{"id":66391,"date":"2022-03-18T12:48:24","date_gmt":"2022-03-18T15:48:24","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=66391"},"modified":"2022-12-07T20:18:16","modified_gmt":"2022-12-07T20:18:16","slug":"argentina-a-adaptacao-dos-deputados-da-fit-u-ao-parlamento-burgues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/03\/18\/argentina-a-adaptacao-dos-deputados-da-fit-u-ao-parlamento-burgues\/","title":{"rendered":"Argentina| A adapta\u00e7\u00e3o dos deputados da FIT-U ao parlamento burgu\u00eas"},"content":{"rendered":"<p><em>Em um artigo recente, reivindicamos a atua\u00e7\u00e3o da deputada constituinte Mar\u00eda Rivera (militante do MIT chileno e da LIT-QI) na Assembleia Constituinte de seu pa\u00eds como um exemplo de qual deve ser a a\u00e7\u00e3o de um deputado revolucion\u00e1rio dentro das institui\u00e7\u00f5es da democracia burguesa [1]. Na Argentina, a FIT-U (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores &#8211; Unidade) tem, a mais de uma d\u00e9cada, representantes parlamentares no Congresso Nacional e em legislaturas provinciais. Eles atuaram como Mar\u00eda Rivera?<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Alejandro Iturbe\/Luciana Danquis<\/p>\n<p>Antes de abordar os exemplos concretos e responder a essa pergunta, achamos necess\u00e1rio fazer duas considera\u00e7\u00f5es preliminares para fornecer a base conceitual em que se enquadra esse debate. Em primeiro lugar, para esclarecer falsas pol\u00eamicas, expressar com nitidez que n\u00e3o temos cretinismo antieleitoral e antiparlamentar, ou seja, a concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que rejeita qualquer atividade revolucion\u00e1ria neste terreno da democracia burguesa porque significa \u201ccapitular ao sistema burgu\u00eas\u201d (o \u201cabstencionismo\u201d).<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, reivindicamos totalmente os conceitos expressos por Lenin em seu escrito <em>O \u201cEsquerdismo\u201d, doen\u00e7a infantil do comunismo<\/em> (1920), onde critica as posi\u00e7\u00f5es desse tipo de alguns setores da III Internacional. Lenin exp\u00f5e que, enquanto tivesse setores de certo peso da classe oper\u00e1ria que confiassem nas elei\u00e7\u00f5es burguesas e no Parlamento, era uma obriga\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios intervir neste campo. E nele tamb\u00e9m disputar a consci\u00eancia e a a\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, como uma \u201cplataforma secund\u00e1ria\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 luta de classes. Por isso, o PSTU argentino participa das elei\u00e7\u00f5es com candidatos nas listas da FIT-U (embora n\u00e3o integra esta frente permanentemente).<\/p>\n<p>Em segundo lugar, como se refere o citado artigo sobre Mar\u00eda Rivera, ao mesmo tempo, foram estabelecidos o contexto te\u00f3rico e os princ\u00edpios para esta atividade. Existem v\u00e1rios documentos, mas a s\u00edntese conceitual est\u00e1 nas Teses <em>\u201cO Partido Comunista e o parlamentarismo\u201d<\/em>, aprovadas pelo segundo congresso da Terceira Internacional Comunista, em 1920 [2].<\/p>\n<p>O marxismo sempre considerou que a participa\u00e7\u00e3o dos deputados comunistas nos parlamentos burgueses consistia em utilizar essa tribuna para amplificar a agita\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, desenvolver a consci\u00eancia de classe, enfim, para despertar <em>\u201c&#8230; a hostilidade das classes prolet\u00e1rias contra as classes dirigentes\u201d<\/em> e as institui\u00e7\u00f5es do seu regime pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>O que s\u00e3o os parlamentos burgueses?