{"id":70474,"date":"2021-03-25T11:33:16","date_gmt":"2021-03-25T14:33:16","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63410"},"modified":"2021-03-25T11:33:16","modified_gmt":"2021-03-25T14:33:16","slug":"mexico-a-luta-pelas-demandas-das-mulheres-trabalhadoras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/03\/25\/mexico-a-luta-pelas-demandas-das-mulheres-trabalhadoras\/","title":{"rendered":"M\u00e9xico: a luta pelas demandas das mulheres trabalhadoras"},"content":{"rendered":"<p><em>No dia 8 de mar\u00e7o ocorreram passeatas e protestos em v\u00e1rias cidades do M\u00e9xico, al\u00e9m de in\u00fameras atividades virtuais para fazer ouvir a voz das mulheres que protestam contra os feminic\u00eddios, o tr\u00e1fico de mulheres e a viol\u00eancia contra elas. A manifesta\u00e7\u00e3o mais importante aconteceu no Z\u00f3calo, na Cidade do M\u00e9xico. Eram milhares e foram reprimidas pelo governo, que tenta constantemente estigmatizar o movimento de mulheres. Por isso no M\u00e9xico, como em todo o mundo, n\u00f3s mulheres continuamos lutando. Como contribui\u00e7\u00e3o a esta luta, n\u00f3s da <strong>Corrente Socialista dos Trabalhadores-CST<\/strong> publicamos a apresenta\u00e7\u00e3o de nossa camarada Guadalupe Reyes, trabalhadora e delegada sindical da bilheteria do Metr\u00f4 da cidade, em nossa confer\u00eancia de comemora\u00e7\u00e3o do Dia Internacional da Mulher Trabalhadora.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: CST-M\u00e9xico<\/p>\n<p>O M\u00e9xico \u00e9 considerado um dos pa\u00edses com maior desigualdade na Am\u00e9rica Latina, onde 52% da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o mulheres.<\/p>\n<p>Segundo relat\u00f3rio do IMSS e do INEGI [1], de mar\u00e7o de 2020 a janeiro de 2021, a crise atingiu mais as mulheres. A redu\u00e7\u00e3o do emprego formal foi de 3,9% para os homens e 11,3% para as mulheres trabalhadoras. Em 2020 ganharam 18,5% menos do que os trabalhadores e t\u00eam 1,8 vezes mais chances de perder o emprego. Sua participa\u00e7\u00e3o na atividade econ\u00f4mica passou de 74,9% em janeiro de 2020 para 40,5% em janeiro de 2021. Em contrapartida, os homens passaram de 76,4% para 73,3%.<\/p>\n<p>Segundo dados de Claudia Villegas, diretora da revista <em>Fortuna<\/em>, 23 milh\u00f5es de mulheres t\u00eam emprego formal e mais de 18 milh\u00f5es est\u00e3o no setor informal.<\/p>\n<p>De acordo com um estudo do Instituto Mexicano para a Competitividade (IMCO) entre 2017 e o primeiro bimestre de 2020, antes da crise do COVID 19, uma mexicana em m\u00e9dia ganhava 85 pesos para cada 100 que um mexicano recebia. Destaca que para as mulheres menos preparadas e com condi\u00e7\u00f5es de emprego mais vulner\u00e1veis, como as trabalhadoras do setor informal, a diferen\u00e7a salarial \u00e9 ainda maior. O M\u00e9xico \u00e9 o quinto pa\u00eds da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) com a maior diferen\u00e7a salarial, depois da Coreia, Jap\u00e3o, Israel e Finl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Com a pandemia e o confinamento, as mulheres v\u00eam enfrentando n\u00e3o apenas ter que trabalhar de casa, sem hor\u00e1rio fixo; mas tamb\u00e9m o trabalho dom\u00e9stico; o cuidado dos enfermos; fun\u00e7\u00f5es de professora, aumentando o estresse e o cansa\u00e7o, e diminuindo o tempo de descanso. Com a pandemia, muitas mulheres perderam o trabalho, principalmente trabalhos informais (por exemplo, trabalhadoras dom\u00e9sticas), ainda sendo a maioria delas chefas de fam\u00edlia, o que as obrigou a mudar de casa, em busca de locais mais baratos e a viver na precariedade.<\/p>\n<p>O confinamento e a crise econ\u00f4mica tamb\u00e9m aumentaram a viol\u00eancia contra as mulheres, meninas, meninos e adolescentes. Dados da Secretaria Executiva do Sistema Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica (SESNSP) informam que em 2020 houve 939 v\u00edtimas de feminic\u00eddio e mais 2.791 por homic\u00eddio doloso. Ou seja, 11 mulheres tiveram suas vidas tiradas intencionalmente a cada dia.