{"id":67141,"date":"2022-06-16T11:38:26","date_gmt":"2022-06-16T14:38:26","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=67141"},"modified":"2022-06-16T11:38:26","modified_gmt":"2022-06-16T14:38:26","slug":"67141-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/06\/16\/67141-2\/","title":{"rendered":"Bolsonaro \u00e9 o culpado pelos assassinatos de Bruno e Dom"},"content":{"rendered":"<p><em>D\u00f3i na alma assistir o v\u00eddeo de Bruno Pereira entoando c\u00e2nticos ind\u00edgenas no meio da floresta. Um dos mais talentosos indigenistas do pa\u00eds, dedicado na defesa dos povos origin\u00e1rios, especialista em povos isolados, foi exonerado pela chefia da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai) em 2019 por fazer seu trabalho com excel\u00eancia: ter coragem de conduzir uma opera\u00e7\u00e3o que expulsou centenas de garimpeiros da Terra Ind\u00edgena Yanomami, em Roraima. Naquele tempo, Bolsonaro j\u00e1 defendia garimpeiros em Terras Ind\u00edgenas e, algum tempo depois, chegou a visitar uma regi\u00e3o de garimpo ilegal na Terra Ind\u00edgena Raposa Serra do Sol, no munic\u00edpio de Uiramut\u00e3, tamb\u00e9m em Roraima.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Jeferson Choma<\/p>\n<div style=\"width: 426px;\" class=\"wp-video\"><!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('video');<\/script><![endif]-->\n<video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-67141-1\" width=\"426\" height=\"234\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/288041944_730234414953956_1116497922593411885_n.mp4?_=1\" \/><a href=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/288041944_730234414953956_1116497922593411885_n.mp4\">http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/288041944_730234414953956_1116497922593411885_n.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>Desde o \u00faltimo dia 5 de junho, Bruno e o jornalista ingl\u00eas Dom Phillips, colaborador do jornal\u00a0The Guardian, desapareceram no Vale do Javari, na Amaz\u00f4nia, quando faziam o trajeto entre a comunidade Ribeirinha S\u00e3o Rafael at\u00e9 a cidade de Atalaia do Norte. Nesta quarta-feira, 15, a pol\u00edcia anunciou a solu\u00e7\u00e3o do caso. Ambos foram barbaramente executados e tiveram os corpos decepados e incendiados por Amarildo da Costa de Oliveira, conhecido como Pelado, e por Ozinei da Costa Oliveira, que confessou o crime. As mortes do jornalista e do indigenista foram\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/Ce2Ofzcsl3y\/?hl=en\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">confirmadas na noite do dia 15<\/a>\u00a0de junho por todas as organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Bruno ajudava uma equipe de vigil\u00e2ncia da Uni\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Vale do Javari (Univaja) a vigiar seu territ\u00f3rio. Ajudava no treinamento com drones, no georreferenciamento, no uso de imagens de sat\u00e9lites para que os ind\u00edgenas pudessem documentar a invas\u00e3o de seu territ\u00f3rio por garimpeiros, traficantes, ca\u00e7adores e pescadores ilegais. Ajudou a produzir documentos com relatos de invas\u00e3o, apontando a presen\u00e7a de grupos armados, denunciando amea\u00e7as e at\u00e9 ataques a tiros contra ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio com tudo isso foi entregue ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal de Tabatinga, \u00e0 For\u00e7a de Seguran\u00e7a Nacional, sediada na regi\u00e3o, e \u00e0 pr\u00f3pria Funai. O documento chegou at\u00e9 mesmo a mencionar o nome de Pelado.<\/p>\n<div id=\"attachment_67144\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-67144\" class=\"wp-image-67144 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/atalaia_do_norte2.