{"id":66174,"date":"2022-02-24T15:11:06","date_gmt":"2022-02-24T18:11:06","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=66174"},"modified":"2022-02-24T15:11:06","modified_gmt":"2022-02-24T18:11:06","slug":"66174-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/02\/24\/66174-2\/","title":{"rendered":"Stalinismo e Pan-Africanismo \u2013 Parte III"},"content":{"rendered":"<p><em>Nos artigos anteriores demonstramos que, ap\u00f3s Stalin e Dimitrov assumirem a dire\u00e7\u00e3o da IIIa Internacional, a orienta\u00e7\u00e3o dada aos partidos comunistas era de implementar a pol\u00edtica que mais beneficiaria a burocracia governante da URSS.<\/em><\/p>\n<p><em>Esta pol\u00edtica, que teve como desdobramento o abandono da luta pela independ\u00eancia colonial na \u00c1sia e \u00c1frica, tamb\u00e9m teve reflexos para a luta dos negros nos Estados Unidos, pelos direitos civis e humanos, que desde a \u00e9poca de Lenin era chamada como a \u201cQuest\u00e3o Negra\u201d. A partir da orienta\u00e7\u00e3o stalinista o partido comunista dos Estados Unidos (PCUSA) passou a ser conhecido por seus vergonhosos zigue-zagues.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Am\u00e9rico Gomes e Jas\u00e3o Rodrigues<\/p>\n<p><strong>A influ\u00eancia bolchevique nos EUA<\/strong><\/p>\n<p>James P Cannon, membro fundador do Partido Comunista norte-americano, com o qual rompeu e fundou o SWP (Socialist Works Party) de linha trotskista, em 1959, escreveu \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o Russa e o Movimento Negro Norte-Americano\u201d, onde dizia que:<\/p>\n<p>\u201cAs principais discuss\u00f5es sobre a quest\u00e3o do negro ocorreram em Moscou, e a nova forma de ver a quest\u00e3o foi elaborada l\u00e1. J\u00e1 no Segundo Congresso da Comintern (Internacional Comunista), em 1920, \u201cOs Negros na Am\u00e9rica\u201d foi um ponto na ordem do dia e uma discuss\u00e3o preliminar sobre esta quest\u00e3o foi levada a cabo. As investiga\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas comprovar\u00e3o decisivamente que a pol\u00edtica do PC sobre a quest\u00e3o do negro recebeu seu primeiro impulso de Moscou, e tamb\u00e9m que todas as seguintes elabora\u00e7\u00f5es desta pol\u00edtica, incluindo a ado\u00e7\u00e3o da palavra-de-ordem de \u201cautodetermina\u00e7\u00e3o\u201d em 1928, vieram de Moscou (&#8230;)<\/p>\n<p>Ainda antes da Primeira Guerra Mundial e da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, Lenin e os bolcheviques se distinguiam de todas as outras tend\u00eancias no movimento socialista e oper\u00e1rio internacional por sua preocupa\u00e7\u00e3o com os problemas das na\u00e7\u00f5es e minorias nacionais oprimidas, e seu apoio positivo \u00e0s lutas destas pela liberdade, a independ\u00eancia e o direito da autodetermina\u00e7\u00e3o. Os bolcheviques davam este apoio a toda a \u201cgente sem igualdade de direitos\u201d, de uma forma sincera e honesta, mas n\u00e3o havia nada \u201cfilantr\u00f3pico\u201d nesta posi\u00e7\u00e3o. Reconheciam tamb\u00e9m o grande potencial revolucion\u00e1rio na situa\u00e7\u00e3o dos povos e na\u00e7\u00f5es oprimidos, e os viam como aliados importantes da classe oper\u00e1ria internacional na luta revolucion\u00e1ria contra o capitalismo.\u201d.<\/p>\n<p>Lenin e os bolcheviques identificaram o movimento negro nos Estados Unidos como um grande aliado das revolu\u00e7\u00f5es coloniais, por isso influenciaram os comunistas norte-americanos a mudarem sua abordagem, a partir da d\u00e9cada de 1920, nesta luta com o que passou a ser chamada a \u201cQuest\u00e3o Negra\u201d.