{"id":66941,"date":"2022-05-19T16:49:32","date_gmt":"2022-05-19T19:49:32","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=66941"},"modified":"2022-05-19T16:49:32","modified_gmt":"2022-05-19T19:49:32","slug":"stalinismo-e-pan-africanismo-parte-iv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/05\/19\/stalinismo-e-pan-africanismo-parte-iv\/","title":{"rendered":"Stalinismo e Pan-africanismo \u2013 Parte IV"},"content":{"rendered":"<p>Em artigos anteriores vimos como o abandono da luta anticolonial foi realizado pela III\u00aa Internacional Comunista, quando Stalin e Dimitrov assumiram a sua condu\u00e7\u00e3o. Isso refletiu nas interven\u00e7\u00f5es dos Partidos Comunistas em todo mundo. Ainda mais depois que o VII Congresso, em julho de 1935, aprovou a tese: \u201c<em>Frente Unida: A Luta Contra o Fascismo e a Guerra<\/em>\u201d elaborada por Dimitrov, que indicou a alian\u00e7a do proletariado com um setor da burguesia \u2013 Frente Popular como t\u00e1tica priorit\u00e1ria.<!--more--><!--more--><\/p>\n<p>Por: Am\u00e9rico Gomes<\/p>\n<p>Os ziguezagues pol\u00edticos de Stalin v\u00e3o de uma orienta\u00e7\u00e3o sect\u00e1ria, que p\u00f4s um signo de igual entre fascismo e social democracia, principalmente na Alemanha em 1933; para, depois, impulsionar a alian\u00e7a antifascista, n\u00e3o s\u00f3 com os socialdemocratas, mas tamb\u00e9m com a burguesia, que passaram a considerar progressista; para novamente em 1939 aliar-se aos nazistas com o Pacto Molotov-Ribertrop; e voltar a romper, em 1941, com Hitler quando da invas\u00e3o da URSS. Depois da Segunda Guerra a URSS, sob o stalinismo, foi assumindo uma pol\u00edtica de \u201ccoexist\u00eancia pacifica\u201d com o imperialismo, que levou a submiss\u00e3o dos partidos comunistas e a sua desmoraliza\u00e7\u00e3o, com amplos setores da vanguarda.<\/p>\n<p>No contexto destes ziguezagues, os comunistas franceses enfraqueceram a \u201c<em>Ligue contre l&#8217;imp\u00e9rialisme et l&#8217;oppression coloniale\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em> onde tinham um trabalho importante, com consequ\u00eancias sobre a atua\u00e7\u00e3o nos movimentos nacionalistas do Norte da \u00c1frica. Na Arg\u00e9lia, Tun\u00edsia e Marrocos, estes movimentos acabaram se desenvolvendo de maneira aut\u00f4noma e em conflito com a pol\u00edtica comunista do partido franc\u00eas. Por isso ganham destaque as organiza\u00e7\u00f5es nacionalistas burguesas como o Partido da Nova Constitui\u00e7\u00e3o (Neo-destour) de Habib Bourguiba, na Tun\u00edsia, e, no Marrocos a lideran\u00e7a do sult\u00e3o Mohamed V. Enfim, a pol\u00edtica da Liga foi abandonada pelos stalinistas em fevereiro de 1936 no Sal\u00e3o da Mutualidade em Paris.<\/p>\n<p>Na Arg\u00e9lia n\u00e3o foi diferente, os stalinistas, em meio ao apoio a Frente Popular na Fran\u00e7a dissolveram a organiza\u00e7\u00e3o independentista \u201c<em>Estrela Norte Africana<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, em 1936. Em 1937 quando Messali Hadj e outros dirigentes nacionalistas foram presos por ordem do governo franc\u00eas<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> e o Partido do Povo Argelino (PPA) foi atacado, estes foram abandonados pelo PCF<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Nesta \u00e9poca, Maurice Thorez vai \u00e0 Arg\u00e9lia onde afirma que esta col\u00f4nia \u00e9 de fato uma \u201c<em>na\u00e7\u00e3o em forma\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d defendendo sua vers\u00e3o da pol\u00edtica leninista de \u201c<em>defesa do direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d que n\u00e3o implicaria necessariamente no apoio \u00e0 independ\u00eancia das na\u00e7\u00f5es africanas. N\u00e3o defende sua independ\u00eancia e sim a pol\u00edtica de exigir liberdades pol\u00edticas e c\u00edvicas. Contra a posi\u00e7\u00e3o dos nacionalistas argelinos, que afirmavam que sua na\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava constitu\u00edda e por isso deveriam ser independentes, proposta defendida por Messali Hadji.