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" \/><p id=\"caption-attachment-67144\" class=\"wp-caption-text\">Ind\u00edgenas protestam contra desaparecimento de Bruno e Dom, em Atalaia do Norte (AM)<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 dois anos e meio, Maxciel Pereira dos Santos, colaborador da Funai em Tabatinga, foi assassinado por pistoleiros na frente da fam\u00edlia. Bruno assinou um of\u00edcio com outros dez servidores encaminhado \u00e0 Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o (DPU) para denunciar o assassinato e oito ataques a tiros no Vale do Javari (AM). Na \u00e9poca, Adelson Kor\u00e1 Kanamary, coordenador da Associa\u00e7\u00e3o Kanamary do Vale do Javari (Akavaja), disse ao Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi): \u201cO problema mais grave que n\u00f3s enfrentamos aqui no Vale do Javari, agora, n\u00e3o s\u00e3o nem as invas\u00f5es. S\u00e3o as amea\u00e7as de morte.\u201d<\/p>\n<p>Todos sabiam que novas execu\u00e7\u00f5es seriam uma quest\u00e3o de tempo. E a raz\u00e3o foi explicada pelo pr\u00f3prio of\u00edcio assinado por Bruno: o desmonte da Funai, os sucessivos cortes or\u00e7ament\u00e1rios e o enfraquecimento da fiscaliza\u00e7\u00e3o que ati\u00e7aram os criminosos. \u201cAntes, os invasores se evadiam ao avistar as equipes [de vigil\u00e2ncia]. Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, a realidade passou a mudar de forma gradativa, caracterizada pela presen\u00e7a cada vez maior de aud\u00e1cia e viol\u00eancia\u201c, citava o documento entregue \u00e0 DPU.<\/p>\n<p>Lideran\u00e7as ind\u00edgenas da regi\u00e3o denunciaram a demora do Estado brasileiro em iniciar as buscas pelos desaparecidos. Apenas ap\u00f3s uma forte cobran\u00e7a internacional \u00e9 que o governo resolveu se mexer. Mas Bolsonaro e o presidente da Funai n\u00e3o deixaram de lan\u00e7ar uma\u00a0s\u00f3rdida tentativa de desmoraliza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas, como um perfume barato borrifado no ar para ati\u00e7ar sua caterva. O primeiro disse que seriam \u201caventureiros\u201d em terras perigosas e depois, que Dom Phillips era \u201cmalvisto na regi\u00e3o\u201d \u2013 na sua j\u00e1 tradicional linha de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/politica\/bolsonaro-alega-que-dom-phillips-seria-mal-visto-na-regiao-do-vale-do-javari\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">plantar\u00a0fake news\u00a0e culpar as v\u00edtimas<\/a>. E o segundo falou que o indigenista e o jornalista ingl\u00eas n\u00e3o tinham autoriza\u00e7\u00e3o para ingressar na Terra Ind\u00edgena Vale do Javari. Em nota, a Univaja rebateu a Funai e disse que Bruno tinha licen\u00e7a para entrar em territ\u00f3rio ind\u00edgena. Segundo a entidade, o indigenista saiu da terra ind\u00edgena para se encontrar com Dom Phillips, que nunca pisou na TI. Ambos, ali\u00e1s, desapareceram fora dela. Em protesto contra as declara\u00e7\u00f5es do delegado que desmonta a Funai, servidores do \u00f3rg\u00e3o realizaram uma greve de 24 horas (no \u00faltimo dia 15) exigindo sua retrata\u00e7\u00e3o sobre a falsa informa\u00e7\u00e3o a respeito de Bruno e Dom Phillips.<\/p>\n<div id=\"attachment_67145\" style=\"width: 1546px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-67145\" class=\"wp-image-67145 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/funai-1536x864-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1536\" height=\"864\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/funai-1536x864-1.jpg 1536w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/funai-1536x864-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/funai-1536x864-1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/funai-1536x864-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/funai-1536x864-1-150x84.