{"id":65749,"date":"2022-01-10T14:38:58","date_gmt":"2022-01-10T17:38:58","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65749"},"modified":"2023-06-14T18:53:49","modified_gmt":"2023-06-14T18:53:49","slug":"as-tentativas-de-revolucao-politica-no-bloco-sovietico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/01\/10\/as-tentativas-de-revolucao-politica-no-bloco-sovietico\/","title":{"rendered":"As tentativas de revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no bloco sovi\u00e9tico"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Ningu\u00e9m analisou t\u00e3o profundamente quanto Leon Trotsky o car\u00e1ter do Estado sovi\u00e9tico ap\u00f3s o triunfo da contrarrevolu\u00e7\u00e3o stalinista. Em 1936, em meio ao auge econ\u00f4mico vivido pela URSS, quando os fatos pareciam confirmar a corre\u00e7\u00e3o das teorias e pol\u00edticas da casta burocr\u00e1tica, Trotsky publicou um livro intitulado <strong>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda<\/strong>. Nesta obra, que deve ser estudada por quem deseja compreender a trajet\u00f3ria dos antigos Estados oper\u00e1rios, o futuro fundador da IV Internacional n\u00e3o s\u00f3 analisou a degenera\u00e7\u00e3o e as contradi\u00e7\u00f5es do Estado sovi\u00e9tico, mas tamb\u00e9m fez uma previs\u00e3o precisa da restaura\u00e7\u00e3o capitalista meio s\u00e9culo antes desse processo come\u00e7ar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Por: Daniel Sugasti<\/p>\n\n\n\n<p>O livro buscou responder a um acontecimento in\u00e9dito, de enorme impacto pol\u00edtico: a degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica do primeiro Estado oper\u00e1rio da hist\u00f3ria. Esse processo altamente contradit\u00f3rio era fonte de confus\u00e3o e duras pol\u00eamicas, mesmo entre os membros da chamada Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda Internacional, a organiza\u00e7\u00e3o liderada por Trotsky para enfrentar a contrarrevolu\u00e7\u00e3o stalinista.<\/p>\n\n\n\n<p>Tratava-se, antes de tudo, de caracterizar cientificamente o car\u00e1ter da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Sem isso, a tarefa de elaborar um programa revolucion\u00e1rio era imposs\u00edvel. Na d\u00e9cada de 1930, enquanto o mundo capitalista mergulhava em uma terr\u00edvel crise, a economia sovi\u00e9tica crescia de maneira impressionante. Trotsky prop\u00f4s que se buscasse a base dos indicadores econ\u00f4micos surpreendentes na expropria\u00e7\u00e3o da propriedade burguesa, na nacionaliza\u00e7\u00e3o dos principais meios de produ\u00e7\u00e3o, no planejamento da economia e no monop\u00f3lio estatal do com\u00e9rcio exterior; isto \u00e9, nas conquistas estabelecidas pela revolu\u00e7\u00e3o socialista de 1917, n\u00e3o na pol\u00edtica burocr\u00e1tica do stalinismo. Ele explicou que a camarilha do Kremlin mantinha essas bases sociais apenas na medida em que constitu\u00edam a fonte de seus privil\u00e9gios materiais, embora, paralelamente, as estivesse minando gradualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>As conquistas da revolu\u00e7\u00e3o socialista permitiram que, na d\u00e9cada de 1940, a URSS sa\u00edsse de um pa\u00eds materialmente atrasado para se tornar a segunda pot\u00eancia econ\u00f4mica e militar do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso significa que, como afirmam os burocratas, a URSS alcan\u00e7ou o socialismo? Trotsky rejeitou categoricamente tal afirma\u00e7\u00e3o. Ele caracterizou a URSS como um estado oper\u00e1rio que degenerou depois que a burocracia stalinista usurpou o poder pol\u00edtico dos sovietes (conselhos) e, com isso, esse aparato deixou de ser um instrumento a servi\u00e7o da classe trabalhadora e da revolu\u00e7\u00e3o mundial para converter-se justamente no contr\u00e1rio, isto \u00e9, um instrumento de repress\u00e3o interna e um freio a qualquer processo revolucion\u00e1rio internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A din\u00e2mica da casta burocr\u00e1tica, interessada apenas em aumentar seus privil\u00e9gios, levou a uma sabotagem da economia planificada e das bases sociais do Estado oper\u00e1rio, uma vez que a dire\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica n\u00e3o era discutida democraticamente pela classe oper\u00e1ria. Por isso, para o stalinismo, foi essencial liquidar a democracia sovi\u00e9tica e estabelecer um regime totalit\u00e1rio, que sempre apelou aos m\u00e9todos da guerra civil contra a classe trabalhadora. Um regime pol\u00edtico \u2013 embora sustentado em fundamentos socioecon\u00f4micos opostos \u2013 g\u00eameo do fascismo. Consequentemente, os planos econ\u00f4micos n\u00e3o estavam a servi\u00e7o de responder \u00e0s necessidades da classe oper\u00e1ria, mas aos mesquinhos interesses da burocracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Resumindo: a burocracia expropriou politicamente o dom\u00ednio da classe oper\u00e1ria sobre o Estado, esterilizou os Sovietes, liquidando seu car\u00e1ter de classe e anulando seu conte\u00fado revolucion\u00e1rio. Dos sovietes ficou apenas uma casca vazia. Com base nesta pol\u00edtica contrarrevolucion\u00e1ria, uma ditadura foi imposta <em>contra<\/em> o proletariado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full wp-image-65751\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"416\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/1949_Mao_and_Stalin.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-65751\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/1949_Mao_and_Stalin.jpg 640w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/1949_Mao_and_Stalin-300x195.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/1949_Mao_and_Stalin-150x98.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Mao e Stalin em 1949<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Sobre as contradi\u00e7\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es de classe na URSS, Trotsky demonstrou que a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia n\u00e3o eliminou as classes, ao contr\u00e1rio do que dizia o stalinismo, mas que a burguesia se reconstru\u00eda atrav\u00e9s da pequena burguesia rural e urbana, bem como pela a pr\u00f3pria burocracia privilegiada. N\u00e3o s\u00f3 a URSS estava longe de ser um &#8220;pa\u00eds socialista&#8221;, como sequer havia atingido o n\u00edvel das economias capitalistas avan\u00e7adas. A quest\u00e3o toda residia no fato de que, de acordo com o marxismo, \u00e9 imposs\u00edvel para um pa\u00eds chegar ao socialismo isoladamente. O proletariado pode tomar o poder num determinado pa\u00eds e p\u00f4r em marcha uma economia de transi\u00e7\u00e3o para o socialismo, mas o socialismo como sistema s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel \u00e0 escala mundial, isto \u00e9, pressup\u00f5e a derrota do imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, a pr\u00f3pria exist\u00eancia de um Estado policial, uma terr\u00edvel ditadura contra a classe oper\u00e1ria e os setores populares, foi uma demonstra\u00e7\u00e3o, por um lado, do atraso material da economia sovi\u00e9tica; de outro, a prova irrefut\u00e1vel de que o &#8220;socialismo&#8221; nunca existiu na URSS. Em primeiro lugar, porque a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo pressup\u00f5e uma ampla democracia oper\u00e1ria, isto \u00e9, o controle do proletariado sobre seu pr\u00f3prio Estado. Em segundo lugar, porque o socialismo exige, ao mesmo tempo, o desaparecimento gradual do Estado rumo ao comunismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cEstado oper\u00e1rio degenerado\u201d, entretanto, era um elemento contradit\u00f3rio dentro da economia mundial dominada pelo imperialismo. Em algum momento, essa contradi\u00e7\u00e3o deveria ser resolvida. Seja por uma extens\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o socialista aos pa\u00edses capitalistas mais avan\u00e7ados, seja por meio da restaura\u00e7\u00e3o capitalista nos estados oper\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, Trotsky colocou que existiam tr\u00eas hip\u00f3teses para a evolu\u00e7\u00e3o dessa forma\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica contradit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira era que uma revolu\u00e7\u00e3o liderada por um partido revolucion\u00e1rio, &#8220;tendo todas as qualidades do velho partido bolchevique&#8221;, derrubasse a burocracia e regenerasse o estado sovi\u00e9tico. Isso significaria, conforme definiu, uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA revolu\u00e7\u00e3o que a burocracia prepara contra si mesma n\u00e3o ser\u00e1 social como a de outubro de 1917, pois n\u00e3o tentar\u00e1 mudar os fundamentos econ\u00f4micos da sociedade ou substituir uma forma de propriedade por outra. A hist\u00f3ria conheceu, al\u00e9m das revolu\u00e7\u00f5es sociais que substitu\u00edram o regime feudal pelo burgu\u00eas, revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que, sem tocar nos fundamentos econ\u00f4micos da sociedade, derrubam as antigas forma\u00e7\u00f5es dominantes (1830 e 1848 na Fran\u00e7a; fevereiro de 1917, na R\u00fassia). A subvers\u00e3o da casta bonapartista ter\u00e1 naturalmente profundas consequ\u00eancias sociais; mas n\u00e3o vai sair do quadro de uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica &#8220;<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, seria uma revolu\u00e7\u00e3o no regime pol\u00edtico, n\u00e3o no car\u00e1ter de classe do Estado. O trotskista argentino e fundador da LIT-QI, Nahuel Moreno, resumiu esta defini\u00e7\u00e3o em 1980:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o porque reflete a luta feroz e mortal entre diferentes setores sociais, n\u00e3o classes, mas setores sociais. A revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria de base popular contra a aristocracia oper\u00e1ria e seus funcion\u00e1rios, ou seja, suas burocracias. \u00c9 pol\u00edtica porque \u00e9 a luta feroz de um setor da classe oper\u00e1ria contra outro setor ou contra seus funcion\u00e1rios E dizemos que \u00e9 uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o porque o movimento oper\u00e1rio ter\u00e1 que se mobilizar em massa para tirar este setor da dire\u00e7\u00e3o de suas organiza\u00e7\u00f5es, que lutar\u00e1 at\u00e9 a morte para defender seus privil\u00e9gios\u201d<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma revolu\u00e7\u00e3o dessa natureza, segundo Trotsky:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201c[&#8230;] come\u00e7aria restaurando a democracia nos sindicatos e nos sovietes. Poderia e deveria restaurar a liberdade dos partidos sovi\u00e9ticos. Com as massas, \u00e0 frente das massas, procederia a uma limpeza implac\u00e1vel dos servi\u00e7os do Estado; aboliria os graus, as condecora\u00e7\u00f5es, os privil\u00e9gios e restringiria a desigualdade na remunera\u00e7\u00e3o do trabalho, na medida permitida pela economia e pelo Estado. Daria \u00e0 juventude a chance de pensar livremente, de aprender, de criticar, em uma palavra, de formar-se. Introduziria modifica\u00e7\u00f5es profundas na distribui\u00e7\u00e3o da renda nacional, de acordo com a vontade das massas oper\u00e1rias e camponesas. N\u00e3o teria que recorrer a medidas revolucion\u00e1rias em mat\u00e9ria de propriedade. Continuaria e aprofundaria a experi\u00eancia da economia planificada. Depois da revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, depois da queda da burocracia, o proletariado levaria a cabo reformas muito importantes na economia sem precisar de uma nova revolu\u00e7\u00e3o social\u201d<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda hip\u00f3tese consistia em que a contrarrevolu\u00e7\u00e3o triunfasse por meio de &#8220;um partido burgu\u00eas&#8221; que restaurasse o capitalismo. Isso teria sido uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o pol\u00edtica:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cEmbora a burocracia sovi\u00e9tica tenha feito muito pela restaura\u00e7\u00e3o burguesa, o novo regime seria for\u00e7ado a realizar, no regime de propriedade e no modo de gest\u00e3o, uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o uma simples reforma\u201d<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mas havia uma terceira hip\u00f3tese: a de que a burocracia permanecesse no poder por um per\u00edodo relativamente longo. Nesse caso, o que aconteceria? Trotsky desenvolveu esta alternativa em <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA burocracia continua na cabe\u00e7a do Estado. A evolu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o para. \u00c9 evidente que n\u00e3o se pode pensar que a burocracia vai abdicar em favor da igualdade socialista [&#8230;] no futuro, ela inevitavelmente buscar\u00e1 apoio nas rela\u00e7\u00f5es de propriedade. Provavelmente ser\u00e1 objetado que as formas de propriedade das quais ele obt\u00e9m sua renda pouco importam para o alto funcion\u00e1rio. Isso \u00e9 ignorar a instabilidade dos direitos da burocracia e o problema de sua descend\u00eancia. O recente culto da fam\u00edlia sovi\u00e9tica n\u00e3o caiu do c\u00e9u. Privil\u00e9gios que n\u00e3o podem ser legados aos filhos perdem metade de seu valor; e o direito de testamento \u00e9 insepar\u00e1vel do direito de propriedade. <strong>N\u00e3o basta ser diretor de um truste, \u00e9 preciso ser acionista. A vit\u00f3ria da burocracia naquele setor decisivo criaria uma nova classe possuidora.<\/strong> Pelo contr\u00e1rio, a vit\u00f3ria do proletariado sobre a burocracia marcaria o renascimento da revolu\u00e7\u00e3o socialista &#8220;<\/em><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, se a burocracia conseguisse se manter no poder do Estado oper\u00e1rio, essa mesma casta restauraria o capitalismo e, ao faz\u00ea-lo, se transformaria em uma classe possuidora, uma nova burguesia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full wp-image-61512\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"341\" height=\"220\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/trotsky1940.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-61512\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/trotsky1940.jpg 341w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/trotsky1940-300x194.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/trotsky1940-150x97.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 341px) 100vw, 341px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Le\u00f3n Trotski fez previs\u00f5es sobre a restaura\u00e7\u00e3o burguesa na URSS que, meio s\u00e9culo depois, se mostraram acertadas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No Programa de Transi\u00e7\u00e3o, o programa com o qual a Quarta Internacional foi fundada em 1938, Trotsky colocou esse problema de forma mais categ\u00f3rica:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201co progn\u00f3stico pol\u00edtico tem um car\u00e1ter alternativo: ou a burocracia se transforma cada vez mais em um \u00f3rg\u00e3o da burguesia mundial dentro do Estado Oper\u00e1rio, derruba as novas formas de propriedade e retorna o pa\u00eds ao capitalismo; ou a classe oper\u00e1ria esmaga a burocracia e abre caminho para o socialismo\u201d<\/em><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Resumindo: se a classe oper\u00e1ria sovi\u00e9tica n\u00e3o realizasse uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que derrubasse o Termidor stalinista, mas ao mesmo tempo salvaguardasse as rela\u00e7\u00f5es de propriedade n\u00e3o capitalistas, a restaura\u00e7\u00e3o capitalista, mais cedo ou mais tarde, seria um fato.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente &#8211; embora n\u00e3o sem luta, como veremos &#8211; esta foi a hip\u00f3tese, antecipada de forma brilhante por Trotsky, que se confirmou na realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meados da d\u00e9cada de 1980, a dire\u00e7\u00e3o de Mikhail Gorbachev, junto com a c\u00fapula da KGB, decidiram restaurar o capitalismo. Em 1986, o XXVII do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (PCUS) iniciou o processo de desmantelamento de toda a estrutura do Estado oper\u00e1rio em tr\u00eas sentidos principais: a liquida\u00e7\u00e3o da propriedade socializada dos principais meios de produ\u00e7\u00e3o; o fim do monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior; o fim da economia planificada. A restaura\u00e7\u00e3o burguesa, de fato, havia come\u00e7ado muito antes na ex-Iugosl\u00e1via e na China. Atualmente, todos os ex-estados oper\u00e1rios s\u00e3o pa\u00edses capitalistas, em todos eles impera a economia de mercado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full wp-image-65655\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1719\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/bush_n_Gorby-scaled-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-65655\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/bush_n_Gorby-scaled-1.jpg 2560w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/bush_n_Gorby-scaled-1-300x201.