{"id":66007,"date":"2022-02-09T11:39:21","date_gmt":"2022-02-09T14:39:21","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=66007"},"modified":"2022-02-09T11:39:21","modified_gmt":"2022-02-09T14:39:21","slug":"gabriel-boric-e-a-nova-concertacao-analise-e-perspectivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/02\/09\/gabriel-boric-e-a-nova-concertacao-analise-e-perspectivas\/","title":{"rendered":"Gabriel Boric e a Nova Concerta\u00e7\u00e3o: an\u00e1lise e perspectivas"},"content":{"rendered":"<p><em>Nos \u00faltimos dias, foram publicados v\u00e1rios artigos sobre o Gabinete do futuro presidente Gabriel Boric. Neste artigo n\u00e3o pretendemos fazer uma an\u00e1lise detalhada de seu gabinete, j\u00e1 que isso pode ser facilmente encontrado em outras reportagens<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Nosso objetivo aqui \u00e9 discutir, com base nos elementos que j\u00e1 est\u00e3o em cima da mesa, o que podemos esperar do futuro governo Boric.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: MIT Chile<\/p>\n<p><strong>A Nova Concerta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o do gabinete chamou a aten\u00e7\u00e3o, em primeiro lugar, pelo n\u00famero de mulheres nos cargos importantes, destacando-se Izkia Siches no Minist\u00e9rio do Interior e Camila Vallejos como porta-voz do governo. No total, 14 mulheres e 10 homens v\u00e3o ocupar os Minist\u00e9rios. Essa composi\u00e7\u00e3o, com maioria de mulheres, \u00e9 diferente de todos os governos anteriores, principalmente os primeiros governos da ex-Concerta\u00e7\u00e3o, compostos majoritariamente por homens. Isso demonstra que mais mulheres est\u00e3o ocupando cargos de poder dentro da institucionalidade e, at\u00e9 o momento, nada mais. Apesar de muitas das futuras Ministras se autodenominarem feministas e lutam pelos direitos como a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto, \u00e9 preciso ver quais as medidas concretas que tomar\u00e1 o governo para resolver os inumer\u00e1veis problemas das mulheres em nosso pa\u00eds, principalmente das mulheres mais pobres e trabalhadoras. Em nossa opini\u00e3o, esse governo ter\u00e1 grandes dificuldades em solucion\u00e1-los, pelos motivos que discutiremos a seguir.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da grande presen\u00e7a de mulheres, outro elemento que chama a aten\u00e7\u00e3o no novo gabinete \u00e9 \u00e0 entrada de v\u00e1rias personalidades dos partidos que conduziram o pa\u00eds nos \u00faltimos 30 anos, os partidos da ex-Concerta\u00e7\u00e3o. A \u00fanica que fica de fora \u00e9 a Democracia Crist\u00e3.<\/p>\n<p>Alguns dos Minist\u00e9rios mais importantes est\u00e3o nas m\u00e3os desses partidos, como o Minist\u00e9rio de Defesa (Maya Fern\u00e1ndez, Partido Socialista-PS), Minist\u00e9rio da Minera\u00e7\u00e3o (Marcela Hernando, Partido Radical-PR), Minist\u00e9rio da Habita\u00e7\u00e3o e Urbanismo (Carlos Montes, PS) e Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (Antonia Urrejola, pr\u00f3xima ao PS). Tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o o nome de Luzia Dammert<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, que ser\u00e1 a chefa dos assessores do governo. Dammert foi assessora do ex-Ministro do Interior de Bachelet, Jorge Burgos, respons\u00e1vel pelo assassinato de Nelson Quichillao (trabalhador da minera\u00e7\u00e3o assassinado em uma greve), pela repress\u00e3o aos estudantes e ao povo Mapuche e tamb\u00e9m do ex-subsecretario de Bachelet, Mahmud Aleuy<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, grande defensor da Opera\u00e7\u00e3o Furac\u00e3o<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Em um dos cargos mais importantes do futuro governo, o Minist\u00e9rio de Fazenda, estar\u00e1 o economista Mario Marcel, quem assessorou a todos os governos da ex-Cocerta\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos 30 anos e que tamb\u00e9m trabalhou para v\u00e1rios Bancos internacionais, como o BID e o Banco Mundial. Seu papel n\u00e3o foi secund\u00e1rio, j\u00e1 que ocupou cargos importantes relacionados \u00e0 \u00e1rea econ\u00f4mica dos governos de Aylwin, Frei, Lagos e Bachelet.