{"id":70465,"date":"2021-03-09T10:14:23","date_gmt":"2021-03-09T13:14:23","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=63268"},"modified":"2021-03-09T10:14:23","modified_gmt":"2021-03-09T13:14:23","slug":"aos150-anos-do-nascimento-de-rosa-luxemburgo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/03\/09\/aos150-anos-do-nascimento-de-rosa-luxemburgo\/","title":{"rendered":"Aos 150 anos do nascimento de Rosa Luxemburgo"},"content":{"rendered":"<p><em>Em 5 de mar\u00e7o de 1871 nascia Rosa Luxemburgo, que foi assassinada em 15 de janeiro de 1919 por um governo considerado \u201cde esquerda\u201d, liderado pelo SPD (o principal partido reformista na Alemanha), apoiado pelo USPD (o partido centrista, isto \u00e9, semirreformista, no qual Kautsky militava). Como todos os demais governos \u201cde esquerda\u201d ou \u201creformistas\u201d no capitalismo, que a hist\u00f3ria conheceu, este governo foi um instrumento da burguesia para frear as lutas oper\u00e1rias. Este governo faria assassinar Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht por um \u201ccorpo livre\u201d [o Corpo da Liberdade, Freikorps, bandos paramilitares] .<\/em><\/p>\n<p><em>Depois de det\u00ea-los, um bando a mando do capit\u00e3o Pabst matou Karl com um tiro na testa (disseram que tinha tentado fugir), enquanto o soldado Runge rompia o cr\u00e2neo de Rosa com a culatra do fuzil, e o tenente Vogel disparava na cabe\u00e7a antes de atir\u00e1-la no canal da ponte Liechtenstein.<\/em><\/p>\n<p><em>Para os reformistas e seu governo de colabora\u00e7\u00e3o de classes, Luxemburgo e Liebknecht constitu\u00edam o principal perigo de um \u201ccont\u00e1gio bolchevique\u201d na Alemanha (a revolu\u00e7\u00e3o dirigida por Lenin e Trotsky tinha vencido um ano antes na R\u00fassia).<\/em><\/p>\n<p><em>Nestes dias lemos comemora\u00e7\u00f5es do 150\u00ba aniversario de Luxemburgo na imprensa burguesa e tamb\u00e9m nos sites dos partidos reformistas e centristas. Partidos que, na realidade, se estivessem presentes naqueles anos na Alemanha, certamente teriam apoiado o governo ao qual os Espartaquistas de Luxemburgo e Liebknecht faziam uma oposi\u00e7\u00e3o de classe em nome de um verdadeiro governo oper\u00e1rio.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Francesco Ricci<\/p>\n<p>\u201cA vanguarda revolucion\u00e1ria do proletariado alem\u00e3o se constituiu em partido pol\u00edtico aut\u00f4nomo [\u2026]. Trata-se agora de substituir o estado de \u00e2nimo revolucion\u00e1rio indiferenciado com uma inflex\u00edvel determina\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, a espontaneidade pela sistematicidade\u201d (Rosa Luxemburgo, 1918, discurso de funda\u00e7\u00e3o do KPD).<\/p>\n<p>Se tivesse podido ver o que certos supostos seguidores e cr\u00edticos, de direita e de esquerda, fizeram de seu pensamento, talvez tamb\u00e9m Rosa teria exclamado, como Marx: \u201cn\u00e3o sou luxemburguista!\u201d.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o r\u00f3tulo de \u00abluxemburguismo\u00bb foi colocado sobre po\u00e7\u00f5es preparadas por um grupo de m\u00e9dicos do capitalismo e charlat\u00e3es do socialismo. Espontane\u00edsmo, movimentismo, anticentralismo, antibolchevismo, antipartidarismo e aventureirismo: s\u00e3o poucos os \u201cismos\u201d do vocabul\u00e1rio do movimento oper\u00e1rio que n\u00e3o t\u00eam sido associados de qualquer forma ao nome de Rosa Luxemburgo. \u00c0s vezes de boa f\u00e9, com mais frequ\u00eancia por fraude, t\u00eam se tentado isolar simples erros de Luxemburgo, posi\u00e7\u00f5es conjunturais, para poder reuni-los depois em uma venenosa alegada doutrina, para dobr\u00e1-la, de tempos em tempos, \u00e0s mais disparatadas exig\u00eancias.