{"id":65782,"date":"2022-01-15T11:38:45","date_gmt":"2022-01-15T14:38:45","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65782"},"modified":"2022-01-15T11:38:45","modified_gmt":"2022-01-15T14:38:45","slug":"china-um-regime-capitalista-o-socialismo-de-nossos-dias-ou-um-regime-social-intermediario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/01\/15\/china-um-regime-capitalista-o-socialismo-de-nossos-dias-ou-um-regime-social-intermediario\/","title":{"rendered":"China: Um regime capitalista, o &#8220;socialismo de nossos dias&#8221; ou um regime social &#8220;intermedi\u00e1rio&#8221;?"},"content":{"rendered":"<p><em>A condu\u00e7\u00e3o da pandemia pelo capitalismo provocou uma cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria, social e humana para a maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial. Nessa cat\u00e1strofe, paralela aos milh\u00f5es de mortos, se eleva a lista de bilion\u00e1rios. Todo o organismo econ\u00f4mico mundial capitalista reagiu de acordo com a norma suprema do capital, a lei da acumula\u00e7\u00e3o. Cabe destacar, no entanto, a enorme velocidade da centraliza\u00e7\u00e3o do capital alimentada pela pandemia.<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por Ricardo Ayala e Felipe Alegr\u00eda<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2021, a imprensa informava que <em>\u201cos super-ricos do mundo aumentaram sua fortuna em 412 bilh\u00f5es de d\u00f3lares &#8211; 8 bilh\u00f5es por semana &#8211; atingindo um recorde total de 3,228 bilh\u00f5es em suas fortunas. Elon Musk da Tesla agrega um recorde de $ 151 bilh\u00f5es, para se tornar o homem mais rico do mundo, com $197.000.\u201d<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Estamos, na verdade, diante de uma mostra brutal do desenvolvimento da \u201clei geral da acumula\u00e7\u00e3o capitalista\u201d que Marx descreveu em <em>O Capital<\/em>:<\/p>\n<p><em>Essa lei determina uma acumula\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria equivalente \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de capital. Por isso, o que em um polo \u00e9 acumula\u00e7\u00e3o de riqueza \u00e9 no outro polo o contr\u00e1rio, isto \u00e9, na classe que cria seu pr\u00f3prio produto como capital, acumula\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria, mart\u00edrios de trabalho, escravid\u00e3o, despotismo, ignor\u00e2ncia e degrada\u00e7\u00e3o moral. [Refletindo como nunca] \u201co car\u00e1ter antag\u00f4nico da produ\u00e7\u00e3o capitalista\u201d.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a>\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Um dos termos da quest\u00e3o levantada no t\u00edtulo, se a China \u00e9 capitalista, poderia ser contestada basicamente compilando informa\u00e7\u00f5es sobre o desenvolvimento das rela\u00e7\u00f5es sociais chinesas durante a pandemia e, em que medida mantiveram as mesmas tend\u00eancias do capitalismo imperialista.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, contra todas as evid\u00eancias que iremos detalhar mais adiante, o Partido Comunista Chin\u00eas (PCCh) e seus colaboradores internacionais afirmam que o que temos diante de n\u00f3s \u00e9 um <em>&#8220;socialismo com caracter\u00edsticas chinesas&#8221;,<\/em> uma defini\u00e7\u00e3o funcional para justificar e embelezar a restaura\u00e7\u00e3o capitalista iniciada por Deng Xiaoping no final dos anos 1970 e a posi\u00e7\u00e3o central do PCCh, o partido-estado da burocracia Mao-Stalinista, no cora\u00e7\u00e3o do capitalismo chin\u00eas.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> Jabbour (PCdoB), o socialismo e a semiescravid\u00e3o trabalhista<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O Partido Comunista do Brasil (PCdoB), porta-voz de Xi Jinping e apologista do PCCh, e seu especialista sobre China, Elias Jabbour, v\u00eam hasteando a bandeira do <em>socialismo com caracter\u00edsticas chinesas<\/em>. Inclusive Jabbour coloca um bizarro toque pessoal acad\u00eamico qualificando-a como <em>&#8220;Nova Economia do Projetamento&#8221;<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a> <\/em>. Essa nova economia se tornaria, no <em>&#8220;socialismo real&#8221;<\/em> de nossos dias, um novo tipo de <em>forma\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica<\/em> baseada em uma tecnocracia de estado totalit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Para nosso autor, aqueles que, como n\u00f3s, se atrevem a afirmar o car\u00e1ter capitalista das rela\u00e7\u00f5es sociais chinesas, encontram-se presos (desculpem o tom bomb\u00e1stico da cita\u00e7\u00e3o) a <em>&#8220;uma hegemonia positivista, que n\u00e3o ultrapassa os limites da no\u00e7\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o em partes; pura abstra\u00e7\u00e3o sem racionalidade dial\u00e9tica, aprisionada na representa\u00e7\u00e3o abstrata.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>Vejamos ent\u00e3o qual \u00e9 a <em>&#8220;racionalidade dial\u00e9tica&#8221;<\/em> da <em>acumula\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria equivalente \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de capital<\/em> da qual falava Marx e que se d\u00e1 na China.<\/p>\n<p><strong>Os bilion\u00e1rios chineses<\/strong><\/p>\n<p>Em outubro de 2020 os super-ricos da China possu\u00edam uma fortuna estimada em 4 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, mais que o PIB da Alemanha, a quarta maior economia do mundo. Na citada edi\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia de Jack Ma lidera a lista macabra cuja fortuna \u00e9 do tamanho da economia da R\u00fassia. Da mesma maneira que se multiplica a fortuna dos bilion\u00e1rios norte-americanos e de outros pa\u00edses imperialistas, <em>\u201ca riqueza da fam\u00edlia de Ma cresce em 45% \u00e0 medida que o boom do mercado de a\u00e7\u00f5es e os mega an\u00fancios tecnol\u00f3gicos elevam a fortuna dos bilion\u00e1rios da China em 1,5 trilh\u00f5es de d\u00f3lares.&#8221;<\/em> <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>A pandemia valorizou as a\u00e7\u00f5es das farmac\u00eauticas norte-americanas, alem\u00e3s e inglesas pelo simples motivo de manterem suas patentes em uma fortaleza sitiada, enquanto pa\u00edses como a \u00c1frica do Sul t\u00eam apenas 7% de sua popula\u00e7\u00e3o vacinada, no final de novembro. Pois bem, o novo rosto no cume do TOP 10 das fortunas chinesas \u00e9 Zhong Shanshan, principal acionista da farmac\u00eautica chinesa no neg\u00f3cio das vacinas, que com seus $85 bilh\u00f5es \u00e9 hoje o homem mais rico da \u00c1sia.<\/p>\n<p>Outras informa\u00e7\u00f5es adicionais tamb\u00e9m nos ajudam a sair das <em>&#8220;abstra\u00e7\u00f5es&#8221;<\/em> de Jabbour<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>:<\/p>\n<ul>\n<li>Pequim \u00e9 a capital do \u201cbilh\u00e3o\u201d, pelo sexto ano, com 145 bilion\u00e1rios. A China tem agora seis das 10 cidades com maior concentra\u00e7\u00e3o de bilion\u00e1rios.<\/li>\n<li>A pandemia do Covid19 disparou os lucros dos novos ramos: farmac\u00eauticas, com\u00e9rcio eletr\u00f4nico ou ve\u00edculos el\u00e9tricos (EIV). O <em>Star Market<\/em>, a bolsa de tecnologia chinesa equivalente \u00e0 Nasdaq, \u201cgerou\u201d 13 novos bilion\u00e1rios. Entre eles, o fundador e maior acionista da Tiktok, Zhoang Yiming, que agrega $40 milh\u00f5es a sua fortuna e entra no TOP 30 com $60 bilh\u00f5es. Tamb\u00e9m Huang Zheng, fundador da plataforma de com\u00e9rcio eletr\u00f4nico Pinduoduo, que totaliza $51 bilh\u00f5es e entra no TOP 20 com $ 69 bilh\u00f5es.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>Esta quantidade de bilion\u00e1rios da <em>\u201cnova economia do projetamento\u201d<\/em> tamb\u00e9m abre caminho para seus amigos ocidentais. Assim, os grandes fundos de investimento imperialistas como Blackrock, Vanguard ou State Street det\u00eam em conjunto participa\u00e7\u00f5es em torno de 10% das a\u00e7\u00f5es das grandes corpora\u00e7\u00f5es privadas e tamb\u00e9m em muitas estatais chinesas. Por sua vez, magnatas como Bernard Arnault, dono da multinacional francesa LVMH (Mo\u00ebt Hennessy Louis Vuitton), que controla grandes marcas de luxo, em maio de 2021 se tornou a segunda pessoa mais rica do mundo, atr\u00e1s de Jeff Bezos, gra\u00e7as a seus amigos chineses:<\/p>\n<p><em>As receitas na Europa ainda estavam em n\u00fameros vermelhos&#8230; Mas a demanda dos consumidores chineses se reativou, e as vendas de LVMH na \u00c1sia, exclu\u00eddo o Jap\u00e3o, aumentaram 86% no primeiro trimestre em compara\u00e7\u00e3o com o ano anterior. De modo geral, a receita da LVMH aumentou 32% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo em 2020 e 8% a mais do que em 2019.