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a nomea\u00e7\u00e3o de Mario Marcel ao Minist\u00e9rio de Fazenda, quem primeiro celebrou publicamente o fato foi ningu\u00e9m menos que Andr\u00f3nico Luksic, o mais rico empres\u00e1rio chileno, dono de empresas importantes como Antofagasta Minerals (mineradora), Hapag Lloyd (Cia de navega\u00e7\u00e3o), Cia de las Cervecer\u00edas Unidas \u2013 CCU (empresa que atua no setor cervejeiro, refrigerantes, \u00e1gua mineral, sucos, etc.), Banco do Chile, entre outras.<\/p>\n<p>Mario Marcel \u00e9 o homem do grande capital, do sistema financeiro internacional e da burguesia chilena. Ele \u00e9 o homem que ter\u00e1 a tarefa de garantir que nenhum interesse dos grandes Bancos estrangeiros, Fundos de Investimento e da burguesia chilena seja prejudicado no pr\u00f3ximo governo. Tamb\u00e9m ter\u00e1 a tarefa de manter as contas p\u00fablicas em dia: n\u00e3o permitir que se gaste muito dinheiro em direitos sociais, o que poderia afetar os privil\u00e9gios dos grandes empres\u00e1rios e dos credores da d\u00edvida p\u00fablica chilena. Assim, um dos cargos mais importantes do novo governo estar\u00e1 nas m\u00e3os de um economista de confian\u00e7a da alta burguesia chilena e internacional.<\/p>\n<p>O nome de Mario Marcel j\u00e1 indica o que ser\u00e1 o governo Boric. A alian\u00e7a entre a Frente Ampla e o Partido Comunista com os partidos da ex-Concerta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas um \u201c<em>cuoteo pol\u00edtico<\/em>\u201d (reparti\u00e7\u00e3o de cargos pol\u00edticos, ndt). \u00c9 uma alian\u00e7a de duas classes sociais.<\/p>\n<p>A Frente Ampla e o Partido Comunista s\u00e3o representantes dos setores m\u00e9dios da sociedade chilena. A composi\u00e7\u00e3o social da Frente Ampla \u00e9 pequeno-burguesa por excel\u00eancia: advogados\/as, jornalistas, soci\u00f3logos\/as, m\u00e9dicos, etc. Grande parte da gera\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria que lutou em 2011 agora entra no governo: o pr\u00f3prio Boric, Camila Vallejos, Giorgio Jackson, Izkia Siches, Javiera Touro, Antonia Orellana e muitos outros em cargos secund\u00e1rios. A juventude universit\u00e1ria de 2011 chegou ao poder. Essa juventude n\u00e3o \u00e9 a representante direta da grande burguesia do pa\u00eds, n\u00e3o s\u00e3o filhos ou filhas de grandes burgueses e muitos deles\/as n\u00e3o v\u00eam das universidades tradicionais que formam os representantes da grande burguesia. Tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o representantes da classe trabalhadora e o povo pobre.<\/p>\n<p>Embora o Partido Comunista tenha sido historicamente um partido da classe oper\u00e1ria, com importante peso nos setores populares, sua composi\u00e7\u00e3o social vem se modificando h\u00e1 muito tempo. O PC hoje tem como sua principal base social a burocracia sindical acomodada, a intelectualidade universit\u00e1ria e pequeno-burguesa e os trabalhadores do setor p\u00fablico. A cada ano que passa, o partido perde mais peso territorial e passa a ter mais peso nas institui\u00e7\u00f5es burguesas: vereadores, prefeitos, deputados, constituintes e at\u00e9 um senador. Esse processo de aburguesamento do PC tender\u00e1 a acelerar rapidamente a partir do futuro governo. \u00c9 a primeira vez que o Partido Comunista tem um papel t\u00e3o importante em um governo desde a Unidade Popular \u2013 UP (Coaliz\u00e3o que elegeu Allende presidente, ndt), embora o PC de hoje n\u00e3o tenha nada a ver com o PC dos anos 70.