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/bush_n_Gorby-scaled-1-1024x688.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/bush_n_Gorby-scaled-1-768x516.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/bush_n_Gorby-scaled-1-1536x1031.jpg 1536w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/bush_n_Gorby-scaled-1-2048x1375.jpg 2048w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/bush_n_Gorby-scaled-1-150x101.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/bush_n_Gorby-scaled-1-696x467.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/bush_n_Gorby-scaled-1-1068x717.jpg 1068w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/bush_n_Gorby-scaled-1-1920x1289.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Bush e Gorbachev se re\u00fanem em Moscu, 31 de julho de 1991<br>\u00a9 Peter Turnley\/Corbis<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo \u00e9 o balan\u00e7o hist\u00f3rico do stalinismo. A ideologia oficial do &#8220;socialismo em um pa\u00eds&#8221;, prevalecente desde 1924, implicava uma ren\u00fancia \u00e0 perspectiva da revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial. Essa proposi\u00e7\u00e3o &#8211; uma falsifica\u00e7\u00e3o grosseira do marxismo &#8211; nunca foi al\u00e9m de uma teoria justificativa das concep\u00e7\u00f5es nacionalistas enraizadas na burocracia sovi\u00e9tica e sua principal preocupa\u00e7\u00e3o: expandir seus privil\u00e9gios materiais. Isso teve uma deriva\u00e7\u00e3o nas regras da pol\u00edtica internacional da URSS: a &#8220;coexist\u00eancia pac\u00edfica&#8221; com o imperialismo, formulada no segundo p\u00f3s-guerra, mas aplicada desde antes<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria deu seu veredicto. A restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo nos antigos Estados oper\u00e1rios \u00e9 a prova do fracasso das teorias do socialismo em um s\u00f3 pa\u00eds e da coexist\u00eancia pac\u00edfica com o imperialismo. A hist\u00f3ria confirmou, em um per\u00edodo relativamente curto, que n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de se chegar ao socialismo no terreno nacional; que este novo tipo de sociedade &#8211; superior em todos os sentidos ao capitalismo &#8211; s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ado atrav\u00e9s de uma revolu\u00e7\u00e3o mundial que destrua o imperialismo. O socialismo ser\u00e1 mundial ou n\u00e3o ser\u00e1. A realidade mostrou, em suma, que a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo \u00e9 inconceb\u00edvel sem um regime pol\u00edtico de ampla democracia oper\u00e1ria, j\u00e1 que a pol\u00edtica contrarrevolucion\u00e1ria da casta burocr\u00e1tica \u2013 uma excrec\u00eancia social alheia ao proletariado &#8211; em escala nacional e internacional, mina as bases econ\u00f4mico-sociais de qualquer Estado oper\u00e1rio e, mais cedo ou mais tarde, imp\u00f5e um retrocesso para o capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>As &#8220;democracias populares&#8221;<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>O fim da Segunda Guerra Mundial imp\u00f5e um reordenamento do sistema internacional de Estados, selado pelos acordos firmados nas confer\u00eancias de Yalta e Potsdam em 1945, entre Roosevelt-Truman (EUA), Churchill e Stalin. A burocracia sovi\u00e9tica, seguindo a l\u00f3gica da coexist\u00eancia pac\u00edfica que delineamos, compactua com o imperialismo uma nova divis\u00e3o do mundo. As pot\u00eancias imperialistas, por um lado, reconheceram \u00e0 URSS o direito de constituir um &#8220;bloco&#8221; de na\u00e7\u00f5es aliadas na Europa Central e Oriental. Por outro lado, Stalin se comprometia a impedir a revolu\u00e7\u00e3o no resto da Europa e no mundo, especialmente em pa\u00edses onde a resist\u00eancia ao nazismo era liderada pelos partidos comunistas. O compromisso com os l\u00edderes imperialistas evitou a tomada do poder em pa\u00edses como Fran\u00e7a, It\u00e1lia e Gr\u00e9cia. O Kremlin estava interessado apenas em consolidar sua \u00e1rea de influ\u00eancia que, segundo sua teoria, &#8220;coexistiria&#8221; pacificamente com o mundo capitalista. Assim nasceu a divis\u00e3o oficial entre \u201cdois campos\u201d, \u201cdois sistemas\u201d: os \u201cEstados imperialistas\u201d e os \u201cEstados amantes da Paz\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto do avan\u00e7o militar sovi\u00e9tico para Berlim, o Ex\u00e9rcito Vermelho libertou do jugo nazista uma faixa de pa\u00edses nos quais, ap\u00f3s a guerra, manteve uma ocupa\u00e7\u00e3o militar. Este foi o ponto de partida da forma\u00e7\u00e3o do chamado &#8220;bloco do Leste&#8221;, ou o glacis sovi\u00e9tico, uma cadeia de Estados controlada, <em>manu militari<\/em>, pela burocracia stalinista. Esses &#8220;pa\u00edses sat\u00e9lites&#8221; atuaram como um &#8220;colch\u00e3o&#8221; entre a Europa imperialista e a URSS: Alemanha Oriental, Pol\u00f4nia, Tchecoslov\u00e1quia, Hungria, Rom\u00eania, Bulg\u00e1ria, Iugosl\u00e1via (at\u00e9 1948) e Alb\u00e2nia (at\u00e9 1960).<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1945 e 1948, Stalin promoveu as chamadas \u201cnovas democracias\u201d, isto \u00e9, governos de unidade com fra\u00e7\u00f5es burguesas (frentes populares), preservando as formas de regime multipartid\u00e1rio e o ritual das elei\u00e7\u00f5es parlamentares, mas sob a tutela do Ex\u00e9rcito Sovi\u00e9tico. No in\u00edcio, a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o permaneceu quase intacta. Mas essa pol\u00edtica mudou em 1948, principalmente devido \u00e0s press\u00f5es imperialistas, concretizadas na doutrina Truman e com o Plano Marshall. Moscou orientava os partidos comunistas locais a tomarem todo o poder e incentivava a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia. Assim, surgiram regimes de partido \u00fanico, modelados no modelo stalinista russo<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. Ou seja, no contexto de condi\u00e7\u00f5es objetivas excepcionais e ao contr\u00e1rio de suas inten\u00e7\u00f5es originais, o Kremlin amplia a estrutura social e o regime bonapartista em vigor na URSS, mas esta mudan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 o produto de uma revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria (como a de Outubro de 1917), mas, essencialmente, da ocupa\u00e7\u00e3o militar do Ex\u00e9rcito Vermelho nos pa\u00edses da Europa Central e Oriental<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim surgiram novos estados oper\u00e1rios, mas burocratizados desde sua g\u00eanese<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>. Em outras palavras, embora os capitalistas tenham sido expropriados e essas economias planificadas, o poder pol\u00edtico permaneceu nas m\u00e3os de uma burocracia privilegiada e ferrenha inimiga da democracia oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o in\u00edcio das chamadas &#8220;democracias populares&#8221;, um bloco de pa\u00edses economicamente explorados e oprimidos pelo chauvinismo russo. Eles eram Estados dominados por uma ocupa\u00e7\u00e3o militar estrangeira permanente. A opress\u00e3o de Moscou, como veremos em outra se\u00e7\u00e3o, colocar\u00e1 repetidamente, e de forma dram\u00e1tica, o problema nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O significado pol\u00edtico das &#8220;democracias populares&#8221; gerou uma intensa controv\u00e9rsia sobre o que eram esses novos Estados. Nas fileiras do trotskismo, extremamente enfraquecido pelo assassinato de Trotsky em 1940, a extens\u00e3o da expropria\u00e7\u00e3o da burguesia a esses pa\u00edses fez correntes como a liderada por Michel Pablo e Ernest Mandel argumentarem que o stalinismo, sob certas condi\u00e7\u00f5es, era capaz de cumprir um papel revolucion\u00e1rio. Da\u00ed a proposta deste setor de promover a pol\u00edtica de \u201centrismo sui generis\u201d nos partidos comunistas; o que de fato implicava a dissolu\u00e7\u00e3o do trotskismo no aparato stalinista. Outro setor, no qual se inclui a corrente morenista, rejeitou categoricamente esta capitula\u00e7\u00e3o e definiu a ocupa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica como &#8220;Estados oper\u00e1rios deformados&#8221;. As consequ\u00eancias pr\u00e1ticas desse debate, bem como os m\u00e9todos burocr\u00e1ticos da fra\u00e7\u00e3o Pablo-Mandel, precipitaram a primeira grande ruptura no trotskismo do p\u00f3s-guerra, em 1953.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1957, Nahuel Moreno sintetizou o processo que deu origem ao Bloco do Leste. Essa base conceitual ser\u00e1 crucial para compreender as revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sua din\u00e2mica.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cDesde o fim da Segunda Guerra Mundial, a R\u00fassia se tornou um pa\u00eds que explora outras na\u00e7\u00f5es e seus trabalhadores. Aproveitando o ascenso revolucion\u00e1rio das massas do p\u00f3s-guerra, que aterrorizou o imperialismo e o capitalismo, e a presen\u00e7a do Ex\u00e9rcito Vermelho no Leste Europeu, a burocracia russa negociou com o imperialismo o reconhecimento de sua influ\u00eancia na regi\u00e3o. Para expandir sua esfera de influ\u00eancia no mundo, a burocracia &#8216;pagou&#8217; entregando a revolu\u00e7\u00e3o, e a partir desse momento o stalinismo se tornou o principal apoiador do regime capitalista enfraquecido e semiarruinado na Europa [&#8230;] Como resultado desta negocia\u00e7\u00e3o, \u00e0s &#8216;Democracias Populares&#8217; na Europa Oriental, e nelas as hierarquias do Kremlin estabeleceram &#8211; ap\u00f3s muitas &#8216;limpezas&#8217; &#8211; suas ag\u00eancias burocr\u00e1ticas nacionais &#8220;<\/em><a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo da luta de classes mundial, digamos de passagem, a forma\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica, junto com o triunfo da Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa de 1949, inaugurou uma nova etapa em escala mundial: um longo per\u00edodo de vit\u00f3rias t\u00e1ticas &#8211; a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia em um ter\u00e7o do planeta como produto da imensa press\u00e3o da mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas, especialmente na China &#8211; embora no contexto de uma derrota estrat\u00e9gica. Moreno sempre falou que essa enorme conquista continha a terr\u00edvel contradi\u00e7\u00e3o de que esse processo fortaleceu o principal aparato contrarrevolucion\u00e1rio da hist\u00f3ria, o stalinismo, exacerbando assim a crise da dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cNo entanto &#8211; <\/em>dizem as teses fundadoras da LIT-QI em 1982 <em>&#8211; esses processos revolucion\u00e1rios colossais n\u00e3o conseguiram atender \u00e0 necessidade objetiva da revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial. Ao contr\u00e1rio, chegamos a uma situa\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria, paradoxal: o maior triunfo alcan\u00e7ado no decorrer desse processo revolucion\u00e1rio &#8211; a expropria\u00e7\u00e3o do capitalismo em um ter\u00e7o da humanidade e a constitui\u00e7\u00e3o de mais de uma dezena de Estados oper\u00e1rios &#8211; parecia voltar-se contra. Enquanto, liderados por burocracias, os Estados oper\u00e1rios nacionais se tornaram obst\u00e1culos no caminho da revolu\u00e7\u00e3o mundial &#8220;<\/em><a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><em><sup><strong>[12]<\/strong><\/sup><\/em><\/a><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Dada a caracteriza\u00e7\u00e3o desses novos Estados oper\u00e1rios deformados, Moreno delineou os eixos gerais do programa trotskista nesses pa\u00edses. A precis\u00e3o alude \u00e0 pol\u00eamica com Pablo e Mandel:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO programa desenvolvido pela Quarta Internacional para a \u00e1rea dominada pela burocracia e para a pr\u00f3pria URSS \u00e9 simples e gira em torno de dois pilares: a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es dominadas pela URSS. Este programa foi atualizado no p\u00f3s-guerra com um acr\u00e9scimo de fundamental import\u00e2ncia para os pa\u00edses ocupados pelo Ex\u00e9rcito Vermelho: Que saia o Ex\u00e9rcito Vermelho para que cada pa\u00eds fa\u00e7a o que quiser! Que o Ex\u00e9rcito Vermelho d\u00ea o exemplo, n\u00e3o ocupando ou dominando nenhum pa\u00eds! Essa conquista te\u00f3rica e program\u00e1tica custou anos ao nosso movimento [&#8230;]&#8221;<\/em><a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta s\u00edntese estreita do cen\u00e1rio do p\u00f3s-guerra na Europa de Leste e das bases program\u00e1ticas da ala principista do trotskismo servir\u00e3o para compreender os processos decorrentes da crise mundial do aparato stalinista.<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>. Um primeiro marco dessa crise \u00e9, sem d\u00favida, a morte de Stalin, ocorrida em 5 de mar\u00e7o de 1953. Ap\u00f3s tr\u00eas d\u00e9cadas de &#8220;culto \u00e0 personalidade&#8221;, o desaparecimento do infal\u00edvel &#8220;brilhante guia dos povos&#8221; n\u00e3o poderia menos que abalar o poder da burocracia. N\u00e3o \u00e9 por acaso que, poucos meses depois, eclodiu o primeiro processo de revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A primeira de muitas tentativas que, embora derrotadas, confirmariam a tend\u00eancia apontada por Trotsky.<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>A revolta oper\u00e1ria em Berlim Oriental<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Entre 16 e 17 de junho de 1953, uma greve iniciada por oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o em Berlim Oriental levou a uma rebeli\u00e3o que se espalhou por toda a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 (RDA). Cerca de meio milh\u00e3o de oper\u00e1rios cruzaram os bra\u00e7os e cerca de um milh\u00e3o de alem\u00e3es orientais foram \u00e0s ruas em 700 cidades e vilas.<\/p>\n\n\n\n<p>A gota d&#8217;\u00e1gua foi a proposta de aumentar o ritmo de produ\u00e7\u00e3o sem aumento de sal\u00e1rio. De fato, no final de maio o governo da RDA determinou um aumento de 10% na cota de produ\u00e7\u00e3o. Se os oper\u00e1rios de um determinado ramo industrial n\u00e3o atingissem as metas estabelecidas pela burocracia, seus sal\u00e1rios seriam reduzidos.<\/p>\n\n\n\n<p>As constantes demandas por aumento de produtividade eram particularmente odiosas para a classe oper\u00e1ria de um pa\u00eds em ru\u00ednas, que suportava as priva\u00e7\u00f5es materiais algemadas, sem qualquer liberdade democr\u00e1tica efetiva. Por outro lado, havia uma ampla consci\u00eancia de que as metas para acelerar o desenvolvimento da ind\u00fastria pesada na RDA faziam parte de um plano econ\u00f4mico elaborado para atender \u00e0s demandas da economia sovi\u00e9tica, e n\u00e3o \u00e0s necessidades b\u00e1sicas dos oper\u00e1rios alem\u00e3es. Dado o car\u00e1ter totalit\u00e1rio do regime, nem as cotas de produ\u00e7\u00e3o nem qualquer medida econ\u00f4mica foram decididas pelos trabalhadores, mas pelos burocratas, antes de tudo, os de Moscou. Eletricidade, carv\u00e3o, aquecimento, tudo estava racionado. A nova cota de produ\u00e7\u00e3o representou um atentado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida j\u00e1 castigadas. Na ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o, por exemplo, implicou um corte salarial particularmente severo: entre 10 e 15% para oper\u00e1rios n\u00e3o qualificados; a metade ou mais para os qualificados.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ofensiva da burocracia contra os trabalhadores foi enquadrada na pol\u00edtica do &#8220;novo curso&#8221;, oficializada em 9 de junho de 1953 pelo Comit\u00ea Central do SED<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a>, o partido governante. Justificada por indicadores econ\u00f4micos fracos, a nova pol\u00edtica significou uma s\u00e9rie de concess\u00f5es \u00e0 burguesia, \u00e0 pequena burguesia e \u00e0s igrejas: cr\u00e9ditos facilitados, desnacionaliza\u00e7\u00e3o de empresas, menos contribui\u00e7\u00f5es dos camponeses ao Estado, anistia para pol\u00edticos burgueses corruptos na pris\u00e3o, entre outras regalias. O &#8220;novo curso&#8221;, por outro lado, n\u00e3o instituiu nenhum aprimoramento material para a classe oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica de crescimento desproporcional da ind\u00fastria pesada, em detrimento da produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo b\u00e1sicos, derivou em escassez e fome para os alem\u00e3es orientais. A pr\u00f3pria burocracia, uma vez que a rebeli\u00e3o estourou, reconheceu esse fato. Em sua edi\u00e7\u00e3o de 17 de junho, o jornal SED admitiu que <em>\u201co desenvolvimento for\u00e7ado da ind\u00fastria pesada levou [&#8230;] \u00e0 restri\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria dos meios de consumo. Isso tem impedido o aumento do padr\u00e3o de vida\u201d<\/em><a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Um alvoro\u00e7o em Berlim Oriental. No dia 16 de junho, os pedreiros de todas as obras da Avenida Stalin (<em>Stalinallee<\/em>) decidiram democraticamente entrar em greve e marchar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cCasa dos Minist\u00e9rios\u201d para exigir do governo \u201ccomunista\u201d a revoga\u00e7\u00e3o da nova cota de produ\u00e7\u00e3o. Essa decis\u00e3o foi precedida de uma s\u00e9rie de debates. J\u00e1 no dia 8 de junho, os oper\u00e1rios do bloco 40 da <em>Stalinallee<\/em>, dos quais 75% eram membros do SED, votaram uma resolu\u00e7\u00e3o contra essa imposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio, os grevistas n\u00e3o tinham outra inten\u00e7\u00e3o sen\u00e3o entregar suas demandas por escrito \u00e0s autoridades. Assim, desfilaram sob uma faixa vermelha que dizia: &#8220;Exigimos redu\u00e7\u00e3o da cota!