{"id":67035,"date":"2022-06-01T13:31:20","date_gmt":"2022-06-01T16:31:20","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=67035"},"modified":"2022-06-01T13:31:20","modified_gmt":"2022-06-01T16:31:20","slug":"a-ideologia-dos-campos-progressistas-substituiu-a-luta-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/06\/01\/a-ideologia-dos-campos-progressistas-substituiu-a-luta-de-classes\/","title":{"rendered":"A ideologia dos campos progressistas substituiu a luta de classes"},"content":{"rendered":"<p><em>Como parte da elabora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Internacional Comunista stalinista para justificar a alian\u00e7a de classes com a burguesia e o imperialismo, sua cria\u00e7\u00e3o mais nefasta foi a teoria dos \u201ccampos progressistas\u201d.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: M\u00e1rcio Cury<\/p>\n<p>Os partidos comunistas de todo o mundo ficaram presos a uma elabora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do stalinismo em substitui\u00e7\u00e3o ao marxismo, a defesa dos \u201ccampos pol\u00edticos e sociais\u201d em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0s classes sociais.<\/p>\n<p>A divis\u00e3o de classes e a luta de classes foram substitu\u00eddas por \u201ccampos\u201d imagin\u00e1rios, de \u201cesquerda\u201d e \u201cdireita\u201d, \u201camigos\u201d e \u201cinimigos\u201d, de \u201cbons\u201d contra \u201cmaus\u201d, criados sempre para justificar uma pol\u00edtica de colabora\u00e7\u00e3o de classes.\u00a0 Assim, criou-se o \u201ccampo progressista\u201d, de defensores da democracia, de aliados republicanos, etc.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a com o \u201ccampo progressista\u201d, ou seja, de alian\u00e7a com as supostas burguesias progressistas, passou a ser o principal objetivo pol\u00edtico e militante das organiza\u00e7\u00f5es comunistas.\u00a0 A justificativa de derrotar o \u201ccampo reacion\u00e1rio\u201d, a \u201cdireita\u201d, etc., passou a ser a engrenagem que movia a\u00e7\u00f5es e colabora\u00e7\u00f5es pol\u00edticas com os supostos \u2018aliados progressistas\u2019, os partidos e governos burgueses.<\/p>\n<p>\u201cO trotskismo afirma, com o aval de toda a experi\u00eancia hist\u00f3rica, que o \u201ccampo\u201d da frente popular \u00e9 burgu\u00eas e, portanto, contrarrevolucion\u00e1rio; que esse car\u00e1ter se acentua ao m\u00e1ximo quando a frente popular chega ao governo, porque se transforma em l\u00edder do \u201ccampo\u201d capitalista por meio do exerc\u00edcio do poder do Estado capitalista.\u00a0\u201d<\/p>\n<p>(Nahuel Moreno, A Trai\u00e7\u00e3o da OCI, Os Governos de Frente Popular na Hist\u00f3ria, Editora Sundermann, 2003, P\u00e1gina 73)<\/p>\n<p>Desta forma, criava-se um campo daqueles que os comunistas deveriam se aliar, com uma justificativa pol\u00edtica ilus\u00f3ria, mas f\u00e1cil de ser assimilada.<\/p>\n<p>Com a nova teoria dos campos progressistas podia-se defender qualquer pol\u00edtica em qualquer etapa.\u00a0 Um candidato burgu\u00eas virava \u201cprogressista\u201d por se opor a um candidato \u201cfascista\u201d, partidos burgueses viravam \u201cprogressistas\u201d por defenderem a \u201cdemocracia\u201d contra o \u201cautoritarismo\u201d.\u00a0 Sob o manto do \u201ccampo progressista\u201d o Partido Comunista transformou-se na ala esquerda da burguesia e, n\u00e3o poucas vezes, em sua ala direita.<\/p>\n<p>A linha pol\u00edtica de frentes-populares e a defesa da paz burguesa com o imperialismo, tornou-se permanente nos Partidos Comunistas e tamb\u00e9m em v\u00e1rios partidos de esquerda em todo o mundo, substituindo a teoria marxista da luta de classes, principalmente ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o do fim da Internacional Comunista por Stalin em 1943.