{"id":66094,"date":"2022-02-16T10:35:20","date_gmt":"2022-02-16T13:35:20","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=66094"},"modified":"2022-02-16T10:35:20","modified_gmt":"2022-02-16T13:35:20","slug":"antissionismo-nao-e-antissemitismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/02\/16\/antissionismo-nao-e-antissemitismo\/","title":{"rendered":"Antissionismo n\u00e3o \u00e9 antissemitismo"},"content":{"rendered":"<p><em>Uma confus\u00e3o sempre \u00e0 espreita e que ganha corpo nos \u00faltimos dias \u00e9 que antissionismo seria uma forma de antissemitismo. Nada mais falso. Entendemos que h\u00e1 tr\u00eas tipos de confus\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a isso: a primeira \u00e9 deliberada e, portanto, criminosa, como faz o Estado racista de Israel e suas organiza\u00e7\u00f5es; a segunda \u00e9 por desonestidade ou oportunismo, e geralmente est\u00e1 atrelada \u00e0 primeira; e a terceira \u00e9 por equ\u00edvoco ou desconhecimento, fruto das ideologias que permeiam frequentemente os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa e est\u00e3o na boca dos pol\u00edticos e outras personalidades. A proposta deste artigo \u00e9 explicar a diferen\u00e7a entre antissionismo e antissemitismo, que \u00e9 grande.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Jos\u00e9 Welmowicki e Soraya Misleh<\/p>\n<p>Antissemitismo esteve presente nas falas do apresentador Bruno Aiub (Monark), durante a edi\u00e7\u00e3o do Flow Podcast no \u00faltimo dia 7 de fevereiro, e do deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) no mesmo programa, o que \u00e9 absolutamente conden\u00e1vel. Nosso rep\u00fadio veemente \u00e0 ideia absurda que propagaram de que o nazismo n\u00e3o deveria ser tratado como crime e que, como afirmou Aiub, \u201ctudo bem ser antijudeu\u201d. N\u00e3o est\u00e1 nada bem defender o racismo e discrimina\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o. N\u00e3o est\u00e1, portanto, nada bem ser antissemita. Isso significa naturalizar o \u00f3dio a determinadas etnias ou ra\u00e7as.<\/p>\n<p>O nazismo, com sua abomin\u00e1vel ficha de atrocidades cometidas durante o Holocausto contra judeus (6 milh\u00f5es de mortos), e tamb\u00e9m contra ciganos, comunistas e anarquistas, LGBTs e deficientes f\u00edsicos, todos os que n\u00e3o seriam parte da \u201cra\u00e7a ariana\u201d, durante o s\u00e9culo XX, foi um crime contra a humanidade. Defender a legaliza\u00e7\u00e3o de um partido nazista \u00e9 inaceit\u00e1vel. Infelizmente Aiub e Kataguiri n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos. O vereador paulistano capit\u00e3o-do-mato Fernando Holiday (Novo), que disse antes que racismo contra negros no Brasil n\u00e3o existe, \u00e9 outro que, do alto de sua idiotia sem tamanho, defendeu a \u201cdescriminaliza\u00e7\u00e3o do nazismo\u201d, sob a l\u00f3gica distorcida de \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d.<br \/>\nO direito democr\u00e1tico \u00e0 liberdade de express\u00e3o n\u00e3o significa direito a incitar racismo, sob quaisquer formas. N\u00e3o pode ser usado como muleta para se propagar livremente crimes contra a humanidade e discursos de \u00f3dio. As consequ\u00eancias, e isso n\u00e3o \u00e9 de hoje, s\u00e3o amplamente conhecidas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, no seu rid\u00edculo pedido de desculpas, tentando justificar o injustific\u00e1vel, Kim Kataguiri trouxe a m\u00e1xima, em v\u00eddeo nas suas redes sociais, que n\u00e3o poderia ser antissemita porque \u201cn\u00e3o tem ningu\u00e9m mais pr\u00f3-Israel dentro do Parlamento do que eu\u201d, para emendar dizendo que considera \u201cat\u00e9 engra\u00e7ado pessoas anti-Israel me chamando agora de antissemita, de nazista\u201d.<\/p>\n<p>Essa ideologia n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. Atende \u00e0 confus\u00e3o deliberada feita pelo Estado racista de Israel, que coloca um sinal de igual no que n\u00e3o tem absolutamente nada a ver, uma chantagem que merece tamb\u00e9m rep\u00fadio veemente, para silenciar os cr\u00edticos do projeto colonial sionista. E que n\u00e3o \u00e9 de hoje.