&#8221; \u00c0 medida que os pedreiros avan\u00e7avam, milhares de outros trabalhadores se juntaram \u00e0 coluna entoando outros tipos de demandas: <em>\u201cTrabalhadores, uni-vos!\u201d, \u201cUni\u00e3o faz a for\u00e7a!\u201d, \u201cQueremos elei\u00e7\u00f5es livres!\u201d, \u201cQueremos ser livres, n\u00e3o escravos!\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full wp-image-65752\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"640\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Berlin-1953.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-65752\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Berlin-1953.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Berlin-1953-300x188.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Berlin-1953-768x480.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Berlin-1953-150x94.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Berlin-1953-696x435.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Tanques sovi\u00e9ticos esmagam a greve geral em Berlim oriental, 1953<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando a passeata chegou ao seu destino, eles n\u00e3o foram recebidos pelo &#8220;camarada&#8221; Walter Ulbricht, secret\u00e1rio-geral do SED, mas por funcion\u00e1rios secund\u00e1rios. Isso enfureceu os presentes. Diante de uma multid\u00e3o de cerca de 10.000 pessoas, um orador apresentou uma lista de reivindica\u00e7\u00f5es: cancelamento dos aumentos na cota de produ\u00e7\u00e3o; Redu\u00e7\u00e3o de 40% nos pre\u00e7os nas lojas estatais; aumento geral de n\u00edvel dos oper\u00e1rios; abandonar a tentativa de criar um ex\u00e9rcito; elei\u00e7\u00f5es livres na Alemanha; democratizar o partido e os sindicatos. Diante da indiferen\u00e7a da burocracia, os oper\u00e1rios decidiram convocar uma greve geral para o dia seguinte. Uma cr\u00f4nica da \u00e9poca conta como os oper\u00e1rios, enfurecidos, enfrentaram seu interlocutor stalinista, gritando: &#8220;N\u00f3s somos os verdadeiros comunistas, n\u00e3o voc\u00eas!&#8221; Durante a noite, as atividades de prepara\u00e7\u00e3o para a greve foram fren\u00e9ticas. De um dia para o outro, havia assembleias por toda parte e comit\u00eas de f\u00e1brica foram formados. Os debates abordaram quest\u00f5es que iam muito al\u00e9m das meras demandas econ\u00f4micas, como a exig\u00eancia de que dias de greve sejam pagos e que n\u00e3o haja repres\u00e1lias contra membros da comiss\u00e3o; redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios da pol\u00edcia; Liberdade para presos pol\u00edticos; ren\u00fancia do governo; estabelecimento de elei\u00e7\u00f5es secretas, gerais e livres, que garantiriam uma vit\u00f3ria oper\u00e1ria em uma Alemanha reunificada.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve geral de 17 de junho foi um sucesso retumbante. Mais de 150.000 oper\u00e1rios, principalmente metal\u00fargicos, pedreiros e de transportes, ocuparam as ruas do setor sovi\u00e9tico de Berlim. Delega\u00e7\u00f5es de oper\u00e1rios da Alemanha Ocidental se juntaram \u00e0 luta. Assembleias, mo\u00e7\u00f5es de solidariedade, protestos de todo tipo eclodiram em todos os centros industriais da RDA. Surgiram comit\u00eas de f\u00e1brica e at\u00e9 embri\u00f5es de sovietes (conselhos de oper\u00e1rios). A radicaliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores foi muito acelerada. Em quest\u00e3o de horas, a greve dos pedreiros da Avenida Stalin se transformou em um verdadeiro levante revolucion\u00e1rio, abalando a burocracia stalinista.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a greve como tal n\u00e3o se estendeu ao setor ocidental. A burocracia oper\u00e1ria ocidental conseguiu impedir a unifica\u00e7\u00e3o da luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Os chefes da RDA, assustados, pediram ajuda a Moscou. Eles haviam perdido o controle da situa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, mais de 20.000 soldados russos apoiados por tanques do Ex\u00e9rcito Vermelho estacionados na Alemanha Oriental, al\u00e9m de 8.000 policiais locais (<em>Volkspolizei<\/em>), invadiram as ruas para esmagar o levante. Os tanques abriram caminho por entre a multid\u00e3o, que inutilmente atirou pedras e o que quer que estivesse \u00e0 m\u00e3o. Os russos n\u00e3o hesitaram em abrir fogo para dispersar a manifesta\u00e7\u00e3o. O relat\u00f3rio oficial admite que mais de 50 pessoas morreram. Outras estimativas falam de centenas de mortes durante a repress\u00e3o. A rebeli\u00e3o oper\u00e1ria havia sido sufocada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias que se seguiram ao massacre, a Justi\u00e7a da RDA e os tribunais militares sovi\u00e9ticos julgaram sumariamente centenas de pessoas. Houve execu\u00e7\u00f5es e torturas nas pris\u00f5es da tem\u00edvel pol\u00edcia pol\u00edtica, a Stasi. Pela primeira vez, a burocracia fechou o setor oriental, isolando-o do resto da cidade, um prel\u00fadio do futuro Muro de Berlim.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, a partir da jornada do dia 17 de junho ocorreram greves e protestos em diversas localidades. Mas a derrota foi selada em Berlim. O governo stalinista de Grotewohl-Ulbricht foi salvo pela interven\u00e7\u00e3o dos tanques sovi\u00e9ticos. Otto Nuschke, um dos vice-presidentes do Conselho de Ministros, afirmou: <em>\u201cOs russos t\u00eam raz\u00e3o em usar os tanques, porque, como pot\u00eancia ocupante, \u00e9 seu dever restaurar a ordem\u201d<\/em><a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>. O primeiro ato de revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, embora passageiro, seria um exemplo para os povos de outros pa\u00edses do Leste. Mostrou que a burocracia n\u00e3o era onipotente.<strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>A Revolu\u00e7\u00e3o H\u00fangara de 1956<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Entre 23 de outubro e 10 de novembro de 1956, a Hungria foi palco de uma revolu\u00e7\u00e3o popular e oper\u00e1ria contra o regime burocr\u00e1tico stalinista. Foi um processo muito mais amplo e profundo do que a greve geral de Berlim. No entanto, como se sabe, teve o mesmo destino de seus irm\u00e3os de classe alem\u00e3es. A revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica h\u00fangara acabaria sendo esmagada pelo Ex\u00e9rcito Vermelho, n\u00e3o sem antes legar uma refer\u00eancia de combatividade que inspiraria processos futuros no Leste Europeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois antecedentes importantes. Em fevereiro de 1956 foi realizado o XX Congresso do PCUS, no qual Nikita Khrushchev denunciou os &#8220;crimes de Stalin&#8221; &#8211; dos quais tamb\u00e9m participou -, condenou o &#8220;culto \u00e0 personalidade&#8221; do ex-l\u00edder sovi\u00e9tico e prometeu reformas no estado e no partido. O &#8220;Discurso Secreto&#8221; anunciou uma &#8220;desestaliniza\u00e7\u00e3o&#8221; da sociedade sovi\u00e9tica, medida concebida para responder \u00e0 crise criada pela morte de Stalin, dentro da pr\u00f3pria burocracia. Tamb\u00e9m respondeu \u00e0s press\u00f5es geradas pelo descontentamento em massa que crescia na \u00e1rea de influ\u00eancia sovi\u00e9tica. Nahuel Moreno comentou sobre as diferentes interpreta\u00e7\u00f5es da manobra de Khrushchev e sua ala dentro da camarilha:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO 20\u00ba Congresso serviu, ali\u00e1s, para que as tend\u00eancias reformistas do movimento oper\u00e1rio &#8211; dos tito\u00edstas \u00e0 seita pablista &#8211; alimentassem esperan\u00e7as de uma forma pac\u00edfica, calma e reformista de realizar a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contra a burocracia. Em oposi\u00e7\u00e3o a eles, afirmamos que o XX Congresso mostrava que a press\u00e3o das massas foi t\u00e3o poderosa que anunciou a proximidade de um enfrentamento total, como um todo, das massas contra a burocracia, que n\u00e3o poderia deixar de ser contrarrevolucion\u00e1ria. Os fatos [ele se refere \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o h\u00fangara] tamb\u00e9m neste sentido, provaram que est\u00e1vamos certos\u201d<\/em><a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, as mudan\u00e7as anunciadas logo se revelaram cosm\u00e9ticas. N\u00e3o havia inten\u00e7\u00e3o de democratizar o aparelho stalinista. Por\u00e9m, o estremecimento provocado pelo XX Congresso fez com que setores dos partidos comunistas do Leste Europeu, mas principalmente os povos desses pa\u00edses, concebessem seu resultado como o in\u00edcio de uma verdadeira abertura. As massas dos estados ocupados perceberam pelo menos uma brecha que poderia ser explorada. Mas quando se propuseram a ampli\u00e1-la, canalizando suas leg\u00edtimas aspira\u00e7\u00f5es materiais e democr\u00e1ticas, a chamada \u201cdesestaliniza\u00e7\u00e3o\u201d exp\u00f4s toda a sua falsidade. A resposta foi a mesma de sempre: cal\u00fania, persegui\u00e7\u00e3o, repress\u00e3o impiedosa.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro exemplo disso foi Pozna\u0144 (Pol\u00f4nia), o segundo antecedente imediato da revolu\u00e7\u00e3o h\u00fangara. Entre 28 e 30 de junho de 1956, mais de 100.000 oper\u00e1rios da f\u00e1brica de Cegielski entraram em greve por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida. O protesto foi reprimido pela a\u00e7\u00e3o de mais de 10.000 soldados e 400 tanques do ex\u00e9rcito polon\u00eas, comandados por oficiais russos. O saldo foi de mais de 70 mortos, cerca de 600 feridos e centenas de opositores presos. Embora a propaganda stalinista acusasse os manifestantes de serem &#8220;anticomunistas&#8221; ou &#8220;agentes provocadores contrarrevolucion\u00e1rios e imperialistas&#8221;, a realidade \u00e9 que os grevistas cantavam <em>A Internacional<\/em> enquanto marchavam com faixas que diziam &#8220;<em>Exigimos p\u00e3o<\/em>&#8220;. Pozna\u0144 foi, por sua vez, o antecedente do chamado \u201cOutubro polon\u00eas\u201d do mesmo ano. Ap\u00f3s a repress\u00e3o em Pozna\u0144, ciente de que havia um despertar democr\u00e1tico e um influxo de autodetermina\u00e7\u00e3o nacional em curso, a ditadura do Partido Oper\u00e1rio Unificado Polon\u00eas (PZPR, na sigla em polon\u00eas) concedeu um aumento de 50% nos sal\u00e1rios, al\u00e9m de prometer mudan\u00e7as pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full wp-image-65753\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"959\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Poznan_1956.Polonia.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-65753\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Poznan_1956.Polonia.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Poznan_1956.Polonia-300x281.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Poznan_1956.Polonia-768x719.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Poznan_1956.Polonia-150x140.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Poznan_1956.Polonia-696x652.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Greves em Pozna\u0144, Pol\u00f4nia, 1956<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas o descontentamento popular n\u00e3o tinha sido reprimido. \u00c0 morte de Stalin, no caso polon\u00eas deve ser adicionada a morte, ocorrida menos de um ano ap\u00f3s do escandaloso XX Congresso do PCUS, do ent\u00e3o secret\u00e1rio-geral do partido, Boles\u0142aw Bierut, conhecido como o \u201cStalin da Pol\u00f4nia\u201d. Assim, a crise da &#8220;ala dura&#8221; do stalinismo polon\u00eas se agravou a tal ponto que o pr\u00f3prio aparelho reabilitou um l\u00edder &#8220;moderado&#8221;, W\u0142adys\u0142aw Gomu\u0142ka, para assumir o poder. Moscou amea\u00e7ou invadir o pa\u00eds. Novos protestos populares estouraram. Uma delega\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica, liderada pelo pr\u00f3prio Khrushchev, foi \u00e0 Pol\u00f4nia para evitar a ascens\u00e3o de Gomu\u0142ka. Mas ele tinha o apoio do ex\u00e9rcito polon\u00eas e gozava de credibilidade entre o povo. Ap\u00f3s tensas negocia\u00e7\u00f5es, o Kremlin cedeu \u00e0s mudan\u00e7as, ap\u00f3s obter plena garantia de que Gomu\u0142ka e seus apoiadores n\u00e3o representavam qualquer amea\u00e7a s\u00e9ria ao dom\u00ednio russo, nem pretendiam romper com o Pacto de Vars\u00f3via. O novo l\u00edder polon\u00eas havia vencido o cabo de guerra apoiando-se habilmente na raiva popular contra Moscou. Os burocratas poloneses ganhariam assim maior autonomia nos assuntos internos. Em 24 de outubro de 1956, no auge de sua popularidade, antes de uma manifesta\u00e7\u00e3o massiva em Vars\u00f3via, Gomu\u0142ka pediu o fim das manifesta\u00e7\u00f5es, repetiu promessas e, em resposta \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es nacionais, garantiu um &#8220;novo caminho do socialismo&#8221;, uma esp\u00e9cie do &#8220;comunismo nacional polon\u00eas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno apresenta as raz\u00f5es que explicam o fato de a Pol\u00f4nia n\u00e3o ter sido invadida pela URSS em 1956: <em>\u201cGomu\u0142ka era uma garantia para Moscou e ao mesmo tempo contava com o apoio dos trabalhadores, por ter sido perseguido por Stalin; O Kremlin n\u00e3o se atreveu a enfrentar a Hungria e a Pol\u00f3nia simultaneamente e optou por reprimir militarmente o perigo h\u00fangaro, mais imediato (a influ\u00eancia da Igreja Cat\u00f3lica no movimento de massas polaco funcionou como \u00faltima salvaguarda contrarrevolucion\u00e1ria da pr\u00f3pria burocracia) &#8230;\u201d<\/em><a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo polon\u00eas foi seguido de perto na Hungria, onde uma terr\u00edvel ditadura stalinista tamb\u00e9m reinou. A classe oper\u00e1ria n\u00e3o tinha participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es pol\u00edticas ou econ\u00f4micas, controlada pela dire\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores H\u00fangaros (MDP, na sigla h\u00fangara), que, por sua vez, estava sob a tutela de Moscou. Nesse regime de partido \u00fanico, sem direito para a classe trabalhadora de formar outros partidos ou sindicatos independentes dos oficiais, a pol\u00edcia pol\u00edtica, chamada Autoridade de Prote\u00e7\u00e3o do Estado (\u00c1VH, na sigla h\u00fangara), era quase onipotente.<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de liberdades democr\u00e1ticas foi combinada com uma opress\u00e3o nacional hedionda, expressa, acima de tudo, em uma pilhagem terr\u00edvel da riqueza nacional em favor da burocracia russa. Ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra Mundial, os vencedores impuseram \u00e0 economia h\u00fangara o pagamento de 300 milh\u00f5es de d\u00f3lares no prazo de seis anos, como repara\u00e7\u00f5es de guerra para a URSS, Tchecoslov\u00e1quia e Iugosl\u00e1via<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a>. Assim, o Kremlin penalizou as massas h\u00fangaras porque sua burguesia havia sido aliada do nazismo. O Banco Nacional da Hungria estimou em 1946 que o custo dos reparos representou entre 19% e 22% da receita anual nacional. Em 1956, a hiperinfla\u00e7\u00e3o, a escassez e o racionamento estavam se tornando intoler\u00e1veis. A paci\u00eancia popular estava se esgotando.