<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o impregnou n\u00e3o s\u00f3 os PC\u2019s, como a grande parte dos intelectuais que se reivindicavam marxistas. Ela impedia os militantes de verem os reais inimigos de classe, fazendo com que defendessem \u201ccampos progressistas\u201d contra \u201ccampos reacion\u00e1rios\u201d, em v\u00e1rios momentos da hist\u00f3ria e at\u00e9 o presente, como se expressa hoje no PT e no PSOL brasileiros. Nessa trajet\u00f3ria de 100 anos, em sua quase totalidade, predominou o apoio \u00e0s burguesias \u201cprogressistas\u201d e da mesma forma o resultado foram as trai\u00e7\u00f5es de revolu\u00e7\u00f5es e de grandes lutas.<\/p>\n<p>No final da ditadura de 1964, o PCB apoiou Tancredo Neves e Jos\u00e9 Sarney, alegando serem do \u201ccampo progressista e democr\u00e1tico\u201d, chegando a boicotar greves contra estes governos nos sindicatos que dirigia.\u00a0 O PCdoB apoiou e fez coliga\u00e7\u00f5es com os mais variados partidos burgueses do \u201ccampo democr\u00e1tico\u201d, incluindo PSDB, PDT, PTB, DEM (PFL), PP, PR, e quase todos os outros, estivessem ou n\u00e3o nos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, a adapta\u00e7\u00e3o dos PCs aos aparatos burgueses de governo e parlamento e o abandono do marxismo e leninismo, tornaram imposs\u00edveis uma cr\u00edtica ou uma verdadeira revis\u00e3o de seu passado e em nenhuma hip\u00f3tese houve um retorno \u00e0s pol\u00edticas de independ\u00eancia de classe marxistas.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia disso foi a din\u00e2mica de ida cada vez mais \u00e0 direita. Frente \u00e0 crise, \u00e0s divis\u00f5es e o desgaste do stalinismo ao reprimir as revolu\u00e7\u00f5es da Hungria-1956 e Tchecoslov\u00e1quia-1968, surgiu, o Eurocomunismo na maioria dos PCs da Europa, que tomaram o rumo \u00e0 socialdemocracia e \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o total \u00e0 democracia burguesa de seus respectivos pa\u00edses e o apoio a coliga\u00e7\u00f5es com \u201calian\u00e7as democr\u00e1ticas\u201d, que inclu\u00eda todo tipo de partido e candidato burgu\u00eas, como no caso do Brasil.<\/p>\n<p>Em outros casos, como os \u201cneo-estalinistas\u201d, ao n\u00e3o conseguir identificar os erros estrat\u00e9gicos, resgata-se o passado, um passado apresentado de forma distorcida, como se houvera sido revolucion\u00e1rio, pregando um retorno a St\u00e1lin e suas pol\u00edticas, com a justificativa de assim combater o liberalismo. Deixando de lado que, al\u00e9m dos monstruosos crimes da burocracia stalinista, foi esta que direcionou a pol\u00edtica dos Partidos Comunistas do mundo inteiro para a colabora\u00e7\u00e3o de classes com o imperialismo e as burguesias nacionais.\u00a0 \u00c9 o caso de v\u00e1rios \u201cPartidos Comunistas\u201d que se recriaram no Brasil nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p><strong>Os m\u00e9todos burocr\u00e1ticos para impor as pol\u00edticas colaboracionistas<\/strong><\/p>\n<p>Para fazer emplacar as diversas pol\u00edticas de alian\u00e7a e colabora\u00e7\u00e3o de classes foi preciso impor aos Partidos Comunistas m\u00e9todos alheios ao movimento oper\u00e1rio, e ao Partido Bolchevique de L\u00eanin.<\/p>\n<p>Debates intensos, convencimento pol\u00edtico, democracia interna partid\u00e1ria, toda a vida pol\u00edtica necess\u00e1ria na organiza\u00e7\u00e3o marxista foi substitu\u00edda pelo falso \u201ccentralismo democr\u00e1tico\u201d, na verdade centralismo burocr\u00e1tico, em que o partido era substitu\u00eddo pela sua dire\u00e7\u00e3o e pelas suas ordens inquestion\u00e1veis.\u00a0 A Internacional Comunista impunha suas diretrizes sem debates, sem congressos. Definia a pol\u00edtica do pa\u00eds, mandava, desmandava, nomeava e expulsava dirigentes e militantes.<\/p>\n<p>Durante anos e anos v\u00e1rios partidos tiveram agrupamentos inteiros expulsos, pelo simples fato de questionar as pol\u00edticas determinadas.