{"id":66118,"date":"2022-02-17T12:01:17","date_gmt":"2022-02-17T15:01:17","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=66118"},"modified":"2022-02-17T12:01:17","modified_gmt":"2022-02-17T15:01:17","slug":"a-anistia-internacional-o-apartheid-israelense-e-a-voz-dos-palestinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/02\/17\/a-anistia-internacional-o-apartheid-israelense-e-a-voz-dos-palestinos\/","title":{"rendered":"A Anistia Internacional, o apartheid israelense e a voz dos palestinos"},"content":{"rendered":"<p><em>O regime de apartheid \u00e9 intr\u00ednseco ao projeto colonial sionista, fundado em fins do s\u00e9culo XIX e materializado na forma\u00e7\u00e3o do Estado racista de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza \u00e9tnica planejada (a Nakba, a cat\u00e1strofe palestina). Embora n\u00e3o v\u00e1 ao \u00e2mago da quest\u00e3o \u2013 o projeto colonial sionista em sua alian\u00e7a estrat\u00e9gica com o imperialismo \u2013, como t\u00eam feito h\u00e1 d\u00e9cadas grupos de direitos humanos palestinos, o relat\u00f3rio da Anistia Internacional \u00e9 primoroso em expor as entranhas desse sistema desde 1948 at\u00e9 os dias atuais.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Soraya Misleh<\/p>\n<p>Para os palestinos, cujo sentimento \u00e9 de abandono pela tal \u201ccomunidade internacional\u201d \u2013 e, assim, refor\u00e7am o pedido a cada um que os visita em suas terras ocupadas que \u201ccontem ao mundo o que viram\u201d \u2013, esse reconhecimento se apresenta como um b\u00e1lsamo em uma ferida aberta h\u00e1 mais de 74 anos. Um importante instrumento de den\u00fancia e fortalecimento de campanhas centrais de solidariedade internacional, como de boicote, com potencial inclusive de manchar ainda mais a falsa imagem de Israel, colocando-o no banco dos r\u00e9us do Tribunal Penal Internacional, onde <a href=\"https:\/\/www.icc-cpi.int\/Pages\/item.aspx?name=210303-prosecutor-statement-investigation-palestine\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">j\u00e1 \u00e9 investigado<\/a> por atrocidades cometidas na Cisjord\u00e2nia, Gaza e Jerusal\u00e9m Oriental desde 13 de junho de 2014.<\/p>\n<p>Em relat\u00f3rio intitulado \u201cApartheid de Israel contra palestinos: cruel sistema de domina\u00e7\u00e3o e crime contra a humanidade\u201d, a Anistia Internacional assim define as leis, pr\u00e1ticas e pol\u00edticas do Estado de Israel: \u201cum sistema de opress\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o sobre os palestinos [&#8230;] seja dentro de Israel, nos territ\u00f3rios palestinos ocupados [em 1967 \u2013 Gaza, Cisjord\u00e2nia e Jerusal\u00e9m Oriental] ou sobre os refugiados palestinos\u201d. A organiza\u00e7\u00e3o internacional conclui: Israel \u00e9 um estado de apartheid, um crime contra a humanidade. E admite: h\u00e1 d\u00e9cadas os palestinos t\u00eam feito essa afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Compilado entre julho de 2017 e novembro de 2021, o documento \u00e9 resultado, como informa a Anistia Internacional, de d\u00e9cadas de pesquisas e \u201ccoleta de evid\u00eancias\u201d. Em 280 p\u00e1ginas, detalha a barb\u00e1rie de um sistema constru\u00eddo para a cont\u00ednua Nakba, em que os palestinos s\u00e3o tratados, nas pr\u00f3prias palavras dessa organiza\u00e7\u00e3o, como \u201cuma ra\u00e7a inferior\u201d. O informe veio a p\u00fablico em 1\u00ba. de fevereiro \u00faltimo.<\/p>\n<p>\u00c9 o terceiro de 2021 para c\u00e1 com as mesmas conclus\u00f5es. A Anistia Internacional, que ao in\u00edcio do ano passado havia <a href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/en\/latest\/news\/2021\/01\/denying-covid19-vaccines-to-palestinians-exposes-israels-institutionalized-discrimination\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">denunciado o racismo israelense na distribui\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o de vacinas contra a Covid-19 enfrentado pelos palestinos<\/a>, acompanha, assim, as conclus\u00f5es recentes das organiza\u00e7\u00f5es internacional Human Rights Watch e israelense Bet\u00b4Selem.