<\/p>\n\n\n\n<p>As concess\u00f5es arrancadas do Kremlin pelos poloneses encorajaram no povo h\u00fangaro a determina\u00e7\u00e3o de lutar por uma s\u00e9rie de reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, at\u00e9 ent\u00e3o sufocadas pelo aparato repressivo local. Mesmo antes do discurso de Kruschev, havia sinais de dissid\u00eancia intelectual dentro do pr\u00f3prio partido governante h\u00fangaro. O mais conhecido foi o C\u00edrculo Petofi, em homenagem ao poeta nacional Sandor Petofi, s\u00edmbolo da revolu\u00e7\u00e3o burguesa de 1848 contra a dinastia dos Habsburgos. Este grupo de intelectuais publicou desde 1955 uma s\u00e9rie de artigos cr\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise piora. Em 18 de julho de 1956, o Politburo sovi\u00e9tico for\u00e7ou M\u00e1ty\u00e1s R\u00e1kosi a renunciar ao cargo de secret\u00e1rio-geral do partido. R\u00e1kosi, que se descreveu como &#8220;o melhor disc\u00edpulo h\u00fangaro de Stalin&#8221;, ocupava o cargo desde 1948. Sua queda sinalizou a fraqueza do regime. Foi sucedido por Erno Ger\u00f6, apelidado de \u201csanguin\u00e1rio de Barcelona\u201d, por sua eficiente participa\u00e7\u00e3o na repress\u00e3o ao POUM e no assassinato de Andr\u00e9s Nin durante a Revolu\u00e7\u00e3o Espanhola. A mudan\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o acalmou os \u00e2nimos. Em alguns meses, seu governo seria atropelado por acontecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 22 de outubro, uma assembleia de milhares de universit\u00e1rios aprovou uma lista de dezesseis reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup>[22]<\/sup><\/a>. A primeira delas dizia: <em>\u201cExigimos a retirada imediata de todas as tropas sovi\u00e9ticas de acordo com as disposi\u00e7\u00f5es do Tratado de Paz\u201d<\/em>. O ponto dois exigia a elei\u00e7\u00e3o, por voto secreto, de uma nova dire\u00e7\u00e3o para o partido comunista em todos os n\u00edveis. O ponto tr\u00eas exigia a constitui\u00e7\u00e3o de um governo <em>\u201csob a dire\u00e7\u00e3o do camarada Imre Nagy\u201d<\/em>, o \u00fanico dirigente do partido com credibilidade. Eles acrescentam: <em>&#8220;Todos os l\u00edderes criminosos da era Stalin-R\u00e1kosi devem ser depostos imediatamente\u201d. <\/em>As demais reivindica\u00e7\u00f5es v\u00e3o desde o direito \u00e0 greve, liberdade de opini\u00e3o, express\u00e3o, imprensa, r\u00e1dio livre, sal\u00e1rio m\u00ednimo para trabalhadores, etc. O movimento estudantil tamb\u00e9m anunciou sua ades\u00e3o a uma marcha de solidariedade com <em>\u201co movimento libert\u00e1rio polon\u00eas&#8221;,<\/em> convocada para o dia seguinte. A declara\u00e7\u00e3o termina com um chamado: <em>&#8220;Trabalhadores de f\u00e1brica est\u00e3o convidados a se juntar \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em><a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\"><sup>[23]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 23 de outubro, mais de 200.000 pessoas marcharam em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sede do Parlamento. Alunos e trabalhadores gritaram: Fora os russos!, R\u00e1kosi, para o Dan\u00fabio!, \u200b\u200bImre Nagy, para o Governo! Todos os h\u00fangaros, com a gente! As ruas da capital foram inundadas com bandeiras nacionais nas cores vermelho, branco e verde, embora aparecesse com um buraco recortado no meio, onde antes estavam estampadas a estrela vermelha, o martelo e as duas pontas, s\u00edmbolos do partido stalinista.<\/p>\n\n\n\n<p>Erno Ger\u00f6 emitiu uma proclama\u00e7\u00e3o condenando escritores e estudantes e chamando os manifestantes de uma multid\u00e3o reacion\u00e1ria e chauvinista. Isso despertou a raiva da multid\u00e3o, que derrubou uma est\u00e1tua de Stalin com dez metros de altura. Uma parte marchou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00e1dio Budapeste, fortemente protegida por \u00c1VH. Quando uma delega\u00e7\u00e3o tentou entrar para transmitir suas reivindica\u00e7\u00f5es, a pol\u00edcia pol\u00edtica abriu fogo. Muitos morreram. Manifestantes enfurecidos incendiaram carros da pol\u00edcia e invadiram dep\u00f3sitos de armas. Em vez de reprimir, os soldados h\u00fangaros solidarizaram-se com o povo. A revolu\u00e7\u00e3o havia come\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full wp-image-65754\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"617\" height=\"410\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Hungary-revolution-56.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-65754\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Hungary-revolution-56.jpg 617w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Hungary-revolution-56-300x199.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Hungary-revolution-56-150x100.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 617px) 100vw, 617px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Manifestantes h\u00fangaros derrubam uma est\u00e1tua de Stalin<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Naquela mesma noite, tanques russos entraram em Budapeste. Houveram trocas de tiros por toda parte. Em 24 de outubro, os trabalhadores declararam greve geral. Mais unidades do ex\u00e9rcito h\u00fangaro passaram para o lado dos revolucion\u00e1rios. A rebeli\u00e3o dominou o pa\u00eds. Erno Ger\u00f6 e o ent\u00e3o primeiro-ministro, Andr\u00e1s Heged\u00fcs, fugiram para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. J\u00e1nos K\u00e1d\u00e1r assumiu como secret\u00e1rio-geral do partido e convocou Imre Nagy, um dirigente da ala &#8220;reformista&#8221; para primeiro-ministro. A primeira coisa que Nagy fez foi tentar desmobilizar o povo. Ele prometeu que negociaria a retirada das tropas sovi\u00e9ticas se a ordem fosse restaurada. Mas o povo estava em movimento. Surgiram os primeiros conselhos de oper\u00e1rios e mil\u00edcias. Apesar de sua superioridade militar, os sovi\u00e9ticos sofreram pesadas baixas. Os h\u00fangaros adotaram t\u00e1ticas de guerrilha urbana que desativaram dezenas de tanques russos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 27 de outubro, foi formado um novo governo chefiado por Nagy, com o fil\u00f3sofo Georg Luk\u00e1cs como Ministro da Cultura e dois ministros n\u00e3o comunistas. O objetivo dos &#8220;reformadores&#8221; era apaziguar as massas, fazer o movimento retroceder e reconciliar-se com os russos. Ap\u00f3s negocia\u00e7\u00f5es com o Kremlin, Nagy anunciou a retirada imediata das tropas sovi\u00e9ticas de Budapeste e a dissolu\u00e7\u00e3o do \u00c1VH. Em 30 de outubro, a maioria das unidades sovi\u00e9ticas haviam se retirado para seus quart\u00e9is fora da capital. J\u00fabilo nas ruas. Parecia que os russos estavam definitivamente deixando a Hungria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full wp-image-65755\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Tanque.destruido.Hungria1956.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-65755\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Tanque.destruido.Hungria1956.jpeg 1200w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Tanque.destruido.Hungria1956-300x169.jpeg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Tanque.destruido.Hungria1956-1024x576.jpeg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Tanque.destruido.Hungria1956-768x432.jpeg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Tanque.destruido.Hungria1956-150x84.jpeg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Tanque.destruido.Hungria1956-696x392.jpeg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Tanque.destruido.Hungria1956-1068x601.jpeg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Tanque sovi\u00e9tico inutilizado pelas massas h\u00fangaras, 1956<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas, apesar da exorta\u00e7\u00e3o de Nagy para retomar a calma, a realidade mostrou que a organiza\u00e7\u00e3o independente da classe estava se fortalecendo. Os conselhos de oper\u00e1rios estavam se multiplicando. Em alguns munic\u00edpios, eles assumiram tarefas t\u00edpicas de um governo. Havia planos para eleger um Conselho Nacional. Uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica estava em andamento t\u00e3o avan\u00e7ada que havia criado embri\u00f5es de duplo poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ponto, o movimento parecia impar\u00e1vel. Pierre Brou\u00e9 recolhe o testemunho de Gyula Hajdu, um ativista comunista de 74 anos, que tornou p\u00fablica a sua indigna\u00e7\u00e3o com a burocracia: <em>\u201cComo os dirigentes comunistas poderiam saber o que est\u00e1 acontecendo? Nunca se misturam com os trabalhadores e as pessoas comuns, n\u00e3o aparecem nos grupos, porque todos t\u00eam carro, n\u00e3o se encontram no com\u00e9rcio ou no mercado, porque t\u00eam os seus armaz\u00e9ns especiais, n\u00e3o se encontram nos hospitais, eles t\u00eam hospitais para eles &#8220;<\/em><a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\"><sup>[24]<\/sup><\/a><em>. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o antiburocr\u00e1tica, como suas predecessoras, tamb\u00e9m adquiriu o conte\u00fado de uma revolu\u00e7\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o nacional. Um processo revolucion\u00e1rio em que a luta contra a opress\u00e3o nacional exercida pelos russos, que o povo h\u00fangaro justamente identificou no odioso regime stalinista baseado no Kremlin, foi um dos mais poderosos motores sociais. N\u00e3o foi um processo &#8220;chauvinista&#8221;, como o stalinismo propagou, mas o grito de uma na\u00e7\u00e3o oprimida. Sem entender o problema da opress\u00e3o nacional e o anseio popular de autodetermina\u00e7\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel entender as revolu\u00e7\u00f5es no Leste Europeu. Sobre esse car\u00e1ter, Nahuel Moreno escreveu em 1957:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO mesmo est\u00e1 acontecendo em todos os lugares: padr\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o brutais e sal\u00e1rios miser\u00e1veis, o confisco de safras dos camponeses e uma pol\u00edtica autorit\u00e1ria para que eles entrem nos coletivos agr\u00edcolas. Essa dupla explora\u00e7\u00e3o sofrida pelos trabalhadores dos pa\u00edses dominados pela R\u00fassia se reflete na estrutura pol\u00edtica desses pa\u00edses: um regime totalit\u00e1rio, sem qualquer democracia, controlado por uma burocracia fabricada e dirigida a partir de Moscou. Da\u00ed o duplo car\u00e1ter das revolu\u00e7\u00f5es h\u00fangara e polonesa, isto \u00e9, nacionais por um lado e oper\u00e1rias por outro. Por isso, no in\u00edcio, dado o car\u00e1ter geral do movimento, o conjunto da na\u00e7\u00e3o contra o opressor estrangeiro, toda a popula\u00e7\u00e3o interveio na luta. Mas depois a classe oper\u00e1ria fica como a \u00fanica dire\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o s\u00f3 luta contra a explora\u00e7\u00e3o nacional, mas tamb\u00e9m contra a explora\u00e7\u00e3o da burocracia nativa.\u201d<\/em><a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\"><sup>[25]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O aparato stalinista afirmava estar enfrentando uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o ultranacionalista ou diretamente fascista que buscava restaurar o capitalismo e entregar o pa\u00eds \u00e0 OTAN. Isso, como antecipamos, \u00e9 completamente falso. Nenhuma das principais demandas dos estudantes, oper\u00e1rios e do povo em geral jamais questionou a economia nacionalizada. A revolu\u00e7\u00e3o buscou conquistar as liberdades democr\u00e1ticas, ou seja, democratizar o partido e o Estado; al\u00e9m do respeito pelo direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o nacional, come\u00e7ando com a expuls\u00e3o das tropas de ocupa\u00e7\u00e3o russas. Tanto \u00e9 verdade que, para essa tarefa, a maioria confiou em Nagy e em um setor do pr\u00f3prio partido no poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos primeiros dias de novembro, Moscou estava discutindo como liquidar a revolu\u00e7\u00e3o. Molotov prop\u00f4s uma interven\u00e7\u00e3o militar. O marechal Zhukov, a princ\u00edpio, se op\u00f4s. Khrushchev teria conversado com Mao Zedong e Tito, ambos a favor do uso da for\u00e7a. Enquanto isso, a situa\u00e7\u00e3o dos sovi\u00e9ticos se tornou mais prec\u00e1ria. Durante o intervalo em que as tropas russas estavam fora da cidade, multid\u00f5es invadiram a sede do partido no poder, queimaram bandeiras da URSS, lincharam membros da pol\u00edcia pol\u00edtica, n\u00e3o por &#8220;\u00f3dio ao comunismo&#8221;, mas por repulsa pelo stalinismo e seus agentes nativos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um elemento que pesou nas considera\u00e7\u00f5es sovi\u00e9ticas sobre a interven\u00e7\u00e3o militar foi a poss\u00edvel atitude dos Estados Unidos. Mas, quando a Guerra de Suez estourou em 29 de outubro, a burocracia sovi\u00e9tica entendeu que seus advers\u00e1rios tinham problemas mais urgentes do que o destino dos h\u00fangaros. Eisenhower, que tamb\u00e9m n\u00e3o queria conflitos b\u00e9licos com a URSS, deu a entender que a Hungria fazia parte da esfera de influ\u00eancia sovi\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo h\u00fangaro estava completamente superado. A figura do primeiro-ministro havia se desgastado tanto diante do povo quanto diante dos hierarcas russos. Em 1\u00ba de novembro, Nagy anunciou a neutralidade h\u00fangara e uma poss\u00edvel retirada do Pacto de Vars\u00f3via. O Kremlin decidiu lan\u00e7ar uma segunda ofensiva, a \u00faltima para esmagar a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na noite de 3 de novembro come\u00e7a a \u201cOpera\u00e7\u00e3o Redemoinho\u201d, comandada pelo Marechal Iv\u00e1n K\u00f3nev. Os russos invadiram Budapeste de diferentes lugares, combinando ataques a\u00e9reos, artilharia e a a\u00e7\u00e3o conjunta de tanques e infantaria de 17 divis\u00f5es. Mais de 30.000 soldados e 1.130 ve\u00edculos blindados entraram atirando em tudo o que se movia. A resist\u00eancia h\u00fangara concentrou-se nas \u00e1reas industriais, bombardeadas sem pausa pela artilharia sovi\u00e9tica. Em 10 de novembro, a revolu\u00e7\u00e3o foi esmagada. Mais de 2.500 h\u00fangaros morreram e cerca de 13.000 ficaram feridos. Os russos perderam mais de 700 soldados e centenas de tanques, fato que mostra a combatividade dos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full wp-image-65756\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"866\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Erich-Lessing-Hungarian-revolution.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-65756\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Erich-Lessing-Hungarian-revolution.jpg 1280w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Erich-Lessing-Hungarian-revolution-300x203.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Erich-Lessing-Hungarian-revolution-1024x693.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Erich-Lessing-Hungarian-revolution-768x520.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Erich-Lessing-Hungarian-revolution-150x101.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Erich-Lessing-Hungarian-revolution-696x471.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Erich-Lessing-Hungarian-revolution-1068x723.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Revolu\u00e7\u00e3o h\u00fangara, 1956<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em 10 de novembro, um novo governo chefiado por J\u00e1nos K\u00e1d\u00e1r \u00e9 instalado. Este personagem, completamente subserviente a Moscou, permaneceria no poder at\u00e9 1988. A persegui\u00e7\u00e3o foi implac\u00e1vel. Uma orgia de vingan\u00e7a pol\u00edtica foi desatada. Milhares foram capturados, enviados para os gulags siberianos. Outros foram executados sumariamente. O pr\u00f3prio Nagy foi baleado em 1958. Estima-se que 200.000 pessoas deixaram o pa\u00eds para escapar da repress\u00e3o stalinista.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, o aparato central do stalinismo conseguiu sufocar, por meio da repress\u00e3o, uma tentativa de revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Na Hungria, os conselhos oper\u00e1rios foram o ponto mais avan\u00e7ado da revolu\u00e7\u00e3o. Mas essas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o tinham centraliza\u00e7\u00e3o nem dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que propusesse uma estrat\u00e9gia independente de todas as alas da burocracia &#8211; a confian\u00e7a de um amplo setor na figura de Nagy, por exemplo, se mostrou fatal &#8211; que promoveu a centraliza\u00e7\u00e3o dos conselhos oper\u00e1rios e visava a estrat\u00e9gia de tomada de poder para estabelecer um regime de democracia oper\u00e1ria com base na economia n\u00e3o capitalista. Sem um partido revolucion\u00e1rio, o proletariado n\u00e3o poderia resolver a dualidade de poderes a seu favor. Os regimes stalinistas de Moscou e o de Budapeste, foram capazes de manobrar, enganar, desgastar e, assim, preparar o terreno para a ofensiva militar final do Ex\u00e9rcito Vermelho.