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-66096 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/kim-monark-flow-08022022193450485.jpeg\" alt=\"\" width=\"771\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/kim-monark-flow-08022022193450485.jpeg 771w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/kim-monark-flow-08022022193450485-300x163.jpeg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/kim-monark-flow-08022022193450485-768x418.jpeg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/kim-monark-flow-08022022193450485-150x82.jpeg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/kim-monark-flow-08022022193450485-696x379.jpeg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 771px) 100vw, 771px\" \/><\/p>\n<p><strong>Mas o que \u00e9 antissemitismo e quais suas origens?<br \/>\n<\/strong>O racismo contra os judeus, o antissemitismo, teve origem na Idade M\u00e9dia europeia. Os reis, nobres e sacerdotes, exploravam os servos em seus feudos na Europa medieval; na sociedade feudal, as transa\u00e7\u00f5es comerciais e financeiras e atividades como a usura eram vistas como pecaminosas, proibidas aos crist\u00e3os. Um n\u00e3o crist\u00e3o tinha que faz\u00ea-las. Na verdade, faz\u00ea-las a servi\u00e7o da nobreza e do clero, que eram a classe dominante. Os judeus cumpriram esse papel de comerciantes, artes\u00e3os, ourives etc. e tamb\u00e9m de agiotas, tarefa que estava vetada aos crist\u00e3os. Faziam isso sob o controle dos reis do clero e dos nobres, e quando surgiam as cat\u00e1strofes como a fome, as pestes, a cada per\u00edodo desse sistema feudal, as classes dominantes viam como necess\u00e1rio um bode expiat\u00f3rio. Por seu papel na sociedade, o de mercadores que comerciam as mercadorias e de emprestadores de dinheiro e que cobram juros, os judeus eram um alvo f\u00e1cil, da\u00ed as lendas divulgadas pela Igreja crist\u00e3, como o mito de que \u201cos judeus mataram Cristo\u201d, eram utilizadas pelos nobres para jogar a culpa de todos os infort\u00fanios da popula\u00e7\u00e3o nos judeus.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o francesa, com seus tr\u00eas lemas \u2013 liberdade, igualdade e fraternidade \u2013 colocou a quest\u00e3o de considerar os seres humanos iguais perante a lei. Mas, como sabemos hoje, a nova sociedade capitalista foi incapaz de dar verdadeira igualdade \u00e0s mulheres e \u00e0s etnias e ra\u00e7as perseguidas. Foi a revolu\u00e7\u00e3o russa de 1917 que trouxe a liberta\u00e7\u00e3o dos povos de todo o antigo Imp\u00e9rio russo, o fim da discrimina\u00e7\u00e3o a todas as etnias, incluindo os judeus de seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>E em sua fase imperialista, o capitalismo acirrou a explora\u00e7\u00e3o e as guerras de coloniza\u00e7\u00e3o de povos: e a persegui\u00e7\u00e3o racial tomou uma forma ainda mais assassina. Foi nessa fase imperialista que surgiram o fascismo e o nazismo; uma ideologia que justificava o genoc\u00eddio e a elimina\u00e7\u00e3o de ra\u00e7as como \u00fanica forma de avan\u00e7o para o povo alem\u00e3o. O antissemitismo foi transformado em uma pol\u00edtica industrial de genoc\u00eddio, de elimina\u00e7\u00e3o dos judeus.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-66097 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-Sionismo.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"640\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-Sionismo.jpg 1200w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-Sionismo-300x160.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-Sionismo-1024x546.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-Sionismo-768x410.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-Sionismo-150x80.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-Sionismo-696x371.