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio atacar o Outubro de \u201917? Est\u00e3o prontas tr\u00eas cita\u00e7\u00f5es de Rosa contra Lenin. Quer se negar a concep\u00e7\u00e3o marxista de partido? Em seguida se tira o p\u00f3 de um artigo de Rosa que provaria sua convic\u00e7\u00e3o sobre a inutilidade do partido.<\/p>\n<p>Que simples artigos ou frases de Rosa tenham sido desmentidos ou superados em sua pr\u00f3pria obra e \u2013 o que mais conta \u2013 com suas a\u00e7\u00f5es, \u00e9 obviamente algo que n\u00e3o perturba os detratores e falsos apologistas. Por detr\u00e1s do caos de falsifica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas feitas pelo stalinismo e pelos reformistas neste s\u00e9culo, o revisionismo \u00e9 um delito com impunidade garantida. Pelo menos at\u00e9 o julgamento implac\u00e1vel da pr\u00f3xima revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Rosa espontane\u00edsta?<\/strong><\/p>\n<p>Segundo muitos, a principal virtude (ou desvio, de acordo com o ponto de vista) da revolucion\u00e1ria polaca seria ter refutado a concep\u00e7\u00e3o de partido de Marx e Lenin a favor de uma exalta\u00e7\u00e3o da chamada espontaneidade das massas, liberadas da compress\u00e3o de um \u201cpartido guia\u201d. O surpreendente \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 texto escrito por Rosa no qual se teorize uma contraposi\u00e7\u00e3o partido \u2013 massas ou se afirme a inutilidade do partido de vanguarda, isto \u00e9, daquele destacamento da classe profundamente integrado nela.<\/p>\n<p>Voltando a ler a obra de Luxemburgo em seu contexto \u00e9 evidente que cada \u00eanfase da \u201cenergia espont\u00e2nea\u201d das massas \u00e9 feita em direta pol\u00eamica com os aparatos em vias de burocratiza\u00e7\u00e3o da socialdemocracia alem\u00e3 (SPD), contra sua transforma\u00e7\u00e3o do partido de meio em fim, ou um meio para subordinar os interesses da classe oper\u00e1ria aos de uma casta parasit\u00e1ria de funcion\u00e1rios e deputados. Quando em in\u00edcios do s\u00e9culo [XX] Rosa polemizava contra aquilo que via como \u201cexcessos partidistas\u201d dos leninistas, tinha em mente a situa\u00e7\u00e3o alem\u00e3.<\/p>\n<p>Foi o stalinismo o primeiro a impor a reconstru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da ideia de uma Rosa Luxemburgo como portadora de uma \u201cconcep\u00e7\u00e3o diferente de partido\u201d.<\/p>\n<p>Isto era funcional para apresentar o bolchevismo como uma completa inova\u00e7\u00e3o<strong>\u00a0<\/strong>(de Lenin\u2026 e Stalin). Foi o Executivo da Internacional estalinizada, em mar\u00e7o de 1935, que cunhou o termo \u00abluxemburguismo\u00bb. A mesma interpreta\u00e7\u00e3o foi adotada, ainda que com fins opostos, por supostos \u00abluxemburguistas\u00bb.