e escaladas de tens\u00f5es entre as comunidades estabelecidas historicamente. Essa crescente polariza\u00e7\u00e3o extrema entre vizinhos refletiu nos padr\u00f5es de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando as manifesta\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a aparecer em v\u00e1rios bairros de Damasco na primavera de 2011, Tadamon testemunhou protestos p\u00fablicos pac\u00edficos que foram curtos, espor\u00e1dicos e \u00e0s vezes ca\u00f3ticos. O movimento de protesto efetivamente dividiu os interesses dos grupos voltados para a regi\u00e3o, e a um dado momento, havia tr\u00eas Comit\u00eas de Coordena\u00e7\u00e3o Local diferentes. Divis\u00f5es semelhantes podiam ser vistas entre as comunidades pr\u00f3 \u2013 Assad, que se dividiram em mil\u00edcias concorrentes. No fim, a \u00e1rea foi dividida em pelo menos 13 terrenos (para)militares separados, controlados por v\u00e1rios senhores da guerra. Do ver\u00e3o de 2011 em diante, Tadamon, tamb\u00e9m, experimentou o familiar ciclo de protestos de oposi\u00e7\u00e3o: repress\u00e3o do regime, militariza\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o, escalada do regime.<\/p>\n<p>A resposta do regime \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es em 2011 foi estabelecer a \u201cShabbiha,\u201d uma mil\u00edcia legalista que reprimiu violentamente os protestos de massa. Vestidos com equipamentos civis e desproporcionalmente provenientes dos jovens de minorias \u00e9tnicas, a Shabbiha invadiu bairros, dispersou manifesta\u00e7\u00f5es e cometeu crimes contra a propriedade, tortura, rapto, assassinatos e massacres. Enquanto a Shabbiha parece ter surgido do nada, foi o regime que endossou, incitou, dirigiu e gradualmente organizou e reorganizou-os atrav\u00e9s de seu elaborado sistema de patronato. Estava claro que o regime estabeleceu essas mil\u00edcias\u00a0 para fazer o trabalho sujo com nega\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel. Em 2011, a Shabbiha foi formalizada dentro da FDN (For\u00e7a de Defesa Nacional) e recebeu impunidade para estabelecer postos de controle de seguran\u00e7a,\u00a0 assim como prender e deter pessoas e durante as manifesta\u00e7\u00f5es, tinham licen\u00e7a para matar. Um dos perpetradores em Tadamon era um superior Shabbiha.<\/p>\n<p>Enquanto o regime de Assad era altamente experiente e competente em repress\u00e3o contra civis, era menos h\u00e1bil\u00a0 na guerra, e isso ficou demonstrado em 2012. O regime perdeu progressivamente territ\u00f3rio atrav\u00e9s da S\u00edria, e no in\u00edcio de 2013, metade do pa\u00eds estava sob controle de v\u00e1rios grupos rebeldes. Na \u00e1rea mais ampla de Damasco tamb\u00e9m, a linha de frente aproximou-se da cidade uma vez que a maior parte Leste de Goutha e os sub\u00farbios ao sul estavam nas m\u00e3os dos rebeldes. Em fevereiro, for\u00e7as rebeldes lan\u00e7aram um ataque coordenado em larga escala em Kafr Souseh do sul e Jobar do leste. Se a ofensiva tivesse sido bem sucedida, os rebeldes estariam a uma dist\u00e2ncia de um assobio das maiores ag\u00eancias de intelig\u00eancia do regime em Kafr Souseh. A ofensiva falhou, mas o espectro de uma derrota em potencial emergiu grande, e mais importante: a linha de frente agora tinha alcan\u00e7ado Tadamon.<\/p>\n<p>Como a <em>New Lines <\/em>veio a possuir informa\u00e7\u00e3o sobre o massacre de Tadamon?<\/p>\n<p>Em Junho de 2019, \u00dcng\u00f6r estava assistindo a uma confer\u00eancia acad\u00eamica em Paris sobre os usos acad\u00eamicos de v\u00eddeos em depoimentos de sobreviventes e testemunhas de viol\u00eancia em massa. Ele tinha preparado uma apresenta\u00e7\u00e3o sobre como analisar as tomadas de v\u00eddeo de e por perpetradores. Enquanto ele estava esperando pelo seu painel, um amigo s\u00edrio morando em Paris ligou e queria encontr\u00e1-lo urgentemente. Eles se encontraram imediatamente, sentaram no fundo de um caf\u00e9 calmo quando seu amigo puxou seu smartphone e incitou \u00dcng\u00f6r a assistir o v\u00eddeo. O que ele viu neste e em v\u00eddeos subsequentes chocou at\u00e9 mesmo a n\u00f3s, pesquisadores experientes da viol\u00eancia em massa e atrocidades: a Intelig\u00eancia Militar S\u00edria e a NDF conduziram uma extermina\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de civis no bairro de Tadamon em 2013 e al\u00e9m.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos com a principal execu\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo em si. E havia uma boa pista para o hor\u00e1rio preciso do massacre, j\u00e1 que um dos arquivos do v\u00eddeo tinha um carimbo da hora de 16-4-2013. Localizar o local exato dos assassinatos foi mais dif\u00edcil: a cova coletiva foi escavada numa rua bem estreita, e a arquitetura e o desenho urbano sugeriam que era em algum lugar nos sub\u00farbios de Damasco, mas se era no Leste de Ghouta ou nos distritos ao sul n\u00e3o estava claro. Vimos um pouco mais que aquele edif\u00edcio diretamente em frente ao buraco da execu\u00e7\u00e3o tinha um balc\u00e3o azul e um telhado vermelho, e uma parede tinha um trabalho art\u00edstico de palmeira. De outra forma, a \u00e1rea inteira estava totalmente bombardeada e nada era reconhec\u00edvel: nem loja, sinaliza\u00e7\u00e3o ou ponto de refer\u00eancia eram vis\u00edveis. Mas depois de assistir o v\u00eddeo in\u00fameras vezes, notamos graffiti em uma das paredes atr\u00e1s do perpetrador. \u201cConquista da cidade de Yalda, 14\/3\/2012\u201d. Este texto, pintado com spray mais provavelmente por fac\u00e7\u00f5es rebeldes, sugeria que a localiza\u00e7\u00e3o poderia ser ao sul da cidade de Yalda, que caiu para os rebeldes por pouco tempo em 2012. (Pensando depois, n\u00f3s est\u00e1vamos errados e um amigo nos apontou que aquele graffiti vermelho resultou para dizer \u201cCarimbo da municipalidade\u201d e a localiza\u00e7\u00e3o era no distrito vizinho da classe trabalhadora de Tadamon, mas a dica foi um come\u00e7o, porque Yalda fica bem no sul de Tadamon). O graffiti nos levou a alcan\u00e7ar os ativistas da oposi\u00e7\u00e3o e fac\u00e7\u00f5es rebeldes que foram ativos l\u00e1.