<\/p>\n<p>Ainda que a Frente Ampla e o PC tenham tido seus neg\u00f3cios (Universidade Arcis, imobili\u00e1rias, etc.) e alguns de seus militantes tenham rela\u00e7\u00f5es mais estreitas com a burguesia (Irac\u00ed Hassler e outros), n\u00e3o podemos dizer que eles s\u00e3o os partidos tradicionais da burguesia. Os partidos tradicionais da burguesia s\u00e3o a UDI (Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Independente), RN (Renova\u00e7\u00e3o Nacional), Ev\u00f3poli (Evolu\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica &#8211; mais recente), o Partido Socialista, a DC (Democracia Crist\u00e3), o PR (Partido Radical) e o PPD (Partido pela Democracia). Esses partidos receberam rios de dinheiro da grande burguesia, seus militantes fizeram parte dos conselhos de grandes empresas, AFPs, Bancos, etc.<\/p>\n<p>Para entender qual ser\u00e1 o futuro governo de Boric, \u00e9 fundamental entender essa alian\u00e7a que est\u00e1 sendo constru\u00edda. <strong>A alian\u00e7a entre a FA\/PC e o PS\/PPD\/PR \u00e9 uma alian\u00e7a da pequena burguesia acomodada e a burocracia sindical com a grande burguesia para salvar o regime democr\u00e1tico burgu\u00eas e a domina\u00e7\u00e3o da grande burguesia sobre o pa\u00eds como um todo<\/strong>. Os grandes burgueses ter\u00e3o que aceitar, pelos pr\u00f3ximos 4 anos, que os filhos da pequena burguesia e os burocratas sindicais administrem uma parte do aparelho do Estado. Eles sabem que esses filhos da pequena burguesia n\u00e3o s\u00e3o revolucion\u00e1rios, mas temem que n\u00e3o sejam firmes o suficiente para conter o terremoto que os levou ao poder e que pode explodir a qualquer momento: o movimento de massas.<\/p>\n<p><strong>Os neg\u00f3cios dos Ministros e Ministras<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de uma composi\u00e7\u00e3o social principalmente pequeno burguesa, algumas membros do futuro gabinete chamam a aten\u00e7\u00e3o por seus neg\u00f3cios<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>O futuro ministro dos Transportes e Telecomunica\u00e7\u00f5es, Juan Carlos Mu\u00f1oz, engenheiro civil da Universidade Cat\u00f3lica, pode ser considerado um burgu\u00eas, embora n\u00e3o seja dos mais ricos de Chile. Mu\u00f1oz tem a\u00e7\u00f5es em diferentes empresas de diferentes \u00e1reas num total de mais de 700 milh\u00f5es de pesos. Seus neg\u00f3cios v\u00e3o desde o setor de Transportes (Sociedade de Transportes Gama e Sociedade de Arrendamento de Ve\u00edculos Chacabuco &#8211; embora publicamente critique o uso de carros e promova o uso da bicicleta &#8211; at\u00e9 a agricultura e o setor imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p>A futura Ministra de Desenvolvimento Social, Jeanette Vega Morales, tem investimentos em 5 empresas, principalmente do setor imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p>Outro caso muito interessante \u00e9 o da Ministra de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Antonia Urrejola, propriet\u00e1ria de uma empresa de Investimentos e Assessorias com seu marido, Cristian Franz, que foi Superintendente de Meio ambiente entre 2014-2018 (governo de Bachelet). Franz prestou assessoria a empresas \u201cid\u00f4neas\u201d e \u201csustent\u00e1veis\u201d como Agrosuper (l\u00edder da alimenta\u00e7\u00e3o nos setores de frango, porco e salm\u00e3o, ndt,), as mineradoras Collahuasi, Antofagasta Minerals e Barrick, sim, a mesma do projeto Pascua-Lama (minera\u00e7\u00e3o de ouro, fechada por danos ao meio ambiente, ndt). A mesma empresa emitiu recibos de pagamento de assessoria para ningu\u00e9m menos que Agust\u00edn Walker del R\u00edo, um dos magnatas dos direitos de uso de \u00e1gua.