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-Sionismo-1068x570.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p><strong>Surgimento do sionismo<br \/>\n<\/strong>O sionismo, surgido no fim do s\u00e9culo XIX, com Theodor Herzl, defendeu que o problema da discrimina\u00e7\u00e3o dos judeus s\u00f3 seria resolvido se os judeus tivessem um estado exclusivo deles. O sionismo aceitava, assim, um pressuposto que os racistas antissemitas vinham pregando \u2013 era imposs\u00edvel a conviv\u00eancia sem discrimina\u00e7\u00e3o entre diferentes ra\u00e7as e etnias, entre judeus e n\u00e3o judeus. Sua pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o racial impediria isso. E Herzl e a Organiza\u00e7\u00e3o Sionista mundial (OSM) trataram de procurar os dirigentes das pot\u00eancias imperialistas e ministros do imp\u00e9rio czarista da R\u00fassia para negociar seu apoio a esse projeto, entre outros argumentos, lembrando-os que poderiam livrar-se dos judeus de seu territ\u00f3rio. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), atrav\u00e9s de Chaim Weizmann, lideran\u00e7a sionista, a OSM obteve uma declara\u00e7\u00e3o do governo imperialista ingl\u00eas, a Declara\u00e7\u00e3o Balfour de 1917, comprometendo-se a permitir a instala\u00e7\u00e3o de um Lar Nacional Judeu no territ\u00f3rio da Palestina. Ou seja, era um compromisso da autoridade colonial inglesa em permitir que a Palestina, agora colonizada por eles, fosse utilizada pelos sionistas para instalar novos colonos judeus l\u00e1. Mas isso s\u00f3 seria poss\u00edvel expulsando a popula\u00e7\u00e3o palestina existente.<\/p>\n<p>O dirigente sionista \u201crevisionista\u201d Jabotinsky (do qual derivaram as organiza\u00e7\u00f5es de ultradireita Irgun e Likud de Begin e de Netanyahu, primeiro-ministro por mais de uma d\u00e9cada de Israel), levariam essa vis\u00e3o \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, pregando uma \u201cmuralha de ferro\u201d entre judeus e os \u00e1rabes habitantes da Palestina, e nenhuma \u201cmistura de sangue\u201d entre eles, ou seja, Israel deveria ser um estado abertamente racista, exclusivamente dos judeus. Esse foi o projeto implantado e que deu origem ao Estado de Israel, \u00e0s custas da expuls\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o palestina. Como revela o historiador israelense Avi Shlaim em seu livro \u201cA muralha de ferro \u2013 Israel e o mundo \u00e1rabe\u201d (Editora Fissus, 2004), esse era tamb\u00e9m o pressuposto n\u00e3o declarado do denominado sionismo trabalhista \u2013 e sua lideran\u00e7a David Ben-Gurion \u2013 que, de fato, levou a cabo a limpeza \u00e9tnica em 1948.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 antissionismo<br \/>\n<\/strong>Antissionismo \u00e9 se opor ao projeto pol\u00edtico colonial sionista e todos os seus desdobramentos. \u00c9 ser contra limpeza \u00e9tnica, racismo, apartheid \u2013 como reconhecido at\u00e9 mesmo pelas organiza\u00e7\u00f5es israelense<a href=\"https:\/\/www.btselem.org\/sites\/default\/files\/publications\/202101_this_is_apartheid_eng.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0Bet\u00b4Selem<\/a>\u00a0e internacionais\u00a0<a href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/en\/documents\/mde15\/5141\/2022\/en\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Anistia Internacional<\/a>\u00a0e Human Rights Watch\u2013, crimes contra a humanidade. A causa palestina, que sintetiza as lutas contra a opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o em qualquer parte do mundo, \u00e9 a causa por liberta\u00e7\u00e3o nacional do jugo do colonizador. O que h\u00e1 de racista nisso? Nada. \u00c9 o contr\u00e1rio, ser antissionista \u00e9 lutar contra esse estado de coisas.