<\/p>\n<p><strong>O que diz o relat\u00f3rio <\/strong><\/p>\n<p>\u201cA segrega\u00e7\u00e3o \u00e9 feita de forma sistem\u00e1tica e altamente institucionalizada por meio de leis, pol\u00edticas e pr\u00e1ticas, todas destinadas a impedir os palestinos de reivindicarem e gozarem de direitos iguais aos judeus israelenses dentro de Israel e dos TPOs [territ\u00f3rios palestinos ocupados em 1967], e, portanto, visando oprimir e dominar o povo palestino. Esta opress\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o foi cimentada por um regime legal que controla (negando) os direitos dos refugiados palestinos que residem fora de Israel e do TPO de voltar para suas casas. Ao longo de d\u00e9cadas, considera\u00e7\u00f5es demogr\u00e1ficas e geopol\u00edticas israelenses moldaram pol\u00edticas para os palestinos em cada uma das diferentes \u00e1reas [&#8230;]\u201d, detalha a Anistia Internacional. O relat\u00f3rio denso desmistifica as falsas ideias de democracia israelense e ocupa\u00e7\u00e3o restrita \u00e0s \u00e1reas de 1967.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o enfatiza: \u201cDesde o seu estabelecimento em 1948, Israel tem seguido uma pol\u00edtica expl\u00edcita de estabelecer e manter uma hegemonia demogr\u00e1fica judaica e maximizar seu controle sobre a terra para beneficiar os judeus israelenses enquanto reduz o n\u00famero de palestinos e restringe seus direitos, obstruindo sua capacidade de desafiar esta desapropria\u00e7\u00e3o. Em 1967, Israel estendeu essa pol\u00edtica al\u00e9m da Linha Verde [fronteira de 1967, definida no Armist\u00edcio de 1949], para a Cisjord\u00e2nia e a Faixa de Gaza, que ocupa desde ent\u00e3o. Hoje, todos os territ\u00f3rios controlados por Israel continuam sendo administrados com o objetivo de beneficiar os judeus israelenses em detrimento dos palestinos, enquanto os refugiados palestinos continuam a ser exclu\u00eddos. As considera\u00e7\u00f5es demogr\u00e1ficas orientaram desde o in\u00edcio a legisla\u00e7\u00e3o e a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas israelenses.\u201d Entre as leis dos primeiros tempos nesse sentido, cita as destinadas a conceder o direito de os judeus imigrarem para Israel em qualquer parte do mundo e obterem nacionalidade nos anos 1950 e a malfadada Lei do Propriet\u00e1rio Ausente, que deu ao Estado de Israel o controle de todas as propriedades que pertenciam aos palestinos expulsos na Nakba.<\/p>\n<p>Como continua a Anistia Internacional, \u201cno curso do estabelecimento de Israel como um estado judeu em 1948, seus l\u00edderes foram respons\u00e1veis \u200b\u200bpela expuls\u00e3o em massa de centenas de milhares de palestinos e a destrui\u00e7\u00e3o de centenas de aldeias palestinas no que equivaleu a limpeza \u00e9tnica. Eles escolheram coagir os palestinos a enclaves dentro do Estado de Israel e, ap\u00f3s sua ocupa\u00e7\u00e3o militar em 1967, na Cisjord\u00e2nia e na Faixa de Gaza. Eles se apropriaram da grande maioria das terras e recursos naturais dos palestinos. Eles introduziram leis, pol\u00edticas e pr\u00e1ticas que discriminam sistem\u00e1tica e cruelmente os palestinos, deixando-os fragmentados geogr\u00e1fica e politicamente, em constante estado de medo e inseguran\u00e7a, e muitas vezes empobrecidos. Enquanto isso, os l\u00edderes de Israel optaram por privilegiar sistematicamente os cidad\u00e3os judeus na lei e na pr\u00e1tica por meio de distribui\u00e7\u00e3o de terras e recursos, resultando em sua relativa riqueza e bem-estar \u00e0 custa dos palestinos. Eles t\u00eam expandido constantemente os assentamentos judaicos em territ\u00f3rio palestino ocupado, violando a lei internacional. Em 1948, antes de Israel ser estabelecido, os palestinos representavam cerca de 70% da popula\u00e7\u00e3o da Palestina (ent\u00e3o um territ\u00f3rio sob mandato brit\u00e2nico) e possu\u00edam cerca de 90% das terras de propriedade privada. Judeus, muitos dos quais emigraram da Europa, compreendiam cerca de 30% da popula\u00e7\u00e3o, e eles e as institui\u00e7\u00f5es judaicas possu\u00edam cerca de 6,5% da terra. As autoridades israelenses agiram para reverter essa situa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, ainda nas palavras da Anistia Internacional, \u201cIsrael impede os refugiados palestinos e seus descendentes, bem como pessoas deslocadas internamente dentro de Israel, de retornar aos seus antigos locais de resid\u00eancia\u201d. E a minoria remanescente nos territ\u00f3rios de 1948 \u2013 aproximadamente 1,9 milh\u00e3o de palestinos \u2013 enfrenta uma s\u00e9rie de leis racistas, que as exclui da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e da cidadania plena. Cerca de 90%, segundo o relat\u00f3rio, est\u00e1 confinada em 139 vilarejos e cidades densamente povoadas nas regi\u00f5es da Galileia, do Tri\u00e2ngulo do Norte e do Naqab (Negev), \u201ccomo resultado de pol\u00edticas deliberadas de segrega\u00e7\u00e3o\u201d. A grande maioria dos outros 10% vive em cidades mistas.<\/p>\n<p>Na Cisjord\u00e2nia, os cerca de 3 milh\u00f5es de palestinos seguem submetidos a ordens militares draconianas desde 1967, quando, como aponta a Anistia Internacional, foram privados de 63% das terras mais f\u00e9rteis e melhores \u00e1reas de pastagem. O muro do apartheid, em constru\u00e7\u00e3o desde 2002, aprofundou esse quadro: \u201cisolou mais de 10%\u00a0 da \u00e1rea da Cisjord\u00e2nia, afetando diretamente 219 localidades palestinas\u201d e levou aproximadamente 80% dos agricultores palestinos na \u2018zona de costura\u2019 entre a cerca\/muro e a Linha Verde a perderem o acesso a suas terras\u201d. Para acess\u00e1-las, s\u00e3o obrigados a solicitar licen\u00e7as militares, que \u201cdevem ser renovadas repetidamente\u201d. A concess\u00e3o est\u00e1 sujeita \u00e0 liberalidade de Israel. \u201cPara aqueles que conseguem obt\u00ea-las, o acesso s\u00f3 \u00e9 permitido a p\u00e9 e atrav\u00e9s dos port\u00f5es agr\u00edcolas espec\u00edficos que aparecem nas autoriza\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m de todas as restri\u00e7\u00f5es de movimento, demoli\u00e7\u00f5es de casas, expuls\u00f5es, diferen\u00e7as de documentos, desigualdade no acesso a servi\u00e7os b\u00e1sicos, inclusive \u00e1gua, e pris\u00f5es pol\u00edticas nas quais a tortura \u00e9 sistem\u00e1tica \u2013 devidamente detalhadas no relat\u00f3rio da Anistia Internacional \u2013, os palestinos da Cisjord\u00e2nia s\u00e3o obrigados a conviver com 441.600 colonos judeus residentes em 132 assentamentos oficialmente estabelecidos por Israel, bem como 140 postos avan\u00e7ados n\u00e3o autorizados. N\u00e3o s\u00e3o raros os ataques brutais de colonos a palestinos. Nesta semana, o <a href=\"https:\/\/www.monitordooriente.com\/20220215-colonos-israelenses-atacam-palestino-deficiente-em-nablus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Monitor do Oriente<\/em> noticiou essa viol\u00eancia<\/a> na cidade de Nablus, inclusive contra um homem com defici\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cEm julho de 2021, havia 358.800 residentes palestinos dentro dos limites de Jerusal\u00e9m Oriental, que compreende 38% da popula\u00e7\u00e3o da cidade. Destes, cerca de 150 mil vivem em \u00e1reas segregadas do resto da cidade pela cerca\/muro e outros postos militares. Aproximadamente 225.178 colonos judeus israelenses tamb\u00e9m viviam em Jerusal\u00e9m Oriental em 13 assentamentos ilegais constru\u00eddos pelas autoridades israelenses e em casas particulares tomadas de palestinos sob esquemas discriminat\u00f3rios\u201d, complementa a Anistia Internacional.