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/funai-1536x864-1-696x392.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/funai-1536x864-1-1068x601.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1536px) 100vw, 1536px\" \/><p id=\"caption-attachment-67145\" class=\"wp-caption-text\">Ato de servidores na Funai Foto Jornalistas Livres<\/p><\/div>\n<p>Enquanto tentam desmoralizar as v\u00edtimas, \u00e9 sempre bom recordar que o governo permitiu que mission\u00e1rios evang\u00e9licos realizassem contato com povos ind\u00edgenas isolados no Vale do Javari, quando Bolsonaro nomeou o pastor Ricardo Lopes Dias para chefiar a Coordena\u00e7\u00e3o-geral de \u00cdndios Isolados. Hoje, as cidades pr\u00f3ximas ao Vale do Javari\u00a0encontram-se abarrotadas de miss\u00f5es evang\u00e9licas que tentam contatar os ind\u00edgenas, embora haja liminares na Justi\u00e7a que impedem mission\u00e1rios de fazer contato. \u00c9 a conquista da alma pra conquistar o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>\u2018Foi\u00e7ada na Funai\u2019<\/strong><\/p>\n<p>\u201cSe eleito, eu vou dar uma foi\u00e7ada na Funai, mas uma foi\u00e7ada no pesco\u00e7o. N\u00e3o tem outro caminho. N\u00e3o serve mais\u201d, declarou Bolsonaro em agosto de 2018, em plena campanha presidencial.<\/p>\n<p>A foi\u00e7ada come\u00e7ou com a nomea\u00e7\u00e3o do delegado da Pol\u00edcia Federal Marcelo Xavier para a presid\u00eancia da Funai, um lacaio do pecuarista Nabhan Garcia, ex-chefe da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Ruralista (UDR) e ligado a mil\u00edcias rurais que levaram terror \u00e0 regi\u00e3o do Pontal do Paranapanema (SP) entre 1990 e 2000. Hoje ele \u00e9 secret\u00e1rio especial de Assuntos Fundi\u00e1rios do governo federal, \u00f3rg\u00e3o do Minist\u00e9rio da Agricultura.<\/p>\n<p>Com a foice na m\u00e3o, o delegado Xavier reduziu em 40% a verba da Funai. Paralisou 620 processos de demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas que se encontravam na fase inicial. Encalhou mais 117 processos que estavam na fase final de homologa\u00e7\u00e3o da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Assim como foi feito com Bruno, a Funai passou a perseguir in\u00fameros servidores. Relat\u00f3rios realizados por funcion\u00e1rios em trabalho de campo come\u00e7aram a ser tratados como \u201copini\u00f5es pessoais\u201d, e n\u00e3o como constata\u00e7\u00f5es realizadas por profissionais\u00a0in loco. Muitos foram for\u00e7adamente transferidos para atividades burocr\u00e1ticas e outros simplesmente n\u00e3o conseguem trabalhar devido ao cipoal de entraves burocr\u00e1ticos, autoriza\u00e7\u00f5es, al\u00e9m da falta de verbas necess\u00e1rias ao trabalho de campo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a Funai foi aparelhada por militares (sempre eles, em busca de uma boquinha\u2026). Houve\u00a0substitui\u00e7\u00f5es de servidores concursados da Funai\u00a0por militares das For\u00e7as Armadas e policiais. Das 39 coordena\u00e7\u00f5es regionais da Funai, apenas duas s\u00e3o dirigidas por funcion\u00e1rios concursados. No Vale do Javari, por exemplo, o respons\u00e1vel era Henry Charlles Lima da Silva,\u00a0um tenente da reserva do Ex\u00e9rcito que foi exonerado h\u00e1 um ano por dizer que iria \u201cmeter fogo\u201d em ind\u00edgenas isolados.