{"id":70488,"date":"2021-04-22T17:41:45","date_gmt":"2021-04-22T20:41:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63663"},"modified":"2021-04-22T17:41:45","modified_gmt":"2021-04-22T20:41:45","slug":"cilinha-ainda-e-sempre-presente-entre-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/04\/22\/cilinha-ainda-e-sempre-presente-entre-nos\/","title":{"rendered":"Cilinha, ainda e sempre, presente entre n\u00f3s!"},"content":{"rendered":"<p><em>Hoje, 22 de abril, Cec\u00edlia Toledo, nossa querida camarada Cilinha, faria 70 anos.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por Wilson Hon\u00f3rio*<\/p>\n<p>E quando me convidaram para lhe fazer um artigo-homenagem, confesso que tremi nas bases. N\u00e3o s\u00f3 pela responsabilidade, em fun\u00e7\u00e3o da admira\u00e7\u00e3o que tenho por ela e a consci\u00eancia de que isto \u00e9 compartilhado por todos e todas que a conheceram, mas tamb\u00e9m porque todo mundo sabe que este n\u00e3o \u00e9 um momento exatamente f\u00e1cil para falarmos de \u201cperdas\u201d, j\u00e1 que, arrastados pelo tratamento propositalmente genocida que vem sendo dado \u00e0 pandemia, temos convivido com um n\u00famero inaceit\u00e1vel e excessivo delas nas \u00faltimas semanas.<\/p>\n<p>Mas o estado um tanto melanc\u00f3lico e bastante nost\u00e1lgico inicial passou logo, levado pela certeza de que falar de Cilinha \u00e9 falar de vida. \u00c9 lembrar de lutas. \u00c9 celebrar uma mulher movida, em tudo que fazia, por uma paix\u00e3o incandescente e uma indigna\u00e7\u00e3o permanentemente agu\u00e7ada pela rebeldia e pelo desejo de dar o seu melhor para a constru\u00e7\u00e3o de um mundo socialista.<\/p>\n<p>Vida, lutas, paix\u00f5es, indigna\u00e7\u00e3o e rebeldia que seguem pulsando em n\u00f3s, que tivemos o prazer de militar com ela, em seu companheiro Martin Hernandez e em seu filho Martin Garcia, no\u00a0Coletivo de Artistas Socialistas\u00a0(CAS), no partido (PSTU) e na organiza\u00e7\u00e3o internacional (LIT-QI) aos quais ela dedicou sua vida e, tamb\u00e9m, em uma verdadeira multid\u00e3o de gente que ela tocou.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-63664\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Celinha-01.jpg\" alt=\"\" width=\"577\" height=\"439\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Celinha-01.jpg 577w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Celinha-01-300x228.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Celinha-01-150x114.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 577px) 100vw, 577px\" \/><\/p>\n<p><strong>Muitas paix\u00f5es, um objetivo: a revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Uma multid\u00e3o formada por gente com a qual ela cruzou seus caminhos nas plateias do teatro, nas salas de aula, nos muitos movimentos pol\u00edticos, sociais e culturais nos quais ela atuou, nos cursos de forma\u00e7\u00e3o e semin\u00e1rios que conduziu, ou, ainda, atrav\u00e9s de seus escritos, tanto na imprensa quanto em obras como Mulheres: o g\u00eanero nos une, a classe nos divide (1996), uma refer\u00eancia t\u00e3o importante para a luta marxista contra o machismo, que ganhou uma nova edi\u00e7\u00e3o, revisada e atualizada pela pr\u00f3pria Cilinha, pouco antes de falecer, em 2015, e organizada postumamente por sua cunhada e grande amiga, a companheira Al\u00edcia Sagra, com o t\u00edtulo\u00a0<a href=\"https:\/\/editorasundermann.com.br\/livro\/44-g%C3%AAnero-e-classe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G\u00eanero e classe<\/a>, lan\u00e7ado pela Editora Sundermann.<\/p>\n<p>E pensando em como lhe prestar uma homenagem em um espa\u00e7o que lhe era t\u00e3o querido, como o\u00a0CAS, que a tem como uma das fundadoras, principais impulsionadoras e inspira\u00e7\u00e3o permanente, acabei percebendo que n\u00e3o haveria como n\u00e3o tomar a liberdade de me meter um tanto na narrativa; pois, afinal, eu pr\u00f3prio fui um dos muitos tocados por ela, nas quase quatro d\u00e9cadas em que convivemos.<\/p>\n<p>Se f\u00f4ssemos dados a crendices, dir\u00edamos que nossos muitos encontros \u201cestavam escritos nas estrelas\u201d, porque, diga-se de passagem, compartilhamos a mesma data de nascimento (juntamente com Lenin\u201d, como ela lembrava sempre que a hist\u00f3ria vinha \u00e0 tona). Contudo, como tamb\u00e9m compartilhamos uma concep\u00e7\u00e3o materialista da Hist\u00f3ria, o fato \u00e9 que nos trombamos em diversas situa\u00e7\u00f5es (muitas vezes \u201cde frente\u201d, e quem conheceu sua disposi\u00e7\u00e3o para a pol\u00eamica sabe o significado disso) simplesmente por necessidades da vida, da milit\u00e2ncia ou, mais frequentemente, decis\u00f5es do partido.