{"id":67297,"date":"2022-07-09T13:06:46","date_gmt":"2022-07-09T16:06:46","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=67297"},"modified":"2022-08-08T15:17:05","modified_gmt":"2022-08-08T15:17:05","slug":"67297-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/07\/09\/67297-2\/","title":{"rendered":"Nos 50 anos de seu mart\u00edrio, Ghassan Kanafani presente!"},"content":{"rendered":"<p>Ele foi assassinado aos 36 anos de idade em Beirute, no L\u00edbano, pelo Mossad (servi\u00e7o secreto israelense), que plantou uma bomba em seu carro&nbsp; <!--more-->&nbsp;&nbsp; <!--more--><\/p>\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;                                              Por: Soraya Misleh<\/p>\n<p>Este 8 de julho marca o cinquenten\u00e1rio do mart\u00edrio do jornalista, escritor e revolucion\u00e1rio marxista Ghassan Kanafani. Ele foi assassinado aos 36 anos de idade em Beirute, no L\u00edbano, pelo Mossad (servi\u00e7o secreto israelense), que plantou uma bomba em seu carro. A explos\u00e3o ceifou ainda a vida de sua sobrinha, ainda menina. Sua morte, contudo, n\u00e3o p\u00f4de calar sua voz. Para al\u00e9m do rico legado deixado em sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, elabora\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, discursos e entrevistas, Kanafani est\u00e1 eternizado em cada palestino e palestina que n\u00e3o se dobra e preserva seus ensinamentos rumo \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Como ele pr\u00f3prio destacou, \u201ctudo neste mundo pode ser roubado e saqueado, exceto uma coisa: o amor que emana de um ser humano em dire\u00e7\u00e3o a um s\u00f3lido compromisso com uma convic\u00e7\u00e3o ou uma causa\u201d. O sionismo lhe tirou tudo: terra, amanh\u00e3, vida. Menos sua causa, que n\u00e3o \u00e9 somente a dos palestinos, mas sim, em suas palavras, a de todo revolucion\u00e1rio, onde estiver, \u201ccomo uma causa das massas oprimidas e exploradas em nossa era\u201d.<\/p>\n<p><strong>Sob o signo da revolta<\/strong><\/p>\n<p>A<a href=\"https:\/\/www.monitordooriente.com\/20190414-a-nakba-explicada\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&nbsp;Nakba<\/a>&nbsp;\u2013 cat\u00e1strofe cuja pedra basilar \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o do Estado racista de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza \u00e9tnica planejada \u2013 atravessaria o destino desse jovem revolucion\u00e1rio, que nasceu j\u00e1 ao signo da revolta contra a injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>Kanafani chegou ao mundo em 9 de abril de 1936, na cidade de Akka (Acre), na Palestina. Segundo seu relato em \u201cA revolta de 1936-1939 na Palestina\u201d (S\u00e3o Paulo: Editora Sundermann, 2015), dois meses antes de seu nascimento, as primeiras chamas do levante popular que se elevaria para poderosa revolu\u00e7\u00e3o foram acesas na cidade de Yafa (Jaffa), a terra das laranjas tristes retratada em seu conto semificcional que levou esse t\u00edtulo, publicado em 1962.<\/p>\n<p>Com apenas dez dias de vida, chegavam, de forma incompreens\u00edvel aos ouvidos do beb\u00ea que mal abrira os olhos para a vida, as vozes de uma cidade que se somava \u00e0 greve geral que se iniciava e duraria seis meses. Esse movimento detonaria a revolu\u00e7\u00e3o palestina contra o mandato brit\u00e2nico e a coloniza\u00e7\u00e3o sionista que se expandia sob a b\u00ean\u00e7\u00e3o de seu aliado europeu, o imperialismo do momento. A Gr\u00e3-Bretanha ficou com o mandato sobre a Palestina como esp\u00f3lio ap\u00f3s a vit\u00f3ria dos aliados na Primeira Guerra-Mundial (1914-1918). Em meio a esse processo, j\u00e1 \u00e0 iminente derrota do Imp\u00e9rio Turco-Otomano, a Gr\u00e3-Bretanha emite a Declara\u00e7\u00e3o