{"id":70469,"date":"2021-03-18T04:53:22","date_gmt":"2021-03-18T07:53:22","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63330"},"modified":"2021-03-18T04:53:22","modified_gmt":"2021-03-18T07:53:22","slug":"63330-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/03\/18\/63330-2\/","title":{"rendered":"A Comuna de Paris (1871), precursora da Comuna de Petrogrado (1917)"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Um massacre para apagar o exemplo dos oper\u00e1rios parisienses<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00c9 dif\u00edcil encontrar, nos anos anteriores \u00e0 Comuna de Paris, massacres semelhantes \u00e0quele em que a burguesia agiu ferozmente ap\u00f3s a queda do primeiro governo oper\u00e1rio da hist\u00f3ria. Ter\u00edamos que voltar no tempo, quando seis mil escravos do ex\u00e9rcito de Spartacus foram crucificados por Crasso na Via \u00c1pia para servir de exemplo aos que tentavam se rebelar contra Roma.<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por: Francesco Ricci (*)<\/p>\n<p>Nunca se saber\u00e1 quantas foram, precisamente, as v\u00edtimas. Sabemos, entretanto, que de uma popula\u00e7\u00e3o de quase dois milh\u00f5es, no final havia cem mil desaparecidos. Foram feitas fossas comuns e metralhadoras foram usadas para acelerar o trabalho. Ap\u00f3s o banho de sangue, a repress\u00e3o continuou com persegui\u00e7\u00f5es, julgamentos, deporta\u00e7\u00f5es e anos de cal\u00fanias. Toda a imprensa burguesa internacional foi usada para retratar os oper\u00e1rios parisienses como v\u00e2ndalos.<\/p>\n<p>Por que tanta crueldade? A resposta \u00e9 encontrada em uma das importantes cartas que Karl Marx escreveu (a de abril de 1871, quando a Comuna come\u00e7ou) ao Dr. Kugelmann: &#8220;Qualquer que seja o \u00eaxito imediato, um ponto de partida de import\u00e2ncia hist\u00f3rica universal foi alcan\u00e7ado&#8221; (1). A burguesia queria liquidar este &#8220;ponto de import\u00e2ncia hist\u00f3rica&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Os bolcheviques estudaram e aprenderam muito com a Comuna<\/strong><\/p>\n<p>Os bolcheviques, preparando-se para uma nova revolu\u00e7\u00e3o, estudaram profundamente os acontecimentos de 1871. O estudo da Comuna foi o centro de toda a prepara\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de L\u00eanin para Outubro. O &#8220;caderno azul&#8221; de cita\u00e7\u00f5es de Marx e Engels sobre o Estado (que foi publicado depois da revolu\u00e7\u00e3o com o t\u00edtulo <em>O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/em>), e que foi a base das <em>Cartas de Longe<\/em> com as quais L\u00eanin procurou orientar, da Sui\u00e7a, ao grupo dirigente bolchevique, as <em>Teses de Abril<\/em> e toda a batalha para &#8220;rearmar&#8221; o partido nos fren\u00e9ticos meses de 1917: tudo teve como centro o exemplo da Comuna.<\/p>\n<p>Como escreve Trotsky (nas <em>Li\u00e7\u00f5es de Outubro<\/em>), sem o estudo da Comuna &#8220;n\u00e3o ter\u00edamos conseguido dirigir a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro&#8221;. Trotsky escreveu sobre a Comuna ao longo de sua vida: do fundamental &#8220;As li\u00e7\u00f5es da Comuna de Paris&#8221; (pref\u00e1cio de 1921 a um livro de Tal\u00e9s) (2), no qual desenvolve uma compara\u00e7\u00e3o entre a Comuna de Paris, derrotada, e a de Petrogrado, vitoriosa; at\u00e9 mesmo um cap\u00edtulo inteiro de <em>Terrorismo e Comunismo<\/em> (escrito durante a guerra civil para defender a ditadura do proletariado da cr\u00edtica &#8220;democr\u00e1tica&#8221; de Kautsky); e o espl\u00eandido <em>Sua Moral e a Nossa<\/em> (na qual ele cita a Comuna para defender a necessidade do &#8220;terror vermelho&#8221; na guerra civil russa).<\/p>\n<p><strong>Por qual escola passou o proletariado franc\u00eas?<\/strong><\/p>\n<p>Para estudar a Comuna, L\u00eanin e Trotsky tiveram que combater as falsifica\u00e7\u00f5es que a burguesia, os reformistas e os anarquistas haviam criado sobre o assunto. Eles tiveram que desmentir as vis\u00f5es da Comuna como um evento &#8220;espont\u00e2neo&#8221; e casual. Um mito alimentado pela historiografia burguesa para tentar mostrar que se tratava de um acontecimento que n\u00e3o se repetiria; mas tamb\u00e9m refor\u00e7ada pela leitura dos anarquistas que assim buscavam encontrar a confirma\u00e7\u00e3o de suas teoriza\u00e7\u00f5es sobre a inutilidade de um partido de vanguarda.<\/p>\n<p>Na realidade, n\u00e3o havia nada de casual ou \u201cespont\u00e2neo\u201d na Comuna.<\/p>\n<p>Os oper\u00e1rios parisienses chegaram em 1871 com a experi\u00eancia de um s\u00e9culo de revolu\u00e7\u00f5es. Em uma r\u00e1pida olhada nos dados hist\u00f3ricos, vamos relembrar alguns fatos. A Grande Revolu\u00e7\u00e3o Francesa do final de 1700, que expressou com o jacobinismo o m\u00e1ximo que a sociedade burguesa podia produzir para tentar anular as contradi\u00e7\u00f5es de classe, mas na qual nasceu um primeiro programa prolet\u00e1rio, expresso pelos &#8220;raivosos&#8221; de Roux e Leclerc, mestres de Babeuf: um movimento \u2013como disse Marx\u2013 que, no entanto, ainda carecia de bases sociais para crescer; a revolu\u00e7\u00e3o de julho de 1830 &#8211; na qual o proletariado teve uma participa\u00e7\u00e3o ativa, mas subordinada \u00e0 burguesia -, que a ajuda a se libertar de Carlos X para estabelecer uma monarquia constitucional (Luis Felipe de Orle\u00e1ns); e, principalmente, a revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro de 1848, na qual o proletariado ajuda a burguesia a se libertar de Lu\u00eds de Orleans e cai na armadilha de participar &#8211; pela primeira vez na hist\u00f3ria &#8211; de um governo com a burguesia, com um ministro ( Louis Blanc) que deveria representar os oper\u00e1rios mas que, na realidade &#8211; como acontece hoje cada vez que se constitui um governo &#8220;comum&#8221; das duas classes inimigas &#8211; termina com o desarmamento dos trabalhadores. Oper\u00e1rios que, finalmente, em junho de 1848, rompem a submiss\u00e3o \u00e0 burguesia e se lan\u00e7am contra ela com seus fuzis (pagando seu despreparo com dez mil mortos). Das barricadas de 1848 emerge a figura de Lu\u00eds Bonaparte que, sob o nome de Napole\u00e3o III, governar\u00e1 a Fran\u00e7a at\u00e9 as v\u00e9speras da Comuna (3).