<\/p>\n<p>Em ess\u00eancia, a pol\u00edtica do Partido Comunista Franc\u00eas diante dos problemas coloniais na \u00c1sia, Oriente M\u00e9dio e \u00c1frica seguia uma justificativa geral de preservar a unidade e integridade do \u201cImp\u00e9rio franc\u00eas\u201d atrav\u00e9s de uma federa\u00e7\u00e3o, garantindo a hegemonia francesa sobre os territ\u00f3rios das col\u00f4nias, para que n\u00e3o fosse reduzido ao seu \u00fanico pequeno territ\u00f3rio metropolitano.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Alegadamente defendendo o colonialismo franc\u00eas em nome da luta contra o imperialismo norte-americano<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Portanto, defendiam um projeto de assimila\u00e7\u00e3o da Arg\u00e9lia a na\u00e7\u00e3o francesa, onde a independ\u00eancia n\u00e3o era prioridade e estava condicionada \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o do socialismo na Fran\u00e7a. Somente vieram aceitar a &#8220;independ\u00eancia&#8221; quando a resist\u00eancia dos povos oprimidos a imp\u00f4s.<\/p>\n<p>Na guerra pela independ\u00eancia da Arg\u00e9lia, estavam contra as a\u00e7\u00f5es do FLN, quando este optou pela luta armada em 1954. O que desmascara a falsifica\u00e7\u00e3o neo stalinistas de que existiria uma coincid\u00eancia pol\u00edtica entre a pol\u00edtica stalinista e a atua\u00e7\u00e3o de Franz Fanon.<\/p>\n<p><strong>O PC franc\u00eas e a independ\u00eancia da Arg\u00e9lia<\/strong><\/p>\n<p>Em 1939, o PC da Arg\u00e9lia e o Partido do Povo da Arg\u00e9lia (PPA) foram banidos, e seus militantes tiveram que ir \u00e0 clandestinidade. O PCA voltou \u00e0 legalidade em 1943, mas o PPA permaneceu proibido at\u00e9 1946. Neste ano, Hadj fundou o \u201cMovimento para o Triunfo das Liberdades Democr\u00e1ticas\u201d (MTLD), enquanto o PCF permaneceu hostil \u00e0 independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Em maio de 1945, no final da Segunda Guerra, os franceses reuniram os argelianos para uma comemora\u00e7\u00e3o, mas o sentimento antifranc\u00eas era maior e a comemora\u00e7\u00e3o se transformou em uma manifesta\u00e7\u00e3o contra a ocupa\u00e7\u00e3o colonial, logo a repress\u00e3o do governo franc\u00eas foi brutal e transformou a manifesta\u00e7\u00e3o em um massacre de dezenas de milhares de argelinos, no Leste do pa\u00eds, nas cidades de Setif e Guelma.<\/p>\n<p>Os manifestantes gritavam &#8220;<em>Viva a democracia<\/em>&#8220;, &#8220;<em>Abaixo o colonialismo<\/em>&#8221; e &#8220;<em>Viva a Arg\u00e9lia independente<\/em>&#8220;. O PCF caracterizou que estas manifesta\u00e7\u00f5es foram realizadas por &#8220;<em>elementos conturbados, de inspira\u00e7\u00e3o hitlerista, empenhados em Setif numa agress\u00e3o armada contra a popula\u00e7\u00e3o&#8230; A pol\u00edcia, auxiliada pelo ex\u00e9rcito, manteve a ordem<\/em>\u00bb<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> Denunciou Messali Hadj e os dirigentes nacionalistas<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> como \u201c<em>l\u00edderes pseudo nacionalistas que conscientemente tentaram enganar as massas mu\u00e7ulmanas, jogando assim o jogo dos senhores na tentativa de partir a popula\u00e7\u00e3o argelina e o povo da Fran\u00e7a<\/em>\u201d pedindo \u201c<em>medidas a serem tomadas contra os l\u00edderes dessa associa\u00e7\u00e3o pseudo nacional<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>Quando