{"id":65885,"date":"2022-01-24T15:58:16","date_gmt":"2022-01-24T18:58:16","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65885"},"modified":"2022-01-24T15:58:16","modified_gmt":"2022-01-24T18:58:16","slug":"algumas-palavras-sobre-moreno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/01\/24\/algumas-palavras-sobre-moreno\/","title":{"rendered":"Algumas palavras sobre Moreno"},"content":{"rendered":"<p>Tarde de 25 de janeiro 1987, conjunto popular na periferia de Belo Horizonte.\u00a0A campainha da porta toca insistente. Ao abrir, vejo um velho camarada solu\u00e7ando. Ele n\u00e3o parava de chorar, balbuciando: \u201cmorreu, morreu\u201d. Quando conseguiu falar, completou \u201co velho morreu\u201d. Senti como se o piso se movesse, sem nada s\u00f3lido para pisar.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Eduardo Almeida<\/p>\n<p>Nossa compreens\u00e3o do mundo inclui quase sempre muitas d\u00favidas e algumas certezas. Uma de minhas certezas, das mais importantes, desapareceu.<\/p>\n<p>Nahuel Moreno, fundador e dirigente da LIT, tinha morrido. Era uma fonte de seguran\u00e7a te\u00f3rica e pol\u00edtica, uma certeza de respostas, de apoio pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Foi uma correria, l\u00e1grimas nem sempre furtivas nos olhos, para viajar a Buenos Aires. Precisava fazer minha \u00faltima homenagem ao velho. Rever meus camaradas da dire\u00e7\u00e3o da LIT para ver o que fazer, perante a dureza da perda. Durante a viagem, recordei os anos recentes de 85 e 86, passados na equipe de dire\u00e7\u00e3o da LIT, junto de Moreno, na Argentina.<\/p>\n<p>O velho era alto, obeso, simp\u00e1tico, expansivo, onipresente. Volta e meia soltava uma daquelas gargalhadas exuberantes. Sempre existiu uma desigualdade abismal entre seu n\u00edvel te\u00f3rico e pol\u00edtico e o dos outros quadros. Tinha uma cultura enciclop\u00e9dica. Nos almo\u00e7os, nos divertia com suas hist\u00f3rias sobre um epis\u00f3dio hist\u00f3rico da revolu\u00e7\u00e3o francesa ou uma teoria sobre biologia.<\/p>\n<p>Ele se dedicava a estudos e debates te\u00f3ricos, como parte da tradi\u00e7\u00e3o marxista. Mas, ao contr\u00e1rio do marxismo acad\u00eamico, sempre foi um apaixonado pela luta oper\u00e1ria concreta, pela necessidade da concretiza\u00e7\u00e3o do programa, de viver diretamente as lutas oper\u00e1rias.<\/p>\n<p>Era capaz de escutar atentamente um oper\u00e1rio, entender a realidade atrav\u00e9s dele, assim como fazia Lenin. Assim como n\u00e3o faz a maioria absoluta dos que se consideram \u201cdirigentes.\u201d\u00a0 Moreno era, al\u00e9m de tudo, uma figura humana atenciosa, sens\u00edvel. Ele se emocionava, e muito, mais com as vit\u00f3rias que com as derrotas.<\/p>\n<p>Olhava a pessoa por tr\u00e1s do militante. Viajei para Buenos Aires em 85 com minha companheira na \u00e9poca, que tinha um filho de seis anos. O garoto se matriculou em uma escola p\u00fablica argentina, estudou em uma l\u00edngua estrangeira, e se adaptou muito bem. Moreno acompanhou o desempenho de Henrique na escola, interessado, observador.<\/p>\n<p>A equipe da dire\u00e7\u00e3o da LIT inclu\u00eda tamb\u00e9m dois colombianos (Daniel Oma\u00f1a e Carmen Carrasco) e um uruguaio (Negro Robles). A sede da LIT era em um sobrado no Parque Centen\u00e1rio, em Buenos Aires. O local central do MAS (principal partido da LIT ent\u00e3o) era em um pr\u00e9dio gigantesco na <em>calle<\/em> Peru (Rua Peru), centro da cidade.