<\/p>\n<p>Com o fim da 1\u00aa Guerra Mundial em 1919, os EUA atravessaram uma onda de greves e mobiliza\u00e7\u00f5es que obrigou o governo estadunidense a lan\u00e7ar uma cruzada anticomunista e intensificar a viol\u00eancia contra os negros. Contudo, a resposta dos negros na forma de luta veio de imediato. Afinal, as coisas haviam mudado bastante no mundo com a vit\u00f3ria dos bolcheviques na R\u00fassia em 1917, e haviam mudado muito nos EUA com uma grande migra\u00e7\u00e3o de trabalhadores negros do Sul para o Norte durante a guerra e com o alistamento de mais 400 mil negros nas For\u00e7as Armadas estadunidenses e o posterior regresso desses soldados para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o se tornava ainda mais amea\u00e7adora para a burguesia estadunidense, na medida em que \u2013 conforme Cannon assinalara \u2013 revolucion\u00e1rios russos como Lenin e Trotsky orientavam os comunistas estadunidenses a travarem uma luta sem tr\u00e9gua contra o racismo que se abatia contra os negros, o que significava combater, inclusive, o racismo dos trabalhadores brancos americanos e irlandeses. O espectro do comunismo rondava os Estados Unidos e o governo temia que os negros, o setor mais explosivo e explorado do pa\u00eds, assumisse a frente desse movimento.<\/p>\n<p><strong>Os zigue-zagues stalinistas nos Estados Unidos<\/strong><\/p>\n<p>Mas isso mudou com a pol\u00edtica de Stalin fundamentalmente na d\u00e9cada de 1930. Em 1928, a pol\u00edtica da Comintern<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> para os negros nos EUA era baseada na caracteriza\u00e7\u00e3o que eles eram uma \u201cminoria nacional\u201d, a partir da\u00ed passaram a defender que deveriam constituir um \u201cEstado independente\u201d, um desdobramento da pol\u00edtica de \u201cautodetermina\u00e7\u00e3o\u201d defendida por Lenin. Naquilo que seria o \u201cCintur\u00e3o Negro\u201d ou \u201cBlack Belt\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, uma faixa de territ\u00f3rio no Sul, conhecida por seu solo rico e escuro, que ia da Virginia at\u00e9 o Texas. A maioria dos negros n\u00e3o assumiram esta luta, pois estavam mais preocupados em conquistar direitos dentro da sociedade norte-americana.<\/p>\n<p>Foi neste mesmo per\u00edodo que ocorreu o \u201cgrande \u00eaxodo\u201d, com milhares de trabalhadores negros mudando para as \u00e1reas industrializadas do Norte, que precisavam de m\u00e3o de obra. Ainda mais que no Sul imperava o racismo mais nefasto, imposto pela legisla\u00e7\u00e3o Jim Crow e pelos linchamentos, com os negros sendo expulsos da terra e dos trabalhos. A burguesia norte-americana construiu um sistema de viol\u00eancia racial e segrega\u00e7\u00e3o projetado para explorar negros e brancos, mas que atingia com especial brutalidade e de forma mais eficaz os negros no Sul do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em virtude disso, na d\u00e9cada de 1920, cerca de 1 milh\u00e3o de afro-americanos deixaram o Sul. Entre 1916 e 1970, foram 6 milh\u00f5es do Sul rural para as cidades do norte, centro-oeste e oeste. A popula\u00e7\u00e3o negra das principais cidades do norte cresceu em grandes porcentagens: Nova York (66%), Chicago (148%), Filad\u00e9lfia (500%) e Detroit (611%).<\/p>\n<p><strong>Marcus Garvey<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que o jamaicano Marcus Garvey construiu seu movimento e fez crescer sua Associa\u00e7\u00e3o Universal para o Progresso do Negro e Liga das Comunidades Africanas (Universal Negro Improvement Association and African Communities League \u2013 UNIA). Fundada em 1914, a UNIA tornou-se a maior organiza\u00e7\u00e3o negra dos Estados Unidos na \u00e9poca, por\u00e9m, assim como cresceu vertiginosamente, ruiu rapidamente.<\/p>\n<p>Sob os lemas &#8220;Um Deus! Um Objetivo! Um Destino!&#8221; e &#8220;\u00c1frica para os africanos, em casa e no exterior!&#8221;, a UNIA chegou a ter mais de 1 milh\u00e3o de membros afiliados, em cerca de mil sucursais espalhadas por mais de quarenta pa\u00edses. Atrav\u00e9s da UNIA, Garvey se autoproclamou \u201cpresidente provis\u00f3rio da \u00c1frica\u201d.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, Garvey adotou posi\u00e7\u00f5es simp\u00e1ticas \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Russa para angariar negros da classe trabalhadora e, depois, amadureceu o seu nacionalismo negro em concep\u00e7\u00f5es que redundaram na defesa da pureza racial de negros e no \u00f3dio ao marxismo e ao comunismo. Dentre os objetivos da UNIA estavam estabelecer uma Confraternidade Universal da ra\u00e7a negra, promover o orgulho e o amor e ajudar a civilizar as tribos atrasadas da \u00c1frica, para realizar esses objetivos, pasmem, Garvey buscava apoio de pa\u00edses europeus, notadamente a Inglaterra. \u00c9 o que atesta a sua carta ao Secret\u00e1rio