houve a eclos\u00e3o da insurrei\u00e7\u00e3o pela independ\u00eancia em novembro de 1954, o PC da Arg\u00e9lia decidiu apoiar e integrar a \u201cSecours Populaire Alg\u00e9rien\u201d, e as unidades armadas aut\u00f4nomas, recusando participar na Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (FLN), muda de posi\u00e7\u00e3o em setembro de 1955 e se junta ao Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (ALN). Mas para isso ocorrer houve um distanciamento com a pol\u00edtica do PC da Fran\u00e7a, que n\u00e3o a compartia, pois defendia como o centro de sua pol\u00edtica a \u201cpaz na Arg\u00e9lia\u201d e n\u00e3o a independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Inclusive em mar\u00e7o de 1956, os stalinistas votam por dar plenos poderes ao governo do Primeiro-Ministro da Fran\u00e7a do Partido Socialista, Guy Mollet, para continuar a guerra e esmagar a organiza\u00e7\u00e3o independentista tendo a frente o general Jacques Massu. Defendiam que seria importante manter a Arg\u00e9lia pr\u00f3xima \u00e0 Fran\u00e7a, e denunciavam o \u201c<em>recurso ao terrorismo e \u00e0 luta armada<\/em>\u201d, sob a justificativa de que essas pr\u00e1ticas violentas seriam iguais \u00e0s utilizadas pelo dominador franc\u00eas. No que eram rebatidos pelos membros da FLN que se lembraram da utiliza\u00e7\u00e3o das armas pela Resist\u00eancia Francesa durante a ocupa\u00e7\u00e3o nazista.<\/p>\n<p><strong>O antagonismo entre Fanon e os stalinistas<\/strong><\/p>\n<p>O fato \u00e9 que \u00e9 uma falsifica\u00e7\u00e3o dos neo stalinistas reivindicarem Frantz Fanon e buscar associ\u00e1-lo ao stalinismo, quando suas posi\u00e7\u00f5es eram totalmente contrapostas. Fanon ficou conhecido por defender a viol\u00eancia revolucion\u00e1ria como essencial para a luta de emancipa\u00e7\u00e3o colonial na \u00c1frica. Neste sentido tinha posi\u00e7\u00f5es extremamente progressivas e distintas da dire\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Franc\u00eas que se recusava, a reconhecer o direito de luta pela independ\u00eancia da Arg\u00e9lia.<\/p>\n<p>Fanon foi um anticolonialista e anti-imperialista radical, defensor das teses pan-africanas que tiveram eco especial nos setores terceiro-mundistas anticoloniais. Seu livro \u201c<em>Em defesa da revolu\u00e7\u00e3o africana<sup>\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><strong>[10]<\/strong><\/a> <\/sup><\/em>escrito durante a luta de liberta\u00e7\u00e3o argelina exprimem o pensamento do Fanon que foi deportado da Arg\u00e9lia em 1956 quando suas atividades &#8220;subterr\u00e2neas&#8221; foram descobertas. Fanon aprofunda seu pensamento em \u201c<em>Os condenados da terra\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><strong>[11]<\/strong><\/a><\/em>, onde d\u00e1 um peso decisivo a sua teoria sobre a \u201c<em>viol\u00eancia revolucion\u00e1ria<\/em>\u201d como sendo elemento essencial para a luta anticolonial. Afirma que h\u00e1 desumaniza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o com a repress\u00e3o e a tortura do imp\u00e9rio franc\u00eas que assumiu um car\u00e1ter de f\u00faria racista s\u00e1dica. D\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o detalhada da viol\u00eancia como instrumento de domina\u00e7\u00e3o colonial e como uma premissa essencial e necess\u00e1ria para o processo de descoloniza\u00e7\u00e3o. Uma evolu\u00e7\u00e3o de seu pensamento fragmentado, racialista e \u201cfenomenol\u00f3gico\u201d, apresentado em \u201c<em>Pele negra, m\u00e1scaras brancas\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Fica demonstrado que as posi\u00e7\u00f5es stalinistas e de Fanon n\u00e3o eram somente diferentes, mas completamente antag\u00f4nicas, contra qualquer falsifica\u00e7\u00e3o neo stalinista.