{"id":66253,"date":"2022-03-06T19:27:33","date_gmt":"2022-03-06T22:27:33","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=66253"},"modified":"2022-03-06T19:27:33","modified_gmt":"2022-03-06T22:27:33","slug":"o-stalinismo-a-crise-da-ordem-mundial-e-a-invasao-russa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/03\/06\/o-stalinismo-a-crise-da-ordem-mundial-e-a-invasao-russa\/","title":{"rendered":"O stalinismo , a crise da ordem mundial e a invas\u00e3o russa"},"content":{"rendered":"<p><em>Existe um grande debate entre os ativistas em todo o mundo sobre que posi\u00e7\u00e3o tomar sobre a guerra da Ucr\u00e2nia. Nesse debate, existe um peso importante da campanha feita pelos partidos comunistas, em sua maioria apoiando a invas\u00e3o russa. Al\u00e9m desses partidos, existe uma s\u00e9rie de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o stalinistas, mas que reproduzem os mesmos argumentos. Nos parece que se trata de uma discuss\u00e3o de enorme import\u00e2ncia na atualidade, que envolve muitos e complexos elementos.\u00a0 Por isso, nos parece necess\u00e1rio levar a discuss\u00e3o a seus aspectos centrais.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por: Eduardo Almeida<\/strong><\/p>\n<p><strong>O aparato stalinista internacional e o castro-chavismo seguem sendo fortes <\/strong><\/p>\n<p>O aparato stalinista mundial saiu em crise e enfraquecido depois da restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo nos antigos estados oper\u00e1rios. Mas os PCs seguem tendo uma for\u00e7a importante, inclusive com peso de massas em muitos pa\u00edses do mundo.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia do aparato stalinista atual n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pela import\u00e2ncia dos PCs. Existe o castro-chavismo, que \u00e9 um movimento mais amplo, reunindo governos, partidos e movimentos ligados ao stalinismo, como os governos cubano, venezuelano, nicaraguense e outros. Al\u00e9m disso, existe o peso da ideologia de concilia\u00e7\u00e3o de classes que \u00e9 amplamente defendida tamb\u00e9m pelos outros partidos reformistas, com os quais os PCs se unem. As ideologias disseminadas pelos PCs repercutem em muitas organiza\u00e7\u00f5es reformistas e centristas no mundo.<\/p>\n<p>O outro fator tem a ver com a mudan\u00e7a na ordem imperialista. O aparato stalinista mundial defende a alian\u00e7a China-R\u00fassia como \u201cprogressiva\u201d. Como veremos, seguem sendo aliados j\u00e1 n\u00e3o mais de ditaduras stalinistas de estados oper\u00e1rios, mas de ditaduras burguesas.<\/p>\n<p>Alguns dos PCs seguem dizendo que a China \u00e9 \u201csocialista\u201d, outros reconhecem que j\u00e1 \u00e9 capitalista, mas que \u00e9 progressiva perante o imperialismo norte-americano. Muitos dos PCs reconhecem a R\u00fassia como capitalista, mas dizem tamb\u00e9m que Putin \u00e9 progressivo, perante o imperialismo.<\/p>\n<p>Com a teoria stalinista dos \u201ccampos progressivos\u201d, os stalinistas ignoram as classes sociais, para justificar a repress\u00e3o de ditaduras burguesas como a da s\u00edria, venezuelana, nicaraguense como \u201cprogressivas\u201d. E seguem dizendo que Cuba \u00e9 um pa\u00eds socialista, defendendo a repress\u00e3o contra a mobiliza\u00e7\u00e3o popular do 11J.<\/p>\n<p><strong>O eixo em forma\u00e7\u00e3o entre China-R\u00fassia e a crise da ordem imperialista mundial<\/strong><\/p>\n<p>A guerra na Ucr\u00e2nia \u00e9 uma express\u00e3o da crise na ordem imperialista mundial e, por sua vez, aprofunda muito essa crise.