{"id":70514,"date":"2021-06-14T10:48:31","date_gmt":"2021-06-14T13:48:31","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=64183"},"modified":"2021-06-14T10:48:31","modified_gmt":"2021-06-14T13:48:31","slug":"64183-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/06\/14\/64183-2\/","title":{"rendered":"Alan Turing: her\u00f3i da humanidade, pai da computa\u00e7\u00e3o e v\u00edtima da crueldade LGBTf\u00f3bica"},"content":{"rendered":"<p><em>H\u00e1 67 anos, no dia 7 de junho de 1954, o matem\u00e1tico, criptoanalista (estudioso da decifra\u00e7\u00e3o de c\u00f3digos) e pioneiro das ci\u00eancias da computa\u00e7\u00e3o Alan Turing foi encontrado morto em sua casa, em Wilmslow, na Inglaterra, ao lado de uma ma\u00e7\u00e3, parcialmente mordida, que, acredita-se, havia sido recheada com cianeto.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Wilson Hon\u00f3rio da Silva<\/p>\n<p>Esta teria sido a forma bastante dram\u00e1tica que ele escolheu para por fim \u00e0 pr\u00f3pria vida depois de perder a batalha contra a depress\u00e3o desencadeada por ter sido obrigado, 18 meses antes, a fazer a \u201cescolha\u201d entre dois anos de pris\u00e3o ou a chamada \u201ccastra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica\u201d, ap\u00f3s ser detido e condenado por \u201chomossexualismo\u201d.<\/p>\n<p>Turing morreu duas semanas antes de completar 42 anos, mas j\u00e1 tinha dado contribui\u00e7\u00f5es inestim\u00e1veis \u00e0 humanidade e que, literalmente, ajudaram a moldar o mundo desde ent\u00e3o. A mais conhecida delas foi sua participa\u00e7\u00e3o decisiva para decifrar o Enigma, o c\u00f3digo secreto do nazismo, durante a II Guerra Mundial. Uma fa\u00e7anha que, contudo, deve ser entendida como parte de estudos e pesquisas muito mais amplos, que lhe garantiram o t\u00edtulo de \u201cpai\u201d da Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sua morte foi responsabilidade do Estado brit\u00e2nico. Uma dentre as milhares provocadas pela criminaliza\u00e7\u00e3o da homossexualidade, que vigorou no Reino Unido at\u00e9 1967 e, tamb\u00e9m, exemplo abomin\u00e1vel da chamada \u201ccura gay\u201d, ainda hoje defendida por fundamentalistas e LGBTf\u00f3bicos mundo afora.<\/p>\n<p>Assim como a tentativa de praticamente apag\u00e1-lo da Hist\u00f3ria, at\u00e9 muito recentemente (rompida principalmente com o lan\u00e7amento do filme \u201cO jogo da imita\u00e7\u00e3o\u201d, em 2014), \u00e9 t\u00edpica da hipocrisia de uma sociedade para a qual l\u00e9sbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e intersexos podem at\u00e9 fazer contribui\u00e7\u00f5es imprescind\u00edveis, sem que isso signifique que sequer sejam tratados como parte da humanidade.<\/p>\n<div id=\"attachment_64184\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-64184\" class=\"size-full wp-image-64184\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Wilson.jpeg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Wilson.jpeg 640w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Wilson-300x169.jpeg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Wilson-150x84.jpeg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><p id=\"caption-attachment-64184\" class=\"wp-caption-text\">Turing ne representa\u00e7\u00e3o do filme \u2018Jogo da Imita\u00e7\u00e3o\u2019<\/p><\/div>\n<p><strong>Uma mente brilhante apaixonada pelo funcionamento da mente<\/strong><\/p>\n<p>Nascido numa tradicional e conservadora fam\u00edlia brit\u00e2nica, em 23 de junho de 1912, Turing foi um daqueles garotos cuja sensa\u00e7\u00e3o de \u201cinadequa\u00e7\u00e3o\u201d ao mundo teve como consequ\u00eancia o mergulho nos livros e o isolamento social, que, em muitos casos, permite um olhar mais cuidadoso e detido sobre o mundo ao redor. Uma sensa\u00e7\u00e3o t\u00edpica de quem, ainda na adolesc\u00eancia, se viu apaixonado por um amigo, Christopher Morcom, cuja morte precoce e repentina (em 1930, por tuberculose bovina) o marcou profundamente.