{"id":67209,"date":"2022-06-30T12:44:07","date_gmt":"2022-06-30T15:44:07","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=67209"},"modified":"2022-08-08T15:54:20","modified_gmt":"2022-08-08T15:54:20","slug":"marxismo-das-ciencias-humanas-a-critica-da-ciencia-burguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/06\/30\/marxismo-das-ciencias-humanas-a-critica-da-ciencia-burguesa\/","title":{"rendered":"Marxismo: das ci\u00eancias humanas \u00e0 cr\u00edtica da ci\u00eancia burguesa"},"content":{"rendered":"<p><em>Neste artigo encerramos a s\u00e9rie a respeito das concep\u00e7\u00f5es burguesas. Em nove n\u00fameros anteriores do jornal&nbsp;Opini\u00e3o Socialista,&nbsp;tratamos de v\u00e1rias delas: das vis\u00f5es liberais, keynesianas, conservadoras, positivistas, p\u00f3s-modernas, dentre outras. Neste artigo final n\u00e3o vamos tratar de nenhuma concep\u00e7\u00e3o burguesa particular. Antes, trataremos de alguns aspectos de fundo que caracterizam todas elas, bem como da diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao marxismo.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Gustavo Machado<\/p>\n<p><strong>Todas as ci\u00eancias burguesas s\u00e3o ilus\u00f3rias<\/strong><\/p>\n<p>A rigor, n\u00e3o h\u00e1 ci\u00eancia burguesa e nunca existir\u00e1. Ao menos, n\u00e3o uma ci\u00eancia digna desse nome. E isso n\u00e3o acontece porque a burguesia e seus porta-vozes s\u00e3o burros. Essa ci\u00eancia \u00e9 simplesmente imposs\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel racionalizar o capitalismo, pois ele \u00e9 irracional. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel controlar o capitalismo, porque ele \u00e9 incontrol\u00e1vel. Como diz Marx no pref\u00e1cio de&nbsp;O Capital: \u201cA economia pol\u00edtica s\u00f3 pode permanecer ci\u00eancia enquanto a luta de classes permanecer latente ou se revelar apenas em fen\u00f4menos isolados.\u201d<\/p>\n<p><strong>M\u00faltiplas faces do capital<\/strong><\/p>\n<p>Toda solu\u00e7\u00e3o para os problemas do capitalismo, sem romper com ele, ser\u00e1, no melhor dos casos, provis\u00f3ria. Uma maior abertura do mercado exige, depois, a interven\u00e7\u00e3o estatal para resolver os problemas do mercado. A interven\u00e7\u00e3o estatal exige uma nova abertura do mercado para resolver os problemas da interven\u00e7\u00e3o estatal. Toda solu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 sempre uma falsa solu\u00e7\u00e3o, uma \u201csinuca de bico\u201d. Uma forma de jogar o problema para a frente, tornando-o ainda maior.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o keynesianismo n\u00e3o \u00e9 o oposto do liberalismo. O conservadorismo n\u00e3o \u00e9 o oposto do p\u00f3s-modernismo. Essas concep\u00e7\u00f5es s\u00e3o diferentes. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas sobre isso. Podemos at\u00e9 considerar um ou outro elemento isolado como sendo pior ou melhor do que o do outro. No conjunto, contudo, todas est\u00e3o a servi\u00e7o da mesma finalidade: a perpetua\u00e7\u00e3o do capitalismo. Mais do que isso. O pr\u00f3prio capitalismo necessita, em situa\u00e7\u00f5es e contextos hist\u00f3ricos distintos, de uma \u00eanfase maior em um ou outro dos elementos que o constituem. O capitalismo necessita tanto de liberais como de intervencionistas, tanto de pacifistas como de militaristas, tanto de conservadores como de reformistas.<\/p>\n<p><strong>Capitalismo com rosto humano n\u00e3o existe<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-67210 size-full\" src=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Gus.jpeg\" alt=\"\" width=\"584\" height=\"478\"><\/p>\n<p>O que \u00e9 pior. Os mais perigosos s\u00e3o aqueles que defendem a manuten\u00e7\u00e3o do capitalismo por meio de reformas e mudan\u00e7as nesse ou naquele pormenor. Um capitalismo com rosto humano, com menos desigualdades, com mais distribui\u00e7\u00e3o de renda e por a\u00ed vai. Essas concep\u00e7\u00f5es est\u00e3o mais bem situadas para ganhar setores da classe trabalhadora cada vez mais descontentes e massacrados pelo pr\u00f3prio sistema capitalista. N\u00e3o s\u00e3o inimigos externos e declarados, mas inimigos internos e camuflados de irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Tanto \u00e9 assim que se repassarmos todos os combates te\u00f3ricos de Marx, raras vezes ele abre fogo contra autores positivistas ou liberais, abertamente defensores do capitalismo. Sobretudo no debate p\u00fablico. Ao contr\u00e1rio, seus oponentes principais s\u00e3o socialistas ut\u00f3picos e reformistas que atuam no interior da classe trabalhadora, procurando iludi-la quanto \u00e0 possibilidade de reformas e adequa\u00e7\u00f5es duradouras no pr\u00f3prio capitalismo.