<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o dessa crise da ordem mundial excede o objetivo desse artigo. Vamos nos concentrar em um de seus\u00a0 elementos centrais, que \u00e9 a alian\u00e7a em forma\u00e7\u00e3o entre R\u00fassia-China.<\/p>\n<p>Tanto a China como a R\u00fassia atuais t\u00eam origem em estados oper\u00e1rios burocr\u00e1ticos, nos quais a pr\u00f3pria burocracia dirigente dirigiu a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo. No entanto, esses estados\u00a0 tiveram percursos diferentes em sua localiza\u00e7\u00e3o na divis\u00e3o mundial de trabalho capitalista.<\/p>\n<p>A China se incorporou na economia mundial como uma esp\u00e9cie de \u201cf\u00e1brica do mundo\u201d, com grandes investimentos imperialistas.\u00a0 As multinacionais se aproveitaram da ditadura do PC, para impor sal\u00e1rios miser\u00e1veis aos oper\u00e1rios chineses e produzir a pre\u00e7os baixos. Essa foi a t\u00f4nica da d\u00e9cada de 80 e 90 do s\u00e9culo passado. No entanto, o crescimento da nova burguesia chinesa a levou ao come\u00e7o da disputa pela hegemonia no mercado internacional com o imperialismo norte-americano, em uma relocaliza\u00e7\u00e3o de seu papel na divis\u00e3o mundial de trabalho.<\/p>\n<p>Independente da discuss\u00e3o sobre se a China \u00e9 ou n\u00e3o imperialista, ela \u00e9 hoje a segunda maior economia do mundo. Essa \u00e9 a realidade atual, que se expressa na \u201cguerra comercial EUA x China\u201d, que seria impens\u00e1vel nas d\u00e9cadas de 80-90 passadas.<\/p>\n<p>A R\u00fassia, depois da restaura\u00e7\u00e3o, seguiu um caminho oposto, de enorme destrui\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas, perdendo grande parte de seu grande parque industrial. Localizou-se em uma posi\u00e7\u00e3o subalterna na economia mundial, essencialmente como produtora de g\u00e1s e petr\u00f3leo. Trata-se de uma economia decadente, dependente do capital financeiro imperialista e das exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo e g\u00e1s para a Europa.<\/p>\n<p>No entanto, a R\u00fassia herdou do antigo estado oper\u00e1rio seu poderio nuclear, o manteve e atualizou. Segue sendo a segunda pot\u00eancia nuclear do planeta.<\/p>\n<p>Existe uma alian\u00e7a em forma\u00e7\u00e3o entre China e R\u00fassia, que inclui\u00a0 a segunda economia mundial e a decadente economia russa, mas que possui o segundo arsenal nuclear mundial. Isso tende a ter uma import\u00e2ncia muito grande na crise da ordem imperialista mundial.<\/p>\n<p>Um m\u00eas antes da invas\u00e3o a Ucr\u00e2nia, Putin visitou a China na abertura dos Jogos de Inverno, e assinou uma declara\u00e7\u00e3o conjunta com Xi Jinping, definindo um \u201cacordo sem limites\u201d de coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e militar, em que se questiona tamb\u00e9m a OTAN. A China j\u00e1 \u00e9 a principal parceira comercial da R\u00fassia. Putin esperou o fim dos Jogos de Inverno, a pedido da China, e dois dias depois invadiu a Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>A China mant\u00e9m as apar\u00eancias, n\u00e3o aparece explicitamente defendendo a R\u00fassia, porque precisa manter seus neg\u00f3cios em todo o mundo e \u201capoia a paz\u201d.\u00a0 Mas n\u00e3o condena a invas\u00e3o e, em ess\u00eancia, at\u00e9 agora, aparentemente respalda a a\u00e7\u00e3o de Putin.