<\/p>\n<p>Uma vez que n\u00e3o pod\u00edamos viajar para a S\u00edria, pedimos ajuda de um assistente de pesquisa que possu\u00eda a compet\u00eancia t\u00e9cnica e as redes nas comunidades das v\u00edtimas. Ele discretamente olhou e gravou a \u00e1rea, procurou pelas v\u00edtimas e organizou entrevistas confidenciais com os sobreviventes. Estas entrevistas foram realizadas via sofware relativamente seguro, e os nomes dos entrevistados e informa\u00e7\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o foram compartilhadas separadamente e apagadas das grava\u00e7\u00f5es. Seguimos r\u00edgidas medidas de seguran\u00e7a cibern\u00e9tica. Tamb\u00e9m conduzimos entrevistas digitais com testemunhas, espectadores, defensores dos direitos humanos e ex- combatentes do Ex\u00e9rcito Livre S\u00edrio. Tamb\u00e9m cumprimos nosso dever fiduci\u00e1rio como pesquisadores acad\u00eamicos com base na Holanda e informamos a pol\u00edcia holandesa que t\u00ednhamos esses v\u00eddeos na nossa posse.<\/p>\n<p>Durante nossa pesquisa encontramos in\u00fameras pessoas que identificaram a localiza\u00e7\u00e3o da rua na qual o massacre foi desenvolvido como Rua Daboul em Tadamon, baseado em instant\u00e2neos dos v\u00eddeos que mostramos para eles. Os relatos convergiram para localizar o local pr\u00f3ximo \u00e0 Mesquita Othman na via al-Biradi , uma \u00e1rea que estava sob o controle do regime durante todo o conflito. O bairro foi dividido em duas partes por uma linha de frente relativamente est\u00e1vel que, em 16 de Abril de 2013, passou atrav\u00e9s da Mesquita Othman para o Cinema al-Najoum. Aqui, atingimos nossos limites na identifica\u00e7\u00e3o precisa da rua, ent\u00e3o pedimos assist\u00eancia t\u00e9cnica de geolocaliza\u00e7\u00e3o e analistas de c\u00f3digo aberto. Os especialistas forneceram prova conclusiva, baseados em nove pilares do edif\u00edcio pr\u00f3ximo ao buraco, que confirmaram nossa suposi\u00e7\u00e3o de que os massacres de fato aconteceram pr\u00f3ximos \u00e0 Mesquita Othman em Tadamon.<\/p>\n<p>Mas, quem eram esses perpetradores? Por que os dois principais assassinos usavam dois uniformes diferentes? Sugeria duas ag\u00eancias diferentes no trabalho, mas eles n\u00e3o tinham nenhuma ins\u00edgnia ou adesivos nos seus ombros. Seus sotaques sugeriam apenas ocasionalmente um dialeto regional j\u00e1 que eles falavam principalmente \u00e1rabe s\u00edrio \u201cneutro\u201d que poderia passar por damasceno ou o sotaque de um funcion\u00e1rio m\u00e9dio do governo em e em torno de Damasco independentemente da origem, e nada do que eles disseram forneceu qualquer pista para suas identidades pessoais ou profissionais, j\u00e1 que ningu\u00e9m se dirigiu a outra pessoa. A tarefa \u00e0 frente era desanimadora: t\u00ednhamos que encontrar as ag\u00eancias respons\u00e1veis pelo bairro e tentar localiz\u00e1-las online, ou na m\u00eddia pr\u00f3-regime ou nos opacos grupos online do Facebook das ag\u00eancias de intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Desde 2011,\u00a0 o Facebook tem sido uma plataforma popular entre os s\u00edrios pr\u00f3- regime, incluindo perpetradores, que frequentemente postam suas est\u00f3rias e fotos de seus camaradas falecidos. A quest\u00e3o chave era: como pod\u00edamos obter informa\u00e7\u00e3o deles sem arriscar a seguran\u00e7a de algu\u00e9m? Tivemos sorte: em 2018, j\u00e1 t\u00ednhamos criado um perfil no Facebook de uma jovem, pr\u00f3- regime de uma fam\u00edlia classe m\u00e9dia alau\u00edta de Homs, \u201cAnna\u201d. O prop\u00f3sito desta identidade assumida era observar de perto os perpetradores s\u00edrios no seu ambiente online e aproxim\u00e1-los diretamente para entrevist\u00e1-los. Cuidadosamente fabricamos a personalidade de Anna e as postagens no Facebook para encaixar no ecossistema dos perpetradores: eles n\u00e3o duvidariam dos motivos de uma garota classe m\u00e9dia alu\u00edta de Homs que estava estudando no exterior e pesquisando o conflito. O perfil foi um estrondoso sucesso: conseguimos entrevistar d\u00fazias de perpetradores de Assad, incluindo alguns de n\u00edvel relativamente alto.