<\/p>\n<p>Naquela que \u00e9 considerada o melhor biografia sobre o matem\u00e1tico, \u201cAlan Turing: The Enigma\u201d (1983), o escritor Andrew Hodges lembra que Turing n\u00e3o s\u00f3 se referia a Morcom como seu \u201cprimeiro amor\u201d, como tamb\u00e9m afirmava que foi o desejo de continuar o legado intelectual do companheiro (morto aos 19 anos) que impulsionou seus estudos e, tamb\u00e9m, fizeram dele um ateu convicto e um materialista.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia e significado desta rela\u00e7\u00e3o ficaram registrados na correspond\u00eancia que Turing manteve com a m\u00e3e de Morcom durante toda sua vida. \u201cTenho certeza de que n\u00e3o poderia ter encontrado em lugar nenhum outro companheiro t\u00e3o brilhante e, ao mesmo tempo, t\u00e3o charmoso e despretensioso. Eu considerava meu interesse em meu trabalho, e em coisas como astronomia (que ele me apresentou), como algo a ser compartilhado com ele e acho que ele sentia o mesmo por mim (\u2026). Eu sei que devo colocar muita energia e interesse pelo meu trabalho como se ele estivesse vivo, porque \u00e9 isso que ele gostaria que eu fizesse\u201d, escreveu Turing para Isobel Morcom.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m segundo Hodges, ainda na adolesc\u00eancia, Turing come\u00e7ou a demonstrar um interesse excepcional por tudo que tinha a ver com o funcionamento do mundo, algo que fez com que ele se dedicasse ao estudo de Biologia, Qu\u00edmica, F\u00edsica e Neurologia. Mas seu maior fasc\u00ednio era o funcionamento da mente e, de forma muito especial, a possibilidade de criar m\u00e1quinas que pudessem reproduzir os processos mentais; ou seja, que fossem capazes de aprender, \u201cpensar\u201d e executar tarefas.<\/p>\n<p>Aos 15 anos, Turing j\u00e1 resolvia problemas matem\u00e1ticos complexos e tinha desenvolvido o interesse em reproduzir, atrav\u00e9s de equa\u00e7\u00f5es e c\u00e1lculos, o funcionamento do c\u00e9rebro e dos racioc\u00ednios l\u00f3gicos. Quest\u00f5es que passou a perseguir quando ingressou no renomado King\u00b4s College, na Universidade de Cambridge, em 1931.<\/p>\n<p><strong>Pai da computa\u00e7\u00e3o e da \u201cintelig\u00eancia artificial\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Em uma s\u00e9rie de ensaios e estudos publicados na d\u00e9cada de 1930, todos eles considerados essenciais no desenvolvimento da Matem\u00e1tica, Turing demonstrou, teoricamente, que seria poss\u00edvel construir uma \u201cm\u00e1quina de computa\u00e7\u00e3o universal\u201d capaz de realizar qualquer tarefa matem\u00e1tica conceb\u00edvel caso ela pudesse ser representada atrav\u00e9s de um algoritmo. Ou seja, atrav\u00e9s de uma sequ\u00eancia finita de instru\u00e7\u00f5es e procedimentos (precisos e padronizados) destinados \u00e0 solu\u00e7\u00e3o do problema previamente estabelecido.