<\/p>\n<p>O imperialismo norte-americano mant\u00e9m indubitavelmente sua hegemonia econ\u00f4mica e militar. Mas vem apresentando uma decad\u00eancia econ\u00f4mica, e apresenta cada vez mais dificuldades para cumprir o papel de pol\u00edcia do mundo. Ainda segue hegem\u00f4nico, mas com cada vez mais dificuldades para sustentar seu controle do mundo, como foi demonstrado recentemente na derrota e retirada do Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>A ordem imperialista j\u00e1 vinha sendo questionada pela onda descendente econ\u00f4mica iniciada com as recess\u00f5es de 2007-09 e 2020. Isso levou a crises interburguesas e interimperialistas, e deu base material para os levantes de massas que ocorreram.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 ineg\u00e1vel que uma disputa entre dois polos \u2013 EUA x China-R\u00fassia \u2013 seria um forte elemento de desequil\u00edbrio e crise na ordem mundial.<\/p>\n<p>E isso exige caracterizar o significado desses dois polos. O polo contrarrevolucion\u00e1rio imperialista hegem\u00f4nico dispensa apresenta\u00e7\u00f5es. Trata-se do imperialismo dominante, inimigo maior dos trabalhadores de todo o mundo.<\/p>\n<p>No entanto, o outro polo, capitaneado pela China e R\u00fassia, tamb\u00e9m tem um conte\u00fado categoricamente contrarrevolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Antes, quando ainda eram estados oper\u00e1rios burocratizados, j\u00e1 eram polos contrarrevolucion\u00e1rios, respons\u00e1veis por in\u00fameras derrotas revolucion\u00e1rias e pela \u201ccoexist\u00eancia pac\u00edfica\u201d com o imperialismo. Mas hoje se trata de um papel qualitativamente mais contrarrevolucion\u00e1rio. S\u00e3o estados burgueses, onde imperam ditaduras.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe nenhum tipo de apoio dessas ditaduras burguesas aos processos revolucion\u00e1rios que existem no mundo. Ao contr\u00e1rio, sustentam ditaduras burguesas contrarrevolucion\u00e1rias no mundo, como Myanmar, Sud\u00e3o, S\u00edria, Venezuela, Nicar\u00e1gua, Cuba e outras. Defenderam a repress\u00e3o violenta dessas ditaduras contra seus pr\u00f3prios povos.<\/p>\n<p>A China e a R\u00fassia, como estados burgueses, defendem interesses econ\u00f4micos de suas burguesias dirigentes. N\u00e3o tem nenhum papel progressivo, e menos ainda, anti-imperialistas.<\/p>\n<p>Os conflitos entre os dois polos contrarrevolucion\u00e1rios (EUA x China-R\u00fassia) t\u00eam e ter\u00e3o express\u00f5es distintas, como disputas econ\u00f4micas como a \u201cguerra comercial\u201d EUA x China, guerras regionais como a invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia, e outras , de qualidades e dimens\u00f5es diferentes.<\/p>\n<p>Cada um desses conflitos exigir\u00e1 uma an\u00e1lise concreta da realidade concreta, para definir a exata posi\u00e7\u00e3o dos socialistas revolucion\u00e1rios. Mas essa an\u00e1lise concreta deve partir dessa avalia\u00e7\u00e3o geral marxista de dois polos contrarrevolucion\u00e1rios e suas consequ\u00eancias na crise da ordem imperialista mundial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A press\u00e3o do imperialismo sobre a Ucr\u00e2nia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No conflito ucraniano existem as a\u00e7\u00f5es desses dois polos contrarrevolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O imperialismo age diretamente na regi\u00e3o. Em primeiro lugar pela pela submiss\u00e3o do governo de Kiev a Uni\u00e3o Europeia, em um processo de recoloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A OTAN, a alian\u00e7a militar imperialista, avan\u00e7ou para os pa\u00edses do leste europeu depois da restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na regi\u00e3o, integrando a Rep\u00fablica Checa, Eslov\u00e1quia, Pol\u00f4nia, Hungria, Rom\u00eania, Bulg\u00e1ria, Est\u00f4nia, Litu\u00e2nia, Let\u00f4nia , Eslov\u00eania, Cro\u00e1cia, Montenegro, Alb\u00e2nia.