{"id":70468,"date":"2021-03-18T04:53:24","date_gmt":"2021-03-18T07:53:24","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63327"},"modified":"2021-03-18T04:53:24","modified_gmt":"2021-03-18T07:53:24","slug":"63327-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/03\/18\/63327-2\/","title":{"rendered":"A batalha de Marx para ganhar a Primeira Internacional para o comunismo"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cA Primeira Internacional nos deu um programa e uma bandeira. A Segunda Internacional permitiu que as massas se mantivessem firmes sobre seus pr\u00f3prios p\u00e9s. A Terceira Internacional deu um exemplo de heroica a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. A Quarta Internacional conduzir\u00e1 \u00e0 vit\u00f3ria final!\u201d Le\u00f3n Trotsky (\u201cA Fran\u00e7a \u00e9 a chave da situa\u00e7\u00e3o agora\u201d, mar\u00e7o 1934) [1]<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por: Francesco Ricci<\/p>\n<ol>\n<li><strong> O encontro entre oper\u00e1rios ingleses e franceses<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A verdadeira m\u00e3e da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores (ou Associa\u00e7\u00e3o Internacional Oper\u00e1ria, a partir de agora AIT ou Primeira Internacional) \u00e9 a crise econ\u00f4mica de 1857-1858 que determinou &#8211; como acontece com a crise atual que vivemos iniciada em 2007 &#8211; tanto um agravamento do ataque da burguesia aos oper\u00e1rios para recuperar a taxa de lucro perdida, como uma resposta de luta dos oper\u00e1rios. O bi\u00eanio 1858-1859 \u00e9 caracterizado pelo aumento das greves e sua radicaliza\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios pa\u00edses europeus. De particular import\u00e2ncia \u00e9 a greve dos estivadores de Londres, da qual nasceu a London Trades Council (Conselho de Sindicatos de Londres) para coordenar a luta, cujos principais dirigentes voltaremos a encontrar alguns anos depois \u00e0 cabe\u00e7a da AIT. Mas os portu\u00e1rios do Rio T\u00e2misa s\u00e3o apenas uma parte da nova vanguarda de luta que surge ap\u00f3s os dez anos de refluxo que seguiram \u00e0 derrota das revolu\u00e7\u00f5es de 1848. Na primeira fileira est\u00e3o tamb\u00e9m os oper\u00e1rios ingleses da constru\u00e7\u00e3o civil, que com greves dur\u00edssimas imp\u00f5em em 1861 a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho (para nove horas e meia!).<\/p>\n<p>Esta onda de greves induziu os patr\u00f5es a usarem a chantagem de m\u00e3o de obra estrangeira, de menor custo. Em resposta, os oper\u00e1rios compreendem a necessidade de se articular atrav\u00e9s das fronteiras para romper o mecanismo de \u201cconcorr\u00eancia\u201d entre os trabalhadores.<\/p>\n<p>Mas, como destaca David Riazanov [2], ali\u00e1s, um dos maiores especialistas na hist\u00f3ria da AIT e do marxismo, n\u00e3o s\u00e3o apenas as necessidades pr\u00e1ticas do momento que levam os oper\u00e1rios de v\u00e1rios pa\u00edses a se unirem, mas tamb\u00e9m a pol\u00edtica e, em particular, o entusiasmo que despertavam naqueles anos as lutas do Velho Continente, como as lutas pela independ\u00eancia nacional na It\u00e1lia (Garibaldi era uma figura famosa entre os oper\u00e1rios europeus) e na Pol\u00f4nia. Neste \u00faltimo pa\u00eds estava em curso, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1860, uma subleva\u00e7\u00e3o contra a opress\u00e3o da R\u00fassia czarista.<\/p>\n<p>E \u00e9 precisamente a quest\u00e3o da solidariedade com as massas revolucion\u00e1rias polonesas que conduz \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es, em 28 de abril de 1863, em Londres, a uma grande assembleia presidida pelo fil\u00f3sofo positivista Edward Spencer Beesly; outra grande assembleia ser\u00e1 organizada em julho do mesmo ano. Nessas assembleias retomam-se as rela\u00e7\u00f5es estabelecidas entre os oper\u00e1rios ingleses e franceses que haviam se reunido na Exposi\u00e7\u00e3o Universal de Londres um ano antes: no decorrer de 1862, de fato, mais de 700 oper\u00e1rios franceses visitaram Londres em v\u00e1rias ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>Os oper\u00e1rios franceses lutavam naquele momento, como seus companheiros ingleses, contra as tentativas burguesas de descarregar a crise sobre as costas dos trabalhadores. A Fran\u00e7a era governada por Napole\u00e3o III (que em 1852 se autoproclamou \u201cimperador\u201d), que dominava com uma mistura de concess\u00f5es paternalistas e repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 23 de julho de 1863, um grupo de oper\u00e1rios franceses, dirigido por Tolain, um proudhonista (retomaremos mais tarde a essa figura e ao proudhonismo), participa de uma iniciativa p\u00fablica organizada no London Trades Council. As rela\u00e7\u00f5es entre os dirigentes dos oper\u00e1rios ingleses (liderados por Odger e Cremer) e os dirigentes dos oper\u00e1rios franceses (liderados por Tolain) tornaram-se muito intensas. Uma reuni\u00e3o restrita foi convocada em Londres, para 10 de novembro de 1863, chamada para discutir um esbo\u00e7o de carta dos oper\u00e1rios ingleses aos camaradas franceses. O texto desta carta aberta, escrita por Odger, coloca no centro a necessidade de \u201cuma associa\u00e7\u00e3o comum entre aqueles que com seu trabalho produzem tudo o que \u00e9 essencial \u00e0 vida da humanidade\u201d [3]. \u00c9 necess\u00e1rio organizar uma grande assembleia oper\u00e1ria internacional para discutir estes temas. Os preparativos prosseguem durante v\u00e1rios meses, at\u00e9 que esta assembleia \u00e9 convocada em Londres para 28 de setembro de 1864.<\/p>\n<p>Para realizar esta assembleia (que passar\u00e1 \u00e0 hist\u00f3ria, embora os organizadores nem imaginassem) \u00e9 escolhida uma sala na zona oper\u00e1ria de Londres: St. Martin\u2019s Hall, em um edif\u00edcio erguido em 1850, uma sala habitualmente utilizada para assembleias sindicais e pol\u00edticas.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> Um convidado alem\u00e3o na St. Martin\u2019s Hall<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores \u00e9 t\u00e3o grande, que mal couberam na sala. A presid\u00eancia \u00e9 ocupada pelo fil\u00f3sofo Beesly. Est\u00e3o presentes oper\u00e1rios de v\u00e1rias partes da Europa (em particular refugiados pol\u00edticos italianos, h\u00fangaros, poloneses e irlandeses), mas as delega\u00e7\u00f5es mais numerosas s\u00e3o as dos dois grupos organizadores: os tradeunionistas (isto \u00e9, os membros da Trade Unions, os sindicatos) ingleses, liderados por George Odger, sapateiro e William Cremer, carpinteiro; e os franceses, encabe\u00e7ados por Henri Luis Tolain, ourives e Ernest Fribourg, gravador de metais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m participa v\u00e1rios exilados alem\u00e3es, entre eles Karl Marx, que est\u00e1 acompanhado de Johann Georg Eccarius, alfaiate, ex-dirigente da Liga dos Comunistas (organiza\u00e7\u00e3o para a qual Marx tinha escrito, em 1848, o famoso<em> Manifesto<\/em>).<\/p>\n<p>H\u00e1 d\u00e9cadas, circulam duas lendas a respeito desta hist\u00f3rica assembleia: uma diz que Marx teria dominado a assembleia de funda\u00e7\u00e3o (em algumas cita\u00e7\u00f5es explicativas de imagens alusivas a outros momentos, ele teria feito um discurso em 28 de setembro), em outras reconstru\u00e7\u00f5es (especialmente de matriz anarquista) se diz que passou por l\u00e1 por acaso.<\/p>\n<p>Nenhuma delas \u00e9 verdadeira. N\u00e3o foi Marx quem organizou o dia 28 de setembro e n\u00e3o fez nenhum discurso; pelo contr\u00e1rio, ele ficou em sil\u00eancio e ouviu. Mas n\u00e3o \u00e9 por isso que a sua presen\u00e7a foi acidental: o convite expl\u00edcito tinha sido feito pelos organizadores porque o seu nome j\u00e1 era muito conhecido entre os oper\u00e1rios de vanguarda, n\u00e3o pelas suas obras, ent\u00e3o pouco difundidas, nem pelo <em>O Capital<\/em>, sobre o qual estava trabalhando (e que s\u00f3 sairia em 1867), mas pela sua atividade pol\u00edtica e jornal\u00edstica.<\/p>\n<p>\u00c9 por estes motivos que quando a assembleia, ap\u00f3s ter decidido dar vida a uma \u201cuni\u00e3o internacional\u201d (o nome permanecer\u00e1 indefinido por enquanto), elege um comit\u00ea provis\u00f3rio encarregado de dirigir os primeiros passos da organiza\u00e7\u00e3o e redigir o programa e o estatuto, Marx \u00e9 chamado a fazer parte. N\u00e3o s\u00f3 isso: pelas suas reconhecidas capacidade e experi\u00eancia, \u00e9 tamb\u00e9m participante da comiss\u00e3o restrita eleita no seio do comit\u00ea ou Conselho Central (a partir de 1866 se chamar\u00e1 Conselho Geral). Este \u00faltimo \u00f3rg\u00e3o \u00e9 composto por 31 membros: entre eles, Odger que \u00e9 eleito presidente, Cremer secret\u00e1rio, enquanto Marx tem, por enquanto, apenas o papel de respons\u00e1vel pela Alemanha.