de Estado brit\u00e2nico para as col\u00f4nias, de 16 de setembro de 1914, onde rogava a vit\u00f3ria do ex\u00e9rcito brit\u00e2nico na \u00c1frica e na Europa \u201ccontra os inimigos da paz e da futura civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, e finalizava desejando vida longa ao rei e ao imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>No livro Liberta\u00e7\u00e3o Negra e o Socialismo, Ahmed Shawki conta que Garvey \u201ccome\u00e7ou a identificar os supremacistas brancos como os \u00fanicos amigos verdadeiros dos Negros, porque eles entendiam a necessidade da pureza racial\u201d. Em 1937, Garvey deu uma entrevista dizendo que Mussolini e Hitler haviam copiado o programa pol\u00edtico da sua Associa\u00e7\u00e3o Universal para o Progresso do Negro, de um nacionalismo agressivo para o homem negro na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Garvey defendia a pureza racial negra e uma luta de negros contra brancos pura e simples porque ignorava completamente dois componentes fundamentais nessa equa\u00e7\u00e3o: as classes sociais e o capitalismo. Mas Garvey ignorava conscientemente posto que, para ele \u201co capitalismo [era] necess\u00e1rio para o progresso do mundo, e aqueles que sem raz\u00e3o ou desenfreadamente se op\u00f5em a ele ou lutam contra ele s\u00e3o inimigos do avan\u00e7o humano\u201d. Assim, tornava-se o grande precursor dentro do movimento negro da defesa do capitalismo, o mesmo sistema econ\u00f4mico respons\u00e1vel por sequestrar, traficar, escravizar, torturar e assassinar nossos antepassados negros vindos da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Mas, apesar do apoio massivo que recebeu, para a maioria dos negros esta proposta era vista como segregacionista, pois n\u00e3o combatia a segrega\u00e7\u00e3o branca, e de certa maneira alivia a burguesia branca dominante das reivindica\u00e7\u00f5es da maioria da popula\u00e7\u00e3o negra. Ao mesmo tempo em que apresentava a utopia que os negros poderiam ter condi\u00e7\u00f5es de vida satisfat\u00f3ria dentro do sistema capitalista e inclusive se enriquecer.<\/p>\n<p>George Padmore levanta a hip\u00f3tese de que o stalinismo apresentou a pol\u00edtica do \u201cBlack Belt\u201d somente para a disputa da vanguarda com Garvey e seu \u201cBack to Africa\u201d, apresentando em contraposi\u00e7\u00e3o uma \u201cBlack Republic\u201d ali mesmo, dentro dos Estados Unidos, mas que n\u00e3o tinha a ver com a realidade dos negros. Para ele foi uma teoria elaborada para justificar a f\u00f3rmula stalinista, sendo imposta ao partido norte-americano.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930 o aumento da crise econ\u00f4mica e do desemprego, que chegou a 30% oficialmente, mas que entre os negros, em algumas cidades, chegava a 40% e at\u00e9 mais de 50%, fez com que os comunistas abandonassem a pol\u00edtica do Cintur\u00e3o Negro e assumissem a luta por direitos civis, trabalhistas e humanos, contra o terror de Estado branco e pelo fim dos linchamentos. Em unidade de a\u00e7\u00e3o, passaram a realizar manifesta\u00e7\u00f5es com a Associa\u00e7\u00e3o Nacional para o Avan\u00e7o das Pessoas de Cor (NAACP), que era mais conservadora e pr\u00e9-capitalista. Atos que muitas vezes desembocaram em enfrentamentos com a pol\u00edcia e com os membros da KKK, com os manifestantes se autodefendendo.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>As greves deram um salto em 1934 e tiveram seu pico em 1937. Com elas, houve um crescimento da organiza\u00e7\u00e3o sindical, que triplicou em ades\u00e3o entre 1934 e 1938. Os trabalhadores negros eram uma parte significativa deste processo, particularmente entre os mineiros, sider\u00fargicos e estivadores, for\u00e7ados a assumirem os piores trabalhos com os sal\u00e1rios mais baixos. Formaram-se organiza\u00e7\u00f5es de desempregados que realizaram a\u00e7\u00f5es em defesa do emprego, mas tamb\u00e9m em defesa dos inquilinos contra os despejados e manifesta\u00e7\u00f5es pelo seguro-desemprego. O Partido Comunista participou de todo este processo de mobiliza\u00e7\u00e3o e reorganiza\u00e7\u00e3o em constante oposi\u00e7\u00e3o ao governo norte-americano e com isso teve um crescimento importante.