<\/p>\n<p>Em 2020, um total de 97.778 mulheres sofreram algum tipo de viol\u00eancia: tr\u00e1fico de pessoas, estupro e les\u00f5es f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas. Dessas mulheres, 57.495 t\u00eam les\u00f5es dolosas feitas, na maioria dos casos, pelo parceiro, ou seja, 157,5 mulheres sofrem les\u00f5es dolosas por dia. 97% das den\u00fancias e processos de viol\u00eancia contra as mulheres ficaram impunes at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>Diante dessa situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia e discrimina\u00e7\u00e3o, as mulheres mexicanas continuam lutando. Passou um ano desde a paralisa\u00e7\u00e3o nacional <em>\u201cUm dia sem n\u00f3s\u201d<\/em> <em>(\u201cUn d\u00eda sin nosotras\u201d<\/em>) com a palavra de ordem <em>\u201cHoje 9 ningu\u00e9m se move\u201d<\/em>, que pedia nenhuma mulher nas ruas ou no trabalho, nas escolas ou no com\u00e9rcio, com a inten\u00e7\u00e3o de que se valorizasse nosso lugar na sociedade. A paraliza\u00e7\u00e3o foi considerada uma vit\u00f3ria, pois se notou a aus\u00eancia das trabalhadoras, e foi emblem\u00e1tica a aus\u00eancia das mulheres trabalhadoras das bilheterias do Metr\u00f4 da Cidade do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>No metr\u00f4 da Cidade do M\u00e9xico, h\u00e1 um controle r\u00edgido da empresa e de Fernando Espino Ar\u00e9valo, o dirigente burocr\u00e1tico do sindicato majorit\u00e1rio, sobre as mulheres trabalhadoras em geral. Mas, sobretudo, do pessoal da bilheteira, sobre quem paira a amea\u00e7a do desaparecimento do posto de trabalho sem qualquer seguran\u00e7a de recoloca\u00e7\u00e3o dentro da empresa, pois s\u00e3o substitu\u00eddos por m\u00e1quinas de venda autom\u00e1tica e de recarga de cart\u00e3o que j\u00e1 funcionam em mais da metade das esta\u00e7\u00f5es do metr\u00f4.<\/p>\n<p>Por essa situa\u00e7\u00e3o, a ideia de ficar um dia ausentes de nosso posto de trabalho ganhou for\u00e7a. Os representantes sindicais, inicialmente &#8211; por meio de Enriqueta Garc\u00eda Villareal, secret\u00e1ria seccional &#8211; fizeram uma convoca\u00e7\u00e3o para comparecer aos nossos trabalhos naquela segunda-feira, 9 de mar\u00e7o. Segundo ela: <em>\u201cporque somos uma \u00e1rea forte\u201d<\/em>. A for\u00e7a da luta das mulheres a n\u00edvel nacional e em particular pela press\u00e3o das pr\u00f3prias trabalhadoras do metr\u00f4 obrigou a empresa e o sindicato a conceder o dia 9 com remunera\u00e7\u00e3o. Naquele dia, a aus\u00eancia de mulheres trabalhadoras de bilheteria foi amplamente divulgada na m\u00eddia. City Banamex realizou um estudo no qual calculou que naquele dia as mulheres deixaram de contribuir com 43 bilh\u00f5es de pesos para a economia [2].<\/p>\n<p>Com a pandemia, foram violados os direitos das e dos trabalhadores, como redu\u00e7\u00e3o de presta\u00e7\u00f5es de servi\u00e7os m\u00e9dicos, atendimento de especialidades, falta de medicamentos, falta de pagamento de incentivos, atraso no pagamento de horas extras, mudan\u00e7a de locais e de jornada de trabalho, falta de aten\u00e7\u00e3o adequada aos trabalhadores infectados pelo COVID 19, entre os quais muitas e muitos morreram. Sem que tenhamos dados exatos, j\u00e1 que a empresa tenta esconder o n\u00famero real.<\/p>\n<p>Com o projeto de privatiza\u00e7\u00e3o da empresa, apoiado pelo dirigente do sindicato majorit\u00e1rio e pelo sil\u00eancio c\u00famplice da secret\u00e1ria geral do Sindicato Democr\u00e1tico Independente, pretende-se reduzir a for\u00e7a de trabalho, come\u00e7ando pelas mulheres, o setor mais vulner\u00e1vel. Al\u00e9m disso, com tanta viol\u00eancia machista e anos sofrendo diminui\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o, tendemos a nos assustar diante de qualquer ataque e a silenciar as injusti\u00e7as. Trabalhamos para o Metro, mas tamb\u00e9m somos cobradoras de outras empresas de transporte como MetroBus, Tren Ligero, Ecobici e em breve a Telef\u00e9rico. Tudo em troca de um sal\u00e1rio miser\u00e1vel, com promessas de um reajuste que nunca chega.