<\/p>\n<p>Discordar, disputar politicamente, convencer de suas posi\u00e7\u00f5es, esgotar o debate e as op\u00e7\u00f5es, enfim, tudo o que seria original do marxismo e do partido bolchevique, tornava-se sin\u00f4nimo de fracionalismo, desvio pequeno-burgu\u00eas, \u201ctrotskismo\u201d e v\u00e1rios outros adjetivos pejorativos e estigmatizados, criados de acordo com o momento e o debate.<\/p>\n<p>\u201cO desfecho das negocia\u00e7\u00f5es foi muito simples: Manuilsky deu um soco na mesa e disse que eu entraria no Partido de qualquer jeito. Miranda n\u00e3o teve como fugir \u00e0 determina\u00e7\u00e3o do Komintern\u201d (Prestes, Lutas e Autocr\u00edticas, Denis de Moraes e Francisco Viana, Editora Vozes, P\u00e1gina 58).<\/p>\n<p>Os PCs permaneceram anos sem congressos, sem confer\u00eancias, mantendo suas dire\u00e7\u00f5es como intoc\u00e1veis durante d\u00e9cadas, apenas cumprindo as determina\u00e7\u00f5es da dire\u00e7\u00e3o do PCUS em todo o mundo, inclusive no Partido Comunista Brasileiro.<\/p>\n<p><strong>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista levou as dire\u00e7\u00f5es stalinistas a uma profunda e final crise<\/strong><\/p>\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista na China, sob determina\u00e7\u00f5es de Deng Xiaoping a partir de 1978 e na URSS em 1985 sob Gorbachev, ou seja, a restaura\u00e7\u00e3o promovida pela burocracia, e depois a queda do Muro de Berlim, a queda das rep\u00fablicas \u201cpopulares\u201d do Leste e o fim das burocracias do leste europeu, o processo ocorrido com seu \u00e1pice entre 1989 a 1991, colocou em crise pol\u00edtica terminal a grande parte dos partidos comunistas no mundo.<\/p>\n<p>Os partidos estalinistas de todo o mundo, adaptados a uma rela\u00e7\u00e3o subordinada e submissa a Moscou e aos PCs e governos do Leste da Europa, n\u00e3o quiseram reconhecer o processo de restaura\u00e7\u00e3o capitalista, cujas origens j\u00e1 ocorriam anos antes, com a abertura econ\u00f4mica, privatiza\u00e7\u00f5es, compra de empresas pela burocracia governante, forma\u00e7\u00e3o de m\u00e1fias econ\u00f4micas, libera\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio exterior, fim das planifica\u00e7\u00f5es, anarquia na produ\u00e7\u00e3o, etc. e continuaram defendendo os PCs oficiais.<\/p>\n<p>Ao n\u00e3o compreenderem este processo, receberam as transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ocorridas no Leste como um golpe fatal, isolado, uma \u201cqueda\u201d, um \u201cfim\u201d em si mesmo. O mesmo aconteceu com a esquerda que havia se formado nas mesmas bases dos PCs, nas teorias dos campos progressivos, etc. \u00c9 conhecido o fato de que havia dirigentes brasileiros do PT fazendo cursos com o PC alem\u00e3o oriental em Berlim no dia em que as massas derrubaram o famoso Muro, e que ficaram apalermados assistindo a essas cenas.<\/p>\n<p>A burocracia do PCUS foi quem restaurou o capitalismo na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e era esta mesma burocracia restauracionista que mantinha la\u00e7os de \u201camizade socialista\u201d com os PCs de todo o mundo. No Brasil, em plena d\u00e9cada de 80, membros do PCUS e diplomatas russos compareciam aos Congressos e Encontros pol\u00edticos dos PCs, fazendo homenagens ao socialismo.\u00a0 Estes \u2018amigos\u2019 foram derrubados pelas massas ou ca\u00edram sozinhos, e muitos se reciclaram como gerentes do capitalismo restaurado.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o era de que a culpa era das massas.\u00a0 Elas estariam sendo envolvidas em um processo \u2018reacion\u00e1rio\u2019 ou \u2018anticomunista\u2019, dirigido por reformistas burgueses. Afinal, a burocracia stalinista do PCUS estava no \u201ccampo progressista\u201d.