<\/p>\n<p>O Partido Comunista tamb\u00e9m n\u00e3o fica de fora. O futuro Ministro de Ci\u00eancia e Tecnologia tamb\u00e9m tem seus neg\u00f3cios na \u00e1rea da Sa\u00fade, onde ganhou dinheiro em contratos com o Estado e \u00e9 s\u00f3cio de uma cl\u00ednica privada. A lista continua, com neg\u00f3cios de Mario Marcel e outros ministros.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o entre empres\u00e1rios (grandes e pequenos) e o Estado foi uma das marcas dos \u00faltimos governos, tanto de \u201cesquerda\u201d como de direita. Todos, de Aylwin at\u00e9 Pi\u00f1era, utilizaram o aparelho p\u00fablico para beneficiar suas empresas e encher os bolsos a partir de sua localiza\u00e7\u00e3o no poder. N\u00e3o devemos nos surpreender se daqui a pouco come\u00e7arem a surgir casos de corrup\u00e7\u00e3o, enriquecimento il\u00edcito, etc.<\/p>\n<p>Que podemos esperar de uma Ministra de Desenvolvimento Social que \u00e9 s\u00f3cia de v\u00e1rias imobili\u00e1rias? Que podemos esperar de um Ministro da Ci\u00eancia \u201ccomunista\u201d que tem empresas no setor de Biologia celular e \u00e9 s\u00f3cio de cl\u00ednicas privadas? Ou de um Ministro dos Transportes que tem empresas de Transportes? Parece que j\u00e1 vimos essa hist\u00f3ria antes.<\/p>\n<p><strong>E que mudan\u00e7as podemos esperar?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, devemos destacar que Boric n\u00e3o prometeu mudar as estruturas do pa\u00eds. N\u00e3o prometeu recuperar a riqueza levadas pelas transnacionais do cobre, n\u00e3o prometeu reverter \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos 30 anos, n\u00e3o prometeu devolver as terras ao povo Mapuche, n\u00e3o prometeu acabar com os grandes monop\u00f3lios farmac\u00eauticos, ou algo assim. Tamb\u00e9m n\u00e3o prometeu libertar todos os presos pol\u00edticos. Ent\u00e3o, quem acredita que este ser\u00e1 um governo de grandes mudan\u00e7as, j\u00e1 pode diminuir suas expectativas.<\/p>\n<p>Mas Boric prometeu uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as. Sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas, \u00e1gua para as comunidades, perd\u00e3o ao Cr\u00e9dito com Garantia do Estado \u2013 CAE (financiamento estudantil para o ensino superior, ndt), fim das AFPs, reforma da pol\u00edcia, etc.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar a realizar tais mudan\u00e7as, Boric e seu Ministro da Fazenda t\u00eam uma prioridade: fazer uma Reforma Tribut\u00e1ria. A Reforma Tribut\u00e1ria lhe permitiria arrecadar mais impostos para financiar os gastos sociais de seu governo. Segundo Boric e Mario Marcel, a ideia \u00e9 atacar a sonega\u00e7\u00e3o fiscal, retirar alguns subs\u00eddios dos setores empresariais, aprovar um royalty \u00e0 minera\u00e7\u00e3o e cobrar um pequeno imposto aos super- ricos. Com isso, poderia ser arrecadado mais ou menos 5% do PIB, o que permitiria colocar em pr\u00e1tica pelo menos uma parte importante de seu plano de governo.<\/p>\n<p>No entanto, esse plano tem v\u00e1rios problemas.<\/p>\n<p><strong>O primeiro problema<\/strong> \u00e9 que n\u00e3o questiona o verdadeiro saque que os grandes empres\u00e1rios fazem das riquezas produzidas pela classe trabalhadora. S\u00f3 no caso do cobre, estima-se que entre 12 e 20 bilh\u00f5es de d\u00f3lares v\u00e3o parar todos os anos no bolso dos acionistas das grandes mineradoras, a maioria estrangeiras. Os royalties da minera\u00e7\u00e3o que tramitam no Congresso e s\u00e3o apoiados pelo futuro governo variar\u00e1 (se aprovado) entre 1 e 3% do imposto sobre as vendas da grande minera\u00e7\u00e3o, dependendo do pre\u00e7o do cobre. Esse royalty n\u00e3o muda em praticamente nada os saques