<\/p>\n<p>Em Gaza, sob bloqueio desumano h\u00e1 14 anos e bombardeios frequentes, encontram-se 2 milh\u00f5es de palestinos, sendo 70% refugiados registrados na ag\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2013 a UNRWA, criada logo ap\u00f3s a Nakba especificamente para assist\u00eancia a esse enorme contingente, que hoje totaliza 5 milh\u00f5es a um raio de 100km de suas terras ocupadas. Como enfatiza a Anistia Internacional, o cerco e as ofensivas israelenses constantes levaram a um \u201cestado de crise humanit\u00e1ria perp\u00e9tua\u201d. Ao lado dos massacres, o relat\u00f3rio \u00e9 categ\u00f3rico: \u201cIsrael garante que mais de 35% das terras agr\u00edcolas em Gaza e 85% da \u00e1rea de pesca ao longo da costa estejam fora dos limites dos palestinos, impostos pela \u2018zona de amortecimento\u2019 e pela \u00e1rea mar\u00edtima de acesso restrito. Estima-se que 178 mil pessoas, incluindo 113 mil agricultores, n\u00e3o podem mais acessar as terras agr\u00edcolas nessa zona tamp\u00e3o.\u201d A Anistia segue em suas den\u00fancias: \u201cDesde 2014 [ano do massacre que durou 51 dias e matou 2.200 palestinos, inclusive 530 crian\u00e7as], os militares israelenses pulverizam herbicidas a\u00e9reos sobre as planta\u00e7\u00f5es palestinas ao longo da cerca [&#8230;], resultando na perda de meios de subsist\u00eancia para os agricultores de Gaza, com problemas de sa\u00fade de longo alcance. [&#8230;] Desde a descoberta de petr\u00f3leo e g\u00e1s na costa de Gaza, Israel mudou repetidamente a demarca\u00e7\u00e3o da costa mar\u00edtima de Gaza, \u00e0s vezes reduzindo-a a apenas 3 milhas n\u00e1uticas.\u201d Isso afeta, de acordo com a organiza\u00e7\u00e3o, cerca de 65 mil habitantes da estreita faixa e \u201cempobreceu quase 90% dos pescadores\u201d. Adicionalmente, acrescenta, \u201ca marinha israelense usa for\u00e7a letal\u201d contra eles, \u201ce afunda e apreende seus barcos\u201d.<\/p>\n<p>Para os que vivem sob ocupa\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas de 1967, como pontua a Anistia Internacional, a situa\u00e7\u00e3o piorou com os acordos de Oslo firmados em 1993 entre a Organiza\u00e7\u00e3o para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina (OLP) e Israel, que \u201ccriaram a Autoridade Palestina e lhe concederam controle limitado sobre assuntos civis palestinos em centros urbanos\u201d. Ao n\u00e3o acabarem com a ocupa\u00e7\u00e3o, tais acordos \u201cdividiram a Cisjord\u00e2nia em tr\u00eas \u00e1reas, com v\u00e1rios n\u00edveis de jurisdi\u00e7\u00e3o militar e civil palestina e israelense, fragmentando e segregando ainda mais palestinos para benef\u00edcio de Israel\u201d.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio da Anistia Internacional demonstra a fragmenta\u00e7\u00e3o da sociedade palestina desde 1948, refor\u00e7ada por Israel pela exist\u00eancia de \u201cregimes jur\u00eddicos separados\u201d que servem para encobrir o regime de apartheid. A segrega\u00e7\u00e3o tem nuances, mas \u00e9 vivida por todos. Assim como \u00e9 padr\u00e3o por parte de Israel aniquilar qualquer forma de resist\u00eancia. Em protestos, a Anistia aponta para uma pol\u00edtica deliberada de \u201catirar para matar e mutilar palestinos\u201d, sob o signo da \u00f3bvia impunidade das for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre suas recomenda\u00e7\u00f5es, a organiza\u00e7\u00e3o insta todos os governos a reconhecerem o crime de apartheid e n\u00e3o o apoiarem, impondo embargo militar a Israel e boicote a produtos oriundos de assentamentos. Tamb\u00e9m sugere \u00e0s empresas n\u00e3o fazerem neg\u00f3cios que sustentem esse regime.