<\/p>\n<p>O partido vivia seu auge, com cinco a seis mil militantes, centenas de quadros com vinte , trinta ou quarenta anos de milit\u00e2ncia.\u00a0 Uma realidade apaixonante.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u201cSomos los troscos, los troscos de Moreno\u201d<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio da madrugada, cheguei a Buenos Aires. No vel\u00f3rio, encontrei meus velhos camaradas da dire\u00e7\u00e3o do MAS e da LIT. Todos eles tinham vinte anos ou mais de milit\u00e2ncia que eu. Mas \u00e9ramos todos \u00f3rf\u00e3os naquele momento. Silencio ao redor do corpo de Moreno. A tristeza era dura e pesada.<\/p>\n<p>O que ia se passar com o\u00a0 MAS e a LIT sem Moreno? A inseguran\u00e7a se expressava em cada abra\u00e7o, em cada coment\u00e1rio sussurrado.<\/p>\n<p>No dia seguinte, uma passeata acompanhou o carro que levava o corpo do velho at\u00e9 o cemit\u00e9rio de Chacarita. Para enfrentar a dor e provar a n\u00f3s mesmos que a luta devia continuar sem o velho, cant\u00e1vamos:<\/p>\n<p><strong><em>\u201csomos los troscos, los troscos de Moreno<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Somos los troscos del movimento obrero\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O velho morreu quando mais era necess\u00e1rio. J\u00e1 estava ocorrendo naquele momento a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo no leste. Logo depois viriam as grandes mobiliza\u00e7\u00f5es que derrubaram as ditaduras stalinistas. Uma enorme campanha \u201co socialismo acabou\u201d impactou a esquerda em todo o mundo. A confus\u00e3o e as crises se abateram\u00a0 n\u00e3o s\u00f3 sobre as correntes reformistas, mas tamb\u00e9m sobre as revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>A LIT n\u00e3o foi uma exce\u00e7\u00e3o. Sem seu principal dirigente, viveu uma crise pesada.<\/p>\n<p>O MAS argentino, naquele momento o maior partido trotsquista do mundo, explodiu. A LIT\u00a0 chegou \u00e0 beira da destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, ao contr\u00e1rio de outras correntes trotsquistas internacionais daquela \u00e9poca, a LIT se recomp\u00f4s da crise. Seguimos sendo hoje , um embri\u00e3o para a reconstru\u00e7\u00e3o da IV Internacional. Continuamos como a \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o internacional funcionante no modelo geral da III e da IV Internacional, embora muito minorit\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>E porque a LIT segue viva?<\/strong><\/p>\n<p>Olhando para tr\u00e1s, depois de 35 anos, dou minha opini\u00e3o. Segue viva porque deu continuidade aquele c\u00e2ntico nas ruas de Buenos Aires. Seguimos sendo \u201c<strong><em>los troscos del movimento obrero, los troscos de Moreno.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Seria rid\u00edculo ter qualquer culto a personalidade de Moreno. N\u00e3o cabe isso na tradi\u00e7\u00e3o trotsquista. Menos ainda com Moreno, que dizia que \u201cnossa hist\u00f3ria \u00e9 a hist\u00f3ria de nossos erros\u201d. Mas cabe sim localizar o legado do velho Nahuel.<\/p>\n<p>A corrente morenista, em minha opini\u00e3o, se manteve por continuar com caracter\u00edsticas b\u00e1sicas do pensamento de Moreno. Mas essas caracter\u00edsticas n\u00e3o foram criadas por ele. S\u00e3o continuidade do leninismo, do trotsquismo.<\/p>\n<p>A originalidade e atualidade da LIT , hoje ainda, \u00e9 dar continuidade \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas marxistas que foram sendo abandonadas pela esquerda, inclusive a de origem trotsquista.