<\/p>\n<p>Quando encontramos por acaso o v\u00eddeo do massacre de Tadamon, Anna j\u00e1 estava bem incorporada nos c\u00edrculos pr\u00f3-regime: sua lista de amigos inclu\u00eda soldados, militares, oficiais , donos de neg\u00f3cios, jornalistas e at\u00e9 agentes da intelig\u00eancia. Considerando o profisssionalismo rotineiro desses assassinatos, a proemin\u00eancia das ag\u00eancias de intelig\u00eancia dentro do quadro do regime de Assad, e a sensibilidade e discri\u00e7\u00e3o que tal opera\u00e7\u00e3o de assassinato em massa requeriria, era prov\u00e1vel que pelo menos um dos atiradores fosse de uma ag\u00eancia de intelig\u00eancia. Uma vez que analisamos as faces dos assassinos (mais do que era saud\u00e1vel para n\u00f3s), come\u00e7amos a navegar nas p\u00e1ginas do Facebook do ex\u00e9rcito, intelig\u00eancia e mil\u00edcias que eram ativas no bairro de Yalda e no sul de Damasco de modo mais abrangente. Talvez tromb\u00e1ssemos com uma face familiar. Mas era como procurar agulha em palheiro: n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos nome, n\u00famero da ag\u00eancia e muito poucas outras pistas. Nossos entrevistados reconheciam o atirador principal mas se referiam a ele pelo apelido operacional gen\u00e9rico de\u201cAbu Ali\u201d\u00a0 dos\u00a0 Mukhabarat (servi\u00e7os de intelig\u00eancia) e n\u00e3o lembravam seu nome completo ou qualquer outro detalhe. Por meses, procuramos em v\u00e3o, e nossa paci\u00eancia crescentemente se transformou em desespero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, um dia, reconhecemos o atirador principal em uma foto da Ag\u00eancia Distrital da Intelig\u00eancia Militar tamb\u00e9m conhecida como Ag\u00eancia 227.<\/p>\n<p>O executor principal, Youssef, \u00e9 claramente reconhec\u00edvel por uma cicatriz horizontal na sua sobrancelha esquerda. No v\u00eddeo do massacre, ele tinha\u00a0 olhado diretamente para a c\u00e2mera, e a imagem era clar\u00edssima. Antes de enviar-lhe uma solicita\u00e7\u00e3o de amizade, n\u00f3s navegamos atrav\u00e9s de suas postagens, muitas das quais eram p\u00fablicas. Definitivamente era ele. Sua apar\u00eancia f\u00edsica tinha se transformado um pouco: o corpo fino e muito magro do atirador vestido com uniforme de combate militar tornou-se mais musculoso. Seu perfil no Facebook era de um comum e t\u00edpico perpetrador s\u00edrio: retratos do Assad pai e filho, instant\u00e2neos de seus amigos, imagens pitorescas de seu vilarejo, selfies malhando na academia, e o mais importante: uma postagem melanc\u00f3lica na qual ele lamenta a morte de seu amigo e colega, Halabi, claramente o segundo atirador. Est\u00e1vamos exultantes: encontramos ambos \u201cnossos perpetradores\u201d.<\/p>\n<p>Ele aceitou a solicita\u00e7\u00e3o de amizade de Anna no Facebook e estava cauteloso, mas tamb\u00e9m claramente curioso como e porque Anna o alcan\u00e7ou. Quando explicamos a ele, em termos vagos, atrav\u00e9s da persona de Anna, que est\u00e1vamos conduzindo uma pesquisa acad\u00eamica no curso do conflito e que ele parecia estar \u201cno ex\u00e9rcito\u201d, ele concordou em falar conosco.\u00a0 Ao longo de um per\u00edodo de seis meses, papeamos e falamos com Youssef diversas vezes, e conduzimos duas longas entrevistas de v\u00eddeo com ele. Durante a primeira entrevista, ele estava na ag\u00eancia, sentado \u00e0 mesa de trabalho, usando roupa de gin\u00e1stica e uma jaqueta preta com um retrato de Assad na parede atr\u00e1s dele. Esta foi a primeira conversa\u00e7\u00e3o para nos conhecermos, e\u00a0 explicitamente n\u00e3o usamos o termo usual \u201cmuqabala\u201d (entrevista) mas a palavra \u201cta \u2018aruf\u201d (apresenta\u00e7\u00e3o). Ele estava um pouco tenso, e depois da troca usual de amabilidades, questionou Anna mais do que Anna era capaz de question\u00e1-lo. Mas seu comportamento em si tamb\u00e9m era objeto de nossa pesquisa. Afinal, Anna tinha na sua tela um perpetrador real sentado \u00e0 sua mesa de trabalho. Ele tinha um computador em seu escrit\u00f3rio e pediu caf\u00e9 sempre que queria. Por fim, pareceu convencido e concordou com uma segunda conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta segunda entrevista foi muito mais informativa e interessante. Falamos tarde da noite, quando Youssef estava na sua casa no sof\u00e1 vestido com uma camiseta sem mangas branca enquanto fumava um cigarro atr\u00e1s do outro, bebendo e beliscando um pepino. Ele nos disse que nasceu em 1986 no vilarejo alau\u00edte de Nebaa Tayyib no distrito de Ghab no centro-oeste da S\u00edria, cerca de 40 milhas a noroeste de Hama. O filho mais velho de uma fam\u00edlia misturada de 10 irm\u00e3os, que foram criados rigidamente para honrar a heran\u00e7a religiosa da fam\u00edlia de seu bisav\u00f4, um proeminente sheik. Junto com seus irm\u00e3os e irm\u00e3s, Youssef praticou com frequ\u00eancia os rituais religiosos no templo sagrado alau\u00edte, Bani Hashim, fora da cidade.<\/p>\n<p>Youssef nos contou que em 2004, ingressou na Academia de Intelig\u00eancia Militar em Maysalun no distrito de al-Dimass em Damasco e passou por um treinamento intensivo de nove meses. Para Youssef de 18 anos, trabalhar para a Intelig\u00eancia Militar era sua melhor oportunidade de viver uma vida diferente de seus ancestrais, que tinham sofrido as dificuldades em trabalhar nos campos de tabaco e lutaram para ganhar a vida. Youssef tinha sonhado em ter uma vida classe m\u00e9dia decente: uma casa, um carro, uma fam\u00edlia. Youssef tamb\u00e9m tinha um desejo secreto de libertar-se de seu pai, um distante sheik alau\u00edta e um ex- agente da intelig\u00eancia militar. Mas trabalhando para a Mukhabarat\u00a0 apenas solidificou suas liga\u00e7\u00f5es com a comunidade pr\u00f3 \u2013 regime, e ele se tornou um \u201cfilho da institui\u00e7\u00e3o\u201d, como ele colocou. Contr\u00e1rio \u00e0 sua ambi\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia, agora era \u201ctal pai, tal filho\u201d, disse ele com uma ponta de resigna\u00e7\u00e3o. Nas nossas entrevistas, mesmo na sua idade atual de 36 anos, ele ainda expressou um profundo medo de seu pai, e de acordo com um de seus conhecidos, ele nunca ousou fumar na presen\u00e7a de seu pai. Durante os anos 2000, Youssef se saiu bem em sua carreira.Ele subiu firmemente de posi\u00e7\u00e3o e tornou-se um interrogador ajudante oficial com uma rotina de hor\u00e1rio de trabalho na ag\u00eancia.