<\/p>\n<p>Marx tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o \u201cfundador\u201d da AIT, como \u00e0s vezes se repete; por outro lado, sua participa\u00e7\u00e3o no que inicialmente parece um experimento \u00e9 explicada pelo pr\u00f3prio Marx como um feito certamente n\u00e3o acidental. Em v\u00e1rias cartas nesses meses [4], Marx insiste em um ponto: esta nova organiza\u00e7\u00e3o difere profundamente de tantas outras tentativas semelhantes de anos anteriores, das quais Marx manteve a devida dist\u00e2ncia (com exce\u00e7\u00e3o de sua participa\u00e7\u00e3o na Liga dos Justos-Liga dos Comunistas, que nasce como uma organiza\u00e7\u00e3o de propor\u00e7\u00f5es muito menores que a sucessora AIT, e que nunca ultrapassou os 250 membros). Para Marx, a diferen\u00e7a essencial entre a AIT e as estruturas anteriores, como a Sociedade Universal dos Comunistas Revolucion\u00e1rios, a London Democratic Society dirigida por Herney e Bronterre O\u2019Brien (inspirada nas posi\u00e7\u00f5es de Buonarrotti), a Fraternal Democrats, e tantas outras, reside em dois elementos conjuntos: na AIT est\u00e3o presentes os verdadeiros dirigentes do movimento oper\u00e1rio (sobretudo, ingleses e franceses), e o projeto n\u00e3o nasce do sonho de nenhum intelectual filantr\u00f3pico, mas das lutas concretas, econ\u00f4micas e pol\u00edticas dos oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o significa, entenda-se, que a AIT tenha nascido como uma internacional \u201csocialista\u201d, j\u00e1 perfeita como a V\u00eanus sa\u00edda de uma concha. Nos mesmos discursos pronunciados naquele 28 de setembro no St. Martin\u2019s Hall, o socialismo quase nunca aparece. Existe o conceito de uni\u00e3o de classe e luta, mas \u00e9 interpretado de forma diferente dependendo do orador. Os ingleses pensam, sobretudo, no aspecto sindical da luta, os franceses voltam a repetir os conceitos de Proudhon, pai do anarquismo e de um socialismo pequeno-burgu\u00eas, n\u00e3o revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>O socialismo revolucion\u00e1rio deve agora ser levado \u00e0 AIT. E esta \u00e9 precisamente a tarefa que Marx se prop\u00f5e e \u00e0 qual dedicar\u00e1 anos de apaixonada luta pol\u00edtica. Por outro lado, \u00e9 isso que distingue o verdadeiro Marx, que \u00e9 completamente estranho \u00e0 imagem de acomodado que se cunha a seu respeito por d\u00e9cadas (com a legitima\u00e7\u00e3o, lamentavelmente, da biografia superestimada de Franz Mehring [5]), de um Marx \u201ceconomista\u201d ou como quem regularmente se dedicava por longos per\u00edodos a retiros filos\u00f3ficos. Pelo contr\u00e1rio, a teoria foi para Marx sempre e apenas funcional \u00e0 a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Se observarmos toda a biografia de Marx, n\u00e3o h\u00e1 um per\u00edodo no qual ele n\u00e3o tenha se ocupado com a pol\u00edtica para dedicar-se apenas ao estudo. E a maior confirma\u00e7\u00e3o vem da pr\u00f3pria an\u00e1lise desses anos que v\u00e3o desde a funda\u00e7\u00e3o da AIT at\u00e9 sua decad\u00eancia, isto \u00e9, de 1864 a 1872: s\u00e3o em parte os anos de gesta\u00e7\u00e3o do <em>Capital<\/em> (o primeiro livro sair\u00e1 em 1867), mas Marx se joga de cabe\u00e7a na luta pol\u00edtica quotidiana. E mais: entre os motivos do atraso na elabora\u00e7\u00e3o do <em>Capital<\/em> est\u00e1 &#8211; al\u00e9m da obsess\u00e3o de Marx por ler cada texto poss\u00edvel sobre um tema antes mesmo de completar um simples par\u00e1grafo &#8211; justamente a fren\u00e9tica atividade pol\u00edtica desenvolvida ao ritmo de dezenas de reuni\u00f5es, a reda\u00e7\u00e3o de infinitas cartas e resolu\u00e7\u00f5es. Em Marx, o trabalho de investiga\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e o trabalho pr\u00e1tico est\u00e3o sempre intimamente ligados. Muitos elementos e observa\u00e7\u00f5es, que formam o pano de fundo do <em>Capital,<\/em> s\u00e3o extra\u00eddos da experi\u00eancia pol\u00edtica de Marx; assim como as conclus\u00f5es que ele gradualmente chega em sua obra mais importante se refletem na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: considere a famosa interven\u00e7\u00e3o que Marx proferiu no Conselho Geral da AIT em junho de 1865 para explicar os mecanismos da economia capitalista e confrontar as ingenuidades e os erros de outros dirigentes oper\u00e1rios; os eixos deste texto s\u00e3o fruto do estudo realizado para <em>O Capital<\/em>, que se converte em um elemento de batalha pol\u00edtica (a exposi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 depois inclu\u00edda na cartilha com o t\u00edtulo <em>Sal\u00e1rio, pre\u00e7o e lucro<\/em>, na qual muitos conceitos do <em>Capital <\/em>se tornar\u00e3o populares).<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> A delimita\u00e7\u00e3o program\u00e1tica<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Na reuni\u00e3o do Comit\u00ea provis\u00f3rio em 12 de outubro de 1864 foi aprovada a proposta de Eccarius de nomear a nova organiza\u00e7\u00e3o de Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Trabalhadores. Enquanto isso, a comiss\u00e3o encarregada da reda\u00e7\u00e3o dos rascunhos se re\u00fane v\u00e1rias vezes, mas Marx n\u00e3o pode participar por estar doente.<\/p>\n<p>O ingl\u00eas John Weston (suas posi\u00e7\u00f5es s\u00e3o pr\u00f3ximas \u00e0s do socialista ut\u00f3pico Owen) redigiu um primeiro rascunho da \u201cdeclara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios\u201d, e o major Wolff (que v\u00e1rios anos depois foi desmascarado como um espi\u00e3o pago, tanto pelos prussianos como por Napole\u00e3o III), homem muito pr\u00f3ximo a Mazzini [6], elabora uma proposta de estatuto. S\u00e3o textos politicamente muito fracos, impregnados de sentimentalismo, e Eccarius recomenda que Marx n\u00e3o falte \u00e0 pr\u00f3xima reuni\u00e3o da comiss\u00e3o, na qual o pr\u00f3prio Eccarius, apoiado por Cremer e Odger, prop\u00f5e que seja confiada a Marx a \u201crevis\u00e3o\u201d desses primeiros rascunhos.<\/p>\n<p>Na verdade, Marx suprime os dois textos e os reescreve, limitando-se a manter alguns adjetivos in\u00f3cuos, para n\u00e3o ofender os autores. \u00c9 Marx quem assim relata a Engels: \u201cTodas as minhas propostas foram aceitas pelo subcomit\u00ea. S\u00f3 fui obrigado a inserir no pre\u00e2mbulo do estatuto duas frases sobre \u201cduty\u201d e \u201cright\u201d [\u201cdever\u201d e \u201cdireito\u201d] como sobre <em>\u201ctruth morality and justice\u201d <\/em>[verdade, moral e justi\u00e7a], que, no entanto, est\u00e3o localizados de maneira a n\u00e3o provocar nenhum dano\u201d [7].<\/p>\n<p>\u00c9 desta maneira que Marx escreve esse texto, ao mesmo tempo sint\u00e9tico e tang\u00edvel, que \u00e9 o <em>Discurso Inaugural<\/em>. Um texto que, mais moderado na forma que o <em>Manifesto<\/em> de 1848 (e tamb\u00e9m mais curto), cont\u00e9m todos os princ\u00edpios fundamentais do<em> Manifesto<\/em>. O <em>Discurso<\/em> descreve (brilhantemente tamb\u00e9m do ponto de vista liter\u00e1rio) a condi\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios na sociedade dividida em classes; reivindica a import\u00e2ncia de que o proletariado fa\u00e7a valer seu peso num\u00e9rico se organizando e dotando-se de um programa adequado; critica de passagem os limites reformistas do proudhonismo; reivindica a import\u00e2ncia de que os oper\u00e1rios se interessem n\u00e3o s\u00f3 pela luta sindical, mas tamb\u00e9m pela luta pol\u00edtica e, em particular, pela pol\u00edtica internacional [8]. Os mesmos conceitos est\u00e3o no pre\u00e2mbulo pol\u00edtico dos estatutos. Trata-se de conceber a AIT como instrumento para ganhar as vanguardas oper\u00e1rias para a compreens\u00e3o de que a \u00fanica forma de se libertar da explora\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 destruir a sociedade dividida em classes por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o em que o proletariado conquiste o poder. Cada luta parcial s\u00f3 faz sentido a partir dessa perspectiva.<\/p>\n<p>Em outras palavras, Marx desde o primeiro dia se envolve em uma batalha na AIT que tem como objetivo delimitar programaticamente a Internacional e, por isto, n\u00e3o faz nenhuma concess\u00e3o program\u00e1tica (a n\u00e3o ser algum adjetivo in\u00f3cuo). Esta constata\u00e7\u00e3o fica evidente a quem se d\u00e1 ao trabalho de estudar a hist\u00f3ria da AIT, e, portanto mostra-se infundada a teoria que coloca Marx como defensor de um \u201cpartido \u00fanico\u201d da classe oper\u00e1ria, n\u00e3o delimitado programaticamente, sem distin\u00e7\u00e3o entre reformistas e revolucion\u00e1rios. Citar o fato de que na AIT coexistiram mazzinianos, anarquistas, lassallianos, proudhonistas, etc., como prova de uma concep\u00e7\u00e3o \u201cunitarista\u201d de Marx significa ignorar deliberadamente a batalha que Marx travou naqueles anos e da qual se encontra extensa comprova\u00e7\u00e3o nos inumer\u00e1veis textos que escreveu para a AIT.<\/p>\n<p>Certamente, o caminho da delimita\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica passava pela derrota de todas as outras correntes e n\u00e3o foi simples nem breve. O resultado n\u00e3o podia ser alcan\u00e7ado em um \u00fanico dia: tratava-se de atingir politicamente as tend\u00eancias pol\u00edticas que dominavam a AIT. Na verdade, o fato do <em>Discurso<\/em> escrito por Marx ter sido aprovado por unanimidade n\u00e3o deve ser considerado um engano: foi uma aceita\u00e7\u00e3o principalmente passiva; em 1864, a conquista desses oper\u00e1rios e da Internacional para o marxismo estava apenas come\u00e7ando.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong> Marx e a conquista da Internacional<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Marx se lan\u00e7a de cabe\u00e7a nesta empreitada. Est\u00e1 convencido que finalmente tinha um espa\u00e7o para reunir o melhor da vanguarda lutadora e fundir a luta com o socialismo cient\u00edfico. Rapidamente, Marx, que inicialmente se mantinha em sil\u00eancio, e que depois era o encarregado de redigir os textos fundacionais, torna-se de fato no principal dirigente do Conselho. Como escreve em uma carta a Engels: \u201cAl\u00e9m do trabalho do meu livro [<em>O Capital<\/em>, ndt] a AIT ocupa muito o meu tempo, visto que sou de fato a cabe\u00e7a de tudo isto\u201d [9].<\/p>\n<p>E \u00e9 verdade: o Conselho se reuniu cerca de 385 vezes, desde a data de sua funda\u00e7\u00e3o (1864) at\u00e9 o Congresso de Haia (1872). Al\u00e9m das reuni\u00f5es, Marx \u00e9 respons\u00e1vel, como vimos, pela Alemanha e, desde 1870, tamb\u00e9m pela R\u00fassia. Mas seu trabalho \u00e9 muito mais amplo e por isso troca correspond\u00eancia di\u00e1ria com as se\u00e7\u00f5es de dezenas de pa\u00edses; escreve grande parte dos textos oficiais da AIT; organiza as reuni\u00f5es internacionais, que acontecem anualmente, embora ap\u00f3s a sua funda\u00e7\u00e3o participe apenas da Confer\u00eancia de Londres de 1871 e do Congresso de Haia de 1872, o que gera o que j\u00e1 foi mencionado sobre os partid\u00e1rios do \u201cMarx fil\u00f3sofo\u201d como prova de um suposto desinteresse (pelo que \u00e9 dito) de Marx pela pol\u00edtica quotidiana.