<\/p>\n<p>Essa no\u00e7\u00e3o, publicada em artigos como \u201cSobre as M\u00e1quinas Comput\u00e1veis\u201d (1937), quando ele tinha apenas 25 anos, \u00e9 o que, hoje, possibilita que voc\u00ea, leitor ou leitora, esteja lendo este texto em seu computador ou celular, pois foi a partir dela que se criou o que ficou conhecido como \u201cM\u00e1quina de Turing\u201d, um modelo te\u00f3rico, que propunha a possibilidade de construir um equipamento (mec\u00e2nico ou eletr\u00f4nico) que, atrav\u00e9s de c\u00e1lculos previamente estabelecidos, mudaria de fun\u00e7\u00e3o (passando para uma nova fase) conforme a necessidade, permitindo definir e, quando poss\u00edvel, resolver problemas por meio de uma sequ\u00eancia de etapas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m devemos a ele o chamado \u201cTeste de Turing\u201d, que consistia em pedir a uma pessoa que mandasse uma s\u00e9rie de perguntas para o computador e, depois de analisar as respostas dadas por ele, tentar diferenciar se a resposta dada pelo sistema foi elaborada pelo ser humano ou pela m\u00e1quina. Ou seja, seu objetivo era verificar se o computador seria capaz de imitar e pensar como o c\u00e9rebro humano, o que nada mais \u00e9 do que a base do que, hoje, chamamos \u201cintelig\u00eancia artificial\u201d, uma no\u00e7\u00e3o que ele desenvolveu em um artigo publicado em 1950 (\u201cMaquinaria Computacional e Intelig\u00eancia\u201d), no qual desenvolveu a no\u00e7\u00e3o de \u201cjogo da imita\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Decifrando o enigma nazista<\/strong><\/p>\n<p>Com a explos\u00e3o da II Guerra, Turing foi convocado para integrar o servi\u00e7o de intelig\u00eancia brit\u00e2nico e, entre 1939 e 1941, se juntou a uma equipe destinada a decodificar as mensagens trocadas pelos pa\u00edses do Eixo (Alemanha, Jap\u00e3o e It\u00e1lia) e, particularmente, as criadas por um equipamento conhecido como Enigma, cuja maior dificuldade residia em sua capacidade de criptografar (codificar) as mensagens com configura\u00e7\u00f5es que eram alteradas todos os dias.<\/p>\n<p>Turing e sua equipe (com destaque para o tamb\u00e9m matem\u00e1tico Gordon Welchman) foram pe\u00e7as fundamentais para o desenvolvimento de novas vers\u00f5es de decodificadores mec\u00e2nicos que j\u00e1 haviam sido desenvolvidos por poloneses e eram conhecidos como \u201cbombas eletromec\u00e2nicas\u201d.<\/p>\n<p>Apenas para se ter uma ideia da complexidade e dimens\u00e3o da tarefa encarada por Turing, vale citar alguns dados da m\u00e1quina, sem sequer entrar detalhes sobre os procedimentos, comandos e c\u00e1lculos que ela era capaz de realizar. O enorme computador pesava quase uma tonelada e tinha cerca de 1,80 m altura. Conhecida como \u201cA bomba\u201d, o trambolho tinha 108 eixos, agrupados em nove linhas, com 12 espa\u00e7os cil\u00edndricos encaixados em tambores, que, depois de programados manualmente, por meio de cart\u00f5es com pequenos furos, giravam simultaneamente, combinando as letras de cada tambor com as mensagens captadas em agrupamentos de tr\u00eas letras, analisando, ao final de cada ciclo, um total de 17.576 posi\u00e7\u00f5es diferentes, identificando os trechos que se repetiam e determinando quais seriam as letras seguintes.<\/p>\n<p>Complexidade \u00e0 parte, o importante \u00e9 que o equipamento foi essencial para prever as movimenta\u00e7\u00f5es das tropas do Eixo e possibilitar que os Aliados se antecipassem ou tra\u00e7assem seus planos, como, por exemplo, o desembarque das tropas na Normandia, no chamado \u201cDia D\u201d, e muitas das batalhas realizadas no norte da \u00c1frica.<\/p>\n<p><strong>A inadequa\u00e7\u00e3o a um mundo opressivo<\/strong><\/p>\n<p>Encarar a exaustiva tarefa, n\u00e3o foi nada f\u00e1cil para Turing, at\u00e9 mesmo pela necessidade do trabalho coletivo, algo bastante dif\u00edcil para algu\u00e9m considerado um \u201cexc\u00eantrico\u201d (um \u201cesquisit\u00e3o\u201d, como se diria hoje) que n\u00e3o dava muita aten\u00e7\u00e3o para as chamadas \u201cregras sociais\u201d e vivia num mundo \u00e0 parte. Uma caracter\u00edstica que tamb\u00e9m se refletiu, para o bem e para o mal, na forma como Turing liderou com sua homossexualidade.