\u00a0 Em 2011, ele estava trabalhando para a Ag\u00eancia Distrital 227, uma sinistra organiza\u00e7\u00e3o baseada em Kafr Souseh, e era respons\u00e1vel pela pris\u00e3o, tortura e assassinato de centenas de oponentes pol\u00edticos do regime. Se seu duro treinamento o brutalizou, ent\u00e3o seu trabalho como interrogador na ag\u00eancia deve t\u00ea-lo habituado mais a cometer atos de viol\u00eancia contra companheiros s\u00edrios. O levante de 2011 deve ter mudado mais sua vida. Ele foi enviado para o departamento de opera\u00e7\u00f5es e designado para comandar a opera\u00e7\u00e3o militar nas linhas de frente na parte sul de Damasco. De 2011 at\u00e9 junho de 2021, ele era o oficial respons\u00e1vel pela seguran\u00e7a na linha de frente nos distritos de Tadamon e Yarmouk. H\u00e1 algumas imagens de propaganda dessas opera\u00e7\u00f5es, e Youssef \u00e9 vis\u00edvel em um videoclip, olhos fortemente franzidos, cigarro em sua m\u00e3o, enquanto conversa com um grupo de combatentes prontos para atacar Tadamon.<\/p>\n<p>Durante nossas entrevistas, Youssef censurava nosso uso do termo Mukhabarat e, ao inv\u00e9s, nos admoestava a usar o termo \u201cex\u00e9rcito\u201d ou \u201cfor\u00e7as armadas\u201d: N\u00e3o h\u00e1 nada na crise chamada intelig\u00eancia: \u00e9 tudo ex\u00e9rcito. Eu sou um oficial da intelig\u00eancia. Eu trabalhei como o ex\u00e9rcito trabalhou. Meu trabalho era o do ex\u00e9rcito. Meu trabalho n\u00e3o \u00e9 briga de rua e incurs\u00f5es e bombas, etc. Esse era meu trabalho na crise. N\u00e3o havia nada na crise chamada intelig\u00eancia. \u00c9ramos todos ex\u00e9rcito; nosso trabalho era o mesmo trabalho.<\/p>\n<p>Sua rea\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica \u00e0 pr\u00f3pria palavra \u201cMukhabarat\u201d falava por si: n\u00e3o denotava nega\u00e7\u00e3o de sua exist\u00eancia mas falava da natureza tabu e secreta das ag\u00eancias de intelig\u00eancia na S\u00edria. Uma conversa aberta sobre elas era claramente n\u00e3o permitida, embora ele discutisse outros t\u00f3picos tabus como sectarismo. Isso poderia estar relacionado com a auto imagem de Youssef. Ele deixou claro principalmente que se via como \u201cibn al-muassasa\u201d (filho da institui\u00e7\u00e3o). Por um lado, isso significava que ele estava mergulhado na tradi\u00e7\u00e3o e cultura da Intelig\u00eancia Militar e que sua lealdade era primeiro de tudo a aquela ag\u00eancia, acima e al\u00e9m de qualquer lealdade sect\u00e1ria ou regional. Por outro lado, ele era bem literalmente um filho da institui\u00e7\u00e3o pelo seu pai ter sido um oficial militar que serviu no ex\u00e9rcito por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Outro importante tabu que lan\u00e7ava uma sombra nas entrevistas era o massacre em si. Em nenhum momento durante os primeiros poucos meses de entrevistas e outras comunica\u00e7\u00f5es com ele n\u00f3s sugerimos que t\u00ednhamos visto o v\u00eddeo ou est\u00e1vamos a par de seus crimes. Conforme ele explicava sua vis\u00e3o nas causas e cursos do conflito, tornou-se evidente que ele estava particularmente tocado e radicalizado pela morte de seu irm\u00e3o mais novo, que morreu servindo no ex\u00e9rcito em 1 de janeiro de 2013. Neste ponto da entrevista, ele se tornou mais emocional, come\u00e7ou a vadiar com seu isqueiro e murmurou: \u201cEu me vinguei, n\u00e3o estou mentindo para voc\u00ea, eu me vinguei, eu matei. Matei muito. Eu matei muito, eu n\u00e3o sei quantos eu matei\u201d.<\/p>\n<p>Depois de alguns meses, n\u00f3s o confrontamos com o massacre e deixamos que ele soubesse que t\u00ednhamos visto as imagens. Primeiro, ele negou que fosse ele no v\u00eddeo. Depois, disse que estava apenas prendendo algu\u00e9m. Finalmente, ele chegou na justifica\u00e7\u00e3o de que era seu trabalho e expressou seu contentamento: \u201cEstou orgulhoso dos meus feitos\u201d.<\/p>\n<p>Por que Youssef concordou em falar conosco por tanto tempo? Provavelmente foi um misto de curiosidade, solid\u00e3o e frustra\u00e7\u00e3o. Desde que a guerra acabou, em uma vit\u00f3ria p\u00edrrica e exaust\u00e3o econ\u00f4mica, os perpetradores de Assad com frequ\u00eancia vivem silenciosamente com suas mem\u00f3rias, bebendo araq e fumando um cigarro atr\u00e1s do outro. Ele tamb\u00e9m estava descontente com as recentes reorganiza\u00e7\u00f5es no trabalho, j\u00e1 que ele foi removido de sua posi\u00e7\u00e3o como comandante de opera\u00e7\u00f5es em Tadamon e Yarmouk e recolocado no enfadonho trabalho de escrit\u00f3rio na ag\u00eancia. A sua confiss\u00e3o do massacre em massa em Tadamon n\u00e3o foi inteiramente surpreendente: sua esposa e filhos provavelmente n\u00e3o sabiam de nada, e provavelmente n\u00f3s \u00e9ramos os \u00fanicos que alguma vez perguntamos a ele a respeito. Quando n\u00f3s finalmente revelamos a ele que t\u00ednhamos todos os v\u00eddeos e t\u00ednhamos coletado durante nossa investiga\u00e7\u00e3o um tesouro de informa\u00e7\u00f5es incriminat\u00f3rias contra ele e sua unidade, ele come\u00e7ou a nos amea\u00e7ar \u2013 ou melhor, come\u00e7ou a amea\u00e7ar a persona de Anna:\u201dvenha para Damasco ou voc\u00ea perder\u00e1 tudo o que voc\u00ea ama\u201d, disse com raiva.