<\/p>\n<p><strong>A ruptura com o reformismo e o centrismo<\/strong><\/p>\n<p>Segundo a hist\u00f3ria falsificada dos stalinistas [1], Lenin se orientava j\u00e1 em 1904 por uma cis\u00e3o da Segunda Internacional e pressionava por uma cis\u00e3o no SPD com a direita e com o centro de Kautsky (que \u00e9 apresentado como se tivesse sido um renegado desde o in\u00edcio de sua atividade). Isto \u00e9 totalmente falso. Lenin considerava o SPD um modelo e a Kautsky um mestre ao menos at\u00e9 1909 (ano em que Kautsky escreve <em>O caminho ao poder<\/em>, que Lenin reivindicava plenamente e o citava de memoria), e, excetuando alguma rara cr\u00edtica precedente, s\u00f3 a partir de \u00ab4 de agosto\u00bb (1914) da Segunda Internacional, Lenin considerou necess\u00e1rio romper com os kautskistas (para iniciar a constru\u00e7\u00e3o da Terceira Internacional)[2]. Por isso, ainda no ver\u00e3o de 1914, Lenin n\u00e3o criticava de modo algum a Luxemburgo por n\u00e3o ter rompido com o SPD e, ao contr\u00e1rio, sabe-se que Luxemburgo foi a primeira a iniciar a batalha contra Kautsky.<\/p>\n<p>Quando, em 1910, Luxemburgo acusa abertamente a Kautsky de ter tomado o caminho do revisionismo, Lenin tomou posi\u00e7\u00e3o em defesa de Kautsky. Tamb\u00e9m sobre a presen\u00e7a de Berstein e do setor abertamente revisionista no SPD, o \u00fanico entre os dirigentes russos em insistir com os dirigentes alem\u00e3es para romper com eles \u00e9 Plekhanov, n\u00e3o Lenin[3].<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a t\u00e1tica (ainda que com consequ\u00eancias estrat\u00e9gicas) entre os bolcheviques e o grupo ao redor de Luxemburgo (Internacional, mais tarde Liga de Espartaco) sobre o momento da ruptura se d\u00e1 somente no final de 1914. \u00c9 nos meses seguintes que Lenin pressiona por uma ruptura tamb\u00e9m organizativa (a pol\u00edtica j\u00e1 havia se dado) da esquerda alem\u00e3 com o SPD. Mas a diferen\u00e7a entre Lenin e Luxemburgo n\u00e3o \u00e9 sobre os princ\u00edpios de constru\u00e7\u00e3o do partido: \u00e9 uma quest\u00e3o de tempos, por importante que seja. Por isto, em sua cr\u00edtica ao \u201cFolleto Junius\u201d, em julho de 1916, Lenin n\u00e3o prop\u00f5e cr\u00edticas de principio \u00e0 autora, isto \u00e9 a Luxemburgo, e ao mesmo tempo em que critica o adiamento da ruptura se diz convencido de que os espartaquistas \u201cpoder\u00e3o seguir adiante, pelo bom caminho\u201d[4].<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o tem fundamento \u00a0a afirma\u00e7\u00e3o segundo a qual Lenin teria criticado os espartaquistas por n\u00e3o terem rompido imediatamente com o centrismo do USPD (partido formado em abril de 1917 da ruptura do SPD, dirigido entre outros por Kautsky). Com efeito, Lenin sustenta que a ruptura com os centristas j\u00e1 tinha ocorrido de fato, e escreve: \u201cNos \u00faltimos tempos, os que est\u00e3o particularmente interessados por misturar os pap\u00e9is fizeram muito barulho ao redor da suposta unifica\u00e7\u00e3o do grupo de Liebknecht e os kautskistas no USPD. Na realidade, o grupo de Liebknecht n\u00e3o se fundiu inteiramente com os kaustkistas mas conservou a pr\u00f3pria autonomia organizativa, limitando-se a constituir um bloco tempor\u00e1rio e condicional contra os socialchauvinistas\u201d [5].<\/p>\n<p>Na realidade, Karl Liebknecht confirma que no USPD os espartaquistas (j\u00e1 funcionando como um partido aut\u00f4nomo) estavam fazendo entrismo para juntar for\u00e7as e constituir um novo partido: o que se far\u00e1 em fins de dezembro de 1918.<\/p>\n<p>Hoje podemos avaliar que foi um erro n\u00e3o seguir a proposta dos setores revolucion\u00e1rios de n\u00e3o entrar no USPD centrista, mas se trata de uma valoriza\u00e7\u00e3o sobre o momento da ruptura, n\u00e3o de duas concep\u00e7\u00f5es diferentes de partido.<\/p>\n<p><strong>O que Lenin criticava em Rosa?