<\/p>\n<p>Assim, os oper\u00e1rios parisienses n\u00e3o chegaram \u201cacidentalmente\u201d \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o de 1871. Eles aprenderam atrav\u00e9s de suas lutas a necessidade da independ\u00eancia de sua classe da burguesia. Infelizmente, por\u00e9m, o proletariado n\u00e3o aprende sozinho. Precisa que sua experi\u00eancia de luta seja elaborada por aquela mem\u00f3ria permanente que \u00e9 o partido revolucion\u00e1rio. Sem este partido, os oper\u00e1rios parisienses foram novamente enganados pela burguesia no final da guerra franco-prussiana.<\/p>\n<p><strong>A Guerra Franco-Prussiana. Outra trai\u00e7\u00e3o da burguesia<\/strong><\/p>\n<p>Este n\u00e3o \u00e9 o espa\u00e7o para aprofundar o tema da guerra franco-prussiana (4). Basta dizer que a verdadeira causa da guerra foi a tentativa de Napole\u00e3o III de emergir da crise de seu regime com o que esperava ser uma vit\u00f3ria r\u00e1pida e a convic\u00e7\u00e3o de Bismarck de que sua vit\u00f3ria facilitaria a unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha (que estava dividida em pequenos Estados) em torno da Pr\u00fassia. A Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Trabalhadores (doravante AIT ou Primeira Internacional) se manifestou contra a guerra e a favor da confraterniza\u00e7\u00e3o do proletariado dos dois pa\u00edses. Ao mesmo tempo, n\u00e3o foi &#8220;neutra&#8221; diante da guerra que come\u00e7ou: a posi\u00e7\u00e3o de Marx e Engels, por sua vez, era que uma vit\u00f3ria da Pr\u00fassia facilitaria a unifica\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria alem\u00e3 em uma Alemanha unida e abrir caminho para a Rep\u00fablica na Fran\u00e7a, libertando a classe trabalhadora do regime opressor de Napole\u00e3o III (5).<\/p>\n<p>Suas previs\u00f5es foram confirmadas: em poucas semanas, a Fran\u00e7a foi derrotada e uma revolta popular proclamou a Rep\u00fablica. Mas os oper\u00e1rios confiaram na burguesia, entregando o governo (primeiro para Trochu e, depois do armist\u00edcio com os prussianos, em fevereiro de 1871 para Thiers). O primeiro ato do novo governo republicano Thiers foi fazer um acordo com a burguesia alem\u00e3, descarregando os custos da guerra na classe oper\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Um obst\u00e1culo para a burguesia: Paris oper\u00e1ria e armada<\/strong><\/p>\n<p>Mas a trama das burguesias francesa e alem\u00e3 encontrou um obst\u00e1culo gigantesco: os oper\u00e1rios parisienses armados. Na Fran\u00e7a existia uma mil\u00edcia, a Guarda Nacional, formada por oper\u00e1rios que, agrupados em batalh\u00f5es, faziam periodicamente exerc\u00edcios militares pagos pelo Estado. A Guarda Nacional era uma antiga institui\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o de 1789 e tinha servido \u00e0 burguesia, desde junho de 1848, para reprimir os oper\u00e1rios. Mas, em 1871 era composta quase exclusivamente por oper\u00e1rios e n\u00e3o por burgueses. E desde a constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica foi reorganizada em Federa\u00e7\u00e3o Republicana, com a elei\u00e7\u00e3o de seus oficiais pela tropa (6).<\/p>\n<p>A classe oper\u00e1ria havia se fortalecido muito desde a d\u00e9cada de 1860. Tinha crescido numericamente e estava concentrada em algumas f\u00e1bricas: setenta mil oper\u00e1rios trabalhavam nos estaleiros de Paris, a f\u00e1brica metal\u00fargica Cail empregava tr\u00eas mil oper\u00e1rios e outras grandes concentra\u00e7\u00f5es de oper\u00e1rios estavam em Govin produ\u00e7\u00e3o de locomotivas), na f\u00e1brica de armas do Louvre, entre outras. Portanto, havia trezentos mil oper\u00e1rios treinados e armados que n\u00e3o estavam dispostos a cumprir a vontade da burguesia.<\/p>\n<p>A tentativa de Thiers de desarmar a Guarda Nacional com a retirada dos canh\u00f5es e metralhadoras abriu caminho para a insurrei\u00e7\u00e3o de 18 de mar\u00e7o: com uma confraterniza\u00e7\u00e3o entre a popula\u00e7\u00e3o do distrito de Montmartre (papel importante, como em fevereiro de 1917 desempenharam as mulheres, entre elas a professora Louise Michel) e os soldados. Restava ao governo burgu\u00eas fugir de Paris e refugiar-se na vizinha Versalhes, enquanto o Comit\u00ea Central, dire\u00e7\u00e3o da Guarda Nacional, completava a conquista do poder com a tomada indolor do Hotel de Ville (como em 1917 em R\u00fassia, onde a conquista do Pal\u00e1cio de Inverno foi apenas o \u00faltimo ato da revolu\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p><strong>A classe oper\u00e1ria no governo<\/strong><\/p>\n<p>Pela primeira vez na hist\u00f3ria, a classe oper\u00e1ria constitu\u00eda &#8220;um governo da classe oper\u00e1ria para a classe oper\u00e1ria&#8221; (Marx). E descobria, para colocar nas palavras que Brecht fez Galileu Galilei pronunciar, que &#8220;n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre o c\u00e9u e a terra, escrevendo em seu di\u00e1rio: o c\u00e9u abolido&#8221;. Com a aboli\u00e7\u00e3o da necessidade da burguesia e dos gerentes das f\u00e1bricas, os oper\u00e1rios passaram a administrar as f\u00e1bricas e o Estado, dispensando esses parasitas. Governar n\u00e3o era mais assunto reservado ao &#8220;c\u00e9u&#8221; burgu\u00eas.<\/p>\n<p>No entanto, o Comit\u00ea Central acredita (erroneamente) (7) que seu dever \u00e9 ceder o poder a uma Comuna eleita e, portanto, indica novas elei\u00e7\u00f5es para formar uma assembleia de cerca de noventa membros, dentro da qual se constituiram comit\u00eas (delineados exatamente como os minist\u00e9rios do governo nacional: Finan\u00e7as, Exterior, Educa\u00e7\u00e3o, Trabalho, etc., demonstrando que a Comuna aspirava governar toda a Fran\u00e7a).<\/p>\n<p>Esse governo, que unia os poderes legislativo, executivo e judici\u00e1rio, superando a divis\u00e3o burguesa dos \u201ctr\u00eas poderes\u201d, durou apenas algumas semanas. No entanto, sua atividade foi t\u00e3o intensa que seriam necess\u00e1rias dezenas de p\u00e1ginas apenas para listar suas atividades. A dissolu\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia e a substitui\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito permanente pela mil\u00edcia oper\u00e1ria (Guarda Nacional), com a destrui\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina estatal burguesa (a maior li\u00e7\u00e3o da Comuna, segundo Marx, e que deu a L\u00eanin o alicerce de todo o trabalho dos bolcheviques: os revolucion\u00e1rios n\u00e3o se limitariam a \u201creformar\u201d a m\u00e1quina estatal burguesa, mas deveriam destro\u00e7\u00e1-la, destru\u00ed-la e substitu\u00ed-la pela ditadura do proletariado); assist\u00eancia m\u00e9dica gratuita (com aborto livre e gratuito, algo que muitas rep\u00fablicas burguesas ainda hoje n\u00e3o assumem); aposentadoria aos 55 anos; a reforma da escola baseada no ensino &#8220;polit\u00e9cnico&#8221;, que unia pela primeira vez o que a burguesia queria ensinar separadamente aos filhos da burguesia e aos filhos dos oper\u00e1rios: disciplinas e t\u00e9cnicas &#8220;humanistas&#8221; e &#8220;cient\u00edficas&#8221;; a separa\u00e7\u00e3o do Estado da Igreja, com a aboli\u00e7\u00e3o dos tributos ao clero e a expuls\u00e3o da religi\u00e3o da escola; um in\u00edcio de requisi\u00e7\u00f5es das f\u00e1bricas e a reorganiza\u00e7\u00e3o do trabalho oper\u00e1rio sob o controle dos trabalhadores, reunindo-se em assembleias para decidir o que e como produzir; a requisi\u00e7\u00e3o de casas desabitadas e sua atribui\u00e7\u00e3o aos sem-teto, etc.