<\/p>\n<p>Queria marcar quatro temas que foram grandes batalhas de Moreno e se transformaram em caracter\u00edsticas de nossa corrente.<\/p>\n<p><strong>A busca da inser\u00e7\u00e3o na classe oper\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Moreno fez, com apenas vinte anos, uma virada no trotsquismo argentino, que at\u00e9 ent\u00e3o se resumia a c\u00edrculos de classe media intelectual.<\/p>\n<p>Com a funda\u00e7\u00e3o do Grupo Obrero Marxista, girou a atividade para f\u00e1bricas e bairros oper\u00e1rios. \u00c9 interessante recordar essa descri\u00e7\u00e3o de\u00a0 Patricio Vallejo:<\/p>\n<p>\u201cEntre 1943 e 1944, o grupo percorria f\u00e1bricas, participava de lutas sindicais, visitava as casas dos oper\u00e1rios, realizava colagem de cartazes, pintava paredes com palavras de ordem pol\u00edticas, editava folhetos com textos cl\u00e1ssicos \u2013<em>Cadernos Marxistas, Edi\u00e7\u00f5es Outubro\u00a0<\/em>\u2013, al\u00e9m de elaborar os interessantes \u201cBoletins de discuss\u00e3o do GOM\u201d.<\/p>\n<p>Mas foi em abril de 1945, quando a greve do frigor\u00edfico Anglo-Ciabasa irrompeu, que a primeira oportunidade de dar um salto importante se apresentou. Os jovens trotskistas meteram-se de cheio na luta daquela que, com 12.000 oper\u00e1rios, era uma das f\u00e1bricas mais importantes do pa\u00eds. A participa\u00e7\u00e3o decidida do grupo permitiu ganhar quase a totalidade do Comit\u00ea de F\u00e1brica.<\/p>\n<p>\u00c9 ilustrativo o relato de um ativista sindical da \u00e9poca, Ram\u00f3n \u201cEl Chueco\u201d Britos, para entender o processo de inser\u00e7\u00e3o desse pequeno grupo trotskista na classe oper\u00e1ria:<\/p>\n<p>Eu era um ativista ligado ao comit\u00ea de greve que os anarquistas dirigiam [\u2026] Ent\u00e3o, um grupo de garotos aproximou-se dizendo que eram estudantes e que queriam ajudar. Assim conheci o GOM e companheiros como Moreno, Boris, Mauricio, Abrahamcito, Rita, Daniel, Rosita e outros\u2026 Voc\u00eas sabem que o oper\u00e1rio \u00e9 meio desconfiado. E n\u00f3s os olh\u00e1vamos com desconfian\u00e7a. Mas eu os vi se moverem, empurrar, ajudar, fazer panfletos, falar e convencer. Sobretudo, eu os vi fazer uma coisa muito rara: consultar, pedir conselho e opini\u00e3o. Escutei eles dizerem, como dizia Moreno, \u2018o que voc\u00ea acha, Chuequito\u2026? \u2019 N\u00e3o vinham no papel de professores. E ent\u00e3o ganharam nossa confian\u00e7a. Nos deixaram muito mais que a solidariedade com a greve. Nos ensinaram o que devia ser um partido revolucion\u00e1rio, e mudaram a vida de muitos de n\u00f3s. Eles, o grupo de garotos do GOM, tamb\u00e9m mudou. Ter conhecido a classe oper\u00e1ria os levou a se ligarem ainda mais. Foi assim que, logo depois, eu aluguei a casa de Villa Pobladora, onde Moreno e outros companheiros iriam viver.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, a Villa Pobladora era o principal centro oper\u00e1rio e industrial da Argentina e um dos maiores da Am\u00e9rica Latina. O GOM, al\u00e9m de sua interven\u00e7\u00e3o na greve e nos sindicatos dos frigor\u00edficos, passou a dirigir metade da comiss\u00e3o de f\u00e1brica da SIAM, a maior metal\u00fargica do pa\u00eds naquele momento. Tamb\u00e9m havia orientado a funda\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios sindicatos importantes, como a Federa\u00e7\u00e3o da