<\/p>\n<p>De qualquer forma, esses encontros tamb\u00e9m servem como testemunhos do seu car\u00e1ter multifacetado. \u00a0Desde o in\u00edcio dos anos 1980, trabalhamos juntos na sala da reda\u00e7\u00e3o do jornal\u00a0Converg\u00eancia Socialista; nos descabelamos e nos deliciamos em inumer\u00e1veis reuni\u00f5es, semin\u00e1rios e atividades para debater e organizar a luta contra as opress\u00f5es e em defesa da Cultura; militamos nos mesmo organismos partid\u00e1rios; lecionamos na mesma universidade; atuamos na tradu\u00e7\u00e3o de diversas reuni\u00f5es internacionais e, tamb\u00e9m, como n\u00e3o poderia deixar de ser, nos encontramos umas tantas vezes ao redor da Arte.<\/p>\n<p>Em meio a tudo isto, aprendi muito com ela, at\u00e9 mesmo atrav\u00e9s das muitas pol\u00eamicas que encaramos, como deve ser entre companheiros. Mas, como destaquei num v\u00eddeo gravado durante o ato realizado no Teatro Ruth Escobar , organizado em sua homenagem pelo CAS, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e a Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT), pouco depois de ela nos deixar, sempre a vi como uma \u201cmulher apaixonada\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ato em homenagem \u00e0 Cec\u00edlia Toledo &quot;Cilinha&quot;\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/No1HnpHPBPE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Apaixonada em tudo o que fazia, mas particularmente pela Arte e a Cultura, pela luta em defesa da emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres e contra a opress\u00e3o e, com o mesmo \u00edmpeto, pela destrui\u00e7\u00e3o do capitalismo e a constru\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o socialista internacional. Paix\u00f5es que ela come\u00e7ou a alimentar muito cedo e manteve vivas, literalmente, at\u00e9 o seu \u00faltimo suspiro, em 23 de setembro de 2015.<\/p>\n<p><strong>Mergulho na clandestinidade, ainda que sob os holofotes dos palcos<\/strong><\/p>\n<p>Essa paix\u00e3o multifacetada e, ao mesmo tempo, focada tem muito a ver n\u00e3o s\u00f3 com a personalidade explosivamente inquieta da Cilinha, mas, tamb\u00e9m, com o tipo de militante que ela sempre foi. Por isso, pra come\u00e7ar a sua hist\u00f3ria, recorro a uma cita\u00e7\u00e3o de um livro que, sei, estava dentre os seus favoritos: Que fazer?: problemas candentes do nosso movimento (Express\u00e3o Popular, 2010), escrito por Lenin, em 1902.<\/p>\n<p>\u00c9 nele que encontro uma s\u00edntese da forma como Cilinha encarou a vida e tudo o que fez. Ela foi um \u201ctribuno popular\u201d, como descrito pelo dirigente bolchevique, ao definir o que era, para ele, um militante ideal:<\/p>\n<p>(\u2026) O ideal do social-democrata n\u00e3o deve ser o secret\u00e1rio de trade-union [sindicato], mas o tribuno popular que saiba reagir contra toda a manifesta\u00e7\u00e3o de arbitrariedade e de opress\u00e3o, onde quer que se produza e qualquer que seja a camada ou a classe social atingida; que saiba sintetizar todos estes fatos para tra\u00e7ar um quadro de conjunto da brutalidade policial e da explora\u00e7\u00e3o capitalista, que saiba aproveitar o mais pequeno pormenor para expor perante todos as suas convic\u00e7\u00f5es socialistas e as suas reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, para explicar a todos e a cada um o alcance hist\u00f3rico-mundial da luta emancipadora do proletariado (\u2026). (p. 48).<\/p>\n<p>Fosse como dramaturga ou atriz, professora ou jornalista, escritora ou parte das mais \u201csimples\u201d atividades militantes, Cilinha nunca perdia algumas coisas de vista: a capacidade enorme de indigna\u00e7\u00e3o e, acima de tudo, de colocar tudo sob a \u00f3tica da luta pelo socialismo, da emancipa\u00e7\u00e3o do proletariado e dos oprimidos a partir de suas pr\u00f3prias for\u00e7as, algo que, ela sabia, dependia da constru\u00e7\u00e3o de um partido internacional da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Coisas que ela aprendeu muito cedo, quando a diretora teatral e jornalista Maria Cec\u00edlia Garcia, formada pela Escola de Arte Dram\u00e1tica (EAD) e Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes (ECA), da Universidade de S\u00e3o Paulo, encarnou a \u201cpersonagem\u201d In\u00eas, nome adotado na clandestinidade, por imposi\u00e7\u00e3o das garras sempre afiadas da ditadura militar, ao ingressar, ainda nos 1970, na Liga Oper\u00e1ria, organiza\u00e7\u00e3o criada em 1973 e que est\u00e1 nas ra\u00edzes da Converg\u00eancia Socialista e, posteriormente, do PSTU.