<\/p>\n<p>Muitas dessas medidas, devido ao tempo limitado que os oper\u00e1rios parisienses tinham \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, permaneceram apenas nas inten\u00e7\u00f5es. No entanto eles indicam a vontade de destruir completamente a sociedade burguesa fundando uma nova sociedade, criada pelos oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>Significativo \u00e9 o fato de que em dez semanas da Comuna pelo menos cem jornais di\u00e1rios foram publicados. As bibliotecas ficavam abertas \u00e0 noite porque os oper\u00e1rios queriam se apropriar da cultura da qual estavam afastados h\u00e1 tanto tempo. Os debates eram tantos que as salas n\u00e3o davam para receb\u00ea-los (por isso as igrejas foram tiradas dos padres e usadas para atividades mais \u00fateis do que a ora\u00e7\u00e3o). Essa grandiosa experi\u00eancia foi interrompida pela entrada das tropas do governo burgu\u00eas (reconstru\u00eddo com a ajuda de Bismarck) que, em 28 de maio de 1871, demoliu a \u00faltima barricada erguida pelos trabalhadores. Uma vivacidade cultural semelhante s\u00f3 ser\u00e1 encontrada na hist\u00f3ria cerca de cinquenta anos depois, com a nova \u00e9poca aberta pelo governo dos oper\u00e1rios institu\u00eddo pela Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<\/p>\n<p><strong>Li\u00e7\u00f5es e erros da Comuna na an\u00e1lise de Marx e Engels<\/strong><\/p>\n<p>Marx e Engels, que consideraram aquela breve experi\u00eancia francesa muito importante para inserir sua li\u00e7\u00e3o principal (a ditadura do proletariado na &#8220;forma finalmente encontrada&#8221;) em todos os textos, n\u00e3o paravam de fazer cr\u00edticas, identificando os erros e os limites, forjando uma li\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gia e t\u00e1tica que ser\u00e1 de grande utilidade para os bolcheviques.<\/p>\n<p>Criticaram os erros t\u00e1ticos: n\u00e3o ter atacado o governo de Versalhes; o exerc\u00edcio limitado do &#8220;terror vermelho&#8221; contra a burguesia reacion\u00e1ria (os oper\u00e1rios parisienses eram, segundo Engels, &#8220;excessivamente af\u00e1veis&#8221;). Criticaram os erros program\u00e1ticos: n\u00e3o ter completado a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia, parando \u00e0s portas do Banco Nacional.<\/p>\n<p>Por\u00e9m na Comuna, Marx e Engels viram uma grande li\u00e7\u00e3o: a necessidade do proletariado lutar pela independ\u00eancia de classe frente \u00e0 burguesia e seus governos, como condi\u00e7\u00e3o para conquistar, na luta da oposi\u00e7\u00e3o, e posteriormente com a insurrei\u00e7\u00e3o, o pr\u00f3prio governo. Ter negligenciado essa li\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 a base de toda a &#8220;teoria&#8221; do reformismo (continuada pelo stalinismo com participa\u00e7\u00e3o em governos de &#8220;frente popular&#8221; de 1935 em diante).<\/p>\n<p>Com base nesta li\u00e7\u00e3o, L\u00eanin ir\u00e1 \u201crearmar\u201d o Partido Bolchevique com as <em>Teses de Abril<\/em>, defendendo a necessidade de n\u00e3o dar qualquer apoio ao governo burgu\u00eas (de \u201cesquerda\u201d) de Kerensky, como premissa preliminar para conquistar a maioria dos oper\u00e1rios politicamente ativos, para derrubar esse governo e construir um governo oper\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Foi realmente a primeira ditadura do proletariado? A revis\u00e3o de Trotsky<\/strong><\/p>\n<p>No pref\u00e1cio de 1891 \u00e0 <em>Guerra Civil na Fran\u00e7a<\/em>, Engels escreve: \u201cOlhem para a Comuna de Paris. Esta foi a ditadura do proletariado.&#8221;<\/p>\n<p>Na verdade, Engels enfatizava polemicamente um conceito para atacar as tend\u00eancias revisionistas que j\u00e1 se manifestavam na social-democracia alem\u00e3. No entanto, Marx (inclusive na <em>Guerra Civil na Fran\u00e7a<\/em>) falou mais precisamente de uma &#8220;tend\u00eancia&#8221; na dire\u00e7\u00e3o da ditadura do proletariado.<\/p>\n<p>Trotsky desenvolveu essa an\u00e1lise de Marx, fazendo o que Nahuel Moreno, precisamente, havia indicado como uma &#8220;revis\u00e3o&#8221; da an\u00e1lise de Marx e Engels; obviamente uma revis\u00e3o no sentido marxista, isto \u00e9, um desenvolvimento da concep\u00e7\u00e3o marxista em suas bases (8).<\/p>\n<p>Trotsky, em alguns escritos importantes da d\u00e9cada de 1930, citados por Moreno (9), especifica <em>onde<\/em> essa &#8220;tend\u00eancia&#8221; ou embri\u00e3o da ditadura do proletariado se encontrava: n\u00e3o no Conselho da Comuna (os 90 eleitos por &#8220;sufr\u00e1gio universal&#8221; nas elei\u00e7\u00f5es realizadas pelo Comit\u00ea Central), mas no Comit\u00ea Central da Guarda Nacional. Por qu\u00ea? Porque foi nessa estrutura que s\u00f3 inclu\u00eda os que se organizavam para a luta &#8211; e n\u00e3o numa assembleia surgida das elei\u00e7\u00f5es, mesmo que fossem elei\u00e7\u00f5es muito particulares &#8211; que se podia ver o primeiro &#8220;soviete&#8221; da hist\u00f3ria. Moreno destacou a import\u00e2ncia desse fragmento de Trotsky: \u201cQuando dizemos <em>Viva a Comuna<\/em>, n\u00e3o estamos nos referindo \u00e0 her\u00f3ica insurrei\u00e7\u00e3o ou \u00e0s institui\u00e7\u00f5es da Comuna, ou seja, ao munic\u00edpio democr\u00e1tico. Sua escolha foi, por outro lado, uma estupidez (ler Marx) e essa estupidez s\u00f3 foi poss\u00edvel, de qualquer maneira, somente ap\u00f3s a conquista do poder pelo Comit\u00ea Central da Guarda Nacional, que era o &#8216;comit\u00ea de a\u00e7\u00e3o&#8217; ou o soviete naquela circunst\u00e2ncia.&#8221;<\/p>\n<p>Mas, por que a ditadura era apenas potencial? Porque o &#8220;soviete&#8221; tamb\u00e9m era apenas embrion\u00e1rio. Isto porque o que faltou a este &#8220;soviete&#8221; para se transformar no pilar de uma verdadeira ditadura do proletariado era um partido marxista revolucion\u00e1rio. Trotsky escreve (j\u00e1 em <em>Os Ensinamentos da Comuna de Par\u00eds<\/em>, de 1921): &#8220;O Comit\u00ea Central da Guarda Nacional precisava ser dirigido.