{"id":70473,"date":"2021-03-24T15:23:06","date_gmt":"2021-03-24T18:23:06","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63397"},"modified":"2021-03-24T15:23:06","modified_gmt":"2021-03-24T18:23:06","slug":"michael-roberts","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/03\/24\/michael-roberts\/","title":{"rendered":"Michael Roberts| A economia da Comuna de Paris"},"content":{"rendered":"<p><em>Hoje \u00e9 celebrado o 150\u00ba anivers\u00e1rio do in\u00edcio da Comuna de Paris. A Comuna foi formada como resultado do que deve ser considerado a primeira revolta e revolu\u00e7\u00e3o liderada pela classe oper\u00e1ria na hist\u00f3ria. Esta nova classe foi o produto da revolu\u00e7\u00e3o industrial no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista de que Marx e Engels falaram pela primeira vez de forma mais proeminente no Manifesto do Partido Comunista publicado em Mar\u00e7o de 1848.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Antes da Comuna de Paris, as revolu\u00e7\u00f5es na Europa tinham sido para derrubar os monarcas feudais e eventualmente colocar a classe capitalista no poder pol\u00edtico. Embora o socialismo como ideia e objetivo j\u00e1 estivesse ganhando credibilidade entre intelectuais radicais, Marx e Engels foram os primeiros a identificar a classe oper\u00e1ria como os agentes da mudan\u00e7a revolucion\u00e1ria para o socialismo, nomeadamente aqueles que n\u00e3o possu\u00edam nenhum meio de produ\u00e7\u00e3o mas apenas a sua pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>A Comuna de Paris foi um resultado imediato da guerra franco-prussiana. Essa guerra tinha sido lan\u00e7ada por Louis Bonaparte, sobrinho de Napole\u00e3o, que tinha tomado o poder num golpe de Estado na sequ\u00eancia da derrota da revolu\u00e7\u00e3o de 1848. Ele governou a Fran\u00e7a autocraticamente durante as duas d\u00e9cadas seguintes. Essas d\u00e9cadas foram de excepcional boom econ\u00f4mico para o capitalismo na Europa e na Am\u00e9rica. As recess\u00f5es econ\u00f4micas foram poucas e distantes entre si (1859 e 1864), e relativamente suaves. De fato, a lucratividade subiu para m\u00e1ximos na d\u00e9cada de 1850 (mais 11%), mas depois voltou a descer 4% na d\u00e9cada de 1860.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-63399\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR-1.png\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR-1.png 750w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR-1-300x196.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR-1-150x98.png 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR-1-696x455.png 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/>\u00a0Figura 1: Taxa m\u00e9dia de retorno do capital na Fran\u00e7a (%)<\/p>\n<p>Fonte: T. Piketty, https:\/\/www.quandl.com\/data\/PIKETTY\/TS6_2-Capital-labor-split-in-France-1820-2010<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a foi transformada de uma economia agr\u00edcola atrasada em uma economia industrial em r\u00e1pido crescimento. Louis Bonaparte lan\u00e7ou uma s\u00e9rie de obras p\u00fablicas e projetos de infraestrutura destinados a modernizar as cidades francesas. Paris emergiu como um centro internacional de finan\u00e7as em meados do s\u00e9culo XIX, s\u00f3 ficando atr\u00e1s de Londres. Tinha um forte banco nacional e numerosos bancos privados que financiavam projetos em toda a Europa e no imp\u00e9rio franc\u00eas em expans\u00e3o. O <em>Banque de France<\/em>, fundado em 1796, emergiu como um poderoso banco central.