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreno sempre enfatizou o essencial de uma pol\u00edtica independente da burocracia como um todo. No texto que citamos, ele explica o car\u00e1ter n\u00e3o revolucion\u00e1rio dos &#8220;reformadores&#8221; dos partidos comunistas do bloco sovi\u00e9tico. A din\u00e2mica do processo mostrou que setores favor\u00e1veis \u200b\u200ba uma aut\u00eantica revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nunca sa\u00edram das entranhas da burocracia. No m\u00e1ximo, apareceram for\u00e7as que, pressionadas pela a\u00e7\u00e3o das massas, se propuseram a reformular certas pol\u00edticas, mas sempre no \u00e2mbito de regimes de partido \u00fanico:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em>As revolu\u00e7\u00f5es h\u00fangara e polonesa &#8211; escreve Moreno &#8211; tamb\u00e9m demonstraram, por outro lado, que as for\u00e7as fundamentais na atualidade s\u00e3o a revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e [anti] colonial e a contrarrevolu\u00e7\u00e3o imperialista. Os revolucion\u00e1rios h\u00fangaros apelaram \u00e0 solidariedade do proletariado internacional, enquanto o poder oficial &#8211; Nagy e Gomu\u0142ka &#8211; apelou ao apoio do imperialismo. Este \u00faltimo e a Igreja tendiam a apoiar esses governos contra &#8211; ou frente &#8211; \u00e0s massas&#8221;<\/em><a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\"><sup>[26]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>A primavera de Praga: \u201cLenin, levanta-te! Brezhnev est\u00e1 louco! &#8220;<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Entre os pa\u00edses do glacis, a Tchecoslov\u00e1quia era um dos mais industrializados. Teve uma classe oper\u00e1ria com uma longa tradi\u00e7\u00e3o de luta. Em 1948, o Partido Comunista (PCCH) tomou o poder e estabeleceu um regime de partido \u00fanico, subordinado a Moscou. Na d\u00e9cada de 1950, o stalinismo se consolidou por meio de farsas judiciais, expurgos, pris\u00f5es, tortura etc. Um clima sufocante de terror se imp\u00f4s na sociedade. O r\u00edgido controle exercido pelo PCCH foi muito al\u00e9m da pol\u00edtica e da economia. Imprensa, literatura, pintura, m\u00fasica, ci\u00eancia &#8230; nada escapava \u00e0 censura do regime.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960, a economia come\u00e7ou a dar sinais de crise. Entre 1961 e 1963, o produto interno bruto passou de um crescimento de 7% para uma queda de 0,1%. A recess\u00e3o foi a base material para uma acelera\u00e7\u00e3o da crise pol\u00edtica. Em 1967, as primeiras perguntas sobre o stalinismo vieram de escritores e estudantes. Intelectuais da Uni\u00e3o dos Escritores da Tchecoslov\u00e1quia, da Academia de Ci\u00eancias e do Instituto de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas deram in\u00edcio a um movimento cr\u00edtico da pol\u00edtica econ\u00f4mica e da censura imposta pelo partido no poder. O <em>Liter\u00e1rn\u00ed Noviny<\/em>, revista semanal com artigos de escritores comunistas publicados que, entre outras coisas, sugeriam que a literatura deveria ser independente da doutrina do partido. A censura dispensou os editores e estabeleceu que o controle da revista caberia ao Minist\u00e9rio da Cultura. Mas as reivindica\u00e7\u00f5es de liberdade de express\u00e3o, de imprensa, de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e cient\u00edfica n\u00e3o paravam de crescer. A censura tornou-se insuport\u00e1vel. Os estudantes protestaram por uma educa\u00e7\u00e3o melhor e mais liberdades. Eventuais protestos foram duramente reprimidos, mas a viol\u00eancia policial apenas alimentou o movimento pelas liberdades democr\u00e1ticas. Ent\u00e3o veio a demanda por uma federa\u00e7\u00e3o justa entre tchecos e eslovacos. Duas d\u00e9cadas de governo stalinista tornaram a subordina\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00e0 URSS odiosa, insuport\u00e1vel. Observe que, como nos casos anteriores, o problema nacional surgiu com grande for\u00e7a na prepara\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Tchecoslov\u00e1quia. A reivindica\u00e7\u00e3o de livre organiza\u00e7\u00e3o sindical e partid\u00e1ria, por outro lado, questionava diretamente o monop\u00f3lio pol\u00edtico do PCCH.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento democr\u00e1tico teve impacto na alta hierarquia do PCCH. Agravou a divis\u00e3o entre os que admitiam a necessidade de certas reformas, no sentido de fazer concess\u00f5es que dissipassem o descontentamento, e a &#8220;linha dura&#8221;, em favor de redobrar a repress\u00e3o, sufocando a crise antes que ela se tornasse incontrol\u00e1vel. Assim, as primeiras fissuras aparecem no partido governante. A press\u00e3o do movimento fez com que Anton\u00edn Novotn\u00fd, o secret\u00e1rio geral do PCCH desde 1953, fosse destitu\u00eddo do cargo em janeiro de 1968. O cargo foi passado para Alexander Dub\u010dek, um l\u00edder da \u201cala reformista\u201d da burocracia. A princ\u00edpio, essa mudan\u00e7a foi aprovada por Leonid Brezhnev, o l\u00edder supremo da URSS desde 1964.<\/p>\n\n\n\n<p>O setor Dub\u010dek n\u00e3o queria nenhuma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, pois isso significaria o suic\u00eddio. Por meio de certas concess\u00f5es secund\u00e1rias, buscava novas formas de di\u00e1logo com as massas fartas do totalitarismo russo. Sua inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o era o fim do dom\u00ednio pol\u00edtico do PCCH, mas restaurar certo grau de credibilidade popular naquele partido, reciclar a imagem do governo para interromper o processo em andamento, n\u00e3o empurr\u00e1-lo at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. Enfim, era um setor disposto a entregar os an\u00e9is para n\u00e3o perder os dedos. Dub\u010dek proclamou essa pol\u00edtica como &#8220;socialismo com rosto humano&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro de 1968, ele declarou que a miss\u00e3o do partido era <em>\u201cconstruir uma sociedade socialista avan\u00e7ada com bases econ\u00f4micas s\u00f3lidas &#8230; um socialismo que corresponda \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas hist\u00f3ricas da Tchecoslov\u00e1quia, de acordo com a experi\u00eancia de outros partidos comunistas &#8230;\u201d<\/em><a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\"><sup>[27]<\/sup><\/a>, embora enfatizando que a nova pol\u00edtica visava <em>\u201crefor\u00e7ar o papel dirigente do partido de forma mais eficaz &#8220;<\/em>. Em 30 de mar\u00e7o, Novotn\u00fd entregou o cargo de presidente a Ludv\u00edk Svoboda, her\u00f3i de guerra e refer\u00eancia da chamada ala da renova\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m era bem visto entre tchecos e eslovacos. Em abril, o PCCH aprovou o slogan \u201csocialismo com rosto humano\u201d. Assim, o governo Dub\u010dek-Svoboda lan\u00e7ou um \u201cPrograma de A\u00e7\u00e3o\u201d com reformas democr\u00e1ticas e econ\u00f4micas moderadas, mas que, no contexto do que existia, foi recebido com grande expectativa entre a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A censura foi abolida em 4 de mar\u00e7o. Novos jornais apareceram. Houve um florescimento de diferentes express\u00f5es art\u00edsticas. Certos debates sobre quest\u00f5es espinhosas se tornaram p\u00fablicos. A imprensa detalhou os crimes contra o pa\u00eds sob o governo de Stalin, a opress\u00e3o nacional, criticou os privil\u00e9gios do regime. O Programa de A\u00e7\u00e3o contemplava uma abertura pol\u00edtica controlada: voto secreto dos dirigentes, liberdade de imprensa, de reuni\u00e3o, de express\u00e3o, de movimento, \u00eanfase econ\u00f4mica na produ\u00e7\u00e3o de bens de consumo, al\u00e9m de admitir com\u00e9rcio direto com pot\u00eancias ocidentais e uma transi\u00e7\u00e3o de dez anos para um regime multipartid\u00e1rio. O novo governo avan\u00e7ou para uma federa\u00e7\u00e3o de duas rep\u00fablicas, a Rep\u00fablica Socialista Tcheca e a Rep\u00fablica Socialista Eslovaca. Na verdade, essa foi a \u00fanica medida formal mantida ap\u00f3s a invas\u00e3o sovi\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>O Programa de A\u00e7\u00e3o escandalizou a \u201cala dura\u201d do PCCH, que alertava para o perigo de admitir tantas liberdades, j\u00e1 que o movimento, ao se sentir vitorioso, poderia ultrapassar os limites das concess\u00f5es. A sociedade, por sua vez, pressionava por uma acelera\u00e7\u00e3o das reformas. Quest\u00f5es pol\u00edticas antes impens\u00e1veis \u200b\u200bforam discutidas na televis\u00e3o. Expurgos antigos foram revisados. Entre outros, a figura de Sl\u00e1nsk\u00fd foi completamente reabilitada em maio de 1968. O Sindicato dos Escritores nomeou uma comiss\u00e3o, liderada pelo poeta Jaroslav Seifert, dedicada a investigar a persegui\u00e7\u00e3o de escritores desde 1948. N\u00e3o demorou muito para que publica\u00e7\u00f5es fora do partido surgissem, como o jornal sindical Prace. Surgiram novos clubes pol\u00edticos, culturais e art\u00edsticos. Os alarmados &#8220;conservadores&#8221; exigiram o restabelecimento da censura. A ala Dub\u010dek insistiu em uma pol\u00edtica moderada. Em maio, anunciou que o XIV Congresso do PCCH se reuniria no dia 9 de setembro. O conclave incorporaria o Programa de A\u00e7\u00e3o aos estatutos do partido, redigiria uma lei de federaliza\u00e7\u00e3o e elegeria um novo Comit\u00ea Central.<\/p>\n\n\n\n<p>As reformas foram al\u00e9m do que Brezhnev podia tolerar. Moscou pediu explica\u00e7\u00f5es a Dub\u010dek. J\u00e1 no dia 23 de mar\u00e7o, em reuni\u00e3o em Dresden, representantes da URSS, Hungria, Pol\u00f4nia, Bulg\u00e1ria e Alemanha Oriental criticaram duramente a delega\u00e7\u00e3o da Tchecoslov\u00e1quia. Qualquer alus\u00e3o a uma &#8220;democratiza\u00e7\u00e3o&#8221;, para os dirigentes do Pacto de Vars\u00f3via, na pr\u00e1tica punha em quest\u00e3o o modelo sovi\u00e9tico. Gomu\u0142ka e J\u00e1nos K\u00e1d\u00e1r, l\u00edderes da Pol\u00f4nia e da Hungria, estavam particularmente preocupados que a liberdade de imprensa levasse a um evento semelhante \u00e0 &#8220;contrarrevolu\u00e7\u00e3o h\u00fangara&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 29 de julho e 1\u00ba de agosto, houve um novo encontro. Brezhnev esteve presente. Do outro lado da mesa estavam Dub\u010dek e Svodoba. Os tchecoslovacos defenderam as reformas em andamento, mas reafirmaram sua lealdade a Moscou, sua ades\u00e3o ao Pacto de Vars\u00f3via e ao Comecon<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\"><sup>[28]<\/sup><\/a>. Eles se comprometeram a conter as tend\u00eancias &#8220;antissocialistas&#8221;, impedir o renascimento do Partido Socialdemocrata da Tchecoslov\u00e1quia e aumentar o controle da imprensa. Brezhnev, por sua vez, aceitou um acordo. Moscou prometeu retirar suas tropas da Tchecoslov\u00e1quia, embora as mantivesse ao longo da fronteira, e permitir o Congresso do PCCH anunciado para 9 de setembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o clima ainda estava agitado. Em mar\u00e7o, os estudantes publicaram uma \u201cCarta Aberta aos Oper\u00e1rios\u201d, cansados \u200b\u200bde serem acusados \u200b\u200bde \u201crestauradores do capitalismo\u201d. Denunciaram que a campanha de difama\u00e7\u00e3o pretendia separ\u00e1-los da classe oper\u00e1ria. Imediatamente os primeiros contatos entre estudantes e oper\u00e1rios foram feitos nas f\u00e1bricas, elevando na pr\u00e1tica a unidade oper\u00e1ria-estudantil do movimento democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de junho, surge o manifesto &#8220;Duas Mil Palavras&#8221;, uma &#8220;proclama\u00e7\u00e3o aos oper\u00e1rios, aos camponeses, aos profissionais, aos artistas, aos cientistas, aos t\u00e9cnicos, a todos.\u201d<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\"><sup>[29]<\/sup><\/a>, escrito pelo renomado jornalista e escritor Ludvik Vaculik. Em ess\u00eancia, ele exigia a Dub\u010dek que acelerasse o processo de reforma que havia prometido. O texto foi assinado por mais de cem mil pessoas, entre elas importantes personalidades da pol\u00edtica e da cultura local. As \u201cDuas Mil Palavras\u201d criticaram severamente o partido e o regime. Citaremos algumas partes interessantes. Primeiro, seu resumo da burocratiza\u00e7\u00e3o do partido comunista e do Estado:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cEsperan\u00e7osamente, a maioria da na\u00e7\u00e3o aceitou o programa de socialismo. A sua dire\u00e7\u00e3o, no entanto, caiu nas m\u00e3os de homens inadequados [&#8230;] O partido comunista, que depois da guerra gozava de grande confian\u00e7a entre o povo, gradualmente foi mudando para a defesa dos seus cargos, at\u00e9 que todos foram ocupados, de forma que nada mais &nbsp;sobrou[&#8230;] A linha errada da dire\u00e7\u00e3o fez com que o partido mudasse, de um partido pol\u00edtico e uma comunidade unida pela mesma ideologia, para uma organiza\u00e7\u00e3o de poder que era muito atraente para gananciosos ego\u00edstas, covardes petulantes e homens de consci\u00eancia turva cuja renda influenciou no car\u00e1ter e comportamento do partido [&#8230;] Muitos comunistas lutaram contra a degenera\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o puderam evitar o que aconteceu\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, com justi\u00e7a, o documento rejeita a ideia de que as a\u00e7\u00f5es do PCCH foram uma express\u00e3o genu\u00edna da classe oper\u00e1ria:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO aparato decidia quem e o que deveria ser feito ou n\u00e3o, dirigia as cooperativas no lugar dos cooperativistas, as f\u00e1bricas em vez dos oper\u00e1rios [&#8230;] Nenhuma organiza\u00e7\u00e3o, de fato, pertencia aos seus membros, nem mesmo a comunista. O principal erro, o maior engano desses governantes, foi que eles apresentaram sua vontade como a vontade da classe oper\u00e1ria [&#8230;Mas] ningu\u00e9m razo\u00e1vel, \u00e9 \u00f3bvio, pode acreditar nessa culpabilidade dos oper\u00e1rios. Todos n\u00f3s sabemos, e principalmente os oper\u00e1rios sabem disso, que praticamente nada decidiam: eram outros que decidiam quem deveria ser eleito funcion\u00e1rio oper\u00e1rio. Embora os oper\u00e1rios acreditassem que governavam, um estrato muito particular de funcion\u00e1rios do partido e do estado governava em seu nome.\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m propunha uma participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ativa e independente. Um chamado em defesa da democracia oper\u00e1ria exigia mais auto-organiza\u00e7\u00e3o e controle oper\u00e1rio:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cPe\u00e7amos [&#8230;] que os diretores e presidentes nos expliquem o que e a que custo querem produzir, para quem e por quanto vender, quanto poder\u00e3o ganhar desta forma, quanto da receita ser\u00e1 usada para modernizar a produ\u00e7\u00e3o e quanto ser\u00e1 poss\u00edvel distribuir [&#8230;] Os oper\u00e1rios, como empreendedores, podem intervir selecionando os homens mais adequados nas administra\u00e7\u00f5es empresariais e conselhos de f\u00e1brica. Como dependentes, podem defender melhor seus direitos elegendo seus dirigentes naturais, pessoas capazes e leais, nos organismos sindicais, sem levar em conta a carteirinha do partido.\u201d. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>As &#8220;Duas Mil Palavras&#8221;, \u00e9 claro, tinham limita\u00e7\u00f5es. N\u00e3o propunha derrubar o PCCH, mas reform\u00e1-lo. Para seus autores, era preciso continuar acreditando na possibilidade de uma regenera\u00e7\u00e3o interna do partido e, consequentemente, do regime. Nesse sentido, acabou expressando apoio ao governo e \u00e0 ala de Dub\u010dek na disputa fracional dentro do partido, que se intensificou com a proximidade do Congresso.:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO Partido Comunista da Checoslov\u00e1quia prepara o congresso que eleger\u00e1 o novo Comit\u00ea Central. Exigimos que seja melhor que o atual. Se hoje o partido comunista afirma que no futuro pretende basear a sua lideran\u00e7a na confian\u00e7a dos cidad\u00e3os e n\u00e3o na viol\u00eancia, acreditemos, na medida em que podemos acreditar nas pessoas que enviam agora como delegados aos congressos distritais e regionais\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O manifesto, embora progressista, era um produto \u00f3bvio da aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, a reivindica\u00e7\u00e3o enfureceu Brezhnev em Moscou. Ele tachou o documento como um &#8220;ato contrarrevolucion\u00e1rio&#8221;. Na Tchecoslov\u00e1quia, Dub\u010dek, o Presidium do partido e o gabinete tamb\u00e9m denunciaram o manifesto, mostrando instantaneamente os limites de suas inten\u00e7\u00f5es de \u201creforma\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio a esse clima de instabilidade, o Kremlin retirou seu apoio a Dub\u010dek. A burocracia stalinista decidiu apelar, mais uma vez, \u00e0 for\u00e7a. Na noite de 20 a 21 de agosto, uma for\u00e7a combinada de quatro pa\u00edses do Pacto de Vars\u00f3via &#8211; Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Bulg\u00e1ria, Pol\u00f4nia e Hungria &#8211; invadiu a Tchecoslov\u00e1quia.<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\"><sup>[30]<\/sup><\/a>. Em poucas horas, mais de 250.000 soldados e 3.000 tanques ocuparam a capital.