&#8221;<\/p>\n<p>Aqui, a principal diferen\u00e7a entre 1871 e 1917: em 1917 havia esse partido (o Partido Bolchevique) que, inicialmente era uma minoria, em confronto com as dire\u00e7\u00f5es reformistas (Socialistas Revolucion\u00e1rios e Mencheviques), alcan\u00e7aria a maioria no soviete, transformando-o de apoio do governo burgu\u00eas (fevereiro) na base do governo oper\u00e1rio (outubro). L\u00eanin e Trotsky nunca exaltaram o soviete em si: eles o ver\u00e3o como uma estrutura que pode servir a objetivos diferentes, dependendo de suas dire\u00e7\u00f5es. Portanto, sem opor o soviete ao partido ou o partido \u00e0s massas (Trotsky prefere usar a met\u00e1fora efetiva do pist\u00e3o-partido e o vapor-as massas: dois elementos que se complementam mutuamente), Trotsky identifica o elemento central no partido. \u00c9 o elemento central, tal como na ab\u00f3bada existe uma pedra que sustenta todas as outras (a \u201cchave da ab\u00f3bada\u201d): n\u00e3o as substitui, mas \u00e9 a pedra mais importante.<\/p>\n<p><strong>O partido \u00e9 a chave da ab\u00f3bada ausente em 1871<\/strong><\/p>\n<p>Em Paris, em 1871, n\u00e3o havia um partido como o bolchevique.<\/p>\n<p>Marx era consciente desta falta fundamental e \u00e9 por isso que logo ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica (setembro de 1870) ele sugeriu aos oper\u00e1rios uma atitude de oposi\u00e7\u00e3o ao governo burgu\u00eas, mas n\u00e3o para derrub\u00e1-lo imediatamente: \u201cUsem com calma e determina\u00e7\u00e3o todas as possibilidades oferecidas pela liberdade republicana, para trabalhar em sua organiza\u00e7\u00e3o de classe. Isso lhes dar\u00e1 novas for\u00e7as herc\u00faleas (&#8230;) para o nosso objetivo comum, a emancipa\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d. (10)<\/p>\n<p>Em Paris, na se\u00e7\u00e3o francesa da Internacional, havia v\u00e1rias correntes al\u00e9m da marxista: proudhonistas, proudhonistas de esquerda (ligados a Bakunin). Na Comuna prevaleciam as posi\u00e7\u00f5es dos blanquistas e neo-jacobinos.<\/p>\n<p><strong>As tend\u00eancias do movimento oper\u00e1rio em Paris de 1871<\/strong><\/p>\n<p>Esses nomes pouco dizem ao leitor atual, pois s\u00e3o tend\u00eancias que j\u00e1 desapareceram; e foi a pr\u00f3pria experi\u00eancia pr\u00e1tica da Comuna que contribuiu para sua dissolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os proudhonistas eram seguidores de Proudhon (pai do anarquismo e de tantas outras variantes do reformismo que somos obrigados a tolerar at\u00e9 hoje), contra quem Marx havia se confrontado por d\u00e9cadas, e com quem j\u00e1 havia polemizado em 1847 com <em>A Mis\u00e9ria da Filosofia<\/em>. Proudhon j\u00e1 havia morrido na \u00e9poca da Comuna (morreu em 1865), mas sua tend\u00eancia ainda era muito forte na Fran\u00e7a e fortes eram suas posi\u00e7\u00f5es contra qualquer ideia de centralismo e ditadura. A ess\u00eancia do proudhonismo consistia, segundo Marx, em acreditar poder remediar os males do capitalismo para garantir a sobreviv\u00eancia do capitalismo, embora reformando-o.<\/p>\n<p>De sua ala esquerda, as posi\u00e7\u00f5es anarquistas dos seguidores de Bakunin estavam se desenvolvendo na Fran\u00e7a. Teorizavam como sujeito revolucion\u00e1rio \u00e0 &#8220;canalha&#8221; em vez da classe oper\u00e1ria, isto \u00e9, o subproletariado, e eram partid\u00e1rios da &#8220;extin\u00e7\u00e3o&#8221; imediata do Estado e advers\u00e1rios da ditadura do proletariado. Os bakuninistas apoiavam a &#8220;absten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica&#8221; do proletariado e eram contra o conceito de um partido para a conquista do poder, definiam-se como &#8220;antiautorit\u00e1rios&#8221; e queriam uma Internacional federativa. Eles eram, em suma, o oposto exato dos marxistas.<\/p>\n<p>Fora da Internacional, havia tamb\u00e9m os neo-jacobinos, que reivindicaram as posi\u00e7\u00f5es de Robespierre e Marat e que se enfrentavam, mas em outras ocasi\u00f5es concordaram, com os blanquistas (que preferiram se referir a outra figura da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, Hebert), isto \u00e9, os seguidores de Auguste Blanqui, definido por Marx como a \u201ccabe\u00e7a e cora\u00e7\u00e3o do proletariado franc\u00eas\u201d, um bravo revolucion\u00e1rio que passou metade de sua vida em pris\u00f5es (foi preso ainda durante a Comuna) e que concebeu a revolu\u00e7\u00e3o como a insurrei\u00e7\u00e3o de uma elite de revolucion\u00e1rios (sendo os oper\u00e1rios, segundo Blanqui, incapazes de se libertar culturalmente no capitalismo). Segundo Engels (que inclusive tinha estima pelo grande revolucion\u00e1rio franc\u00eas), Blanqui foi &#8220;um revolucion\u00e1rio de uma \u00e9poca anterior&#8221;, ligado ao utopismo. Blanquistas e neo-jacobinos estavam mais pr\u00f3ximos do que os proudhonistas da ideia de &#8220;centraliza\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;ditadura&#8221; dos marxistas (embora de forma distorcida, n\u00e3o com base na classe), mas subestimando os aspectos &#8220;sociais&#8221; da revolu\u00e7\u00e3o que, ao contr\u00e1rio, os proudhonistas colocaram em primeiro lugar (embora de forma distorcida).<\/p>\n<p>Resumindo, as principais correntes eram cinco: neo-jacobinos, blanquistas, proudhonistas (federativos), bakuninistas (coletivistas), marxistas. Mas \u00e9 uma classifica\u00e7\u00e3o esquem\u00e1tica, j\u00e1 que os limites entre um grupo e outro n\u00e3o eram n\u00edtidos, e frequentemente formavam grupos transversais (n\u00e3o havia verdadeiros partidos): na Internacional havia v\u00e1rios blanquistas (embora esta corrente n\u00e3o tivesse aderido \u00e0 AIT), entre os blanquistas que n\u00e3o eram membros da Internacional, havia alguns mais pr\u00f3ximos de Marx do que muitos proudhonistas que faziam parte da AIT.<\/p>\n<p>Existem v\u00e1rios estudos que tentaram classificar os protagonistas da Comuna. O mais documentado \u00e9 o de Charles Rihs (11) que contradiz dezenas de outros estudos. Na realidade, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o temos (ainda hoje!) uma documenta\u00e7\u00e3o suficiente, mas, o exerc\u00edcio de &#8220;rotular&#8221; os v\u00e1rios tipos de comuneiros \u00e9 parcialmente in\u00fatil, uma vez que, como comentou Engels, a maioria das vezes &#8220;uns e outros fizeram precisamente o contr\u00e1rio do que prescrevia a doutrina de sua escola\u201d.