<\/p>\n<p>O resultado do projeto colonial sionista fundado ao final do s\u00e9culo XIX foi a Nakba \u2013 cat\u00e1strofe com a forma\u00e7\u00e3o do Estado racista de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza \u00e9tnica planejada, como hoje reconhecem inclusive novos historiadores israelenses como Ilan Papp\u00e9. Foram 800 mil palestinos expulsos violentamente de suas terras e cerca de 500 aldeias destru\u00eddas na \u201cconquista da terra e do trabalho\u201d, como propugnava o movimento sionista.<\/p>\n<p>Conforme aponta o historiador palestino Nur Masalha em seu livro \u201cExpuls\u00e3o dos palestinos: o conceito de \u2018transfer\u00eancia\u2019 no pensamento pol\u00edtico sionista \u2013 1882-1948\u201d (Editora Sundermann, 2021), em seus di\u00e1rios as lideran\u00e7as sionistas expressavam desde os prim\u00f3rdios do movimento a percep\u00e7\u00e3o de que para seu intento \u2013 criar um estado judeu etnicamente homog\u00eaneo \u2013 seria necess\u00e1rio a \u201ctransfer\u00eancia populacional\u201d \u2013 da popula\u00e7\u00e3o palestina nativa n\u00e3o judia, que era majorit\u00e1ria, para fora de suas terras e de judeus europeus para dentro da Palestina, via imigra\u00e7\u00e3o. Foi o que ocorreu. Israel se formou em 78% da Palestina hist\u00f3rica, sobre os escombros das aldeias palestinas e sobre os corpos de seus habitantes nativos. Sobre as l\u00e1grimas de milhares que se tornaram refugiados do dia para a noite.<\/p>\n<p>Em 1967, Israel ocupou o restante daquelas terras (Gaza, Cisjord\u00e2nia e Jerusal\u00e9m Oriental). Mais 350 mil refugiados. Hoje s\u00e3o 5 milh\u00f5es em campos nos pa\u00edses \u00e1rabes \u00e0 espera do retorno. H\u00e1 ainda milhares na di\u00e1spora e 1,9 milh\u00e3o oriundos dos remanescentes na Palestina ocupada em 1948 (que hoje se chama Israel), considerados cidad\u00e3os de segunda ou terceira classe, submetidos a cerca de 60 leis racistas. Nessa \u00e1rea, Israel recusa at\u00e9 mesmo fornecimento de servi\u00e7os b\u00e1sicos a centenas de aldeias bedu\u00ednas, em que a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria busca avan\u00e7ar \u00e0s custas de demoli\u00e7\u00f5es de casas. E os palestinos n\u00e3o t\u00eam ordem de resid\u00eancia permanente. A aldeia de Al Araqib, por exemplo, j\u00e1 foi demolida mais de 190 vezes, e os palestinos, num ato de resist\u00eancia, seguem a reconstru\u00ed-la.<\/p>\n<p>Gaza \u00e9 uma verdadeira pris\u00e3o a c\u00e9u aberto, em que 2 milh\u00f5es de palestinos enfrentam crise humanit\u00e1ria dram\u00e1tica sob cerco sionista desumano h\u00e1 14 anos \u2013 com 96% da \u00e1gua pot\u00e1vel contaminada e fornecimento de apenas quatro horas de energia por dia \u2013, al\u00e9m de bombardeios frequentes. E na Cisjord\u00e2nia e em Jerusal\u00e9m Oriental a coloniza\u00e7\u00e3o segue a passos largos, no que a limpeza \u00e9tnica \u00e9 parte instrumental. S\u00e3o cerca de 3 milh\u00f5es de palestinos sem qualquer direito humano fundamental assegurado, com toda sorte de restri\u00e7\u00f5es de movimento \u2013 documentos diferentes, proibi\u00e7\u00e3o de transitar livremente (h\u00e1 estradas exclusivas para colonos sionistas, por exemplo), centenas de check points e um muro do apartheid com aproximadamente 700km de comprimento que continua a ser constru\u00eddo, isolando fam\u00edlias e anexando mais terras f\u00e9rteis. Israel n\u00e3o fornece sequer o m\u00ednimo de \u00e1gua necess\u00e1rio aos palestinos recomendado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-66098 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-na-Palestina-1.jpg\" alt=\"\" width=\"809\" height=\"539\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-na-Palestina-1.jpg 809w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-na-Palestina-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-na-Palestina-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-na-Palestina-1-150x100.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Israel-na-Palestina-1-696x464.