realizados pelas grandes transnacionais. Se somarmos a isso os lucros dos grandes Bancos, empresas de atividade florestal, varejo, etc., chegamos a cifras impressionantes de recursos, dinheiro que poderia ser usado para resolver todos os problemas do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>O segundo problema<\/strong>: a l\u00f3gica do governo de financiar direitos sociais com impostos sobre os mais ricos tem outro \u201cinconveniente\u201d. Para que haja mais dinheiro nos cofres fiscais, os ricos precisam ficar mais ricos e pagar mais impostos, suas empresas e suas fortunas necessitam crescer. No entanto, para crescerem, essas empresas t\u00eam que expandir sua produ\u00e7\u00e3o, exportar mais, ter mais lucros. Isso tem duas consequ\u00eancias contradit\u00f3rias com o plano de governo: 1 &#8211; para que o governo tenha mais dinheiro as empresas chamadas extrativistas &#8211; a base da economia chilena &#8211; (minera\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o florestal, pesca industrial, etc.) devem produzir e exportar mais, o que destr\u00f3i o meio ambiente e as comunidades; 2 &#8211; para crescer, as empresas devem aumentar a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores: investir em mais tecnologias para aumentar a produtividade (e com isso fazer com que menos trabalhadores possam produzir mais) e aumentar os n\u00edveis de explora\u00e7\u00e3o que existem hoje. Assim, seu plano econ\u00f4mico vai na contram\u00e3o do que prometeu: cuidar do meio ambiente, diminuir a jornada de trabalho, aumentar os sal\u00e1rios, etc.<\/p>\n<p><strong>O terceiro problema<\/strong> nesse plano \u00e9 que, ao permitir que os grandes capitalistas continuem dominando a economia do pa\u00eds como um todo, permite tamb\u00e9m que esses capitalistas controlem e corrompam todas as institui\u00e7\u00f5es estatais. A primeira consequ\u00eancia disso ser\u00e1 a dificuldade que Boric ter\u00e1 para aprovar suas reformas no Parlamento, institui\u00e7\u00e3o controlada pelo grande empresariado atrav\u00e9s dos partidos de direita e da ex-Concerta\u00e7\u00e3o. As reformas propostas pelo governo ter\u00e3o que ser <strong>negociadas<\/strong> com a grande burguesia e, \u00e9 esta quem tem as cartas na m\u00e3o. Al\u00e9m disso, a grande burguesia continua controlando os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas e est\u00e1 \u201cinfiltrada\u201d em todas as institui\u00e7\u00f5es do Estado, algo que Boric n\u00e3o se prop\u00f5e a mudar ao distribuir cargos \u00e0 ex-Concerta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em resumo, <strong>podemos dizer que Boric tentar\u00e1 fazer reformas \u201cna medida do poss\u00edvel\u201d e nos termos do grande empresariado, o que apontar\u00e1 para o fracasso ou modera\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias dessas reformas<\/strong>. Sem d\u00favida, haver\u00e1 choques entre o futuro governo e o empresariado, pois Boric sabe que est\u00e1 sentado sobre um barril de p\u00f3lvora. Se o movimento de massas n\u00e3o voltar \u00e0s ruas, tudo indica que o governo acabar\u00e1 por se adaptar aos termos dos donos do pa\u00eds. Se o movimento de massas se colocar novamente em a\u00e7\u00e3o, a instabilidade do futuro governo ser\u00e1 grande.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o Mapuche: uma bomba rel\u00f3gio<\/strong><\/p>\n<p>Outro problema central que n\u00e3o ter\u00e1 solu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 a quest\u00e3o Mapuche. Embora Boric tenha declarado que retirar\u00e1 as tropas militares do Wallmapu, o problema permanecer\u00e1. A \u201cquest\u00e3o Mapuche\u201d n\u00e3o ter\u00e1 solu\u00e7\u00e3o se as terras n\u00e3o lhes forem devolvidas e se n\u00e3o for respeitado seu direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o. Junto com essas medidas, todos os presos Mapuche devem ser libertados, o que o governo tamb\u00e9m n\u00e3o far\u00e1.