<\/strong><\/p>\n<p>Voltando atr\u00e1s, diante das primeiras cr\u00edticas realizadas por Luxemburgo no in\u00edcio do s\u00e9culo, Lenin responde com um artigo (\u201cUm passo adiante, dois passos atr\u00e1s. Resposta a Rosa Luxemburgo\u201d, que n\u00e3o deve ser confundido com o livro precedente, que tem o mesmo t\u00edtulo e do qual parte a pol\u00eamica de Luxemburgo) [6].<\/p>\n<p>Neste texto, Lenin esclarece v\u00e1rios erros factuais contidos nesta pol\u00eamica de Luxemburgo sobre o real curso do II Congresso do POSDR (1903, esse que leva \u00e0 ruptura entre bolcheviques e mencheviques) e mais em geral faz notar a \u00a0Luxemburgo que ela est\u00e1 polemizando n\u00e3o com suas posi\u00e7\u00f5es mas com uma falsa descri\u00e7\u00e3o de suas posi\u00e7\u00f5es (&#8220;Rosa Luxemburgo em\u00a0<em>Die Neue Zeit<\/em>\u00a0faz os leitores conhecerem n\u00e3o meu livro mas outra coisa diferente&#8221;). Isto \u00e9, Lenin n\u00e3o atribui a Luxemburgo uma concep\u00e7\u00e3o diferente de partido. E a respeito da acusa\u00e7\u00e3o de \u00abultracentralismo\u00bb Lenin responde que Luxemburgo est\u00e1 polemizando tendo em mente o centralismo burocr\u00e1tico utilizado pelos oportunistas no SPD, n\u00e3o as propostas concretas de Lenin.<\/p>\n<p><strong>Alguns fatos hist\u00f3ricos \u00abesquecidos\u00bb<\/strong><\/p>\n<p>Aqueles que sustentam a tese segundo a qual Luxemburgo tem com Lenin n\u00e3o diferen\u00e7as contingentes e secund\u00e1rias (exageradas pela pol\u00eamica) mas \u201cuma concep\u00e7\u00e3o diferente de partido\u201d ignoram \u2013 al\u00e9m do que reconstru\u00edmos at\u00e9 agora \u2013 tamb\u00e9m o seguinte:<\/p>\n<p>1) em um artigo escrito em 1906 (\u201cBlanquismo e socialdemocracia\u201d)[7], Rosa Luxemburgo polemiza com Plekhanov e defende Lenin da acusa\u00e7\u00e3o de \u00abblanquismo\u00bb que ela pr\u00f3pria tinha utilizado pouco antes contra Lenin. Ou seja, corrige sua posi\u00e7\u00e3o sobre isto;<\/p>\n<p>2) j\u00e1 em 1905, vendo na prova da revolu\u00e7\u00e3o bolcheviques e mencheviques, Luxemburgo come\u00e7a a atacar as posi\u00e7\u00f5es da nova <em>Iskra<\/em>\u00a0(justamente sobre o tema do partido) e, no Congresso de Estocolmo (1906) tomou posi\u00e7\u00e3o em quase todas as quest\u00f5es com Lenin contra Martov. No Congresso de Londres em 1907, o voto de Luxemburgo foi determinante para garantir a maioria bolchevique. Nesse mesmo ano, Lenin e Luxemburgo iniciaram uma batalha comum no Congresso da Internacional em Stuttgart;<\/p>\n<p>3) em sua atividade concreta de constru\u00e7\u00e3o do partido polaco (SKDPIL) Rosa dirige um partido de vanguarda fortemente centralizado;<\/p>\n<p>4) em todos seus textos principais, para al\u00e9m dos limites de alguns destes e alguns erros, nunca \u00e9 teorizado nada diferente do partido de vanguarda como elemento indispens\u00e1vel para trazer a consci\u00eancia socialista \u201ca partir de fora\u201d e dirigir a classe oper\u00e1ria para a conquista do poder. \u00c9 Trotsky quem afirma que Luxemburgo sempre \u201cse esfor\u00e7ou por educar antecipadamente a ala revolucion\u00e1ria do proletariado\u201d [8];<\/p>\n<p>5) em suas \u00faltimas semanas de vida, no Congresso de funda\u00e7\u00e3o do KPD (dezembro de 1918), Luxemburgo se enfrenta com a ala juvenil do partido que critica um \u201cexcesso\u201d de centralismo no nascente partido. Rosa responde utilizando exatamente os argumentos de Lenin a favor do centralismo que os jovens (impressionados pelo centralismo burocr\u00e1tico do SPD) recha\u00e7avam.