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><strong>[8]<\/strong><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o de riqueza e propriedade no capitalismo chin\u00eas nada tem que ver com a proclama\u00e7\u00e3o oficial da \u201c<em>prosperidade comum<\/em>\u201d de Xi Jinping. Segundo Thomas Piketty (Capital and Ideology, 2019), a propor\u00e7\u00e3o de riqueza em m\u00e3os dos 10% mais rico da popula\u00e7\u00e3o estava entre 40% e 50% no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, vinte anos ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o capitalista. Em 2018 essa percentagem tinha crescido para quase 70%.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p><strong>O lado que &#8220;acumula mis\u00e9ria, mart\u00edrios de trabalho, escravid\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o moral&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>A acumula\u00e7\u00e3o de riqueza n\u00e3o existe sem seu oposto, uma vez que o capital se acumula empobrecendo os trabalhadores. A propaganda sobre o aumento m\u00e9dio dos sal\u00e1rios na China esconde o verdadeiro inferno a que est\u00e3o submetidos os trabalhadores:<\/p>\n<ul>\n<li>Em 3 de janeiro de 2021, um funcion\u00e1rio de 22 anos do portal chin\u00eas Pinduoduo morreu devido ao excesso de trabalho por horas extras, o que enfureceu ao p\u00fablico ao deixar em evid\u00eancia o sistema conhecido como \u201c9-9-6\u201d [trabalhar desde as 9h \u00e0s 21h, seis dias por semana]. Em 9 de janeiro de 2021, outro trabalhador da mesma empresa, de apelido Tan, se suicidou em Changsha<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/li>\n<\/ul>\n<p>\u00c9 o mesmo caminho que os trabalhadores\/as da Foxconn percorreram em 2010, quando houve uma s\u00e9rie de suic\u00eddios causados por jornadas de trabalho insuport\u00e1veis. A maioria eram de trabalhadores migrantes do campo, proibidos pela ditadura do PCCh de se organizarem para lutar por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. At\u00e9 2003, esses trabalhadores eram proibidos inclusive de afiliar-se aos sindicatos oficiais, que s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es completamente ligadas aos patr\u00f5es e \u00e0 burocracia do PCCh.<\/p>\n<p>Tudo isso nos remete ao grande &#8220;segredo&#8221; do impetuoso desenvolvimento do capitalismo chin\u00eas ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o: a brutal superexplora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores\/as, especialmente dos trabalhadores rurais migrantes:<\/p>\n<ul>\n<li>A for\u00e7a de trabalho chinesa \u00e9 formada por mais de 800 milh\u00f5es de pessoas, das quais, &#8211; segundo declarou no ano passado o primeiro-ministro Li Keqiang &#8211; <em>existem 600 milh\u00f5es que vivem com uma renda mensal de 1.000 yuans [$156,83<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><strong>[11]<\/strong><\/a>] ou menos. Ou seja, mais de 40% dos 1,4 bilh\u00f5es de habitantes do pa\u00eds vivem com menos de 5 d\u00f3lares por dia<\/em>.<\/li>\n<li>O vice-diretor do oficialista Instituto Nacional de Pesquisas Econ\u00f4micas, Wang Xiaolu afirma que <em>\u201ca metade dos 400 milh\u00f5es de trabalhadores urbanos da China s\u00e3o trabalhadores migrantes. A maioria deles est\u00e1 exclu\u00edda do sistema urbano de previd\u00eancia social. Eles n\u00e3o recebem servi\u00e7os p\u00fablicos. Menos de 30% deles est\u00e3o cobertos pelo programa p\u00fablico de aposentadorias\u201d.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><strong>[12]<\/strong><\/a><\/em><\/li>\n<li>Ou seja, esses 200 milh\u00f5es de trabalhadores rurais migrantes &#8211; o que equivale a toda a popula\u00e7\u00e3o brasileira &#8211; sofrem condi\u00e7\u00f5es desumanas: n\u00e3o recebem servi\u00e7os p\u00fablicos; 70% est\u00e3o exclu\u00eddos do sistema urbano de previd\u00eancia social. Assim que um trabalhador deixa sua aldeia, ele \u00e9 vinculado ao sistema <em>hukou<\/em>, um registro baseado no local de nascimento dos pais. Isso significa que, sem a resid\u00eancia urbana oficial, eles n\u00e3o t\u00eam acesso aos servi\u00e7os p\u00fablicos, desde aposentadoria at\u00e9 a educa\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Segundo dados oficiais, para se aposentarem devem continuar a contribuir para o sistema de previd\u00eancia rural no povoado onde est\u00e3o registrados. Se pagarem uma contribui\u00e7\u00e3o anual de pelo menos 100 yuans, podem receber uma pens\u00e3o mensal m\u00ednima de 55 yuans (US $ 8,63) quando completarem 60 anos. Em compara\u00e7\u00e3o, os aposentados urbanos receberam uma m\u00e9dia de 2.362 yuans (US $370,43) em pens\u00f5es mensais em todo o pa\u00eds em 2016.<\/li>\n<\/ul>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es sociais chinesas n\u00e3o s\u00e3o determinadas pelo papel dos monop\u00f3lios estatais remanescestes, mas pela explora\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria e a acumula\u00e7\u00e3o do capital, tanto nas empresas controladas pelo estado como nas empresas privadas.<\/p>\n<p><strong>Algumas conclus\u00f5es <\/strong><\/p>\n<p>Agora, antes de continuar com as especificidades do capitalismo na China e ver como o capital estatal e o privado formam uma totalidade indissoci\u00e1vel, consideremos algumas conclus\u00f5es pol\u00edticas das teses de Jabbour e de outros admiradores do capitalismo chin\u00eas.<\/p>\n<p>Jabbour <em>se esquece de <\/em>mencionar a intensidade da explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores chineses e que tal superexplora\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 conceb\u00edvel sob um regime ditatorial de partido \u00fanico, como na China. Para ele, assim como para os castro-chavistas e o grosso dos partidos comunistas e de seus sucessores, o velho &#8220;marxismo sovi\u00e9tico&#8221; que outrora defendiam durou at\u00e9 o colapso do aparelho stalinista na ex-URSS e no Leste europeu. Depois da queda, eles tiveram que procurar \u201cnovos modelos\u201d, sendo seu novo modelo o <em>&#8220;socialismo de mercado com caracter\u00edsticas chinesas&#8221;<\/em> a l\u00e1 Xi Jinping, um modelo t\u00e3o <em>leg\u00edtimo<\/em> quanto a ditadura estalinista sovi\u00e9tica era antes. Para todos eles, n\u00e3o s\u00f3 o projeto de socialismo de Marx e L\u00eanin foi superado pela hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m sua parteira, a revolu\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Para Jabbour e seus cong\u00eaneres, o capitalismo chin\u00eas \u00e9 uma pot\u00eancia benfeitora da humanidade com o qual \u00e9 necess\u00e1rio tecer uma <em>&#8220;alian\u00e7a anti-imperialista&#8221;<\/em> contra os EUA. Uma alian\u00e7a onde tenham lugar desde a ditadura de Putin at\u00e9 o governo talib\u00e3, o regime militar paquistan\u00eas, a junta golpista de Mianmar, a ditadura cubana e a de Ortega na Nicar\u00e1gua e o regime de Maduro. Uma alian\u00e7a na qual reservam vagas para os governos <em>progressistas<\/em> da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>A confian\u00e7a cega de Jabbour no capitalismo chin\u00eas faz dele e de seus investimentos o grande aliado natural do desenvolvimento (capitalista) brasileiro, como se o capitalismo chin\u00eas n\u00e3o se regesse pelos seus pr\u00f3prios interesses. Na verdade, a alternativa do PCdoB para o desenvolvimento do Brasil apenas se encaixa no contexto da nova localiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds na divis\u00e3o mundial do trabalho, agora com sua desindustrializa\u00e7\u00e3o relativa e sua subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 importa\u00e7\u00e3o de mercadorias industrializadas da China em troca da exporta\u00e7\u00e3o dos recursos naturais. Parece que Jabbour n\u00e3o levou muito em conta, para elaborar suas propostas, a pol\u00edtica predat\u00f3ria e de superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho do benfeitor capitalismo chin\u00eas na \u00c1sia e na \u00c1frica.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> Um regime &#8220;h\u00edbrido&#8221; entre socialismo e capitalismo?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Para al\u00e9m da corrente castro-chavista e dos PCs sobreviventes, h\u00e1 intelectuais de esquerda que, com formas mais <em>apuradas,<\/em> coincidem com Jabbour em alguns aspectos fundamentais. Para esses intelectuais, o regime chin\u00eas, se n\u00e3o \u00e9 o socialismo de nosso tempo, \u00e9 bem parecido. Um expoente deste setor da intelectualidade \u00e9 o argentino Claudio Katz.<\/p>\n<p>Claudio Katz nega categoricamente que na China tenha ocorrido a restaura\u00e7\u00e3o capitalista, embora reconhe\u00e7a que foram introduzidos importantes elementos do capitalismo. Esta introdu\u00e7\u00e3o seria, no entanto, <em>&#8220;parcial e revers\u00edvel&#8221;.