<\/p>\n<p>Sob Louis Bonaparte, o governo franc\u00eas coordenou v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es financeiras para financiar grandes projetos, incluindo o <em>Cr\u00e9dit Mobilier<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[i]<\/strong><\/a><\/em> (Cr\u00e9dito Mobili\u00e1rio) que se tornou uma poderosa e din\u00e2mica ag\u00eancia de financiamento para grandes projetos na Fran\u00e7a, incluindo uma linha transatl\u00e2ntica de navios a vapor, ilumina\u00e7\u00e3o urbana a g\u00e1s, um jornal e o sistema de metr\u00f4 de Paris. A Fran\u00e7a aumentou suas linhas ferrovi\u00e1rias em oito vezes e dobrou sua produ\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio de ferro. A popula\u00e7\u00e3o aumentou 10% em m\u00e9dia, mas muito mais que isso nas cidades que se tornariam centros urbanos da nova classe oper\u00e1ria. Em 1855 e novamente em 1867, uma exposi\u00e7\u00e3o mundial foi realizada em Paris para rivalizar com a anterior Grande Exposi\u00e7\u00e3o do poder industrial brit\u00e2nico em 1851. E Ferdinand de Lesseps organizou a constru\u00e7\u00e3o do Canal de Suez.<\/p>\n<p>Mas, a pol\u00edtica de guerra de Bonaparte e o projeto de redesenhar Paris usando o arquiteto Haussmann mostrou-se caro; a d\u00edvida nacional da Fran\u00e7a aumentou consideravelmente. E a ind\u00fastria francesa viu-se sob crescente competi\u00e7\u00e3o internacional (ou seja, principalmente brit\u00e2nica). Entre 1848 e 1870, o d\u00e9ficit do setor p\u00fablico triplicou. O que David Harvey chamou de \u201ckeynesianismo primitivo\u201d come\u00e7ou a ficar sem f\u00f4lego. O governo recorreu \u00e0 monetariza\u00e7\u00e3o da d\u00edvida, ao estilo MMT<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>, na esperan\u00e7a de que isto continuasse a estimular o investimento e o crescimento. Ao fazer isso, o governo abandonou o que Marx chamou de \u201c<em>catolicismo<\/em>\u201d da base monet\u00e1ria, transformou o sistema banc\u00e1rio em \u201c<em>papado da produ\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d e abra\u00e7ou o que Marx chamou de \u201c<em>protestantismo da f\u00e9 e do cr\u00e9dito<\/em>\u201d <a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-63400\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR2.png\" alt=\"\" width=\"589\" height=\"325\" \/><\/p>\n<p>Figura 2: Receitas (coluna da direita) e despesas (coluna da esquerda) do Estado franc\u00eas: 1848-1870.<\/p>\n<p>Quebras financeiras seguiram-se \u00e0 queda dos lucros. De fato, podemos ter uma ideia dos problemas crescentes para o boom capitalista franc\u00eas no movimento dos pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es e dos dividendos das a\u00e7\u00f5es. Houve uma queda nos lucros na recess\u00e3o de 1859, e em 1864 e 1868 antes da calamidade da guerra franco-prussiana.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-63401\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR3.png\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR3.png 750w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR3-300x196.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR3-150x98.png 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR3-696x455.png 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p>Figura 3: Varia\u00e7\u00e3o nos \u00edndices da bolsa de valores e nos dividendos totais (%). Linha azul: pre\u00e7o das a\u00e7\u00f5es; linha laranja: dividendos.<\/p>\n<p>Fonte: <em>A challenge to triumphant optimists? A blue chips index for the Paris stock exchange, 1854\u20132007<\/em>, c\u00e1lculos de MR.<\/p>\n<p>Como a taxa de lucro caiu durante a d\u00e9cada de 1860 \u2013 embora a partir de n\u00edveis historicamente altos \u2013 o crescimento dos lucros anuais tamb\u00e9m diminuiu, com quedas significativas em 1859 e 1864.