\u00a0 A incompreens\u00e3o era motivada pela arma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica baseada no stalinismo, que impedia ver a realidade tal qual era, que a dire\u00e7\u00e3o tida por eles como \u2018revolucion\u00e1ria\u2019 era quem havia restaurado o capitalismo, que as massas se rebelaram contra a ditadura j\u00e1 capitalista dos governos restauracionistas ao estilo de Gorbachev na ex-URSS, de Ceausescu na Rom\u00eania, Honecker na Alemanha Oriental e contra todos os outros sat\u00e9lites da burocracia russa, que haviam convertidos seus pa\u00edses ao capitalismo.<\/p>\n<p>O \u201cfim do comunismo\u201d foi aproveitado pela burguesia e imperialismo mundiais para desencadear uma campanha ideol\u00f3gica contra o movimento socialista e o marxismo. O fim pol\u00edtico das burocracias restauracionistas do leste europeu foi compreendido pelos PCs como a \u201cqueda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica\u201d, e n\u00e3o um rep\u00fadio das massas contra a burocracia, seu atraso social e econ\u00f4mico de anos e os sacrif\u00edcios impostos pela pr\u00f3pria restaura\u00e7\u00e3o capitalista.\u00a0 O fato de estas revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas serem conduzidas pela burguesia e pol\u00edticos anti-Moscou serviu para consolidar a an\u00e1lise impressionista e superficial, de que aqueles foram processos das massas \u2018contra o socialismo\u2019.<\/p>\n<p>O massacre da Pra\u00e7a da Paz Celestial, tamb\u00e9m em 1989, onde tanques atravessaram e tropas atiraram em uma multid\u00e3o de trabalhadores e estudantes protestando por democracia, sob ordens de Deng Xiaoping e o PC Chin\u00eas, fuzilando e matando milhares de chineses tamb\u00e9m causou um impacto avassalador em muitos dos PCs que tinham a China como guia pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O governo de um partido comunista havia assassinado milhares de pessoas que protestavam, inclusive autorizadas pelo pr\u00f3prio governo nas v\u00e9speras da visita de Gorbachev ao pa\u00eds. A crise era total. Nos PCs, um misto de sil\u00eancio, reprova\u00e7\u00f5es formais, tentativas de atribuir a responsabilidade aos estudantes que queriam \u201crestaurar o capitalismo\u201d\u2026 A realidade n\u00e3o se encaixava nos modelos stalinistas estabelecidos, onde a \u201cverdade\u201d estava sempre com os Partidos Comunistas, do \u201ccampo progressista\u201d.<\/p>\n<p>Em muitos pa\u00edses esta crise levou ao fim dos PCs, uma vez que, no entendimento destes partidos, as massas condenaram o comunismo e este era agora, obsoleto. \u00a0Este pensamento foi reflexo direto da contrarrevolu\u00e7\u00e3o em marcha dentro destes partidos, refletindo diretamente a degenera\u00e7\u00e3o capitalista e a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia burguesa nestes pa\u00edses.\u00a0 Para que um Partido Comunista se o capitalismo e a democracia burguesa triunfaram, se o socialismo deixava de ser um objetivo estrat\u00e9gico vi\u00e1vel?<\/p>\n<p>Em alguns pa\u00edses as crises foram t\u00e3o profundas que os PCs simplesmente trocaram de nomes e se transformam em partidos \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d, em um processo conturbado, lento e desgastante. Foi o caso, por exemplo, do Partido Comunista Italiano, com 1,5 milh\u00e3o de membros, que se dissolve e vira Partido Democrata de Esquerda. E mais tarde foi a base do Partido Democr\u00e1tico, um partido burgu\u00eas \u201cnormal\u201d, semelhante ao democrata crist\u00e3o da Alemanha ou ao Partido Democrata dos EUA. Inclusive os partidos que n\u00e3o tinham nome \u201ccomunista\u201d em seus r\u00f3tulos, mas eram associados ao PC de Moscou, como o caso da Hungria e Pol\u00f4nia, tamb\u00e9m sofreram transforma\u00e7\u00f5es completas em seus programas e muta\u00e7\u00f5es nos seus nomes.