{"id":70516,"date":"2021-06-22T12:00:20","date_gmt":"2021-06-22T15:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=64262"},"modified":"2021-06-22T12:00:20","modified_gmt":"2021-06-22T15:00:20","slug":"boulos-e-o-dilema-da-esquerda-em-vertigem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/06\/22\/boulos-e-o-dilema-da-esquerda-em-vertigem\/","title":{"rendered":"Boulos e o dilema da esquerda em vertigem"},"content":{"rendered":"<p><em>Em artigo na Folha de S. Paulo, Guilherme Boulos discorre de maneira sucinta sobre o grande debate na esquerda hoje. Partimos de um grande acordo: derrotar Bolsonaro \u00e9 uma tarefa urgente. Mas o interessante \u00e9 que a nossa diverg\u00eancia come\u00e7a nas pr\u00f3prias perguntas que Boulos se faz: \u201cO que \u00e9 preciso para derrotar Bolsonaro?\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2021\/06\/ex-braco-direito-de-dilma-rousseff-vira-cacique-de-partido-que-flerta-com-bolsonarismo.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00c9 preciso fazer alian\u00e7a com a direita tradicional nas elei\u00e7\u00f5es?<\/a>\u00a0\u00c9 preciso abrir m\u00e3o, ainda que momentaneamente, de nossos valores e propostas, em nome de uma plataforma de defesa da democracia?\u201d<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: J\u00falio Anselmo<\/p>\n<p>Pelo encadeamento das perguntas, para Boulos, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o direta entre a luta para derrotar Bolsonaro em 2021 e a elei\u00e7\u00e3o de 2022.<\/p>\n<p>De fato, podemos lutar pela queda de Bolsonaro hoje e discutir, desde j\u00e1, as elei\u00e7\u00f5es em 2022. N\u00e3o \u00e9 este o debate. O problema \u00e9 colocar a derrubada do presidente como tarefa de 2022, o que significa relegar para as elei\u00e7\u00f5es de amanh\u00e3 algo que deve ser resolvido nas ruas hoje. O erro est\u00e1 em postergar no tempo, mas tamb\u00e9m em submeter a rua \u00e0 urna.<\/p>\n<p>Primeiro, a t\u00e1tica de jogar as esperan\u00e7as em elei\u00e7\u00e3o futura \u00e9 confiar na incerteza. N\u00e3o deixe para amanh\u00e3 o que se pode fazer hoje. Nada garante que Bolsonaro seja derrotado na elei\u00e7\u00e3o. Este jogo, inclusive, \u00e9 dominado pelos ricos e poderosos.\u00a0 Inclusive, as amea\u00e7as autorit\u00e1rias e golpistas de Bolsonaro, que diz que n\u00e3o aceitaria a derrota eleitoral, enquanto usa o tempo para ir organizando a sua base militar e paramilitar, imp\u00f5e ainda mais a necessidade urgente de derrot\u00e1-lo o quanto antes.<\/p>\n<p>Segundo, a cada minuto que passa s\u00e3o mais mortes por conta da pol\u00edtica negacionista do presidente. A discuss\u00e3o sobre impeachment n\u00e3o foi para frente ano passado por conta do discurso falso de que atrapalharia a luta contra a pandemia. Imaginem quantas vidas teriam sido salvas se Bolsonaro tivesse sido derrubado no in\u00edcio da pandemia? Cometer\u00e3o o mesmo erro este ano? \u00c9 preciso tirar Bolsonaro j\u00e1 com a for\u00e7a das ruas.<\/p>\n<p>Mas o mais perigoso e importante \u00e9 que n\u00e3o podemos misturar dois debates diferentes. Uma coisa \u00e9 \u201cunidade na luta contra Bolsonaro\u201d, outra \u00e9 \u201cunidade na elei\u00e7\u00e3o para governar com a burguesia\u201d.