<\/p>\n<p><strong>Uma luta revolucion\u00e1ria para a independ\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>A FLN tornou-se, de fato, o povo em armas, criou seu bra\u00e7o armado: o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (ELN), com uma dire\u00e7\u00e3o que inclu\u00eda Ahmed Bem Bella, Mustafa Bem Boulaid e Mohamed Boudiaf. Passou de 500 combatentes em 1954 para 100 mil em 1960. Fundiam em seu programa princ\u00edpios, valores e ideias do nacionalismo \u00e1rabe, isl\u00e2micas e o que entendiam do marxismo, particularmente no que diz respeito ao anti-imperialista.<\/p>\n<p>Em 19 de setembro de 1958, foi formado um Governo Provis\u00f3rio da Rep\u00fablica Argelina (GPRA), presidido pelo moderado Ferhat Abbas. Os stalinistas somente apoiam o GPRA e a exig\u00eancia de independ\u00eancia total em 1960, mas ainda submetendo o sucesso da luta anticolonial a um processo pol\u00edtico na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>A independ\u00eancia da Arg\u00e9lia custou um elevado n\u00famero de mortos, se calcula que 1 milh\u00e3o de argelinos foram mortos durante o conflito, contra aproximadamente 30 mil franceses.<\/p>\n<p><strong>O PC portugu\u00eas e a luta anticolonial <\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 uma falsidade dos neo-stalinistas afirmar que a politica do Partido Comunista Portugu\u00eas sempre foi impulsionar a luta pela independ\u00eancia nas col\u00f4nias lus\u00f3fonas.<\/p>\n<p>O movimento pela independ\u00eancia de Angola se constituiu por uma s\u00e9rie de organiza\u00e7\u00f5es que lutaram contra a domina\u00e7\u00e3o colonial de armas nas m\u00e3os. Quem chegou ao poder foi o Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (MPLA), que permanece at\u00e9 hoje. Mas tamb\u00e9m fizeram parte desta luta a Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola (FNLA) e a Uni\u00e3o Nacional para a Independ\u00eancia Total de Angola (UNITA).<\/p>\n<p>No I Congresso do Partido Comunista Portugu\u00eas em 1923, quando o conjunto da Comitern estava abandonando a luta anticolonial, em virtude de privilegiar as alian\u00e7as com os setores da burguesia que eles consideravam como progressistas, foi proposta a \u201cvenda das col\u00f4nias\u201d africanas para a Inglaterra pelo ent\u00e3o secret\u00e1rio geral Carlos Rates para \u201cpromover o fomento agr\u00edcola e o com\u00e9rcio de Portugal\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>\u00b7. Mesmo o stalinista Jules Humberto Droz escreveu que foi muito dif\u00edcil convencer o CC a retirar esta proposta.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n<p>A ess\u00eancia da politica de concilia\u00e7\u00e3o de classes stalinista levou a que em 1935, no VII Congresso da Internacional Comunista, Bento Gon\u00e7alves, ent\u00e3o secret\u00e1rio geral do PCB, admitir a falta de atividade na luta \u201c<em>em defesa dos interesses dos povos coloniais oprimidos pelo colonialismo portugu\u00eas<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. O programa da Frente Popular de 1936\u00a0 \u00e9 baseado na defesa da integridade nacional, que inclu\u00eda o, considerado, territ\u00f3rio Ultramar, as col\u00f4nias. Sacrificando o apoio \u00e0 luta colonial na esperan\u00e7a de uma frente com a burguesia.<\/p>\n<p>A proclama\u00e7\u00e3o do partido na v\u00e9spera da II Guerra mundial \u201c<em>A caminho da guerra e da domina\u00e7\u00e3o estrangeira, a pol\u00edtica de trai\u00e7\u00e3o nacional do governo fascista Salazar<\/em>&#8220;, de 1937, denuncia o governo por n\u00e3o ajudar as empresas portuguesas nas col\u00f4nias em detrimento da entrada das empresas alem\u00e3s, principalmente em Angola.