<\/p>\n<p>Havia uma raz\u00e3o mais profunda para a crise aberta. Na verdade, sempre existiu um aparato stalinista mundial, que dependia da URSS e sustentava esses partidos. Com o fim da URSS acabou tamb\u00e9m este aparato mundial. Os partidos perderam sua base de sustenta\u00e7\u00e3o. No caso dos partidos eurocomunistas, como o italiano, por exemplo, j\u00e1 vinham se \u201csocialdemocratizando\u201d, desde a d\u00e9cada de 70, isso \u00e9, se ligando mais \u00e0s suas burguesias nacionais e ao Estado burgu\u00eas de seus respectivos pa\u00edses.<\/p>\n<p>No Brasil, este processo atingiu em cheio o PCB. Ela foi expressa na mudan\u00e7a de nome, tornando-se PPS (e depois Cidadania), e num processo de transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de adapta\u00e7\u00e3o completa ao regime, se tornando o parceiro fiel do PSDB durante os governos de FHC. Nos casos em que os nomes n\u00e3o s\u00e3o modificados, tamb\u00e9m \u00e9 completa a mudan\u00e7a de programa e adapta\u00e7\u00e3o aberta ao sistema pol\u00edtico burgu\u00eas.\u00a0 Foi o caso do PCdoB no Brasil.<\/p>\n<p><strong>As tentativas de restaura\u00e7\u00e3o dos partidos comunistas que n\u00e3o rompem com o passado est\u00e3o condenadas a repetir seus erros<\/strong><\/p>\n<p>Passada a devastadora crise pol\u00edtica inicial e ainda atordoados pela incompreens\u00e3o do processo, surgem militantes desejosos de reviver as organiza\u00e7\u00f5es \u201ccomunistas\u201d, como se o hiato entre a \u201cqueda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica\u201d e o momento atual fizesse superar a crise pol\u00edtica. Como se o tempo apagasse a profunda crise. Ao longo dos \u00faltimos 30 anos, surgiram movimentos de \u201crestaura\u00e7\u00e3o comunista\u201d, ou de \u201crefunda\u00e7\u00e3o\u201d, como na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>L\u00e1, o Partido da Refunda\u00e7\u00e3o Comunista chegou a ter um peso importante no movimento sindical e uma bancada parlamentar importante. Mas, como sua autocr\u00edtica do passado do PCI era superficial e concentrava toda carga da responsabilidade nas \u00faltimas dire\u00e7\u00f5es e n\u00e3o em todo o arcabou\u00e7o da teoria do socialismo em um s\u00f3 pa\u00eds, dos campos progressivos e da colabora\u00e7\u00e3o de classe como programa reformista, seu projeto tamb\u00e9m explodiu quando, frente \u00e0 decis\u00e3o de sustentar ou n\u00e3o um governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes, sua maioria ampla terminou por apoiar um governo burgu\u00eas imperialista. Hoje, a Refunda\u00e7\u00e3o Comunista italiana \u00e9 um grupo residual, um ap\u00eandice de outros partidos burgueses \u201cprogressistas\u201d, como o PD.<\/p>\n<p>Os intentos como o do \u201cnovo PCB\u201d, de \u201cReconstru\u00e7\u00e3o Comunista Revolucionaria\u201d, ou ainda projetos de \u201cRestaura\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria\u201d, etc., provavelmente dever\u00e3o passar pela mesma disjuntiva, embora haja militantes ativos que acreditam em uma via desse tipo, pensando que est\u00e3o no caminho do leninismo, ou ent\u00e3o da retomada do marxismo.\u00a0 Os fatos demonstram que tentar recriar algo que a hist\u00f3ria j\u00e1 derrotou, ou seja, as teorias e os programas de fundo stalinista, est\u00e3o fadados ao fracasso frente aos desafios da luta de classes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da crise pol\u00edtica que os intentos de revalidar os PCs sofrem, incide tamb\u00e9m nessa retomada uma crise ideol\u00f3gica sobre o pensamento marxista.\u00a0 O leninismo cl\u00e1ssico e a milit\u00e2ncia prolet\u00e1ria s\u00e3o substitu\u00eddas por correntes de pensamento ditas \u201cmodernas\u201d. As press\u00f5es eleitorais e parlamentares transformam as legendas em organiza\u00e7\u00f5es eleitorais.<\/p>\n<p>O marxismo ortodoxo, de ruptura violenta do Estado burgu\u00eas, de dire\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria como vanguarda da classe oper\u00e1ria, de conquista da maioria da classe oper\u00e1ria para tomar o poder, e de ditadura do proletariado, \u00e9 adaptado \u00e0 modernidade e ganha novas fraseologias, mais amplas, como a \u201cconquista da hegemonia\u201d, \u201cdisputa das ideias\u201d, \u201chegemonia da ideologia\u201d.