<\/p>\n<p>O encontro se deu de uma forma que poderia parecer inusitada, caso n\u00e3o estiv\u00e9ssemos falando da Cilinha e do papel que a juventude, a Cultura e a Arte cumpriram na resist\u00eancia \u00e0 ditadura. Na \u00e9poca, ela e seu grupo teatral, onde tamb\u00e9m atuava Robson Camargo, tinham uma proposta \u201cmambembe\u201d, levando pe\u00e7as para as periferias e comunidades de S\u00e3o Paulo e cidades do interior. E foram nestas perambula\u00e7\u00f5es que eles se encontraram com um pequeno agrupamento de trotskistas que havia retornado de per\u00edodos de ex\u00edlio no Chile e na Argentina e estava construindo a Liga.<\/p>\n<p>No decorrer dos anos, a sa\u00edda de debaixo dos holofotes dos palcos para o mergulho na milit\u00e2ncia clandestina foi mediada por uma interven\u00e7\u00e3o concreta nas lutas de sua categoria, numa experi\u00eancia que Cilinha sempre considerou marcante em sua vida. Em 1978, atuou, ao lado de artistas como Cla\u00fadio Mamberti, Renato Consorte, Dulce Muniz, Robson e o igualmente saudoso Carlos Ricardo, na organiza\u00e7\u00e3o da chapa de oposi\u00e7\u00e3o ao Sindicato dos Artistas de S\u00e3o Paulo, organizada em torno do grupo \u201cUrdimento\u201d (estrutura que sustenta os palcos) e encabe\u00e7ada por L\u00e9lia Abramo, um das percussoras do trotskismo no Brasil e atriz de primeira grandeza.<\/p>\n<p>A campanha vitoriosa foi um marco importante no processo de retirada das entidades sindicais das m\u00e3os dos pelegos e colaboradores da ditadura, antecipando o que viria ocorrer nos anos seguintes com banc\u00e1rios, professores e, posteriormente, metal\u00fargicos, contribuindo, assim, para colocar a classe oper\u00e1ria, seus movimentos e m\u00e9todos no centro das lutas pela derrubada do regime militar.<\/p>\n<p>Ousadias como estas n\u00e3o passaram desapercebidas pelo regime totalit\u00e1rio. Em 2012, Cilinha, ent\u00e3o j\u00e1 identificada como Cec\u00edlia Toledo, e outros tr\u00eas militantes da Converg\u00eancia (Dirceu Travesso, Jos\u00e9 Cant\u00eddio de Souza Lima, o Cip\u00f3, e Tarc\u00edsio Eberhard) receberam anistia pol\u00edtica e o pedido de perd\u00e3o do Estado brasileiro, depois da Comiss\u00e3o Nacional constitu\u00edda pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a comprovar que eles haviam sido perseguidos pela Ditadura Militar.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-63665\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Cilinha-02.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"398\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Cilinha-02.jpg 600w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Cilinha-02-300x199.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Cilinha-02-150x100.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p><strong>Uma jornalista apaixonadamente subversiva<\/strong><\/p>\n<p>No caso da Cilinha, n\u00e3o faltaram provas. Documentos oficiais escavados nos por\u00f5es da ditadura atestam que sua vida e atividades foram monitoradas por cerca de 10 anos. Durante boa parte deles, os \u201carapongas\u201d (espi\u00f5es) a servi\u00e7o do regime a classificaram como \u201cjornalista subversiva\u201d, principalmente por sua atua\u00e7\u00e3o na chamada \u201cimprensa alternativa\u201d.<\/p>\n<p>Em maio de 1979, por exemplo, a reda\u00e7\u00e3o do\u00a0Versus, que j\u00e1 sofrera com pris\u00f5es de colaboradores, foi invadida, roubada e depredada por um comando de extrema-direita. Mais tarde, a editoria foi interditada, depois da aplica\u00e7\u00e3o de uma pesada multa financeira. Neste mesmo ano, Cilinha foi detida pelo famigerado Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (DOPS), em fun\u00e7\u00e3o de sua colabora\u00e7\u00e3o no jornal Converg\u00eancia Socialista e por ter sido identificada como participante da greve dos metal\u00fargicos do ABC.<\/p>\n<p>Com a derrocada do regime militar, Cilinha acumulou experi\u00eancia no jornalismo em alguns das mais importantes publica\u00e7\u00f5es do pa\u00eds, como o jornal\u00a0Folha de S\u00e3o Paulo\u00a0e a revista\u00a0Veja. Experi\u00eancia que ela levou, com seus textos afiados, escritos sempre numa linguagem fluente e acess\u00edvel, para as publica\u00e7\u00f5es da esquerda que floresceram na segunda metade dos anos 1970, em jornais como o\u00a0Movimento,\u00a0Opini\u00e3o\u00a0e o j\u00e1 mencionado\u00a0Versus.