<\/p>\n<p>Recomenda ainda investiga\u00e7\u00e3o nos organismos internacionais, como o Tribunal Penal Internacional, com a qual devem colaborar todos os estados, e o restabelecimento do Comit\u00ea Especial contra o Apartheid pela Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, o qual fora institu\u00eddo em 1962. Talvez a sugest\u00e3o mais estranha seja que o pr\u00f3prio Estado de Israel investigue o crime de apartheid no direito internacional. O pr\u00f3prio relat\u00f3rio demonstra que as pr\u00e1ticas, pol\u00edticas e leis s\u00e3o planejadas conscientemente para a segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a Anistia destaca que a Autoridade Palestina, gerente da ocupa\u00e7\u00e3o, deve cessar a coopera\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a com Israel, n\u00e3o \u201ccontribuindo para manter o sistema de apartheid nos TPOs\u201d, e que \u201cqualquer tipo de negocia\u00e7\u00e3o\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o colabore com a preserva\u00e7\u00e3o desse regime. O contr\u00e1rio do que vem sendo discutido em encontros entre lideran\u00e7as da Autoridade Palestina e oficiais israelenses, que buscam reviver a j\u00e1 morta solu\u00e7\u00e3o de dois estados, injusta desde sempre por n\u00e3o contemplar a totalidade do povo palestino \u2013 cuja metade de 13 milh\u00f5es encontra-se fora de suas terras em situa\u00e7\u00e3o de ref\u00fagio ou na di\u00e1spora \u2013 e inviabilizada pela expans\u00e3o colonial agressiva. O contr\u00e1rio de todos os processos de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Alguns apontamentos<\/strong><\/p>\n<p>Em suas conclus\u00f5es, a Anistia n\u00e3o sugere, como era de se esperar por seu papel, solu\u00e7\u00e3o por fora da institucionalidade, mas de acordo com conven\u00e7\u00f5es e estatutos do direito internacional. Assim, em seu site, traz <a href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/en\/latest\/research\/2022\/02\/qa-israels-apartheid-against-palestinians-cruel-system-of-domination-and-crime-against-humanity\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">perguntas e respostas a respeito do relat\u00f3rio em que propugna reformas no sistema israelense<\/a> \u2013 o que contradiz sua natureza colonial.<\/p>\n<p>\u201cO relat\u00f3rio aborda conjuntos completos de recomenda\u00e7\u00f5es ao Estado de Israel, e solicitamos reuni\u00f5es com autoridades israelenses para discuti-las. O Estado de Israel \u00e9 membro das Na\u00e7\u00f5es Unidas desde a sua cria\u00e7\u00e3o em 1948. \u00c9 parte de conven\u00e7\u00f5es internacionais de direitos humanos e outros tratados e, portanto, deve respeitar essas obriga\u00e7\u00f5es, inclusive defendendo o direito \u00e0 igualdade e \u00e0 n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o, e pondo fim e remediando as viola\u00e7\u00f5es do direito internacional. Este relat\u00f3rio \u00e9 um apelo para que o governo israelense realize as reformas necess\u00e1rias para que Israel cumpra suas obriga\u00e7\u00f5es sob o direito internacional\u201d, afirma. Nessa dire\u00e7\u00e3o, como uma de suas iniciativas, apresenta <a href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/en\/petition\/demolish-apartheid-not-palestinian-homes-petition\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">peti\u00e7\u00e3o intitulada \u201cDemolir o apartheid, n\u00e3o as casas palestinas\u201d<\/a>, direcionando-a a ningu\u00e9m menos do que o primeiro-ministro sionista Naftali Bennett.