<\/p>\n<p>Neste trabalho incessante, Marx n\u00e3o encontra, pelo menos nos primeiros anos, nem mesmo o apoio direto de Engels, que agora est\u00e1 obrigado a morar em Manchester para garantir (com a empresa da fam\u00edlia) o dinheiro necess\u00e1rio para sustentar Marx e financiar o movimento. Somente em 1869, Engels poder\u00e1 finalmente deixar o odiado trabalho e se mudar para Londres, assumindo de fato o papel de secret\u00e1rio de organiza\u00e7\u00e3o da AIT, al\u00e9m de ser respons\u00e1vel por v\u00e1rios pa\u00edses que lhe s\u00e3o atribu\u00eddos (Espanha, It\u00e1lia e Dinamarca).<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel delinear aqui completamente cada uma das batalhas do marxismo contra as outras correntes, que constituem a pr\u00f3pria hist\u00f3ria da AIT. Limitamo-nos a enumer\u00e1-las: temos a batalha contra o democratismo pequeno-burgu\u00eas dos mazzinianos; contra o lassallismo [10] que subordina a luta oper\u00e1ria ao eleitoralismo e \u00e0s manobras secretas com Bismarck; contra o mutualismo proudhonista (que aprofundaremos mais adiante); contra o extremismo blanquista, alimentado pelas mem\u00f3rias da Grande Revolu\u00e7\u00e3o Francesa; contra o tradeunionismo ingl\u00eas, que concebe a luta apenas no campo sindical (enquanto para Marx \u00e9 uma quest\u00e3o de ir al\u00e9m dos objetivos de sal\u00e1rio \u201cjusto\u201d, lutando pela supress\u00e3o do sistema baseado no trabalho assalariado) e, que no plano pol\u00edtico se subordina \u00e0 democracia radical burguesa (por exemplo, apoiando seu pr\u00f3prio imperialismo contra a causa nacional irlandesa, da qual Marx, ao contr\u00e1rio, sempre foi um partid\u00e1rio ativo). A \u00faltima e mais intensa batalha de Marx na AIT ser\u00e1 aquela contra o bakuninismo, que ser\u00e1 objeto da \u00faltima parte deste ensaio.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong> A batalha contra o proudhonismo<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Das tantas batalhas travadas por Marx na AIT, aquela contra o proudhonismo foi uma das mais dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Se o componente ingl\u00eas da AIT era relativamente \u201capol\u00edtico\u201d (isto \u00e9, subordinado \u00e0 democracia burguesa), o componente franc\u00eas chegou impregnado das posi\u00e7\u00f5es de Pierre-Joseph Proudhon. Proudhon, oper\u00e1rio autodidata, \u00e9 considerado o \u201cpai do anarquismo\u201d, embora o anarquismo que se desenvolve mais tarde e o que conhecemos hoje seja emprestado da variante \u201cde esquerda\u201d de Bakunin.<\/p>\n<p>O n\u00facleo da teoriza\u00e7\u00e3o de Proudhon era a hostilidade contra todo Estado. Proudhon queria \u201cabolir\u201d o Estado (e tamb\u00e9m era hostil \u00e0 ditadura do proletariado e a uma economia planificada centralmente), substituindo-o por \u201ccomunas\u201d federativas. Do ponto de vista do programa econ\u00f4mico, Proudhon almejava uma economia baseada na pequena produ\u00e7\u00e3o, associada a cooperativas financiadas pelo \u201cBanco do Povo\u201d que concederia \u201ccr\u00e9dito gratuito\u201d. Seu modelo era o \u201cmutualismo\u201d, uma assist\u00eancia m\u00fatua entre os indiv\u00edduos sobre a base de um contrato social, para al\u00e9m das classes de pertencimento. N\u00e3o se tratava de \u201cexpropriar aos expropriadores\u201d, mas de reformar a circula\u00e7\u00e3o e a troca de mercadorias; n\u00e3o derrubar o capitalismo, mas, de alguma maneira &#8230; evit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Proudhon adaptou algumas das concep\u00e7\u00f5es de Max Stirner (autor, em 1845, de <em>The One and His Ownership<\/em> &#8211; O \u00fanico e a sua propriedade), um dos jovens hegelianos do grupo no qual se destacaram Feuerbach e Marx. Stirner estava contra toda forma de coer\u00e7\u00e3o sobre o indiv\u00edduo, raz\u00e3o pela qual recha\u00e7ava o Estado, mas tamb\u00e9m contra qualquer assembleia que deliberasse por maioria, sustentando que o indiv\u00edduo n\u00e3o deveria ter nenhuma restri\u00e7\u00e3o. A liberta\u00e7\u00e3o do homem n\u00e3o era para Stirner coletiva nem social: era uma revolta individual. Essas posi\u00e7\u00f5es foram sarcasticamente atacadas por Marx e Engels em <em>A Ideologia Alem\u00e3<\/em>.<\/p>\n<p>O proudhonismo tomava temas da filosofia de Stirner dando-lhe uma colora\u00e7\u00e3o mais social. E foi basicamente o reflexo de uma fase em que predominava a produ\u00e7\u00e3o artesanal. No proudhonismo encontramos, mescladas com ideias filantr\u00f3picas, ideias francamente reacion\u00e1rias, como a rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica (a educa\u00e7\u00e3o devia depender da fam\u00edlia); a concep\u00e7\u00e3o da mulher como subordinada do homem e inapta para o trabalho fora da esfera dom\u00e9stica; o rep\u00fadio ao comunismo entendido como limita\u00e7\u00e3o da liberdade individual; a ideia de uma grande concilia\u00e7\u00e3o universal entre os homens.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1847, com <em>A Mis\u00e9ria da Filosofia<\/em>, Marx destruiu a d\u00e9bil estrutura te\u00f3rica de Proudhon captando sua ess\u00eancia na v\u00e3 tentativa de remediar os males do capitalismo reformando-o sem abolir &#8211; atrav\u00e9s de uma revolu\u00e7\u00e3o &#8211; a sociedade dividida em classes.<\/p>\n<p>Esta mistura de ideais ut\u00f3picos e preconceitos reacion\u00e1rios predominava na Fran\u00e7a entre as vanguardas oper\u00e1rias. A orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica concreta do proudhonismo se revelou no <em>Manifesto dos Sessenta<\/em> (tal era o n\u00famero de assinantes) que em fevereiro de 1864 (poucos meses antes do surgimento da AIT) reuniu \u00e0s vanguardas oper\u00e1rias francesas ao redor da candidatura de Tolain nas elei\u00e7\u00f5es. O texto afirmava que a classe oper\u00e1ria deveria se levantar em apoio \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o liberal burguesa e que a elei\u00e7\u00e3o de seus pr\u00f3prios representantes diretos nas institui\u00e7\u00f5es tinha como \u00fanico prop\u00f3sito de incitar a burguesia, refor\u00e7ando assim a oposi\u00e7\u00e3o liberal.<\/p>\n<p>Marx teve que lutar contra essas posi\u00e7\u00f5es na AIT, e nos congressos estas posi\u00e7\u00f5es foram efetivamente majorit\u00e1rias pelo menos at\u00e9 1868, quando foram derrotadas pela primeira vez (\u00e9 nesse ano que o congresso da AIT se pronunciou pela primeira vez explicitamente a favor da propriedade coletiva dos meios de produ\u00e7\u00e3o), apenas para ser definitivamente destru\u00eddas no ano seguinte na Basil\u00e9ia. Mas vamos dar uma olhada mais de perto no debate dos congressos da AIT.<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><strong> De um congresso para outro<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A atividade preponderante da AIT na fase inicial consistia, sobretudo em organizar uma solidariedade concreta entre as v\u00e1rias lutas nos diferentes pa\u00edses, arrecadando fundos e apoiando fundos de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>No entanto, como vimos, as quest\u00f5es pol\u00edticas (e especialmente a pol\u00edtica internacional) faziam parte da vida da AIT desde sua funda\u00e7\u00e3o e, ao longo dos anos, foram parte constitutiva e essencial (pensemos tamb\u00e9m na interven\u00e7\u00e3o da AIT em apoio \u00e0 Comuna de Paris, tema que retomaremos mais adiante).<\/p>\n<p>Desde 1864, ano da funda\u00e7\u00e3o, a AIT reuniu-se cada ano em um congresso mundial ou, quando n\u00e3o foi poss\u00edvel (devido \u00e0 repress\u00e3o dos governos burgueses), em confer\u00eancias.<\/p>\n<p>Em setembro de 1865, foi realizada uma confer\u00eancia em Londres. O Conselho anunciou que foram feitos novos contatos para estender a AIT fora da Europa: nos Estados Unidos (gra\u00e7as \u00e0 presen\u00e7a de imigrantes alem\u00e3es) e inclusive no Brasil e no Egito. Nos anos seguintes, as principais se\u00e7\u00f5es permaneceram sendo a Gr\u00e3-Bretanha, Fran\u00e7a, Alemanha, B\u00e9lgica e Su\u00ed\u00e7a. Em segundo lugar, do ponto de vista num\u00e9rico, se colocaram as se\u00e7\u00f5es da Espanha, Pol\u00f4nia, R\u00fassia, Hungria e It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia a AIT nascer\u00e1 tarde: a primeira se\u00e7\u00e3o efetiva foi estabelecida em N\u00e1poles em janeiro de 1869, promovida por um advogado bakuninista, Carlo Gambuzzi, e um alfaiate anarquista, Stefano Caporusso [11].<\/p>\n<p>Os temas da confer\u00eancia de 1865 foram a religi\u00e3o (muito sentida pelos proudhonistas), mas decidiu-se adi\u00e1-la para o congresso do ano seguinte; e os problemas pr\u00e1ticos, de dinheiro; o tesoureiro revelou que os cofres da organiza\u00e7\u00e3o estavam vazios e restava\u00a0 apenas o necess\u00e1rio para pagar a sede central.<\/p>\n<p>Foi um ano depois, no congresso de Genebra, em setembro, que se registraram significativas novidades e foi debatida uma s\u00e9rie de novos temas. Em junho desse mesmo ano 1866, os membros ingleses da AIT lideraram imponentes mobiliza\u00e7\u00f5es com as quais se imp\u00f4s amplia\u00e7\u00e3o relativa do direito de voto para os oper\u00e1rios (homens e com disponibilidade de certa renda).<\/p>\n<p>O congresso registrou a exist\u00eancia de 25 se\u00e7\u00f5es nacionais, representadas por cerca de sessenta delegados. A primeira parte do congresso foi animada pela chegada de um grupo de jovens blanquistas franceses, encabe\u00e7ados por Protot (futuro delegado \u00e0 Justi\u00e7a na Comuna de 1871) que, n\u00e3o coincidindo com a linha de Blanqui [12], que preferia n\u00e3o entrar para a AIT, tentaram ser admitidos. No entanto, por estarem desprovidos de mandato, n\u00e3o os deixaram entrar.