<\/p>\n<p>Desde os anos 1970, Hafez al-Assad construiu seu imp\u00e9rio de intelig\u00eancia com quatro servi\u00e7os principais: Intelig\u00eancia Geral ou Seguran\u00e7a Estatal, Seguran\u00e7a Pol\u00edtica, Seguran\u00e7a Militar e a Intelig\u00eancia da For\u00e7a A\u00e9rea. Alguns servi\u00e7os tem subdivis\u00f5es, algumas das quais se tornaram eminentemente poderosas por direito pr\u00f3prio e come\u00e7aram a constituir um ator significativo e relativamente independente.<\/p>\n<p>A Mukhabarat s\u00edria \u00e9 t\u00e3o poderosa quanto inating\u00edvel: \u00e9 um ator imensamente poderoso no conflito mas n\u00e3o pesquis\u00e1vel. \u00c9 uma fronteira suicida entrar em Damasco e come\u00e7ar a perguntar sobre as estruturas da Mukhabarat, trabalhos ou impacto (a menos que o regime confie na pessoa). O pessoal da intelig\u00eancia opera sob apelidos ou sob denomina\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas \u201cAbu Haidar,\u201d \u201cAbu Ali\u201d ou \u201cAbu Jaafar,\u201d e \u00e9 estritamente proibido identific\u00e1-los. Esta pr\u00e1tica deliberada pelos servi\u00e7os de intelig\u00eancia s\u00edrios \u00e9 para manter sigilo e induzir medo. Mistifica operativos de intelig\u00eancia e cria mitos exagerados sobre suas pessoas e capacidades. Mas neste v\u00eddeo os perpetradores est\u00e3o flagrantemente vis\u00edveis.<\/p>\n<p>O Distrito Ag\u00eancia, conhecido como Ag\u00eancia 227, \u00e9 respons\u00e1vel pela prov\u00edncia de Damasco e seu interior. No in\u00edcio dos anos 1980, era comandada por not\u00f3rios chefes de espi\u00f5es como Nizar al-Helou (1942-2016), Hisham Ikhtiyar (1941-2012), Rustom Ghazaleh (1953-2015) e Imad Issa. Shafiq Massa era o diretor em 2013. No momento desta reda\u00e7\u00e3o, Kamal al-Hussein\u00a0 dirige a Ag\u00eancia 227. Seu quartel general \u00e9 um edif\u00edcio sinistro em forma de W num complexo da Mukhabarat situado entre a Universidade de Damasco e a pra\u00e7a Umayyad, bem em frente \u00e0 rua do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o Superior.<\/p>\n<p>A lista de amigos de Youssef no Facebook era uma galeria de assassinos. Um de seus contatos no Facebook era Jamal al-Khatib, o mais alto na hierarquia do operativo da Mukhabarat que n\u00f3s j\u00e1 entrevistamos. Originalmente do bairro vizinho de Qadam, o oficial mascarou cuidadosamente uma personalidade cruel atr\u00e1s da figura de um pai ruidoso, alegre com um sorriso contagiante e um cabelo misto de branco, preto e grisalho. Esta pessoa \u00e9 forte o suficiente para enganar qualquer pessoa. Por exemplo, em\u00a0 um relat\u00f3rio da CNN em 3 de dezembro de 2013, ele foi apresentado como \u201cum comandante militar que atende pelo nome de Abu Aksam\u201d j\u00e1 que mostra o rep\u00f3rter da CNN Frederik Pleitgen perto de Sbeineh, bem ao sul de\u00a0 Tadamon. Ele aceitou nossa solicita\u00e7\u00e3o de amizade, e em uma das duas entrevistas confidenciou a Anna: \u201cEstou dizendo algo que n\u00e3o devia. Eu sou o chefe de Youssef\u201d. Ele insistiu em saber quem a colocou em contato com Youssef, chamando -o de \u201c um her\u00f3i, irm\u00e3o de um m\u00e1rtir, definitivamente n\u00e3o uma cabe\u00e7a pequena\u201d. A conversa ent\u00e3o tomou outro rumo quando Anna perguntou a ele sobre supostas viola\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>Anna: Um tempo atr\u00e1s, voc\u00ea me contou sobre reformar detidos em pris\u00f5es, mas a m\u00eddia diz que o regime s\u00edrio matou pessoas em suas pris\u00f5es. E cometeu massacres contra eles?<\/p>\n<p>Jamal al-Khatib: Minha resposta \u00e9 muito simples: por que lev\u00e1-lo \u00e0 pris\u00e3o e mat\u00e1-lo e ent\u00e3o ser acusado de mat\u00e1-lo? Eu prefiro mat\u00e1-lo na rua, e est\u00e1 feito, e ele morreu em batalha. Se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 na minha mira, e voc\u00ea \u00e9 minha inimiga e voc\u00ea est\u00e1 arruinando meu pa\u00eds, por que eu levaria voc\u00ea para a pris\u00e3o e matar voc\u00ea na pris\u00e3o e ent\u00e3o ser acusado de matar voc\u00ea? Esta quest\u00e3o \u00e9 muito perguntada, mas \u00e9 est\u00fapida. Algu\u00e9m que eu possa matar na rua sem ningu\u00e9m me ver, por que eu o traria para minhas pris\u00f5es e lhe daria um n\u00famero, comida, e bebida, e ele \u00e9 um peso para o Estado? Voc\u00ea sabe que eles comem o que n\u00f3s comemos? Eles comem o que n\u00f3s comemos. Por que eu deveria traz\u00ea-lo para comer e beber da minha comida e bebida e \u00e0s custas do Estado, ent\u00e3o eles me acusam disso, de uma forma mais est\u00fapida que isso?&#8230;Quando eu prendo 10 ou 15 homens armados, eles precisam de 30 a 40 soldados para acompanh\u00e1-los. Por que a dificuldade se eu posso mat\u00e1-lo na rua e relaxar? Por que eu deveria mat\u00e1-los na pris\u00e3o? Eu prefiro mat\u00e1-los nos seus locais e terminar com isto.<\/p>\n<p>Agora que t\u00ednhamos o c\u00edrculo da Mukhabarat organizado, e quanto ao outro perpetrador, aquele de uniforme militar cinza? O bra\u00e7o direito de Youssef no v\u00eddeo do massacre era Najib al-Halabi, tamb\u00e9m conhecido como Abu William, que estava marcado em uma postagem do Facebook nos \u201cM\u00e1rtires de Tadamon\u201d.