Balfour em 2 de novembro de 1917 em que d\u00e1 seu aval ao projeto colonial sionista inaugurado em fins do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.monitordooriente.com\/20220420-a-grande-revolta-palestina-1936-1939\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A revolu\u00e7\u00e3o de 1936-1939<\/a>&nbsp;chega perto da liberta\u00e7\u00e3o nacional almejada em 1937, mas \u00e9 derrotada devido \u00e0 crise de dire\u00e7\u00e3o e \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos poderosos inimigos da causa palestina, identificados por Kanafani em sua an\u00e1lise marxista sobre esse processo: os regimes \u00e1rabes, a \u201celite feudal e clerical\u201d \u00e1rabe-palestina (burguesia) e o imperialismo\/sionismo. Inimigos que lamentavelmente se mant\u00eam na atualidade.<\/p>\n<p>A derrota dessa revolu\u00e7\u00e3o abriria o caminho para a&nbsp;Nakba, selando o destino de Kanafani, de sua fam\u00edlia e de outros 800 mil palestinos expulsos em 1948 da Palestina. A limpeza \u00e9tnica promovida pelas for\u00e7as paramilitares sionistas \u2013 fortemente armadas com a contribui\u00e7\u00e3o decisiva de Stalin \u2013 alcan\u00e7ou a hist\u00f3rica Akka, terra natal do revolucion\u00e1rio, em 18 de maio de 1948. Segundo o portal&nbsp;Palestine Remembered, dos 13 mil habitantes da regi\u00e3o, apenas 3 mil conseguiram permanecer em suas terras. \u00c0 ocupa\u00e7\u00e3o na cidade, 79 palestinos foram massacrados.<\/p>\n<p>A dif\u00edcil vida sob ref\u00fagio e a luta pela sobreviv\u00eancia estar\u00e3o impressas em sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria anos depois, cujos personagens revolvem a realidade palestina.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia se eleva diante da trag\u00e9dia, e Kanafani inicia seu engajamento na luta por liberta\u00e7\u00e3o nacional nos anos 1950. Sob influ\u00eancia dos revolucion\u00e1rios marxistas, em meados dos anos 1960 torna-se um dos principais dirigentes da Frente Popular pela Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (FPLP), que se constituiu \u00e0 \u00e9poca como ala esquerda da Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (OLP).<\/p>\n<p><strong>Adab al-mukawama<\/strong><\/p>\n<p>Dos escombros da&nbsp;Nakba, surge nos anos 1950 a&nbsp;adab al-mukawama&nbsp;(literatura de resist\u00eancia), termo cunhado por Kanafani. Segundo ele descreve em sua obra \u201cLiteratura de resist\u00eancia na Palestina ocupada 1948-1966\u201d, a&nbsp;Nakba&nbsp;\u2013 que teve como consequ\u00eancia a expuls\u00e3o violenta de 2\/3 dos palestinos de suas terras em 1948 e o surgimento da quest\u00e3o dos refugiados \u2013 sacudiu a estrutura social na Palestina ocupada a partir de ent\u00e3o: \u201cMais de tr\u00eas quartos dos 200 mil \u00e1rabes remanescentes ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o sionista eram residentes das aldeias. Quanto aos moradores das \u00e1reas urbanas, a esmagadora maioria deixou a Palestina durante ou logo ap\u00f3s a guerra de 1948, e essa realidade causou um abalo tumultuoso no seio da comunidade \u00e1rabe de l\u00e1, j\u00e1 que as cidades n\u00e3o eram apenas o centro da lideran\u00e7a pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m, como na maioria dos casos, o principal centro de lideran\u00e7a intelectual.\u201d<\/p>\n<p>Na obra, ele continua: \u201cAssim [\u2026], o ambiente estava totalmente preparado para n\u00e3o s\u00f3 atingir um perigoso processo de conten\u00e7\u00e3o de qualquer tend\u00eancia pol\u00edtica ou liter\u00e1ria que surgisse apenas a partir da\u00ed, mas tamb\u00e9m para plantar sementes naquele solo.