<\/p>\n<p>Contudo, suas contribui\u00e7\u00f5es nesta \u00e1rea estar\u00e3o para sempre gravadas nas p\u00e1ginas das publica\u00e7\u00f5es que acompanharam a trajet\u00f3ria da Liga Internacional dos Trabalhadores no Brasil, como o\u00a0Converg\u00eancia Socialista, o\u00a0Alicerce da Juventude Socialista, o\u00a0Jornal do PSTU\u00a0e o\u00a0Opini\u00e3o Socialista; al\u00e9m da\u00a0Marxismo Vivo, revista publicada pela Internacional, na qual ela cumpriu papel fundamental, \u00e0 frente de seu conselho editorial.<\/p>\n<p>Mesmo tendo tido contatos anteriores, meu encontro com ela se deu, em meados dos anos 1980, na sala de reda\u00e7\u00e3o do\u00a0CS, quando me transferi da regional ABC para S\u00e3o Paulo. Eu, at\u00e9 ent\u00e3o militante secundarista, negro e gay, de origem perif\u00e9rica, cria da escola p\u00fablica, estava em transi\u00e7\u00e3o para o Departamento de Hist\u00f3ria da USP. E, por uma daquelas coisas t\u00edpicas da milit\u00e2ncia, acabei virando \u201cjornalista\u201d.<\/p>\n<p>Uma metamorfose que s\u00f3 poss\u00edvel porque tive Cilinha n\u00e3o s\u00f3 como editora, mas tamb\u00e9m como mentora e orientadora \u2013 naquele momento, ao lado, \u00e9 preciso dar os cr\u00e9ditos, de companheiras e companheiros como Lu\u00eds Leiria, Ana Cristina Machado, Cristina Portella, Bernardo Cerdeira e a tamb\u00e9m saudosa Silvana Finzi Fo\u00e1.\u00a0 Foi um aprendizado e tanto.<\/p>\n<p>Cilinha sempre teve qualidades excepcionais para uma jornalista a servi\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o: olhar atento \u00e0 realidade, para defini\u00e7\u00e3o das pautas que mais pudessem contribuir tanto para a forma\u00e7\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o pol\u00edticas quanto para a interven\u00e7\u00e3o no movimento; preocupa\u00e7\u00e3o permanente com a linguagem que melhor pudesse dialogar com os setores mais oprimidos e explorados da classe; agilidade e paci\u00eancia para editar nossos textos, sempre de forma cr\u00edtica e cautelosa ao apontar o que poderia (ou, obrigatoriamente, deveria ser refeito) e uma disposi\u00e7\u00e3o incans\u00e1vel para encarar os fechamentos que adentravam pela madrugada, numa \u00e9poca em que o trabalho era feito em antigu\u00edssimas m\u00e1quinas de escrever e folhas de pauta.<\/p>\n<p>Trabalho \u00e1rduo, mas cujas lembran\u00e7as s\u00e3o repletas de momentos deliciosos. Com um detalhe que nos aproximou de forma definitiva. O respons\u00e1vel pela diagrama\u00e7\u00e3o era o querido Hiro Okita, autor de\u00a0Homossexualidade: da opress\u00e3o \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o, publicado no in\u00edcio dos anos 1980 e, at\u00e9 hoje, refer\u00eancia fundamental para as LGBTIs marxistas.<\/p>\n<p>Consequentemente, temas relacionados ao machismo, ao racismo e \u00e0 LGBTfobia se tornaram alvos constantes de conversas, debates e acaloradas discuss\u00f5es que, olhando pra tr\u00e1s, considero cruciais para tudo o que fizemos depois nestas \u00e1reas. E, sabemos, n\u00e3o foram poucas as contribui\u00e7\u00f5es da Cilinha nesta hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Uma vida dedicada \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o das mulheres atrav\u00e9s da revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Sem querer \u201ccolocar palavras em sua boca\u201d, coisa que ela abominava, acho que posso afirmar que Cilinha n\u00e3o se incomodaria se eu fizesse suas as \u00faltimas palavras da Autobiografia de uma mulher comunista sexualmente emancipada, publicado originalmente em 1926, pela revolucion\u00e1ria russa Alexandra Kollontai:<\/p>\n<p>\u201cEst\u00e1 perfeitamente claro para mim que a liberta\u00e7\u00e3o completa da mulher trabalhadora e a cria\u00e7\u00e3o das bases de uma nova moral sexual manter-se-\u00e3o para sempre como o alvo mais elevado de minha atividade, e de minha vida\u201d.<\/p>\n<p>Foi exatamente isto que Cilinha tomou como sua principal tarefa, principalmente a partir dos anos 1990. Uma tarefa que, sabemos, n\u00e3o foi nada f\u00e1cil, mesmo para uma corrente pol\u00edtica como o trotskismo que, desde sempre, valorizou a luta contra as opress\u00f5es, compreendendo-a como indissoci\u00e1vel do combate \u00e0 explora\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Contudo, em primeiro lugar, uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas (que v\u00e3o desde as trai\u00e7\u00f5es do stalinismo particularmente nesta \u00e1rea at\u00e9 as caracter\u00edsticas de uma esquerda que, no Brasil, se reorganizou sob uma ditadura e influ\u00eancia da Igreja, de fortes tend\u00eancias sindicalistas e populistas) fizeram com que estes debates se perdessem num emaranhado de quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Em suma, como costumava brincar com ela, sofr\u00edamos uma esp\u00e9cie de \u201cs\u00edndrome dos podres poderes\u201d (em refer\u00eancia a uma m\u00fasica do Caetano Veloso). A regra geral, no movimento e maioria das organiza\u00e7\u00f5es, era que\u00a0\u201cnegros, bichas e mulheres, ficassem para depois do Carnaval\u201d. Ou seja, que a luta contra o racismo, o machismo e a LGBTfobia era uma tarefa para depois da revolu\u00e7\u00e3o. Isto quando n\u00e3o era completamente recha\u00e7ada,\u00a0 particularmente no caso das vertentes stalinistas e mao\u00edstas.