<\/em> Ao contr\u00e1rio de Jabbour, Katz considera excessivo que se possa falar de socialismo na China e defende que estamos diante de um regime &#8220;h\u00edbrido&#8221; entre socialismo e capitalismo, um regime que ainda n\u00e3o optou por uma dire\u00e7\u00e3o ou outra.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, para Katz este regime <em>&#8220;intermedi\u00e1rio&#8221;<\/em> pode durar <em>&#8220;d\u00e9cadas&#8221;,<\/em> de modo que n\u00e3o estar\u00edamos diante de um impasse hist\u00f3rico provis\u00f3rio, mas de uma nova forma\u00e7\u00e3o social que, como ele diz, <em>&#8220;envolve o projeto geral do socialismo&#8221;. <\/em>Para que nos entendamos, estar\u00edamos diante de um regime social historicamente necess\u00e1rio na transi\u00e7\u00e3o do capitalismo para o socialismo. Claro que, visto assim, as diferen\u00e7as entre Jabbour e Katz ficam realmente dilu\u00eddas.<\/p>\n<p>Katz \u00e9 for\u00e7ado a reconhecer que <em>&#8220;a pequena e m\u00e9dia propriedade privada na agricultura deu lugar \u00e0s grandes empresas industriais pertencentes \u00e0 nova burguesia. A fixa\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os pelas normas competitivas foi estendida para a maior parte dos valores, as modalidades de explora\u00e7\u00e3o foram ampliadas e a acumula\u00e7\u00e3o de lucros enriqueceu a uma minoria influente. Al\u00e9m disso, os velhos gargalos gerados pela subprodu\u00e7\u00e3o foram substitu\u00eddos por tens\u00f5es de superinvestimento. (&#8230;) Dessa cesta de elementos, o mais significativo \u00e9 o surgimento de uma classe propriet\u00e1ria dos meios de produ\u00e7\u00e3o que busca transmitir privil\u00e9gios a seus herdeiros.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Mas isso, segundo Katz, n\u00e3o define a vig\u00eancia do capitalismo na China. Chega inclusive a afirmar que <em>&#8220;a resposta provavelmente seria afirmativa em outras circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas&#8221;<\/em>. Mas como a China entrou no capitalismo em um cen\u00e1rio global de &#8220;neoliberalismo e financeiriza\u00e7\u00e3o&#8221; sem adotar essas duas caracter\u00edsticas, isso tornou a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo &#8220;<em>muito incompleta desde o in\u00edcio\u201d<\/em>. Ou seja, se o capitalismo chin\u00eas n\u00e3o reproduz as caracter\u00edsticas do capitalismo norte-americano, europeu, japon\u00eas ou, digamos, brasileiro, n\u00e3o se pode falar de capitalismo.<\/p>\n<p>Mas o imperialismo desenvolveu ao extremo a socializa\u00e7\u00e3o do trabalho em escala mundial, incorporando os pa\u00edses \u00e0s cadeias de produ\u00e7\u00e3o de seus oligop\u00f3lios. No entanto, isso n\u00e3o implica de forma alguma que todas as forma\u00e7\u00f5es capitalistas sejam homog\u00eaneas entre si. Pelo contr\u00e1rio, assumem express\u00f5es bastante diferentes, dependendo das circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e de seu lugar na cadeia imperialista. Por outro lado, o que estamos discutindo aqui s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es sociais b\u00e1sicas que regem o pa\u00eds. E n\u00e3o h\u00e1 como contornar, para onde quer que olhemos que estamos perante um regime de explora\u00e7\u00e3o (&#8220;com caracter\u00edsticas chinesas&#8221;) a servi\u00e7o da acumula\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Mas, na verdade, o principal motivo que faz Claudio Katz duvidar sobre a natureza social do regime chin\u00eas, \u00e9 o papel desempenhado pela burocracia Mao-Stalinista. O PCCh \u00e9, para Katz, o grande pilar da parte socialista do <em>h\u00edbrido<\/em> chin\u00eas, o que impede a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo. Insiste nisso indefinidamente. Vale a seguinte cita\u00e7\u00e3o: <em>&#8220;O velho sistema pol\u00edtico estruturado em torno do Partido Comunista persistiu e afian\u00e7ou seu dom\u00ednio na gest\u00e3o econ\u00f4mica. Os contrastes com o que aconteceu no Leste Europeu s\u00e3o t\u00e3o categ\u00f3ricos, que o autor da compara\u00e7\u00e3o [<\/em>isto \u00e9, ele mesmo<em>] questiona seriamente a vig\u00eancia atual do capitalismo na China&#8221;<\/em>. Em outras palavras, enquanto o controle do poder estatal permanecer em m\u00e3os do PCCh, n\u00e3o haver\u00e1 capitalismo na China. Diante disso, para Katz os enormes sofrimentos e custos sociais, pol\u00edticos e ambientais provocados pela restaura\u00e7\u00e3o capitalista passam a ser secund\u00e1rios.<\/p>\n<p>De fato, \u00e9 surpreendente defender que a China n\u00e3o \u00e9 capitalista porque o PCCh domina o Estado, justamente quando o protagonista da restaura\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o o PCCh, o partido \u00fanico da burocracia Mao-Stalinista. T\u00e3o surpreendente quanto negar a natureza capitalista do regime chin\u00eas porque este <em>&#8220;n\u00e3o adotou o neoliberalismo e a financeiriza\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em> \u00e0 maneira ocidental. O fato \u00e9 que, dado o enorme atraso na arrancada da China, sua abertura sem barreiras ao capital financeiro ocidental significaria singelamente o suic\u00eddio da burocracia Mao-Stalinista e a convers\u00e3o do pa\u00eds em uma mera semicol\u00f4nia norte-americana.<\/p>\n<p>Fazendo um truque de m\u00e1gico, Katz trata \u00e0 burocracia e \u00e0 burguesia chinesas como entidades estranhas entre si, &#8220;paralelas&#8221; uma \u00e0 outra. Assim, escreve: <em>&#8220;Em vez de sepultar a estrutura pol\u00edtica do Partido Comunista, decidiram consolid\u00e1-la e em vez de fundir a nova classe capitalista com o poder pol\u00edtico, eles apenas aceitaram sua exist\u00eancia como uma for\u00e7a paralela a sua pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em>. Katz esquece que o PCCh n\u00e3o \u00e9 apenas quem promoveu e dirigiu a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo desde o topo do Estado, mas tamb\u00e9m \u00e9 seu principal benefici\u00e1rio e pe\u00e7a fundamental. O capital estatal e o capital privado, como depois veremos, formam um conglomerado insepar\u00e1vel na configura\u00e7\u00e3o do capitalismo chin\u00eas.<\/p>\n<p>A n\u00f3s, que defendemos que o capitalismo foi restaurado na China, Katz acusa de n\u00e3o esclarecer <em>&#8220;quando o sepultamento aconteceu. A caracteriza\u00e7\u00e3o dessa virada \u00e9 chave para definir o significado atribu\u00eddo ao conceito de capitalismo ou socialismo\u201d<\/em>. Em sua obra <em>&#8220;A revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda&#8221;<\/em> (1936), Trotsky escreveu que no caso de, nem o partido revolucion\u00e1rio nem o contrarrevolucion\u00e1rio tomassem o poder na URSS, n\u00e3o se poderia pensar que a burocracia stalinista abdicasse em favor da igualdade socialista e que <em>&#8220;no futuro, ser\u00e1 inevit\u00e1vel que busque apoio nas rela\u00e7\u00f5es de propriedade&#8221;<\/em>. Foi o que aconteceu com a <em>Reforma e Abertura<\/em> de Deng, em 1978 (bem como com a <em>Perestroika<\/em> de Gorbachev, em 1986)<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.\u00a0 Ambos eram planos conscientes para a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo mediante a utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos do Estado. O Estado, a partir daquele momento, como instrumento da restaura\u00e7\u00e3o em curso, passou a ter uma natureza capitalista. Como assinalou Trotsky na obra citada: <em>&#8220;o car\u00e1ter de classe de um Estado \u00e9 dado pelas formas de propriedade e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o que protege e defende&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p><strong>O desenvolvimento desigual e combinado na restaura\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Entre aqueles que negam a natureza capitalista da China, est\u00e1 tamb\u00e9m Michael Roberts, o economista marxista brit\u00e2nico. Roberts defende sua tese de uma maneira mais sofisticada que Katz e tem uma abordagem mais cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 burocracia chinesa.<\/p>\n<p>O problema de Roberts \u00e9 que, tomando elementos da realidade (o papel do estado e do PCCh na economia ou as transfer\u00eancias de valor da China para as grandes corpora\u00e7\u00f5es multinacionais e pa\u00edses imperialistas), ele os separa do processo de conjunto, os transforma em uma totalidade e os congela em uma foto est\u00e1tica, desconsiderando completamente a origem hist\u00f3rica da restaura\u00e7\u00e3o e seu pr\u00f3prio movimento.