\u201d<\/p>\n<p>Primeiro a trazer uma abordagem materialista para explicar a literatura inserida no processo hist\u00f3rico p\u00f3s-Nakba, Kanafani descreve na obra o que poderia ser apresentado simbolicamente como a figura mitol\u00f3gica grega da F\u00eanix, a ave que ressurge das cinzas ap\u00f3s sua morte.<\/p>\n<p>Sob o que ele denomina \u201ccerco cultural\u201d, os escritores que permaneceram nas \u00e1reas de 1948 ap\u00f3s a&nbsp;Nakba&nbsp;se viram impedidos de publicar suas obras, realizar interc\u00e2mbio com correntes modernas na regi\u00e3o e com as novas influ\u00eancias no ref\u00fagio. As restri\u00e7\u00f5es visavam ainda impedir a forma\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es, restringindo-lhes sobremaneira o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Ademais, apenas jornais \u00e1rabes sob a tutela dos sionistas podiam ser publicados, que determinavam tamb\u00e9m quais livros que circulavam nas capitais de pa\u00edses vizinhos poderiam ou n\u00e3o ser reimpressos internamente. Assim, nenhum que tratasse da quest\u00e3o do nacionalismo \u00e1rabe era permitido.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia a essa ordem preparou o terreno para a&nbsp;adab al-mukawama&nbsp;se firmar enquanto movimento cultural em cinco anos. Para Kanafani, o outro lado do que se dava tamb\u00e9m no ex\u00edlio. Esse movimento foi seguido pelos palestinos nas \u00e1reas que viriam a ser ocupadas militarmente por Israel em 1967 \u2013 Cisjord\u00e2nia, Gaza e Jerusal\u00e9m Oriental.<\/p>\n<p>A&nbsp;adab al-mukawama, que nortear\u00e1 sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, na concep\u00e7\u00e3o de Kanafani, se enquadra na pr\u00e1tica cultural denominada&nbsp;sumud&nbsp;(palavra \u00e1rabe que significa firmeza ou persist\u00eancia). Uma consci\u00eancia coletiva de luta que implica resist\u00eancia permanente, sob todos os meios, rumo \u00e0 Palestina livre, do rio ao mar, e \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial, projeto ao qual Kanafani dedicou sua vida.<\/p>\n<p>O texto inclui excertos de artigo da autora intitulado \u201cDos tristes laranjais, o desabrochar de um revolucion\u00e1rio\u201d, constante do livro \u201cGhassan Kanafani \u2013 anticolonialismo e a alternativa socialista na Palestina. Em mem\u00f3ria aos 50 anos do mart\u00edrio do saudoso intelectual e escritor palestino Ghassan Kanafani\u201d, a ser lan\u00e7ado em breve pelo Movimento pela Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina \u2013 Ghassan Kanafani, sob organiza\u00e7\u00e3o de Yasser Fayad<\/p>\n<p>Publicado originalmente em: https:\/\/www.monitordooriente.com\/20220708-nos-50-anos-de-seu-martirio-ghassan-kanafani-presente\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele foi assassinado aos 36 anos de idade em Beirute, no L\u00edbano, pelo Mossad (servi\u00e7o secreto israelense), que plantou uma bomba em seu carro&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":74201,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[228],"tags":[8272,260],"class_list":["post-67297","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-palestina","tag-ghassan-kanafani","tag-soraya-misleh"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Sor-1.jpg","categories_names":["Palestina"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67297","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=67297"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67297\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":74202,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67297\/revisions\/74202"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/74201"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=67297"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=67297"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=67297"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}