<\/p>\n<p>O debate sobre religi\u00e3o n\u00e3o chegou a nenhuma conclus\u00e3o e foi novamente postergado. Mais importante, em vez disso, foi o debate sobre a greve: os proudhonistas eram hostis a esse meio de luta, desnecess\u00e1rio em suas ing\u00eanuas ideias cooperativistas. Mas foi a posi\u00e7\u00e3o de Marx (ausente, mas representada por Eccarius), favor\u00e1vel \u00e0 luta sindical (aliada \u00e0quela pol\u00edtica), a que foi aprovada.<\/p>\n<p>Outro elemento de confronto foi a bizarra proposta de Tolain, l\u00edder do proudhonismo, que pretendia limitar a ades\u00e3o \u00e0 AIT (ou pelo menos aos cargos de dire\u00e7\u00e3o) apenas aos oper\u00e1rios manuais. Neste caso, foram os oper\u00e1rios ingleses que &#8211; inclusive citando o exemplo de Marx, que tinha sido exclu\u00eddo em virtude deste preceito &#8211; opuseram-se \u00e0 posi\u00e7\u00e3o \u201cobreirista\u201d recusando uma contraposi\u00e7\u00e3o entre trabalhadores manuais e intelectuais e, de modo geral, entre prolet\u00e1rios de diferentes setores de trabalho.<\/p>\n<p>Na hora da vota\u00e7\u00e3o, passou a proposta dos ingleses por 25 votos contra 20, mas as se\u00e7\u00f5es tiveram a liberdade para se autorregularem livremente e, por isso, a se\u00e7\u00e3o francesa, encabe\u00e7ada pelo proudhonismo, por todo um primeiro per\u00edodo impor\u00e1 um recrutamento reservado aos oper\u00e1rios (ainda que, ironia do destino, o pr\u00f3prio Tolain pouco depois deixaria o trabalho manual para se tornar&#8230; um trabalhador n\u00e3o manual).<\/p>\n<p>Finalmente, o Congresso de Genebra mudou a denomina\u00e7\u00e3o de Conselho Central para Conselho Geral.<\/p>\n<p>Exatamente um ano depois, em setembro de 1867, acontece um novo congresso, desta vez em Lausanne (a prefer\u00eancia de congressos e confer\u00eancias na Su\u00ed\u00e7a se devia ao fato de que a repress\u00e3o l\u00e1 ser menos severa).<\/p>\n<p>Foi presidida pelo trabalhador Eug\u00e8ne Pottier, que alguns anos mais tarde seria um dos dirigentes da Comuna (bem como o autor da letra de <em>A<\/em> <em>Internacional<\/em>). Tamb\u00e9m desta vez Marx esteve ausente, mas suas posi\u00e7\u00f5es foram bem representadas pelos delegados alem\u00e3es.<\/p>\n<p>Sobre temas gerais foi confirmada uma maioria pr\u00f3xima aos textos proudhonistas (cr\u00e9dito gratuito, cooperativas, etc.). O confronto foi entre Tolain e o marxista Eccarius sobre a quest\u00e3o da propriedade da terra: os proudhonistas eram hostis \u00e0 ideia da coletiviza\u00e7\u00e3o. O tema foi adiado.<\/p>\n<p>Mas, Marx tamb\u00e9m marcou um ponto: o congresso aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o vinculando a emancipa\u00e7\u00e3o social e a pol\u00edtica (embora com uma f\u00f3rmula muito amb\u00edgua). E Blanqui, que assistia entre o p\u00fablico, observou imediatamente que se tratava de um passo decisivo contra o proudhonismo.<\/p>\n<p>De fato, comentando sobre o congresso em uma carta a Engels, Marx escreve: \u201cNo pr\u00f3ximo congresso em Bruxelas, irei pessoalmente dar um golpe de miseric\u00f3rdia a esses burros proudhonistas\u201d. Pois, negando preventivamente aqueles que hoje apoiam uma concep\u00e7\u00e3o \u201cecum\u00eanica\u201d de Marx da Primeira Internacional, confidenciou com satisfa\u00e7\u00e3o a seu amigo e companheiro: apesar de lassallianos, mazzinianos, tradeunionistas, proudhonistas e &#8220;toda classe de burros e est\u00fapidos (Marx nunca foi muito diplom\u00e1tico, ndr), estamos (isto \u00e9, Marx e Engels e, portanto, por assim dizer, a fra\u00e7\u00e3o marxista, ndr) perto de ter a AIT em nossas m\u00e3os\u201d [13].<\/p>\n<p>O bi\u00eanio 1867-1868 \u00e9 marcado por uma nova grande onda de greves e de lutas oper\u00e1rias na Fran\u00e7a e na Inglaterra. Os oper\u00e1rios parisienses do bronze foram apoiados (fevereiro de 1867) pelos fundos de resist\u00eancia alimentados pelos oper\u00e1rios londrinos; outro fundo de resist\u00eancia internacional foi destinado para apoiar a luta dos mineiros belgas.<\/p>\n<p>A AIT desempenhou um papel important\u00edssimo na unifica\u00e7\u00e3o das lutas. Onde quer que se iniciasse uma greve, a AIT enviava seus pr\u00f3prios militantes para expressar sua solidariedade e construir n\u00facleos da organiza\u00e7\u00e3o. A imprensa burguesa come\u00e7ou a inventar, escandalizada, sobre supostos (e infelizmente inexistentes, como vimos) tesouros que a AIT teria utilizado para incitar os oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em 1868, Napole\u00e3o III recrudesceu a repress\u00e3o: o primeiro escal\u00e3o das se\u00e7\u00f5es francesas da AIT acabou na pris\u00e3o. Mas, como Marx e Engels comentaram em sua correspond\u00eancia privada, houve, indiretamente, tamb\u00e9m um efeito&#8230; positivo. De fato, nascia um novo grupo dirigente franc\u00eas, que rapidamente substituiu \u00e0quele mais explicitamente vinculado ao proudhonismo. Entre os novos dirigentes, mais influenciados pelas posi\u00e7\u00f5es de Marx, destacava-se Eugene Varlin, que seria a figura mais importante da Comuna de Paris tr\u00eas anos depois [14].<\/p>\n<p>O congresso se realiza tamb\u00e9m nesse ano, em setembro, desta vez em Bruxelas, com cerca de uma centena de delegados.<\/p>\n<p>Os franceses, encabe\u00e7ados por Tolain (j\u00e1 libertado da pris\u00e3o), mas tamb\u00e9m com a participa\u00e7\u00e3o de Varlin com posi\u00e7\u00f5es diferentes, avan\u00e7aram seus cavalos de batalha: a hostilidade pela instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica e a rejei\u00e7\u00e3o ao objetivo da coletiviza\u00e7\u00e3o. Mas foram derrotados: foram aprovadas as teses a favor do ensino obrigat\u00f3rio gratuito (e sem interfer\u00eancias religiosas) e o conceito de coletiviza\u00e7\u00e3o do transporte, estradas e minas (embora com formula\u00e7\u00f5es vagas).<\/p>\n<p>Foi no congresso do ano seguinte, setembro de 1869, na Basil\u00e9ia, que a quest\u00e3o da socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o foi finalmente colocada no centro do debate e aprovada a posi\u00e7\u00e3o marxiana favor\u00e1vel \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o da propriedade privada da terra, por 54 votos contra 3, e 13 absten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O congresso contou com a presen\u00e7a dos socialistas alem\u00e3es liderados por Liebknecht, os belgas encabe\u00e7ados por Cesar de Paepe, os ingleses com Lucraft, uma delega\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, e, pela primeira vez, tamb\u00e9m Bakunin (com a delega\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia).<\/p>\n<p>O revolucion\u00e1rio russo havia regressado de anos de pris\u00e3o e confinamento na Sib\u00e9ria. Fora o pr\u00f3prio Marx (que ele esperava que o servisse contra os mazzinianos na It\u00e1lia) a encoraj\u00e1-lo a participar. Mas Bakunin avan\u00e7ou na Basil\u00e9ia com a estranha ideia de \u201caboli\u00e7\u00e3o\u201d do direito de heran\u00e7a. Os delegados pr\u00f3ximos a Marx contestaram, explicando que a aboli\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a seria um efeito da conquista do poder, n\u00e3o a premissa. Mas a posi\u00e7\u00e3o de Bakunin foi aprovada por maioria, com o apoio dos proudhonistas.<\/p>\n<p>Desde setembro de 1868, Bakunin tinha fundado em Genebra a Alian\u00e7a Internacional da Democracia Socialista, que pretendia usar como fra\u00e7\u00e3o na AIT.<\/p>\n<p>Foi a partir desse momento que Marx e Engels perceberam o perigo representado por essa nova variante do anarquismo que estava nascendo. Em uma carta datada de 11 de fevereiro de 1870, Engels escreve a Marx: \u201cVoc\u00ea precisa vigiar esses caras [os homens de Bakunin, ndr] para que n\u00e3o ocupem o terreno em algum lugar sem encontrar nenhuma resist\u00eancia\u201d [15].<\/p>\n<p>1870 foi o primeiro ano sem congresso nem confer\u00eancia, como resultado da guerra que estourou entre a Pr\u00fassia e a Fran\u00e7a. Em setembro daquele ano nasceu em Paris uma Rep\u00fablica burguesa e poucos meses depois (em 18 de mar\u00e7o de 1871) os oper\u00e1rios parisienses a derrubaram, tomando o poder.<\/p>\n<p>A Comuna de Paris constitui um verdadeiro marco hist\u00f3rico na Primeira Internacional. Houve um antes e um depois. E, de fato, para ser mais preciso, a Comuna constitui um antes e um depois em toda a hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio, abrindo uma nova fase que culminar\u00e1 com a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917. Mas antes de tratarmos da Comuna, ainda que brevemente, pode ser interessante encerrar este cap\u00edtulo sobre os congressos da AIT tentando quantificar a presen\u00e7a organizada da Internacional.<\/p>\n<p>A maior parte dos adeptos \u00e0 AIT era composta de artes\u00e3os e oper\u00e1rios do setor t\u00eaxtil: poucos eram os oper\u00e1rios da ind\u00fastria pesada. Obviamente, isso correspondia ao n\u00edvel de desenvolvimento industrial daqueles anos. Mas, quantos eram os membros da AIT?<\/p>\n<p>No julgamento da imprensa burguesa da \u00e9poca, a AIT era uma organiza\u00e7\u00e3o de massas: o jornal <em>Times<\/em> de Londres chegou a falar (no final de 1871, na \u00e9poca da \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d gerada pela Comuna) de mais de dois milh\u00f5es de aderentes. Mas as coisas n\u00e3o eram assim. A AIT nunca foi uma organiza\u00e7\u00e3o de massas, apesar de ter tido influ\u00eancia de massas em certos momentos.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero preciso, n\u00e3o dispomos da informa\u00e7\u00e3o verdadeira, e em cada estudo sobre a AIT, s\u00e3o encontradas diferentes hip\u00f3teses num\u00e9ricas. De fato, muitas vezes existe confus\u00e3o entre ades\u00f5es coletivas (vejamos, ap\u00f3s uma greve alguns milhares de oper\u00e1rios aderiam, apenas para \u201csair\u201d logo depois) e ades\u00f5es individuais de membros que pagavam uma quota e eram efetivamente ativos como militantes da AIT. Para dar um exemplo: a Uni\u00e3o de Sapateiros Ingleses parecia aderir com at\u00e9 cinquenta mil membros \u00e0 AIT, mas no total pagava cinco libras anuais de quota.