<\/p>\n<p>A despeito dessa fragilidade, por n\u00e3o vislumbrar como cerne do apartheid o projeto colonial sionista em alian\u00e7a estrat\u00e9gica com o imperialismo \u2013 o que tem sido questionado por <a href=\"https:\/\/electronicintifada.net\/content\/what-makes-amnestys-apartheid-report-different\/34771\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">jornalistas<\/a> e organiza\u00e7\u00f5es palestinas como <a href=\"https:\/\/twitter.com\/AdvocacyJlac?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1488598954388434956%7Ctwgr%5E%7Ctwcon%5Es1_&amp;ref_url=https%3A%2F%2Felectronicintifada.net%2Fcontent%2Fwhat-makes-amnestys-apartheid-report-different%2F34771\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>The Jerusalem Legal Aid &amp; Human Rights Center<\/em> (JLAC)<\/a> \u2013, a Anistia Internacional traz relat\u00f3rio contundente e recomenda\u00e7\u00f5es progressivas, como tamb\u00e9m reconhece os grupos palestinos.<\/p>\n<p>Entre elas, o fim da coopera\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a pela Autoridade Palestina, al\u00e9m de embargo militar e boicote \u2013 embora tamb\u00e9m aqui de forma limitada, separando produtos de assentamentos de outros desenvolvidos pelo Estado de Israel. Se reconhece que o apartheid n\u00e3o se limita aos territ\u00f3rios ocupados em 1967, n\u00e3o seria coerente exigir um boicote amplo? Parece contradit\u00f3rio, mas est\u00e1 em linha com solu\u00e7\u00f5es por dentro da institucionalidade, cujo desdobramento \u00e9 a exig\u00eancia de reformas por parte de Israel. De novo um reflexo do n\u00e3o reconhecimento de que o apartheid \u00e9 um desdobramento da coloniza\u00e7\u00e3o por povoamento (em que a limpeza \u00e9tnica de um determinado grupo e sua substitui\u00e7\u00e3o por outro \u00e9 condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non<\/em>).<\/p>\n<p>Guardadas essas diferen\u00e7as, o relat\u00f3rio \u00e9 um rico reposit\u00f3rio de evid\u00eancias que aprofunda a crise do sionismo, cuja maior express\u00e3o se d\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do imperialismo, os Estados Unidos. A organiza\u00e7\u00e3o Jewish Voice for Peace ilustra essa ruptura. O movimento, que conta milhares de apoiadores, aderiu ao BDS (boicote, desinvestimento e san\u00e7\u00f5es) depois do massacre a Gaza em 2014 e afirma com todas as letras o apartheid e coloniza\u00e7\u00e3o, recha\u00e7ando os ataques que a Anistia Internacional vem sofrendo ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o de seu relat\u00f3rio, entre desqualifica\u00e7\u00f5es e acusa\u00e7\u00f5es de antissemitismo, instrumento central utilizado por Israel para silenciar e deslegitimar seus cr\u00edticos. Contra isso, nas suas justificativas, o Jewish Voice for Peace apoia-se na tradi\u00e7\u00e3o judaica humanista para destacar: \u201cN\u00e3o em nosso nome!\u201d<\/p>\n<p>A crise \u00e9 grande: aos ataques sionistas \u00e0 Anistia Internacional, <a href=\"https:\/\/www.monitordooriente.com\/20220204-quatorze-grupos-de-direitos-de-israel-se-posicionam-em-defesa-da-anistia-apos-relatorio-de-apartheid\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">como noticiou o <em>Monitor do Oriente<\/em><\/a>, 14 ONGs israelenses e grupos de direitos humanos divulgaram um comunicado em sua defesa: \u201cO debate em torno do crime de apartheid de que Israel \u00e9 acusado, e seu alcance geogr\u00e1fico, n\u00e3o \u00e9 apenas leg\u00edtimo, mas absolutamente necess\u00e1rio.\u201d<\/p>\n<p>O jornalista Gideon Levy \u00e9 outro que refutou os argumentos que tentam desqualificar a Anistia Internacional em sua <a href=\"https:\/\/www.haaretz.com\/opinion\/.premium.HIGHLIGHT-tell-me-what-s-untrue-in-amnesty-s-report-on-israel-1.10587114\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">coluna no jornal israelense <em>Haaretz<\/em> em 3 de fevereiro<\/a>. E foi categ\u00f3rico: \u201cAinda n\u00e3o nasceu o relat\u00f3rio internacional que Israel n\u00e3o denunciar\u00e1 enquanto deixa de responder a um \u00fanico ponto. [&#8230;] O mundo dir\u00e1 apartheid, Israel dir\u00e1 antissemitismo. Mas as provas v\u00e3o continuar se acumulando.