<\/p>\n<p>Embora Boric tente negociar com empres\u00e1rios e setores Mapuche para ganhar tempo, o futuro governo n\u00e3o tem um plano para solucionar o problema, pois n\u00e3o quer se confrontar com os donos das grandes empresas florestais que ocupam o territ\u00f3rio Mapuche.<\/p>\n<p><strong>E a Constituinte?<\/strong><\/p>\n<p>Outro elemento importante a ser considerado ser\u00e1 o resultado da Conven\u00e7\u00e3o Constitucional e do Plebiscito de sa\u00edda, que poder\u00e1 aprovar ou rejeitar a Nova Constitui\u00e7\u00e3o. Aqui tamb\u00e9m devemos estar muito atentos ao que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>Embora as Comiss\u00f5es da Conven\u00e7\u00e3o Constitucional estejam aprovando iniciativas importantes (como a devolu\u00e7\u00e3o das terras ao povo Mapuche, a revis\u00e3o dos Tratados de Livre Com\u00e9rcio, a nacionaliza\u00e7\u00e3o do cobre e do l\u00edtio) <strong>essas iniciativas ser\u00e3o derrotadas no Plen\u00e1rio se n\u00e3o houver uma grande press\u00e3o popular<\/strong>. Isso porque a Conven\u00e7\u00e3o Constitucional funciona com o qu\u00f3rum de 2\/3, o que d\u00e1 a uma minoria de constituintes (53) o poder de decidir o que ser\u00e1 ou n\u00e3o inclu\u00eddo na Nova Constitui\u00e7\u00e3o. Assim, <strong>o poder decisivo estar\u00e1 nas m\u00e3os dos partidos que hoje s\u00e3o governo e que conduzem a Conven\u00e7\u00e3o Constitucional: Frente Ampla, Partido Socialista e em menor grau o PC<\/strong>. A mesma estrat\u00e9gia de Boric de pactuar com o grande empresariado se expressar\u00e1 dentro da Conven\u00e7\u00e3o Constitucional.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o houver mobiliza\u00e7\u00e3o popular agora, a tend\u00eancia \u00e9 que a futura Constitui\u00e7\u00e3o garanta alguns direitos no papel, mas que isso n\u00e3o seja cumprido depois, j\u00e1 que n\u00e3o se tocar\u00e1 na estrutura do modelo econ\u00f4mico.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o o que fazemos?<\/strong><\/p>\n<p>Tudo o que conquistamos at\u00e9 agora foi fruto da mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o popular. A pr\u00f3pria Conven\u00e7\u00e3o Constitucional n\u00e3o existiria sem as grandes mobiliza\u00e7\u00f5es populares dos \u00faltimos anos. Acreditamos que esse \u00e9 o caminho para conquistar as verdadeiras mudan\u00e7as que est\u00e3o sendo discutidas hoje.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 fundamental que nos organizemos nos locais de trabalho, em nossos territ\u00f3rios, nos sindicatos. \u00c9 fundamental que a classe trabalhadora acompanhe os debates da Conven\u00e7\u00e3o Constitucional e pressione para que as demandas populares sejam respeitadas e votadas por essa Conven\u00e7\u00e3o. <strong>Devemos recuperar o caminho de 12 de novembro de 2019, onde uma greve geral combinada com as mobiliza\u00e7\u00f5es populares obrigou o governo de Pi\u00f1era e os partidos do regime a abrir o atual Processo Constituinte.<\/strong><\/p>\n<p>Com nossa companheira Mar\u00eda Rivera apresentamos uma s\u00e9rie de iniciativas que ser\u00e3o discutidas e votadas nas pr\u00f3ximas semanas, como a nacionaliza\u00e7\u00e3o da grande minera\u00e7\u00e3o do cobre, l\u00edtio e ouro; a anistia a todos os presos pol\u00edticos chilenos e Mapuche; a necessidade de mudar toda a estrutura do Estado para um poder da classe trabalhadora e dos povos; a necessidade de nacionalizar todas as empresas estrat\u00e9gicas do pa\u00eds e planificar a economia, e iniciativas sobre os direitos das mulheres. Tamb\u00e9m apoiamos diversas outras iniciativas que prop\u00f5em rever os Tratados de Livre Com\u00e9rcio, devolver as terras ao povo Mapuche, devolver a \u00e1gua \u00e0s comunidades, recuperar a natureza, etc.