<\/p>\n<p>Putin alega que o conflito atual se armou ao redor da possibilidade da integra\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia a OTAN.<\/p>\n<p><strong>A opress\u00e3o russa sobre a Ucr\u00e2nia<\/strong><\/p>\n<p>Por outro lado, est\u00e1 o polo contrarrevolucion\u00e1rio russo. Existe uma opress\u00e3o secular da R\u00fassia sobre a Ucr\u00e2nia, desde os tempos do tzarismo.<\/p>\n<p>O \u00fanico momento em que isso foi rompido foi com a Revolu\u00e7\u00e3o Russa e a forma\u00e7\u00e3o da URSS, na qual a Ucr\u00e2nia aderiu por sua pr\u00f3pria vontade. Essa foi uma demonstra\u00e7\u00e3o que s\u00f3 a revolu\u00e7\u00e3o socialista pode resolver de verdade os problemas das opress\u00f5es nacionais. Foi assegurado a todas as nacionalidades oprimidas pela R\u00fassia tzarista a possibilidade de uma uni\u00e3o livre, o que permitiria unir as for\u00e7as produtivas de forma mais ampla que em um pequeno pa\u00eds. Mas com todos os direitos nacionais garantidos, inclusive o de se separar quando quisesse da URSS. Esse exemplo hist\u00f3rico tem uma enorme import\u00e2ncia. S\u00f3 ganhando a consci\u00eancia do povo ucraniano, como fizeram os bolcheviques, \u00e9 poss\u00edvel come\u00e7ar a superar a opress\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>A contrarrevolu\u00e7\u00e3o stalinista acabou com esse processo, esmagou novamente todas as nacionalidades e gerou um enorme rep\u00fadio na consci\u00eancia do povo ucraniano contra a opress\u00e3o russa.<\/p>\n<p>Isso tornou a URSS uma brutal pris\u00e3o dos povos. Quando ocorreram as revolu\u00e7\u00f5es que derrubaram as ditaduras stalinistas, acabou tamb\u00e9m a URSS, o que foi extremamente progressivo.<\/p>\n<p>No entanto, pela crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, foram setores da pr\u00f3pria burocracia que dirigiram essas revolu\u00e7\u00f5es. Essas dire\u00e7\u00f5es avan\u00e7aram no processo de restaura\u00e7\u00e3o capitalista que j\u00e1 tinha se iniciado.<\/p>\n<p>Na R\u00fassia, esse processo levou Yeltsin e depois Putin ao poder. Putin, ex-chefe da KGB, express\u00e3o da nova burguesia russa que se apossou das grandes empresas antes estatais.<\/p>\n<p>Na Ucr\u00e2nia, a queda da ditadura stalinista tamb\u00e9m foi capitalizada por um setor da burocracia com Leonid Kravchuk \u00e0 frente, comandante da restaura\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Depois de uma s\u00e9rie de governos e grandes crises pol\u00edticas, em 2014 uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica derrubou o governo de Victor Yanukovich.<\/p>\n<p>Esse governo era um agente da recoloniza\u00e7\u00e3o europeia, mas ligado diretamente a Putin. As massas, brutalmente atacadas pelos planos econ\u00f4micos do governo, derrubaram Yanukovich.<\/p>\n<p>Esse epis\u00f3dio passou a hist\u00f3ria como Maid\u00e1n, referindo-se \u00e0 principal pra\u00e7a de Kiev, capital ucraniana, onde as mobiliza\u00e7\u00f5es estavam centradas.