<\/p>\n<p>O PCUSA formou a \u201cLiga de Luta pelos Direitos dos Negros\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, que ganhou notoriedade na luta dos &#8220;Scottsboro Boys&#8221; (nove homens negros condenados \u00e0 morte, em 1931, acusados de um estupro, que n\u00e3o cometeram, no Alabama). Enquanto o NAACP, intimidado, permaneceu inicialmente distante em rela\u00e7\u00e3o ao caso, mas depois tentou assumi-lo, com uma abordagem mais moderada. Junto com isso, os comunistas faziam campanha antilinchamento, defesa dos direitos civis contra a brutalidade policial e a legisla\u00e7\u00e3o Jim Crow, associados \u00e0 Defesa Internacional do Trabalho<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>\u00a0 (ILD)<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, tamb\u00e9m organizavam esquadr\u00f5es de autodefesa negra, com ex-militares.<\/p>\n<p>Mas, desde 1933, quando o presidente Franklin Delano Roosevelt reconheceu a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2013 mesmo ano da vit\u00f3ria de Hitler nas elei\u00e7\u00f5es na Alemanha \u2013 os stalinistas norte-americanos amenizaram suas cr\u00edticas a Roosevelt e os democratas de maneira geral e, na Quest\u00e3o Negra, em particular.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Agora, o PCUSA passava a priorizar as alian\u00e7as com os supostos burgueses progressistas. Nos Estados Unidos, apoiaram o New Deal. E Roosevelt, que era considerado um \u201csocial-fascista\u201d, em um dia, passou a ser o \u201cmais destacado antifascista dentro das democracias capitalistas\u201d, no outro. Earl Browder<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> chegou a declarar que ele foi o presidente que mais \u201caplicou os direitos dos negros\u201d. Ao mesmo tempo em que o Partido Democrata se recusava a apoiar uma legisla\u00e7\u00e3o contra os linchamentos ou acabar com a Jim Crow<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>Do ponto de vista sindical, o PCUSA se aliou a Robert Lewis e \u00e0 burocracia do CIO, aceitando que alguns sindicatos n\u00e3o inclu\u00edssem cl\u00e1usulas contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial. Ao mesmo tempo, o PCUSA come\u00e7ou a dissolver suas fac\u00e7\u00f5es dentro do UAW e a abandonar seu papel de lideran\u00e7a, para ficar categ\u00f3rico que estava alinhado com o New Deal. Em 1936 apoiou, por meio da Liga N\u00e3o Partid\u00e1ria do Trabalho (LNPL), a reelei\u00e7\u00e3o de Roosevelt. Enquanto Lewis e os democratas desenvolviam uma pol\u00edtica que servia para destruir qualquer possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de um partido trabalhista independente, que unificasse as organiza\u00e7\u00f5es que estavam surgindo em v\u00e1rios estados do meio-oeste e em cidades industriais do Norte. Al\u00e9m disso, o PCUSA desistiu de qualquer propaganda independente do socialismo revolucion\u00e1rio e, mais ainda, abandonou qualquer cr\u00edtica aberta aos seus aliados \u201ccapitalistas democr\u00e1ticos\u201d. \u201cA Plataforma Eleitoral Comunista, 1936\u201d abandonou completamente, e sem qualquer explica\u00e7\u00e3o, a caracteriza\u00e7\u00e3o de que Roosevelt era um \u201cprotofascista\u201d.<\/p>\n<p>A seguir, dissolveram a \u201cLiga de Luta pelos Direitos dos Negros\u201d (LSNR) sumariamente, ela que foi a principal organiza\u00e7\u00e3o de direitos civis do partido na luta pelos direitos dos negros. Seus membros foram obrigados a se juntar \u00e0 conservadora NAACP, que priorizava as movimenta\u00e7\u00f5es de superestruturas e conseguir algumas reformas.<\/p>\n<p>Seus zigue-zagues n\u00e3o pararam a\u00ed e desmoralizaram a milit\u00e2ncia e reduziram a influ\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como substituta da LSNR, os stalinistas formaram o Congresso Nacional Negro (NNC), com uma forma\u00e7\u00e3o menos prolet\u00e1ria e principalmente baseada em funcion\u00e1rios sindicais, intelectuais e pol\u00edticos negros, e com seu centro em fazer lobby e press\u00e3o no Congresso por novas leis.