<\/p>\n<p>Temos acordo que para derrotar Bolsonaro precisamos de unidade. Na luta, na rua, na a\u00e7\u00e3o, a unidade e amplitude deve ser total, constru\u00edda em cima de um ponto pol\u00edtico concreto: Quem quiser derrubar Bolsonaro \u00e9 bem-vindo!<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que ningu\u00e9m governa um pa\u00eds, estado ou cidade, tendo acordo em apenas um ponto pol\u00edtico. \u00c9 preciso debater um programa pol\u00edtico. E se \u00e9 verdade que crescem os setores de oposi\u00e7\u00e3o a Bolsonaro, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que h\u00e1 diversos programas pol\u00edticos em seu interior, desde os socialistas at\u00e9 setores da direita rec\u00e9m-arrependidos de terem apoiado Bolsonaro. De modo que uma frente ampla eleitoral contra Bolsonaro \u00e9 tentar apagar esta contradi\u00e7\u00e3o entre projetos pol\u00edticos completamente antag\u00f4nicos. Significaria fazer acordo com aqueles que defendem desde a privatiza\u00e7\u00e3o, a garantia dos lucros dos grandes empres\u00e1rios, o neoliberalismo, os ataques aos direitos dos trabalhadores, etc. \u00c9 colocar o justo anseio do povo pela queda do governo a servi\u00e7o de projetos pol\u00edticos que s\u00f3 beneficiam os ricos.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica atual do PT e Freixo, de frente ampla com a burguesia, ao inv\u00e9s de derrotar a direita, \u00e9 governar com a direita. Esta frente seria com os banqueiros, a Fiesp, e n\u00e3o negam acordos at\u00e9 mesmo com a direita tradicional do PSDB e MDB. N\u00e3o \u00e0 toa, Freixo coloca Andr\u00e9 Lara Resende e Raul Jungman para compor seu projeto.<\/p>\n<p>Boulos parece discordar dessa t\u00e1tica de alian\u00e7a eleitoral ampl\u00edssima. Bravo. Mas o artigo deixa margem a interpreta\u00e7\u00f5es ao afirmar, mais de uma vez, que \u00e9 preciso amplitude eleitoral. E prop\u00f5e uma localiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para esta amplitude eleitoral:\u00a0\u00a0\u201cQuem pauta essas agendas no Brasil \u00e9 a esquerda. Esse \u00e9 o nosso lugar pol\u00edtico\u201d<\/p>\n<p>Ou seja, alian\u00e7a eleitoral n\u00e3o t\u00e3o ampla. Mas com quem? \u00c9 com o PT? Mas estes j\u00e1 governaram o pa\u00eds, j\u00e1 demonstraram na pr\u00e1tica o car\u00e1ter burgu\u00eas tanto do governo quanto do projeto pol\u00edtico que defendem.\u00a0 Est\u00e3o cada vez com um programa mais \u00e0 direita e n\u00e3o menos, e isso se expressa inclusive na busca de alian\u00e7a cada vez mais amplas e mais bizarras, podendo incluir at\u00e9 militares que estavam na c\u00fapula do governo Bolsonaro at\u00e9 ontem.<\/p>\n<p>Enquanto eu lia o artigo de Boulos, saiu a not\u00edcia de um encontro entre ele e o PDT para tentar avan\u00e7ar esta alian\u00e7a. Existem v\u00e1rias not\u00edcias nesse sentido. Ent\u00e3o a pergunta \u00e9: Esta \u201camplitude sem dilui\u00e7\u00e3o\u201d de Boulos seria ent\u00e3o com partidos como PDT, PSB, e outros partidos burgueses considerados por ele de esquerda?\u00a0 Estes partidos tem a dire\u00e7\u00e3o ligada a setores do empresariado, com programas capitalistas ainda que com ret\u00f3rica supostamente desenvolvimentista. Governam por d\u00e9cadas estados pelo pa\u00eds em alian\u00e7a com a direita tradicional. M\u00e1rcio Fran\u00e7a, do PSB, por exemplo j\u00e1 foi vice de Alckimin. PDT neste momento est\u00e1 buscando DEM e PSDB para unidade em torno de Ciro Gomes.