\u00a0 Druzos originalmente de Golan,sua fam\u00edlia foi deslocada para Damasco e ele pr\u00f3prio nasceu e foi criado em Tadamon. Diferentemente de outros residentes em Tadamon, ele era privilegiado e dirigia um clube antes do conflito. Em 2011, ele criou o primeiro grupo Shabbiha em Tadamon e o estacionou bem na Mesquita Othman na linha de frente, o que o fez dele um her\u00f3i aos olhos dos legalistas. Ele tamb\u00e9m parecia de alguma forma ter ganho um n\u00edvel de compet\u00eancia em construir t\u00faneis e cavar buracos e trincheiras, e era com freq\u00fc\u00eancia chamado pelos seus colegas para supervisionar e assessorar nessas atividades na linha de frente ou nos massacres.<\/p>\n<p>Nos v\u00eddeos do massacre, Najib fica na beirada da cova coletiva, fumando um cigarro, sorrindo para a c\u00e2mera, e exibindo o sinal V de vit\u00f3ria. Ele n\u00e3o parece demonstrar ang\u00fastia enquanto comete o massacre contra civis que ele de alguma forma conhecia pessoalmente, j\u00e1 que ele cresceu com eles, de acordo com nossa pesquisa. Baseado tamb\u00e9m em nossa pesquisa sobre sua personalidade, Najib parece ter reunido uma reputa\u00e7\u00e3o por ser humilde e inteligente, um bom ouvinte e geralmente estimado pelas pessoas que o conheceram. Aparentemente, ele nunca mostrou seu \u00f3dio ou lado oculto \u00e0 ningu\u00e9m: \u201cvoc\u00ea n\u00e3o saberia que ele faria isto. Eu fiquei chocado quando vi o v\u00eddeo\u201d, disse uma pessoa que o conheceu. Mas ele tinha inimigos: Najib foi morto durante atividades de escava\u00e7\u00e3o de t\u00faneis na linha de frente em 2015. (Alguns acreditam que era um trabalho interno, mas esse aspecto est\u00e1 al\u00e9m do \u00e2mbito de nossa investiga\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>A Shabbiha foi lan\u00e7ada com a inten\u00e7\u00e3o expressa de n\u00e3o ser rastreada pelas for\u00e7as armadas oficiais do regime. Desta forma, o regime poderia (e pode) argumentar que a viol\u00eancia deles era o trabalho de vigilantes enraivecidos e que n\u00e3o t\u00eam controle sobre eles. Mas em Damasco, as mil\u00edcias s\u00e3o dirigidas por um amigo do pal\u00e1cio, Fadi Saqqar (nome real :Fadi Ahmad), um sem queixo, fumante inveterado, secundarista graduado cujas olheiras profundas, escuras, sob seus olhos traem uma falta constante de sono. Embora ele venha de uma fam\u00edlia privilegiada (seu pai era um ex- oficial da intelig\u00eancia), ele foi preso por corrup\u00e7\u00e3o antes do levante. As conex\u00f5es de seu pai com o regime falharam, e \u00e9 dito que ele matou um companheiro de pris\u00e3o antes de receber um perd\u00e3o presidencial especial porque seus servi\u00e7os eram necess\u00e1rios para as repress\u00f5es de 2011. Ele n\u00e3o apenas estabeleceu a Shabbiha, mas tamb\u00e9m era visto atacando os manifestantes pessoalmente com uma faca e rapidamente tornou-se um intermedi\u00e1rio do regime que fez um n\u00famero de apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas com Assad. Fadi Saggar usurpou poder e se enriqueceu a ponto de mesmo os legalistas de Assad o desprezarem- Youssef, por exemplo, expressou nada mais do que um profundo desprezo por ele.<\/p>\n<p>Entre o soldado raso Najib e o planejador Fadi Saggar situa-se o oficial de comando da Shabbiha por Tadamon, um cinquent\u00e3o chamado Saleh al-Ras, melhor conhecido sob seu apelido Abu Muntajab. Um homem assustador, magricela com um bigode de l\u00e1pis \u2013 diversas mulheres que entrevistamos depois o identificariam como seu estuprador \u2013 Abu Muntajab dirigia um reino de terror em Tadamon e era caracterizado pelos seus colegas como \u201co Hitler da S\u00edria\u201d. Quando Najib recitou uma dedica\u00e7\u00e3o ao \u201cchefe\u201d, ele poderia ter se dirigido ao seu superior direto Abu Muntajab, mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que ele estivesse se dirigindo ao Major &#8211; General Bassam Marhaj al-Hassan, chefe de pessoal das NDF no pal\u00e1cio. Uma pessoa singularmente poderosa na S\u00edria, \u201cTio\u201d parece aos n\u00e3o iniciados como um verdureiro desinteressante no mercado semanal, mas ele exercia tanto poder que poderia anular qualquer decis\u00e3o dos outros comandantes por conta de suas liga\u00e7\u00f5es muito pr\u00f3ximas com Assad. De acordo com numerosas testemunhas que entrevistamos, ele chamava o canal de r\u00e1dio c\u00f3digo 001, que o conectava a Assad, quem uma vez deu ordem de \u201cbombardear o bairro por todos os meios dispon\u00edveis\u201d. Os v\u00eddeos do massacre de Tadamon e nossa pesquisa demonstram conclusivamente a conspira\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o entre a Mukhabarat e a Shabbiha.<\/p>\n<p>Foto: Youssef, de costas para a c\u00e2mera, se prepara para empurrar uma v\u00edtima para a cova\/Fonte<\/p>\n<p>Os v\u00eddeos em m\u00e3os s\u00e3o uma imagem do silencioso processo industrial de assassinatos nas \u00e1reas sob seu controle. Como as partes de oposi\u00e7\u00e3o militarizadas e vencidas de Tadamon em Novembro de 2012, o regime empreendeu um processo inteiro de segrega\u00e7\u00e3o e subjuga\u00e7\u00e3o. Autoriza\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a foram dadas apenas para aqueles que tinham permiss\u00e3o para ficar no bairro perto da Ag\u00eancia 227 da Intelig\u00eancia Militar, atrav\u00e9s do comando da NDF no controle da via. Esta autoriza\u00e7\u00e3o era requesitada para qualquer tipo de atividades, fosse uma viagem para uma emerg\u00eancia de sa\u00fade ou uma visita pessoal a um amigo. Al\u00e9m do mais, a Ag\u00eancia 227 emitia cart\u00f5es de identifica\u00e7\u00e3o especiais para os residentes do bairro. Havia dois tipos de cart\u00f5es de identifica\u00e7\u00e3o: amarelo para os residentes da vizinha Daf al-Shouq e azul para os residentes em Tadamon. Estes cart\u00f5es cont\u00e9m informa\u00e7\u00e3o detalhada sobre o portador do cart\u00e3o, incluindo nome, endere\u00e7o, membros da fam\u00edlia, local de nascimento, etc. Agindo assim, a ag\u00eancia estabeleceu uma vigil\u00e2ncia massiva e coletou informa\u00e7\u00f5es meticulosas sobre os habitantes.