<\/p>\n<p>As estimativas mais confi\u00e1veis estimam para Gr\u00e3-Bretanha at\u00e9 um pico de cinquenta mil ades\u00f5es coletivas (de todas as formas, menos de um d\u00e9cimo dos oper\u00e1rios sindicalizados, considerando que os inscritos \u00e0s Trade Unions eram 800.000) que, em termos de ades\u00f5es individuais, significavam, em qualquer caso, n\u00e3o mais do que 250 militantes; para a Alemanha calcula-se em cerca de 400 militantes; 500 para os Estados Unidos [16]. No que diz respeito \u00e0 Fran\u00e7a, as ades\u00f5es coletivas chegaram a 20.000, mas provavelmente nunca ultrapassaram os 1.500 militantes efetivos (segundo outros autores o teto de mil nunca foi ultrapassado). Assumindo como bons os c\u00e1lculos feitos pela historiografia mais recente, os militantes efetivos (e n\u00e3o os que aderiam sem saber, junto com o pr\u00f3prio sindicato) nunca superaram alguns poucos milhares em todo mundo: os mais otimistas arriscam a falar de dez mil, cifra reduzida \u00e0 metade por outros, e n\u00f3s nos inclinamos por esta segunda hip\u00f3tese apoiada por um n\u00famero maior de estudos.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li><strong> O marco hist\u00f3rico da Comuna de Paris<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Em um artigo deste site dedicamos um extenso ensaio \u00e0 Comuna de Paris de 1871 [17]. Por evidentes raz\u00f5es de espa\u00e7o (e a vasta bibliografia nele contido) remetemos a ela o leitor, limitando-nos aqui a resumir alguns fatos decisivos para o desenvolvimento de nosso estudo.<\/p>\n<p>A Comuna foi, segundo a defini\u00e7\u00e3o de Marx, \u201cum ponto de partida hist\u00f3rico universal\u201d [18].<\/p>\n<p>Ao escrever essas palavras em uma carta, Marx n\u00e3o podia imaginar como efetivamente a Comuna de Paris mudaria o curso hist\u00f3rico, sendo tamb\u00e9m a principal fonte de inspira\u00e7\u00e3o para os bolcheviques de Lenin e Trotsky que, precisamente por estudar com profundidade a Comuna, se prepararam para Outubro de 1917. Bastaria lembrar que as \u201cCartas de longe\u201d com as quais Lenin reorientou seu pr\u00f3prio partido ap\u00f3s fevereiro de 1917, assim como tamb\u00e9m o livro <em>O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/em> (publicado ap\u00f3s a tomada do poder, mas que foi escrito no curso dos acontecimentos e resume toda a orienta\u00e7\u00e3o leninista) est\u00e3o literalmente imbu\u00eddos da experi\u00eancia da Comuna. Trotsky tamb\u00e9m n\u00e3o estava exagerando quando escreveu (nas <em>Li\u00e7\u00f5es de Outubro<\/em>) que sem o estudo da Comuna \u201cnunca ter\u00edamos dirigido a revolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Mas os efeitos da Comuna tamb\u00e9m foram sentidos naquela \u00e9poca: foi de fato com base na experi\u00eancia pr\u00e1tica dos oper\u00e1rios parisienses que no interior do movimento revolucion\u00e1rio internacional puderam adquirir alguns ensinamentos fundamentais que Marx e Engels souberam nuclear e sobre os quais desenvolveram sua batalha nos \u00faltimos anos da AIT, em particular na Confer\u00eancia de Londres, que se realizou poucos meses ap\u00f3s a Comuna (setembro de 1871) e no Congresso de Haia do ano seguinte.<\/p>\n<p>O principal ensinamento que a Comuna ofereceu ao proletariado em todo mundo foi sobre a necessidade de que a classe oper\u00e1ria conduzisse uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica independente destinada a derrubar pela via revolucion\u00e1ria (\u201crompendo\u201d o Estado burgu\u00eas) o dom\u00ednio capitalista; que sobre as ru\u00ednas do Estado burgu\u00eas os revolucion\u00e1rios edificassem seu pr\u00f3prio dom\u00ednio (a ditadura do proletariado). Mas, acima de tudo, a Comuna ensinou que sem partido revolucion\u00e1rio (ou melhor, como demonstramos em nosso citado ensaio, dispondo apenas de um embri\u00e3o de partido revolucion\u00e1rio, o Comit\u00ea Central dos Vinte Distritos; dado que certamente, a Comuna &#8211; n\u00e3o importa que anarquistas de todos os tempos o digam &#8211; n\u00e3o foi um fato &#8220;espont\u00e2neo&#8221;) esta gigantesca tarefa de emancipa\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o era (e n\u00e3o \u00e9) poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A AIT e suas se\u00e7\u00f5es na Fran\u00e7a n\u00e3o foram esse partido. \u00c9 verdade, a AIT participou na linha de frente de todo o processo revolucion\u00e1rio: desde a elabora\u00e7\u00e3o do <em>Discurso <\/em>(escrito por Marx) sobre a guerra franco-prussiana, uma guerra que teve a fun\u00e7\u00e3o de desencadear aquela revolu\u00e7\u00e3o, contrapondo a classe oper\u00e1ria armada \u00e0 burguesia da Fran\u00e7a e da Pr\u00fassia unidas contra os oper\u00e1rios (apesar da guerra), passando pelo convicto apoio dado aos comuneiros ap\u00f3s a insurrei\u00e7\u00e3o de 18 de mar\u00e7o de 1871, afora os preciosos conselhos e sugest\u00f5es que Marx deu aos dirigentes da Comuna mais pr\u00f3ximos a ele, at\u00e9 a batalha travada pela AIT, com Marx \u00e0 cabe\u00e7a, para opor-se \u00e0 repress\u00e3o e a tempestade de cal\u00fania que a burguesia internacional desencadeou contra aqueles oper\u00e1rios que, pela primeira vez na hist\u00f3ria, ousaram derrubar seu dom\u00ednio e haviam tomado o poder em suas pr\u00f3prias m\u00e3os (mesmo que apenas por algumas semanas).<\/p>\n<p>Mas se a se\u00e7\u00e3o francesa desempenhou um papel importante (a maioria dos dirigentes comunais pertencia a AIT), as posi\u00e7\u00f5es dos verdadeiros marxistas estavam em extrema minoria na Fran\u00e7a. Foram enviadas, diretamente por Marx, duas dirigentes a Paris: Serraillier e Elisabeth Dmitrieff (esta \u00faltima fundou e dirigiu a Uni\u00e3o de Mulheres &#8211; ver o ensaio de Laura Sguazzabia neste mesmo especial); e depois havia outros tr\u00eas ou quatro quadros em estreita rela\u00e7\u00e3o com o grande revolucion\u00e1rio alem\u00e3o: entre eles, o oper\u00e1rio de origem h\u00fangara Leo Frankel (que encabe\u00e7ou a Comiss\u00e3o de Trabalho da Comuna) e o grande Eugene Varlin, principal dirigente da AIT ap\u00f3s a decad\u00eancia do grupo de Tolain (este \u00faltimo, entretanto, eleito para a Assembleia Nacional, aliou-se \u00e0 burguesia contra a Comuna, sem renunciar a seu assento parlamentar entre os assassinos da Comuna; e por isso foi expulso da se\u00e7\u00e3o francesa e depois tamb\u00e9m da AIT).<\/p>\n<p>Varlin jogar\u00e1 um papel central na Comuna. Al\u00e9m de ser um &#8220;ministro&#8221; da Comuna (primeiro das Finan\u00e7as e depois da Subsist\u00eancia), ser\u00e1 eleito no Comit\u00ea Central da Guarda Nacional (que liderar\u00e1 em 18 de mar\u00e7o para ocupar a Place Vend\u00f4me), inspirar\u00e1 a Se\u00e7\u00e3o da AIT, dirigir\u00e1 o trabalho da C\u00e2mara Sindical, estar\u00e1 entre os dirigentes de um embri\u00e3o de partido revolucion\u00e1rio denominado Delega\u00e7\u00e3o dos Vinte Distritos (distritos eram os bairros ou <em>arrondissements <\/em>em que Paris est\u00e1 dividida).<\/p>\n<p>Mas Varlin n\u00e3o era marxista; embora de origem proudhonista, evoluiu cada vez mais para concep\u00e7\u00f5es marxistas. Ele via na classe oper\u00e1ria o sujeito revolucion\u00e1rio (e isso j\u00e1 o afastava de Bakunin, que tentou em v\u00e3o ganh\u00e1-lo para sua corrente). Como delegado de Finan\u00e7as, Varlin entrou em choque com os proudhonistas sobre que atitude tomar em rela\u00e7\u00e3o a Banca Nacional, que (seguindo Marx) gostaria que a Comuna assumisse o controle.<\/p>\n<p>Se houvesse mais tempo, se a Comuna n\u00e3o tivesse sido rapidamente estrangulada pela burguesia, muito provavelmente poderia ter-se constru\u00eddo e fortalecido um partido inspirado nas posi\u00e7\u00f5es de Marx, um partido revolucion\u00e1rio de vanguarda. Isto evitaria os numerosos erros fatais cometidos pelos comuneiros [19].<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi assim. A Comuna foi afogada em sangue pela b\u00e1rbara vingan\u00e7a da burguesia. Eug\u00e8ne Varlin, identificado e denunciado por um padre, foi fuzilado em Montmartre em 28 de maio de 1871, ap\u00f3s ser o \u00faltimo comandante das barricadas oper\u00e1rias.<\/p>\n<p>Mas se a Comuna foi derrotada, seu sacrif\u00edcio n\u00e3o foi em v\u00e3o. Marx e Engels aproveitaram a grande li\u00e7\u00e3o que extra\u00edram dela para desferir o \u00faltimo golpe nos advers\u00e1rios do comunismo revolucion\u00e1rio. Foi assim que a AIT come\u00e7ou seu decl\u00ednio.<\/p>\n<ol start=\"8\">\n<li><strong> A decad\u00eancia da AIT: a Confer\u00eancia de Londres<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A necessidade de que o proletariado atue com total independ\u00eancia de classe da burguesia e seus governos como condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para ganhar as massas, no curso das lutas, para a constru\u00e7\u00e3o de um governo &#8220;dos trabalhadores para os trabalhadores&#8221;: este \u00e9 o maior ensinamento da Comuna, respaldado e confirmado pelos bolcheviques em 1917. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a elimina\u00e7\u00e3o desta li\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica esteja na base de todas as teorias reformistas do \u00faltimo s\u00e9culo e meio e foi retomada pelo estalinismo (nega\u00e7\u00e3o do marxismo e do bolchevismo), que reintroduziu no movimento oper\u00e1rio a morbidez da colabora\u00e7\u00e3o de classes e de governo com a burguesia (dando finalmente vida \u00e0s &#8220;frentes populares&#8221; desde meados dos anos trinta).<\/p>\n<p>A ditadura do proletariado foi apenas potencial na Comuna; assim como foi embrion\u00e1rio o \u201csoviet\u201d da Comuna (o Comit\u00ea Central da Guarda Nacional), isto \u00e9, o organismo de luta das massas; assim como foi esbo\u00e7ado o partido que atuou naquele \u201csoviet\u201d para conquist\u00e1-lo para posi\u00e7\u00f5es genuinamente revolucion\u00e1rias. Aqui est\u00e1 toda a diferen\u00e7a entre a Comuna de 1871 e a Comuna de Petrogrado de 1917, na qual o Partido Bolchevique operou e triunfou.