\u201d<\/p>\n<p>Outro reflexo da crise \u00e9 que dias antes de o relat\u00f3rio ser divulgado, o document\u00e1rio \u201cTantura\u201d, dirigido por Alon Schwarz, exp\u00f4s internacionalmente um dos genoc\u00eddios cometidos em 1948, na aldeia de Tantura, admitido no filme por nada mais, nada menos do que os seus perpetradores. Exibido nos dias 21 e 22 de janeiro \u00faltimo no Festival de Cinema de Sundance em Utah, nos Estados Unidos, traz entrevistas perturbadoras de veteranos da Brigada Alexandroni, uma das que estiveram na linha de frente da limpeza \u00e9tnica e massacres durante a Nakba. Entre as afirma\u00e7\u00f5es de veteranos, a de que um comandante matou \u201cum \u00e1rabe ap\u00f3s o outro com sua pistola\u201d e que palestinos foram colocados em barris e metralhados.<\/p>\n<p>Est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil jogar para baixo do tapete sujo de sangue a pilha de corpos e aldeias sob os quais se assenta esse regime de apartheid. A luta palestina por liberta\u00e7\u00e3o nacional do jugo colonial, como j\u00e1 demonstrado em maio do ano passado \u2013 quando se unificou desafiando a fragmenta\u00e7\u00e3o de sua sociedade, dentro e fora da Palestina ocupada \u2013 pode entrar numa nova fase. O relat\u00f3rio da Anistia Internacional \u00e9 um instrumento importante a ser utilizado para cerc\u00e1-la de solidariedade internacional ativa e efetiva. Rumo \u00e0 Palestina livre do rio ao mar, com o retorno dos milh\u00f5es de refugiados \u00e0s suas terras.<\/p>\n<p>Confira aqui os relat\u00f3rios (em ingl\u00eas):<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/report\/2021\/04\/27\/threshold-crossed\/israeli-authorities-and-crimes-apartheid-and-persecution\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Human Rights Watch<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/report\/2021\/04\/27\/threshold-crossed\/israeli-authorities-and-crimes-apartheid-and-persecution\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bet\u00b4Selem<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.amnesty.nl\/content\/uploads\/2022\/01\/Rapport-Israels-Apartheid-against-Palestinians.pdf?x39694\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Anistia Internacional<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O regime de apartheid \u00e9 intr\u00ednseco ao projeto colonial sionista, fundado em fins do s\u00e9culo XIX e materializado na forma\u00e7\u00e3o do Estado racista de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza \u00e9tnica planejada (a Nakba, a cat\u00e1strofe palestina). Embora n\u00e3o v\u00e1 ao \u00e2mago da quest\u00e3o \u2013 o projeto colonial sionista em sua alian\u00e7a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":66119,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[203,228],"tags":[4010,4522,3499,259,260],"class_list":["post-66118","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-israel","category-palestina","tag-apartheid-israelense","tag-relatorio-anistia-internacional-palestinos","tag-relatorio-ipcc","tag-sionismo","tag-soraya-misleh"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel.jpg","categories_names":["Israel","Palestina"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66118","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66118"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66118\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66119"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66118"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66118"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66118"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}