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-63402\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR4.png\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR4.png 750w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR4-300x196.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR4-150x98.png 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR4-696x455.png 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p>Figura 4: Varia\u00e7\u00e3o anual dos lucros na Fran\u00e7a (ganhos de capital) 1855-1872<\/p>\n<p>A desigualdade da riqueza e da renda disparou enquanto a classe oper\u00e1ria se expandia dramaticamente em n\u00famero. As tens\u00f5es sociais come\u00e7aram a se intensificar. Pode-se dizer que foi uma situa\u00e7\u00e3o semelhante a maio de 1968, ap\u00f3s duas d\u00e9cadas de boom econ\u00f4mico sob o dom\u00ednio da presid\u00eancia gaullista \u2013 exceto que em 1870, a guerra interveio e tornou-se o catalisador para o levante da Comuna.<\/p>\n<p>Poder-se-ia argumentar que Bonaparte, em sua arrog\u00e2ncia, precisava de uma guerra para desviar a luta de classes em casa e precisava restaurar a hegemonia econ\u00f4mica da Fran\u00e7a na Europa continental. Bonaparte achava que o ex\u00e9rcito franc\u00eas era superior ao da Pr\u00fassia de Bismarck. Mas ele subestimou muito o poder econ\u00f4mico e militar alem\u00e3o liderado pela Pr\u00fassia. Os franceses foram rapidamente derrotados e humilhados. Bonaparte foi capturado, obrigado a abdicar e fugiu. O governo burgu\u00eas republicano tentou lutar, mas acabou negociando um terr\u00edvel acordo de paz enquanto o ex\u00e9rcito prussiano sitiava a popula\u00e7\u00e3o faminta em Paris. Foi ent\u00e3o que a Comuna de Paris \u2013 um conselho de delegados de trabalhadores dos distritos \u2013 surgiu para tomar o poder pol\u00edtico no interesse da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta mat\u00e9ria n\u00e3o pode cobrir todos os eventos e temas nos curtos 72 dias em que a classe oper\u00e1ria de Paris governou atrav\u00e9s de suas pr\u00f3prias estruturas democr\u00e1ticas, enquanto o governo burgu\u00eas fugia para Versalhes e encorajava os prussianos a esmagarem a Comuna. A Comuna n\u00e3o sobreviveu por muito tempo. Permaneceu amplamente isolada dentro da Fran\u00e7a e acabou sendo reprimida sangrentamente pelas for\u00e7as do governo de Versalhes.<\/p>\n<p>Os melhores relatos da Comuna de Paris s\u00e3o os do Communard Lissagaray, <em>A Hist\u00f3ria da Comuna de Paris<\/em>, traduzida ao ingl\u00eas por Eleanor Marx e publicada em 1876 e, claro, a Guerra Civil na Fran\u00e7a, o pr\u00f3prio relato de Marx escrito logo ap\u00f3s a Comuna ter sido esmagada.<\/p>\n<p>O marxista belga Eric Toussaint fez um excelente relato moderno sobre as maquina\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas do <em>Banque de France<\/em> e da Comuna aqui [em ingl\u00eas]. http:\/\/www.cadtm.org\/The-Paris-Commune-of-1871-banks-and-debt.<\/p>\n<p>Portanto, neste breve post, vou oferecer apenas algumas observa\u00e7\u00f5es sobre as pol\u00edticas econ\u00f4micas da Comuna. A mais importante foi a falha ao n\u00e3o controlar as alavancas financeiras do capital, em particular, o <em>Banque de France<\/em>. Dez anos ap\u00f3s o esmagamento da Comuna, Marx argumentou que a Comuna poderia muito bem ter sobrevivido se o Banque de France tivesse sido assumido. \u201cAl\u00e9m de ser simplesmente o levante de uma cidade em circunst\u00e2ncias excepcionais, a maioria da Comuna n\u00e3o era de forma alguma socialista e n\u00e3o poderia ser. Com um pouco de bom senso, por\u00e9m, ela poderia ter obtido de Versalhes um compromisso favor\u00e1vel a toda a massa do povo \u2013 o \u00fanico objetivo alcan\u00e7\u00e1vel na \u00e9poca\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-63398\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR5.png\" alt=\"\" width=\"602\" height=\"419\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR5.png 602w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR5-300x209.