{"id":66905,"date":"2022-05-15T00:49:23","date_gmt":"2022-05-15T03:49:23","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=66905"},"modified":"2022-05-15T00:49:23","modified_gmt":"2022-05-15T03:49:23","slug":"setenta-e-quatro-anos-a-nakba-continua-e-a-palestina-resiste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/05\/15\/setenta-e-quatro-anos-a-nakba-continua-e-a-palestina-resiste\/","title":{"rendered":"Setenta e quatro anos: a Nakba continua e a Palestina resiste"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;Com sangue n\u00f3s escrevemos para a Palestina.&#8221; A frase do revolucion\u00e1rio marxista palestino Ghasan Kanafani (1936-1972) revela a for\u00e7a da resist\u00eancia heroica e hist\u00f3rica de seu povo, que n\u00e3o se dobra ante a brutalidade da coloniza\u00e7\u00e3o israelense. S\u00e3o 74 anos de cont\u00ednua Nakba (cat\u00e1strofe cuja pedra basilar \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o em 78% das terras palestinas do Estado racista de Israel em 15 de maio de 1948, mediante limpeza \u00e9tnica planejada). Os palestinos existem porque resistem, desde o nascimento at\u00e9 a morte.<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por: Soraya Misleh<\/p>\n<p>Neste ano, o Dia da Nakba acontece sob o signo da execu\u00e7\u00e3o da correspondente da Al Jazeera, a jornalista palestina <a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/exercito-de-israel-executa-reporter-palestina-com-tiro-na-cabeca\/\">Shireen Abu Akleh,<\/a> que levou um tiro na cabe\u00e7a enquanto cobria a brutalidade da ocupa\u00e7\u00e3o israelense na aldeia palestina de Jenin. At\u00e9 seu funeral foi atacado, inclusive os que seguravam seu caix\u00e3o eram agredidos. Os palestinos, em resist\u00eancia, lotaram Jerusal\u00e9m e toda a \u00e1rea no entorno da Igreja. A multid\u00e3o, que homenageava sua m\u00e1rtir e se recusava a se curvar aos des\u00edgnios do colonizador, se estendeu por 75km.<\/p>\n<p>As tentativas de silenciar as vozes palestinas s\u00e3o parte da cont\u00ednua Nakba. Shireen n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. Somente neste ano s\u00e3o cerca de 60 palestinos e palestinas assassinados, inclusive crian\u00e7as. Segundo o Sindicato dos Jornalistas Palestinos, foram 86 jornalistas assassinados por Israel desde 1967 (quando o Estado sionista ocupou militarmente os 22% restantes da Palestina &#8211; Gaza, Cisjord\u00e2nia e a Cidade Velha de Jerusal\u00e9m). Kanafani, o cartunista Naji Al Ali, o fot\u00f3grafo de Gaza Yasser Murtaja (durante a Grande Marcha do Retorno, em 2018) est\u00e3o entre eles. Anualmente em m\u00e9dia s\u00e3o 500 a 700 jornalistas atacados brutalmente.<\/p>\n<p>Mas o sangue derramado segue a fermentar a resist\u00eancia &#8211; e a ampliar o desgaste internacional do projeto colonial sionista, em franco decl\u00ednio h\u00e1 anos. A impunidade e o aval ao Estado racista de Israel, somado \u00e0 sua g\u00eanese criminosa, deixou-o confort\u00e1vel para n\u00e3o mais maquiar sua face horrenda para o mundo. A execu\u00e7\u00e3o de Shireen, bombardeios massivos a Gaza, profana\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia da Mesquita de Al Aqsa como se viu mais uma vez este ano durante o per\u00edodo sagrado do Ramad\u00e3 &#8211; com centenas de palestinos feridos &#8211; s\u00e3o atos que os meios de comunica\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os dos grandes capitalistas, a servi\u00e7o do imperialismo estadunidense, n\u00e3o t\u00eam conseguido omitir.\u00a0 Ent\u00e3o buscam a artimanha das distor\u00e7\u00f5es e mentiras para encobrir a limpeza \u00e9tnica, o apartheid, e assim mant\u00eam os palestinos e a Palestina como ilustres desconhecidos. O fato \u00e9 que Israel \u00e9 sin\u00f4nimo de crime contra a humanidade. Essas ofensivas contra os palestinos e assassinatos n\u00e3o s\u00e3o pontuais ou isolados. S\u00e3o parte da barb\u00e1rie cotidiana do sionismo.