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full wp-image-65757\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"940\" height=\"529\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Praga.1968.URSS_.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-65757\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Praga.1968.URSS_.jpg 940w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Praga.1968.URSS_-300x169.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Praga.1968.URSS_-768x432.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Praga.1968.URSS_-150x84.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Praga.1968.URSS_-696x392.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 940px) 100vw, 940px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Esmagamento da Primavera de Praga, 1968<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A resist\u00eancia nas ruas foi espont\u00e2nea. Milhares sa\u00edram para protestar. Alguns estavam tentando dialogar com os tanquistas russos. Em outros lugares, os moradores mudaram as placas das rotas para enganar os invasores. Eles pintaram tanques sovi\u00e9ticos com a su\u00e1stica, aludindo \u00e0 invas\u00e3o nazista de 1938. Nos muros apareciam picha\u00e7\u00f5es como<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO Circo Sovi\u00e9tico est\u00e1 de volta a Praga\u201d, ou \u201cL\u00eanin, levanta-te. Brezhnev est\u00e1 louco!\u201d<\/em>. Mas a cidade foi tomada. O Congresso do partido foi realizado na clandestinidade, em uma f\u00e1brica na periferia da capital, protegida por mil\u00edcias oper\u00e1rias. Mais de 1.100 delegados repudiaram a ocupa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 20 de agosto, Dub\u010dek, Svoboda e outros membros do governo foram presos e levados para Moscou. Sob forte press\u00e3o, eles capitularam um ap\u00f3s o outro. Assinaram o Protocolo de Moscou, que justificava a interven\u00e7\u00e3o armada, restabelecia a censura, denunciava o XIV Congresso do Partido e suas resolu\u00e7\u00f5es, reafirmava a lealdade ao Bloco de Leste, entre outros pontos. A Primavera de Praga terminou sob os rastros dos tanques russos.<\/p>\n\n\n\n<p>Moscou manteve Dub\u010dek em seu posto por alguns meses, embora ele j\u00e1 fosse um cad\u00e1ver pol\u00edtico. Em abril de 1969, Dub\u010dek perdeu o cargo de secret\u00e1rio-geral para Gust\u00e1v Hus\u00e1k, que governaria o pa\u00eds at\u00e9 1989. O per\u00edodo de &#8220;normaliza\u00e7\u00e3o&#8221; havia come\u00e7ado, revertendo todas as reformas democr\u00e1ticas. Depois de alguns meses como embaixador na Turquia, Dub\u010dek acabou como funcion\u00e1rio de um parque florestal. A &#8220;normaliza\u00e7\u00e3o&#8221; foi imposta cruelmente. As pris\u00f5es estavam cheias. Entre 1969 e 1971, mais de 500.000 membros foram expulsos do PCCH. O terror stalinista foi totalmente restabelecido.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full wp-image-65758\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"810\" height=\"539\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/primavera-de-Prga.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-65758\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/primavera-de-Prga.jpg 810w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/primavera-de-Prga-300x200.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/primavera-de-Prga-768x511.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/primavera-de-Prga-150x100.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/primavera-de-Prga-696x463.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 810px) 100vw, 810px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Tanques sovi\u00e9ticos em Praga, 1968<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca, o aparato de propaganda do stalinismo acusava as massas tchecoslovacas de promover a &#8220;restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo&#8221;. Este foi o principal argumento para justificar a invas\u00e3o do Pacto de Vars\u00f3via e a persegui\u00e7\u00e3o brutal que se seguiu. Os nost\u00e1lgicos do stalinismo, mais de meio s\u00e9culo depois, repetem a mesma hist\u00f3ria. Mas uma an\u00e1lise rigorosa dos fatos n\u00e3o autoriza tal conclus\u00e3o. O povo tchecoslovaco n\u00e3o lutou por uma restaura\u00e7\u00e3o burguesa. Em nenhum momento, usando a formula\u00e7\u00e3o de Trotsky, foi proposto &#8220;mudar os fundamentos econ\u00f4micos da sociedade&#8221;. Nem na Tchecoslov\u00e1quia ou em qualquer lugar onde um processo de revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica come\u00e7ou. As massas, no contexto de uma repress\u00e3o implac\u00e1vel e \u00e0 sua maneira, lutaram pela regenera\u00e7\u00e3o dos partidos comunistas e dos Estados oper\u00e1rios; aspiravam a uma democracia oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O esmagamento da chamada Primavera de Praga foi, como nos casos anteriores, um sucesso militar com enorme custo pol\u00edtico. A invas\u00e3o exacerbou a crise em muitos partidos comunistas. A brutalidade do stalinismo mais uma vez manchou a imagem do socialismo perante o mundo. As cenas de tanques sovi\u00e9ticos reprimindo civis desarmados forneceram muni\u00e7\u00e3o preciosa para a propaganda imperialista. Foi a burocracia stalinista, n\u00e3o as massas tchecoslovacas, que tornou as coisas mais f\u00e1ceis para o movimento anticomunista. Como disse Pierre Brou\u00e9:<em> \u201cCertamente a burguesia n\u00e3o pode deixar de se alegrar quando, para milh\u00f5es de homens, a imagem do comunismo tem a face repulsiva do stalinismo, ditadura burocr\u00e1tica, for\u00e7a bruta e repress\u00e3o policial contra a juventude e os trabalhadores.\u201d<\/em><a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\"><sup>[31]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Solidarno\u015b\u0107, a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica polonesa de 1980<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em meados de agosto de 1980, uma onda de greves de trabalhadores abalou a Rep\u00fablica Popular da Pol\u00f4nia. A fa\u00edsca foi o an\u00fancio de uma forte alta nos pre\u00e7os dos alimentos. Come\u00e7ou uma das revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas mais impressionantes, talvez aquela de maior destaque do movimento oper\u00e1rio organizado. Ap\u00f3s o chamado &#8220;degelo polon\u00eas&#8221; de 1956, ocorreram grandes lutas oper\u00e1rias, todas violentamente reprimidas: as greves de 1970 e 1976, al\u00e9m de um forte movimento de intelectuais e estudantes em 1968. Esse \u00faltimo processo desencadeou um repugnante expurgo antissemita, impulsionado pelo regime: mais de 20.000 judeus sobreviventes do Holocausto foram expulsos do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve de 1970 ocorreu entre 14 e 19 de dezembro. A repress\u00e3o estatal matou pelo menos 44 oper\u00e1rios e feriu mais de mil. Gomu\u0142ka foi substitu\u00eddo por Edward Gierek. Este \u00e9 um ponto de viragem na pol\u00edtica polonesa do p\u00f3s-guerra e na din\u00e2mica futura do movimento oper\u00e1rio. Em 1976, a ditadura do PZPR ordenou um aumento de 69% no pre\u00e7o da carne e 100% no do a\u00e7\u00facar. O racionamento de produtos b\u00e1sicos se intensificou. Uma onda de greves abalou o pa\u00eds. Na cidade de Radom, manifestantes furiosos invadiram a sede da PZPR. A solidariedade com os trabalhadores por parte da intelectualidade deu origem ao Comit\u00ea de Defesa dos Trabalhadores (KOR, por sua sigla em polon\u00eas), uma plataforma de oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, em certa medida o antecessor do processo de 1980. A greve foi duramente reprimida, embora tenha acabado cancelando o aumento de pre\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo a pol\u00edtica do imperialismo, o polon\u00eas Karol Wojty\u0142a foi eleito Papa em 1978 e, no ano seguinte, visitou seu pa\u00eds. Durante uma missa em Vars\u00f3via, Jo\u00e3o Paulo II pronunciou sua famosa frase &#8220;n\u00e3o tenham medo&#8221;, encorajando a oposi\u00e7\u00e3o ao regime do Partido Oper\u00e1rio Unificado da Pol\u00f4nia e, \u00e9 claro, nomeando a Igreja Cat\u00f3lica &#8211; a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o legal e independente do regime, com muitos fi\u00e9is na Pol\u00f4nia &#8211; como uma alternativa de dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, a economia polonesa estava em crise total. A produ\u00e7\u00e3o industrial e agr\u00edcola despencou. A Pol\u00f4nia tinha a maior d\u00edvida do mundo. Em 1979, a d\u00edvida externa era de 21 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Em 1982, o pa\u00eds devia 28,5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares a quinhentos bancos e quinze governos ocidentais. Moscou contribuiu com mais de 10 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para Vars\u00f3via para pagar juros, mas foi incapaz de manter esse fluxo.<a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\"><sup>[32]<\/sup><\/a>. O imperialismo drenava os recursos do bloco sovi\u00e9tico. Neal Ascherson, jornalista especializado na Europa Oriental, descreveu o c\u00edrculo vicioso da seguinte forma: <em>\u201cAs importa\u00e7\u00f5es de tecnologia avan\u00e7ada, por meio de empr\u00e9stimos em moeda forte, devem continuar pelo motivo essencial de que s\u00e3o necess\u00e1rias para a produ\u00e7\u00e3o de bens export\u00e1veis, \u00fanica forma de obter as divisas necess\u00e1rias para pagar d\u00edvidas anteriores.\u201d<\/em><a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\"><em><sup><strong>[33]<\/strong><\/sup><\/em><\/a><em>.<\/em> Desde 1976, a d\u00edvida externa representava 40% do valor das exporta\u00e7\u00f5es para o Ocidente. O regime se endividou basicamente para importar tecnologia ocidental &#8211; na expectativa de modernizar sua ind\u00fastria e poder exportar produtos competitivos &#8211; mas, como a balan\u00e7a comercial era desfavor\u00e1vel<a href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref34\"><sup>[34]<\/sup><\/a>, as contas nunca fechavam e a sa\u00edda da burocracia era pedir mais empr\u00e9stimos<a href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref35\"><sup>[35]<\/sup><\/a>. Era o ciclo da d\u00edvida t\u00edpico de qualquer pa\u00eds semicolonial.<\/p>\n\n\n\n<p>A gest\u00e3o burocr\u00e1tica da economia, para piorar as coisas, dificultava a absor\u00e7\u00e3o de tecnologia importada. Em 1980 estimava-se que o valor dos equipamentos n\u00e3o instalados ultrapassam os 6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Em 1979, a economia registrava queda de 2,3%. O servi\u00e7o da d\u00edvida comprometeu 92% das exporta\u00e7\u00f5es para os pa\u00edses capitalistas. Em 1986, a d\u00edvida polonesa com os pa\u00edses capitalistas ascendia a 31,3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, montante duas vezes e meia superior ao total das exporta\u00e7\u00f5es anuais.<a href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref36\"><sup>[36]<\/sup><\/a>. Nesse mesmo ano, a Pol\u00f3nia entrou ao FMI e ao Banco Mundial. A Iugosl\u00e1via, a Rom\u00eania e a Hungria j\u00e1 haviam feito o mesmo antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, o imperialismo, dominante na economia mundial, havia penetrado firmemente na economia dos antigos estados oper\u00e1rios. A pol\u00edtica de submiss\u00e3o ao imperialismo, especialmente as exig\u00eancias de pagamento da d\u00edvida externa, n\u00e3o permitia direcionar parte da produ\u00e7\u00e3o que era exportada para o mercado interno, medida que poderia ter atenuado em parte a detest\u00e1vel escassez. A sabotagem da burocracia \u00e0 economia socializada, por outro lado, adquiriu uma dimens\u00e3o alarmante. Naqueles anos, na Pol\u00f3nia, cerca de 80% das terras ar\u00e1veis \u200b\u200bj\u00e1 estavam em m\u00e3os privadas. Este \u00e9 o pano de fundo das greves de 1980.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 14 de agosto daquele ano, a greve come\u00e7ou no estaleiro &#8220;L\u00eanin&#8221; em Gdansk, s\u00edmbolo da repress\u00e3o aos stalinistas poloneses em dezembro de 1970. Este processo perturba irreversivelmente a situa\u00e7\u00e3o. A greve das ferrovias em Lublin, um entroncamento ferrovi\u00e1rio estrat\u00e9gico na rota para a URSS, enfureceu Brezhnev. Diante da for\u00e7a do movimento grevista, o ent\u00e3o ministro da Defesa Wojciech Jaruzelski n\u00e3o aconselhava o uso do ex\u00e9rcito. No final de agosto, mais de 700.000 trabalhadores entraram em greve em 700 locais de trabalho em todo o pa\u00eds. Comit\u00eas de greve surgiram em mais de 200 empresas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full wp-image-65759\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"675\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Astilleros.Lenin_.Polonia.1980.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-65759\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Astilleros.Lenin_.Polonia.1980.jpg 1200w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Astilleros.Lenin_.Polonia.1980-300x169.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Astilleros.Lenin_.Polonia.1980-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Astilleros.Lenin_.Polonia.1980-768x432.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Astilleros.Lenin_.Polonia.1980-150x84.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Astilleros.Lenin_.Polonia.1980-696x392.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Astilleros.Lenin_.Polonia.1980-1068x601.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Huelga en los Astilleros Lenin, 1980<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O principal l\u00edder da greve do estaleiro de Gdansk foi o eletricista Lech Wa\u0142esa. Ele trabalhava l\u00e1 desde 1967 e foi demitido em 1976. Ele formou o comit\u00ea de greve em 1970. Foi preso v\u00e1rias vezes por defender o sindicalismo livre. A outra l\u00edder importante foi Anna Walentynowicz, uma popular operadora de guindaste cuja demiss\u00e3o precipitou a greve. Os oper\u00e1rios exigiram a reintegra\u00e7\u00e3o de ambos, sem repres\u00e1lias.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 16 de agosto, um Comit\u00ea de Greve interempresarial (MKS, em sua sigla em polon\u00eas) \u00e9 formado com delegados de outros comit\u00eas de greve que chegaram ao estaleiro em Gdansk.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 17 de agosto, o MKS fez uma lista de vinte e uma reivindica\u00e7\u00f5es. As especifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o se limitavam a demandas econ\u00f4micas, mas, fundamentalmente, exigiam direitos pol\u00edticos: a legaliza\u00e7\u00e3o dos sindicatos independentes, a liberdade de express\u00e3o, o direito \u00e0 greve, etc. Os oper\u00e1rios despedidos deveriam ser reintegrados. Os alunos expulsos das universidades por suas ideias devem ser readmitidos. Os grevistas tamb\u00e9m exigiram a liberta\u00e7\u00e3o de todos os presos pol\u00edticos, a aboli\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios da pol\u00edcia e do aparelho de Estado. Em suma, os sindicatos livres deveriam ter peso nas decis\u00f5es pol\u00edticas que afetaram seu dia a dia:<em>\u201c\u2026 Intervir nas decis\u00f5es (&#8230;) que se relacionavam a: os princ\u00edpios de distribui\u00e7\u00e3o da renda nacional entre o consumo e a acumula\u00e7\u00e3o, a distribui\u00e7\u00e3o do fundo de consumo social entre os diversos objetivos (sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, cultura), os princ\u00edpios b\u00e1sicos das remunera\u00e7\u00f5es e a orienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica salarial, nomeadamente no que se refere ao princ\u00edpio do aumento autom\u00e1tico dos sal\u00e1rios em fun\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o, o plano econ\u00f3mico de longo prazo, a orienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de investimento e a modifica\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os\u201d<\/em><a href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref37\"><sup>[37]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Demonstrando irrever\u00eancia, as 21 reivindica\u00e7\u00f5es foram escritas em uma grande prancha de madeira que mais tarde foi pendurada na porta do estaleiro, s\u00edmbolo da luta em escala nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A greve, cercada de apoio popular, obrigou as autoridades a pedirem uma negocia\u00e7\u00e3o. Assim, em 31 de agosto de 1980, Lech Wa\u0142esa, que havia se tornado o principal l\u00edder da greve, sentou-se \u00e0 mesa junto com Mieczyslaw Jagielski, o vice-primeiro-ministro polon\u00eas, para assinar os acordos de Gdansk. O evento foi transmitido ao vivo pela televis\u00e3o em toda a Pol\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Este foi um mau neg\u00f3cio para a burocracia. A concess\u00e3o mais importante foi a autoriza\u00e7\u00e3o para fundar um sindicato independente do controle do partido comunista. Os presos pol\u00edticos tamb\u00e9m seriam libertados. As demandas econ\u00f4micas deveriam ser atendidas gradativamente. Wa\u0142esa, por sua vez, concordou que o novo sindicato respeitasse a Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Popular da Pol\u00f4nia e reconhecesse a lideran\u00e7a do partido no poder. A figura de Wa\u0142esa cresceu. Em poucas semanas, o eletricista desconhecido se tornou um ator pol\u00edtico nacional que a burocracia n\u00e3o podia ignorar. Para se ter uma ideia da magnitude da crise, em setembro de 1980 Edward Gierek perdeu a lideran\u00e7a do partido para Stanis\u0142aw Kania. O movimento oper\u00e1rio colocou a burocracia nas cordas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 17 de setembro, foi realizado o congresso de funda\u00e7\u00e3o do sindicato Solidariedade. No seu apogeu, a organiza\u00e7\u00e3o contava com mais de 10 milh\u00f5es de membros (aproximadamente 80% da for\u00e7a de trabalho total na Pol\u00f4nia), em um pa\u00eds com 35 milh\u00f5es de habitantes. Nos primeiros 500 dias que se seguiram ao acordo de Gdansk, o Solidariedade acolheu setores do movimento estudantil, de agricultores e artes\u00e3os. N\u00e3o foi apenas o primeiro sindicato independente nos Estados Ocupados, mas de longe o maior do mundo. Seu principal \u00f3rg\u00e3o de tomada de decis\u00e3o foi a Conven\u00e7\u00e3o de delegados que representou 38 regi\u00f5es e dois distritos. Foi aprovado um programa de reformas pol\u00edticas e sociais. No programa estava escrito: \u201cA hist\u00f3ria ensinou-nos que n\u00e3o h\u00e1 p\u00e3o sem liberdade\u201d. Lech Wa\u0142\u0119sa foi eleito para a Comiss\u00e3o Nacional, o \u00f3rg\u00e3o executivo. Em novembro, um tribunal de Vars\u00f3via legalizou o movimento Solidariedade. Em setembro de 1981, o primeiro Congresso do Solidariedade elegeu Wa\u0142\u0119sa como presidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Solidariedade se transformou em um movimento com presen\u00e7a nacional. Como consequ\u00eancia de que &nbsp;27 membros do Solidariedade de Bydgoszcz foram espancados em 19 de mar\u00e7o, o movimento respondeu com uma greve de quatro horas, envolvendo meio milh\u00e3o de pessoas, e paralisou o pa\u00eds em 27 de mar\u00e7o.