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental que reorganizemos os espa\u00e7os do movimento popular, da juventude e da classe oper\u00e1ria. Devemos fazer muita press\u00e3o agora para que as demandas populares sejam votadas na Nova Constitui\u00e7\u00e3o e para que o futuro governo seja obrigado a respeit\u00e1-las. Se isso n\u00e3o acontecer, a Conven\u00e7\u00e3o Constitucional ser\u00e1 um enorme fracasso e o governo de Boric tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 necess\u00e1rio construir uma nova alternativa pol\u00edtica da classe trabalhadora e dos povos<\/strong><\/p>\n<p>A classe trabalhadora, a juventude, o povo pobre precisamos j\u00e1 come\u00e7ar a construir uma alternativa pol\u00edtica que leve at\u00e9 o fim a luta pelas reivindica\u00e7\u00f5es populares e mude nosso pa\u00eds. Embora, possamos ter conquistas com a press\u00e3o popular, n\u00e3o podemos esperar que os donos deste pa\u00eds e seus governos as respeitem.<\/p>\n<p><strong>Precisamos construir um partido pol\u00edtico da classe trabalhadora<\/strong> que tenha como objetivo recuperar tudo o que os grandes empres\u00e1rios saquearam &#8211; as terras, o cobre, os mares, etc. &#8211; e colocar toda a economia a servi\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora e da recupera\u00e7\u00e3o da natureza. Se o governo de Boric n\u00e3o resolver os problemas do pa\u00eds, dever\u00e1 abrir caminho para aqueles que temos um projeto para solucion\u00e1-los: o povo trabalhador e a juventude.<\/p>\n<p>O Movimento Internacional de Trabalhadores hoje \u00e9 uma ferramenta no sentido da constru\u00e7\u00e3o desse partido. Convidamos a todos e todas, a nos conhecer e se organizar no MIT.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.latercera.com\/el-gabinete-de-gabriel-boric\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">El Gabinete de Boric &#8211; La Tercera<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.elmostrador.cl\/noticias\/sin-editar\/2016\/03\/09\/renuncio-lucia-dammert-la-polemica-asesora-del-ministerio-del-interior\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Renunci\u00f3 Luc\u00eda Dammert, la pol\u00e9mica asesora\u00a0del Ministerio del Interior &#8211; El Mostrador<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.latercera.com\/nacional\/noticia\/hector-llaitul-pedir-la-renuncia-del-subsecretario-mahmud-aleuy\/69545\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">H\u00e9ctor Llaitul: &#8220;Hay que pedir la renuncia del subsecretario Mahmud Aleuy&#8221; &#8211; La Tercera<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Em setembro de 2017, Carabineiros realizaram a Opera\u00e7\u00e3o Furac\u00e3o, na qual um total de oito\u00a0l\u00edderes mapuches foram presos sob a acusa\u00e7\u00e3o de\u00a0associa\u00e7\u00e3o terrorista il\u00edcita, acusados \u200b\u200bde participar de ataques incendi\u00e1rios ,ndt;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.ciperchile.cl\/2022\/01\/27\/estas-son-las-sociedades-comerciales-del-gabinete-de-gabriel-boric\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Estas son las sociedades comerciales del gabinete de Boric \u2013 CIPER Chile<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Rosangela Botelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias, foram publicados v\u00e1rios artigos sobre o Gabinete do futuro presidente Gabriel Boric. Neste artigo n\u00e3o pretendemos fazer uma an\u00e1lise detalhada de seu gabinete, j\u00e1 que isso pode ser facilmente encontrado em outras reportagens[1]. 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