<\/p>\n<p>Aqui tocamos superficialmente em temas muito importantes, sobre os quais recomendamos, para um aprofundamento necess\u00e1rio, nosso j\u00e1 citado ensaio sobre a Comuna. E fazemos isso para retomar o fio da discuss\u00e3o: a decad\u00eancia da AIT, na verdade, come\u00e7ou com a derrota da Comuna. Porque a pr\u00f3pria Comuna deixou n\u00b4tida a necessidade de ir <em>al\u00e9m<\/em> da Primeira Internacional.<\/p>\n<p>Esse foi o objetivo que Marx apontou na primeira confer\u00eancia ap\u00f3s a Comuna, realizada em Londres em setembro de 1871.<\/p>\n<p>Nela, depois de acertar as contas com grande parte das tend\u00eancias reformistas e centristas presentes na AIT, era hora de enfrentar Bakunin e os anarquistas, que a Comuna havia revelado em toda sua mis\u00e9ria pol\u00edtica (hostilidade para estender o poder central da Comuna a toda Fran\u00e7a constituindo uma aut\u00eantica ditadura do proletariado, recusa em construir o partido centralizado da classe oper\u00e1ria).<\/p>\n<p>Vinte e dois delegados participaram da Confer\u00eancia de Londres (realizada no sal\u00e3o da casa de Marx) e de vez em quando apareciam as filhas de Marx, todas militantes altamente capazes.<\/p>\n<p>Dois foram os pontos centrais surgidos dessa confer\u00eancia em que Marx dominou completamente a cena: primeiro, foi declarado inadmiss\u00edvel a exist\u00eancia na Internacional de associa\u00e7\u00f5es com programas pr\u00f3prios diferentes do da AIT; segundo, foi aprovada uma resolu\u00e7\u00e3o (resolu\u00e7\u00e3o n\u00famero IX) que estabelecia a necessidade da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe oper\u00e1ria. A classe oper\u00e1ria, afirma a resolu\u00e7\u00e3o, s\u00f3 pode atuar como classe constituindo-se como partido pol\u00edtico oposto a todas as outras organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas: um partido pelo poder oper\u00e1rio. Este conceito ser\u00e1 inserido como artigo (artigo 7a) nos estatutos que ser\u00e3o renovados no ano seguinte no Congresso de Haia.<\/p>\n<p>Bakunin era evidentemente o destinat\u00e1rio dessas duas declara\u00e7\u00f5es de princ\u00edpio: a incompatibilidade de programas fundamentalmente diferentes no interior da mesma organiza\u00e7\u00e3o (refer\u00eancia \u00e0 fra\u00e7\u00e3o secreta com a qual Bakunin atuava na AIT); e a defini\u00e7\u00e3o do objetivo de fundo Internacional: o partido revolucion\u00e1rio para a conquista do poder.<\/p>\n<p>Para Marx j\u00e1 n\u00e3o havia mais d\u00favidas: seu velho conhecido Bakunin era o advers\u00e1rio pol\u00edtico a ser derrotado. N\u00e3o havia combina\u00e7\u00e3o poss\u00edvel na mesma organiza\u00e7\u00e3o entre marxismo e anarquismo. A batalha pela delimita\u00e7\u00e3o program\u00e1tica da AIT tinha chegado a seu ponto culminante.<\/p>\n<ol start=\"9\">\n<li><strong> Marxismo contra anarquismo<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Resumindo esquematicamente as diferen\u00e7as fundamentais entre marxismo e anarquismo (bakuninista), faremos uma lista destes pontos: primeiro, para os anarquistas o Estado \u00e9 a fonte de todos os males (j\u00e1 Proudhon, de algum modo progenitor moderado de Bakunin, afirmava que \u201co governo do homem sobre o homem \u00e9 escravid\u00e3o\u201d) [20]; segundo, para os anarquistas a avers\u00e3o ao Estado n\u00e3o implica apenas o Estado burgu\u00eas, mas tamb\u00e9m o Estado-Comuna, isto \u00e9, o Estado oper\u00e1rio; terceiro, essa diferen\u00e7a estrat\u00e9gica se reflete na recusa dos anarquistas \u00e0 pol\u00edtica pela conquista do poder; quarto, rejeitando todo poder e a centraliza\u00e7\u00e3o que dele deriva, os anarquistas rejeitam o partido de vanguarda, centralizado, disciplinado, oper\u00e1rio (para Bakunin o sujeito revolucion\u00e1rio era \u201ca gentalha\u201d, isto \u00e9, o proletariado mais de baixo).<\/p>\n<p>Existem diferen\u00e7as n\u00e3o secund\u00e1rias entre as diversas matrizes e as relativas afilia\u00e7\u00f5es anarquistas. Stirner afirmava uma filosofia individualista que Proudhon rejeitava. Bakunin retomou elementos de Proudhon, mas certamente n\u00e3o a modera\u00e7\u00e3o antirrevolucion\u00e1ria nem as fantasias sobre uma sociedade constru\u00edda sobre a base das cooperativas. Da mesma forma, o anarquismo de Bakunin (e de seus disc\u00edpulos menos toscos), ao contr\u00e1rio do que se costumava dizer banalizado, n\u00e3o era &#8220;contra toda organiza\u00e7\u00e3o&#8221;: ao contr\u00e1rio, rejeitava a organiza\u00e7\u00e3o centralista (afirmando, para usar os termos posteriores de Malatesta, que &#8220;o centro est\u00e1 em todas as partes&#8221;). Bakunin preferia definir-se como &#8220;coletivista&#8221; enquanto o comunismo encarnava para ele uma ideologia &#8220;autorit\u00e1ria&#8221; e, portanto, perigosa.<\/p>\n<p>O que une \u00e0s diversas tend\u00eancias anarquistas de todos os tempos \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o a um Estado oper\u00e1rio (transi\u00e7\u00e3o para o socialismo e o comunismo), o desprezo por uma economia planificada. O que acaba levando a qualquer tipo de anarquismo a cair em utopias reacion\u00e1rias pr\u00e9-capitalistas.<\/p>\n<p>Bakunin se baseava seletivamente nas teorias de Proudhon, mas o fazia sem se preocupar em construir uma pr\u00f3pria teoria coerente. Inclusive seu texto mais completo (isto \u00e9, <em>Estado e anarquia<\/em>) n\u00e3o cont\u00e9m nenhuma tentativa de an\u00e1lise cient\u00edfica da sociedade. Sem piedade, mas sem exagero, Engels definiu as concep\u00e7\u00f5es de Bakunin: &#8220;um Zibaldone de proudhonismo e de comunismo, no qual, acima de tudo, o essencial \u00e9 que ele n\u00e3o considera o capital como o principal mal a ser eliminado, e, portanto, n\u00e3o v\u00ea o conflito de classe entre capitalistas e trabalhadores assalariados que surge com a evolu\u00e7\u00e3o da sociedade, mas v\u00ea o Estado como o grande inimigo&#8221;. Assim, enquanto para os marxistas o Estado \u00e9 um instrumento da classe dominante, para Bakunin \u00e9 o verdadeiro inimigo e, suprimindo esse, &#8220;o capital ir\u00e1 por si mesmo para o inferno&#8221; (a s\u00edntese \u00e9 sempre de Engels).<\/p>\n<p>Engels ironiza sobre a sociedade futura sonhada por Bakunin: &#8220;Como v\u00e3o dirigir uma f\u00e1brica e as ferrovias, comandar um navio, sem um poder que em \u00faltima inst\u00e2ncia decida, sem dire\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria: isso, evidente, n\u00e3o nos dizem&#8221;. \u00c9 o sonho reacion\u00e1rio em que o indiv\u00edduo prevalece sobre a sociedade e cada comunidade \u00e9 aut\u00f4noma das outras: mas como uma comunidade pode ser constitu\u00edda (ou seja, a uni\u00e3o de mais indiv\u00edduos) sem um poder central \u00e9 um mist\u00e9rio, conclui Engels [21].<\/p>\n<p>Da\u00ed a ideia de Bakunin de que a Internacional tamb\u00e9m deveria ser organizada desta maneira: sem um centro dirigente (embora na pr\u00e1tica a Alian\u00e7a Anarquista construiu-se em torno de seu &#8220;papai&#8221; Bakunin).<\/p>\n<p>Marx, que conhecia Bakunin desde 1844 (se encontraram pela primeira vez em Paris; depois mantiveram contato em meados dos anos quarenta em Bruxelas, e finalmente se reencontraram em Londres nos anos da AIT), \u00e9 ainda mais severo em seu julgamento, mas n\u00e3o menos eficaz: &#8220;Seu programa [de Bakunin, ndr] era uma mistura montada superficialmente de direita e esquerda<em>, igualdade de classes<\/em> (!), <em>aboli\u00e7\u00e3o do direito de heran\u00e7a, como ponto de partida <\/em>do movimento socialista (tolices saint-simonistas ), <em>ate\u00edsmo<\/em> como dogma imposto aos membros, etc., e, como dogma principal (proudhonista), <em>absten\u00e7\u00e3o do movimento pol\u00edtico<\/em>&#8220;[22].<\/p>\n<ol start=\"10\">\n<li><strong> 1872, Haia: o fim de um \u201cacordo ing\u00eanuo\u201d<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Cento e cinquenta anos ap\u00f3s a funda\u00e7\u00e3o da AIT e cerca de cento e quarenta anos ap\u00f3s sua morte, ainda se \u00e9 obrigado a ler em muitos livros e artigos, interpreta\u00e7\u00f5es fantasiosas sobre as raz\u00f5es do fim da Primeira Internacional. Na verdade, como veremos em breve, e se o que reconstru\u00edmos at\u00e9 agora faz sentido, n\u00e3o h\u00e1 mist\u00e9rio na dissolu\u00e7\u00e3o da AIT e n\u00e3o h\u00e1 supostos choques de personalidade entre Marx e Bakunin ou outros psicologismos semelhantes.<\/p>\n<p>A dissolu\u00e7\u00e3o ocorreu, de fato, embora n\u00e3o de forma, no congresso realizado em setembro de 1872 em Haia: um ano e meio ap\u00f3s o fim da Comuna de Paris.<\/p>\n<p>O congresso tomou como suas as delibera\u00e7\u00f5es da Confer\u00eancia de Londres do ano anterior: delimita\u00e7\u00e3o program\u00e1tica e, portanto, rejei\u00e7\u00e3o \u00e0s fra\u00e7\u00f5es internas encorajadas por um programa diferente; objetivo estrat\u00e9gico: a constru\u00e7\u00e3o de um partido para a conquista revolucion\u00e1ria do poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir dessas fronteiras program\u00e1ticas que o confronto com Bakunin se tornou inevit\u00e1vel e, inevitavelmente, n\u00e3o permitiu compromissos de qualquer tipo.<\/p>\n<p>Todas as se\u00e7\u00f5es participaram do congresso, exceto os italianos que, reunidos em Rimini no m\u00eas anterior em agosto, decidiram boicot\u00e1-lo apoiando Bakunin contra o Conselho (apenas o dirigente italiano Carlo Cafiero, que at\u00e9 recentemente Engels ansiava em ganh\u00e1-lo na batalha contra Bakunin, participar\u00e1 como observador).<\/p>\n<p>Havia 64 delegados, entre eles Marx e Engels, que certamente n\u00e3o poderiam estar ausentes nesta ocasi\u00e3o. Bakunin n\u00e3o compareceu porque estava doente.<\/p>\n<p>A tens\u00e3o era enorme: Marx n\u00e3o p\u00f4de dormir durante todo o per\u00edodo do congresso (como aconteceu com Lenin anos depois em outro congresso de capital import\u00e2ncia que terminou com uma cis\u00e3o para operar a delimita\u00e7\u00e3o program\u00e1tica: o II Congresso do POSDR de 1903, no qual nascia o bolchevismo contra o menchevismo).