<a href=\"#_ftn38\" name=\"_ftnref38\"><sup>[38]<\/sup><\/a>. O governo teve que abrir uma investiga\u00e7\u00e3o sobre os espancamentos. Greves estouraram por todos os lados durante meses. A classe oper\u00e1ria estava no auge.<\/p>\n\n\n\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o deste enorme processo de reorganiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria foi a sua lideran\u00e7a pol\u00edtica, a come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio Wa\u0142\u0119sa, agente da Igreja Cat\u00f3lica, institui\u00e7\u00e3o que esteve plenamente empenhada na constru\u00e7\u00e3o do Solidariedade. O bispo Henryk Jankowski, por exemplo, ficou lado a lado com Wa\u0142\u0119sa, que logo se tornou uma celebridade no mundo capitalista. Em 15 de janeiro de 1981, uma delega\u00e7\u00e3o do sindicato Solidariedade, liderada por Wa\u0142\u0119sa, se encontrou com o Papa Jo\u00e3o Paulo II em Roma. O apoio dos governos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher \u00e0 sua figura foi expl\u00edcito. Em 1982, a revista Time declarou Wa\u0142\u0119sa o \u201chomem do ano\u201d. Um ano depois, Wa\u0142\u0119sa recebeu o Pr\u00eamio Nobel da Paz. O sindicalista polon\u00eas dedicou o pr\u00eamio \u00e0 Virgem Maria Negra, na cidade de Cz\u0119stochowa, um dos mais importantes locais de peregrina\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica. O perfil pol\u00edtico do Solidariedade combinava, al\u00e9m do cunho cat\u00f3lico, elementos do nacionalismo polon\u00eas e do liberalismo ocidental. Tamb\u00e9m pregou o preceito da n\u00e3o viol\u00eancia aos seus membros<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o Solidariedade n\u00e3o era apenas um sindicato. Foi a dire\u00e7\u00e3o indiscut\u00edvel da classe oper\u00e1ria, a express\u00e3o genu\u00edna do ascenso revolucion\u00e1rio que, apesar de sua dire\u00e7\u00e3o conciliadora e pr\u00f3-imperialista, colocou o regime stalinista em xeque dentro e fora da Pol\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Moreno, o Solidariedade tinha tr\u00eas caracter\u00edsticas fundamentais: <em>\u201c<\/em>[\u2026] <em>formalmente \u00e9 um sindicato; \u00e9 a \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica que re\u00fane a totalidade das massas revolucion\u00e1rias; e ao mesmo tempo \u00e9 indiretamente liderado por um grande aparato contrarrevolucion\u00e1rio, a Igreja\u201d<\/em><a href=\"#_ftn39\" name=\"_ftnref39\"><sup>[39]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1981, de acordo com o fundador do LIT-QI, havia um duplo poder na Pol\u00f4nia:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cEm primeiro lugar, que o poder dual \u00e9 institucional e centralizado (o que representa um grande passo hist\u00f3rico) entre o governo do partido \u00fanico, da burocracia e o Solidariedade. Existem dois poderes na Pol\u00f3nia: um em crise, quase em ru\u00ednas, que \u00e9 o governo; a outra \u00e9 a das massas trabalhadoras, que se expressa no Solidariedade. Entre os dois surge uma institui\u00e7\u00e3o que sustenta o poder vacilante da burocracia: \u00e9 a Igreja, com Walesa na dire\u00e7\u00e3o do Solidariedade \u201d<\/em><a href=\"#_ftn40\" name=\"_ftnref40\"><sup>[40]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessa realidade, o trotskista argentino prop\u00f4s qual deveria ser o eixo de um programa revolucion\u00e1rio:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA chave para a pol\u00edtica trotskista em um processo revolucion\u00e1rio como o polon\u00eas \u00e9 mostrar abertamente \u00e0 classe oper\u00e1ria, aos camponeses, aos estudantes, aos trabalhadores urbanos que nenhum problema tem solu\u00e7\u00e3o fora de uma revolu\u00e7\u00e3o popular e oper\u00e1ria que derrube a burocracia governante. Esse \u00e9 o problema decisivo, ao qual nossas t\u00e1ticas est\u00e3o subordinadas. Embora n\u00e3o levantemos as consignas \u2018abaixo o governo agora&#8217; ou &#8216;vamos fazer a insurrei\u00e7\u00e3o agora&#8217;, devemos apontar com absoluta nitidez ao proletariado e \u00e0s massas que \u00e9 necess\u00e1rio dar passos concretos em sua pol\u00edtica, dire\u00e7\u00e3o , organiza\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o para levar a cabo uma insurrei\u00e7\u00e3o contra o aparato militar da burocracia. Consequentemente, o trotskismo deve apontar minuto a minuto, em sua agita\u00e7\u00e3o e propaganda, que o ponto nodal e decisivo do processo revolucion\u00e1rio \u00e9 o poder do Estado. E a resolu\u00e7\u00e3o deste problema passa pela prepara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e organizacional do movimento oper\u00e1rio e das massas para enfrentar e derrotar as for\u00e7as armadas da burocracia \u201d<\/em><a href=\"#_ftn41\" name=\"_ftnref41\"><sup>[41]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O crescimento do Solidariedade \u2013que parecia impar\u00e1vel\u2013, aliado a uma imensa crise econ\u00f4mica &#8211; agravada por uma gigantesca d\u00edvida externa com o imperialismo &#8211; e a constante press\u00e3o de Moscou para restaurar a ordem, fizeram com que o regime, embora aturdido, definisse o endurecimento da pol\u00edtica de supress\u00e3o do Solidariedade. Para fazer isso, em outubro de 1981, o primeiro secret\u00e1rio Kania foi substitu\u00eddo pelo general Jaruzelski, ent\u00e3o primeiro-ministro (e ministro da Defesa), um verdadeiro c\u00e3o de ca\u00e7a dos sovi\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 13 de dezembro de 1981, Jaruzelski decretou a lei marcial, um verdadeiro golpe reacion\u00e1rio. Patrulhas militares apareceram em todos os lugares. Cerca de 1.750 tanques e 1.400 ve\u00edculos blindados foram \u00e0s ruas. Wa\u0142\u0119sa e os principais l\u00edderes do Solidariedade, reunidos em Gdansk, foram presos. Estima-se que mais de 10.000 militantes do Solidariedade foram encarcerados em 52 pris\u00f5es, metade deles no meio da noite do golpe. Houve mais de cem greves e ocupa\u00e7\u00f5es de f\u00e1bricas e minas, mas todas foram derrotadas. Em 16 de dezembro de 1981, a pol\u00edcia matou nove mineiros e feriu 22 outros durante a repress\u00e3o da greve na mina Wujek em Katowice. O Solidariedade foi para a clandestinidade. No dia seguinte, em um protesto em Gdansk, a pol\u00edcia matou outro oper\u00e1rio e feriu dois. Em 14 de dezembro, a greve come\u00e7ou na mina de carv\u00e3o Piast, na Alta Sil\u00e9sia: cerca de 2.000 mineiros resistiram por 14 dias a mais de 650 metros no subsolo. Mas o golpe foi consolidado. Foi criado um Conselho Militar de Salva\u00e7\u00e3o Nacional que controlou o pa\u00eds at\u00e9 1983. Durante esse per\u00edodo, reinou o estado de s\u00edtio. Foram proibidas reuni\u00f5es, greves e todo tipo de protestos. A censura se intensificou. Abrigado no clima de terror, o regime aplicou uma s\u00e9rie de terr\u00edveis ataques ao padr\u00e3o de vida. Em 1\u00ba de fevereiro de 1982, o aumento de pre\u00e7os atingiu 257% em m\u00e9dia, mas alguns produtos subiram at\u00e9 400%. Em 8 de outubro de 1982, o sindicato Solidariedade foi formalmente declarado ilegal.<\/p>\n\n\n\n<p>O golpe n\u00e3o foi obra exclusiva de Jaruzelski. Mais tarde, descobriu-se que Moscou estava pressionando pelo fim do Solidariedade sob a amea\u00e7a de invadir o pa\u00eds ou orquestrar um golpe no pal\u00e1cio contra o pr\u00f3prio Jaruzelski. Na verdade, 20 divis\u00f5es de tanques russos estavam estacionadas na fronteira. Moreno escreveu:<\/p>\n\n\n\n<p><em>O golpe n\u00e3o foi obra exclusiva de Jaruzelski. Mais tarde, descobriu-se que Moscou estava pressionando pelo fim do Solidariedade sob a amea\u00e7a de invadir o pa\u00eds ou orquestrar um golpe no pal\u00e1cio contra o pr\u00f3prio Jaruzelski. Na verdade, 20 divis\u00f5es de tanques russos estavam estacionadas na fronteira.\u201d<\/em><a href=\"#_ftn42\" name=\"_ftnref42\"><sup>[42]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o sindicato se reorganizou e continuou operando clandestinamente, convocando greves em minas, estaleiros e no setor de transportes entre 1981 e 1988. Por meio de uma estrutura ilegal e de meios de comunica\u00e7\u00e3o como a r\u00e1dio Solidariedade, os ativistas conseguiram obter informa\u00e7\u00f5es e organizar a resist\u00eancia . No in\u00edcio de 1983, a organiza\u00e7\u00e3o tinha mais de 70.000 membros e, entre outras atividades, publicou mais de 500 jornais clandestinos chamados <em>bibu\u0142a<\/em>. Em 14 de novembro de 1982, Lech Wa\u0142\u0119sa foi libertado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 22 de julho de 1983, a lei marcial foi suspensa. Muitos membros presos do Solidariedade foram libertados e a anistia concedida. O regime foi derrotado.<\/p>\n\n\n\n<p>Na segunda metade da d\u00e9cada de 1980, a economia polonesa &#8211; e todo o bloco sovi\u00e9tico &#8211; estava em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es. As greves de 1988 na Pol\u00f4nia mostraram aos burocratas locais que, sem uma solu\u00e7\u00e3o para o problema do Solidariedade, a possibilidade de uma explos\u00e3o social era real. Ao mesmo tempo, o aparato estatal foi atravessado por s\u00e9rias disputas entre camarilhas. Na URSS, a Perestroika e a Glasnost estavam em andamento, no \u00e2mbito da decis\u00e3o do PCUS de restaurar o capitalismo. Nesse contexto, o regime negocia com o Solidariedade uma transi\u00e7\u00e3o para a democracia liberal.<\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro de 1989, come\u00e7aram as negocia\u00e7\u00f5es da chamada Mesa Redonda. Em abril foi decidido, entre outras coisas, devolver a legalidade ao Solidariedade &#8211; que logo obteve um milh\u00e3o e meio de membros -, a cria\u00e7\u00e3o da segunda c\u00e2mara do parlamento e do cargo de presidente da Rep\u00fablica da Pol\u00f4nia. Tamb\u00e9m foi acordado convocar elei\u00e7\u00f5es gerais livres, nas quais seriam eleitos 100 cadeiras no Senado e 35% das cadeiras na <em>Dieta<\/em>, a c\u00e2mara baixa do parlamento. Nessas elei\u00e7\u00f5es, realizadas em 4 de junho de 1989, os candidatos apoiados pelo Solidariedade conquistaram 99 das 100 cadeiras do Senado e todas as cadeiras disputadas para a C\u00e2mara dos Deputados. Em 12 de setembro de 1989, a nova <em>Dieta<\/em> elegeu Tadeusz Mazowiecki como chefe do primeiro governo n\u00e3o comunista da Pol\u00f4nia ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. Isso gerou um efeito domin\u00f3 em todo o bloco oriental. Nesse mesmo ano, o muro de Berlim caiu e as primeiras rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas ou sua esfera de influ\u00eancia declararam sua independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a Moscou. Na Pol\u00f4nia, o pr\u00f3prio Jaruzelski liderou as negocia\u00e7\u00f5es para a transi\u00e7\u00e3o \u201cpac\u00edfica\u201d para um regime democr\u00e1tico liberal. O PZPR havia perdido todo prest\u00edgio. No final de agosto de 1989, por meio do jogo parlamentar, surgiu um governo de coaliz\u00e3o liderado pelo Solidariedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 9 de dezembro de 1990, Wa\u0142\u0119sa triunfou nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais e tornou-se presidente da Pol\u00f4nia pelos pr\u00f3ximos cinco anos. Em 17 de setembro de 1993, o presidente Wa\u0142\u0119sa selou o acordo que ordenava a retirada dos soldados russos da Pol\u00f4nia, acampados l\u00e1 desde 1945.<\/p>\n\n\n\n<p>O gigantesco movimento oper\u00e1rio polon\u00eas de 1976-1989, embora heroico, n\u00e3o conseguiu consumar uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, em parte devido \u00e0 dura repress\u00e3o do regime, mas fundamentalmente devido \u00e0 trai\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria, agente do imperialismo e da Igreja Cat\u00f3lica, corporificado na figura de Wa\u0142\u0119sa. Ou seja, as condi\u00e7\u00f5es objetivas estavam mais do que maduras, o que faltava era o sujeito pol\u00edtico revolucion\u00e1rio. De acordo com Moreno:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cO fator que impediu esse triunfo e permitiu a vit\u00f3ria moment\u00e2nea da burocracia [em 1981] foi a crise da dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do proletariado, na aus\u00eancia da \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o capaz de super\u00e1-la: o partido trotskista. Essa quest\u00e3o vital tamb\u00e9m separa as tr\u00eas grandes correntes que se dizem trotskistas. O SU, principalmente o SWP dos Estados Unidos, capitulou diretamente \u00e0 lideran\u00e7a de Wa\u0142\u0119sa. Eles a ponderaram em todos os momentos, nunca denunciaram seu car\u00e1ter conscientemente contrarrevolucion\u00e1rio e se limitaram a apontar sua imaturidade. Era, para eles, uma lideran\u00e7a revolucion\u00e1ria imatura. O lambertismo, nos acompanhando, denunciou Wa\u0142\u0119sa em algumas ocasi\u00f5es, principalmente por seus la\u00e7os com a Igreja. Mas, com sua concep\u00e7\u00e3o de que o Solidariedade era apenas um sindicato e n\u00e3o a organiza\u00e7\u00e3o das massas revolucion\u00e1rias, n\u00e3o deu a essa den\u00fancia a import\u00e2ncia fundamental que ela tinha. Por essas duas vias, o lambertismo e o SU chegaram \u00e0 mesma pol\u00edtica: colocar em abstrato o problema da dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e do poder, o pior crime que pode ser cometido durante uma revolu\u00e7\u00e3o. A den\u00fancia das lideran\u00e7as contrarrevolucion\u00e1rias \u00e9 apenas um aspecto da pol\u00edtica para superar a crise de dire\u00e7\u00e3o; a outra, vital, \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o do partido revolucion\u00e1rio com influ\u00eancia de massas\u201d<\/em><a href=\"#_ftn43\" name=\"_ftnref43\"><sup>[43]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>Todos os processos de revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos antigos estados oper\u00e1rios foram derrotados. Este fato prolongou a exist\u00eancia da burocracia stalinista dominante e, infelizmente, acabou abrindo o caminho para a restaura\u00e7\u00e3o burguesa. No caso da ex-URSS, como j\u00e1 argumentamos, esse processo teve in\u00edcio em 1986.<\/p>\n\n\n\n<p>A explica\u00e7\u00e3o para a derrota envolve muitos elementos, mas foi basicamente devido a uma combina\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o brutal do aparato stalinista, o surgimento de dire\u00e7\u00f5es &#8211; opositoras, mas igualmente contrarrevolucion\u00e1rias &#8211; que fizeram de tudo para liquidar os processos de revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (Gomu\u0142ka, Nagy, Dub\u010dek, Wa\u0142\u0119sa) e, o mais importante, a aus\u00eancia de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Esse partido revolucion\u00e1rio, suficientemente enraizado na classe oper\u00e1ria e nos povos da Europa de Leste, que propusesse a derrubada das burocracias sem tocar nas bases socioecon\u00f4micas desses Estados, nas condi\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX, s\u00f3 poderia ter sido um partido trotskista de princ\u00edpios. Mas tal coisa n\u00e3o existia na ex-URSS ou em seus estados sat\u00e9lites, ou na China, Cuba, Vietn\u00e3 ou qualquer outro lugar onde a burguesia tivesse sido expropriada.