<\/p>\n<p>Toda a evolu\u00e7\u00e3o de Luxemburgo demonstra que estava se afastando cada vez mais de alguns erros cometidos nos primeiros anos do s\u00e9culo e estava se aproximando cada vez mais das concep\u00e7\u00f5es de Lenin. Uma evolu\u00e7\u00e3o similar a que Trotsky fez, entretanto Luxemburgo foi assassinada antes de complet\u00e1-la;<\/p>\n<p>6) A outra pol\u00eamica utilizada pelos detratores de Luxemburgo ou pelos supostos \u00abluxemburguistas\u00bb se baseia no texto <em>A revolu\u00e7\u00e3o russa<\/em> que era na realidade um conjunto de apontamentos escritos por Luxemburgo na pris\u00e3o (setembro de 1918) quando n\u00e3o dispunha mais do que de noticias fragmentadas. Ela pr\u00f3pria manifestou (a Leo Jogiches, dirigente do partido e seu companheiro de vida) a vontade de que estes apontamentos fossem queimados e n\u00e3o publicados porque tinha mudado de opini\u00e3o. Foram publicados em 1921 por Paul Levi que, uma vez expulso do partido, traiu a vontade de Rosa. Mas at\u00e9 neste texto que alguns apresentam como \u00abantibolchevique\u00bb, Rosa escreve, ao contr\u00e1rio, que o partido de Lenin \u201cfoi o \u00fanico que compreendeu as leis e o dever de um partido verdadeiramente revolucion\u00e1rio\u201d. E o texto conclui afirmando: \u201co futuro pertence, em toda parte, ao bolchevismo\u201d [9]. Realmente estranho para uma \u201cantibolchevique\u201d, n\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Dia a dia sempre mais \u00ableninista\u00bb<\/strong><\/p>\n<p>Podemos afirmar que Rosa Luxemburgo n\u00e3o esteve isenta de erros e desvios centristas (como o Trotsky \u201cunitarista\u201d e o Lenin da \u201cditadura democr\u00e1tica de oper\u00e1rios e camponeses\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o). Mas, entre os erros de Luxemburgo, Lenin n\u00e3o destaca <em>nunca<\/em>\u00a0o \u00abespontane\u00edsmo\u00bb ou uma suposta diferen\u00e7a de concep\u00e7\u00e3o de partido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua. Por isto, muitas vezes Lenin disse que era necess\u00e1rio publicar todas as obras da grande revolucion\u00e1ria e com elas formar os militantes.<\/p>\n<p>E, sempre por isto, Trotsky sustenta que as diferen\u00e7as com Rosa se relacionavam apenas \u201cao acess\u00f3rio\u201d, elementos \u201cepis\u00f3dicos\u201d, mas n\u00e3o uma concep\u00e7\u00e3o diferente e contraposta ao partido de tipo bolchevique. Num texto no qual utiliza as express\u00f5es que citamos, escrito em 1935, Trotsky expressa o que acreditamos ser o julgamento que melhor desautoriza as vis\u00f5es de uma Luxemburgo autora de \u201coutra concep\u00e7\u00e3o\u201d de partido. Tomamos a liberdade de cit\u00e1-lo amplamente: \u201c[&#8230;] Ultimamente, \u00a0realizaram-se v\u00e1rios esfor\u00e7os para construir um chamado luxemburguismo para ser utilizado como uma trincheira, pelos centristas de esquerda, contra o bolchevismo-leninismo. N\u00e3o se avan\u00e7a um passo ao dizer que Rosa Luxemburgo contrapunha desapaixonadamente a espontaneidade das massas com a pol\u00edtica conservadora \u201cvitoriosa e coroada\u201d da socialdemocracia alem\u00e3, especialmente depois da revolu\u00e7\u00e3o de 1905.<\/p>\n<p>Esta contraposi\u00e7\u00e3o tinha um car\u00e1ter completamente revolucion\u00e1rio e progressista.\u00a0 Muito tempo antes de Lenin, Rosa Luxemburgo tinha compreendido o car\u00e1ter retardat\u00e1rio do ossificado partido e do aparato sindical, e tinha come\u00e7ado a lutar contra eles. Porque ela confiava na inevit\u00e1vel intensifica\u00e7\u00e3o dos conflitos de classe, tinha sempre prevista a certeza de uma apari\u00e7\u00e3o independente das massas contra a vontade e contra a linha dos burocratas. Nesta sua vis\u00e3o hist\u00f3rica geral, Rosa se mostrou correta.