<\/p>\n<p>Ao seu favor para encarar este debate em rela\u00e7\u00e3o a mulheres (e n\u00f3s, enquanto negros e LGBTIs), Cilinha carregava a tradi\u00e7\u00e3o da Converg\u00eancia Socialista, que, ainda nos anos 1970, mantinha organismos pr\u00f3prios (como Secretarias) destinadas especificamente para a elabora\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o em torno do trabalho com estes setores, o que nos permitiu, inclusive, ter protagonismo na constru\u00e7\u00e3o do Movimento Negro Unificado (MNU) e do SOMOS: Grupo de Afirma\u00e7\u00e3o Homossexual, ambos em 1978.<\/p>\n<p>De qualquer forma, os anos da chamada redemocratiza\u00e7\u00e3o, apesar de marcados por uma amplo processo de reorganiza\u00e7\u00e3o de movimentos contra a opress\u00e3o, tamb\u00e9m exigiram muito da milit\u00e2ncia, o que acabou contribuindo para uma certa dispers\u00e3o deste trabalho, o que j\u00e1 era bastante preocupante e, por isso mesmo, tema constante de debates entre n\u00f3s que \u201csent\u00edamos na pele\u201d a necessidade de avan\u00e7armos no debate.<\/p>\n<p>Cilinha, ao lado de valorosas companheiras como Ana Rosa Minutti, esteve sempre \u00e0 frente de nosso pequeno, mas aguerrido, batalh\u00e3o. E, no in\u00edcio dos anos 1990, ela decidiu erguer barricadas e fazer uso das armas que fossem necess\u00e1rias para resgatar e desenvolver, para dentro e fora da organiza\u00e7\u00e3o, as teorias, perspectivas, m\u00e9todos e programa que pudessem contribuir para fazer avan\u00e7ar os debates e a atua\u00e7\u00e3o concreta em torno da organiza\u00e7\u00e3o das mulheres sob a bandeira do classismo, do marxismo revolucion\u00e1rio e da revolu\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p><strong>A luta de classes como divisora de \u00e1guas no combate ao machismo<\/strong><\/p>\n<p>Armas que precisavam ser particularmente afiadas e certeiras, principalmente diante do que estava rolando nos movimentos de combate \u00e0 opress\u00e3o. Viv\u00edamos num momento em que teorias p\u00f3s-modernas, que rec\u00e9m haviam desembarcado por aqui, se mesclavam com as ideologias neoliberais e a campanha ideol\u00f3gica sobre \u201co fim do socialismo\u201d, p\u00f3s-queda do Muro de Berlin. E, neste contexto j\u00e1 complicado, grande parte do movimento de mulheres abandonava o marxismo, abra\u00e7ando as chamadas \u201cteorias de g\u00eanero\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-63666 alignright\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/livro-cilinha.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p>Foi deste solo um tanto \u00e1rido que Cilinha vez brotar o livro\u00a0O g\u00eanero nos une e a classe nos divide, cujo principal objetivo era demarcar as diferen\u00e7as e fronteiras entre as demandas das mulheres burguesas e trabalhadoras, demonstrando que, apesar de pertencentes a um mesmo g\u00eanero, os interesses de classe as colocavam em terrenos opostos.<\/p>\n<p>O livro, como j\u00e1 mencionado, tornou-se um marco, sendo traduzido para v\u00e1rios idiomas. Contudo, tamb\u00e9m \u00e9 importante destacar suas entrelinhas, algo importante para lembrar o tipo de militante que Cilinha era. Sua origem e conseq\u00fc\u00eancia imediata est\u00e3o relacionadas a algumas das coisas mais valorizadas por ela: a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da milit\u00e2ncia e a organiza\u00e7\u00e3o, tanto dos movimentos de massas quanto de um partido revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Seu ponto de partida foi um curso sobre a origem da opress\u00e3o da mulher, ministrado em diversas cidades brasileiras, o que a colocou em contato com trabalhadoras banc\u00e1rias, professoras, oper\u00e1rias e estudantes que lhe despertaram a necessidade de ampliar os temas do cur\u00adso, publicando um livro. Al\u00e9m disso, o livro cumpriu papel fundamental para o desenvolvimento de Secretarias de Mulheres, dentro da organiza\u00e7\u00e3o, mas, tamb\u00e9m, em sindicatos e entidades do movimento.