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 809px) 100vw, 809px\" \/><\/p>\n<p><strong>Boicote ao apartheid x hipocrisia<br \/>\n<\/strong>Mas a Nakba cont\u00ednua: como denuncia agora tamb\u00e9m a Anistia Internacional, o regime \u00e9 de apartheid, em \u201cum sistema cruel de domina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o que Israel inflige ao povo palestino, seja habitante de Israel ou dos territ\u00f3rios ocupados ou mesmo refugiados deslocados em outros pa\u00edses\u201d. Um crime contra a humanidade, em que os palestinos v\u00eam h\u00e1 d\u00e9cadas sendo tratados, segundo aponta tamb\u00e9m a Anistia Internacional, como \u201cuma ra\u00e7a inferior\u201d. A Bet\u00b4Selem descreve o apartheid como \u201cum regime de supremacia judaica\u201d tamb\u00e9m em toda a Palestina hist\u00f3rica: \u201cToda a \u00e1rea que Israel controla entre o Rio Jord\u00e3o e o Mar Mediterr\u00e2neo \u00e9 governada por um \u00fanico regime que trabalha para avan\u00e7ar e perpetuar a supremacia de um grupo sobre outro.\u00a0Por meio da engenharia geogr\u00e1fica, demogr\u00e1fica e f\u00edsica do espa\u00e7o, o regime permite que os judeus vivam em uma \u00e1rea cont\u00edgua com plenos direitos, incluindo a autodetermina\u00e7\u00e3o, enquanto os palestinos vivem em unidades separadas e desfrutam de menos direitos.\u00a0Isso se qualifica como um regime de apartheid, embora Israel seja comumente visto como uma democracia que mant\u00e9m uma ocupa\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<p>Nessa situa\u00e7\u00e3o, descrita com detalhes no relat\u00f3rio tanto da Anistia Internacional como da Human Rights Watch e da Bet\u00b4Selem, os palestinos existem porque resistem heroicamente. E hoje a campanha central de solidariedade \u00e9 o BDS (boicote, desinvestimento e san\u00e7\u00f5es), baseado no modelo da campanha de boicote que ajudou a p\u00f4r fim ao apartheid na \u00c1frica do Sul nos anos 1990, o qual traz as demandas fundamentais do povo palestino: fim da ocupa\u00e7\u00e3o, direitos civis iguais e retorno dos refugiados as suas terras. Sionistas, inclusive os que se afirmam \u201cde esquerda\u201d \u2013 o que \u00e9 uma esquizofrenia, uma vez que defendem um projeto colonial enquanto usam ret\u00f3rica suave, um discurso contra as opress\u00f5es \u2013, t\u00eam se voltado contra o BDS. Tamb\u00e9m recha\u00e7am os relat\u00f3rios que demonstram que os palestinos est\u00e3o submetidos a um regime de apartheid. As organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o taxadas de antissemitas por Israel, como todos e todas aqueles que se levantam contra esse estado racista.<\/p>\n<p>No programa Flow Podcast, o sionista Andr\u00e9 Lajst, diretor executivo da organiza\u00e7\u00e3o Stand With Us no Brasil, um dia depois das repugnantes falas de Bruno Aiub e Kim Kataguiri, afirmou que o antissemitismo, \u201cno caso a judeufobia, o \u00f3dio aos judeus, porque existem outros povos semitas, foi mudando ao longo da hist\u00f3ria\u201d. Segundo suas palavras, nesse processo de muta\u00e7\u00e3o, depois vira \u201co \u00f3dio aos judeus por causa do seu estado-na\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o \u00f3dio exacerbado e desproporcional que as pessoas t\u00eam ao Estado de Israel, que tamb\u00e9m \u00e9 um tipo de antissemitismo. N\u00e3o estou falando das cr\u00edticas ao estado, estou me referindo \u00e0 n\u00e3o legitimidade de um pa\u00eds, de um lar nacional judeu ou o combate ao movimento nacional judaico\u201d. Assim, chega \u00e0 manobra de associar de forma torta antissionismo e antissemitismo.<\/p>\n<p>Uma manobra clara: Lajst coloca um sinal de igual que n\u00e3o existe, em que defender o fim do Estado de apartheid de Israel seria defender o fim dos judeus, seu exterm\u00ednio. E a \u00c1frica do Sul, ou Rod\u00e9sia, governadas pela minoria segregacionista branca? Defender o fim do apartheid seria igual a defender o fim dos sul-africanos brancos? N\u00e3o \u00e9 o que a hist\u00f3ria demonstra. N\u00e3o \u00e9 o que os palestinos dizem no caso de Israel. Como contou um refugiado palestino expulso de sua terra em 1948, quando ele era crian\u00e7a, \u201cjudeus, mu\u00e7ulmanos, crist\u00e3os brincavam juntos, sem r\u00f3tulos\u201d. Essa separa\u00e7\u00e3o nunca existiu na Palestina hist\u00f3rica, o sionismo a criou e segue a aliment\u00e1-la.