<\/p>\n<p>Quando em 1939 \u00e9 assinado o pacto entre Hitler e Stalin, o Tratado de Molotov-Ribertrop, o PCUSA muda novamente de posi\u00e7\u00e3o, passa \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o a Roosevelt, denuncia a \u201cguerra Inter imperialista\u201d, prop\u00f5em ao povo negro ficar fora deste conflito, com o NNC exigindo ainda que o governo norte-americano n\u00e3o ajudasse os pa\u00edses que resistiam aos ataques nazistas.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n<p>A seguir, quando Hitler invade a URSS, em junho de 1941, o NNC abandona sua campanha antiguerra e chama os trabalhadores negros a apoiarem a R\u00fassia, se somando ao ex\u00e9rcito e ao esfor\u00e7o de guerra.<\/p>\n<p>Seu apoio ao esfor\u00e7o de guerra inclu\u00eda n\u00e3o fazer greves em tempo de guerra ou oposi\u00e7\u00e3o a qualquer coisa que comprometesse a unidade antifascista dentro dos Estados Unidos. A tal ponto que, quando Philip Randolph, um sindicalista reformista negro, A.J Muste e Bayard Rustin chamaram uma marcha em Washington em 1941, com o objetivo de refor\u00e7ar a luta dos trabalhadores negros e conquistar algumas reivindica\u00e7\u00f5es trabalhistas, o PCUSA foi contra e atacou seus organizadores.<\/p>\n<p>As principais reivindica\u00e7\u00f5es da Marcha eram o fim da segrega\u00e7\u00e3o nas for\u00e7as armadas e igualdade de acesso a empregos na ind\u00fastria de defesa nacional para homens e mulheres negros que habitualmente eram negados.<\/p>\n<p>Mas, logo a seguir, junto com o mesmo Randolph, saudaram e apoiaram a Ordem 8802 decretada por Roosevelt, para incrementar a produ\u00e7\u00e3o fabril. Saudando-a como respons\u00e1vel por banir \u201ca discrimina\u00e7\u00e3o nas ind\u00fastrias de defesa\u201d. Enquanto Randolph era denunciado pelos sindicalistas mais combativos por t\u00ea-la desmarcada, somente com o aceno da proposta do governo e exigiam que fosse mantida para se conseguir melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e sal\u00e1rios a\u00ed altos.<\/p>\n<p>Bayard Rustin, um dirigente pol\u00edtico negro fascinante do movimento nos Estados Unidos, fundador do Congresso pela Igualdade Racial (CORE<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>), que por ser homossexual assumido foi discriminado e sempre trabalhou nos bastidores, foi membro da Liga Jovem Comunista \u201cdevido ao fato de que os comunistas eram praticamente o \u00fanico partido pol\u00edtico na d\u00e9cada de 1930 a se opor totalmente \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. Mas deixou o partido em junho de 1941, depois que a invas\u00e3o nazista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica levou o partido, em nome de construir a oposi\u00e7\u00e3o ao fascismo, a abandonar a luta pelas quest\u00f5es de justi\u00e7a racial. Durante a guerra ele foi preso por se recusar a comparecer perante a junta de alistamento como objetor de consci\u00eancia, cumprindo 26 meses de pris\u00e3o. Dentro da pris\u00e3o realizou protestos contra a segrega\u00e7\u00e3o e homofobia. Depois de ser solto voltou \u00e0 pris\u00e3o outra vezes, por lutar contra o dom\u00ednio colonial na \u00cdndia e \u00c1frica.<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o PCUSA apoiou a ordem executiva 9066 de Roosevelt, assinada em janeiro de 1942, que dava plenos poderes ao Ex\u00e9rcito contra \u201cos estrangeiros inimigos\u201d e que resultou na pris\u00e3o de milhares de trabalhadores japoneses e asi\u00e1ticos em campos de concentra\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Seguindo o apoio a Roosevelt, o PCUSA apoiou a proposta de, em 1944, militarizar alguns locais de trabalho, mas recuaram quando o resto do conselho executivo do CIO reagiu furiosamente \u00e0 medida. No final da guerra, seguindo os passos de St\u00e1lin que ordenara a dissolu\u00e7\u00e3o da III Internacional em 1943, como sinal de boa vontade com o imperialismo europeu e estadunidense, o PCUSA dissolveu o Congresso Nacional Negro, em 1947.<\/p>\n<p>O Partido Democrata e o New Deal n\u00e3o cumpriram um papel progressivo. E nem Roosevelt, quando assumiu a presid\u00eancia, em 1933, era um reformador social. Os democratas eram o principal partido dos propriet\u00e1rios de escravos do sul e dos especuladores de terras e transportes do norte, tentando assumir outra fachada, para ganhar elei\u00e7\u00f5es no Norte, enquanto no Sul, continuaram sendo o partido dos fazendeiros, da segrega\u00e7\u00e3o racial, dos linchamentos e da lei \u201cJim Crow\u201d.