<\/p>\n<p>Essa revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica derrubou o governo Yanukovich, t\u00edtere de Moscou. A aus\u00eancia de dire\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, no entanto, possibilitou que a dire\u00e7\u00e3o desse processo profundamente progressivo fosse tomada por dire\u00e7\u00f5es burguesas, que substitu\u00edram a depend\u00eancia de Moscou pela submiss\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Agora Putin quer retomar o controle da Ucr\u00e2nia com a invas\u00e3o, perdido com a revolu\u00e7\u00e3o de 2014.<\/p>\n<p><strong>A realidade concreta da invas\u00e3o russa<\/strong><\/p>\n<p>Existem, ent\u00e3o, os dois polos contrarrevolucion\u00e1rios em a\u00e7\u00e3o na guerra da Ucr\u00e2nia. Mas qual \u00e9 a realidade concreta, e como esses polos operam?<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma invas\u00e3o militar da OTAN contra o territ\u00f3rio russo. Nesse caso, nos posicionar\u00edamos , sem nenhuma d\u00favida, em defesa da R\u00fassia, tanto por ser uma economia dependente do imperialismo, como por ter sido invadida.<\/p>\n<p>O que existe, na realidade, \u00e9 uma invas\u00e3o militar da R\u00fassia sobre a Ucr\u00e2nia, para recompor sua opress\u00e3o direta. Essa \u00e9 a realidade concreta hoje. Uma invas\u00e3o brutal da segunda pot\u00eancia militar do mundo, contra um pa\u00eds que n\u00e3o tem nenhuma condi\u00e7\u00e3o militar de enfrentar a R\u00fassia, e se apoia no hero\u00edsmo de seu povo.<\/p>\n<p>Putin, em um discurso televisionado na v\u00e9spera da invas\u00e3o, disse:<\/p>\n<p>\u201cA Ucr\u00e2nia moderna foi criada inteiramente pela R\u00fassia, mais precisamente pelos bolcheviques, a R\u00fassia comunista\u201d. \u201cEsse processo come\u00e7ou imediatamente ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de 1917, e, ademais, L\u00eanin e seus associados o fizeram da maneira mais desordenada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia: dividindo, arrancando da R\u00fassia peda\u00e7os de seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio hist\u00f3rico.\u201d<\/p>\n<p>Ou seja, Putin faz a invas\u00e3o atacando diretamente o legado bolchevique que gerou historicamente a URSS. N\u00e3o por acaso, questiona explicitamente Lenin. Putin questiona diretamente o direito da Ucr\u00e2nia a sua exist\u00eancia como na\u00e7\u00e3o, dizendo que o pa\u00eds pertence a R\u00fassia.<\/p>\n<p>Isso tem enorme import\u00e2ncia. O aparato stalinista sempre buscou camuflar suas posi\u00e7\u00f5es com cita\u00e7\u00f5es deturpadas de Lenin. Agora tem de defender essa a\u00e7\u00e3o de Putin que, explicitamente foi feita rompendo com legado de Lenin.<\/p>\n<p><strong>A metodologia stalinista em a\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Uma parte do aparato stalinista mundial e do castro-chavismo apoia diretamente a invas\u00e3o russa. Outra parte evita se chocar com o rep\u00fadio das massas \u00e0 invas\u00e3o, dizendo que \u00e9 contra a guerra mas \u201ca culpa \u00e9 da OTAN\u201d, e se recusa a apoiar a luta ucraniana.<\/p>\n<p>Existem tamb\u00e9m as crises. O PC grego e o turco, por exemplo, foram contra a invas\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a maioria dos PCs no mundo justificam e apoiam Putin ou a desculpam de alguma forma. O PC russo (que tem representa\u00e7\u00e3o no parlamento), PC chin\u00eas, PC cubano, assim como o PC do B e o PC no Brasil e muitos outros t\u00eam essa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para isso, esses partidos ignoram a realidade concreta, justificando a invas\u00e3o pela \u201camea\u00e7a da OTAN\u201d, para \u201cdefender a R\u00fassia progressiva contra o imperialismo\u201d.