<\/p>\n<p>No fim, para Boulos, esta\u00a0\u201camplitude n\u00e3o significa dilui\u00e7\u00e3o de projeto\u201d. Completa afirmando que:\u00a0\u201c\u00c9 poss\u00edvel ter a amplitude que o momento exige e, ao mesmo tempo, afirmar um projeto de transforma\u00e7\u00f5es.\u201d\u00a0E o que seria este projeto? Resume em um\u00a0\u201ccombate \u00e0s desigualdades, \u00e0 fome, ao desemprego, com retomada do investimento p\u00fablico e enfrentamento a privil\u00e9gios.\u201d.<\/p>\n<p>O problema aqui \u00e9 que o pr\u00f3prio projeto j\u00e1 \u00e9 dilu\u00eddo. Esquerda e direita s\u00e3o termos com uma imprecis\u00e3o grande e n\u00e3o ajudam a especificar o conte\u00fado da proposta. Qual o projeto da esquerda? Como combater a desigualdade, a fome e o desemprego? \u00c9 poss\u00edvel fazer isso com receio de avan\u00e7ar para o socialismo, para a ruptura com o capitalismo? \u00c9 poss\u00edvel construir um capitalismo mais humano e com direitos? \u00c9 poss\u00edvel desenvolver o pa\u00eds sem romper com a domina\u00e7\u00e3o imperialista? A candidatura de Boulos em S\u00e3o Paulo estar\u00e1 a servi\u00e7o de aprofundar a luta dos trabalhadores? Avan\u00e7ar\u00e1 nas pautas democr\u00e1ticas urgentes como a desmilitariza\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Militar? N\u00e3o titubear\u00e1 em atacar a propriedade dos capitalistas? Avan\u00e7ar\u00e1 na organiza\u00e7\u00e3o de um poder dos trabalhadores, com uma verdadeira democracia oper\u00e1ria, atrav\u00e9s de conselhos populares para, inclusive, ter mais poder que a ALESP ou o Executivo estadual?<\/p>\n<p>Colocar os projetos da esquerda nos marcos restritos do capitalismo \u00e9 parte central do problema. \u00c9 a prepara\u00e7\u00e3o das derrotas futuras, gerando mais desmoraliza\u00e7\u00e3o para a esquerda que inclusive ajudariam a pr\u00f3pria direita.<\/p>\n<p>O dilema apresentado por Boulos se resume, na verdade, a qual o tamanho da amplitude eleitoral.\u00a0 E tamb\u00e9m qual o n\u00edvel da dilui\u00e7\u00e3o do programa. 1) Frente ampl\u00edssima com todos os setores da direita defendida por Lula e Freixo; ou 2) Frente n\u00e3o t\u00e3o ampla, mas que poderia englobar partidos de \u201cesquerda\u201d como PDT ou PSB, defendida por Boulos. Ambos com programa nos marcos do capitalismo. Mas os trabalhadores n\u00e3o podem ficar presos nesse dilema.<\/p>\n<p>Para derrotar de uma vez por todas a ultradireita, Bolsonaro e todo reacionarismo, o \u00fanico caminho \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00e3o uma alternativa independente da classe trabalhadora, com um programa revolucion\u00e1rio e socialista que garanta os interesses dos trabalhadores, atacando os lucros dos mega milion\u00e1rios que dominam a economia e pol\u00edtica brasileira e enriquecem \u00e0 custa da mis\u00e9ria do nosso povo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em artigo na Folha de S. Paulo, Guilherme Boulos discorre de maneira sucinta sobre o grande debate na esquerda hoje. Partimos de um grande acordo: derrotar Bolsonaro \u00e9 uma tarefa urgente. 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