<\/p>\n<p>Roberts n\u00e3o considera a l\u00f3gica interna da burocracia Mao-Stalinista, seu curso hist\u00f3rico e seu projeto restauracionista, que se torna consciente e expl\u00edcito com a <em>&#8220;Reforma e Abertura&#8221;<\/em> de Deng Xiaoping em 1978: um projeto sustentado na integra\u00e7\u00e3o da economia chinesa na <em>Globaliza\u00e7\u00e3o <\/em>imperialista, ap\u00f3s a reconcilia\u00e7\u00e3o com o imperialismo norte-americano em 1972.<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a><\/p>\n<p>A burocracia estalinista chinesa empreendeu a restaura\u00e7\u00e3o capitalista atrav\u00e9s dos recursos do estado totalit\u00e1rio; apoiando-se nas possibilidades oferecidas pela integra\u00e7\u00e3o nas cadeias de valor dos novos ramos vinculados \u00e0s <em>tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o<\/em> (TICs), fragmentadas internacionalmente na nova divis\u00e3o mundial do trabalho (<em>Globaliza\u00e7\u00e3o<\/em>) e assentadas no Leste asi\u00e1tico. Aproveitou a desigualdade interna, com um pa\u00eds marcado por uma esmagadora maioria da popula\u00e7\u00e3o no campo e pela enorme explos\u00e3o urbana, que abriam um imenso potencial para seu mercado interno. A burocracia se aproveitou do hist\u00f3rico atraso econ\u00f4mico do pa\u00eds e utilizou a fundo perman\u00eancia das tradi\u00e7\u00f5es coloniais de Hong Kong, Taiwan e Macau. Tudo, baseado na explora\u00e7\u00e3o mais brutal da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>\u00c9 ilustrativo desse processo a trajet\u00f3ria de uma emblem\u00e1tica empresa, a taiwanesa Foxconn (Hon Hai) conhecida mundialmente por montar, entre outros, os aparelhos iPhone, Kindle e PlayStation. A empresa de Terry Gou nasceu como parte da nova divis\u00e3o mundial do trabalho (DMT). Filho de imigrantes ap\u00f3s a derrota do Kuomintang na guerra civil em 1949, Gou criou sua empresa em 1974 na periferia de Taipei montando interruptores para televisores preto e branco; em poucos anos ele monta o console Atari (v\u00eddeo games, ndt) e no in\u00edcio dos anos 1980 a IBM figura em seu portf\u00f3lio. Mas para continuar se expandindo, esbarrou em um limite na disponibilidade de m\u00e3o de obra e nos sal\u00e1rios, que aumentavam tanto em Taiwan quanto nos outros tr\u00eas &#8220;pequenos tigres asi\u00e1ticos&#8221; (Hong Kong, Cingapura e Cor\u00e9ia do Sul).<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a><\/p>\n<p>Gou encontrou sua resposta na China continental. Em 1988, abriu sua primeira f\u00e1brica na Zona Econ\u00f4mica Especial (ZEE) de Shenzhen. Ao integrar verticalmente o processo de montagem, aumentou a escala incorporando mais de um milh\u00e3o de oper\u00e1rios\/as na semiescravid\u00e3o de suas f\u00e1bricas-quartel. Agora n\u00e3o s\u00f3 monta produtos para os oligop\u00f3lios norte-americanos, mas tamb\u00e9m consta como seus principais clientes, grandes empresas multinacionais chinesas como Huawei, Xiaomi ou Lenovo.<\/p>\n<p>Nas ZEEs, constitu\u00eddas em 1981, o investimento estrangeiro gozava de grandes privil\u00e9gios em impostos, infraestruturas ou repatria\u00e7\u00e3o de lucros, al\u00e9m de dispor de uma farta m\u00e3o de obra em condi\u00e7\u00f5es de semiescravid\u00e3o. Em sua primeira fase as ZEEs abrigaram fundamentalmente investimentos do Jap\u00e3o, Cor\u00e9ia, Hong Kong e Cingapura e o motivo foi o pre\u00e7o da m\u00e3o de obra para a expans\u00e3o das cadeias produtivas regionais. Depois, os privil\u00e9gios das ZEEs foram estendidos a grande parte das cidades costeiras. Mais tarde, a partir de 2000, com a entrada na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Com\u00e9rcio (OMC), a China viveu um boom de investimento dos EUA e da Uni\u00e3o Europeia (UE).<\/p>\n<p>Paralelo a esses processos, existe outro fen\u00f4meno, que se apoia no desenvolvimento desigual que caracteriza a expans\u00e3o capitalista na China. Vejamos um exemplo not\u00e1vel. Em 1987, um alto oficial do Ex\u00e9rcito, Ren Zhengfei, criou a Huawei, n\u00e3o por mera coincid\u00eancia tamb\u00e9m em Shenzen. Em poucos anos, a empresa tornou-se l\u00edder mundial no fornecimento de equipamentos para a quinta gera\u00e7\u00e3o de Internet (5G), a marca de Smartphones mais vendida na China e a segunda no mundo, pisando nos calcanhares dos oligop\u00f3lios imperialistas.<\/p>\n<p>No final da d\u00e9cada de 1980, os smartphones e a Internet eram uma pe\u00e7a de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, a maioria dos habitantes do pa\u00eds vivia no campo e nem sequer tinham telefone fixo. Assim, em um pa\u00eds que n\u00e3o possu\u00eda equipamentos anal\u00f3gicos para expandir a rede de telefonia fixa, Huawei entrou na era digital ocupando o campo da telefonia rural, que n\u00e3o interessava aos grandes monop\u00f3lios estrangeiros. A tecnologia das centrais telef\u00f4nicas<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a> (telephone switch) foi desenvolvida pelo <em>Instituto de Engenharia das For\u00e7as Armadas<\/em> e posteriormente se tornou em um elemento de acumula\u00e7\u00e3o de capital nas linhas de produ\u00e7\u00e3o da Huawei. Desde o primeiro equipamento (HJD-04), uma central telef\u00f4nica digital para linhas fixas, at\u00e9 aos equipamentos para os telefones celulares integrados a Internet, h\u00e1 uma velocidade vertiginosa<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>. O controle do mercado interno veio com a mudan\u00e7a para 3G,<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a> desenvolvido integralmente na China em 2006 para ser adotado pelo Minist\u00e9rio de Comunica\u00e7\u00f5es e depois a escala mundial.<\/p>\n<p>Roberts, como Katz, n\u00e3o v\u00ea as caracter\u00edsticas concretas da burguesia chinesa e defende uma distin\u00e7\u00e3o, t\u00e3o contundente quanto artificial, entre a burocracia estatal e a burguesia privada. Mas o v\u00ednculo entre eles \u00e9 \u00edntimo, carnal, uma verdadeira fus\u00e3o.<\/p>\n<p>A alta burocracia n\u00e3o s\u00f3 dirige os bancos e as grandes empresas de propriedade do Estado (SOEs), mas tamb\u00e9m lucra diretamente com seus neg\u00f3cios por meio de sua participa\u00e7\u00e3o direta e indireta na rede de subsidi\u00e1rias privadas que estas criaram em lugares como Hong Kong. Ao mesmo tempo em que, dependendo de seu papel na dire\u00e7\u00e3o do Estado, participa diretamente nos lucros capitalistas, zelando assim pelos interesses da burguesia e do Estado capitalista como um todo.<\/p>\n<p>As grandes corpora\u00e7\u00f5es privadas s\u00e3o financiadas e t\u00eam participa\u00e7\u00e3o do Estado, do mesmo modo que as grandes empresas estatais, inclu\u00eddos os bancos, t\u00eam participa\u00e7\u00e3o do capital privado, enquanto se formam grandes cons\u00f3rcios que incluem ambas. As empresas estatais (SOEs) &#8220;pequenas e m\u00e9dias&#8221; foram privatizadas e entregues \u00e0 burocracia das prov\u00edncias na d\u00e9cada de 1990.<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a><\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo da Evergrande revelou que a maioria dos bancos locais (134) e rurais (1400) &#8211; representando um ter\u00e7o do setor banc\u00e1rio comercial chin\u00eas &#8211; \u00e9 controlada por magnatas privados. Acrescentem-se os neg\u00f3cios privados, constru\u00eddos sobre a corrup\u00e7\u00e3o estrutural, compartilhados entre os novos burgueses privados e as burocracias locais e, provinciais, de cujas decis\u00f5es estes dependem, bem como a rede de neg\u00f3cios privados, gerenciados por &#8220;cronies&#8221; (comparsas), que parasitam os diferentes aparelhos e servi\u00e7os do estado. Estamos perante uma \u00fanica classe capitalista, entrela\u00e7ada, composta por diferentes fra\u00e7\u00f5es com interesses espec\u00edficos, presidida e disciplinada pela alta burocracia capitalista estatal.<\/p>\n<p>A Huawei, surgida das entranhas das For\u00e7as Armadas, converteu-se em um oligop\u00f3lio que explora 194.000 trabalhadores e tem neg\u00f3cios em 170 pa\u00edses.<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a> Seu ponto de apoio para a conquista de mercado externo foi a \u201ceconomia de escala\u201d a partir das compras feitas pelo estado, que durante a pandemia expandiu a rede 5G para todas as grandes cidades chinesas. Os contratos de Huawei no exterior s\u00e3o feitos com a participa\u00e7\u00e3o do governo chin\u00eas e s\u00e3o financiados com empr\u00e9stimos dos bancos estatais chineses. A compra da Volvo pela Geely foi financiada pelos bancos provinciais de Xangai&#8230;<\/p>\n<p>A grande burguesia chinesa n\u00e3o \u00e9 um setor homog\u00eaneo e sim, pela origem de seus monop\u00f3lios, uma classe dominante complexa que, para al\u00e9m dos interesses de classe que a unifica de conjunto, abriga tamb\u00e9m diferentes fra\u00e7\u00f5es com interesses conflitantes.