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio aprofundar esse tema do car\u00e1ter da institui\u00e7\u00e3o parlamentar e seu papel em um regime pol\u00edtico burgu\u00eas. Historicamente, o sistema eleitoral e parlamentar burgu\u00eas (e as liberdades democr\u00e1ticas concretas para os trabalhadores e o povo que o acompanham) surgiram como uma conquista, geralmente como resultado de lutas. No passado, contra as monarquias absolutistas na Europa e contra os regimes coloniais em v\u00e1rias regi\u00f5es do mundo. Mais recentemente, contra o projeto nazi-fascista, essencialmente na Europa, e contra as ditaduras, por exemplo, na Am\u00e9rica Latina. \u00c9 por isso, que, quando esses regimes s\u00e3o amea\u00e7ados por golpes de Estado ou por restri\u00e7\u00f5es \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas, n\u00f3s os defendemos.<\/p>\n<p>Mas fora dessas situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, a tarefa dos revolucion\u00e1rios diante desses regimes \u00e9 denunci\u00e1-los e combat\u00ea-los em seu papel de administradores e defensores do sistema capitalista. Porque uma de suas fun\u00e7\u00f5es principais (a essencial no contexto deste debate) \u00e9 enganar os trabalhadores e o povo, dizendo-lhes que este \u00e9 o mecanismo atrav\u00e9s do qual eles \u201cdecidem os rumos do pa\u00eds\u201d e que qualquer tentativa de mudar alguma coisa ou lutar contra as injusti\u00e7as deve ser feito dentro dessas institui\u00e7\u00f5es e pela \u201cvia constitucional\u201d.<\/p>\n<p>Em 1983, o falecido ex-presidente argentino Ra\u00fal Alfons\u00edn, durante a campanha eleitoral ap\u00f3s a queda da ditadura militar, sintetizou esta \u201csemeadura de ilus\u00f5es\u201d no lema <em>\u201cCom a democracia [burguesa] se come, cura e educa\u201d<\/em>. Nos EUA, a m\u00eddia burguesa utiliza permanentemente a frase: <em>\u201cEscreva para seu representante [deputado]\u201d.<\/em> Portanto, para impulsionar a fundo a a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas, e o avan\u00e7o de sua consci\u00eancia, \u00e9 imprescind\u00edvel combater de frente essa falsa ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste contexto, \u00e9 necess\u00e1rio incorporar mais elementos. Como diz o artigo citado: <em>\u201cO advento da \u00e9poca imperialista, [\u00e9poca de] <strong>\u201cguerras, crises e revolu\u00e7\u00f5es\u201d,<\/strong> liquidou qualquer tra\u00e7o \u201cprogressista\u201d que o parlamento pudesse ter na \u00e9poca hist\u00f3rica anterior (&#8230;) e o transformou definitivamente em <strong>\u201cum instrumento de mentira, fraude, viol\u00eancia, destrui\u00e7\u00e3o, banditismo\u201d<\/strong><\/em>, defini\u00e7\u00e3o dada pelas Teses da III Internacional.<\/p>\n<p><strong>Nos pa\u00edses semicoloniais<\/strong><\/p>\n<p>Nos pa\u00edses latino-americanos, esse cen\u00e1rio \u00e9 agravado pelo car\u00e1ter de semicol\u00f4nias do imperialismo desses Estados: os parlamentos, como reflexo da submiss\u00e3o das burguesias nacionais, deixaram de ser a express\u00e3o da independ\u00eancia pol\u00edtica do pa\u00eds e tornaram-se institui\u00e7\u00f5es desses regimes a servi\u00e7o da domina\u00e7\u00e3o imperialista.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 algo novo. Quando o ex-presidente norte-americano George W. Bush visitou a Argentina em 1990, ele foi convidado para uma sess\u00e3o extraordin\u00e1ria do Congresso Nacional. Luis Zamora, ent\u00e3o deputado pelo MAS (Movimento ao Socialismo), repudiou sua presen\u00e7a e foi expulso do recinto aos empurr\u00f5es por outros deputados. Depois, as autoridades peronistas (supostamente \u201cnacionais e populares\u201d) e todas as outras bancadas saudaram Bush, aplaudindo de p\u00e9, como tributo de \u201cdesagravo\u201d[3].<\/p>\n<p>Uma realidade que n\u00e3o mudou. Atualmente, com exce\u00e7\u00e3o dos deputados da FIT-U e alguns representantes isolados da ala que se diz mais \u00e0 esquerda da Frente de Todos (a coaliz\u00e3o peronista governista), todos os demais legisladores s\u00e3o a favor de que o governo conclua rapidamente o acordo com o FMI para continuar pagando \u00e0 fraudulenta e agonizante d\u00edvida externa. Discute-se apenas a magnitude do ajuste, como consequ\u00eancia, que dever\u00e1 ser aplicado sobre os trabalhadores e o povo.