<\/p>\n<p>Para justificar essa ideologia, o aparato stalinista repete a metodologia de sempre, com o tradicional determinismo mec\u00e2nico aliado a simples falsifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O determinismo mec\u00e2nico, bem t\u00edpico da ideologia stalinista, se expressa nessa l\u00f3gica formal: devemos estar sempre em defesa do polo \u201cprogressivo\u201d contra o imperialismo, e por isso apoiamos a R\u00fassia.<\/p>\n<p>Assim, se ignora a obriga\u00e7\u00e3o do materialismo dial\u00e9tico de aliar a teoria com o estudo da realidade concreta. Primeiro se ignora a teoria marxista, substituindo sua base que \u00e9 a luta de classes pela dos\u00a0 \u201ccampos progressivos\u201d. O aparato stalinista considera a R\u00fassia como progressiva, deixando de lado o car\u00e1ter de classe da nova burguesia russa, e desconsiderando que \u00e9 parte de um polo contrarrevolucion\u00e1rio mundial. E\u00a0 ignora a realidade concreta: a invas\u00e3o russa sobre a Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessa metodologia, o stalinismo usa tamb\u00e9m suas tradicionais falsifica\u00e7\u00f5es. As mais evidentes s\u00e3o as de encobrir a invas\u00e3o militar da R\u00fassia como uma \u201ca\u00e7\u00e3o anti-imperialista\u201d, e a do \u201ccombate ao nazismo da Ucr\u00e2nia\u201d. Vejamos essas falsifica\u00e7\u00f5es, uma a uma.<\/p>\n<p><strong>Putin \u00e9 anti-imperialista?<\/strong><\/p>\n<p>O principal \u201cargumento\u201d do stalinismo e seus apoiadores \u00e9 que a a\u00e7\u00e3o de Putin seria uma defesa contra o imperialismo. Portanto seria uma a\u00e7\u00e3o anti-imperialista.<\/p>\n<p>A primeira contesta\u00e7\u00e3o a essa ideologia \u00e9 o crit\u00e9rio da verdade. O que existe na realidade \u00e9 a invas\u00e3o brutal\u00a0 militar da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia.\u00a0 As cidades cercadas, destru\u00eddas s\u00e3o as ucranianas, os mortos civis s\u00e3o ucranianos.<\/p>\n<p>A segunda refuta\u00e7\u00e3o \u00e9 o hist\u00f3rico de Putin. Ele , como continuidade de Yeltsin, foi o agente da penetra\u00e7\u00e3o do imperialismo na R\u00fassia, da destrui\u00e7\u00e3o do parque industrial russo e a recoloniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds pelas empresas multinacionais. Ou seja, sempre foi um aliado do imperialismo. Um aliado que tem atritos com o imperialismo, mas um aliado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, na arena internacional, quando foi que Putin ajudou algum processo revolucion\u00e1rio anti-imperialista? Nunca.<\/p>\n<p>\u00c9, at\u00e9 agora, um dos sustent\u00e1culos militares do genoc\u00eddio contra o povo s\u00edrio realizado por Bashar al Assad.<\/p>\n<p>Putin age para manter a opress\u00e3o sobre as ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas de Belarus, apoiando a ditadura de Lukashenko, e ajudando com tropas a afogar em sangue a rebeli\u00e3o no Cazaquist\u00e3o.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, \u00e9 preciso responder \u00e0 pergunta: a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 uma manobra militar defensiva para evitar a penetra\u00e7\u00e3o da OTAN nesse pa\u00eds? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n<p>Como todos sabem, a luta militar \u00e9 uma extens\u00e3o da luta pol\u00edtica. A primeira maneira de lutar contra a OTAN na Ucr\u00e2nia \u00e9 ganhar o povo ucraniano contra a Otan. E isso exige uma pol\u00edtica de respeito \u00e0 nacionalidade ucraniana e uma pol\u00edtica anti-imperialista. Putin n\u00e3o tem nenhum dos dois. Nem ganha a confian\u00e7a dos ucranianos de que vai respeit\u00e1-los, nem busca dirigi-los contra o imperialismo europeu. E agora, com a invas\u00e3o,\u00a0 ganhou definitivamente o \u00f3dio dos ucranianos, abrindo um campo pol\u00edtico para a OTAN. Pode ganhar a batalha militar, mas perde a batalha pol\u00edtica pela consci\u00eancia dos ucranianos.<\/p>\n<p>Putin, n\u00e3o por acaso, anunciou a invas\u00e3o questionando abertamente a Lenin e a pol\u00edtica dos bolcheviques, de ganhar a consci\u00eancia dos ucranianos para ir superando a opress\u00e3o nacional. Quem ganha politicamente? A OTAN, que vai ficar na consci\u00eancia do povo ucraniano como uma alternativa \u00e0 opress\u00e3o russa.<\/p>\n<p>Em quarto lugar \u00e9 poss\u00edvel j\u00e1 agora medir o resultado pol\u00edtico internacional da invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia. Independentemente do resultado concreto da invas\u00e3o, os governos imperialistas no mundo se fortaleceram politicamente junto as massas, aparecendo como \u201cdefensores da paz\u201d. Biden, que vinha sendo cada vez mais questionado nos EUA, voltou a se fortalecer. Os governos imperialistas europeus tamb\u00e9m ganharam apoio entre as massas. A Alemanha, que desde a segunda guerra mundial, tinha limita\u00e7\u00f5es estritas em seu rearmamento, decidiu triplicar seu or\u00e7amento militar contando com apoio de massas.<\/p>\n<p>Em termos econ\u00f4micos, a R\u00fassia est\u00e1 sofrendo com san\u00e7\u00f5es comerciais, financeiras e diplom\u00e1ticas que a enfraquecem muito em termos internacionais.<\/p>\n<p>A verdade, que os stalinistas querem ocultar, \u00e9 que Putin n\u00e3o invadiu a Ucr\u00e2nia para se defender da OTAN. Invadiu para retomar a opress\u00e3o russa sobre esse pa\u00eds, perdida com a revolu\u00e7\u00e3o de Maid\u00e1n. E o resultado pol\u00edtico dessa a\u00e7\u00e3o de Putin \u00e9 o fortalecimento pol\u00edtico do imperialismo e da OTAN.<\/p>\n<p>Se a R\u00fassia ganhar a guerra na Ucr\u00e2nia, isso n\u00e3o ser\u00e1 uma vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o. O movimento de massas n\u00e3o se fortalecer\u00e1, e sim um dos polos da contrarrevolu\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p>\n<p>Mas ainda que tenha uma vit\u00f3ria militar, Putin est\u00e1 se fragilizando\u00a0 politicamente. Ele deu ao imperialismo armas para enfraquecer pol\u00edtica e militarmente a R\u00fassia. Ter\u00e1 de bancar uma ocupa\u00e7\u00e3o militar, com enormes custos econ\u00f4micos, pol\u00edticos e militares. Tudo isso era previs\u00edvel, e desmente categoricamente\u00a0 a farsa do stalinismo, de uma a\u00e7\u00e3o \u201canti-imperialista\u201d.<\/p>\n<p><strong>Putin \u00e9 um democrata contra o fascismo?<\/strong><\/p>\n<p>A outra grande farsa de Putin e do aparato stalinista \u00e9 que essa seria uma guerra \u201ccontra o fascismo\u201d. A Ucr\u00e2nia teria um governo fascista, e seria preciso derrot\u00e1-lo. Assim, Putin seria o agente de uma luta democr\u00e1tica contra o fascismo.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que existem grupos fascistas na Ucr\u00e2nia. O batalh\u00e3o Azov, por exemplo, \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o claramente fascista. Da mesma forma, existem grupos fascistas na R\u00fassia que apoiam Putin. Na regi\u00e3o de\u00a0 Donetsk e Lugansk, grupos paramilitares fascistas apoiam a invas\u00e3o russa. Existem grupos fascistas dos dois lados.