<\/p>\n<p>O que se sabe \u00e9 que, entre os mais pr\u00f3ximos, ele n\u00e3o fazia quest\u00e3o alguma em omitir sua orienta\u00e7\u00e3o sexual. Pelo contr\u00e1rio. Para os amigos, ele declarava que n\u00e3o tinha vergonha alguma em ser quem era e nem fazia muito esfor\u00e7o para esconder seus relacionamentos. Diante do resto do mundo, ele simplesmente acreditava que n\u00e3o era necess\u00e1rio dar satisfa\u00e7\u00f5es sobre sua vida pessoal.<\/p>\n<p>Parte desta postura provavelmente foi alimentada pela ilus\u00e3o de que o Estado lhe devia, no m\u00ednimo, algum reconhecimento e respeito, em fun\u00e7\u00e3o de seus estudos e, principalmente, do papel que cumprira durante a II Guerra. Uma cren\u00e7a um tanto ing\u00eanua, como ficou provado, mas que tamb\u00e9m tinha ra\u00edzes no ambiente de relativa liberdade em que Turing viveu, em seus tempos de universidade.<\/p>\n<p>Nos anos 1930, a Universidade de Cambridge era uma esp\u00e9cie de gueto, bastante elitizado, que abrigava um sacudido grupo de intelectuais e artistas conhecido como o \u201cGrupo de Bloomsbury\u201d que tinha dentre seus famosos membros v\u00e1rios gays, l\u00e9sbicas e bissexuais como os escritores E.M. Forster, Virginia Woolf e Vita Sackville-West; os pintores Lytton Stratchey e Duncan Grant e o economista e matem\u00e1tico John Maynard Keynes (diga-se de passagem, bastante reconhecido, inclusive dentro de um setor da esquerda, por suas teorias econ\u00f4micas, mas raramente lembrado por suas in\u00fameras rela\u00e7\u00f5es afetivas com homens).<\/p>\n<p>Blindado pela posi\u00e7\u00e3o social, por casamentos de fachada (ou simplesmente condizentes com a bissexualidade) e a restri\u00e7\u00e3o a segmentos art\u00edsticos e intelectuais, o Grupo de Bloomsbury, de qualquer forma, permitiu que jovens como Turing transitassem por um ambiente de relativa aceita\u00e7\u00e3o para gays e l\u00e9sbicas, mantendo-se numa dist\u00e2ncia razoavelmente segura da legisla\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica que, at\u00e9 1861, punia as \u201cpr\u00e1ticas indecentes\u201d e o \u201cpecado nefando\u201d (t\u00e3o abomin\u00e1vel que o nome sequer poderia ser pronunciado) com a pena de morte.<\/p>\n<p>De qualquer forma, nos anos 1940, Turing chegou a propor casamento a uma amiga cientista (Joan Clarke), percebendo que sua proximidade dos altos escal\u00f5es do governo poderia coloc\u00e1-lo em perigosa evid\u00eancia. Os dois acabaram chegando \u00e0 conclus\u00e3o de que o casamento seria uma p\u00e9ssima ideia e Turing adotou para sua vida afetiva e sexual a mesma perspectiva que tinha diante da ci\u00eancia: encarar o \u201cproblema\u201d de frente, buscando a forma mais simples e direta para resolv\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Uma postura certamente louv\u00e1vel e audaciosa, mas que acabou lhe custando muito caro, como fica evidente pela sequ\u00eancia de eventos que o levou \u00e0 morte.<\/p>\n<p><strong>Uma v\u00edtima da tentativa de \u201crecomposi\u00e7\u00e3o da ordem\u201d no p\u00f3s-guerra<\/strong><\/p>\n<p>A naturalidade com a qual encarava sua homossexualidade e sua postura meio desencanada com as \u201ccoisas do mundo\u201d levaram Turing a cometer um erro fatal. Em 1952, sua casa foi furtada e, procurando colaborar com as investiga\u00e7\u00f5es, o matem\u00e1tico declarou abertamente que o assaltante provavelmente tinha sido um amigo de seu companheiro na \u00e9poca, Andrew Murray, um jovem de 19 anos.