<\/p>\n<p>No PSTU, fundado em 1994, Cilinha esteve \u00e0 frente da Secretaria de Mulheres durante anos, contribuindo para a forma\u00e7\u00e3o de sucessivas gera\u00e7\u00f5es de companheiras, muitas das quais carregam, hoje, seu trabalho adiante. Al\u00e9m disso, ela tamb\u00e9m ocupou a coordena\u00e7\u00e3o da Secretaria Internacional de Mulheres da LIT, uma tarefa decorrente n\u00e3o s\u00f3 de suas elabora\u00e7\u00f5es sobre o tema, mas tamb\u00e9m de sua enorme dedica\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o da Internacional.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ter militado no antigo Movimento ao Socialismo (MAS), a corrente argentina da LIT, fundada por Nahuel Moreno, durante tr\u00eas anos, Cilinha se disponibilizou in\u00fameras vezes para construir este embri\u00e3o do partido internacional da revolu\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, como Bol\u00edvia e Equador, e, tamb\u00e9m, da Europa, como no Estado Espanhol, Portugal e Inglaterra.<\/p>\n<p><strong>Uma artista ardentemente socialista<\/strong><\/p>\n<p>No decorrer de todo este per\u00edodo, a companheira nunca se permitiu distanciar de suas ra\u00edzes cravadas nos palcos. E o fez, como sempre, com tudo junto e misturado, combinando luta pela emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres e pelo socialismo revolucion\u00e1rio e internacionalista com a convic\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia da Arte e da Cultura, n\u00e3o s\u00f3 para o entretenimento, mas, tamb\u00e9m, para a disputa ideol\u00f3gica, a forma\u00e7\u00e3o e, inclusive, a organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora e dos oprimidos.<\/p>\n<p>Era apaixonada por tudo o que tinha a ver com o poeta, dramaturgo e encenador marxista Bertold Brecht (1898-1956) e, por isso mesmo, guardo com carinho uma colet\u00e2nea de seus textos que ela me deu de presente, d\u00e9cadas atr\u00e1s. Assim como preservo na mem\u00f3ria uma montagem que vimos, juntos, nos anos 1980, do espet\u00e1culo\u00a0Bella Ciao\u00a0(de Luis Alberto de Abreu), num antigo teatro do bairro do Bom Retiro, s\u00edmbolo do tipo de espet\u00e1culo que ela curtia. Da mesma forma que lhe sou grato por ter me apresentado In\u00e1 Camargo e Dulce Muniz, artistas e companheiras de muitas lutas, com as quais manteve di\u00e1logo at\u00e9 o fim de sua vida.<\/p>\n<p>E essas foram algumas de suas refer\u00eancias e influ\u00eancias para os muitos grupos e montagens que ela encabe\u00e7ou ou com os quais colaborou. Algumas delas realmente marcantes, como\u00a0Guerreiras de Brecht, na qual ela alinhavou seis textos do autor alem\u00e3o que t\u00eam personagens femininas colocadas em situa\u00e7\u00f5es de conflitos e luta:\u00a0Santa Joana dos Matadouros\u00a0(1931),\u00a0A M\u00e3e\u00a0(1931),\u00a0Os fuzis da Senhora Carrar\u00a0(1937),\u00a0M\u00e3e coragem e seus filhos\u00a0(1939),\u00a0A alma boa de Set-Suan\u00a0(1943) e\u00a0C\u00edrculo de giz caucasiano\u00a0(1944).<\/p>\n<p>Outra que fez hist\u00f3ria, atravessando fronteiras, foi\u00a0Lucha Mujer Po\u00e9tica, um texto que, tamb\u00e9m seguindo os passos de Brecht, colocava em cena \u201cpersonagens\u201d como a Wlassova (de\u00a0A M\u00e3e), a revolucion\u00e1ria alem\u00e3 Clara Zetkin e a escritora modernista, jornalista, dramaturga e militante comunista brasileira Patr\u00edcia Galv\u00e3o (a Pagu), para discutir a viol\u00eancia contra as mulheres e suas lutas. O t\u00edtulo em espanhol tem a ver com o fato de que o espet\u00e1culo foi montado por um grupo formado pela pr\u00f3pria Cilinha, na Argentina, onde o texto foi apresentado, na Universidade de Quilmes, em 2014.<\/p>\n<p>Aqui no Brasil, Cilinha colaborou para a cria\u00e7\u00e3o do Grupo Teatral Trabalhadores da Arte, cuja hist\u00f3ria se confunde com a do\u00a0CAS\u00a0e foi respons\u00e1vel pela montagem de v\u00e1rios textos seus, em meados dos anos 2010, como\u00a0Foices, Fac\u00f5es e Fuzis\u00a0(em torno da quest\u00e3o agr\u00e1ria) e\u00a0Dez dias que abalaram o mundo, uma adapta\u00e7\u00e3o que Cilinha fez do famoso livro de John Reed, sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m colaborou com iniciativas como o Grupo Teatral Erga- Omnes, grupo dirigido por Jairo Maciel, no Sindicato dos Trabalhadores do Judici\u00e1rio (Sintrajud), de S\u00e3o Paulo, que montou, em 2016, o espet\u00e1culo\u00a0Rebeldia, rebeldia, em homenagem ao anivers\u00e1rio de um ano do falecimento da autora do texto.