<\/p>\n<p>Assim, os oligop\u00f3lios que surgiram nos anos 90, no bojo do desenvolvimento das cadeias produtivas de equipamentos para Internet, em sua maioria vinculado ao com\u00e9rcio online, se apropriaram de uma enorme massa de lucros, se transformando em holdings que se dirigem para o investimento produtivo e para o mercado financeiro, amea\u00e7ando o monop\u00f3lio dos bancos estatais na cria\u00e7\u00e3o de dinheiro.<\/p>\n<p>Um destes magnatas vinculados ao <em>e-commerce<\/em> (com\u00e9rcio eletr\u00f4nico) \u00e9 Ma Huateng, que emigrou de Shantou, uma vila de pescadores ao Leste de Shenzhen, para criar em 1998 a empresa Tencent, atualmente o maior provedor de videogames do mundo. Seu principal produto \u00e9 o aplicativo de mensagens \u201cTudo em Um\u201d, WeChat, um aplicativo que combina WhatsApp, Facebook, Venmo, Tinder, Spotify, Amazon, bem como um sistema de pagamentos e transfer\u00eancias on-line, em uma \u00fanica combina\u00e7\u00e3o. Possui cerca de um bilh\u00e3o de usu\u00e1rios, a grande maioria na China.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2021, sua valoriza\u00e7\u00e3o no mercado de a\u00e7\u00f5es estava perto de um bilh\u00e3o de d\u00f3lares. A Tencent tem participa\u00e7\u00f5es em mais de 600 empresas, fundos de capital de risco e come\u00e7ou a se concentrar em empresas emergentes de tecnologia na \u00c1sia, com especial interesse em intelig\u00eancia artificial. Quando come\u00e7ou a adquirir empresas no exterior, como a Riot Games dos Estados Unidos ou a Supercell da Finl\u00e2ndia, foi bloqueada pela UE e pelo governo norte-americano.<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a><\/p>\n<p>Colin Huang ou Huang Zheng \u00e9 o fundador da empresa de com\u00e9rcio eletr\u00f4nico Pinduoduo, que se converteu na maior plataforma agr\u00edcola da China. Fundada em 2015, a publicidade representava cerca de 90% da receita, mas seu neg\u00f3cio \u00e9 financeiro, ao equipar os agricultores e empres\u00e1rios das comunidades rurais com um sistema in\u00e9dito de compras coletivas, apagando a fronteira entre o com\u00e9rcio varejista e ao atacado. Em abril de 2020, a Pinduoduo fez seu primeiro investimento estrat\u00e9gico ao subscrever $200 milh\u00f5es em t\u00edtulos convers\u00edveis emitidos pela Gome Retail Holding, uma importante varejista de eletrodom\u00e9sticos e produtos eletr\u00f4nicos na China.<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a><\/p>\n<p>Os lucros procedentes do setor improdutivo (com\u00e9rcio eletr\u00f4nico) e os dos monop\u00f3lios industriais (Huawei&#8230;), est\u00e3o entrela\u00e7ados no mercado de capitais \u2013 bolsa de valores e mercados de t\u00edtulos &#8211; e s\u00e3o direcionados para os ramos cuja acumula\u00e7\u00e3o de capital \u00e9 superior \u00e0 m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Este emaranhado move o gigante do com\u00e9rcio eletr\u00f4nico Alibaba, dirigido por Jack Ma, principal acionista da fintech Ant Group, na corrida pela produ\u00e7\u00e3o de chips. Da mesma forma, o terceiro maior fornecedor de smartphones do mundo, Xiaomi, anuncia sua incurs\u00e3o na ind\u00fastria de ve\u00edculos el\u00e9tricos na China, unindo-se a outras empresas tecnol\u00f3gicas como Huawei Technologies Co e Baidu [operadora de com\u00e9rcio eletr\u00f4nico] em uma grande aposta pelo maior mercado automotivo do mundo. At\u00e9 a superendividada Evergrande, especializada na especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, colocou os p\u00e9s no neg\u00f3cio dos carros el\u00e9tricos.<\/p>\n<p>Em vez de captar este processo vivo, Michael Roberts tra\u00e7a um relato unilateral, abstrato e sem vida em torno <em>da lei do valor<\/em>, entendida como uma categoria abstrata, supra-hist\u00f3rica. Tal lei escreve Roberts, aparece <em>&#8220;destorcida, limitada e bloque<\/em>ada&#8221; pela <em>&#8220;interfer\u00eancia burocr\u00e1tica do estado e da estrutura do partido&#8221;<\/em>. Portanto, conclui Roberts, a China n\u00e3o seria capitalista.<\/p>\n<p><strong>A lei do valor e o papel dos estados<\/strong><\/p>\n<p>Roberts fornece como argumentos<em> irrefut\u00e1veis,<\/em> para fundamentar sua conclus\u00e3o, dados do FMI que comparam a China com os EUA, Alemanha ou Fran\u00e7a, como se todos eles tivessem uma origem e um desenvolvimento hist\u00f3rico compar\u00e1veis e como uma simples analogia formal bastasse para resolver o problema. O mais <em>&#8220;irrefut\u00e1vel<\/em>&#8221; de suas provas (a que descreve como a <em>&#8220;cifra assassina&#8221;)<\/em> \u00e9 um c\u00e1lculo do FMI segundo o qual o estoque de ativos produtivos estatais na China \u00e9 tr\u00eas vezes maior que os do setor privado, enquanto nos EUA e Reino Unido s\u00e3o apenas 50% e no Jap\u00e3o e na \u00cdndia 75%.<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a> Mas esses dados, al\u00e9m de refletirem um determinado momento da evolu\u00e7\u00e3o do capitalismo chin\u00eas, demonstram apenas duas coisas: 1\/ que sua origem reside na restaura\u00e7\u00e3o capitalista de um estado oper\u00e1rio burocratizado e 2\/ que sem um poderoso estado totalit\u00e1rio jogando um papel central, o capitalismo chin\u00eas n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de competir com o imperialismo na arena capitalista mundial.<\/p>\n<p>Roberts \u201cesquece\u201d que a lei do valor se expressa de forma &#8220;distorcida&#8221;, principalmente na era imperialista, marcada pelo dom\u00ednio dos grandes monop\u00f3lios, do capital financeiro e dos grandes estados imperialistas que os representam. Para Roberts, a lei do valor s\u00f3 funcionaria numa era distante do capitalismo de livre concorr\u00eancia. Mas para compreender o papel decisivo do estado capitalista na economia n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio remontar a primeira e segunda guerras mundiais, aos per\u00edodos que as precederam e \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o posterior, \u00e0 gesta\u00e7\u00e3o do imperialismo japon\u00eas ou ao surgimento dos Tigres asi\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Uma amostra bem atual dessa &#8220;distor\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 a bilion\u00e1ria ($250 bilh\u00f5es) <em>Lei de Inova\u00e7\u00e3o e Concorr\u00eancia <\/em>aprovada pelo Senado norte-americano em junho de 2021 para enfrentar o capitalismo chin\u00eas. Uma lei que, como aponta o <em>New York Times<\/em>, lembra o programa <em>Made in China 2025<\/em> de Xi Jinping, seis anos atr\u00e1s. A hist\u00f3ria contempor\u00e2nea mostra o papel decisivo desempenhado pelo estado capitalista na economia, distorcendo o &#8220;livre mercado&#8221;. Mostra como a lei do valor se imp\u00f5e de forma &#8220;distorcida&#8221; e indireta. A fal\u00eancia da gigantesca imobili\u00e1ria chinesa Evergrande \u00e9 uma boa demonstra\u00e7\u00e3o disso.<\/p>\n<p><strong>Capital financeiro e a regula\u00e7\u00e3o das BigTech<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Roberts n\u00e3o considera o papel da burocracia como motor e centro da restaura\u00e7\u00e3o capitalista; n\u00e3o v\u00ea seu entrela\u00e7amento com o capital privado formando um \u00fanico conglomerado em torno do estado. Tal qual critic\u00e1vamos a Katz, Roberts n\u00e3o entende que se a burocracia chinesa abrisse m\u00e3o do sistema banc\u00e1rio e n\u00e3o controlasse a conta de capital, colocando limites \u00e0 entrada de capital financeiro imperialista e a determinados mecanismos de &#8220;livre mercado&#8221;, ela ficaria violentamente deslocada, a independ\u00eancia pol\u00edtica do pa\u00eds teria sido diretamente amea\u00e7ada e a China condenada a se tornar mais uma vez uma semicol\u00f4nia. Mas o PCCh aprendeu as li\u00e7\u00f5es do que aconteceu na ex-URSS e no Leste europeu, e n\u00e3o estava disposto a repetir.<\/p>\n<p>No entanto, apesar das restri\u00e7\u00f5es \u00e0 entrada dos bancos imperialistas e os limites impostos aos fundos de investimento estrangeiros na compra e venda de a\u00e7\u00f5es na bolsa, o mercado de capitais chin\u00eas existe e \u00e9 vigoroso. Nesse contexto, o novo marco regulat\u00f3rio das BigTech chinesas foi criticado pela revista brit\u00e2nica <em>The Economist<\/em> como uma investida de Xi Jinping contra a <em>livre iniciativa<\/em>. Ao contr\u00e1rio, os \u201ccoroinhas\u201d internacionais de Xi, como Jabbour ou os castro-chavistas, o defendem como exemplo do <em>&#8220;socialismo com caracter\u00edsticas chinesas&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p>O r\u00e1pido crescimento da economia digital se concentrou nas m\u00e3os de Alipay (Ant Group), WeChat Pay (Tencent) e seus amigos $5,4 trilh\u00f5es em transa\u00e7\u00f5es comerciais em 2020, 9,6 % a mais do que em 2019, o que coloca a China no segundo maior mercado de <em>e-commerce<\/em> (com\u00e9rcio eletr\u00f4nico) depois dos EUA. Ambas as empresas dominam mais de 90% do mercado de pagamentos m\u00f3veis.