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de boquinhas e cargos no poder, os militares est\u00e3o de olho em conquistar alguma sociedade na garimpagem na Amaz\u00f4nia. H\u00e1 suspeitas de que o general Mour\u00e3o e outros militares estejam se associando a projetos de minera\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o. De acordo com uma reportagem do jornal\u00a0Folha de S. Paulo, o general da reserva Cl\u00e1udio Barroso Magno Filho \u00e9 um lobista da mineradora Pot\u00e1ssio do Brasil, acusada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) de coopta\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas do povo Mura para explora\u00e7\u00e3o mineral na Amaz\u00f4nia, mais especificamente na regi\u00e3o de Autazes (AM), entre os rios Madeira e Amazonas. A mineradora chegou a operar dentro do territ\u00f3rio ind\u00edgena, conforme a a\u00e7\u00e3o do MPF, mesmo sem licen\u00e7a ambiental e sem uma autoriza\u00e7\u00e3o formal dos ind\u00edgenas,\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ambiente\/2022\/05\/general-lobista-de-mineradora-acusada-pelo-mpf-foi-recebido-18-vezes-no-planalto.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">como exige a legisla\u00e7\u00e3o<\/a>.\u00a0Os militares aparelhados na Funai est\u00e3o fazendo prospec\u00e7\u00e3o mineral em Terra Ind\u00edgena da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. A aparelhagem tamb\u00e9m obedece \u00e0s demandas da velha e infame UDR. Com a publica\u00e7\u00e3o da Instru\u00e7\u00e3o Normativa n\u00ba 9\/2020 da Funai, Nabhan Garcia conseguiu que seu lacaio apagasse do Sistema de Gest\u00e3o Fundi\u00e1ria (Sigef) as terras n\u00e3o homologadas, em processo de demarca\u00e7\u00e3o, e \u00e1reas descobertas de ind\u00edgenas isolados, al\u00e9m de terras devolutas da Uni\u00e3o. Isso impossibilitou constatar a sobreposi\u00e7\u00e3o de terras de propriet\u00e1rios privados em terras ind\u00edgenas, ao mesmo tempo que permitiu que os 237 territ\u00f3rios que ainda passam por processo de demarca\u00e7\u00e3o possam ser vendidos e loteados. O velho Marx chamaria isso de acumula\u00e7\u00e3o primitiva. \u00c9 o\u00a0<a href=\"https:\/\/deolhonosruralistas.com.br\/2020\/04\/28\/medida-que-reduz-protecao-a-terras-indigenas-foi-articulada-por-nabhan-garcia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cenclosure\u201d sendo deletado do sistema<\/a>.<\/p>\n<p><strong>A cavalaria de Bolsonaro<\/strong><\/p>\n<p>Desde sua campanha eleitoral, Bolsonaro dizia que n\u00e3o demarcaria sequer um mil\u00edmetro de terras ind\u00edgenas. Em v\u00e1rias oportunidades ele se colocou contra os direitos dos povos origin\u00e1rios, defende a tese do marco temporal e a garimpagem em terras ind\u00edgenas. Junto com o Congresso, o governo prepara o \u201cpacote da destrui\u00e7\u00e3o\u201d, um ataque de propor\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas\u00a0<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/bolsonaro-e-congresso-preparam-pacote-da-destruicao-contra-o-meio-ambiente\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">contra o meio ambiente, os povos da floresta e toda a popula\u00e7\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>Sua pol\u00edtica deve ser classificada como de exterm\u00ednio dos povos origin\u00e1rios, e ele deixou isso bem claro em entrevista ao\u00a0Correio Braziliense, em 12 de abril de 1998: \u201cPena que a cavalaria brasileira n\u00e3o tenha sido t\u00e3o eficiente quanto a americana, que exterminou os \u00edndios.\u201d Mesmo com fartas demonstra\u00e7\u00f5es de sua pol\u00edtica genocida,\u00a0Bolsonaro teve a desfa\u00e7atez de conceder a si pr\u00f3prio a Medalha do M\u00e9rito Indigenista.