<\/p>\n<p><strong>O programa da FIT-U<\/strong><\/p>\n<p>A FIT-U define-se como uma frente eleitoral. Houve propostas de alguns de seus componentes de avan\u00e7ar para constituir um partido unificado, mas nunca avan\u00e7aram [4]. No entanto, pelo menos nos grandes temas pol\u00edticos nacionais, atua cada vez mais como um bloco pol\u00edtico permanente. Ou seja, coordenam suas atividades por essa unidade eleitoral.<\/p>\n<p>Atualmente \u00e9 integrada por quatro organiza\u00e7\u00f5es: Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), o Partido Oper\u00e1rio (PO), Esquerda Socialista (IS) e o Movimento Socialista dos Trabalhadores (MST). Todas se reivindicam \u201ctrotskistas\u201d, isto \u00e9, como \u201corganiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias\u201d. No entanto, o programa da FIT-U n\u00e3o \u00e9 um programa verdadeiramente trotskista se o compararmos com o <em>Programa de Transi\u00e7\u00e3o<\/em> escrito por Trotsky e aprovado como o documento principal do Congresso de Funda\u00e7\u00e3o da IV Internacional, em 1938[5].<\/p>\n<p>\u00c9 claro que n\u00e3o estamos nos referindo a uma repeti\u00e7\u00e3o textual de suas propostas e reivindica\u00e7\u00f5es que necessariamente devem ser adaptadas \u00e0s novas realidades e especificidades nacionais. Estamos nos referindo a duas quest\u00f5es conceptuais centrais. A primeira \u00e9 que, tal como Trotsky expressou no pr\u00f3prio texto e em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, o eixo sobre o qual se articula um programa trotskista \u00e9 a estrat\u00e9gia da tomada do poder pela classe trabalhadora e pelas massas, atrav\u00e9s de sua mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, para destruir o Estado burgu\u00eas, construir um Estado oper\u00e1rio baseado nas organiza\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e na luta, e assim iniciar a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo.<\/p>\n<p>A segunda quest\u00e3o \u00e9 que, em torno deste eixo, se articule um \u201cprograma de reivindica\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias\u201d que, a partir das necessidades concretas dos trabalhadores e das massas, deve servir de \u201cponte\u201d para esse objetivo. Uma \u201cponte\u201d que s\u00f3 ser\u00e1 atravessada na medida em que se desenvolva uma mobiliza\u00e7\u00e3o sustentada e independente na qual avancem em sua a\u00e7\u00e3o, consci\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, uma consigna (ou uma proposta pol\u00edtica espec\u00edfica) combina dois aspectos intimamente relacionados: por um lado, deve servir para gerar processos de mobiliza\u00e7\u00e3o (para que n\u00f3s revolucion\u00e1rios possamos nos inserir neles); por outro, s\u00f3 faz sentido se for formulada na perspectiva estrat\u00e9gica que analisamos, e colocada a seu servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Como aponta um artigo do PSTU argentino, o programa da FIT-U apresenta v\u00e1rios <em>\u201cpontos corretos\u201d<\/em> [6]. Em sua introdu\u00e7\u00e3o afirma: <em>\u201cApoiamos a independ\u00eancia pol\u00edtica dos trabalhadores e trabalhadoras diante de qualquer variante patronal, (&#8230;) propomos uma sa\u00edda de independ\u00eancia de classe que supere essa armadilha na qual pretendem colocar o povo\u201d<\/em>. A lista das palavras de ordem \u00e9 encabe\u00e7ada pela <em>Ruptura com o FMI e n\u00e3o o pagamento da d\u00edvida<\/em> [externa], de grande import\u00e2ncia na Argentina hoje, e prop\u00f5e <em>Por um governo dos trabalhadores e do povo imposto pela mobiliza\u00e7\u00e3o dos explorados e oprimidos&#8230; [como] uma sa\u00edda pol\u00edtica pr\u00f3pria dos trabalhadores<\/em>.<\/p>\n<p>No entanto, nesse cen\u00e1rio, apresenta omiss\u00f5es e lacunas importantes. Em primeiro lugar, <em>\u201comite uma den\u00fancia implac\u00e1vel contra o regime pol\u00edtico: a democracia dos ricos\u201d<\/em>. Em segundo lugar, <em>\u201cn\u00e3o existe o conceito de que seja necess\u00e1ria uma revolu\u00e7\u00e3o, dirigida pela classe trabalhadora e suas organiza\u00e7\u00f5es, para tomar o poder\u201d<\/em> [7].