<\/p>\n<p>[\u2026]A pr\u00f3pria Rosa nunca se limitou \u00e0 mera teoria da espontaneidade [\u2026]. Rosa Luxemburgo esfor\u00e7ou-se antecipadamente por educar a ala revolucion\u00e1ria do proletariado e a uni-la organizativamente o mais poss\u00edvel. Na Pol\u00f4nia construiu uma organiza\u00e7\u00e3o independente muito r\u00edgida. O m\u00e1ximo que se pode dizer \u00e9 que sua avalia\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-filos\u00f3fica do movimento oper\u00e1rio, a pr\u00e9-sele\u00e7\u00e3o de sua vanguarda frente \u00e0s a\u00e7\u00f5es de massas que eram esperadas, foi muito pouco acentuada em Rosa; enquanto, em troca, Lenin \u2013 sem consolar-se sequer com os milagres de a\u00e7\u00f5es futuras \u2013 tomou os oper\u00e1rios mais avan\u00e7ados para sold\u00e1-los constante e incansavelmente em n\u00facleos firmes, legal ou ilegalmente, em organiza\u00e7\u00f5es de massas ou clandestinas, mediante um programa finalmente definido\u201d.<\/p>\n<p>E Trotsky continua: \u201cA teoria da espontaneidade de Rosa foi uma saud\u00e1vel arma contra o ossificado aparato do reformismo. Pelo fato de que este com frequ\u00eancia se dirigia contra o trabalho de Lenin de constru\u00e7\u00e3o de um aparato revolucion\u00e1rio, isso revelava \u2013 certamente s\u00f3 de forma embrion\u00e1ria \u2013 seu car\u00e1ter reacion\u00e1rio. Com Rosa isto ocorreu s\u00f3 ocasionalmente. Ela era muito realista, no sentido revolucion\u00e1rio, para desenvolver os elementos da teoria da espontaneidade em uma consumada metaf\u00edsica. Na pr\u00e1tica, ela pr\u00f3pria, como j\u00e1 foi dito, questionava esta teoria a cada passo. Depois da revolu\u00e7\u00e3o de novembro de 1918, iniciou o ardente trabalho de agrupar a vanguarda prolet\u00e1ria [\u2026] dia a dia, Rosa estava se aproximando da concep\u00e7\u00e3o teoricamente bem delineada de Lenin quanto \u00e0 lideran\u00e7a consciente e espontaneidade.(Certamente, foi esta circunst\u00e2ncia que a impediu de tornar p\u00fablico seu manuscrito contra a pol\u00edtica bolchevique, do qual mais tarde se tirou proveito vergonhosamente)\u201d [10].<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[1] Sobre o julgamento de Stalin a respeito de Luxemburgo ver por exemplo um artigo de Stalin de 1931: \u201cSobre algumas quest\u00f5es da historia do bolchevismo\u201d, publicado na revista\u00a0<em>Proletarskaja Revoljucija<\/em>\u00a0n.\u00b0 6, 1931, consultada na vers\u00e3o em espanhol dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/stalin\/1930s\/sta1931.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.marxists.org\/espanol\/stalin\/1930s\/sta1931.htm<\/a><\/p>\n<p>[2] Sobre as rela\u00e7\u00f5es entre Lenin e a Segunda Internacional, ver: G. Haupt: \u201cL\u00e9nine, les bolcheviks et la II Internationale [Lenin, os bolcheviques e a II Internacional], em\u00a0<em>Cahiers du monde russe et sovi\u00e9tique<\/em>, 3, 1966. Com rela\u00e7\u00e3o a Trotsky, sustentava que a Segunda Internacional tinha desempenhado \u00abum papel hist\u00f3rico progressivo [que] tinha terminado com o in\u00edcio da guerra imperialista\u00bb, citamos de\u00a0<em>La Tercera Internacional despu\u00e9s de Lenin<\/em>, Schwarz, 1957, p. 107.<\/p>\n<p>]3] Ver a respeito o livro de C. Weill,\u00a0<em>Marxistes russes et social-d\u00e9mocratie allemande<\/em>\u00a0[Marxistas russos e socialdemocratas alem\u00e3es].