<\/p>\n<p>A \u201cfoi\u00e7ada na Funai\u201d \u00e9 a foice da morte, do exterm\u00ednio ind\u00edgena promovido por Bolsonaro e ati\u00e7a criminosos e milicianos. Todos esfregaram as m\u00e3os e viram uma oportunidade para fazer o que a cavalaria brasileira n\u00e3o fez. \u201cEsses homens [criminosos e bandidos] se sentem protegidos pela Presid\u00eancia da Rep\u00fablica\u201d, explicou Sydney Possuelo sobre invasores de terras ind\u00edgenas em entrevista ao programa\u00a0Roda Viva\u00a0que foi ao ar no dia 13 de junho. Possuelo, ali\u00e1s, devolveu a Medalha do M\u00e9rito Indigenista que recebeu h\u00e1 35 anos. O gesto foi em protesto \u00e0 concess\u00e3o da honraria a Bolsonaro.<\/p>\n<p>Na Amaz\u00f4nia, existem verdadeiras quadrilhas que roubam terras, extraem madeiras e min\u00e9rios ilegalmente nessas \u00e1reas, controlam rios e rotas para tr\u00e1fico de drogas em \u00e1reas de fronteira. Se antes elas atuavam nas sombras, estavam dispersas e agiam de forma pouco coordenada, agora agem \u00e0 luz do dia, sem maiores constrangimentos e com mais letalidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso que, entre 2020 e 2021, o n\u00famero de conflitos no campo foi o maior em 35 anos, e o n\u00famero de assassinatos nesse tipo de confronto cresceu 75%, segundo levantamento anual da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT).<\/p>\n<p>De acordo com o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, houve um crescimento de 9,2% na viol\u00eancia letal entre 2018 e 2020 em cidades de floresta na regi\u00e3o Norte do pa\u00eds. Isso inclui uma guinada na ocupa\u00e7\u00e3o da \u00e1rea demarcada, no avan\u00e7o do tr\u00e1fico de drogas, da ca\u00e7a e pesca clandestinas, da extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira e da minera\u00e7\u00e3o de ouro.<\/p>\n<p>Em toda a Amaz\u00f4nia se registra o aumento de assassinatos de ind\u00edgenas, quilombolas, ribeirinhos, camponeses, indigenistas, ambientalistas e ativistas. O desaparecimento de um jornalista reconhecido como Dom, branco e europeu, deu uma forte evid\u00eancia \u00e0 viol\u00eancia na regi\u00e3o, assim como foi o caso da mission\u00e1ria estadunidense Dorothy Stang, assassinada em 2005, no munic\u00edpio de Anapu (PA). Mas tamb\u00e9m revela como a bandidagem se sente \u00e0 vontade no ambiente pol\u00edtico proporcionado por Bolsonaro.<\/p>\n<p>A Terra Ind\u00edgena Vale do Javari vem sofrendo ataques de madeireiros, pescadores, ca\u00e7adores garimpeiros e traficantes, que agem de forma consorciada. Em geral o \u201cpatr\u00e3o\u201d dos ca\u00e7adores e pescadores ilegais, isto \u00e9, aquele que os financia, \u00e9 o traficante e o madeireiro, e todo o cons\u00f3rcio dos criminosos possui profundas ramifica\u00e7\u00f5es com agentes p\u00fablicos de seguran\u00e7a, pol\u00edticos locais, comerciantes e autoridades. No Vale do Javari j\u00e1 foram registrados documentalmente pelo menos 12 massacres contra os povos ind\u00edgenas isolados, entre 1966 e 2001 (veja\u00a0<a href=\"https:\/\/povosisolados.com\/2017\/06\/18\/nos-tapiris-korubo-uma-perspectiva-indigenista-das-tensoes-e-distensoes-korubo-e-matis\/#_ftnref8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>). Um dos mais conhecidos ocorreu em setembro de 1989, quando um grupo do povo Korubo, ainda sem nenhum contato com a sociedade envolvente, foi massacrado por invasores e seus corpos enterrados em cova rasa numa das praias do Rio Itacoa\u00ed.<\/p>\n<p>Outros exemplos da a\u00e7\u00e3o de criminosos consorciados se deram em agosto de 2021, quando na regi\u00e3o de Nova Mutum, em Porto Velho, uma opera\u00e7\u00e3o policial levou \u00e0 morte de tr\u00eas trabalhadores sem-terra. \u00c0 \u00e9poca, outras cinco pessoas ficaram desaparecidas, segundo a CPT. Um ano antes, dois policiais acusados de serem milicianos foram assassinados no local. Na \u00e9poca a Pol\u00edcia Federal investigava empres\u00e1rios, advogados, ju\u00edzes, servidores p\u00fablicos e empresas que formaram uma quadrilha e conseguiram lucrar mais de R$ 330 milh\u00f5es<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/ameaca-de-um-novo-massacre-de-camponeses-paira-sobre-rondonia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0por meio de grilagem de terras e fraudes<\/a>.