\u00a0 Assim como pelo crescimento das teses p\u00f3s-modernas sobre setores da intelectualidade pequeno-burguesa e acad\u00eamica.<\/p>\n<p>\u201cO comunista agora n\u00e3o deve estar preso a um esquema, preso a modelos\u201d, deve dialogar com toda a sociedade e ser influenciado por ela, captar as influ\u00eancias da sociedade para dialogar com ela, disputar a hegemonia das ideias, estar aberto a todas as possibilidades, etc. O \u201cnovo comunista\u201d deve ser aberto a novas possibilidades na disputa pela hegemonia da sociedade. A classe oper\u00e1ria \u00e9 questionada como \u201csujeito da revolu\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0 Mas que tipo de revolu\u00e7\u00e3o falamos agora?<\/p>\n<p>Ap\u00f3s cada um desses processos de crise, os PC\u2019s proclamam se reconstruir, se reinventar e mostrar o seu \u201cvigor\u201d e capacidade em conseguir interagir novamente dentro do campo pol\u00edtico brasileiro. E ap\u00f3s cada nova fase, surge sempre um formato de reconstru\u00e7\u00e3o, sempre denominado como \u201creconstru\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, \u201creconstru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d, etc\u2026<\/p>\n<p><strong>Estamos revivendo novamente este per\u00edodo.\u00a0 Uma incessante repeti\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a mudan\u00e7a de nome do PCB para PPS, um setor de militantes do Partido iniciou o processo de reconstru\u00e7\u00e3o no Brasil. A vontade honesta e sincera de muitos de seus membros em reconstruir o PCB, em nome da luta pelo comunismo, n\u00e3o o transformar\u00e1 automaticamente no mesmo partido que foi nos anos 20. Tampouco significar\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o de um novo Partido Comunista diferente de tudo o que foi.<\/p>\n<p>Apesar dos esfor\u00e7os dessa milit\u00e2ncia, o PCB, ao n\u00e3o fazer a cr\u00edtica pol\u00edtica e te\u00f3rica at\u00e9 o fim, ao n\u00e3o tirar as principais li\u00e7\u00f5es do que foi o stalinismo, seu car\u00e1ter de classe e suas teorias de alian\u00e7a e colabora\u00e7\u00e3o de classes, n\u00e3o consegue chegar a uma refunda\u00e7\u00e3o que retomasse o car\u00e1ter inicial que o PCB tentou representar em 1922. Por isso o PCB n\u00e3o consegue fazer um real balan\u00e7o, um verdadeiro acerto de contas com seu passado. Fica preso a discutir os \u201cerros t\u00e1ticos\u201d ao inv\u00e9s de ir ao cerne do problema.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma barreira profunda na tentativa de reconstru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. O PCB sai por uma porta nas elabora\u00e7\u00f5es etapistas e de colabora\u00e7\u00e3o de classes, chegando a reconhecer estes erros, e entra por outra porta com a teoria dos campos reciclada, que os colocou na contram\u00e3o da primavera \u00e1rabe e agora, da luta contra a invas\u00e3o russa \u00e0 Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Infelizmente as an\u00e1lises e autocr\u00edticas dos erros do Partido Comunista s\u00e3o sempre em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s t\u00e1ticas pol\u00edticas ou erros conjunturais de determinados momentos hist\u00f3ricos.\u00a0 Alguns formuladores falam em \u201ctaticismo do operador estrat\u00e9gico\u201d, em sua mais recente defini\u00e7\u00e3o. Nenhuma an\u00e1lise feita pelos pr\u00f3prios defensores do PCB consegue explicar a fundo, ou ir mais longe, na g\u00eanese de todos os erros. Nenhum dos balan\u00e7os autocr\u00edticos do Partido conseguiu chegar at\u00e9 a origem de tudo, porque isso seria a sua pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o. Na verdade, encontra-se uma explica\u00e7\u00e3o justific\u00e1vel formal, e at\u00e9 artificial, para o Partido continuar existindo e recome\u00e7ar tudo novamente ap\u00f3s cada crise ou per\u00edodo hist\u00f3rico\u2026<\/p>\n<p>Concordar que o Partido Comunista virou uma engrenagem pol\u00edtica da Internacional Comunista \u201cstalinizada\u201d, ou seja, controlada pela burocracia sovi\u00e9tica ap\u00f3s 1928, significa tamb\u00e9m concordar que tudo depois disso estava preso a esta engrenagem.