<\/p>\n<p>Os tr\u00eas primeiros dias do congresso foram absorvidos pela an\u00e1lise de credenciamento dos delegados: como tinha um ar de ruptura, determinar quem tinha direito a voto era a primeira coisa a ser feito.<\/p>\n<p>A maioria dos delegados alem\u00e3es, austr\u00edacos e franceses (em sua maioria, exilados blanquistas da Comuna) alinhou-se com Marx. Totalmente do lado de Bakunin estavam apenas dois su\u00ed\u00e7os (entre eles, Guillaume, bra\u00e7o direito do revolucion\u00e1rio russo) e quatro espanh\u00f3is (a Espanha estava toda com Bakunin, assim como a It\u00e1lia, com exce\u00e7\u00e3o de um grupo de Turim). Divididos entre bakuninistas e marxistas estavam os belgas e os holandeses. Os ingleses alinharam-se parcialmente com Bakunin, embora n\u00e3o compartilhassem das teorias anarquistas, apenas porque v\u00e1rios deles estavam se afastando da AIT seguindo as posi\u00e7\u00f5es assumidas pela Internacional sobre a Comuna: Odger, que com Tolain foi promotor da AIT em 1864, se alinhou com este contra a Comuna, isto \u00e9, com a burguesia.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a atribui\u00e7\u00e3o de poderes, o congresso ratificou as conclus\u00f5es da Confer\u00eancia de Londres: a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora (tomada como artigo do estatuto); papel diretivo do Conselho e estrutura centralista (em oposi\u00e7\u00e3o aos bakunistas que propunham transformar o Conselho em um mero centro de correspond\u00eancia).<\/p>\n<p>Mas o ponto mais delicado do Congresso foi a comiss\u00e3o de inqu\u00e9rito que Marx tinha requisitado para investigar a fra\u00e7\u00e3o secreta constitu\u00edda por Bakunin e a suspeita de dissimula\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo. Para ter provas para usar contra Bakunin, antes de Haia Marx enviou a Espanha o dirigente pol\u00edtico (e genro) Paul Lafargue. Este, aproveitando sua origem cubana e falando espanhol, ingressou na Alian\u00e7a Bakunin com o nome de Pablo Farga. L\u00e1 ele encontrou provas irrefut\u00e1veis da exist\u00eancia da fra\u00e7\u00e3o secreta e trouxe para Haia, v\u00e1rios documentos internos e os estatutos secretos da fra\u00e7\u00e3o secreta constru\u00edda por Bakunin.<\/p>\n<p>A comiss\u00e3o de inqu\u00e9rito examinou esses documentos e ouviram primeiro Engels e depois Marx como testemunhas da acusa\u00e7\u00e3o. Finalmente (tamb\u00e9m sobre a base de alguma &#8220;press\u00e3o&#8221; de Marx, que acusou a Bakunin de conduta moralmente impr\u00f3pria), a Comiss\u00e3o prop\u00f4s a expuls\u00e3o de Bakunin e Guillaume do AIT. O que foi aprovado no congresso por ampla maioria.<\/p>\n<p>Todo esse assunto foi muito abordado. Inclusive Franz Mehring, em sua famosa biografia de Marx [23] se estende sobre o tema, quase como se n\u00e3o entendesse que o ponto importante n\u00e3o se baseia em quais provas se expulsou Bakunin: a ruptura ocorreu pela incompatibilidade program\u00e1tica entre marxismo e anarquismo. Um fosso dividia estas duas correntes; e toda a hist\u00f3ria posterior, at\u00e9 nossos dias, o demonstrou suficientemente.<\/p>\n<p>A Primeira Internacional explodiu como uma fruta madura demais, quase podre: foi a Comuna que produziu esse efeito. Tudo o que faltava era tirar conclus\u00f5es dessa experi\u00eancia. Ent\u00e3o, surpreendendo v\u00e1rios delegados, a certa altura Engels se levantou e prop\u00f4s ao congresso que o centro da AIT fosse transferido para Nova York. A proposta tamb\u00e9m foi mal recebida por muitos que, at\u00e9 ent\u00e3o, haviam se aliado a Marx contra Bakunin. Eles n\u00e3o entenderam o significado daquele movimento surpresa. A mo\u00e7\u00e3o de Engels foi aprovada com 26 votos a favor, 23 contra e 9 absten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De certo ponto de vista, o movimento n\u00e3o era algo absurdo como alguns acreditam: em suma, nos Estados Unidos a AIT dispunha de um setor relativamente forte, dirigida principalmente por imigrantes alem\u00e3es muito pr\u00f3ximos politicamente de Marx. No entanto, esta foi uma op\u00e7\u00e3o que n\u00e3o poderia ser totalmente compreendida se n\u00e3o estivesse n\u00edtido que a inten\u00e7\u00e3o de Marx e Engels era conduzir, sem muito alarde, a AIT \u00e0 r\u00e1pida extin\u00e7\u00e3o. Efetivamente, a certid\u00e3o de \u00f3bito formal ser\u00e1 em 1876, com a Confer\u00eancia da Filad\u00e9lfia: mas no intervalo n\u00e3o houve mais confer\u00eancias ou congressos [24].<\/p>\n<p>Como dissemos, o debate continua e a t\u00e3o grande dist\u00e2ncia buscam-se interpreta\u00e7\u00f5es dessa decis\u00e3o de Marx. Ignorando as banalidades de quem escreve que a inten\u00e7\u00e3o de Marx era simplesmente se livrar de um compromisso de ter mais tempo para se dedicar aos estudos (quando Marx, como j\u00e1 observamos, nunca concebeu um compromisso te\u00f3rico desvinculado da luta pol\u00edtica), abundam as teses de v\u00e1rios estudiosos que coincidem em definir o Congresso de Haia como uma &#8220;vit\u00f3ria de Pirro&#8221; para Marx, no sentido de que ele teria derrotado Bakunin, mas se viu [assim] privado da Internacional.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 muito mais simples e requer apenas um pouco de aten\u00e7\u00e3o ao que os pr\u00f3prios Marx e Engels esclareceram em v\u00e1rios textos. O texto mais n\u00edtido e inequ\u00edvoco \u00e9 uma carta de Engels para Sorge (um l\u00edder alem\u00e3o que emigrou para os Estados Unidos, onde dirigir\u00e1 a AIT nos \u00faltimos anos ap\u00f3s Haia): &#8220;O primeiro grande sucesso [a Comuna, ndr] ser\u00e1 explodir esse acordo ing\u00eanuo de todas as fac\u00e7\u00f5es [que foi a Internacional, ndr] (&#8230;) Eu acredito que a pr\u00f3xima Internacional &#8211; depois que os livros de Marx exercerem sua influ\u00eancia por alguns anos &#8211; ser\u00e1 puramente comunista e propagar\u00e1 diretamente nossos princ\u00edpios &#8220;[25].<\/p>\n<p>Tudo se explica em poucas linhas: a experi\u00eancia fundamental da Comuna permitiu concluir a obra que Marx havia iniciado desde o primeiro dia de sua entrada na AIT: a delimita\u00e7\u00e3o program\u00e1tica para eliminar politicamente as correntes reformistas e centristas. Ao mesmo tempo, os ensinamentos da Comuna e os sucessos alcan\u00e7ados pela AIT, que estenderam os contatos de Marx e Engels a meio mundo, permitiram-lhe realizar tarefas superiores para as quais a AIT agora era inadequada. Nos oito anos de 1864 a 1872, o marxismo semeou os frutos agora colhidos e investiu numa nova fase superior: na constru\u00e7\u00e3o de uma nova Internacional &#8220;puramente comunista&#8221; e suas se\u00e7\u00f5es em cada pa\u00eds. Aufhebung, para diz\u00ea-lo como Hegel, isto \u00e9, supress\u00e3o (nega\u00e7\u00e3o) e manuten\u00e7\u00e3o por uma eleva\u00e7\u00e3o que supera e realiza a coisa negada.<\/p>\n<p>O stalinismo (especialmente na \u00e9poca em que se preparava, nos anos 1940, para dissolver a Internacional Comunista) defendia a tese de que a AIT necessariamente morria para dar lugar aos partidos nacionais (como se Marx fosse uma esp\u00e9cie de precursor da &#8220;via nacional ao socialismo&#8221;, da mem\u00f3ria stalinista). \u00c9 uma tese completamente falsa: na realidade, ao contr\u00e1rio, os partidos nacionais podiam nascer porque a AIT havia preparado o terreno, mas o pr\u00f3prio desenvolvimento desses partidos precisava de uma Internacional, apenas um tipo diferente da AIT e sua &#8220;uni\u00e3o ing\u00eanua de todas as fra\u00e7\u00f5es\u201d do movimento oper\u00e1rio. <em>Dividir o movimento oper\u00e1rio para arregiment\u00e1-lo contra a burguesia: era o que era necess\u00e1rio. Era a necessidade<\/em> &#8211; e agora, depois de anos de luta pol\u00edtica, tamb\u00e9m <em>a possibilidade<\/em> &#8211; de construir uma Internacional e partidos programaticamente delimitados, &#8220;puramente comunistas&#8221;, isto \u00e9, marxistas. Apenas alguns anos antes, essa tarefa (que Marx havia deixado claro desde o in\u00edcio) n\u00e3o p\u00f4de ser cumprida. Agora, pelo menos, poderia ser tentado. Nos anos seguintes, a funda\u00e7\u00e3o da Segunda Internacional foi uma tentativa nesse sentido. O final vergonhoso desta Internacional (com a vota\u00e7\u00e3o dos &#8220;cr\u00e9ditos de guerra&#8221; em 4 de agosto de 1914) n\u00e3o diminui a import\u00e2ncia daquela tentativa e do salto que isso significou para preparar o caminho para &#8220;partidos puramente comunistas&#8221; que, ao contr\u00e1rio do que Marx e Engels previam, nasceria ap\u00f3s outros anos de duras batalhas, foram finalmente constru\u00eddos em torno da pr\u00f3xima Internacional, a Terceira. Mas isso, como diria Kipling, \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>Aten\u00e7\u00e3o: nestas notas damos apenas as indica\u00e7\u00f5es bibliogr\u00e1ficas m\u00ednimas.<\/p>\n<p>[1] Publicado pelo <em>La Verit\u00e9<\/em> (9 de mar\u00e7o de 1934) e pelo <em>The Militant<\/em> (31 de mar\u00e7o de 1934) com o t\u00edtulo &#8220;Pela Quarta Internacional.&#8221;<\/p>\n<p>[2] RIAZANOV, David B. <em>Alle origini della Prima Internazionale<\/em> [As origens da Primeira Internacional], ed. Lotta Comunista, 2007.<\/p>\n<p>[3] O texto na \u00edntegra pode ser lido na p\u00e1gina 60 e seguintes de Riazanov, op. cit.<\/p>\n<p>[4] Ver em particular a carta de Marx para Engels de 4 de novembro de 1864, a carta para Weydemeyer de 29 de novembro de 1864, e a carta para Kugelmann do mesmo dia. As cartas de Marx e Engels foram publicadas em italiano nos anos de 1950, pela editora Rinascita, e republicadas como <em>Carteggio Marx-Engels<\/em>, Editori Riuniti, 1972; Nos \u00faltimos anos, as edi\u00e7\u00f5es da Lotta Comunista publicaram (tamb\u00e9m com trechos in\u00e9ditos e novas notas) as cartas dos anos sessenta e oitenta dos dois fundadores do socialismo cient\u00edfico.