<em>\u00a0<\/em><em>1898-1904,\u00a0<\/em>Maspero, 1976.<\/p>\n<p>[4] Para o julgamento de Lenin sobre o \u201cFolleto Junius\u201d, ver \u201cA proposito dell\u2019 opuscolo di Junius\u201d [A prop\u00f3sito de Folleto Junius], (julho 1912) em V. I. Lenin,\u00a0<em>Opere complete<\/em>\u00a0[Obras Completas], Editori Riuniti, 1966, volume 22, p. 304.<\/p>\n<p>[5] Para o julgamento de Lenin sobre a perman\u00eancia dos Espartaquistas no USPD, ver: \u201cSocialsciovinisti e internazionalisti\u201d [Socialchovinistas e internacinalistas] (abril 1917) em op.cit., volume 24, p. 335.<\/p>\n<p>[6] V. I. Lenin, \u201cUm passo adiante, dois passos atr\u00e1s. Resposta de Lenin a Rosa Luxemburgo\u201d, em op. cit. volume 7, p. 460. Este artigo foi enviado a\u00a0<em>Die Neue Zeit<\/em>\u00a0(revista te\u00f3rica del SPD) mas Kautsky n\u00e3o o publicou, Foi publicado pela primeira vez em 1930.<\/p>\n<p>[7] Rosa Luxemburgo, \u201cBlanquismo y socialdemocracia\u201d (1906), consultado por n\u00f3s na edi\u00e7\u00e3o em franc\u00eas dispon\u00edvel na internet, em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/francais\/luxembur\/works\/1906\/rl19060600.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.marxists.org\/francais\/luxembur\/works\/1906\/rl19060600.htm<\/a><\/p>\n<p>[8] Le\u00f3n Trotsky, \u201cRosa Luxemburg e la Quarta Internazionale\u201d (24 de junio de 1935), dispon\u00edvel na internet, em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/italiano\/trotsky\/1935\/6\/24-luxemburg.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.marxists.org\/italiano\/trotsky\/1935\/6\/24-luxemburg.htm<\/a><\/p>\n<p>[9] Rosa Luxemburgo,\u00a0<em>La Rivoluzione russa<\/em>, Massari editore, 2004.<\/p>\n<p>[10] Le\u00f3n Trotsky, \u201cRosa Luxemburg e la Quarta Internazionale\u201d, ver nota 8.<\/p>\n<p>Artigo original publicado em 14\/1\/2019 pelo Partido de Alternativa Comunista (PdAC) Italia, dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.partitodialternativacomunista.org\/politica\/internazionale\/cento-anni-fa-un-governo-dei-riformisti-uccideva-rosa-luxemburg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.partitodialternativacomunista.org\/politica\/internazionale\/cento-anni-fa-un-governo-dei-riformisti-uccideva-rosa-luxemburg<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 5 de mar\u00e7o de 1871 nascia Rosa Luxemburgo, que foi assassinada em 15 de janeiro de 1919 por um governo considerado \u201cde esquerda\u201d, liderado pelo SPD (o principal partido reformista na Alemanha), apoiado pelo USPD (o partido centrista, isto \u00e9, semirreformista, no qual Kautsky militava). Como todos os demais governos \u201cde esquerda\u201d ou \u201creformistas\u201d [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":63269,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[8,49,10],"tags":[3736,46,3737,1933],"class_list":["post-70465","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia","category-polemica","category-teoria","tag-150-naos-de-rosa-luxemburgo","tag-francesco-ricci","tag-polemicas-lenin-rosa-luxemburgo","tag-rosa-luxemburgo"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Rosa-3.jpg","categories_names":["Hist\u00f3ria","Pol\u00eamica","TEORIA"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70465","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70465"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70465\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63269"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}