<\/p>\n<p>As primeiras v\u00edtimas dos massacres em Tadamon foram levadas de suas casas ou da rua a p\u00e9 para os locais n\u00e3o longe de onde eles viviam, e seus cad\u00e1veres eram deixados no local onde todos poderiam conhec\u00ea-los. Os v\u00eddeos do rescaldo desses incidentes mostram que eles foram baleados a curta dist\u00e2ncia. Estas v\u00edtimas das execu\u00e7\u00f5es em massa do regime foram amplamente esquecidas atrav\u00e9s do curso do conflito. V\u00eddeos do rescaldo desses incidentes foram negligenciados e manipulados na guerra de narrativas entre o regime e a oposi\u00e7\u00e3o. Depois de Novembro de 2012, v\u00edtimas foram levadas para locais de exterm\u00ednio programados a p\u00e9 ou por micro-\u00f4nibus. Ent\u00e3o eles eram baleados um ap\u00f3s o outro pelas costas, e seus cad\u00e1veres eram queimados at\u00e9 \u00e0s cinzas. Este m\u00e9todo de assassinar e queimar emergiu porque os perpetradores lutaram para ocultar seus atos e se livrarem das pilhas de corpos nas vielas dos bairros. Como resultado, cada perpetrador criou seu pr\u00f3prio local de execu\u00e7\u00e3o. Youssef tinha o seu, mas outro exemplo era o comandante das NDF Ibrahim Hikmat, melhor conhecido como Abu Ali Hikmat,uma figura militar robusta com um cabelo distintamente tingido e que era um jovem membro das Companhias de Defesa, os infames esquadr\u00f5es de assassinatos dos anos 1980. Abu Ali Hikmat construiu seu pr\u00f3prio cremat\u00f3rio primitivo para queimar os corpos das v\u00edtimas escolhidas de seus postos de controle de seguran\u00e7a e do hospital al-Mujtahid. Seus soldados se gabavam de suas habilidades meticulosas em matar pessoas e destruir provas, alegando que seu grupo matou pelo menos 30.000 civis de 2012 a 2015. Isto pode ser um exagero de perpetradores orgulhosos, mas \u00e9 uma ilustra\u00e7\u00e3o da extens\u00e3o e escala do assassinato em massa em Tadamon. Como um residente descreveu: \u201cSent\u00edamos o cheiro de cobre de carne humana queimando todos os dias\u201d.<\/p>\n<p>Deten\u00e7\u00e3o era uma segunda forma de viol\u00eancia em Tadamon. At\u00e9 o final de 2012, Tadamon tornou-se uma enorme pris\u00e3o urbana com mais de 60 esta\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a e postos de controle. A Ag\u00eancia 227 e os postos de controle das NDF se multiplicaram e estavam estacionados na entrada de cada viela do bairro em um quil\u00f4metro quadrado entre a rua al-Jalaa e a linha de frente. Os comandantes das NDF constru\u00edram muros, dividindo o bairro em 15 zonas, e cada grupo documentava e registrava os residentes em seu territ\u00f3rio. Estes guetos privados eram controlados e administrados de acordo com suas pr\u00f3prias regras, inclusive tornando as casas confiscadas das v\u00edtimas e lojas em pris\u00f5es, onde eles transferiam detidos e os torturavam. O sub- comandante das NDF\u00a0 do seu gabinete de informa\u00e7\u00f5es para as NDF a n\u00edvel de Estado, comparou o bairro ao Tri\u00e2ngulo das Bermudas onde todos desaparecem. Os v\u00eddeos e nossas entrevistas lan\u00e7aram luz na informal e massiva campanha de deten\u00e7\u00e3o em Tadamon. Tr\u00eas dos nossos v\u00eddeos mostram graves torturas de v\u00edtimas civis em casas privadas: espancamentos, chicotadas, queimaduras, eletrocuss\u00e3o e tortura psicol\u00f3gica. Os perpetradores, incluindo Youssef e Najib, infringiram torturas cru\u00e9is e experimentais para seu pr\u00f3prio divertimento com o sofrimento das torturas. Al-Hassan estava a par destas pris\u00f5es e inclusive supervisionava o processo e encorajava os perpetradores.<\/p>\n<p>Terceiro, a viol\u00eancia sexual era t\u00e3o difundida em Tadamon que n\u00e3o poderia ser outra coisa sen\u00e3o uma pol\u00edtica. Uma mulher que entrevistamos nos contou que ela foi ao escrit\u00f3rio da Ag\u00eancia 227 na rua Daboul para perguntar sobre o paradeiro de seu marido. Youssef estava sentado na sua cadeira atr\u00e1s da mesa de trabalho, em uma sala mal iluminada, fumando cigarros, enquanto sons de tortura\u00a0 ecoavam na sala atr\u00e1s dele. Ele ouviu a mulher cuidadosamente e prometeu soltar seu marido sob uma condi\u00e7\u00e3o:\u201ddurma comigo ou voc\u00ea pode esquecer sobre seu marido\u201d. Por dois anos, come\u00e7ando daquele dia, Youssef estuprou esta mulher. As irm\u00e3s dela, vizinhas, e mesmo maridos foram estuprados e agredidos sexualmente pela intelig\u00eancia e pela Shabbiha, especialmente por Abu Muntajab. O rapto sistem\u00e1tico da Shabbiha e tortura de homens criaram uma atmosfera de medo, e refor\u00e7ou a vulnerabilidade das mulheres. Mulheres negociavam sua sobreviv\u00eancia se envolvendo em rela\u00e7\u00f5es sexuais for\u00e7adas com os perpetradores \u2013 em outras palavras, escravid\u00e3o sexual. V\u00edtimas masculinas experimentaram viol\u00eancia semelhante durante a deten\u00e7\u00e3o e tortura. Os perpetradores prendiam os homens suspeitos de simpatia com a oposi\u00e7\u00e3o, mas eles tamb\u00e9m eram presos para manipular seus parentes.