<\/p>\n<p>Foi assim que ele entrou na delegacia na condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima e saiu como criminoso, sendo condenado, por \u201cindec\u00eancia grosseira\u201d, como determinado pela Lei de 1885, a dois anos de pris\u00e3o ou \u00e0 chamada castra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, atrav\u00e9s da inje\u00e7\u00e3o de um coquetel de horm\u00f4nios. Murray foi condenado \u00e0 pris\u00e3o condicional.<\/p>\n<p>De imediato, Turing rejeitou a hip\u00f3tese da pris\u00e3o, que significaria seu afastamento dos estudos, acreditando, inclusive, que poderia encarar os efeitos do coquetel com certa tranquilidade. Contudo, a \u201cterapia\u201d resultou em impot\u00eancia, dr\u00e1sticas mudan\u00e7as f\u00edsicas (como crescimento dos seios) e altera\u00e7\u00f5es de humor que, juntamente ao isolamento social provocado pelo esc\u00e2ndalo, o colocaram em um estado de profunda depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma situa\u00e7\u00e3o em muito agravada pelo fato de que ele passou a ser visto como uma \u201camea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a nacional\u201d, o que significou na nega\u00e7\u00e3o de acesso \u00e0s ag\u00eancias governamentais (as \u00fanicas que ofereciam reais condi\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento de um trabalho de ponta), o que o obrigou a limitar sua atividade \u00e0 pesquisa acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Motivos que levam a acreditar que a hip\u00f3tese mais prov\u00e1vel para sua morte tenha sido, de fato, o suic\u00eddio (ao contr\u00e1rio de um suposto envenenamento provocado pelos rem\u00e9dios, como tamb\u00e9m se cogitou). Contudo, suic\u00eddio ou n\u00e3o, o fato \u00e9 que Turing foi uma v\u00edtima da LGBTfobia institucionalizada pelo Estado brit\u00e2nico e, tamb\u00e9m, da onda conservadora (ou \u201crestituidora da ordem\u201d) que varria o mundo no per\u00edodo p\u00f3s-Guerra.<\/p>\n<p>Depois de quase uma d\u00e9cada de conflitos, com mobiliza\u00e7\u00f5es de tropas e deslocamentos populacionais (leia-se, seres humanos) numa escala jamais vista, o mundo e, muito particularmente, os chamados setores oprimidos atravessavam por uma situa\u00e7\u00e3o ultra peculiar.<\/p>\n<p>Afinal, mulheres haviam \u201caprendido\u201d a viver, por anos, longe da tutela de pais, maridos e irm\u00e3os, assumindo as r\u00e9deas de suas pr\u00f3prias vidas e ocupando os mais diversos postos no mercado de trabalho e na sociedade. LGBTIs, que se pensavam \u201caberra\u00e7\u00f5es\u201d solit\u00e1rias e \u00fanicos exemplares de sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie, haviam abandonado suas cidadezinhas e encontrado outros como eles\/elas pr\u00f3prios. Negros e negras, mesmo em pelot\u00f5es segregados, lutaram pela liberdade e a democracia que lhes eram historicamente negadas, passando a serem vistos (inclusive por brancos) como \u201ccompanheiros em armas\u201d.<\/p>\n<p>E, passada a Guerra, a burguesia estava disposta a fazer o que fosse necess\u00e1rio para recolocar ordem nesta situa\u00e7\u00e3o. Nos Estados Unidos, esse projeto assumiu a forma de uma violent\u00edssima ca\u00e7a \u00e0s bruxas que entrou para a Hist\u00f3ria com o nome de Macartismo, em refer\u00eancia ao senador Joseph McCarthy, cujas audi\u00eancias inquisitoriais promoveram um processo de expurgo de comunistas, socialistas, LGBTIs ou quaisquer outros considerados amea\u00e7as aos sistemas.