<\/p>\n<p>Muitos dirigentes da Comuna tiraram li\u00e7\u00f5es de sua experi\u00eancia, aproximando-se do marxismo: v\u00e1rios l\u00edderes blanquistas apoiaram as posi\u00e7\u00f5es de Marx no Congresso de Haia (12), no qual a maioria marxista expulsou os anarquistas de Bakunin da Internacional. Eles persistiram, apesar da Comuna, em negar a necessidade de construir um partido centralizado da classe oper\u00e1ria para a conquista do poder.<\/p>\n<p>Mas, naqueles meses, na Fran\u00e7a, os marxistas consistentes eram contados nos dedos das m\u00e3os. Por essa raz\u00e3o, Marx enviou um oper\u00e1rio da AIT pr\u00f3ximo a ele para Paris: Serraillier (13).<\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o houve tempo para construir um partido marxista, porque os tempos de crise revolucion\u00e1ria foram decididos pela burguesia, que atacou em mar\u00e7o, obrigando os oper\u00e1rios a se defenderem para n\u00e3o serem desarmados e derrotados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O papel da Internacional e o papel dos marxistas<\/strong><\/p>\n<p>Em 14 de maio de 1872, foi promulgada a lei do Dafaure, que pro\u00edbe na Fran\u00e7a qualquer associa\u00e7\u00e3o internacional &#8220;cujo objetivo seja promover greves, a aboli\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 propriedade, fam\u00edlia, religi\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>O alvo da burguesia francesa era a AIT dirigida por Marx. E a AIT foi \u201cculpada\u201d pela burguesia por ter organizado a Comuna.<\/p>\n<p>O AIT realmente teve esse papel? Engels resume assim: \u201c(&#8230;) a Comuna, do ponto de vista intelectual, foi absolutamente filha da Internacional, embora n\u00e3o tivesse mexido um dedo para faz\u00ea-la (&#8230;) ainda que fosse, justamente, considerada respons\u00e1vel\u201d(14).<\/p>\n<p>Que significa? A Internacional &#8220;n\u00e3o mexeu um dedo&#8221;; no entanto, ela foi &#8220;justamente considerada respons\u00e1vel&#8221;? A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas aparente. Engels tenta dizer que a Internacional, considerada como o Conselho Geral liderado por Marx, teve poucas chances de lideran\u00e7a, mas ao mesmo tempo reconhece a import\u00e2ncia que a se\u00e7\u00e3o francesa e seus militantes tiveram na Comuna.<\/p>\n<p>A historiografia (mesmo marxista), em geral, se det\u00e9m apenas em uma parte da afirma\u00e7\u00e3o de Engels (os marxistas eram fracos em Paris) e subestimou aquele reconhecimento da &#8220;paternidade&#8221; que Engels expressa aqui e em outros textos.<\/p>\n<p>Os dirigentes marxistas conscientemente ligados \u00e0s posi\u00e7\u00f5es de Marx (e da maioria da AIT), eram muito poucos. Serraillier, representante direto do AIT, estava em Paris, enviado, como vimos, por Marx. No entanto, este sapateiro honesto e fiel n\u00e3o teve uma grande forma\u00e7\u00e3o e n\u00e3o estava preparado para analisar a situa\u00e7\u00e3o em profundidade, como fica claro pelos relat\u00f3rios que enviou ao Conselho Geral de Londres. Outro deles, com quem Marx p\u00f4de contar em Paris, era o dirigente oper\u00e1rio h\u00fangaro, Leo Frankel. E s\u00f3. Havia algum outro marxista isolado, por exemplo, Elisabeth Dmitrieff, de vinte e poucos anos, militante da AIT de origem russa, incentivada por Marx a ir a Paris em mar\u00e7o de 1871, e que se tornar\u00e1 dirigente da Uni\u00e3o de Mulheres. Sabemos, mais tarde, que Marx tamb\u00e9m se correspondeu com outro dirigente, Eugene Varlin (a figura mais interessante da Comuna) e que escreveu v\u00e1rias cartas a Varlin, Serraillier e Frankel, enviadas por meio de um comerciante alem\u00e3o que viajava entre Londres e Paris. No entanto, a maioria dessas cartas foi perdida. As poucas cartas que restaram s\u00e3o, no entanto, significativas. Frankel (encarregado de dirigir a Comiss\u00e3o de Trabalho da Comuna) escreve a Marx (25 de abril de 1871): \u201cFicaria feliz se voc\u00ea pudesse, de alguma forma, ajudar-me com seus conselhos, porque no momento estou, por assim dizer, s\u00f3 (&#8230;). &#8220;N\u00e3o temos a preciosa resposta de Marx. No entanto, temos uma carta de Marx, escrita em 13 de maio de 1871, para Frankel e Varlin: \u201cPor vossa causa, escrevi umas cem cartas para todas as partes da terra com as quais temos rela\u00e7\u00f5es. (&#8230;) Parece-me que a Comuna perde muito tempo com ninharias e disputas pessoais. (\u2026) Mas tudo isso n\u00e3o faria diferen\u00e7a se o tempo perdido fosse recuperado.&#8221;<\/p>\n<p>Mas por que Engels reivindica a &#8220;paternidade&#8221; da AIT sobre a Comuna? Porque, na verdade, a AIT na Fran\u00e7a havia criado uma organiza\u00e7\u00e3o muito importante na d\u00e9cada de 1860. Inicialmente dirigida por representantes proudhoinistas, viu um grupo de jovens dirigentes oper\u00e1rios crescer dentro dele, e entre eles especialmente Varlin, um oper\u00e1rio encadernador autodidata. Em 1866, em Paris, a AIT tinha 600 membros; no in\u00edcio da Comuna tinha 70.000 (15). As outras federa\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de Paris, estavam em Marselha, Rouen, Lyon: isto \u00e9, os principais centros da luta oper\u00e1ria na Fran\u00e7a. A AIT encorajou todas as lutas e greves importantes da d\u00e9cada de 1860, que foram preparat\u00f3rias para a Comuna.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, com muitos afiliados (embora muitas vezes fossem afilia\u00e7\u00f5es coletivas), a Internacional n\u00e3o tinha um partido estruturado; at\u00e9 mesmo um jornal estava faltando. Mas n\u00e3o s\u00f3: a dire\u00e7\u00e3o desses militantes, inseridos nas principais lutas, mas freq\u00fcentemente n\u00e3o organizados entre eles, era composta por socialistas n\u00e3o marxistas.<\/p>\n<p>Isso explica por que Marx estava tentando conquistar Eugene Varlin, que havia se tornado o principal dirigente da AIT. Foi um militante com grande capacidade de organiza\u00e7\u00e3o, tentando recuperar o tempo perdido pelos antigos dirigentes proudhonistas.