Carne e a Associa\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria T\u00eaxtil. Dirigiam, al\u00e9m disso, f\u00e1bricas de tubula\u00e7\u00f5es de cimento, do couro, etc. (S\u00edntese biogr\u00e1fica de Nahuel Moreno)\u201d<\/p>\n<p>Essa caracter\u00edstica , de buscar inser\u00e7\u00e3o direta na classe oper\u00e1ria se transformou em um dos elementos constitutivos da corrente morenista at\u00e9 os dias de hoje. N\u00e3o \u00e9 por acaso que os partidos ligados a LIT est\u00e3o presentes nas principais lutas oper\u00e1rias em seus pa\u00edses.<\/p>\n<p>Isso permite a busca da fus\u00e3o do programa marxista com as lutas concretas dos trabalhadores. Essa postura tamb\u00e9m evita a degenera\u00e7\u00e3o t\u00e3o comum de grupos marxistas em seitas isoladas, que s\u00f3 recitam o programa, sem buscar a via para o movimento de massas.<\/p>\n<p>\u201cUma organiza\u00e7\u00e3o trotskista que n\u00e3o esteja cheia de oper\u00e1rios vive em crise permanente, mesmo que seja composta por camaradas muito inteligentes e capazes\u201d.<\/p>\n<p><strong>O internacionalismo cotidiano<\/strong><\/p>\n<p>Em 1948, com 24 anos, Moreno participou do II Congresso da IV Internacional. Desde ent\u00e3o, se dedicou centralmente a reconstru\u00e7\u00e3o da IV.<\/p>\n<p>Partia da concep\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existe possibilidade de constru\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria nacional que n\u00e3o fosse parte de uma internacional. Por mais forte que seja um partido nacional, inevitavelmente tender\u00e1 a sucumbir \u00e0s press\u00f5es nacionais e degenerar, caso n\u00e3o seja parte de uma internacional revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Moreno participou diretamente das grandes pol\u00eamicas pol\u00edticas internacionais que atravessaram o trotsquismo desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi parte dos que reconheceram a exist\u00eancia dos novos estados oper\u00e1rios no leste europeu, contra a posi\u00e7\u00e3o de que eram estados capitalistas.<\/p>\n<p>Encarou diretamente a pol\u00eamica com a capitula\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da IV ao stalinismo e as dire\u00e7\u00f5es burguesa \u201cprogressivas\u201d. Isso se expressou duramente na revolu\u00e7\u00e3o boliviana de 52, quando o POR boliviano, seguindo a orienta\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o da IV, apoiou o governo burgu\u00eas do MNR. Moreno defendeu abertamente a pol\u00edtica de \u201ctodo poder a COB\u201d.<\/p>\n<p>Em 53, perante a capitula\u00e7\u00e3o pablista, Moreno participou da ruptura e da forma\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Internacional, junto com o SWP norte americano.\u00a0 Em 57, junto com chilenos e peruanos formou uma tend\u00eancia internacional, o SLATO ( Secretariado Latino Americano do Trotskismo Ortodoxo). O SLATO teve uma import\u00e2ncia no processo revolucion\u00e1rio agr\u00e1rio peruano em 62, com a participa\u00e7\u00e3o destacada de Hugo Blanco. Hugo era um estudante peruano e militante do grupo argentino, e foi enviado para participar do processo de Cuzco, encabe\u00e7ando o processo de ocupa\u00e7\u00e3o de terras e organiza\u00e7\u00e3o sindical.<\/p>\n<p>Moreno participou da reunifica\u00e7\u00e3o do Secretariado Unificado em 1963, em base ao reconhecimento e apoio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o cubana. Mas logo \u00e9 obrigado a lutar contra a desvia\u00e7\u00e3o guerrilheira da maioria da dire\u00e7\u00e3o da IV, que teve ser\u00edssimas consequ\u00eancias nas se\u00e7\u00f5es latino-americanas.