<\/p>\n<p>Os homossexuais, particularmente, eram considerados s\u00edmbolos da \u201cdegenera\u00e7\u00e3o social\u201d, amea\u00e7as \u00e0 ordem e potenciais riscos \u00e0 seguran\u00e7a nacional, j\u00e1 que serviam ao projeto comunista de destrui\u00e7\u00e3o do mundo capitalista e seus valores. O resultado? Somente nos Estados Unidos, entre 1947 e 1950, cerca de 1.700 pedidos de emprego federais foram negados; 4.380 pessoas foram dispensados \u200b\u200bdo servi\u00e7o militar e outras 420 foram demitidos de seus empregos no governo, sob a \u201csuspeita de homossexualismo\u201d.<\/p>\n<p>Em 1952, a Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psiquiatria incluiu o \u201chomossexualismo\u201d no Manual de Diagn\u00f3stico e Estat\u00edsticas (DSM), como um transtorno mental, medida semelhante a que passou a vigorar mundo afora. Assim como tamb\u00e9m se popularizaram as campanhas de \u201cpreven\u00e7\u00e3o \u00e0 perversidade\u201d (com asquerosos filmes de propaganda) nas escolas. E vale lembrar que o Stalinismo n\u00e3o ficou atr\u00e1s nesta hist\u00f3ria, criando seus pr\u00f3prios mecanismos de repress\u00e3o, ao considerar o \u201chomossexualismo\u201d um \u201cdesvio antinatural\u201d e um sintoma da \u201cdecad\u00eancia burguesa\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo prazo, o clima de terror instaurado est\u00e1 na raiz dos movimentos de negros(as), de mulheres e LGBTIs, que explodiram na d\u00e9cada seguinte. Contudo, Turing n\u00e3o sobreviveu para conhecer isto, tornando-se parte da longa hist\u00f3ria de opress\u00e3o e LGBTfobia no Reino Unido, que, no passado, j\u00e1 havia levado milhares \u00e0 pris\u00e3o, como o poeta e dramaturgo Oscar Wilde (condenado a dois anos de pris\u00e3o, com trabalhos for\u00e7ados, em 1885), aos manic\u00f4mios judici\u00e1rios ou \u00e0 submiss\u00e3o de pr\u00e1ticas \u201cm\u00e9dicas\u201d que n\u00e3o passavam de m\u00e9todos cru\u00e9is de tortura, como a lobotomia (interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas no c\u00e9rebro) e a castra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, dentre outros.<\/p>\n<p><strong>A hipocrisia do Estado e a conquista, na luta, da \u201cLei Turing\u201d<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o poucos os historiadores que afirmam que a manuten\u00e7\u00e3o do sigilo, at\u00e9 o in\u00edcio dos anos 1970, sobre a exist\u00eancia da equipe liderada por Turing no projeto Enigma foi, em grande medida, causada pelo constrangimento em assumir a responsabilidade do pr\u00f3prio Estado na morte de Turing.<\/p>\n<p>E como \u00e9 t\u00edpico da burguesia, o acerto de contas com a Hist\u00f3ria assumiu, nos \u00faltimos anos, o formato da mais pura hipocrisia. O \u201cprimeiro ato\u201d foi protagonizado, em 2009, pelo ent\u00e3o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, num pedido oficial de desculpas pelos sofrimentos impostos a Turing.<\/p>\n<p>\u201cAlan e muitos outros milhares de homens gays que foram condenados por leis homof\u00f3bicas foram tratados terrivelmente. Em nome do governo brit\u00e2nico e de todos aqueles que vivem em liberdade gra\u00e7as ao trabalho de Alan, eu estou muito orgulhoso de dizer: me desculpe, voc\u00ea merecia coisas muito melhores\u00a0\u201d, disse Brown.<\/p>\n<p>J\u00e1 a monarquia, com sua caracter\u00edstica lentid\u00e3o e resist\u00eancia \u00e0s mudan\u00e7as, s\u00f3 entrou em cena em 2013, quando a rainha Elizabeth II ofereceu um \u201cperd\u00e3o real\u201d a Turing. Na verdade, foi obrigada a faz\u00ea-lo. Em 2012, o centen\u00e1rio do nascimento do matem\u00e1tico detonou uma campanha, com abaixo-assinados e protestos, que colocou Turing no centro do debate sobre a LGBTfobia.