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos citar diversos outros exemplos de montagens feitas em ocupa\u00e7\u00f5es, sindicatos, na rua ou em celebra\u00e7\u00f5es e atos do 1\u00ba de Maio ou do Dia Internacional da Mulheres. Al\u00e9m de saraus e leituras dram\u00e1ticas levadas para todos os cantos e espa\u00e7os nos quais a arte pudesse contribuir para agu\u00e7ar a consci\u00eancia de classe e a necessidade da luta.<\/p>\n<p>Contudo, neste campo, seu maior legado est\u00e1 exatamente dentre os leitores deste texto: o\u00a0Coletivo de Artistas Socialistas, criado no in\u00edcio dos anos 2000 e, hoje, filiado \u00e0 CSP-Conlutas, onde mant\u00e9m uma atividade constante, combinando produ\u00e7\u00e3o agita\u00e7\u00e3o art\u00edstico-cultural com a luta pela defesa dos trabalhadores e trabalhadoras da arte e seu engajamento no combate pela revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma polemista \u201cferoz\u201d, tamb\u00e9m capaz da autocr\u00edtica<br \/>\nNo ato realizado quando de seu falecimento, Al\u00edcia Sagra destacou que a sensibilidade de artista, a inquietude e a paix\u00e3o que caracterizavam Cilinha tamb\u00e9m se manifestavam, com for\u00e7a, na forma como era defendia suas ideias e encarava pol\u00eamicas. E n\u00e3o foram poucas e nem sempre \u201cf\u00e1ceis\u201d. Mas, o que mais poderia se esperar de uma militante revolucion\u00e1ria?<\/p>\n<p>O importante \u00e9 que suas pol\u00eamicas e acaloradas discuss\u00f5es sempre contribu\u00edram, e continuam contribuindo, para nos instigar, for\u00e7ar a reflex\u00e3o e inspirar o debate entre n\u00f3s na continuidade da busca do melhor caminho para levar adiante os mesmos ideais pelos quais ela tanto brigou durante a vida. E, t\u00e3o importante quanto, Cilinha tamb\u00e9m fez o seu melhor para incorporar cr\u00edticas e contribui\u00e7\u00f5es em suas elabora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Exemplo disto \u00e9 o seu \u00faltimo legado, a edi\u00e7\u00e3o revisada e atualizada do livro, cujos ajustes e mudan\u00e7as est\u00e3o expressos j\u00e1 no t\u00edtulo (agora, \u201cG\u00eanero e classe\u201d). Altera\u00e7\u00f5es e corre\u00e7\u00f5es que s\u00e3o demonstra\u00e7\u00f5es tanto desta tentativa quanto do m\u00e9todo com a qual ela tentou conduzir sua vida. Como foi destacado por Al\u00edcia Sagra, no pref\u00e1cio do livro.<\/p>\n<p>\u201cCec\u00edlia sempre dizia que as discuss\u00f5es, as pol\u00eamicas, as opini\u00f5es \u2013 \u00e0s vezes coincidentes, outras contr\u00e1rias \u2013 que recebia das companheiras da LIT-QI possibilitaram a realiza\u00e7\u00e3o de seu primeiro livro, da mesma forma que lhe fizeram ver as debilidades que ele tinha e que era necess\u00e1rio corrigi-las. Estou segura de que ela gostaria que este livro fosse dedicado a todas essas companheiras\u201d, escreveu (p. 12).<\/p>\n<p>Como isto se refletiu no conte\u00fado \u00e9 algo a ser estudado por aqueles e aquelas que venham a l\u00ea-lo. No entanto, pra finalizar, vale citar o que a pr\u00f3pria Cilinha disse a respeito.<\/p>\n<p>\u201cEste livro foi escrito, inicialmente, em 1996. Esta seria a quarta edi\u00e7\u00e3o e, durante todos estes anos, vem passando por diversas atualiza\u00e7\u00f5es. Nesta nova edi\u00e7\u00e3o, foram inclu\u00eddas algumas quest\u00f5es importantes que n\u00e3o constavam das edi\u00e7\u00f5es anteriores, bem como foram corrigidas as defini\u00e7\u00f5es que novos estudos e discuss\u00f5es mostraram que eram pouco claras ou erradas\u201d, como destacou na apresenta\u00e7\u00e3o do livro (p. 14).<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, ela tamb\u00e9m fez quest\u00e3o de ressaltar que esta \u00e9 uma \u201cobra em aberto\u201d, como tem que ser \u2013 dentro dos limites dos princ\u00edpios que norteiam o marxismo revolucion\u00e1rio \u2013 toda elabora\u00e7\u00e3o que procure responder \u00e0 luta de classes, algo, por defini\u00e7\u00e3o, din\u00e2mico, dial\u00e9tico e suscet\u00edvel a novas abordagens e perspectivas.<\/p>\n<p>Consciente disto, Cilinha tamb\u00e9m deixou registrado que:<\/p>\n<p>\u201cO prop\u00f3sito deste livro n\u00e3o \u00e9, de forma alguma, esgotar o tema. Pelo contr\u00e1rio. Queremos abrir ainda mais as nossas mentes para de\u00adbater suas causas reais e buscar uma resposta ao feminismo atual, uma resposta que ajude a mulher trabalhadora a se conscientizar de sua si\u00adtua\u00e7\u00e3o como mulher e encontrar o caminho de sua emancipa\u00e7\u00e3o\u201d. Uma luta decisiva n\u00e3o s\u00f3 para as mulheres, pois, afinal, como ela conclui,\u00a0\u201cao lutar pela libera\u00e7\u00e3o das mulheres estamos, na verdade, lutando pela emanci\u00adpa\u00e7\u00e3o de toda a humanidade!\u201d\u00a0(p, 17)<\/p>\n<p><strong>Presente, at\u00e9 o socialismo. E sempre!