<\/p>\n<p>Em 1979, quando ocorreu a revolu\u00e7\u00e3o nicaraguense, nossa corrente resolveu participar diretamente da luta militar contra Somoza, mesmo com todas as diferen\u00e7as com a Frente Sandinista.\u00a0 Atrav\u00e9s do PST colombiano se fez uma grande campanha para formar a Brigada Sim\u00f3n Bol\u00edvar. Mantendo nossa independ\u00eancia pol\u00edtica, a Brigada participou diretamente na libera\u00e7\u00e3o de uma parte do sul da Nicar\u00e1gua, com mortos e feridos. Depois do triunfo da revolu\u00e7\u00e3o, os membros da Brigada foram para Man\u00e1gua organizar sindicatos independentes, exigindo que o sandinismo rompesse com a burguesia e avan\u00e7asse na revolu\u00e7\u00e3o. Em uma semana, a Brigada organizou mais de 70 sindicatos.<\/p>\n<p>A Frente Sandinista, que n\u00e3o queria avan\u00e7ar para uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, e menos ainda permitir a organiza\u00e7\u00e3o\u00a0 independente dos trabalhadores, expulsou a Brigada da Nicar\u00e1gua. A dire\u00e7\u00e3o do SU apoiou a Frente Sandinista nessa repress\u00e3o, e essa foi a origem da ruptura da Fra\u00e7\u00e3o Bolchevique, a corrente morenista com o SU.<\/p>\n<p>Houve um curto per\u00edodo em que a Fra\u00e7\u00e3o Bolchevique se aproximou da Organiza\u00e7\u00e3o Comunista Internacionalista, dirigida por Lambert. Esse processo se esgotou com a capitula\u00e7\u00e3o dessa corrente ao governo de frente popular de Miterrand na Fran\u00e7a. Em 1982, a Fra\u00e7\u00e3o Bolchevique levou \u00e0 funda\u00e7\u00e3o da LIT.<\/p>\n<p>A LIT, obra e legado mais importante de Moreno, \u00e9 um pequeno embri\u00e3o de internacional. Tem congressos regulares que definem , depois de uma discuss\u00e3o democr\u00e1tica , a pol\u00edtica da internacional.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel, a partir desse funcionamento semelhante ao da III e da IV, que outros partidos critiquem e ajudem na defini\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas nacionais das se\u00e7\u00f5es nacionais.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 muito diferente das outras correntes de origem trotsquistas. O SU abandonou a estrat\u00e9gia da ditadura do proletariado, assim como da constru\u00e7\u00e3o real de uma internacional revolucion\u00e1ria. O SU segue existindo e se intitulando \u201cIV Internacional\u201d, mas hoje \u00e9 apenas uma\u00a0 rede internacional de partidos anticapitalistas. A corrente lambertista , na pratica deixou de existir. Existem correntes trotsquistas internacionais, como por exemplo, ao redor do PTS, argentino, com um funcionamento de \u201cpartido m\u00e3e\u201d, com a imposi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica internacional pelo partido mais forte, sem verdadeiros congressos internacionais.<\/p>\n<p><strong>A rela\u00e7\u00e3o com a teoria marxista<\/strong><\/p>\n<p>Moreno tinha, como parte da tradi\u00e7\u00e3o marxista, uma preocupa\u00e7\u00e3o constante com a elabora\u00e7\u00e3o\u00a0 te\u00f3rica e program\u00e1tica. Sempre se autocriticava pelo \u201ctrotsquismo b\u00e1rbaro\u201d. Mas deixou aportes importantes e originais no marxismo, ao contr\u00e1rio de muitos outros dirigentes.