<\/p>\n<p><strong>A a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da FIT-U<\/strong><\/p>\n<p>Estas omiss\u00f5es e lacunas s\u00e3o agravadas porque, nas campanhas eleitorais, os candidatos da FIT-U rebaixam a apresenta\u00e7\u00e3o do seu programa e, grande parte da atividade p\u00fablica das organiza\u00e7\u00f5es, dirigentes e deputados da FIT-U visa insistir na import\u00e2ncia do aumento do apoio eleitoral \u00e0 FIT-U e a obten\u00e7\u00e3o de mais deputados nas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mais uma vez, queremos evitar falsas pol\u00eamicas: nos processos eleitorais, militantes do PSTU argentino integraram essa organiza\u00e7\u00e3o e realizaram campanhas ativas pelo voto nas listas da FIT-U. Consideramos o aumento de seu n\u00famero de votos e de suas bancadas de deputados um fato muito positivo da realidade pol\u00edtica argentina, pois expressam, mesmo no terreno distorcido da democracia burguesa, um avan\u00e7o na consci\u00eancia de um setor dos trabalhadores e das massas da Argentina.<\/p>\n<p>Mas se essa atividade e esse crescimento n\u00e3o se articulam explicitamente com as considera\u00e7\u00f5es anteriores, acaba dando uma mensagem confusa eleitoralista: transmite-se aos trabalhadores e \u00e0s massas a ideia de que basta ter muitos deputados de esquerda e se mobilizar \u201cnormalmente\u201d para alcan\u00e7ar a \u201csa\u00edda pol\u00edtica\u201d que se prop\u00f5e, sem que seja necess\u00e1ria a mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e a tomada do poder.<\/p>\n<p><strong>Alguns exemplos muito negativos<\/strong><\/p>\n<p>Em atividades p\u00fablicas e parlamentares dos deputados da FIT-U surgem problemas ainda mais graves. Por exemplo, recentemente, Gabriel Solano (um dos principais dirigentes do PO e legislador da Cidade de Buenos Aires) participou de um programa jornal\u00edstico em que se discutiu o tema do narcotr\u00e1fico, baseado na morte de v\u00e1rias pessoas por consumir coca\u00edna adulterada, e da pris\u00e3o de um <em>dealer (<\/em>vendedor de drogas ndt.<em>).<\/em> Al\u00e9m do jornalista que conduziu o debate estavam presentes outros convidados, como Guillermo Moreno, empres\u00e1rio e economista peronista, ex-funcion\u00e1rio dos governos kirchneristas entre 2003 e 2015 [8].<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o de Solano come\u00e7ou com uma velha frase do general Per\u00f3n (O peixe apodrece pela cabe\u00e7a), para assinalar que o narcotr\u00e1fico, de fato, \u00e9 dirigido pelo pr\u00f3prio Estado, que muitas de suas institui\u00e7\u00f5es o protegem (servidores p\u00fablicos, Justi\u00e7a e Pol\u00edcia), que lucram com eles e de onde surgem grandes neg\u00f3cios usufru\u00eddos por banqueiros e empres\u00e1rios. Por isso, o central era agir contra isso. Solano nunca se referiu ao Estado como \u201ccapitalista\u201d nem apontou que a corrup\u00e7\u00e3o gerada pelo narcotr\u00e1fico (que sem d\u00favidas existe) \u00e9 de fato, uma express\u00e3o espec\u00edfica da corrup\u00e7\u00e3o inerente ao Estado burgu\u00eas e suas institui\u00e7\u00f5es, como defensores dos neg\u00f3cios e lucros dos capitalistas. Acabou jogando o triste papel de \u201cbom jovem de esquerda\u201d que d\u00e1 conselhos \u00e0 burguesia. N\u00e3o foi por acaso que tanto o jornalista quanto Moreno elogiaram calorosamente sua participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pode-se argumentar que foi uma atitude pessoal de Solano, mas n\u00e3o \u00e9 assim: infelizmente, tem ocorrido com frequ\u00eancia nos legisladores da FIT-U. Outro exemplo, em 2018, durante o governo de Mauricio Macri (burguesia de direita), um projeto de legaliza\u00e7\u00e3o do direito ao aborto livre e gratuito seria discutido pela primeira vez no Congresso argentino, num cen\u00e1rio de importantes mobiliza\u00e7\u00f5es de mulheres (que seria conhecido como a \u201cmar\u00e9 verde\u201d).