<\/p>\n<p>O dinheiro que funciona como meio de circula\u00e7\u00e3o (medida do valor e meio de pagamento) n\u00e3o se distingue de sua fun\u00e7\u00e3o como capital, apenas por suas diversas formas nos momentos do ciclo econ\u00f4mico. Sua forma digital aparece como mero signo, medida de valor, e atua como dinheiro imagin\u00e1rio diante da velocidade alcan\u00e7ada pelas transa\u00e7\u00f5es (de bens e capitais). Sua forma fetichista \u00e9 o reflexo do fetiche da pr\u00f3pria mercadoria, para continuar a ocultar o car\u00e1ter social do trabalho privado.<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a><\/p>\n<p>A centraliza\u00e7\u00e3o crescente dos oligop\u00f3lios tecnol\u00f3gicos chineses dos meios de pagamento em m\u00e3os de holdings que controlam centenas de outras empresas &#8211; express\u00e3o genu\u00edna do capital financeiro &#8211; amplia de forma exponencial sua capacidade investidora e amea\u00e7a o controle do sistema de cr\u00e9dito estatal e o pr\u00f3prio mercado de divisas, que move bilh\u00f5es de d\u00f3lares ao dia.<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a><\/p>\n<p>As medidas do novo marco regulat\u00f3rio das Big Tech institu\u00eddas por Xi reduzem o investimento em ramos produtivos marcados pela superacumula\u00e7\u00e3o (habita\u00e7\u00e3o, infraestruturas e seus fornecedores como o a\u00e7o, cimento, etc.), ampliam sua presen\u00e7a na BRI, <em>Iniciativa do Cintur\u00e3o e a Rota da Seda<\/em>, e orientam os investimentos das holdings tecnol\u00f3gicas para os gargalos das cadeias produtivas das TIC, a fim de fazer frente \u00e0 guerra tecnol\u00f3gica empreendida por Biden, com o objetivo de alcan\u00e7ar a autossufici\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o de chips. Esse \u00e9 o papel do Estado em qualquer pa\u00eds capitalista e, \u00e9 claro, de forma alguma n\u00e3o anula a lei do valor, como aponta Roberts.<\/p>\n<p>Roberts n\u00e3o v\u00ea que o processo de restaura\u00e7\u00e3o capitalista chin\u00eas (cujo gradualismo respondeu \u00e0s li\u00e7\u00f5es que a burocracia Mao-Stalinista extraiu da derrocada dos partidos estalinistas na URSS e no Leste europeu) est\u00e1 marcado pela extrema preocupa\u00e7\u00e3o da burocracia para preservar seu poder. A restaura\u00e7\u00e3o capitalista na China andou de m\u00e3os dadas com a manuten\u00e7\u00e3o e fortalecimento do regime ditatorial de partido \u00fanico. Sem este regime totalit\u00e1rio teria sido imposs\u00edvel garantir a superexplora\u00e7\u00e3o e arbitrariedade sobre os trabalhadores e camponeses chineses e n\u00e3o poderia preservar o privil\u00e9gio das camadas superiores do PCCh, nem os interesses do conjunto da burocracia restauracionista e da nova burguesia privada. Sem essa m\u00e3o de ferro, o investimento estrangeiro nunca teria chegado nem convertido a China em seu maior destino.<\/p>\n<p>Roberts, como os demais admiradores do &#8220;milagre econ\u00f4mico&#8221; chin\u00eas, identifica o &#8220;progresso&#8221; com a &#8220;capacidade de compra&#8221;<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a> e \u00e9 incapaz de explicar que sob a domina\u00e7\u00e3o capitalista-imperialista, todo avan\u00e7o na capacidade produtiva, como a ocasionada pela restaura\u00e7\u00e3o capitalista na China, desencadeia ao mesmo tempo enormes for\u00e7as destrutivas que se traduzem em alt\u00edssimos e irrepar\u00e1veis custos humanos e ambientais: 1\/ Deslocaliza\u00e7\u00f5es industriais em massa no Ocidente, junto com um decl\u00ednio brutal dos sal\u00e1rios e padr\u00f5es de trabalho da classe trabalhadora em escala mundial, 2\/ na China, um regime de trabalho semiescravo na forma de f\u00e1bricas-quart\u00e9is para 200 milh\u00f5es de trabalhadores rurais migrantes, al\u00e9m do retrocesso geral das condi\u00e7\u00f5es de trabalho da classe oper\u00e1ria urbana, bem como as condi\u00e7\u00f5es lament\u00e1veis de milh\u00f5es de camponeses deslocados \u00e0 for\u00e7a para \u00e1reas suburbanas e urbanas por funcion\u00e1rios p\u00fablicos locais \u00e1vidos por liberar terras agr\u00edcolas para vender seu direito de uso a incorporadores imobili\u00e1rios 3\/ uma brutal desigualdade social, que est\u00e1 entre as maiores do mundo; 4\/ uma grav\u00edssima ruptura do metabolismo com a natureza, deixando o pa\u00eds afetado pelo maior desastre ambiental do mundo, com seu correspondente impacto planet\u00e1rio no aquecimento global e no esgotamento dos recursos minerais e energ\u00e9ticos, 5\/ uma sufocante ditadura policial sobre o povo chin\u00eas e 6\/ uma pol\u00edtica expansionista de esgotamento dos recursos naturais, superexploradora da m\u00e3o de obra local e sustent\u00e1culo de regimes ditatoriais na \u00c1sia e na \u00c1frica.<\/p>\n<p><strong>Uma vis\u00e3o embelezadora da burocracia restauracionista<\/strong><\/p>\n<p>Por fim, Roberts simplifica e reduz as rela\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas entre China e os Estados Unidos \u00e0 <em>&#8220;transfer\u00eancia de valor&#8221;<\/em> entre os dois pa\u00edses, sem sequer considerar os conflitos entre os monop\u00f3lios de ambos os pa\u00edses pela supremacia e os superlucros tecnol\u00f3gicos. N\u00e3o desenvolveremos neste texto o lugar que, em nossa opini\u00e3o, a China ocupa na atual divis\u00e3o mundial do trabalho e no sistema de Estados.<\/p>\n<p>Mas, em qualquer caso, a rela\u00e7\u00e3o entre China e o imperialismo dominante, os EUA, n\u00e3o pode ser reduzida a uma <em>&#8220;transfer\u00eancia de valor&#8221; <\/em>e a uma compara\u00e7\u00e3o da produtividade global do trabalho em ambos os pa\u00edses, como se nada tivesse mudado ou mudando nestes 40 anos, como se a realidade estivesse congelada. Como se n\u00e3o tivesse existido e n\u00e3o existisse uma via dupla, combinada, de acumula\u00e7\u00e3o capitalista na China: a dos grandes oligop\u00f3lios ocidentais e a acumula\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma do capitalismo chin\u00eas, ambas sustentadas na superexplora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores chineses.<\/p>\n<p>Como se a rela\u00e7\u00e3o entre estas duas vias de acumula\u00e7\u00e3o capitalista n\u00e3o tivesse evolu\u00eddo profundamente, com um enorme desenvolvimento da acumula\u00e7\u00e3o capitalista aut\u00f4noma, tanto privada como estatal. Como se os oligop\u00f3lios chineses n\u00e3o tivessem entrado em competi\u00e7\u00e3o aberta com os oligop\u00f3lios norte-americanos e ocidentais pelo dom\u00ednio tecnol\u00f3gico e os superlucros associados. Como se a batalha pela hegemonia na \u00c1sia n\u00e3o estivesse em pleno andamento. Para al\u00e9m da teatralidade, s\u00e3o esclarecedoras as palavras do l\u00edder da maioria democrata no Senado norte-americano, Chuck Schumer, pouco antes de votar a <em>Lei de Inova\u00e7\u00e3o e Concorr\u00eancia<\/em>: <em>&#8220;Se n\u00e3o fizermos nada, nossos dias como superpot\u00eancia dominante podem estar se acabando&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Curiosamente, \u00e9 interessante mencionar como a combina\u00e7\u00e3o de seu m\u00e9todo unilateral e reducionista, juntamente com os dados que extrai do FMI, leva Roberts a conclus\u00f5es absurdas. \u00c9 o caso quando escreve que, <em>&#8220;dos 101 pa\u00edses de \u2018renda m\u00e9dia\u2019 em 1960, apenas 13 conseguiram separar-se do grupo para se tornarem economias avan\u00e7adas em 2008&#8221;<\/em>. S\u00f3 que, entre estas <em>&#8220;economias avan\u00e7adas&#8221;<\/em>, tirando o Jap\u00e3o, encontramos Hong Kong, Cingapura, Taiwan, Cor\u00e9ia, Espanha, Portugal, Gr\u00e9cia, Irlanda, Israel, Mauricio, Porto Rico e Guin\u00e9 Equatorial. N\u00e3o parece necess\u00e1rio acrescentar coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>Na mesma linha, Roberts acrescenta: <em>&#8220;N\u00e3o \u00e9 por acaso que apenas duas grandes economias em desenvolvimento tenham conseguido fazer parte do clube capitalista rico nos \u00faltimos 50 anos (Taiwan e Cor\u00e9ia), medidos em PIB per capita&#8221;.<\/em> Mas qualificar um protetorado dos EUA como Taiwan, como um pa\u00eds imperialista pela renda per capita n\u00e3o parece muito razo\u00e1vel, nem mesmo com a Cor\u00e9ia do Sul, com 28.500 soldados norte-americanos instalados em seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Parece ineg\u00e1vel a voracidade dos conglomerados chineses em dire\u00e7\u00e3o ao exterior. Por\u00e9m, segundo Roberts, os investimentos na BRI <em>&#8220;n\u00e3o t\u00eam como objetivo o lucro. Tudo \u00e9 para expandir a influ\u00eancia econ\u00f4mica da China globalmente e extrair recursos naturais e tecnol\u00f3gicos para a economia dom\u00e9stica&#8221;<\/em> (sic). Como se os investimentos estrangeiros chineses, onde, al\u00e9m disso, o capital privado acompanha e est\u00e1 associado ao estatal, n\u00e3o fossem uma parte central dos planos globais da China!