<\/p>\n<p>Por exemplo, aportou na interpreta\u00e7\u00e3o da coloniza\u00e7\u00e3o de Am\u00e9rica Latina. Em \u201cQuatro Teses sobre a coloniza\u00e7\u00e3o espanhola e portuguesa na Am\u00e9rica\u201d, Moreno aplicou a teoria do desenvolvimento desigual e combinado de Trotsky, para mostrar como se dava uma coloniza\u00e7\u00e3o inserida no capitalismo com rela\u00e7\u00f5es pr\u00e9-capitalistas.<\/p>\n<p>O velho teve a aud\u00e1cia de fazer, corretamente, uma corre\u00e7\u00e3o e um enriquecimento das Teses da Revolu\u00e7\u00e3o Permanente, de Trotsky. Constatou que as revolu\u00e7\u00f5es do p\u00f3s-segunda guerra mundial n\u00e3o tinham tido nem o proletariado, nem um partido revolucion\u00e1rio \u00e0 sua frente.<\/p>\n<p>No livro \u201cPartido mandelista ou partido leninista\u201d (1973),\u00a0 Moreno fez uma elabora\u00e7\u00e3o, at\u00e9 hoje a meu ver n\u00e3o superada, sobre a rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e programa, e de como elaborar uma palavra de ordem. Em \u201cL\u00f3gica marxista e ci\u00eancias modernas\u201d (1973), Moreno fez uma exposi\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica dial\u00e9tica, superior \u00e0 presente em Novack.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 80, Moreno fez dois documentos, de enorme import\u00e2ncia atual, na compreens\u00e3o dos governos das frentes populares, como \u201cO governo Mitterrand, suas perspectivas e nossa pol\u00edtica\u201d e a \u201cA trai\u00e7\u00e3o da OCI\u201d.<\/p>\n<p>Os governos de colabora\u00e7\u00e3o de classes t\u00eam um car\u00e1ter de classe burgu\u00eas, mas com partidos reformistas \u00e0 sua frente, causam enorme confus\u00e3o e crise nos partidos revolucion\u00e1rios. A pr\u00f3pria OCI francesa, dirigida por Lambert, por exemplo capitulou diretamente ao governo Miterrand na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>4- A capacidade da autocr\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Moreno teve grandes acertos, mas tamb\u00e9m muitos erros. Mas tinha uma postura autocr\u00edtica que poucos dirigentes tiveram. Ele dizia:<\/p>\n<p>\u201c&#8230;Os dirigentes do movimento trotskista se consideravam gigantes que nunca se equivocavam. Enquanto isso, o trotskismo dirigido por eles era lament\u00e1vel&#8230;\u201d \u201c&#8230;Essa experi\u00eancia de andar sempre entre \u201cg\u00eanios\u201d nos levou a fazer indiretamente propaganda sobre nossa base para convenc\u00ea-la de que erramos muito, que deveriam pensar por conta pr\u00f3pria, j\u00e1 que nossa dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nenhuma garantia de genialidades. Queremos por todos os meios inculcar um esp\u00edrito autocr\u00edtico, marxista, e n\u00e3o uma f\u00e9 religiosa em uma modesta dire\u00e7\u00e3o, provinciana por sua forma\u00e7\u00e3o e b\u00e1rbara por sua cultura. Por isso, acreditamos na democracia interna e a vemos como uma necessidade essencial. \u2026 Avan\u00e7amos atrav\u00e9s de erros e golpes e n\u00e3o temos vergonha de diz\u00ea-lo\u2026\u201d<\/p>\n<p>Mais uma vez, Moreno n\u00e3o estava inventando nada de novo. Dava continuidade a postura s\u00e9ria do leninismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 import\u00e2ncia da autocr\u00edtica. Vejamos o que diz Lenin:<\/p>\n<p>&#8220;A atitude de um partido pol\u00edtico diante de seus erros \u00e9 uma das provas mais importantes e mais fi\u00e9is da seriedade desse partido e do cumprimento efetivo de seus deveres para com sua classe e para com as massas trabalhadoras. Admitir abertamente os erros, expor suas causas, analisar a situa\u00e7\u00e3o que lhes deu origem e examinar cuidadosamente os meios de corrigi-los: isso \u00e9 o que caracteriza um partido s\u00e9rio\u201d (Lenin, Esquerdismo doen\u00e7a infantil do comunismo)<\/p>\n<p>Moreno se equivocou, por exemplo, perante a dire\u00e7\u00e3o castrista logo depois da revolu\u00e7\u00e3o cubana. Depois se corrigiu, e sustentou durante d\u00e9cadas a pol\u00eamica contra o castrismo.