<\/p>\n<p>Eis que, nesse ponto, entra uma quest\u00e3o fundamental. Como o marxismo combateu historicamente esse emaranhado de concep\u00e7\u00f5es e ideologias que procuram iludir a classe trabalhadora? Iludir quanto \u00e0s possibilidades do pr\u00f3prio capitalismo?<\/p>\n<h5><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Para al\u00e9m das ilus\u00f5es<\/strong><\/span><\/h5>\n<p><strong>A base material de todas as ideologias burguesas<\/strong><\/p>\n<p>O que procuramos mostrar em todos os artigos anteriores \u00e9 que as ideologias burguesas n\u00e3o pairam nas nuvens. Todas elas t\u00eam uma base material. \u00c9 o pr\u00f3prio capitalismo que produz, objetivamente, a possibilidade das ilus\u00f5es que as ideologias burguesas \u2013 incluindo as reformistas \u2013 produzem.<\/p>\n<p>Os indiv\u00edduos aparecem objetivamente como \u00e1tomos soltos no mercado. Parecem depender apenas de si mesmos e de seu m\u00e9rito individual. O Estado aparece como algo separado dos indiv\u00edduos que compram e vendem no mercado. Parece pairar acima dos indiv\u00edduos e das classes sociais, como se fosse algo neutro e independente, capaz de tudo gerir e conciliar de fora. Por isso, tamb\u00e9m parece ser poss\u00edvel resolver os problemas do mundo por meio de uma ci\u00eancia de Estado, como quiseram os positivistas e, mesmo, os fascistas. Como o v\u00ednculo social entre as pessoas est\u00e1 apagado pela media\u00e7\u00e3o do dinheiro, parecem existir apenas indiv\u00edduos com seus pensamentos independentes. Tudo parece ser uma quest\u00e3o de discursos e narrativas produzidos por indiv\u00edduos espertos. Como o dinheiro parece controlar de fora toda riqueza e investimentos, parece ser poss\u00edvel resolver os problemas da sociedade emitindo dinheiro ou com pol\u00edtica monet\u00e1ria. Parece\u2026 s\u00f3 que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao vincular e entender as diversas conex\u00f5es reais desses modos de aparecer, tudo \u00e9 subvertido e invertido.<\/p>\n<p>Os indiv\u00edduos soltos no mercado, que compram e vendem, s\u00e3o a forma que o capitalismo precisa para comprar a for\u00e7a de trabalho e esfol\u00e1-la at\u00e9 a medula para produzir riqueza como capital de uns poucos. O Estado aparece como separado, para garantir a igualdade formal entre os indiv\u00edduos que compram e vendem mercadorias. Ao faz\u00ea-lo, perpetua a diferen\u00e7a de conte\u00fado entre aqueles que possuem todos os meios de produ\u00e7\u00e3o e os que s\u00f3 possuem a si mesmos. A diferen\u00e7a entre aqueles que podem vender as mercadorias de sua propriedade por meio de intermedi\u00e1rios, sentados em sua mans\u00e3o ou dirigindo sua Ferrari, e aqueles que s\u00f3 possuem a sua capacidade de trabalho para vender. Para seu azar, o trabalhador n\u00e3o pode separar sua capacidade de trabalho de seu corpo. Tem que ir com ela ao local de produ\u00e7\u00e3o para que ela seja consumida, curtida e esfolada pelo capitalista que a comprou.<\/p>\n<p>A separa\u00e7\u00e3o da forma da riqueza de seu conte\u00fado, dinheiro da mercadoria, permite ao trabalho excedente da classe trabalhadora circular livremente entre os propriet\u00e1rios. Em seguida, ele \u00e9 dividido entre os capitalistas banqueiros, comerciais, propriet\u00e1rios de terra, acionistas etc.. Migram do Brasil para os bilion\u00e1rios no centro do imperialismo. E assim por diante.