<\/p>\n<p>Contrariando a ida de Lajst ao Flow Podcast, chama a aten\u00e7\u00e3o que organiza\u00e7\u00f5es sionistas tenham declarado que o podcast deve ser boicotado, pedindo e alcan\u00e7ando a suspens\u00e3o de patroc\u00ednios. \u201cIdeologias que visam a elimina\u00e7\u00e3o de outros t\u00eam que ser proibidas. Racismo e persegui\u00e7\u00f5es a quaisquer identidades n\u00e3o s\u00e3o liberdade de express\u00e3o, afirmou o coletivo sionista Judeus pela Democracia em seu Twitter.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 correta. Apologia ao nazismo deve ser recha\u00e7ada com todas as for\u00e7as, sob todos os meios. N\u00e3o obstante, causa indigna\u00e7\u00e3o a hipocrisia, j\u00e1 que BDS n\u00e3o pode, \u00e9 criminalizado e desqualificado. N\u00e3o se pode denunciar o apartheid. Vidas palestinas, para estes, n\u00e3o importam, mesmo que digam o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>O Estado de Israel, a materializa\u00e7\u00e3o da ideia central do sionismo, \u00e9 fundado na elimina\u00e7\u00e3o do outro \u2013 via limpeza \u00e9tnica, massacres, desumaniza\u00e7\u00e3o cont\u00ednuos. Ilan Papp\u00e9, em seu livro \u201cA limpeza \u00e9tnica da Palestina\u201d (Editora Sundermann, 2016), n\u00e3o deixa d\u00favidas: \u201cpara muitos sionistas, a Palestina nem sequer era um lugar \u2018ocupado\u2019 quando come\u00e7aram a transladar-se para l\u00e1 em 1882, sen\u00e3o uma terra \u2018vazia\u2019: os palestinos nativos que viviam no lugar eram, em grande medida, invis\u00edveis ou, caso contr\u00e1rio, uma dificuldade natural que haviam de conquistar e eliminar.\u201d<\/p>\n<p>Os sionistas de esquerda, em defesa da exist\u00eancia de Israel, costumam se afirmar contra a ocupa\u00e7\u00e3o \u2013 que diferenciam de apartheid, embora a ocupa\u00e7\u00e3o implique segrega\u00e7\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o. Defendem a j\u00e1 morta e enterrada solu\u00e7\u00e3o de dois estados, como reconhecido h\u00e1 anos por intelectuais do porte de Ilan Papp\u00e9 e mesmo pelo ex-relator especial da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) sobre direitos humanos na Palestina ocupada, Richard Falk. Se esta suposta solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse injusta desde sempre, por apresentar nada mais nada menos do que migalhas ao povo palestino e n\u00e3o contemplar sua totalidade, como a metade refugiada ou na di\u00e1spora, est\u00e1 completamente inviabilizada pela expans\u00e3o colonial sionista. Hoje j\u00e1 se tem um estado \u00fanico sobre o territ\u00f3rio palestino \u2013 de Israel, um estado de apartheid.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 paz sem justi\u00e7a. E justi\u00e7a s\u00f3 vir\u00e1 com a derrota desse projeto colonial e, portanto, fim do Estado de apartheid de Israel. Em uma Palestina livre do rio ao mar, com o retorno dos milh\u00f5es de palestinos as suas terras. Ser antissionista e dizer essa verdade \u00e9 ser coerente com a luta contra a opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o em todo o mundo, inclusive com o recha\u00e7o veemente ao antissemitismo e \u00e0 apologia ao nazismo.<\/p>\n<p>Confira os relat\u00f3rios (em ingl\u00eas):<br \/>\nAnistia Internacional \u2013 https:\/\/www.amnesty.org\/en\/documents\/mde15\/5141\/2022\/en\/<\/p>\n<p>Human Rights Watch \u2013 https:\/\/www.hrw.org\/sites\/default\/files\/media_2021\/04\/israel_palestine0421_web_0.pdf<\/p>\n<p>Bet\u00b4Selem \u2013 https:\/\/www.btselem.org\/sites\/default\/files\/publications\/202101_this_is_apartheid_eng.pdf<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma confus\u00e3o sempre \u00e0 espreita e que ganha corpo nos \u00faltimos dias \u00e9 que antissionismo seria uma forma de antissemitismo. Nada mais falso. 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