<\/p>\n<p>Temos que refletir sobre nossos problemas como mulheres trabalhadoras e nos organizar para lutar, para nos defender dos ataques que nos amea\u00e7am e da perda de direitos, para arrancar conquistas contra todas as formas de discrimina\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o que sofremos. Vamos defender nossa fonte de trabalho, um sal\u00e1rio digno, o direito \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 vida. Nessa luta, nossos aliados s\u00e3o todos os trabalhadores de base do Metro, mulheres e homens de qualquer setor. Porque estamos todos amea\u00e7ados e a partir de agora dizemos: <strong>N\u00e3o \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o do Metro! Pela defesa dos direitos das mulheres, chega de viola\u00e7\u00f5es, abusos e ass\u00e9dios contra a mulher trabalhadora!<\/strong><\/p>\n<p>A viol\u00eancia no trabalho se traduz em perda de direitos trabalhistas, mas tamb\u00e9m em ass\u00e9dio por parte dos patr\u00f5es homens ou mulheres, e das e dos dirigentes sindicais, em abusos sexuais que poucas vezes s\u00e3o denunciados e, se s\u00e3o, fazem com que elas pare\u00e7am culpadas, apontadas pela pol\u00edtica machista.<\/p>\n<p>O que podemos fazer as mulheres trabalhadoras frente ao aumento da viol\u00eancia dom\u00e9stica e no trabalho? Devemos lutar sozinhas contra a discrimina\u00e7\u00e3o e a precariza\u00e7\u00e3o? \u00c9 somente com uma mudan\u00e7a de educa\u00e7\u00e3o ou uma mudan\u00e7a de cultura que seremos capazes de acabar com os abusos, a desigualdade salarial e os crimes de \u00f3dio contra as mulheres?<\/p>\n<p>N\u00f3s da CST e da LIT-QI dizemos que temos que acabar com o sistema capitalista, que \u00e9 o que sustenta o machismo, o individualismo, os pap\u00e9is estabelecidos na fam\u00edlia, as leis que permitem a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, a desigualdade salarial e que promove, quando conv\u00e9m a ele, a exist\u00eancia de v\u00e1rios sindicatos para dividir a classe trabalhadora. Devemos enfrentar o capitalismo e seu Estado burgu\u00eas com uma luta determinada, revolucion\u00e1ria, baseada na unidade dos explorados e oprimidos e n\u00e3o na unidade de g\u00eanero. Nas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sindicais deve-se discutir o combate ao machismo, a prote\u00e7\u00e3o das mulheres no ambiente de trabalho, no lar, na rua, com a forma\u00e7\u00e3o de brigadas de apoio e autodefesa para diminuir os feminic\u00eddios e os abusos contra as mulheres trabalhadoras. Que existam sistemas de apoio e de alerta para que toda a popula\u00e7\u00e3o se mobilize contra os agressores e n\u00e3o apenas as mulheres. A vida e a integridade das mulheres trabalhadoras devem convocar \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e for\u00e7a de toda a classe trabalhadora. Devemos lutar juntos, mulheres e homens, pela defesa do trabalho, do direito \u00e0 sa\u00fade e a uma vida digna.<\/p>\n<p>As mulheres socialistas e revolucion\u00e1rias estamos chamadas a promover esta luta junto com nossos companheiros de classe. Nenhuma toler\u00e2ncia com o comportamento machista ou atos que violem nossa integridade. Nos pronunciamos por uma sociedade socialista livre de todas as opress\u00f5es e explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[1] IMSS &#8211; Instituto Mexicano de Previd\u00eancia Social. INEGI &#8211; Instituto Nacional de Estat\u00edstica e Geografia.<\/p>\n<p>[2] Mais de 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Tae Amaru<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 8 de mar\u00e7o ocorreram passeatas e protestos em v\u00e1rias cidades do M\u00e9xico, al\u00e9m de in\u00fameras atividades virtuais para fazer ouvir a voz das mulheres que protestam contra os feminic\u00eddios, o tr\u00e1fico de mulheres e a viol\u00eancia contra elas. A manifesta\u00e7\u00e3o mais importante aconteceu no Z\u00f3calo, na Cidade do M\u00e9xico. 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