<\/p>\n<p>Os dois deputados da FIT (Romina del Pl\u00e1, do PO, e Nicol\u00e1s del Ca\u00f1o, do PTS) apoiaram o projeto, enquanto as bancadas burguesas (essencialmente o macrismo e o peronismo) se dividiram. Em fun\u00e7\u00e3o dos mecanismos parlamentares, foram realizadas reuni\u00f5es para apresenta\u00e7\u00e3o do projeto e conseguir sua aprova\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados. At\u00e9 aqui, n\u00e3o existe nenhum problema: uma lei justa reclamada com importantes mobiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No entanto, a FIT passou por \u201cv\u00e1rias cidades\u201d j\u00e1 que Romina del Pl\u00e1 integrou-se a um grupo de whatsApp de deputadas chamado L@s Sororas (significa \u201cas irm\u00e3s\u201d), com as deputadas Silvia Lospennato (macrismo) e\u00a0 M\u00f3nica Macha (peronismo), entre outras [9]. O grupo teve difus\u00e3o p\u00fablica, com artigos e fotos em diversos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Algo como uma \u201cbancada feminista transversal\u201d que transgride qualquer fronteira de classe e que transmite a ideia de que \u00e9 v\u00e1lido formar um grupo de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica parlamentar com representantes de partidos burgueses que, quando governam, geram fome e reprimem os trabalhadores e trabalhadoras. Nem Nicol\u00e1s del Ca\u00f1o nem o PTS jamais criticaram esse fato.<\/p>\n<p>Vejamos um exemplo de que esse crit\u00e9rio dos deputados da FIT n\u00e3o \u00e9 excepcional, mas generalizado. Em dezembro de 2015, o governo peronista de Cristina Fern\u00e1ndez de Kirchner acabava de perder as elei\u00e7\u00f5es presidenciais e legislativas contra a coaliz\u00e3o burguesa de direita. Isto significava que, al\u00e9m da presid\u00eancia, tamb\u00e9m perderia sua maioria parlamentar. Naquela \u00e9poca, convocou uma sess\u00e3o especial na qual apresentou mais de 90 projetos de lei. Os deputados de <em>Cambiemos <\/em>(a coaliz\u00e3o burguesa de direita) n\u00e3o compareceram \u00e0 sess\u00e3o e tamb\u00e9m houve algumas deser\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio bloco peronista. O governo conseguiu o qu\u00f3rum necess\u00e1rio para se reunir gra\u00e7as \u00e0 presen\u00e7a dos deputados das for\u00e7as de centro-esquerda e dos tr\u00eas deputados da FIT (Nicol\u00e1s del Ca\u00f1o e Myriam Bregman, do PTS, e Pablo L\u00f3pez do PO). O argumento utilizado para esta \u201cajuda parlamentar\u201d ao governo burgu\u00eas de sa\u00edda foi que alguns desses projetos eram <em>\u201cfavor\u00e1veis aos trabalhadores\u201d<\/em> e que precisavam ser aprovados, segundo declara\u00e7\u00f5es de Pablo L\u00f3pez.<\/p>\n<p>Todos os projetos foram votados em \u201c<em>livro fechado<\/em>\u201d, ou seja, sem possibilidade de debate ou que os deputados da FIT pudessem apresentar seus pr\u00f3prios projetos. A presen\u00e7a dos deputados da FIT acabou permitindo que um governo e um parlamento burgueses aprovassem um conjunto de leis (n\u00e3o apenas aquelas teoricamente <em>\u201cfavor\u00e1veis aos trabalhadores\u201d<\/em>). No jarg\u00e3o parlamentar argentino, se utiliza a express\u00e3o \u201c<em>votar com o traseiro<\/em>\u201d justamente quando os deputados n\u00e3o votam uma lei, mas permitem sua aprova\u00e7\u00e3o mediante qu\u00f3rum. A verdade \u00e9 que os deputados da FIT <em>\u201cvotaram com o traseiro\u201d<\/em> junto com um governo burgu\u00eas. Isto \u00e9 o oposto das recomenda\u00e7\u00f5es de Lenin e das resolu\u00e7\u00f5es do Segundo Congresso da Internacional Comunista, \u00e0s quais todas as for\u00e7as que comp\u00f5em a FIT dizem continuar reivindicando.<\/p>\n<p>Este profundo eleitoralismo e parlamentarismo afetam a todas as for\u00e7as da FIT-U. Recentemente, um grande inc\u00eandio atingiu uma \u00e1rea muito extensa da vegeta\u00e7\u00e3o natural da prov\u00edncia de Corrientes. As respostas do governo provincial e nacional a este desastre foram muito fracas e tardias. Santiago Maratea, um jovem e popular <em>influencer<\/em>, organizou uma campanha com seus seguidores e arrecadou o equivalente a um milh\u00e3o de d\u00f3lares (ao c\u00e2mbio oficial) que colocou a servi\u00e7o do combate ao inc\u00eandio, fato que teve grande repercuss\u00e3o na m\u00eddia.