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/MR5-150x104.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\" \/><\/p>\n<p>Figura 5: Fac-s\u00edmile de um jornal de Nova Iorque, de julho de 1871, que publicou uma entrevista de Karl Marx, apresentado como chefe da I Internacional, sobre a Comuna. Ao ser perguntado se a Comuna foi obra de conspiradores da I Internacional, Marx responde sarcasticamente que poderia ter sido obra da ma\u00e7onaria e tamb\u00e9m do Papa, antes de oferecer sua interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De fato, o maior medo que o governo de Versalhes tinha sobre a Comuna era a perda das reservas do <em>Banque de France<\/em>. Lissagaray observa: \u201c<em>Todas as insurrei\u00e7\u00f5es s\u00e9rias come\u00e7aram com a apreens\u00e3o do nervo do inimigo, a caixa registradora. A Comuna \u00e9 a \u00fanica que recusou. Ela permaneceu em \u00eaxtase diante do dinheiro da alta burguesia que tinha em m\u00e3os<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>E Engels, em sua introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 reedi\u00e7\u00e3o da <em>Guerra Civil na Fran\u00e7a<\/em>, em 1891: \u201c<em>Muitas coisas [foram] negligenciadas que, de acordo com nossa concep\u00e7\u00e3o hoje, a Comuna deveria ter feito. A mais dif\u00edcil de compreender \u00e9 certamente o respeito sagrado com que se deparou diante das portas do Banque de France. Foi, al\u00e9m disso, um grave erro pol\u00edtico. O Banco nas m\u00e3os da Comuna valia mais de dez mil ref\u00e9ns. Isto significaria que toda a burguesia francesa pressionaria o governo de Versalhes para fazer as pazes com a Comuna<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Por que os l\u00edderes da Comuna n\u00e3o assumiram o Banco? Bem, a maioria dos delegados da Comuna n\u00e3o era socialista, mas democratas republicanos. A ala socialista era uma minoria. E os marxistas eram uma minoria dentro dessa minoria socialista. A maior parte dos socialistas era de proudhonistas. Eles viam o advento do socialismo atrav\u00e9s do controle monet\u00e1rio, ou seja, atrav\u00e9s do uso do cr\u00e9dito. O homem encarregado das finan\u00e7as comunit\u00e1rias, Charles Beslay, um amigo de Proudhon, tinha uma f\u00e9 cega no setor banc\u00e1rio e financeiro em geral. Ele era membro da Primeira Internacional desde 1866 e tinha uma grande influ\u00eancia na Comuna. Beslay tinha um passado como capitalista, pois tinha sido propriet\u00e1rio de uma oficina que empregava 200 funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O vice-governador do Banque e monarquista De Ploeuc comentou: \u201c<em>O Sr. Beslay \u00e9 um daqueles homens cuja imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 desequilibrada e que se deleita com a utopia; ele sonha em conciliar todos os antagonismos que existem na sociedade, os patr\u00f5es e os trabalhadores, os senhores e os servos<\/em>\u201d. Beslay confirmou seu proudhonismo na a\u00e7\u00e3o: \u201c<em>Um banco deve ser visto de um duplo aspecto; se ele se apresenta a n\u00f3s sob seu lado material por seu dinheiro e suas notas, ele tamb\u00e9m \u00e9 imposto por um lado moral que \u00e9 a confian\u00e7a. Tire a confian\u00e7a, e a c\u00e9dula \u00e9 apenas um atributo<\/em>\u201d. Beslay atacou os marxistas: \u201c<em>O sistema da Comuna e o meu se traduzem nesta palavra sagrada: \u2018respeito pela propriedade, at\u00e9 sua transforma\u00e7\u00e3o\u2019. O sistema do cidad\u00e3o Lissagaray