<\/p>\n<p>Varlin ter\u00e1 um papel fundamental na Comuna. Sendo &#8220;ministro&#8221; da Comuna (primeiro das Finan\u00e7as e depois da Subsist\u00eancia), ser\u00e1 eleito para o Comit\u00ea Central da Guarda Nacional (que liderar\u00e1 em 18 de mar\u00e7o a ocupa\u00e7\u00e3o da Place Vend\u00f4me); ir\u00e1 inspirar a se\u00e7\u00e3o da AIT; dirigir\u00e1 os trabalhos da C\u00e2mara Sindical; estar\u00e1 entre os principais l\u00edderes de um embri\u00e3o de partido revolucion\u00e1rio, denominado Delega\u00e7\u00e3o dos Vinte Distritos (os distritos s\u00e3o os quart\u00e9is ou &#8220;arrondissements&#8221; em que Paris est\u00e1 dividida). \u00c9 significativo que tr\u00eas dessas organiza\u00e7\u00f5es estivessem localizadas no mesmo lugar: o n\u00famero 6 da Place de la Corderie (em Paris, hoje rebatizada de Rue de la Corderie), que era a sede da C\u00e2mara Sindical da Delega\u00e7\u00e3o dos Vinte Distritos e se\u00e7\u00e3o francesa da AIT. Pelo que podemos compreender das atas da lideran\u00e7a francesa da AIT, o debate e a decis\u00e3o muitas vezes foram norteados pelas interven\u00e7\u00f5es de Varlin (16). E Varlin sempre foi apoiado por Frankel e Serraillier, ambos marxistas.<\/p>\n<p>Mas Varlin n\u00e3o era um marxista, ele era de origem proudhonista, contudo estava cada vez mais voltado para a esquerda. Os historiadores expressam defini\u00e7\u00f5es discordantes: h\u00e1 quem o defina como um &#8220;proudhonista de esquerda&#8221;, quem diga que tinha concord\u00e2ncia com Bakunin (\u00e9 o caso de Carr) e quem (Nikolaevskij, e tamb\u00e9m Kaminski) (17) o define &#8211; erroneamente &#8211; como &#8220;bakuninista&#8221;. Na verdade, quem investigou mais, o historiador Bruhat, obteve cartas que provam que Bakunin tentou recrutar Varlin para sua seita, contra Marx, mas n\u00e3o teve sucesso e ficou muito decepcionado (18). O que \u00e9 certo \u00e9 que durante a Comuna, Varlin expressou posi\u00e7\u00f5es muito distantes das de Bakunin (Varlin colocou a organiza\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios no centro da luta, e n\u00e3o a conspira\u00e7\u00e3o da &#8220;canalha&#8221;), e tamb\u00e9m estava longe dos proudhonistas, tanto que, como delegado das Finan\u00e7as, chocou-se com o dirigente proudhoniano Jourde, porque Varlin (como Marx) gostaria que os comuneiros se apropriassem do Banco Nacional (19).<\/p>\n<p>Em suma, Varlin se comportou de maneira um pouco diferente da doutrina n\u00e3o marxista da qual veio. Como vimos, muitos dos dirigentes da Comuna que sobreviveram ao massacre se prepararam para lutar na AIT junto com Marx, contra os anarquistas de Bakunin, no Congresso de Haia. Provavelmente Varlin teria feito o mesmo, mas foi preso (por den\u00fancia de um padre) e fuzilado em Montmartre em 28 de maio de 1871, ap\u00f3s ter substitu\u00eddo Cluseret (que morreu nas barricadas) como o \u00faltimo comandante da defesa oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em todo caso, em 1871 os marxistas n\u00e3o tinham partido organizado em Paris. Foi a pr\u00f3pria experi\u00eancia da Comuna que permitiu a Marx e Engels vencer a batalha contra os anarquistas de Bakunin no congresso de Haia em 1872. Nesse congresso, que expulsou os anarquistas e decretou o fechamento da sede central da AIT, bem como sua transfer\u00eancia para Nova York, iniciando, de fato, a dissolu\u00e7\u00e3o da Primeira Internacional, explode o \u201cacordo ing\u00eanuo de todas as fra\u00e7\u00f5es\u201d (na express\u00e3o de Engels), sobre o qual a Internacional se conformava at\u00e9 aquele momento. A Comuna demonstrou que era necess\u00e1rio construir partidos organizados e independentes da burguesia, baseados no marxismo, isto \u00e9, no programa da ditadura do proletariado que havia feito seu primeiro teste em Paris. Como escreveu Engels: \u201cAcredito que a pr\u00f3xima Internacional &#8211; depois de os livros de Marx exercerem sua influ\u00eancia por alguns anos &#8211; ser\u00e1 puramente comunista e propagar\u00e1 diretamente nossos princ\u00edpios\u201d (20). Os \u00faltimos anos da vida de Marx e Engels foram dedicados \u00e0 constru\u00e7\u00e3o desta Internacional \u201cpuramente comunista\u201d e dos seus partidos em cada pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Devemos voltar a estudar a Comuna<\/strong><\/p>\n<p>Marx e Engels primeiro, L\u00eanin e Trotsky depois, estudaram profundamente a Comuna. Infelizmente, eles tinham pouca documenta\u00e7\u00e3o. A principal fonte de Marx est\u00e1 nas mem\u00f3rias de alguns membros da Comuna e, em particular, do livro de Lissagaray, que Marx at\u00e9 encorajou a escrever, e do qual solicitou e modificou em algumas partes a tradu\u00e7\u00e3o ao alem\u00e3o (enquanto, uma filha de Marx, Eleanor, trabalhou a edi\u00e7\u00e3o inglesa) (21). Lissagaray era um excelente jornalista e participou na defesa da Comuna, mas sua hist\u00f3ria (publicada na B\u00e9lgica em 1876) reflete a forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o marxista do autor, um neo-jacobino (22). Lissagaray minimiza o papel dos dirigentes da Internacional: disse que na Comuna eleitos havia apenas 13 (n\u00famero errado), mas n\u00e3o diz, n\u00fameros a parte, que eles desempenharam pap\u00e9is importantes. N\u00e3o s\u00f3 isso: para desenvolver sua pol\u00eamica contra o proudhonismo, Lissagaray rotula todos os dirigentes da AIT como &#8220;proudhonistas&#8221;, enquanto, como vimos com Varlin, frequentemente expressavam posi\u00e7\u00f5es muito distantes do proudhonismo.<\/p>\n<p>Lenin baseou-se no livro de Lissagaray (uma das poucas fontes dispon\u00edveis em sua \u00e9poca), e Trotsky usou o livro do historiador Claude Tal\u00e9s, que usa Lissagaray como sua \u00fanica fonte e, portanto, enfatiza o aspecto de &#8220;caos&#8221; da Comuna e o peso do proudhonismo, sem individualizar o papel consciente (embora insuficiente por n\u00e3o estar organizados no partido) de tantos dirigentes revolucion\u00e1rios e dos poucos pr\u00f3ximos a Marx.<\/p>\n<p>Lenin e Trotsky querendo (justamente) sublinhar a principal causa da derrota da Comuna &#8211; isto \u00e9, a falta de um partido marxista &#8211; tenderam (equivocando-se) a diminuir o papel de &#8220;semeadura&#8221; que a AIT desenvolveu na d\u00e9cada de 1860 e privados de documenta\u00e7\u00e3o, nada escreveram sobre o embri\u00e3o de partido que se estaba construindo naqueles meses em Paris.<\/p>\n<p>Este embri\u00e3o de partido, em cujo desenvolvimento Varlin e Frankel desempenharam um papel importante, foi a Delega\u00e7\u00e3o dos Vinte Distritos. Tanto Lissagaray quanto Tal\u00e9s dedicaram pouqu\u00edssimas linhas a ele. No entanto, os documentos encontrados pelos historiadores desde 1960, hoje fornecem um quadro muito diferente (23).