<\/p>\n<p>Nesse contexto, em uma entrevista sobre sua posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, declarou que havia votado nos candidatos da FIT-U. Ou seja, \u00e9 um jovem de grande popularidade medi\u00e1tica, sens\u00edvel aos problemas da sociedade e com perfil de eleitor da esquerda, embora bastante confuso. Em um artigo expressou <strong><em>\u201ctrabalho para fomentar a antipol\u00edtica entre os jovens que me seguem\u201d<\/em><\/strong> [10].<\/p>\n<p>Ou seja, declara\u00e7\u00f5es que seria interessante aproveitar se estivesse em uma campanha eleitoral, mas que, em meio \u00e0 atual situa\u00e7\u00e3o argentina, e especificamente a de Corrientes, n\u00e3o passou de um fato circunstancial. No entanto, Esquerda Socialista (IS) publicou no blog de seu site o seguinte: <em>\u201cSanti Maratea, quem arrecadou mais de 100 milh\u00f5es [de pesos] em solidariedade aos atingidos pelos inc\u00eandios em Corrientes, quando perguntado no ano passado pelas elei\u00e7\u00f5es, foi contundente em seu apoio \u00e0 Esquerda: <strong>\u00abEu votei em Del Ca\u00f1o&#8230;\u00bb,<\/strong> ressaltando que se a esquerda ganhasse <strong>\u00abestar\u00edamos melhor\u00bb<\/strong><\/em> [11]. Desta forma, a IS transmite claramente aos jovens a mensagem de que basta votar na esquerda para ganhar as elei\u00e7\u00f5es que todos os problemas dos trabalhadores e as massas poder\u00e3o ser resolvidos.<\/p>\n<p><strong>A a\u00e7\u00e3o erosiva da democracia burguesa<\/strong><\/p>\n<p>Por que as organiza\u00e7\u00f5es que se reivindicam trotskistas e revolucion\u00e1rias, em contradi\u00e7\u00e3o com o formulado pela III Internacional, tomam como centro de sua milit\u00e2ncia a atividade nas elei\u00e7\u00f5es burguesas e no parlamento? \u00c9 um processo muito profundo que precisa ser explicado.<\/p>\n<p>Dissemos que a democracia burguesa tem como um de seus principais objetivos enganar os trabalhadores e as massas. Neste contexto, tem uma pol\u00edtica de coopta\u00e7\u00e3o para as organiza\u00e7\u00f5es da esquerda revolucion\u00e1ria que come\u00e7am a ter algum peso. Diz: <em>\u201cexiste um espa\u00e7o para voc\u00eas se n\u00e3o extrapolam o per\u00edmetro eleitoral\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Se come\u00e7am a obter boas vota\u00e7\u00f5es e eleger deputados, o pr\u00f3ximo passo \u00e9 o que podemos chamar \u201cembriaguez eleitoral\u201d e a conclus\u00e3o de que <em>\u201ca coisa passa por a\u00ed\u201d.<\/em> O seguinte passo \u00e9 a adapta\u00e7\u00e3o profunda e a capitula\u00e7\u00e3o ao sistema.<\/p>\n<p>N\u00f3s falamos com conhecimento de causa. Foi o MAS quem abriu o caminho para que o trotskismo argentino sa\u00edsse de sua marginalidade e passasse a ser um elemento real da pol\u00edtica argentina, o que se expressou na elei\u00e7\u00e3o de Luis Zamora como deputado em 1989, e sua transforma\u00e7\u00e3o em uma figura importante da vida pol\u00edtica do pa\u00eds. A partir de ent\u00e3o, o MAS sofreu essa press\u00e3o que descrevemos acima e come\u00e7ou a se adaptar a ela, um processo que foi um componente muito importante de sua posterior crise e explos\u00e3o.<\/p>\n<p>O grande problema n\u00e3o \u00e9 apenas o giro eleitoralista e parlamentarista, e sim que come\u00e7a a mudar o car\u00e1ter da organiza\u00e7\u00e3o: deixa de ser a \u201cfa\u00edsca da revolu\u00e7\u00e3o\u201d e passa a ser um complemento do sistema, uma v\u00e1lvula de escape que descomprime a luta revolucion\u00e1ria das massas. As organiza\u00e7\u00f5es integrantes da FIT-U est\u00e3o vivendo claramente esse processo.<\/p>\n<p>Voltemos ent\u00e3o \u00e0 pergunta inicial: os parlamentares da FIT-U t\u00eam atuado da mesma forma que Mar\u00eda Rivera, ou seja, como \u201ctribunos revolucion\u00e1rios\u201d? Acreditamos que n\u00e3o, que sua atividade n\u00e3o pode nem deve ser tomada como modelo de aplica\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios propostos pela III Internacional. Pelo contr\u00e1rio, reivindicamos a atua\u00e7\u00e3o de Mar\u00eda Rivera na Assembleia Constituinte chilena.