<\/p>\n<p>No Norte do pa\u00eds o garimpo ilegal provocou nove mortes em 2020 e 109 em 2021, o que significa um aumento de 1.110%. Das 109 mortes em 2021, 101 eram ind\u00edgenas Yanomamis de Roraima. A explos\u00e3o da garimpagem na Terra Ind\u00edgena Yanomami tamb\u00e9m tem o dedo do crime organizado. Segundo informa\u00e7\u00f5es dos ind\u00edgenas e investiga\u00e7\u00f5es da PF, os garimpeiros s\u00e3o dirigidos pelo PCC e est\u00e3o fortemente armados. \u00c9 o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/2022\/04\/12\/O-que-%C3%A9-o-narcogarimpo.-E-como-ele-atinge-os-ind%C3%ADgenas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">narcogarimpo expandindo seus tent\u00e1culos<\/a>\u00a0na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Na cidade em que foi assassinada Dorothy Stang cresce o ataque aos trabalhadores rurais e ind\u00edgenas de Anapu (PA), com assassinatos, pris\u00f5es e amea\u00e7as de morte, e Erasmo Te\u00f3filo, presidente da Cooperativa de Agricultores da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/pernambuco-e-sul-do-para-a-resistencia-contra-o-latifundio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Volta Grande do Xingu est\u00e1 na mira da escopeta<\/a>.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Comunidade do Lote 96, em Anapu (PA), sofre atentado\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BvEAD23QB0k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>Se, conjunturalmente, toda essa viol\u00eancia est\u00e1 relacionada ao ambiente pol\u00edtico proporcionado pelo governo Bolsonaro, do ponto de vista estrutural ela \u00e9 explicada pelo avan\u00e7o do capitalismo na Amaz\u00f4nia que, ao longo da hist\u00f3ria, converte meios e situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o capitalistas ou pr\u00e9-capitalistas em instrumentos de produ\u00e7\u00e3o capitalista propriamente dita, ou seja, de produ\u00e7\u00e3o de mais valor. Essa \u00e9 a chave para entender a expropria\u00e7\u00e3o territorial, a dissolu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais que bloqueiam sua reprodu\u00e7\u00e3o ampliada ou mesmo a incorpora\u00e7\u00e3o daquelas que n\u00e3o podem ser substitu\u00eddas. Assim, elas s\u00e3o recriadas, mas sob novas determina\u00e7\u00f5es decorrentes da media\u00e7\u00e3o do capital. Isso explica a coloniza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, a exist\u00eancia da peonagem, do trabalho escravo na regi\u00e3o (inclusive entre garimpeiros); como o desmatamento e inc\u00eandios florestais s\u00e3o formas da expans\u00e3o da propriedade privada da terra; o processo de anomia social das comunidades tradicionais, ou de parte delas; a desumaniza\u00e7\u00e3o e o racismo contra\u00a0 ind\u00edgenas, quilombolas e camponeses da floresta.<\/p>\n<p>A bandidagem, o crime e os neg\u00f3cios ilegais capitalistas apenas abrem a carreira para os \u201cneg\u00f3cios legais\u201d do grande capital, como demonstra a pr\u00f3pria hist\u00f3ria recente da Amaz\u00f4nia. Enquanto o capital existir, a floresta, sua popula\u00e7\u00e3o e a humanidade continuar\u00e3o sendo amea\u00e7adas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D\u00f3i na alma assistir o v\u00eddeo de Bruno Pereira entoando c\u00e2nticos ind\u00edgenas no meio da floresta. 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