<\/p>\n<p>Um partido revolucion\u00e1rio n\u00e3o pode, na verdade, existir sem erros. Mais uma vez Lenin: \u201cDa pol\u00edtica e dos partidos pode-se dizer \u2013 com as respectivas varia\u00e7\u00f5es \u2013 o mesmo que dos indiv\u00edduos. N\u00e3o \u00e9 inteligente quem n\u00e3o comete erros. Homens que n\u00e3o cometem erros, n\u00e3o existem e n\u00e3o podem existir. Inteligente \u00e9 aquele que comete erros que n\u00e3o muito graves e sabe corrigi-los bem e rapidamente.\u201d<\/p>\n<p>Essa postura, portanto, \u00e9 muito mais que a necess\u00e1ria humildade para compreender suas limita\u00e7\u00f5es . \u00c9 entender o erro como parte da busca do acerto. Compreender a constru\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica revolucion\u00e1ria como um processo de aproxima\u00e7\u00f5es da realidade, de elabora\u00e7\u00e3o coletiva te\u00f3rica e pol\u00edtica. N\u00e3o reconhecer os erros, \u00e9 n\u00e3o corrigi-los, perpetu\u00e1-los ou agrav\u00e1-los.<\/p>\n<p>Basta ver a tradi\u00e7\u00e3o das correntes de esquerda, inclusive de origem trotsquista, para constatar que n\u00e3o praticam essa norma leninista da autocr\u00edtica. Parecem todos g\u00eanios, que nunca erram. A dire\u00e7\u00e3o do SU capitulou abertamente ao stalinismo, nos tempos da dire\u00e7\u00e3o pablista. Depois, com Mandel \u00e0 frente, embarcou na onda guerrilheirista, causando desastres monumentais em gera\u00e7\u00f5es de ativistas. A corrente Militant- que se dividiu por diversas vezes-, capitulou abertamente a partidos reformistas e nacionalistas burgueses e nunca fez uma autocr\u00edtica s\u00e9ria. O SWP ingl\u00eas quase acabou por uma s\u00e9ria crise moral por uma atitude machista de um dirigente, e nunca fez uma autocr\u00edtica s\u00e9ria. O PTS manteve por d\u00e9cadas a caracteriza\u00e7\u00e3o da China como um estado oper\u00e1rio, mesmo depois da restaura\u00e7\u00e3o. Quando mudou, nunca reconheceu o erro. A lista \u00e9 intermin\u00e1vel.\u00a0 Realmente se julgam geniais.<\/p>\n<p>A verdade, no entanto, \u00e9 como Lenin descrevia. As dire\u00e7\u00f5es erram, e muito. E n\u00e3o \u00e9 inteligente n\u00e3o reconhecer isso. Moreno, nesse sentido, foi s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Hoje, olhando o conjunto do legado de Moreno, revisamos criticamente algumas de suas formula\u00e7\u00f5es anteriores. Nisso, seguimos o exemplo do pr\u00f3prio Moreno, que dizia:<\/p>\n<p>\u201cVamos come\u00e7ar por entender o que significa ser verdadeiramente marxista. N\u00e3o podemos criar um culto, como foi feito para Mao ou Stalin. Ser trotskista hoje n\u00e3o significa concordar com tudo o que Trotsky escreveu ou disse, mas saber critic\u00e1-lo ou super\u00e1-lo, assim como Marx, Engels ou Lenin, porque o marxismo se afirma cient\u00edfico e a ci\u00eancia ensina que n\u00e3o h\u00e1 verdades absolutas. Essa \u00e9 a primeira coisa, ser trotskista \u00e9 ser cr\u00edtico, at\u00e9 mesmo do pr\u00f3prio trotskismo.