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que se \u00e9 verdade que as ilus\u00f5es reformistas e burguesas possuem uma base material, o marxismo tamb\u00e9m possui. O capitalismo conduz os trabalhadores a se organizarem para lutar pelo emprego, pela manuten\u00e7\u00e3o da renda e em fun\u00e7\u00e3o da manuten\u00e7\u00e3o dos direitos j\u00e1 adquiridos ou por adquirir. Leva-nos a se reconhecerem como membros de uma classe social, membros da classe trabalhadora contraposta \u00e0 classe dos patr\u00f5es e dos empres\u00e1rios. O fracasso dos regimes e dos governos na eterna tentativa de aplicar uma dada ci\u00eancia burguesa leva, em todos os tempos e lugares, multid\u00f5es \u00e0s ruas por n\u00e3o mais reconhecerem um dado regime e um dado governo como sendo seus. Por n\u00e3o mais os tolerarem.<\/p>\n<h5><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Nossos objetivos<\/strong><\/span><\/h5>\n<p><strong>Os marxistas querem transformar a realidade<\/strong><\/p>\n<p>Quem vencer\u00e1 essa batalha? Os marxistas ou os que querem conservar o capitalismo? Ora, como vimos, o resultado n\u00e3o est\u00e1 definido. Ambas as vias possuem uma base material e social. O resultado depende da nossa interven\u00e7\u00e3o consciente no interior do processo. Marxistas n\u00e3o reclamam da realidade. O marxismo \u00e9 uma ci\u00eancia porque parte da realidade tal como ela \u00e9, procura compreend\u00ea-la. Identifica as possibilidades existentes para transformar a realidade.<\/p>\n<p>A grande dificuldade para os marxistas \u00e9 que as conclus\u00f5es a que chegam n\u00e3o dependem de um ou outro aspecto isolado do capitalismo. Dependem que se conhe\u00e7a o capitalismo em sua totalidade, em suas conex\u00f5es, superando a unilateralidade com que aparece. Os militantes marxistas devem estudar e conhecer o capitalismo a fundo. Esse \u00e9 o grande desafio. N\u00e3o apenas para fazerem disputas te\u00f3ricas e ideol\u00f3gicas, mas para conseguir intervir de modo a conduzir as ilus\u00f5es que dominam as massas trabalhadoras \u00e0 conclus\u00e3o revolucion\u00e1ria e \u00e0 necessidade de destruir o capitalismo.<\/p>\n<p>A grande vantagem, contudo, \u00e9 que os marxistas n\u00e3o t\u00eam nada a esconder, a ocultar. Podem chamar as coisas pelo nome, e n\u00e3o necessitam esconder seus interesses particulares em categorias gerais. T\u00eam a seu favor as necessidades das massas trabalhadoras, cada vez mais amea\u00e7adas pelo pr\u00f3prio sistema capitalista.<\/p>\n<p>Para combatermos de modo consequente as concep\u00e7\u00f5es reformistas e diretamente capitalistas, precisamos, ainda, entender as bases materiais que fazem com que as ilus\u00f5es burguesas de todos os tipos fa\u00e7am sentido na cabe\u00e7a de milh\u00f5es de trabalhadores. Sem isso, existir\u00e1 um abismo entre o discurso e a realidade, entre a finalidade de destruir o capitalismo e a consci\u00eancia ilus\u00f3ria de que \u00e9 poss\u00edvel resolver os problemas sociais que a todos afligem sem destruir o capitalismo. Para tal, n\u00e3o se deve ocultar o nosso programa e sua finalidade nem por um s\u00f3 segundo, tampouco deve-se reproduzir as ilus\u00f5es, rebaixando a interven\u00e7\u00e3o e o programa a elas. Mas deve-se dialogar com a classe para que ela possa tirar as conclus\u00f5es corretas de cada processo, e n\u00e3o fazer imposi\u00e7\u00f5es e ultimatos. Esse \u00e9 o grande desafio do marxismo desde seu surgimento e continua a ser nos dias de hoje.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o central para a teoria marxista n\u00e3o \u00e9 acad\u00eamica, n\u00e3o est\u00e1 relacionada \u00e0 observa\u00e7\u00e3o e \u00e0 previs\u00e3o, mantendo uma postura neutra. Seu papel consiste na contribui\u00e7\u00e3o que faz em trazer o proletariado para a consci\u00eancia de sua tarefa: a supress\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste artigo encerramos a s\u00e9rie a respeito das concep\u00e7\u00f5es burguesas. Em nove n\u00fameros anteriores do jornal&nbsp;Opini\u00e3o Socialista,&nbsp;tratamos de v\u00e1rias delas: das vis\u00f5es liberais, keynesianas, conservadoras, positivistas, p\u00f3s-modernas, dentre outras. 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