\u00a0 N\u00e3o apenas os erros t\u00e1ticos de determinados per\u00edodos, mas, sim, que a trajet\u00f3ria do Partido sempre esteve errada, corrompida, degenerada pela organiza\u00e7\u00e3o mundial comandada por Stalin e seus ep\u00edgonos, por serem a express\u00e3o das pol\u00edticas de um aparato contrarrevolucion\u00e1rio que existiu dentro do movimento oper\u00e1rio em todo o s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>O PCB, em seus primeiros anos de exist\u00eancia, chegou a criar a ilus\u00e3o de que era o partido da revolu\u00e7\u00e3o no Brasil. Mas tentar embelezar sua trajet\u00f3ria posterior, quando foi um partido que apoiou governos burgueses e candidatos burgueses, do ditador Vargas em 45 a Jo\u00e3o Goulart, que confiou no seu \u201cdispositivo militar legalista\u201d contra o golpe militar em 1964, que apoiou governos do MDB como Moreira Franco no Rio, etc., mostra uma incapacidade para ir as ra\u00edzes desses erros catastr\u00f3ficos, dessas trai\u00e7\u00f5es perpetradas pelo PCB ao longo de toda sua trajet\u00f3ria desde o final dos anos 20.<\/p>\n<p>Muitos desses fatos foram objeto de pol\u00eamicas publicas as quais esses novos construtores deveriam responder: os ex-dirigentes do PCB que j\u00e1 escreveram sobre essas trai\u00e7\u00f5es, desde a Oposi\u00e7\u00e3o de esquerda dos anos 30, de Mario Pedrosa e outros quadros importantes, como Herm\u00ednio Sacchetta; da cr\u00edtica de Jacob Gorender assim como dos demais dissidentes que ap\u00f3s o golpe de 1964, agruparam uma parte significativa dos dirigentes nacionais do PCB de ent\u00e3o, alguns dos quais formaram grupos guerrilheiros nos anos 70 (Marighella, por exemplo).<\/p>\n<p>Fica a quest\u00e3o em aberto: haver\u00e1 disposi\u00e7\u00e3o e unidade entre os defensores da \u201creconstru\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d para passar das autocr\u00edticas t\u00e1ticas pontuais para investigar program\u00e1ticas da nefasta trajet\u00f3ria pol\u00edtica do velho PCB?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como parte da elabora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Internacional Comunista stalinista para justificar a alian\u00e7a de classes com a burguesia e o imperialismo, sua cria\u00e7\u00e3o mais nefasta foi a teoria dos \u201ccampos progressistas\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":70443,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[121,8,49],"tags":[4637,1200,1108,4639],"class_list":["post-67035","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","category-historia","category-polemica","tag-marcio-cury","tag-partidos-comunistas","tag-pcb","tag-teoria-dos-campos"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/GETULIO-E-PRESTES-1947-696x391-1.jpg","categories_names":["Brasil","Hist\u00f3ria","Pol\u00eamica"],"author_info":{"name":"LIT\u2013CI ICTs administrator","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0973b89b04bbda111defa87e3f860ce865242776607022a1de5d57af162e61ab?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67035","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=67035"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67035\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70443"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=67035"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=67035"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=67035"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}