resulta nesta palavra repulsiva: \u2018espolia\u00e7\u00e3o\u2019<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os mecanismos financeiros s\u00e3o muito complicados para serem compreendidos pelos cidad\u00e3os comuns, ou mesmo pelos pol\u00edticos, e portanto devem ser reservados para especialistas. A atitude do principal l\u00edder municipal Rigault, foi que \u201cquest\u00f5es de neg\u00f3cios, cr\u00e9dito, finan\u00e7as, bancos [\u2026] precisavam da ajuda de homens especiais, que s\u00f3 podiam ser encontrados em n\u00famero muito pequeno na Prefeitura. [\u2026] Al\u00e9m disso, as quest\u00f5es financeiras [\u2026] n\u00e3o s\u00e3o [\u2026] vistas como os problemas essenciais do momento. No futuro imediato, o que importa \u00e9 que o dinheiro entre\u201d.<\/p>\n<p>Em vez de remover o assustad\u00edssimo governador do Banco, Rouland, e assumir o controle dos enormes fundos que o banco detinha, Beslay permitiu que Rouland permanecesse no posto e simplesmente pediu fundos suficientes para pagar a Guarda Nacional que defendia Paris. Rouland gentilmente permitiu que Beslay se juntasse ao conselho do banco como \u201cdelegado da Comuna\u201d, onde Beslay agiu para garantir a independ\u00eancia do banco do controle e das exig\u00eancias da Comuna.<\/p>\n<p>Em vez de querer assumir o controle, Beslay fez de tudo para manter a integridade do <em>Banque de France<\/em> e para garantir sua independ\u00eancia. O resultado foi que durante os setenta e dois dias de sua exist\u00eancia, a Comuna recebeu apenas 16,7 milh\u00f5es de francos para suas necessidades: os 9,4 milh\u00f5es de ativos que a Comuna j\u00e1 tinha em conta e 7,3 milh\u00f5es emprestados pelo Banco. No mesmo per\u00edodo, o Banque enviou ao governo de Versalhes 315 milh\u00f5es de francos de sua rede de 74 ag\u00eancias!<\/p>\n<p>O dinheiro que a Comuna recebeu foi, em geral, bem utilizado. Cerca de 80% foram para a defesa de Paris, mas tamb\u00e9m houve uma distribui\u00e7\u00e3o de renda para os bairros mais pobres da cidade. A Comuna introduziu um sistema fiscal progressivo, baixando o imposto da cidade para os mais pobres em 50% e introduzindo impostos comerciais mais altos. Os senhorios foram obrigados a devolver os \u00faltimos nove meses de alugu\u00e9is e os alugu\u00e9is foram suspensos. Houve uma morat\u00f3ria sobre todas as d\u00edvidas, que agora podiam ser pagas em tr\u00eas anos sem juros.<\/p>\n<p>Mas, o fracasso em assumir o Banque foi o calcanhar de Aquiles do progresso da Comuna. E a diretoria do Banque sabia disso. Eles estavam aterrorizados pela possibilidade de uma \u201c<em>ocupa\u00e7\u00e3o do Banco pelo Comit\u00ea Central, que poderia instalar ali um governo de sua escolha, ter c\u00e9dulas produzidas sem medida ou limite e assim provocar a ru\u00edna do estabelecimento e do pa\u00eds<\/em>\u201d. E outro membro da diretoria industrial alegou que \u201co Conselho do banco n\u00e3o pode [&#8230;] permitir que ele seja saqueado\u201d. O mal seria irremedi\u00e1vel e a destrui\u00e7\u00e3o dos valores em carteira e dos dep\u00f3sitos constituiria uma terr\u00edvel calamidade, pois \u00e9 uma grande parte da riqueza p\u00fablica&#8221;.<\/p>\n<p>Se o Banco tivesse sido tomado, Versalhes n\u00e3o teria fundos para derrotar a Comuna, pois detinha uma carteira de 899 milh\u00f5es de francos, de 120 milh\u00f5es de francos em t\u00edtulos depositados como garantia de adiantamentos e 900 milh\u00f5es de francos em t\u00edtulos em dep\u00f3sito. Em vez disso, Beslay seguiu as instru\u00e7\u00f5es do governador do Banque e permitiu que o Banque enviasse dinheiro para Versalhes enquanto o vice-governador dava a ordem de levar todos os t\u00edtulos para o por\u00e3o e depois bloquear a escadaria de acesso.