<\/p>\n<p>\u00c9 a cont\u00ednua Nakba, que come\u00e7ou a ser delineada muito antes de 1948, a partir do surgimento do sionismo pol\u00edtico moderno em fins do s\u00e9culo XIX. A alian\u00e7a com o imperialismo para a coloniza\u00e7\u00e3o \u00e9 parte intr\u00ednseca, assim como a limpeza \u00e9tnica sempre esteve no horizonte e parte do planejamento. Imperialismo\/sionismo s\u00e3o inimigos poderosos da causa palestina, identificados por Kanafani em sua obra &#8220;A revolta de 1936-1939 na Palestina&#8221; (Editora Sundermann), al\u00e9m de outros dois cujo papel nefasto ao longo da hist\u00f3ria tem impedido a liberta\u00e7\u00e3o: os regimes \u00e1rabes e a burguesia \u00e1rabe-palestina. Lamentavelmente, estes inimigos continuam atuais. A normaliza\u00e7\u00e3o de ditaduras \u00e1rabes com o Estado de Israel nos \u00faltimos anos \u00e9 apenas a ponta do iceberg.<\/p>\n<p><strong>A cat\u00e1strofe e o povo palestino<\/strong><\/p>\n<p>O destino da Palestina era selado na promessa ao imperialismo de o sionismo ser o que chamava de o posto avan\u00e7ado da civiliza\u00e7\u00e3o contra a barb\u00e1rie. Ou seja, seu enclave militar na regi\u00e3o do Oriente M\u00e9dio e Norte da \u00c1frica, para seguir usurpando suas riquezas, numa regi\u00e3o rica em petr\u00f3leo e \u00e1gua subterr\u00e2nea.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da coloniza\u00e7\u00e3o da Palestina \u00e9 repleta dessas negociatas, \u00e0 margem de uma vida palestina que seguia e se dava sobretudo nas \u00e1reas rurais, onde habitava a maioria de seus habitantes. E \u00e9 sobre esta realidade que se imp\u00f5e o terceiro crime determinante: a recomenda\u00e7\u00e3o de partilha da Palestina em um Estado judeu e um \u00e1rabe, praticamente meio a meio, com Jerusal\u00e9m sob administra\u00e7\u00e3o internacional, pela Assembleia Geral da rec\u00e9m-criada Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) em 29 de novembro de 1947, presidida pelo diplomata brasileiro Osvaldo Aranha. O sinal verde para a limpeza \u00e9tnica planejada, que se iniciaria 12 dias depois e culminaria na pedra basilar da Nakba cont\u00ednua.<\/p>\n<p>Para a forma\u00e7\u00e3o do Estado racista de Israel em 1948 foram expulsos violentamente pelas gangues sionistas &#8211; fortemente armadas por Stalin -, em apenas seis meses, 800 mil palestinos de suas terras e destru\u00eddas cerca de 500 aldeias. Oitenta por cento dos que viviam naquelas terras ent\u00e3o ocupadas se tornaram refugiados. Foram ainda cometidos genoc\u00eddios em dezenas de aldeias nesse processo que foi a pedra fundamental do projeto colonial sionista. Treze mil palestinos foram assassinados. Nove mil foram jogados em campos de prisioneiros e torturados. Os dados s\u00e3o demonstrados pelo historiador palestino Walid Khalidi.<\/p>\n<p>Os palestinos tentaram resistir como puderam, mas encontravam-se absolutamente vulner\u00e1veis. Na derrota da poderosa revolu\u00e7\u00e3o que protagonizaram de 1936-1939 contra a coloniza\u00e7\u00e3o sionista e a Gr\u00e3-Bretanha, esta \u00faltima &#8211; que ficou com o mandato sobre a Palestina como esp\u00f3lio ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) &#8211; aniquilou as lideran\u00e7as e tratou de desarmar os palestinos. &#8220;N\u00e3o podiam sequer portar uma faca de cozinha&#8221;, contam os refugiados. Esse povo foi abandonado \u00e0 pr\u00f3pria sorte pelos regimes \u00e1rabes. &#8220;Venderam n\u00f3s como se vendesssem um animal&#8221;, afirmam os sobreviventes da Nakba.