<\/p>\n<p>[5] MEHRING, Franz. Karl Marx, recentemente republicado (2012) para Shake editora. Por exemplo, no livro de Mehring n\u00e3o est\u00e1 claro por que Marx e Engels foram chamados, na Liga dos Comunistas, para escrever o Manifesto. Quase parece o pedido feito a \u201cmeia luz\u201d: embora, como Ryazanov demonstrou isso se deveu ao intenso trabalho pol\u00edtico de Marx no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1840, que foi fundamental na constru\u00e7\u00e3o do grupo que mais tarde deu origem \u00e0 Liga dos Comunistas.<\/p>\n<p>(6) Mazzini n\u00e3o participou diretamente na AIT. Mas com a crescente influ\u00eancia de Marx na Internacional, a dist\u00e2ncia que separava a Marx e Mazzini cresceu: este \u00faltimo, um democrata pequeno-burgu\u00eas e anticomunista, rejeitava a luta de classes e, como era de esperar, foi &#8220;equidistante&#8221; entre a Comuna oper\u00e1ria de 1871 e a burguesia que a afogou em sangue.<\/p>\n<p>(7) Ver a carta de Marx a Engels de 4 de novembro de 1864, em <em>Carteggio Marx-Engels,<\/em> ed. Rinascita, 1951, vol. IV, p. 244.<\/p>\n<p>(8) O Discurso \u00e9 publicado na \u00edntegra na cole\u00e7\u00e3o de textos (em dois volumes) editada por G. M. Bravo, <em>La Prima Internazionale<\/em>, vol. I, p. 121 e seguintes.<\/p>\n<p>(9) Carta de Marx a Engels, 13 de mar\u00e7o de 1865 (ver nota 4).<\/p>\n<p>(10) Com refer\u00eancia a Ferdinand Lassalle (1825-1864), entre os protagonistas da revolu\u00e7\u00e3o de 1848, pai do socialismo moderado e reformista alem\u00e3o. Em 1863 fundou a Associa\u00e7\u00e3o Geral de Trabalhadores Alem\u00e3es: via na luta pelo sufr\u00e1gio universal o objetivo pol\u00edtico e a forma\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias subvencionadas pelo Estado no centro do programa econ\u00f4mico. A Associa\u00e7\u00e3o, fortemente subordinada ao bismarckismo, ficou fora da AIT. Lassalle tamb\u00e9m morreu em agosto de 1864 (em um duelo por motivos sentimentais), portanto, pouco antes do nascimento de AIT. Na Alemanha, sua Associa\u00e7\u00e3o (dirigida depois de sua morte por Von Schweitzer) tinha como rival a Uni\u00e3o de Associa\u00e7\u00f5es Oper\u00e1rias, dirigida por Liebknecht (intelectual) e Bebel (oper\u00e1rio), com quem Marx entrou em contato, ganhando-os para suas pr\u00f3prias posi\u00e7\u00f5es. O grupo de Bebel e Liebknecht formou em agosto de 1869, em Eisenach, o Partido Oper\u00e1rio Social-democrata, conquistando alguns setores lassallianos; em maio de 1875 (no Congresso de Gotha, ao qual Marx dedicou a famosa <em>Cr\u00edtica ao Programa de Gotha<\/em>, que permaneceu como texto interno e foi publicou apenas cerca de quinze anos depois) se fundem com o que resta dos setores de origem lassalliano. Engels julgou que essa fus\u00e3o j\u00e1 trazia &#8220;as sementes da cis\u00e3o&#8221; (ver carta a Bebel, 12 de outubro de 1875). Assim nasceu o que se tornaria nos anos seguintes o partido mais importante da Segunda Internacional: o Partido Socialista Oper\u00e1rio Alem\u00e3o (que a partir de 1890 mudar\u00e1 seu nome para Partido Social-Democrata Alem\u00e3o, ou seja, SPD).<\/p>\n<p>(11) Sobre o nascimento da AIT na It\u00e1lia, ver o relat\u00f3rio de Domenico Demarco publicado sob o t\u00edtulo <em>&#8220;La fondation de la Premi\u00e8re Internationale a N\u00e1poles<\/em>: 1869-1870&#8243; [A funda\u00e7\u00e3o da Primeira Internacional em N\u00e1poles: 1869-1870], na p\u00e1gina 285 e seguintes de: Aa.Vv., <em>La premi\u00e8re Internationale: l&#8217;institution, l&#8217;implantation, le rayonnement<\/em>, Paris 16-18 de novembro de 1964 (atas do semin\u00e1rio internacional realizado em Paris em 1964, na ocasi\u00e3o do centen\u00e1rio do nascimento da AIT).<\/p>\n<p>(12) Auguste Blanqui (1805-1881; da\u00ed o termo &#8220;Blanquistas&#8221; para designar seus partid\u00e1rios). Ele foi um grande revolucion\u00e1rio que passou mais da metade de sua vida na pris\u00e3o (mesmo durante a Comuna ele estava na pris\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o pode participar dela). Blanqui era, segundo a defini\u00e7\u00e3o de Engels (que tamb\u00e9m o estimava), &#8220;um revolucion\u00e1rio de um per\u00edodo anterior&#8221;. Imbu\u00eddo dos mitos da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, e em particular de Hebert, chefe da Comuna de 1793, ele reduzia a revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o de uma elite (considerando os oper\u00e1rios incapazes de liberta\u00e7\u00e3o cultural sob o capitalismo) e reduzia a insurrei\u00e7\u00e3o \u00e0s barricadas. O conceito de &#8220;ditadura do proletariado&#8221; em Marx deve muito \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de Blanqui (embora, obviamente, Marx tenha dado um significado diferente), assim como o leninismo deve muito (embora os tenha desenvolvido de uma forma inteiramente nova) aos princ\u00edpios de &#8220;dire\u00e7\u00e3o de Blanqui. &#8220;e&#8221; centralismo&#8221;. A social-democracia e o stalinismo desvalorizaram (falsificando-a) a figura gigantesca de Blanqui que, por outro lado, Marx, muito politicamente distante dele, n\u00e3o hesitou em definir &#8220;a cabe\u00e7a e o cora\u00e7\u00e3o do proletariado franc\u00eas&#8221;.<\/p>\n<p>(13) Carta de Marx a Engels, 11 de setembro de 1867 (ver nota 4).<\/p>\n<p>(14) Sobre Eugene Varlin, ver nosso artigo &#8220;A Comuna de Paris (1871): premissa da Comuna de Petrogrado (1917)&#8221;, dispon\u00edvel em espanhol, em <a href=\"http:\/\/www.litci.org\">www.litci.org<\/a><\/p>\n<p>(15) Carta de Engels a Marx, 11 de fevereiro de 1870 (ver nota 4).<\/p>\n<p>(16) A estimativa \u00e9 relatada em K. McLellan, Karl Marx, Rizzoli, 1976, p. 390 e segs.<\/p>\n<p>(17) Ver F. Ricci,<em> cit<\/em>.<\/p>\n<p>(18) Carta de Marx a Kugelmann, 17 de abril de 1871, em K. Marx, <em>Lettere a Kugelmann<\/em>, Editori Riuniti, 1976, p. 166.<\/p>\n<p>(19) N\u00e3o temos como voltar aqui aos erros da Comuna na interpreta\u00e7\u00e3o que Marx e Engels fizeram dela, primeiro, e depois L\u00eanin e Trotsky, mais tarde. Referimo-nos novamente ao nosso ensaio (ver nota 14) que prop\u00f5e tamb\u00e9m, com base em novos materiais, uma interpreta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da an\u00e1lise da Comuna feita pelos marxistas do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>(20) A posi\u00e7\u00e3o dos anarquistas est\u00e1 bem resumida na Resolu\u00e7\u00e3o do Congresso de Saint-Imier, setembro de 1872: &#8220;Todo poder pol\u00edtico \u00e9 uma fonte segura de deprava\u00e7\u00e3o para os governantes e uma causa de servid\u00e3o para os governados&#8221; (citado em G Haupt, L&#8217;Internazionale Socialista de la Comune a Lenin, Einaudi, 1978, p. 278).<\/p>\n<p>(21) Carta de Engels a Cuno, 24 de janeiro de 1872 (ver nota 4).<\/p>\n<p>(22) Carta de Marx a Bolte, 29 de novembro de 1871 (ver nota 4).<\/p>\n<p>(23) MEHRING, F. <em>Karl Marx,<\/em> Shake editor, 2012.<\/p>\n<p>(24) N\u00e3o inclu\u00edmos aqui os congressos de anarquistas, de fato fora da AIT. Eles se reuniram em Saint-Imier em setembro de 1872 (onde rejeitaram as delibera\u00e7\u00f5es de Haia), depois em Genebra em 1873, em Bruxelas em 1874, em Berna em 1875, em Vervies em 1877. Depois, com o desenvolvimento do marxismo, sua influ\u00eancia (ampla &#8220;apenas&#8221; na Espanha e It\u00e1lia) diminuir\u00e1, se mantendo forte no s\u00e9culo XX apenas na Espanha (com as consequ\u00eancias desastrosas que se conhecem para revolu\u00e7\u00e3o espanhola). O ressurgimento hoje dos netos tardios de Bakunin em v\u00e1rios pa\u00edses \u00e9 fruto, lamentavelmente, do espa\u00e7o deixado livre pela crise do reformismo, espa\u00e7o que os revolucion\u00e1rios ainda n\u00e3o conseguiram ocupar. Quanto a Bakunin, que se aposentou da vida pol\u00edtica em 1874, morreu alguns anos depois.<\/p>\n<p>(25) Carta de Engels a Sorge, 12 de setembro de 1874, em Marx e Engels,<em> Lettere<\/em> 1874-1879, ed. Lotta Comunista, 2006, p. 35.<\/p>\n<p>* Zibaldone \u00e9 um\u00a0<a href=\"https:\/\/translate.googleusercontent.com\/translate_c?depth=1&amp;hl=pt-BR&amp;prev=search&amp;pto=aue&amp;rurl=translate.google.com&amp;sl=en&amp;sp=nmt4&amp;u=https:\/\/en.m.wikipedia.org\/wiki\/Commonplace_book&amp;usg=ALkJrhj-MrIP02R04noiFde6DKDhIN_KBQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">livro de \u201clugar-comum<\/a>\u201d,\u00a0vern\u00e1culo italiano\u00a0.\u00a0A palavra significa &#8220;um monte de coisas&#8221; ou &#8220;miscel\u00e2nea&#8221; em italiano.\u00a0(ndr)<\/p>\n<p>Ensaio traduzido do original em italiano, publicado na revista do Partido de Alternativa Comunista (PdAC), Trotskismo Oggi.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Natalia Estrada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA Primeira Internacional nos deu um programa e uma bandeira. A Segunda Internacional permitiu que as massas se mantivessem firmes sobre seus pr\u00f3prios p\u00e9s. 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A Quarta Internacional conduzir\u00e1 \u00e0 vit\u00f3ria final!\u201d Le\u00f3n Trotsky (\u201cA Fran\u00e7a \u00e9 a chave da situa\u00e7\u00e3o agora\u201d, mar\u00e7o 1934) [1]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":63328,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3695,10],"tags":[2285,1513,58,3752],"class_list":["post-70468","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-150-anos-da-comuna-de-paris","category-teoria","tag-comuna-de-paris","tag-comunismo","tag-marx","tag-primeira-internacional"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/8d9da4b0-a58c-4f03-b365-3d2895eba7fe.jpg","categories_names":["150 anos da Comuna de Paris","TEORIA"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70468","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70468"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70468\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63328"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70468"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70468"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70468"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}