<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 realmente lament\u00e1vel que ela j\u00e1 n\u00e3o esteja entre n\u00f3s para pud\u00e9ssemos fazer este debate diretamente com ela. Mas, exatamente por concordar que n\u00e3o s\u00f3 a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres, como tamb\u00e9m de negros, negras, LGBTIs, povos origin\u00e1rios, gente marginalizada pela xenofobia ou quaisquer outras formas de opress\u00e3o, depende da unidade da classe trabalhadora que, por isso mesmo, tem que superar, na luta, as divis\u00f5es impostas pela burguesia para nos dividir e nos enfraquecer, tamb\u00e9m tenho certeza que as contribui\u00e7\u00f5es da Cilinha continuar\u00e3o a se fazer presentes entre n\u00f3s. Assim como sua mente criativa e suas elabora\u00e7\u00f5es e produ\u00e7\u00f5es no campo da Arte e da Cultura continuar\u00e3o ecoar nos palcos ou qualquer espa\u00e7o onde se fa\u00e7a necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que, hoje, celebramos seus 70 anos. Ser\u00e1 assim, tamb\u00e9m, que continuaremos celebrando sua vida. Ela odiaria ouvir que lhe \u201cdevemos\u201d isto. Mas, devemos, sim. Inclusive pela forma her\u00f3ica como ela enfrentou seus \u00faltimos anos. Nunca admitindo que o c\u00e2ncer que a consumia servisse como obst\u00e1culo para se fazer presente em um debate ou ir a alguma atividade. Nunca reclamando.<\/p>\n<p>Sua for\u00e7a \u00e9 um exemplo, particularmente importante, inclusive, nestes tempos sombrios que enfrentamos. Sua garra em buscar dar o melhor de si, at\u00e9 o \u00faltimo suspiro, deve servir como inspira\u00e7\u00e3o para as novas gera\u00e7\u00f5es e aquelas que est\u00e3o por vir.<\/p>\n<p>Como Z\u00e9 Maria, dirigente do PSTU, destacou no ato no Ruth Escobar, lamentamos, sim, e muito, que ela tenha nos deixado t\u00e3o cedo, mas celebramos que ela tenha vivido\u00a0\u201cuma vida plena, pois n\u00e3o h\u00e1 como viver plenamente nessa sociedade se n\u00e3o for lutando contra essa situa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Celebramos o fato de ela ter compartilhado sua vida conosco. Seja de forma pr\u00f3xima, como no caso dos mais antigos, seja pelo seu legado, que tomou vida pr\u00f3pria nas muitas atividades que desempenhou, e nos muitos e muitas que ela continua ajudando a instigar, inquietar e formar.<\/p>\n<p>Algo que, ali\u00e1s, ficar\u00e1 ainda mais acess\u00edvel atrav\u00e9s de uma iniciativa de seu filho, que, carinhosamente, chamamos de Martizinho, hoje, militante revolucion\u00e1rio e cineasta talentoso, que est\u00e1 produzindo um document\u00e1rio sobre Cilinha, a ser lan\u00e7ado, provavelmente, no pr\u00f3ximo ano. Algo que, com certeza, ser\u00e1 uma bela oportunidade n\u00e3o s\u00f3 para homenage\u00e1-la, mas, acima de tudo, para lembrar que \u201cos nossos e as nossas\u201d n\u00e3o morrem, nunca.<\/p>\n<p>Aqueles e aquelas que, como Cec\u00edlia Toledo, dedicam toda a vida \u00e0 luta pela destrui\u00e7\u00e3o deste sistema que se alimenta da opress\u00e3o e da explora\u00e7\u00e3o e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um mundo socialista, como j\u00e1 disse seu amado Brecht, n\u00e3o s\u00f3 \u201cs\u00e3o imprescind\u00edveis\u201d, mas tamb\u00e9m se perpetuam nas gera\u00e7\u00f5es que assumem o vazio deixado. Um vazio, paradoxalmente, repleto e prenhe de vida.<\/p>\n<p>Publicado originalmente em: https:\/\/blogdocas.com.br\/2021\/04\/22\/cilinha-ainda-e-sempre-presente-entre-nos\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, 22 de abril, Cec\u00edlia Toledo, nossa querida camarada Cilinha, faria 70 anos.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":63664,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[121,3861,8,3493],"tags":[3859,3860,735],"class_list":["post-70488","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","category-especial-cecilia-toledo","category-historia","category-mulheres","tag-cecilia-toledo","tag-cilinha-presente","tag-wilson-honorio-da-silva"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Celinha-01.jpg","categories_names":["Brasil","Especial Cec\u00edlia Toledo","Hist\u00f3ria","Mulheres"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70488","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70488"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70488\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63664"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70488"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70488"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70488"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}