<\/p>\n<p>Mesmo em 1945 \u00c1lvaro Cunhal reconheceu a inexist\u00eancia do trabalho anticolonial no passado e que mesmo neste ano os progressos feitos at\u00e9 ent\u00e3o \u201c<em>s\u00f3 podem ser considerados como os primeiros e ainda hesitantes passos. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma das col\u00f4nias portuguesas com trabalho partid\u00e1rio<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a> Neste sentido Cunhal defendia uma politica nacional portuguesa que contribu\u00edsse para o desenvolvimento das col\u00f4nias e n\u00e3o para sua independ\u00eancia, pois o objetivo era buscar a unidade com os setores da burguesia que eles julgavam como progressistas.<\/p>\n<p>O n\u00famero 6 do jornal Avante, durante a 2\u00aa Guerra Mundial, no momento em que os Australianos invadiram o Timor, denunciou o ataque \u00e0 integridade nacional de Portugal, nem tocando no direito a autodetermina\u00e7\u00e3o do povo do Timor.<\/p>\n<p>O III Congresso do PCP em novembro de 1943 votou aos povos coloniais \u201c<em>o direito a constitu\u00edrem-se como Estados independentes<\/em>\u201d, mas considera que por serem pouco desenvolvidos n\u00e3o poderiam, \u201c<em>por si s\u00f3, nas circunst\u00e2ncias presentes, assegurar sua independ\u00eancia<\/em>\u201d e ficariam submetidos, se a conquistam, a outros imperialismos.<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a><\/p>\n<p>Isso porque, entre nos anos de 1940 e 1950, embora os stalinistas portugueses admitissem o direito \u00e0 independ\u00eancia das col\u00f4nias, o subordinavam \u00e0 luta pela democracia burguesa em Portugal. Opondo-se inclusive a que se formassem movimentos de independ\u00eancia colonial, alegando que n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es para as col\u00f4nias ficar independentes.<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a><\/p>\n<p>Em 1952 a V reuni\u00e3o Plen\u00e1ria Ampliada do Comit\u00ea Central declara que \u201c<em>s\u00f3 um regime democr\u00e1tico permitir\u00e1 uma ajuda efetiva ao povo portugu\u00eas aos povos das col\u00f4nias<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>. O sentido era sacrificar a luta colonial para subordin\u00e1-la a uma suposta unidade na luta antifascista.<\/p>\n<p>O programa de emerg\u00eancia do Conselho Nacional de Unidade Antifascista de 1946, que defendia a unidade com a burguesia contra a ditadura de Salazar, propunha a unidade nacional portuguesa incluindo as col\u00f4nias. Aceitando a miss\u00e3o civilizadora da metr\u00f3pole sobre os povos ind\u00edgenas, um fardo do \u201chomem branco\u201d portugu\u00eas de trazer os ind\u00edgenas \u00e0s luzes da civiliza\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>]<\/p>\n<p>Somente no V Congresso, em outubro de 1957, o PCP considera que est\u00e3o criadas as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que os povos da \u00c1frica conquistassem a sua liberdade e independ\u00eancia.<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a><\/p>\n<p>Lucio Lara, que foi dirigente do MPLA, descreve que os militantes angolanos eram \u201c<em>acusados de racistas por elementos da esquerda portuguesa, que n\u00e3o entendiam a necessidade de constituirmos organiza\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas de luta<\/em>\u201d, mostrando que era dif\u00edcil convencer a dilig\u00eancia portuguesa da inter-rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre a luta anticolonial e a revolu\u00e7\u00e3o contra o fascismo em Portugal.