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o filme \u201cO jogo da imita\u00e7\u00e3o\u201d (lan\u00e7ado em 2014) j\u00e1 estava em processo de produ\u00e7\u00e3o e, evidentemente, com ou sem \u201cperd\u00e3o real\u201d, o p\u00fablico mundial teria plenas condi\u00e7\u00f5es de \u201cjulgar\u201d a Hist\u00f3ria, at\u00e9 mesmo porque o filme dirigido por Morten Tyldum \u00e9 extremamente simp\u00e1tico e honesto na representa\u00e7\u00e3o de Turing (vivido numa inspirada interpreta\u00e7\u00e3o de Benedict Cumberbatch).<\/p>\n<p>O saldo mais positivo dos debates iniciados em 2012, foi uma campanha cont\u00ednua, encabe\u00e7ada pelos familiares do cientista e os movimentos LGBTIs, para fazer da tr\u00e1gica hist\u00f3ria de Turing algo que tivesse um sentido mais \u201chist\u00f3rico\u201d e de alcance mais amplo do que pedidos formais de desculpa, o que resultou, em 2017, na aprova\u00e7\u00e3o da \u201cLei Turing\u201d, que deu anistia pol\u00edtica e cancelou, apenas na Inglaterra e no Pa\u00eds de Gales, a condena\u00e7\u00e3o de todos que foram injustamente perseguidos at\u00e9 a queda da legisla\u00e7\u00e3o LGBTf\u00f3bica, em 1967 (que, diga-se de passagem, foi substitu\u00edda por outra que ainda \u00e9 uma das mais retr\u00f3gadas do mundo, ao determinar que \u201catos homossexuais\u201d s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o crimes se praticados, consensualmente, entre pessoas com 21 anos ou mais).<\/p>\n<p>Mesmo sendo um ato \u201csimb\u00f3lico\u201d, a lei teve um impacto bastante concreto para a vida de milhares, j\u00e1 que\u00a0significou \u201climpar o nome\u201d de algo em torno de 75 mil pessoas que haviam sido perseguidas e presas, sendo que 15 mil delas ainda est\u00e3o vivas e, consequentemente, puderam resgatar direitos pol\u00edticos ou, no m\u00ednimo, ser o gostinho de algum tipo de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>J\u00e1 do ponto de vista da tortuosa e c\u00ednica l\u00f3gica da burguesa e da realeza brit\u00e2nica, o \u00faltimo lance na \u201creabilita\u00e7\u00e3o\u201d de Turing foi estampar a imagem do cientista na nota de 50 libras que come\u00e7ar\u00e1 a circular no pr\u00f3ximo dia 23 de junho (data de seu anivers\u00e1rio). No an\u00fancio, feito em mar\u00e7o, Andrew Bailey, dirigente do Banco Central, afirmou que a escolha se deve ao fato de que Turing incorpora \u201co esp\u00edrito da na\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cAo coloc\u00e1-lo nesta nova nota de \u00a350, celebramos [Turing] por suas realiza\u00e7\u00f5es e pelos valores que ele simboliza, dos quais todos n\u00f3s estamos muito orgulhosos\u201d.<\/p>\n<p>Um \u201corgulho\u201d n\u00e3o s\u00f3 tardio e c\u00ednico, mas, tamb\u00e9m, completamente desconectado com a realidade. Segundo um artigo publicado no \u201cThe Guardian\u201d, em 14\/06\/2019, os crimes de \u00f3dio motivados por LGBTfobia (incluindo persegui\u00e7\u00e3o, ass\u00e9dio e agress\u00e3o violenta), mais do que dobraram na Inglaterra e no Pa\u00eds de Gales ao longo de cinco anos. Entre 2013-14 foram registrados 4.600 casos, entre 2017-18, o n\u00famero saltou para 11.600 crimes, o que corresponde a um aumento de 144%, \u00edndice que \u00e9 ainda maior quando combinado com fatores como ra\u00e7a e ataques dirigidos particularmente contra a comunidade transg\u00eanero.<\/p>\n<p>Como no resto do mundo, para al\u00e9m da viol\u00eancia, a pandemia acentuou as desigualdades socioecon\u00f4micas dentre as LGBTIs, mais afetados pelo desemprego, perda de renda etc. O que, evidentemente, n\u00e3o vai se amenizado, pela presen\u00e7a de um \u00edcone LGBT na nota de 50 libras.