<\/p>\n<p>Roberts afirma tamb\u00e9m que os investimentos exteriores chineses n\u00e3o se devem \u00e0 necessidade de absorver o excesso de capital ou \u00e0 queda da taxa de lucro no interior da China. No entanto, o superinvestimento e superprodu\u00e7\u00e3o que seguiram \u00e0 gigantesca onda de investimentos ap\u00f3s a crise mundial de 2008-2009 est\u00e3o mais do que demonstradas pela esmagadora maioria dos estudiosos e o pr\u00f3prio Roberts, por outro lado, aponta em v\u00e1rios de seus trabalhos a queda da taxa de lucro interno chin\u00eas em consequ\u00eancia do grande investimento realizado.<\/p>\n<p>Em um de seus \u00faltimos artigos, de maio de 2018, <em>&#8220;Xi assume o controle total do futuro da China&#8221;<\/em>, Roberts escreve que, sob Xi, a maioria da c\u00fapula do PCCh continuar\u00e1 com o modelo econ\u00f4mico atual, dominado por grandes corpora\u00e7\u00f5es do estado e o aparato do partido \u00fanico, porque <em>&#8220;inclusive a elite percebe que se trilhar o caminho capitalista e a lei do valor se tornar dominante, isso ir\u00e1 expor o povo chin\u00eas \u00e0 instabilidade econ\u00f4mica cr\u00f4nica, inseguran\u00e7a de emprego e renda, e maiores desigualdades&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Embora depois afirme que esta burocracia <em>&#8220;est\u00e1 unida em sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia socialista&#8221;<\/em> e quer <em>&#8220;preservar sua poder autocr\u00e1tico e os privil\u00e9gios que dele decorrem&#8221;<\/em>, n\u00e3o deixa de transmitir uma vis\u00e3o embelezadora de uma burocracia restauracionista \u00e0 qual implicitamente atribui um papel progressivo. Em um de seus escritos mais recentes, <em>&#8220;A China na d\u00e9cada da p\u00f3s-pandemia&#8221; <\/em>(maio de 2020), Roberts se mostra mais cr\u00edtico com a burocracia chinesa e introduz qualifica\u00e7\u00f5es que se afastam da complac\u00eancia de Katz.<\/p>\n<p>Ele nos fala de um <em>&#8220;governo comunista autocr\u00e1tico de partido \u00fanico, muitas vezes ineficiente, que imp\u00f4s medidas draconianas durante a pandemia, reprimiu impiedosamente os dissidentes e a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural foi uma par\u00f3dia impactante, reprime as minorias, mant\u00e9m campos de reeduca\u00e7\u00e3o em Xinjiang, ningu\u00e9m pode falar contra o regime sem consequ\u00eancias, em Hong Kong imp\u00f4s um governo militar&#8230;&#8221;<\/em>. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o no ponto central: a necessidade de derrubar a ditadura (capitalista) do PCCh para instaurar um governo dos trabalhadores apoiado em uma democracia socialista que v\u00e1 dando passos na constru\u00e7\u00e3o do socialismo e expanda a revolu\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p><strong>Algumas conclus\u00f5es estrat\u00e9gicas das teses de Katz e Roberts<\/strong><\/p>\n<p>Claudio Katz resiste pudicamente a explicitar as conclus\u00f5es de suas teses e Michael Roberts, absorvido pela &#8220;raz\u00e3o econ\u00f4mica&#8221;, n\u00e3o as desenvolve. Mas se suas teses fossem verdadeiras, equivaleriam a sentenciar para toda uma \u00e9poca hist\u00f3rica a impot\u00eancia do proletariado para retomar a luta pelo poder e retomar a constru\u00e7\u00e3o do socialismo. Significaria reconhecer nessa burocracia estatal um novo sujeito hist\u00f3rico alternativo,<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a> nem capitalista nem socialista, todo-poderoso e ditatorial, que representaria, apesar de todos seus defeitos, um campo progressivo em rela\u00e7\u00e3o ao capitalismo e ao imperialismo.<\/p>\n<p>O papel da classe oper\u00e1ria se limitaria a pressionar essa burocracia por algumas reformas e, \u00f3bvio, seria proibido como algo reacion\u00e1rio fazer uma revolu\u00e7\u00e3o para derrub\u00e1-la. A disputa entre os EUA e a China seria entre o capitalismo imperialista e uma nova forma\u00e7\u00e3o social progressiva, apesar de seus defeitos, em cujo campo teria que permanecer, ainda que &#8220;criticamente&#8221;.<\/p>\n<p>Na verdade, sua unilateralidade e sua concep\u00e7\u00e3o formal e abstrata do marxismo levam Michael Roberts<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a> ao extremo de afirmar que quem defende que a China \u00e9 capitalista estaria negando o marxismo, pois, se com seu <em>&#8220;sucesso fenomenal no crescimento econ\u00f4mico&#8221;, <\/em>a China continuasse sendo capitalista<em>, &#8220;seria a refuta\u00e7\u00e3o da teoria marxista da crise e uma justificativa do capitalismo&#8221;<\/em>. Evidente, uma vez que ele n\u00e3o pode defender que a China se pare\u00e7a em nada ao socialismo, ent\u00e3o a caracteriza como uma <em>&#8220;besta estranha&#8221; (weird beast<\/em>), nem capitalista nem socialista. S\u00f3 nos resta dizer que introduzir uma nova categoria como esta no corpus te\u00f3rico do marxismo exigiria uma justificativa te\u00f3rica mais profunda que algumas cifras econ\u00f4micas congeladas e isoladas do contexto geral e hist\u00f3rico e uma argumenta\u00e7\u00e3o rebuscada.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.hurun.net\/en-US\/Info\/Detail?num=LWAS8B997XUPhttps:\/\/www.hurun.net\/en-US\/Info\/Detail?num=LWAS8B997XUP\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.hurun.net\/en-US\/Info\/Detail?num=LWAS8B997XUPhttps:\/\/www.hurun.net\/en-US\/Info\/Detail?num=LWAS8B997XUP<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> KM. O Capital, t.1, s\u00e9tima se\u00e7\u00e3o. XXIII. A Lei Geral da acumula\u00e7\u00e3o capitalista. P\u00e1g. 547. Fundo de Cultura Econ\u00f4mica.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Elias Jabbour, China e as novas possibilidades do socialismo cient\u00edfico. Margem Esquerda, p\u00e1g.35. Revista da Boitempo. N\u00ba 37, 2\u00b0 Semestre, 2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Idem. P\u00e1g. 33<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Dados da \u00faltima lista dos Ricos do relat\u00f3rio Hurun, divulgada por uma empresa privada chinesa semelhante \u00e0 Forbes, dedicada ao ranking dos magnatas chineses. <a href=\"https:\/\/www.scmp.com\/business\/money\/wealth\/article\/3106202\/jack-ma-leads-pack-chinese-billionaires-2020-fortunes-grow\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.scmp.com\/business\/money\/wealth\/article\/3106202\/jack-ma-leads-pack-chinese-billionaires-2020-fortunes-grow<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Dados de mar\u00e7o de 2021. <a href=\"https:\/\/www.hurun.net\/en-US\/Info\/Detail?num=LWAS8B997XUP\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.hurun.net\/en-US\/Info\/Detail?num=LWAS8B997XUP<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.scmp.com\/business\/money\/wealth\/article\/3106202\/jack-ma-leads-pack-chinese-billionaires-2020-fortunes-grow\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.scmp.com\/business\/money\/wealth\/article\/3106202\/jack-ma-leads-pack-chinese-billionaires-2020-fortunes-grow<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> <a href=\"https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/redacao\/2021\/05\/24\/bernard-arnault-se-torna-a-pessoa-mais-rico-do-mundo.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/redacao\/2021\/05\/24\/bernard-arnault-se-torna-a-pessoa-mais-rico-do-mundo.htm<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Comparando os n\u00fameros de Piketty com o \u00edndice de Gini (que mede a desigualdade social: 0 \u00e9 a igualdade absoluta na distribui\u00e7\u00e3o de renda e 1 \u00e9 a desigualdade m\u00e1xima, onde uma pessoa se apropriaria de toda a renda do pa\u00eds), este \u00faltimo era de 0,16 em 1978, quando come\u00e7ou a restaura\u00e7\u00e3o capitalista, mas em 2017 j\u00e1 chegava a 0,467. Desde ent\u00e3o, continuou a aumentar, a ponto de o governo chin\u00eas n\u00e3o o tornar p\u00fablico. Ele \u00e9 estimado em 0,470, muito superior \u00e0 m\u00e9dia dos pa\u00edses da OCDE, de 0,300. Da mesma forma, no final de 2020, o 1% mais rico do pa\u00eds detinha 30,6% da riqueza nacional, contra 20,9% h\u00e1 duas d\u00e9cadas. Por sua vez, o relat\u00f3rio de 2014 do Centro de Pesquisa em Ci\u00eancias Sociais da Universidade de Pequim calculou que o 1% mais rico ultrapassava 30% da riqueza nacional, enquanto os 25% mais pobres possu\u00edam apenas 1%.