<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a><\/p>\n<p>Mesmo quando mudaram de posi\u00e7\u00e3o, apoiando a independ\u00eancia das col\u00f4nias, at\u00e9 1961, esta ret\u00f3rica n\u00e3o se traduziu em uma interven\u00e7\u00e3o concreta. A dire\u00e7\u00e3o do partido criticava as iniciativas de Mario Pinto Andrade por uma pol\u00edtica independentista, pois a prioridade seria lutar contra a ditadura de Salazar. Exigindo democracia na metr\u00f3pole e nas col\u00f4nias, mas n\u00e3o independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Realmente esta pol\u00edtica somente mudou significativamente na d\u00e9cada de 1960, quando foi publicado o jornal \u201c<em>O anticolonial<\/em>\u201d que tinha como consignas \u201c<em>pela paz e a autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos coloniais<\/em>\u201d, composto de militantes do Partido Comunista, FRELIMO, PAIGC e MPLA.<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a> Inclusive em 1970 a A\u00e7\u00e3o Revolucionaria Armada, ligada ao PCP come\u00e7ou a fazer sabotagens no porto de Lisboa contra o envio de soldados e armas para as col\u00f4nias.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a primeira manifesta\u00e7\u00e3o pela independ\u00eancia nas col\u00f4nias, em Portugal, na cidade do Porto, em janeiro de 1968, foi realizada pelas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda mao\u00edstas e n\u00e3o pelos stalinistas. Assim como em 1967 o PCP defendia contra a deser\u00e7\u00e3o individual de soldados portugueses que lutavam nas col\u00f4nias, pois consideravam que necessitariam de ativistas revolucion\u00e1rios dentro das for\u00e7as armadas para impulsionar a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica contra a ditadura em Portugal, enquanto as organiza\u00e7\u00f5es que lutavam pela independ\u00eancia nas col\u00f4nias faziam chamados pela deser\u00e7\u00e3o dos soldados portugueses.<\/p>\n<p>O inverso do que propunha Amilcar Cabral que afirmava que \u201c<em>a queda do fascismo em Portugal poderia n\u00e3o conduzir ao fim do colonialismo (\u2026) n\u00f3s estamos certos de que a liquida\u00e7\u00e3o do colonialismo portugu\u00eas arrastara a destrui\u00e7\u00e3o do fascismo em Portugal<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a><\/p>\n<p>Como se v\u00ea em Portugal, o Partido Comunista seguiu a regra mais geral de stalinistas de priorizar a concilia\u00e7\u00e3o de classes atrav\u00e9s de uma pol\u00edtica frente popular com a burguesia nacional, ou, uma frente ampla de luta contra a ditadura, subordinando a luta anticolonial de independ\u00eancia nacional.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Liga Contra o Imperialismo<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Fundada em 1926 por emigrantes argelinos simpatizantes do comunismo na \u00e9poca apoiados pelo Partido Comunista<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Coliga\u00e7\u00e3o de socialistas, comunistas e radicais, ganhou as elei\u00e7\u00f5es parlamentares de maio de 1936 sendo eleito primeiro-ministro <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/L\u00e9on_Blum\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">L\u00e9on Blum<\/a>. Manteve-se no poder at\u00e9 <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/1938\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1938<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Goerge Padmore, \u201cPan-africanismo or Communisn ?<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Gr\u00e9goire Madjaria, A quest\u00e3o colonial e a pol\u00edtica do Partido Comunista Franc\u00eas &#8211; 1944-47 (Crise do imperialismo colonial e do movimento oper\u00e1rio)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> D\u00e9colonisation&#8230; Claude MEILLASSOUX<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> L&#8217;Humanit\u00e9, 11 de maio de 1945<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> L\u2019Humanite em 19 de maio<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Maxime Benatouil, Jacobin.com.br\/2020\/05\/, No dia da vit\u00f3ria contra o nazismo, colonos franceses lan\u00e7aram um massacre na Arg\u00e9lia<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a>\u00a0 (1925-1961).