<\/p>\n<p>Dois anos ap\u00f3s o esmagamento da Comuna, Beslay resumiu sua a\u00e7\u00e3o em uma carta ao jornal burgu\u00eas <em>Le Figaro<\/em>, publicada em 13 de mar\u00e7o de 1873: \u201c<em>Fui ao Banco com a inten\u00e7\u00e3o de proteg\u00ea-lo de qualquer viol\u00eancia do exagerado partido da Comuna, e estou convencido de ter mantido em meu pa\u00eds o estabelecimento, que foi nosso \u00faltimo recurso financeiro<\/em>\u201d. A Comuna acabou sendo esmagada em maio de 1871, com cerca de 20.000 comuneiros mortos, 38.000 presos e mais de 7.000 deportados. Beslay foi autorizado a sair em liberdade e mudou-se para a Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p>Cerca de 45 anos depois, ap\u00f3s outra revolu\u00e7\u00e3o desencadeada pela guerra e pela derrota da classe dominante, Lenin lembrou esta li\u00e7\u00e3o da derrota da Comuna de Paris: \u201c<em>Os bancos, como sabemos, s\u00e3o centros da vida econ\u00f4mica moderna, os principais centros nervosos de todo o sistema econ\u00f4mico capitalista. Falar de \u2018regula\u00e7\u00e3o da vida econ\u00f4mica\u2019 e ainda assim fugir da quest\u00e3o da nacionaliza\u00e7\u00e3o dos bancos significa ou trair a mais profunda ignor\u00e2ncia ou enganar o \u2018povo comum\u2019 com palavras floridas e promessas grandiloquentes com a inten\u00e7\u00e3o deliberada de n\u00e3o cumprir estas promessas<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Cr\u00e9dit Mobilier<em>: <\/em>empresa banc\u00e1ria francesa criada pelos irm\u00e3os Pereire e uma das institui\u00e7\u00f5es financeiras mais importantes do mundo em meados do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> MMT \u2013 Teoria Monet\u00e1ria Moderna, que prega a emiss\u00e3o indiscriminada de dinheiro pelo governo para eliminar o desemprego.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Ver David Harvey. <em>Paris, Capital of Modernity<\/em>. Editora Routledge, 2003.<\/p>\n<p>Fonte: Michael Roberts, <a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2021\/03\/18\/paris-commune-150-the-economics\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Paris Commune 150: the\u00a0economics<\/em><\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Marcos Margarido<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje \u00e9 celebrado o 150\u00ba anivers\u00e1rio do in\u00edcio da Comuna de Paris. A Comuna foi formada como resultado do que deve ser considerado a primeira revolta e revolu\u00e7\u00e3o liderada pela classe oper\u00e1ria na hist\u00f3ria. Esta nova classe foi o produto da revolu\u00e7\u00e3o industrial no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista de que Marx e Engels falaram pela [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":63406,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3695,3542,8,10],"tags":[2298,3780,1727],"class_list":["post-70473","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-150-anos-da-comuna-de-paris","category-franca","category-historia","category-teoria","tag-150-anos-comuna-de-paris","tag-economia-comuna-de-paris","tag-michel-roberts"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Comuna-1.jpg","categories_names":["150 anos da Comuna de Paris","Fran\u00e7a","Hist\u00f3ria","TEORIA"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70473","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70473"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70473\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63406"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70473"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70473"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70473"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}