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.scmp.com\/tech\/big-tech\/article\/3116385\/death-22-year-old-pinduoduo-employee-renews-controversy-over-chinas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.scmp.com\/tech\/big-tech\/article\/3116385\/death-22-year-old-pinduoduo-employee-renews-controversy-over-chinas<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> A receita em yuan foi convertida em d\u00f3lares em 04\/12\/2021.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.scmp.com\/news\/china\/article\/3153466\/chinas-army-migrant-workers-waits-xi-jinpings-common-prosperity-touch\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.scmp.com\/news\/china\/article\/3153466\/chinas-army-migrant-workers-waits-xi-jinpings-common-prosperity-touch<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Mart\u00edn Hern\u00e1ndez. O Veredicto da Hist\u00f3ria, R\u00fassia, China, Cuba&#8230; Da revolu\u00e7\u00e3o socialista \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o capitalista. Edi\u00e7\u00f5es Sundermann \/ Edi\u00e7\u00f5es Marxismo Vivo, 2009.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> [Deng] <em>&#8220;queria convencer Washington de que n\u00e3o poderia haver aliado mais leal na Guerra Fria do que a Rep\u00fablica Popular da China sob seu comando. Mao via seu acordo com Nixon como outro Pacto Hitler-Stalin, na formula\u00e7\u00e3o de um de seus generais, com Kissinger agindo como um Ribbentrop: um acordo t\u00e1tico com um inimigo para evitar os perigos de outro. Deng, no entanto, estava procurando mais do que isso. Seu objetivo era a aceita\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica no sistema imperial dos EUA, para obter acesso \u00e0 tecnologia e o capital necess\u00e1rio para seu esfor\u00e7o de modernizar a economia chinesa. Esse foi o motivo real e oculto de seu ataque ao Vietn\u00e3. Os Estados Unidos ainda sofriam sua derrota na Indochina. Qual a melhor maneira de ganhar sua confian\u00e7a do que oferecer-lhes vingan\u00e7a pelo poder? A guerra falhou, mas comprou a Deng algo mais valioso do que o custo de 60.000 vidas: uma passagem para a China entrar na ordem capitalista mundial, na qual floresceria.&#8221;<\/em> F. Voguel. Deng Xiaoping e a Transforma\u00e7\u00e3o da China. The Belkap press of Harvad University Press, 2011. Revis\u00e3o de Perry Anderson. Sinomania, London Review of Books. <a href=\"http:\/\/www.lrb.co.uk\/v34\/n03\/perry-anderson\/sino-americana\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.lrb.co.uk\/v34\/n03\/perry-anderson\/sino-americana<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.scmp.com\/author\/karen-chiu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.scmp.com\/author\/karen-chiu<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Desenvolvido pelo CIT (Centro de Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o), vinculado ao Instituto de Engenharia das For\u00e7as Armadas, e cuja produ\u00e7\u00e3o de insumos ficou a cargo da LTEF (Luoyang Telephone Equipment), empresa vinculada ao MPT (Minist\u00e9rio dos Correios e Telecomunica\u00e7\u00f5es). X Shen, O Caminho Chin\u00eas para a Alta Tecnologia: Tecnologia de Comuta\u00e7\u00e3o de Telecomunica\u00e7\u00f5es na Transi\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica. p.105. Springer, 1999.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> &#8220;Ao abrir o mercado dom\u00e9stico para empresas estrangeiras, as empresas nacionais tiveram que se concentrar no mercado de baixa renda na d\u00e9cada de 1980 e in\u00edcio de 1990. O governo chin\u00eas ofereceu apoio para ajudar as empresas nacionais a capturarem parte do mercado, ap\u00f3s estas desenvolverem seus pr\u00f3prios Comutadores digitais de linha fixa. Por exemplo, o Minist\u00e9rio organizou duas reuni\u00f5es de coordena\u00e7\u00e3o para encorajar o uso de comutadores produzidos internamente em 1996 e 1999 e essas duas reuni\u00f5es foram os pontos de virada para as empresas chinesas substitu\u00edrem as empresas multinacionais. &#8220;Qing Mu e Keun Lee. Difus\u00e3o de conhecimento, segmenta\u00e7\u00e3o de mercado e atualiza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica: o caso da ind\u00fastria de telecomunica\u00e7\u00f5es na China. Journal Research Policy, 2005. Volume 34 \/ 759-783.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> padr\u00e3o TD-SCDMA Time Division Synchronous Code Division Multiple Access.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> O setor estatal diminuiu constantemente nos anos posteriores a ades\u00e3o da China \u00e0 OMC. Em 2001, 40% de todos os empregos na China estavam no setor estatal. Esse n\u00famero caiu para 20% em 2008, mas esse decl\u00ednio parou nos anos ap\u00f3s 2008 e mostrou pouca mudan\u00e7a at\u00e9 o final da administra\u00e7\u00e3o Hu-Wen, em 2012. Entre 2008 e 2012, os ativos gerenciados pelas empresas estatais aumentaram de mais de 12 trilh\u00f5es de yuans para mais de 25 trilh\u00f5es de yuans. Yeling Tan. Como a OMC mudou a China. Neg\u00f3cios Estrangeiros. Mar \/ Abr2021, Vol. 100 Edi\u00e7\u00e3o 2, p\u00e1ginas 90-102. 13P.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.huawei.com\/en\/about-huawei\/corporate-information\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0\u00a0 https:\/\/www.huawei.com\/en\/about-huawei\/corporate-information<\/a> (consulta em janeiro de 2020)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.scmp.com\/abacus\/who-what\/who\/article\/3028219\/pony-ma-tycoon-behind-chinas-social-media-and-gaming-giant\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.scmp.com\/abacus\/who-what\/who\/article\/3028219\/pony-ma-tycoon-behind-chinas-social-media-and-gaming-giant<\/a> \/ <a href=\"https:\/\/www.scmp.com\/tech\/big-tech\/article\/2182193\/tencent-plugs-holes-and-boosts-profits-163-new-investments\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.scmp.com\/tech\/big-tech\/article\/2182193\/tencent-plugs-holes-and-boosts-profits-163-new-investments<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.caixinglobal.com\/2020-04-20\/pinduoduo-buys-into-home-appliance-retailer-to-sell-their-branded-goods-101544707.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.caixinglobal.com\/2020-04-20\/pinduoduo-buys-into-home-appliance-retailer-to-sell-their-branded-goods-101544707.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> &#8220;<em>Xi takes full control of China&#8217;s future<\/em>&#8220;, mayo 2018<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> Karl Marx. op.cit.\u00a0 t.1, pags. 103, 53, 55.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> Desde 2018, a Tencent Holdings foi repreendida pelas autoridades regulat\u00f3rias por &#8220;realizar opera\u00e7\u00f5es de c\u00e2mbio al\u00e9m do escopo de seu registro comercial&#8221;, culminando em uma multa de 2,8 milh\u00f5es de yuans ($ 438,000) a Tenpay.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> Vale a pena lembrar aqui, no entanto, as declara\u00e7\u00f5es do primeiro-ministro Li Keqiang nas sess\u00f5es anuais do Congresso Nacional do Povo em maio de 2020, segundo as quais 600 milh\u00f5es de chineses, 40% da popula\u00e7\u00e3o, vivem com apenas 1.000 yuans por m\u00eas. ($ 140). Dessas pessoas, 75,66% o fazem na zona rural. Por outro lado, cerca de 200 milh\u00f5es de pessoas (mais de um quarto da for\u00e7a de trabalho) t\u00eam empregos flex\u00edveis ou prec\u00e1rios. Tamb\u00e9m deve ser observado que o crit\u00e9rio oficial para &#8220;pessoa pobre&#8221; \u00e9 algu\u00e9m com uma renda anual inferior a 4.000 yuans (US $ 674). Mas para se enquadrar no padr\u00e3o internacional de 60% da renda m\u00e9dia, deveria ser de 8.600 yuans ($ 1.326), mais do que o dobro do limite utilizado (o que questiona as declara\u00e7\u00f5es triunfantes de Xi Jinping. Xulio R\u00edos, \u201cA prosperidade comum de Xi Jinping&#8221;, outubro de 2021).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a>Tese semelhante \u00e0 desenvolvida por Bruno Rizzi em 1939. <em>A Burocratiza\u00e7\u00e3o do Mundo<\/em>. Edi\u00e7\u00f5es Pen\u00ednsula, 1980.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> &#8220;IIPPE 2021: Imperialism, China and finance&#8221;, Michael Roberts Blog, 30\/09\/2021<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A condu\u00e7\u00e3o da pandemia pelo capitalismo provocou uma cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria, social e humana para a maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial. Nessa cat\u00e1strofe, paralela aos milh\u00f5es de mortos, se eleva a lista de bilion\u00e1rios. Todo o organismo econ\u00f4mico mundial capitalista reagiu de acordo com a norma suprema do capital, a lei da acumula\u00e7\u00e3o. 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