<\/p>\n<p>Quarto e \u00faltimo eram os trabalhos for\u00e7ados e a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Com a escalada dos conflitos nas linhas de frente em 2013, os oficiais da intelig\u00eancia militar assim como os membros da mil\u00edcia das NDF estacionados nos postos de controle prenderam homens Sunni de Tadamon, Daf al-Shouq e outras \u00e1reas, e os transportaram para as linhas de frente como trabalhadores for\u00e7ados para cavar trincheiras, construir barreiras e muros enquanto as bombas e balas da oposi\u00e7\u00e3o voavam em volta deles. Aqueles que sobreviveram \u00e0 dificuldade do trabalho ou aos confrontos foram mortos a tiro nas trincheiras e seus cad\u00e1veres reduzidos \u00e0s cinzas. Trabalhos for\u00e7ados n\u00e3o eram apenas uma necessidade militar,\u00a0 mas tamb\u00e9m um neg\u00f3cio lucrativo para os senhores da guerra e os comandantes da intelig\u00eancia. Para escapar dos trabalhos for\u00e7ados, os civis tinham que pagar at\u00e9 2 milh\u00f5es de liras s\u00edrias (o equivalente a $40,000, dependendo da taxa de c\u00e2mbio, que flutua) aos postos de controle. Outra camada da opress\u00e3o econ\u00f4mica e viol\u00eancia no bairro era o confisco il\u00edcito da propriedade privada. Como as pessoas das \u00e1reas da oposi\u00e7\u00e3o fugiram para Tadamon, o mercado imobili\u00e1rio tornou-se um neg\u00f3cio pr\u00f3spero. Os comandantes da Mukhabarat e da Shabbiha colocaram suas m\u00e3os nas propriedades das v\u00edtimas despejadas ou mortas e as alugaram no mercado imobili\u00e1rio aquecido, sob o pretexto de ajudar os m\u00e1rtires e fam\u00edlias deslocadas ou por necessidade militar. Por exemplo, Youssef e seus chefes apreenderam pelo menos 30 propriedades em Tadamon, que eles\u00a0 alugam ainda hoje.<\/p>\n<p>As v\u00edtimas constitu\u00edram um enorme peso moral e emocional para n\u00f3s. Suas fam\u00edlias e entes queridos n\u00e3o tinham id\u00e9ia sobre seus paradeiros. Vivenciamos um dilema terr\u00edvel: sab\u00edamos mas n\u00e3o pod\u00edamos contar a ningu\u00e9m; quer\u00edamos identificar as v\u00edtimas, mas da\u00ed precisar\u00edamos mostrar as pessoas. Enquanto assist\u00edamos os v\u00eddeos v\u00e1rias vezes, ponderamos: gostar\u00edamos de ver os \u00faltimos segundos de nossos pr\u00f3prios entes queridos? A maior parte destas v\u00edtimas estavam esquecidas e marginalizadas. A m\u00eddia internacional focava primeiramente no sofrimento nos territ\u00f3rios da oposi\u00e7\u00e3o, enquanto o governo de Assad encobria seus crimes e impunha um sil\u00eancio mortal na sociedade s\u00edria. Como resultado, mesmo as v\u00edtimas ficaram confusas pela falta de reconhecimento da sua dor. A vergonha, medo, impot\u00eancia e opress\u00e3o cont\u00ednua at\u00e9 esse dia levaram uma entrevistada a se perguntar: \u201cfui estuprada?\u201d\u00a0 nossas entrevistas de hist\u00f3ria oral deram aos sobreviventes uma oportunidade n\u00e3o apenas de revisitar suas mem\u00f3rias dos eventos violentos mas tamb\u00e9m a validarem suas identidades como v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Estes videoclips s\u00e3o \u00fanicos dentro da inunda\u00e7\u00e3o de imagens violentas emergindo da S\u00edria durante o conflito: os oficiais da Mukhabarat que se reportam a Assad, com faces reconhec\u00edveis, estavam cooperando com a Shabbiha ao documentar seus pr\u00f3prios crimes contra civis indefesos. Por que eles fizeram isso? Por um lado, n\u00e3o faz sentido retirar estes dois atiradores do contexto mais amplo da impunidade em massa pela viol\u00eancia das ag\u00eancias de intelig\u00eancia s\u00edria e mil\u00edcias, para a qual a responsabilidade final de comando cabe a Assad. Se tomarmos ao p\u00e9 da letra as palavras dos perpetradores, eles viram estes massacres como um sacrif\u00edcio pela vingan\u00e7a de seus camaradas ca\u00eddos, Hisham Issa e Ammar Abbas. Youssef disse abertamente nos v\u00eddeos e nas entrevistas que ele vingou seu irm\u00e3o mais novo, Naim, que morreu lutando em Darayya. Eles filmaram todo o esfor\u00e7o como um trof\u00e9u, mas tamb\u00e9m como uma prova para os oficiais superiores de terem executado seu trabalho.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian van Enck<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicamos um relato completo sobre a investiga\u00e7\u00e3o de um massacre de 288 s\u00edrios no distrito de Al-Tadamoun em Damasco, S\u00edria. Dois pesquisadores de crimes de guerra enganaram oficiais de intelig\u00eancia de Assad para que confessassem o crime, e uma investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica arrepiante se seguiu.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":66960,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[569],"tags":[4623,4624],"class_list":["post-70541","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-siria","tag-massacre-siria","tag-ugur-umit-ungor"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/siria.png","categories_names":["S\u00edria"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70541","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70541"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70541\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66960"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70541"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70541"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70541"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}