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>\u00a0 Prefaciado por Jean-Paul Sartre<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a>\u00a0 J Paulo Guerra, Memoria das Guerras Coloniais, veja o programa de Fernando Rosas<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a>\u00a0 sar Oliveira, Primeiro Congresso Ilegal do PCP<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a>\u00a0 Bento Gol\u00e7alves, Escritos<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a>\u00a0 Alvaro Cunhal, Informe sobre Organiza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> \u00c1lvaro Cunhal, Informe Pol\u00edtico informe pol\u00edtico do Secretariado do Comit\u00ea Central ao I Congresso ilegal do Partido Comunista Portugu\u00eas, capitulo \u201cA Alian\u00e7a com os povos coloniais\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Antonio Costa Pinto, O fim do Imp\u00e9rio Portugu\u00eas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Resolu\u00e7\u00f5es, em Dalila Cabrita Mateus e Alvaro Mateus, A Luta pela Independ\u00eancia, a forma\u00e7\u00e3o das elites fundadoras do FRELIMO, MPLA e PAIGC.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Armando Aguiar, O mundo que os portugueses criaram<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Dalila Cabrita Mateus e Alvaro Mateus, A Luta pela Independ\u00eancia, a forma\u00e7\u00e3o das elites fundadoras do FRELIMO, MPLA e PAIGC e Antonio Costa Pinto, O fim do Imp\u00e9rio portugu\u00eas<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Era respeitado pelos pr\u00f3prios inimigos, no Pitcha, dezembro de 1984, em, Dalila Cabrita Mateus e \u00c1lvaro Mateus, A Luta pela Independ\u00eancia, a forma\u00e7\u00e3o das elites fundadoras do FRELIMO, MPLA e PAIGC.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> Dalila Cabrita Mateus e \u00c1lvaro Mateus, Angola 61, Guerra colonial, causas e consequ\u00eancias<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> Textos Politicos, Porto: CEC Henrique A Carneiro, 1974<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em artigos anteriores vimos como o abandono da luta anticolonial foi realizado pela III\u00aa Internacional Comunista, quando Stalin e Dimitrov assumiram a sua condu\u00e7\u00e3o. Isso refletiu nas interven\u00e7\u00f5es dos Partidos Comunistas em todo mundo. Ainda mais depois que o VII Congresso, em julho de 1935, aprovou a tese: \u201cFrente Unida: A Luta Contra o Fascismo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":66942,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[208,3501,3923,1018],"tags":[620,4005,4006,4536],"class_list":["post-66941","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-africa","category-negras-os","category-opressao","category-racismo","tag-americo-gomes","tag-marxismo-e-pan-africanismo","tag-pan-africanismo","tag-stalinismo-e-pan-africanismo"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Stalin-1.jpg","categories_names":["\u00c1frica","Negras\/os","Opress\u00e3o","Racismo"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66941","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66941"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66941\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66942"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66941"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66941"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66941"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}