<\/p>\n<p>N\u00e3o temos espa\u00e7o aqui para aprofundar o assunto, que merece outro artigo. Basta dizer que Lissagaray se enganou duas vezes: primeiro, sustentando que a Delega\u00e7\u00e3o (Comit\u00ea Central Republicano dos Vinte Distritos) n\u00e3o estava ligada \u00e0 AIT, embora saibamos que seus principais dirigentes eram membros da AIT (cinco em sete, incluindo Varlin); em segundo lugar, afirma que desapareceu antes do in\u00edcio da Comuna, no entanto hoje temos as atas das sess\u00f5es realizadas pouco antes da queda da \u00faltima barricada.<\/p>\n<p>Pelo Estatuto da Delega\u00e7\u00e3o (24) sabemos que eram necess\u00e1rias tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es para inscrever-se: milit\u00e2ncia, ades\u00e3o aos princ\u00edpios do \u201csocialismo revolucion\u00e1rio\u201d, pagamento da taxa. O programa \u00e9 a &#8220;destrui\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria&#8221; da democracia parlamentar burguesa, o reconhecimento &#8220;como o \u00fanico governo da Comuna revolucion\u00e1ria, proveniente das delega\u00e7\u00f5es dos grupos socialistas revolucion\u00e1rios&#8221;.<\/p>\n<p>Para a elei\u00e7\u00e3o da Assembleia Nacional (fevereiro de 1871), a Delega\u00e7\u00e3o apresenta um programa e candidatos juntamente com a se\u00e7\u00e3o francesa da AIT e a C\u00e2mara Federal da Sociedade Oper\u00e1ria (Varlin era a alma de todas essas organiza\u00e7\u00f5es!). O manifesto eleitoral afirma que o objetivo \u00e9 \u201ca organiza\u00e7\u00e3o de uma rep\u00fablica que devolva as f\u00e1bricas aos oper\u00e1rios\u201d, realizando assim \u201ca liberdade pol\u00edtica por meio da igualdade social\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a Delega\u00e7\u00e3o tinha dentro de si v\u00e1rias correntes em que se dividia o movimento oper\u00e1rio franc\u00eas e n\u00e3o havia tempo para se desenvolver: nasceu, logo ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 5 de setembro de 1870, com uma assembleia de 500 oper\u00e1rios parisienses (aqui estava Varlin!). Mas em poucas semanas sairam as correntes mais moderadas e seus documentos estavam, dia a dia, mais pr\u00f3ximos de uma posi\u00e7\u00e3o marxista.<\/p>\n<p>Se, como Marx esperava, os oper\u00e1rios tivessem tido tempo para &#8220;trabalhar em sua organiza\u00e7\u00e3o de classe&#8221;, o curso da hist\u00f3ria teria sido diferente. No entanto, hoje \u00e9 bem verdade que esta organiza\u00e7\u00e3o (cuja hist\u00f3ria ainda temos que investigar) e seus dirigentes desempenharam um papel central no desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os documentos hist\u00f3ricos que temos hoje confirmam, indiscutivelmente, a tese fundamental de L\u00eanin e Trotsky: sem um partido marxista n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de uma revolu\u00e7\u00e3o vitoriosa, isto \u00e9, que se desenvolva internacionalmente para o socialismo.<\/p>\n<p>O que L\u00eanin e Trotsky n\u00e3o sabiam quando escreveram sobre a Comuna \u00e9 que o in\u00edcio de tal partido j\u00e1 existia, e foi gra\u00e7as a isso que a Comuna conseguiu ir t\u00e3o longe. Portanto, em 1871 a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi o resultado da &#8220;espontaneidade&#8221;, mas da organiza\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios. No entanto, esta organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve tempo de se consolidar como um partido marxista; por isso, o Comit\u00ea Central da Guarda Nacional n\u00e3o foi um verdadeiro \u201csoviete\u201d e, portanto, a ditadura do proletariado foi apenas uma tend\u00eancia inacabada na Comuna.<\/p>\n<p>Foi estudando os resultados e os erros dos valorosos oper\u00e1rios franceses que os oper\u00e1rios russos, liderados pelo partido de L\u00eanin e Trotsky, foram capazes de vencer em 1917. Foi o rugido dos canh\u00f5es da Comuna de Paris o que abriu o caminho para a Comuna de Petrogrado.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0(*) Este artigo foi publicado pela primeira vez em <em>Marxismo Vivo<\/em> n.\u00b0 16, 2007. Ao revis\u00e1-lo para esta nova publica\u00e7\u00e3o, o autor fez corre\u00e7\u00f5es na tradu\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>(1) Carta de Marx para Kugelman, 17 de abril de 1871, em K. Marx, <em>Lettere a Kugelmann [Cartas para Kugelmann]<\/em>, Editori Riuniti, 1976, p. 166<\/p>\n<p>(2) Claude Tal\u00e9s, <em>La Commune de Paris<\/em>, 1921, Ed. Spartacus, 1998.<\/p>\n<p>(3) Para aprofundar esta situa\u00e7\u00e3o, dois livros de Marx s\u00e3o fundamentais, nos quais o m\u00e9todo materialista \u00e9 usado com maestria: <em>As lutas de classes na Fran\u00e7a de 1848 a 1850 e O 18\u00ba Brum\u00e1rio de Luis Bonaparte<\/em> (h\u00e1 edi\u00e7\u00f5es em todas as l\u00ednguas, e pode se encontrado at\u00e9 mesmo no site Marxists Internet Archive, www.marxists.org).<\/p>\n<p>(4) Para melhor compreender o assunto, recomendamos a leitura dos tr\u00eas textos da AIT escritos por Marx e publicados em v\u00e1rias l\u00ednguas sob o t\u00edtulo <em>A Guerra Civil na Fran\u00e7a<\/em>. Muito interessantes s\u00e3o inclusive os artigos de Engels (especialista em quest\u00f5es militares) sobre a guerra, publicados no jornal londrino The Pall Mall Gazette (em italiano, <em>Notes sulla guerra franco-prussiana<\/em> Notas sobre a Guerra Franco-Prussiana, Ed. Lotta Comunista, 1996) do qual Trotsky encarregou sua publica\u00e7\u00e3o na R\u00fassia e os estudou quando lhe foi confiada a lideran\u00e7a do Ex\u00e9rcito Vermelho.<\/p>\n<p>(5) Na primeira declara\u00e7\u00e3o da AIT escrita por Marx (ver nota 4), um apelo \u00e9 feito aos oper\u00e1rios alem\u00e3es para n\u00e3o permitirem que Bismarck transforme a guerra em uma guerra de conquista. Quando a Rep\u00fablica nasceu mais tarde em Paris, na segunda declara\u00e7\u00e3o ele condenou o objetivo expansionista do governo prussiano e pediu aos oper\u00e1rios alem\u00e3es que defendessem a Rep\u00fablica Francesa junto com os oper\u00e1rios franceses.<\/p>\n<p>(6) No final de fevereiro de 1871, uma assembleia de dois mil delegados de batalh\u00f5es da Guarda Nacional aprovou a constitui\u00e7\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o Republicana (apenas alguns batalh\u00f5es, de quart\u00e9is burgueses, ficaram de fora desta estrutura). O primeiro item do programa foi a aboli\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito permanente e sua substitui\u00e7\u00e3o pela mil\u00edcia oper\u00e1ria. \u00c9 a proclama\u00e7\u00e3o da ruptura com o estado burgu\u00eas e da vontade de dissolver o seu \u201cbando armado\u201d, proclamando-se como a \u00fanica for\u00e7a armada.