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] https:\/\/litci.org\/pt\/maria-rivera-uma-tribuna-da-revolucao-chilena-na-convencao-constituinte\/<\/p>\n<p>[2] Tese, manifestos e resolu\u00e7\u00f5es adotados pelos Quatro Primeiros Congressos da Internacional Comunista (1919-1923). 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o digital. Valencia: Edicions Internacionals Sedov, 2017, pp. 91-97.<\/p>\n<p>[3] <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rtnjwX-41zo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rtnjwX-41zo<\/a><\/p>\n<p>[4] Ver, por exemplo: <a href=\"https:\/\/www.marxist.com\/argentina-y-el-partido-de-izquierda-unificado.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxist.com\/argentina-y-el-partido-de-izquierda-unificado.htm<\/a><\/p>\n<p>[5] <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/1938\/prog-trans.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/1938\/prog-trans.htm<\/a><\/p>\n<p>[6] <a href=\"https:\/\/www.pstu.com.ar\/sobre-el-programa-del-fit-unidad\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.pstu.com.ar\/sobre-el-programa-del-fit-unidad\/<\/a><\/p>\n<p>[7] Idem.<\/p>\n<p>[8] <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ahFYgQwnx8k\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ahFYgQwnx8k<\/a><\/p>\n<p>[9] <a href=\"https:\/\/www.pstu.com.ar\/aborto-legal-fit-sororidad-o-hermandad-de-clase\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.pstu.com.ar\/aborto-legal-fit-sororidad-o-hermandad-de-clase\/<\/a><\/p>\n<p>[10] <a href=\"https:\/\/www.diariopopular.com.ar\/espectaculos\/santi-maratea-duro-el-cantante-la-mancha-rolando-no-te-conoce-nadie-boludo-n620422\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.diariopopular.com.ar\/espectaculos\/santi-maratea-duro-el-cantante-la-mancha-rolando-no-te-conoce-nadie-boludo-n620422<\/a><\/p>\n<p>[11] <a href=\"https:\/\/izquierdasocialista.org.ar\/2020\/index.php\/blog\/para-la-web\/item\/20194-santi-maratea-si-ganaba-la-izquierda-estariamos-mejor\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/izquierdasocialista.org.ar\/2020\/index.php\/blog\/para-la-web\/item\/20194-santi-maratea-si-ganaba-la-izquierda-estariamos-mejor<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: rosangela Botelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um artigo recente, reivindicamos a atua\u00e7\u00e3o da deputada constituinte Mar\u00eda Rivera (militante do MIT chileno e da LIT-QI) na Assembleia Constituinte de seu pa\u00eds como um exemplo de qual deve ser a a\u00e7\u00e3o de um deputado revolucion\u00e1rio dentro das institui\u00e7\u00f5es da democracia burguesa [1]. Na Argentina, a FIT-U (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":66392,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[94,1764,49],"tags":[1551,4177,4557,147],"class_list":["post-66391","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-argentina","category-maria-rivera","category-polemica","tag-alejandro-iturbe","tag-fit-u-argentina","tag-luciana-danquis","tag-maria-rivera"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Argentina-1.jpg","categories_names":["Argentina","Maria Rivera","Pol\u00eamica"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66391","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66391"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66391\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75524,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66391\/revisions\/75524"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66392"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66391"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66391"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66391"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}