<\/p>\n<p><strong>H\u00e9tero? Nem sonhando\u2026<\/strong><\/p>\n<p>O fato \u00e9 que nada que o governo brit\u00e2nico fa\u00e7a, agora, pode corrigir n\u00e3o s\u00f3 o crime cometido contra Turing, mas tamb\u00e9m contra toda a humanidade, j\u00e1 que sua morte nos privou das muitas contribui\u00e7\u00f5es que ele poderia ter nos dado.<\/p>\n<p>Por isso, resgatar sua hist\u00f3ria, hoje, deve nos servir para lembrarmos do porqu\u00ea devemos lutar contra todas e quais formas de opress\u00e3o e, particularmente, a tentativa absurda de nos \u201ccurarem\u201d. Coisa que, sabemos, nem mesmo os fundamentalistas acreditam ser poss\u00edvel e s\u00f3 serve como uma forma literalmente doentia e cruel de tortura.<\/p>\n<p>Algo que Alan Turing tentou encarar at\u00e9 onde pode. At\u00e9 o ponto em que ele se viu diante da possibilidade de virar uma \u201cimita\u00e7\u00e3o\u201d mal feita de si pr\u00f3prio. O que, pra ele, seria insuport\u00e1vel. E \u00e9 louv\u00e1vel que, mesmo no seu pior momento, sofrendo com os efeitos da castra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, Turing tenha demonstrado, com seu humor sarc\u00e1stico, que n\u00e3o havia sido vencido, como ficou registrado numa carta escrita a um amigo, onde ele ironizava a possibilidade do tratamento atingir seu suposto objetivo de \u201csuprimir seus impulsos homossexuais\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEu tive um sonho que claramente indicava que estou a caminho de me tornar h\u00e9tero; embora eu n\u00e3o aceite [esta hip\u00f3tese] com entusiasmo algum. Nem acordado nem nos sonhos\u201d,\u00a0escreveu Turing.<\/p>\n<p>Em um artigo publicado pelo jornal \u201cThe Guardian\u201d, em 23 de agosto de 2015, onde s\u00e3o reproduzidos trechos desta e outras cartas escritas, o bi\u00f3grafo Andrew Hodges nos lembra que, ao l\u00ea-las, \u00e9 poss\u00edvel ter uma dimens\u00e3o extremamente emocionante desta figura que foi, assim como seus c\u00e1lculos e equa\u00e7\u00f5es, formada por uma infinidade de vari\u00e1veis que, contudo, quando alinhadas, se combinavam de forma genial.<\/p>\n<p>\u201cExc\u00eantrico, solit\u00e1rio, melanc\u00f3lico, vivaz, resignado, furioso, impulsivo, descontente\u201d,\u00a0foram alguns dos tra\u00e7os marcantes da personalidade de um sujeito que manteve, at\u00e9 seus \u00faltimos dias, uma mente inquieta e questionadora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 67 anos, no dia 7 de junho de 1954, o matem\u00e1tico, criptoanalista (estudioso da decifra\u00e7\u00e3o de c\u00f3digos) e pioneiro das ci\u00eancias da computa\u00e7\u00e3o Alan Turing foi encontrado morto em sua casa, em Wilmslow, na Inglaterra, ao lado de uma ma\u00e7\u00e3, parcialmente mordida, que, acredita-se, havia sido recheada com cianeto.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":64185,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3558,8,238],"tags":[2637,1096,735],"class_list":["post-70514","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-gra-bretanha","category-historia","category-lgbt","tag-alan-turing","tag-lgbtfobia","tag-wilson-honorio-da-silva"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/turing-696x392-1.jpg","categories_names":["Gr\u00e3-Bretanha","Hist\u00f3ria","LGBT"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70514","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70514"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70514\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64185"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70514"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70514"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70514"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}