\u201d<\/p>\n<p><strong>A atualidade do legado de Moreno<\/strong><\/p>\n<p>Como dizia Brecht, vivemos tempos sombrios. Os elementos de barb\u00e1rie crescem no mundo.<\/p>\n<p>Estamos come\u00e7ando o terceiro ano de uma pandemia que n\u00e3o termina. A pol\u00edtica das burguesias para encarar a crise econ\u00f4mica mundial \u00e9 atacar de maneira cada vez mais dura os trabalhadores. Nos governos se alternam a ultradireita e \u201cprogressistas\u201d que, apesar das in\u00fameras diferen\u00e7as, mant\u00e9m os ataques dur\u00edssimos sobre os sal\u00e1rios e empregos.<\/p>\n<p>O \u00fanico que existe realmente de novo \u00e9 que o programa da revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial surge com for\u00e7a dessa realidade brutal. Socialismo ou barb\u00e1rie \u00e9 uma disjuntiva mais atual do que nunca.<\/p>\n<p>Moreno dedicou toda sua vida consciente \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o mundial e \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o da IV Internacional. A LIT, maior legado de Moreno, se postula abertamente como um embri\u00e3o de internacional revolucion\u00e1ria. Uma organiza\u00e7\u00e3o internacional marxista, em pleno processo de reelabora\u00e7\u00e3o program\u00e1tica. Uma organiza\u00e7\u00e3o viva, com debates te\u00f3ricos de n\u00edvel. Uma alternativa concreta contra os partidos socialdemocratas que administram o capitalismo; contra os partidos anticapitalistas integrados \u00e0 democracia burguesa; contra o castro chavismo. Uma perspectiva de continuidade da tradi\u00e7\u00e3o marxista da III em seus primeiros anos e pela reconstru\u00e7\u00e3o da IV internacional.<\/p>\n<p>Com mais uma l\u00e1grima nos olhos, recordo o velho, 35 anos depois de sua morte. E lembro de uma de suas frases:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o acredito que o triunfo do socialismo seja inevit\u00e1vel. Acredito que o resultado depende da luta de classes, na qual estamos imersos. E que, ent\u00e3o, o indispens\u00e1vel \u00e9 lutar, lutar com raiva para triunfar. Porque podemos triunfar. N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nenhum Deus que tenha fixado que n\u00e3o podemos faz\u00ea-lo&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tarde de 25 de janeiro 1987, conjunto popular na periferia de Belo Horizonte.\u00a0A campainha da porta toca insistente. Ao abrir, vejo um velho camarada solu\u00e7ando. Ele n\u00e3o parava de chorar, balbuciando: \u201cmorreu, morreu\u201d. Quando conseguiu falar, completou \u201co velho morreu\u201d. Senti como se o piso se movesse, sem nada s\u00f3lido para pisar.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":65886,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[121,3145],"tags":[4467,2100,918],"class_list":["post-65885","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","category-nahuel-moreno","tag-35-anos-sem-moreno","tag-eduardo-almeida","tag-nahuel-moreno"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Moreno.jpg","categories_names":["Brasil","Nahuel Moreno"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65885","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=65885"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65885\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/65886"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=65885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=65885"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=65885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}