<\/p>\n<p>No entanto o apoio dos stalinistas ao Partido Democrata ajudou bastante a se manterem no poder em uma conturbada \u00e9poca nos Estados Unidos, isso foi feito porque eles subordinaram suas pol\u00edticas nacionais e a luta pelas reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e de todos os setores oprimidos, \u00e0s necessidades da burocracia do Kremlin, uma pol\u00edtica implementada pela Comintern em todo o mundo.<\/p>\n<p>O que s\u00f3 refor\u00e7a a conclus\u00e3o de que os stalinistas do PCUS abandonaram a \u201cQuest\u00e3o Negra\u201d e a luta pelos direitos dos negros norte-americanos a servi\u00e7o dos interesses da burocracia sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> J\u00e1 sob controle de Stalin, neste momento com teoria-pol\u00edtica do &#8220;Terceiro Per\u00edodo&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cintur\u00e3o Negro<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> \u201cThis was marxista sociology tirned upside down\u201d in \u201cPan-africanism or communism \u00bf\u201d (p 306)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Howe, I., and Coser, L., The American Communist Party: A Critical History (New York: Da Capo Press, 1974). PDF<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> League of Struggle for Negro Rights<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> International Labor Defense<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Se\u00e7\u00e3o americana da rede de Ajuda Vermelha Internacional, que havia defendido Sacco e Vanzetti\u00a0na d\u00e9cada de 1920.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> George Padmore, Pan-Africanism or Communism?<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Secret\u00e1rio Geral do CPUSA<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Durante o regime de Roosevelt, as c\u00e9lulas do PC estavam bem \u201centrincheiradas\u201d em todas as organiza\u00e7\u00f5es governamentais de emprego e assist\u00eancia social criadas sob o programa New Deal in Gerog Padmore \u201cPan-africanism or communism? (p 307)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Georg Padmore, Pan-Africanism or Communism?<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Uma organiza\u00e7\u00e3o pacifista defensora dos direitos ivis dos negros<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a>John D&#8217;Emilio em sua biografia, &#8220;Lost Prophet: The life and times of bayard Rustin&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> De acordo com o portal \u201cBlack Past\u201d Bayard foi preso cerca de 23 vezes ao longo da vida. (blackpast.org\/african-american-history\/Rustin-Bayard)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos artigos anteriores demonstramos que, ap\u00f3s Stalin e Dimitrov assumirem a dire\u00e7\u00e3o da IIIa Internacional, a orienta\u00e7\u00e3o dada aos partidos comunistas era de implementar a pol\u00edtica que mais beneficiaria a burocracia governante da URSS. Esta pol\u00edtica, que teve como desdobramento o abandono da luta pela independ\u00eancia colonial na \u00c1sia e \u00c1frica, tamb\u00e9m teve reflexos para [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":66175,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[208,3501,1018],"tags":[620,3251,4536],"class_list":["post-66174","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-africa","category-negras-os","category-racismo","tag-americo-gomes","tag-jasao-rodrigues","tag-stalinismo-e-pan-africanismo"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/marcha_sobre_washington-1.jpg","categories_names":["\u00c1frica","Negras\/os","Racismo"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66174","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66174"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66174\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66175"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66174"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66174"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66174"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}