<\/p>\n<p>Putin teve o apoio de uma boa parte da ultradireita mundial no in\u00edcio da invas\u00e3o. Trump e seu estrategista Steve Bannon, Orban na Hungria, Le Pen na Fran\u00e7a e Bolsonaro apoiaram Putin , at\u00e9 que a esmagadora onda de apoio a Ucr\u00e2nia os obrigou a mudar de posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o de Maid\u00e1n conquistou mais liberdades democr\u00e1ticas nesse pa\u00eds do que as existentes na R\u00fassia de Putin. N\u00e3o temos nenhum acordo com o governo Zelensky , nem com o estado ucraniano. Trata-se de um estado burgu\u00eas , e uma democracia com muitos elementos autorit\u00e1rios. Mas, \u00e9 um fato ineg\u00e1vel que existem elei\u00e7\u00f5es regulares na Ucr\u00e2nia, o que n\u00e3o ocorre na R\u00fassia.<\/p>\n<p>Putin governa a R\u00fassia de maneira ditatorial h\u00e1 23 anos, e mudou a constitui\u00e7\u00e3o para poder seguir no governo at\u00e9 2036. Ele n\u00e3o permite a exist\u00eancia de nenhuma oposi\u00e7\u00e3o. Um l\u00edder oposicionista, Alexei Navalny , foi envenenado, conseguiu se salvar, mas agora est\u00e1 na pris\u00e3o. J\u00e1 foram presas mais de sete mil pessoas por protestar contra a guerra. Putin ajuda a sustentar a repress\u00e3o violenta das ditaduras da Bielorr\u00fassia e Cazaquist\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 mesmo a farsa stalinista pode sustentar a f\u00e1bula de Putin como um defensor da democracia.<\/p>\n<p><strong>De que lado estar na guerra?<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 vimos onde est\u00e3o os dois polos contrarrevolucion\u00e1rios. Como se localizar ent\u00e3o na guerra ucraniana? Nas trincheiras do povo ucraniano, na luta contra a invas\u00e3o russa.<\/p>\n<p>Defendendo todo apoio em armas e alimentos para a resist\u00eancia ucraniana. Sem nenhuma confian\u00e7a no governo\u00a0 Zelensky, um governo burgu\u00eas pr\u00f3 imperialista. Sem aceitar nenhuma a\u00e7\u00e3o da OTAN na guerra. N\u00e3o queremos trocar a opress\u00e3o russa por outra, da UE e da OTAN.<\/p>\n<p>Uma vit\u00f3ria da resist\u00eancia ucraniana enfraqueceria um dos polos da contrarrevolu\u00e7\u00e3o mundial, no caso, os invasores.<\/p>\n<p>Mais do que isso, seria uma vit\u00f3ria de um povo que pegou em armas. Esse exemplo teria um profundo significado para a consci\u00eancia das massas em todo o mundo, de que \u00e9 poss\u00edvel com a luta armada de um povo derrotar um ex\u00e9rcito poderoso.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, a Ucr\u00e2nia n\u00e3o ter\u00e1 futuro sem uma revolu\u00e7\u00e3o socialista. Mais ainda, ser\u00e1 necess\u00e1rio estender a revolu\u00e7\u00e3o socialista a outros pa\u00edses, para poder avan\u00e7ar a uma nova federa\u00e7\u00e3o livre socialista dos pa\u00edses europeus, alternativa a Uni\u00e3o Europeia imperialista. A vit\u00f3ria de um povo com armas na m\u00e3o seria um bom in\u00edcio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um grande debate entre os ativistas em todo o mundo sobre que posi\u00e7\u00e3o tomar sobre a guerra da Ucr\u00e2nia. Nesse debate, existe um peso importante da campanha feita pelos partidos comunistas, em sua maioria apoiando a invas\u00e3o russa. Al\u00e9m desses partidos, existe uma s\u00e9rie de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o stalinistas, mas que reproduzem os mesmos argumentos. 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