<\/p>\n<p>Em 1967, Israel ocupou militarmente o restante da Palestina. Mais 350 mil refugiados se somaram ao enorme contingente, que hoje totaliza 5 milh\u00f5es em campos nos pa\u00edses \u00e1rabes e milhares na di\u00e1spora.<\/p>\n<p>Hoje h\u00e1 13 milh\u00f5es de palestinos no mundo, metade fora de suas terras, impedido do leg\u00edtimo direito de retornar, e metade sob brutal expans\u00e3o colonial e limpeza \u00e9tnica. Todos enfrentam <a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/no-declinio-do-sionismo-denuncias-do-apartheid-se-ampliam\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">apartheid<\/a>, desde a fronteira.<\/p>\n<p>Internamente, s\u00e3o 2 milh\u00f5es em Gaza, sob cerco desumano h\u00e1 14 anos e bombardeios massivos ou &#8220;a conta-gotas&#8221;, longe dos olhos do mundo, vivendo crise humanit\u00e1ria dram\u00e1tica; mais de 3 milh\u00f5es na Cisjord\u00e2nia\/Jerusal\u00e9m, submetidos \u00e0 limpeza \u00e9tnica na agressiva expans\u00e3o colonial, execu\u00e7\u00f5es, pris\u00f5es pol\u00edticas, demoli\u00e7\u00e3o de casas e todo um aparato para a segrega\u00e7\u00e3o (checkpoints, muro do apartheid, diferencia\u00e7\u00e3o de documentos, placas de carros, estradas exclusivas para colonos sionistas etc.); e 1,9 milh\u00e3o nas \u00e1reas ocupadas em 1948, sujeitos a cerca de 60 leis racistas, destrui\u00e7\u00e3o de aldeias bedu\u00ednas, repress\u00e3o. A sociedade fragmentada n\u00e3o pode se encontrar em sua pr\u00f3pria terra. Mas se unifica na resist\u00eancia, onde quer que esteja.<\/p>\n<p>Uma solu\u00e7\u00e3o justa deve contemplar a totalidade do povo palestino. Isso n\u00e3o vir\u00e1 com a tal &#8220;solu\u00e7\u00e3o&#8221; de dois estados, j\u00e1 morta, mas sem que soltem a al\u00e7a do caixa, da gerente da ocupa\u00e7\u00e3o &#8211; Autoridade Palestina &#8211; \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse ser injusta desde sempre, est\u00e1 inviabilizada pela expans\u00e3o colonial. Por essa raz\u00e3o, tem se ampliado entre palestinos, inclusive aqueles que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o viam outra sa\u00edda que n\u00e3o aceitar o m\u00ednimo, a defesa de que se retome o que estava previsto na carta inaugural da Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (OLP), fundada em 1964, que declarava: \u201cA Palestina, com suas fronteiras existentes no tempo do mandato brit\u00e2nico, \u00e9 uma unidade regional integral.\u201d<\/p>\n<p>Apesar da tr\u00e1gica situa\u00e7\u00e3o imposta pela coloniza\u00e7\u00e3o e racismo, os palestinos se negam a desaparecer do mapa, h\u00e1 74 anos. Nas mem\u00f3rias da Nakba, que mant\u00eam viva, na sua poesia e literatura, nas pedras contra tanques e nos chamados a campanhas de solidariedade internacional \u2013 como a de <a href=\"https:\/\/bdsmovement.net\/pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">BDS<\/a> (boicote, desinvestimento e san\u00e7\u00f5es) a Israel \u2013, a resist\u00eancia \u00e9 permanente. Segue a inspirar oprimidos e explorados em todo o mundo.<\/p>\n<p>Que neste 15 de maio eleve-se a solidariedade internacional rumo \u00e0 Palestina livre, do rio ao mar. Tremulem em todo o mundo bandeiras palestinas, s\u00edmbolos das lutas justas em todo o mundo. Justi\u00e7a para Shireen Abu Akleh e todos os m\u00e1rtires.<\/p>\n<p><em>Fonte: Monitor do Oriente M\u00e9dio<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Com sangue n\u00f3s escrevemos para a Palestina.&#8221; A frase do revolucion\u00e1rio marxista palestino Ghasan Kanafani (1936-1972) revela a for\u00e7a da resist\u00eancia heroica e hist\u00f3rica de seu povo, que n\u00e3o se dobra ante a brutalidade da coloniza\u00e7\u00e3o israelense. 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