<\/p>\n<p>(7) O erro da elei\u00e7\u00e3o ser\u00e1 sublinhado por Marx em v\u00e1rios textos. Por exemplo, em uma carta a Liebknecht de 6 de abril de 1871, ele escreveu: \u201c(&#8230;) por n\u00e3o terem a atitude de usurpar o poder, perderam um tempo precioso na elei\u00e7\u00e3o da Comuna (&#8230;) enquanto era necess\u00e1rio us\u00e1-lo para marchar sobre Versalhes (&#8230;) &#8220;. Kautsky agita este julgamento, tentando usar a Comuna&#8221; democr\u00e1tica &#8220;contra a ditadura dos bolcheviques. L\u00eanin e Trotsky responderam com dois&#8221; anti-Kautsky &#8220;demonstrando que os oper\u00e1rios parisienses eram contra a &#8220;legitimidade democr\u00e1tica burguesa: as elei\u00e7\u00f5es para a Comuna foram, com efeito, realizadas com sufr\u00e1gio universal, mas, de fato, a burguesia j\u00e1 havia fugido e os poucos burgueses eleitos foram for\u00e7ados a renunciar.<\/p>\n<p>(8) Ver <em>A Ditadura Revolucion\u00e1ria do Proletariado<\/em>, texto escrito em 1978 por Nahuel Moreno em pol\u00eamica com a revis\u00e3o (em sentido negativo, nesta ocasi\u00e3o) feita por Mandel.<\/p>\n<p>(9) Estes s\u00e3o artigos e cartas de Trotsky contidos no livro, publicado pela Pathfinder Press (1977), <em>The crisis of the french section (A crise da se\u00e7\u00e3o francesa).<\/em> Na verdade, neste texto, Trotsky trabalha com um conceito que j\u00e1 havia come\u00e7ado a desenvolver nos anos 1920 em Terrorismo e comunismo. \u00c9 neste livro (no cap\u00edtulo VI) que, pela primeira vez, ele fala do Comit\u00ea Central da Guarda Nacional como o &#8220;soviete daquele per\u00edodo&#8221;. O mesmo conceito est\u00e1 contido na Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa: \u201cA Guarda Nacional impulsionava os oper\u00e1rios a uma organiza\u00e7\u00e3o armada, quase an\u00e1loga ao tipo sovi\u00e9tico, e a uma dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, representada pelo pr\u00f3prio CC da Guarda Nacional\u201d (p. 616 da edi\u00e7\u00e3o italiana, Mondadori, 1978).<\/p>\n<p>(10) Ver a segunda declara\u00e7\u00e3o do Conselho Geral da Internacional, escrita por Marx (9 de setembro de 1870). Citado aqui da edi\u00e7\u00e3o italiana Newton Compton, 1978, p. 83<\/p>\n<p>(11) Charles Rihs, <em>La Commune de Paris, sa structure et ses doctrines, [A Comuna de Paris, sua estrutura e suas doutrinas]<\/em>, Ed. Du Seuil, 1973. De acordo com Rihs, entre os quase 90 eleitos, 40 eram novos jacobinos (Delescluze, etc.); 15 eram blanquistas (Rigault, Protot, Flourens, membros da AIT Duval e Vaillant, etc.); 23 eram membros da AIT (Frankel, Varlin, Vaillant, Malon, Serraillier, Longuet, etc.). Por outro lado, de acordo com um estudo de Jean <em>Maitron (Hommes et femmes de la Commune [Homens e mulheres da Comuna<\/em>, publicado na revista <em>La Commune<\/em>, n \u00b0 3, 1976) sobre 89 membros do Conselho da Comuna, 45 eram militantes da AIT. Outros autores falam de 30 membros da AIT: os n\u00fameros s\u00e3o diferentes em cada estudo.<\/p>\n<p>(12) Os blanquistas sobreviventes do massacre refugiaram-se em Londres, reagrupando-se em torno de Emile Eudes, condenado \u00e0 morte \u00e0 revelia, em Versalhes. Vaillant e outros entraram no Conselho Geral da AIT, mantendo as posi\u00e7\u00f5es de Marx contra Bakunin e Guillaume.<\/p>\n<p>(13) Marx escreve a Engels sobre a miss\u00e3o que encomendou a Serraillier, em uma carta de 6 de setembro de 1870 (VI volume do <em>Cartas de Marx-Engels<\/em>, Edizioni Rinascita, 1953, pp. 146-147).<\/p>\n<p>(14) Carta de Engels a Sorge, 12 de setembro de 1874, em Marx e Engels, <em>Lettere del 1874-1879 [Cartas de 1874-1879]<\/em>, Ed. Lotta Comunista, 2006, p. 35<\/p>\n<p>(15) Esses dados, baseados em v\u00e1rias fontes, s\u00e3o citados no livro de Rihs (v. Nota 11).<\/p>\n<p>(16) No site: http:\/\/gallica.bnf.fr\/ existem dezenas de livros sobre a Comuna para download gratuito (em franc\u00eas). Em particular, <em>Les s\u00e9ances officielles de l&#8217;Internationale \u00e0 Paris pendant le si\u00e8ge et pendant la Commune <\/em>(1872) \u00e9 importante.<\/p>\n<p>(17) Os livros citados s\u00e3o: E.H. Carr, <em>Bakunin<\/em>, The Macmillan Press, 1975; B. Nikolaevskij, <em>Karl Marx<\/em>, 1937, Ed. Einaudi, 1969; H. E. Kaminski, <em>Bakunin<\/em>, 1938, Ed. Graphos, 1999.<\/p>\n<p>(18) Jean Bruhat, <em>Eugene Varlin<\/em>, Editeurs Fran\u00e7ais R\u00e9unis, 1975. Bruhat coloca evid\u00eancias da tentativa de Bakunin de fazer Varlin juntar-se \u00e0 sua organiza\u00e7\u00e3o e, o que foi uma tentativa fracassada, de fazer Varlin subscrever um ataque a Marx (pp. 146-147 da biografia). Bruhat ent\u00e3o cita uma importante carta de Bakunin (7 de julho de 1870) na qual o dirigente anarquista escreve: &#8220;(Varlin) \u00e9 uma figura excelente e \u00fatil, mas est\u00e1 longe de ser absolutamente nosso.&#8221;<\/p>\n<p>(19) Outro bi\u00f3grafo fala sobre isso (Paul Lejune, <em>Eug\u00e8ne Varlin, Pratique militante e \u00e9crits d&#8217;un ouvrier communard \u2013Eug\u00e9ne Varlin. Pr\u00e1tica militante e escritos de um trabalhador da Comuna<\/em>, Ed. Maspero, 1977) que revela o desacordo entre Varlin e Jourde sobre quest\u00f5es dos Bancos. Mesmo a biografia mais recente \u00e9 interessante: Michele Cordillot, <em>Eugene Varlin, chronique d&#8217;un espoir assassin\u00e9 \u2013 Eugene Varlin, cr\u00f4nica de uma esperan\u00e7a assassinada,<\/em> Les Editions Ouvri\u00e8res, 1991.<\/p>\n<p>(20) Engels, v. nota 14.<\/p>\n<p>(21) V. Yvonne Kapp: <em>Eleanor Marx<\/em> Einaudi, 1977, vol. I, pp. 158-162.<\/p>\n<p>(22) Para conhecer a figura de Lissagaray, ver Ren\u00e9 Bidouze, <em>Lissagaray, la plume et l\u2019\u00e9p\u00e9e \u2013Lissagaray, a caneta e a espada<\/em>, Les Editions Ouvri\u00e8res, 1991.<\/p>\n<p>(23) Para aprofundar o assunto, um livro publicado em 1960 \u00e9 essencial: Jean Dautry e Lucien Scheler, <em>Le Comite Central R\u00e9publicain des vingt arrondissements de Paris &#8211; O Comit\u00ea Central Republicano dos vinte distritos de Paris<\/em>, Editions Sociales, 1960. Dautry \u00e9, inclusive autor com Bruhat e Tersen (todos, \u00e9 l\u00f3gico, de orienta\u00e7\u00e3o stalinista) do estudo mais documentado sobre a Comuna: La Commune de 1871, Editions Sociales, 1970.<\/p>\n<p>(24) Extra\u00eddo do livro de Dautry e Scheler (ver nota 23).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um massacre para apagar o exemplo dos oper\u00e1rios parisienses \u00c9 dif\u00edcil encontrar, nos anos anteriores \u00e0 Comuna de Paris, massacres semelhantes \u00e0quele em que a burguesia agiu ferozmente ap\u00f3s a queda do primeiro governo oper\u00e1rio da hist\u00f3ria. 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