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone size-full wp-image-65760\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"739\" height=\"416\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/23760-000_1br42w-739_416.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-65760\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/23760-000_1br42w-739_416.jpg 739w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/23760-000_1br42w-739_416-300x169.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/23760-000_1br42w-739_416-150x84.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/23760-000_1br42w-739_416-696x392.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 739px) 100vw, 739px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O balan\u00e7o hist\u00f3rico do stalinismo \u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo nos ex Estados oper\u00e1rios<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Seguindo uma esquematiza\u00e7\u00e3o de Nahuel Moreno, a realidade mostrou que as revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o avan\u00e7aram do primeiro momento, que ele chamou de &#8220;revolu\u00e7\u00e3o de fevereiro&#8221;, caracterizada por <em>\u201cum movimento oper\u00e1rio e popular pela conquista da democracia em geral, unindo todos os setores descontentes. Ser\u00e1 um movimento oper\u00e1rio e popular pela democracia: todos unidos contra o governo bonapartista e totalit\u00e1rio da burocracia. Por isso, surgir\u00e3o correntes pequeno-burguesas que ter\u00e3o pouca nitidez sobre se compete ou n\u00e3o a colaborar com o imperialismo em sua \u00e2nsia de derrubar a burocracia totalit\u00e1ria. O que caracterizar\u00e1 esta primeira revolu\u00e7\u00e3o antiburocr\u00e1tica de fevereiro \u00e9 que ela n\u00e3o ter\u00e1 um partido trotskista \u00e0 sua frente, pois n\u00e3o ter\u00e1 tido tempo de amadurecer e se formar.\u201d<\/em><a href=\"#_ftn44\" name=\"_ftnref44\"><sup>[44]<\/sup><\/a>. A restaura\u00e7\u00e3o ocorreu muito antes que o partido trotskista pudesse surgir e amadurecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, \u00e9 interessante ler o balan\u00e7o de Nahuel Moreno sobre as revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na Pol\u00f4nia e na Hungria:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA raz\u00e3o fundamental pela qual o poder dos oper\u00e1rios n\u00e3o prevaleceu na Pol\u00f4nia e na Hungria foi a falta de um partido revolucion\u00e1rio. A falta de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria privou o movimento de centraliza\u00e7\u00e3o, homogeneidade e objetivos precisos. Nesses pa\u00edses, a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica estava colocada, a luta n\u00e3o apenas contra a opress\u00e3o sovi\u00e9tica, mas tamb\u00e9m contra a burocracia nacional [referindo-se \u00e0 expectativa popular em Gomu\u0142ka e Nagy]\u201d<\/em><a href=\"#_ftn45\" name=\"_ftnref45\"><sup>[45]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o menos importante foi a conclus\u00e3o de que a realidade desses processos mostrava que os partidos stalinistas n\u00e3o podiam ser &#8220;reformados&#8221;, nem possu\u00edam um &#8220;car\u00e1ter duplo&#8221;, nem podiam ser &#8220;empurrados&#8221; para uma linha revolucion\u00e1ria, como propunha o pablismo-mandelismo. desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1950:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201c<\/em><em>Nem os partidos comunistas, nem suas organiza\u00e7\u00f5es de juventude &#8211; afirma Moreno &#8211; puderam ser \u2018remendados\u2019 ou transformados. Qualquer avan\u00e7o revolucion\u00e1rio teve que ser feito apesar deles, com destacamentos e rupturas em busca de outros canais. Tanto na Hungria quanto na Pol\u00f4nia [a partir de 1956], o partido revolucion\u00e1rio inclinou a surgir como uma possibilidade independente, como um novo agrupamento e n\u00e3o como a continua\u00e7\u00e3o dos partidos comunistas como um todo.\u201d<\/em><a href=\"#_ftn46\" name=\"_ftnref46\"><sup>[46]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O progn\u00f3stico de Trotsky, embora negativo, foi confirmado pela hist\u00f3ria. A burocracia n\u00e3o foi derrubada \u2013 ainda que n\u00e3o por falta de combatividade oper\u00e1ria e popular &#8211; e a restaura\u00e7\u00e3o capitalista se concretizou. A nova classe burguesa, intimamente ligada ao imperialismo, surgiu das entranhas da casta burocr\u00e1tica anterior e consolidou-se atrav\u00e9s da pilhagem do Estado. No entanto, alguns anos ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o, grandes mobiliza\u00e7\u00f5es populares conseguiram derrotar os regimes stalinistas, totalit\u00e1rios e de partido \u00fanico, tanto na Europa Oriental quanto na ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. O povo sovi\u00e9tico e os povos da Europa Oriental conquistaram liberdades democr\u00e1ticas importantes nesses pa\u00edses, vingaram-se dessas ditaduras sinistras, mas n\u00e3o conseguiram impedir a restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, em nossos dias, em todos esses pa\u00edses voltou a ser necess\u00e1ria uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, porque a classe oper\u00e1ria ter\u00e1 que tomar o poder pol\u00edtico e os meios de produ\u00e7\u00e3o, agora nas m\u00e3os da burguesia surgida das entranhas da Burocracia sovi\u00e9tica. Os partidos comunistas que ainda dirigem pa\u00edses, como China, Vietn\u00e3, Cor\u00e9ia do Norte e Cuba, na verdade dirigem Estados burgueses, que encorajam e defendem totalmente as rela\u00e7\u00f5es capitalistas de explora\u00e7\u00e3o. Esses partidos s\u00e3o comunistas apenas no nome, mas s\u00e3o capitalistas de fato. A revolu\u00e7\u00e3o socialista tamb\u00e9m ter\u00e1 que acertar contas com eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Notas:<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;TROTSKY, Le\u00f3n. <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda.<\/em> O que \u00e9 e para onde vai a R\u00fassia? Madrid: Fundaci\u00f3n Federico Engels, 2001, p. 212.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>&nbsp;MORENO, Nahuel.&nbsp; <em>Atualiza\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3o.<\/em> Teses XXIII. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/actual\/apt_3.htm#t23\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/actual\/apt_3.htm#t23<\/a>&gt;, consultado 17\/11\/2021. Destacado original.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>&nbsp;TROTSKY, Le\u00f3n. <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda<\/em>\u2026, p. 188.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>&nbsp;TROTSKY, Le\u00f3n. <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda<\/em>\u2026, p. 189. Destacado nosso.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>&nbsp;Idem.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>&nbsp;TROTSKY, Le\u00f3n. <em>Programa de <\/em><em>Transi\u00e7\u00e3o<\/em>. A agonia do capitalismo e as tarefas da IV Internacional. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/1938\/prog-trans.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/1938\/prog-trans.htm<\/a>&gt;, consultado 17\/11\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>&nbsp;O termo foi cunhado por Nikita Khrushchev em 1955. O XXII Congresso do PCUS (1961) aprovou o conceito como eixo da pol\u00edtica externa oficial. O dicion\u00e1rio de economia pol\u00edtica de Bor\u00edsov, Zhamin e Mak\u00e1rova definiu-o da seguinte forma: \u201cO fundamental na coexist\u00eancia pac\u00edfica de Estados com regimes sociais diversos \u00e9 a ren\u00fancia \u00e0 guerra como meio de resolu\u00e7\u00e3o de disputas internacionais e sua solu\u00e7\u00e3o por meios pac\u00edficos; direitos iguais entre os Estados, compreens\u00e3o m\u00fatua e confian\u00e7a entre si; levando em considera\u00e7\u00e3o os interesses de ambas as partes, a n\u00e3o inger\u00eancia nos assuntos internos, o estrito respeito pela soberania e integridade territorial de todos os Estados; o desenvolvimento da colabora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e cultural baseada na plena igualdade e vantagem m\u00fatua[\u2026]\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>&nbsp;Em 1949, entre 80 e 95% da produ\u00e7\u00e3o industrial desses pa\u00edses havia sido nacionalizada.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>&nbsp;Nesse contexto, em outubro de 1947 nasceu o Cominform, concebido como um instrumento de troca entre partidos comunistas europeus, e, em 1955, foi assinado o Pacto de Vars\u00f3via, uma alian\u00e7a militar do \u201cbloco sovi\u00e9tico\u201d para se opor \u00e0 OTAN, a coaliz\u00e3o militar criada em 1949 pelas pot\u00eancias imperialistas do Ocidente. A realidade mais tarde mostrou que o Pacto de Vars\u00f3via foi estruturado para manter a disciplina dos pa\u00edses membros, n\u00e3o para um confronto com o imperialismo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>&nbsp;Houveram outros estados oper\u00e1rios burocratizados de origens diversas, ou seja, surgidos de revolu\u00e7\u00f5es: China, Iugosl\u00e1via, Alb\u00e2nia, Vietn\u00e3 do Norte e Cor\u00e9ia do Norte, embora tamb\u00e9m fossem governados por burocracias.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>&nbsp;MORENO, Nahuel. <em>O marco hist\u00f3rico da revolu\u00e7\u00e3o h\u00fangara. Dispon\u00edvel em<\/em>: &lt;<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/1950s\/mhrh.htm#_Toc534111153\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/1950s\/mhrh.htm#_Toc534111153<\/a>&gt;, consultado 29\/11\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>&nbsp;<em>Tese da Funda\u00e7\u00e3o LIT-CI. Tese III. Dispon\u00edvel em<\/em>: &lt;<a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/14717003\/Tesis_de_fundaci%C3%B3n_de_la_LIT_CI?auto=download\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.academia.edu\/14717003\/Tesis_de_fundaci%C3%B3n_de_la_LIT_CI?auto=download<\/a>&gt;, consultado 30\/11\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>&nbsp;MORENO, Nahuel. <em>O marco hist\u00f3rico da revolu\u00e7\u00e3o h\u00fangara.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>&nbsp;A crise e a divis\u00e3o do aparato stalinista foram expressas, entre outros marcos, na cis\u00e3o Stalin-Tito em 1948 e na cis\u00e3o sino-sovi\u00e9tica no final dos anos 1950. Essas crises, bem como os conflitos entre a URSS e as camarilhas dirigentes nos Estados do glacis, decorrente de embates entre interesses nacionais, uma vez que cada burocracia nacional buscava maximizar seus privil\u00e9gios, decorrentes do controle de \u201cseus\u201d Estados oper\u00e1rios burocratizados.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\"><sup>[15]<\/sup><\/a>&nbsp;Sobre este tema, ver: TALPE, Jan. <em>Os estados oper\u00e1rios do glacis. Discuss\u00e3o sobre a Europa de Leste.<\/em> S\u00e3o Paulo: Editora Lorca, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\"><sup>[16]<\/sup><\/a>&nbsp;Partido Socialista Unificado da Alemanha, SED, em suas iniciais em alem\u00e3o. Ele nasceu em 22 de abril de 1946 como resultado da fus\u00e3o, promovida por Stalin e Walter Ulbricht, entre o KPD (Partido Comunista da Alemanha) e o setor oriental do SPD (Partido Social Democrata da Alemanha). Foi o partido no poder na RDA at\u00e9 1989.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\"><sup>[17]<\/sup><\/a>&nbsp;MANDEL, Ernest. <em>O levantamento oper\u00e1rio na Alemanha Oriental, junho de 1953. Dispon\u00edvel em<\/em>: &lt;<a href=\"https:\/\/vientosur.info\/el-levantamiento-obrero-en-alemania-oriental-junio-de-1953\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/vientosur.info\/el-levantamiento-obrero-en-alemania-oriental-junio-de-1953\/<\/a>&gt;, consultado em 30\/11\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>&nbsp;<em>Declara\u00e7\u00e3o. Os prolet\u00e1rios de Berlim se levantam. La V\u00e9rit\u00e9. \u00d3rg\u00e3o de defesa dos trabalhadores, n\u00ba 317, de 26 de junho a 9 de julho. Dispon\u00edvel em:<\/em> &lt;<a href=\"https:\/\/vientosur.info\/el-levantamiento-obrero-en-alemania-oriental-junio-de-1953\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/vientosur.info\/el-levantamiento-obrero-en-alemania-oriental-junio-de-1953\/<\/a>&gt;, consultado 30\/11\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\"><sup>[19]<\/sup><\/a>&nbsp;MORENO, Nahuel. <em>O marco hist\u00f3rico da revolu\u00e7\u00e3o h\u00fangara.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\"><sup>[20]<\/sup><\/a>&nbsp;MORENO, <em>Nahuel. Escritos sobre revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Dispon\u00edvel em<\/em>: &lt;<a href=\"http:\/\/www.nahuelmoreno.org\/escritos\/escritos-sobre-revolucion-politica-1958.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.nahuelmoreno.org\/escritos\/escritos-sobre-revolucion-politica-1958.pdf<\/a> &gt;, consultado 04\/12\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\"><sup>[21]<\/sup><\/a>&nbsp;Ver: &lt;<a href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20060409202246\/http:\/yale.edu\/lawweb\/avalon\/wwii\/hungary.htm#art12\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/web.archive.org\/web\/20060409202246\/http:\/\/yale.edu\/lawweb\/avalon\/wwii\/hungary.htm#art12<\/a>&gt;, consultado 30\/11\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\"><sup>[22]<\/sup><\/a>&nbsp;As demandas foram elaboradas por um setor de alunos do MEFESZ (Uni\u00e3o dos Estudantes da Universidade H\u00fangara e da Academia). O encontro aconteceu na Universidade Tecnol\u00f3gica da Constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\"><sup>[23]<\/sup><\/a>&nbsp;Ver: &lt;<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Demandas_de_los_revolucionarios_h%C3%BAngaros_de_1956\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Demandas_de_los_revolucionarios_h%C3%BAngaros_de_1956<\/a>&gt;, consultado 30\/11\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\"><sup>[24]<\/sup><\/a>&nbsp;FRYER, Peter; BROU\u00c9, Pierre; BALASZ, Nagy. H<em>ungria em 56: revolu\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias contra o stalinismo. Buenos Aires: Edi\u00e7\u00f5es do I.P.S., 2006, p. 106 <\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\"><sup>[25]<\/sup><\/a>&nbsp;MORENO, Nahuel. <em>O quadro hist\u00f3rico da revolu\u00e7\u00e3o h\u00fangara\u2026<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\"><sup>[26]<\/sup><\/a>&nbsp;Idem.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\"><sup>[27]<\/sup><\/a>&nbsp;NAVRAT\u00cdL Jaromir. <em>The Prague Spring, 1968<\/em>. A National Security Archive Document Reader (National Security Archive Cold War Readers). Central European University Press, 2006, pp. 52-54.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\"><sup>[28]<\/sup><\/a>&nbsp;COMECON, Conselho de Assist\u00eancia Econ\u00f4mica M\u00fatua. Fundada em 1949, era uma organiza\u00e7\u00e3o de coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica entre a URSS e seus estados sat\u00e9lites.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\"><sup>[29]<\/sup><\/a>&nbsp;Manifesto &#8220;Duas Mil Palavras\u201d: &lt;<a href=\"https:\/\/pasosalaizquierda.com\/dos-mil-palabras-dirigidas-a-los-obreros-a-los-campesinos-a-los-empleados-a-los-cientificos-a-los-artistas-a-todos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/pasosalaizquierda.com\/dos-mil-palabras-dirigidas-a-los-obreros-a-los-campesinos-a-los-empleados-a-los-cientificos-a-los-artistas-a-todos\/<\/a> &gt;, consultado 30\/11\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\"><sup>[30]<\/sup><\/a>&nbsp;Rom\u00eania, Iugosl\u00e1via e Alb\u00e2nia se recusaram a participar da invas\u00e3o. O comando sovi\u00e9tico n\u00e3o apelou \u00e0s tropas da RDA para evitar reviver as mem\u00f3rias da invas\u00e3o nazista de 1938, embora isso fosse inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\"><sup>[31]<\/sup><\/a>&nbsp;Ver: &lt;<a href=\"https:\/\/www.laizquierdadiario.com\/La-primavera-de-los-pueblos-comienza-en-Praga\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.laizquierdadiario.com\/La-primavera-de-los-pueblos-comienza-en-Praga<\/a>&gt;, consultado 30\/11\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\"><sup>[32]<\/sup><\/a>&nbsp;Ver: &lt;<a href=\"https:\/\/elpais.com\/diario\/1982\/03\/02\/internacional\/383871604_850215.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/elpais.com\/diario\/1982\/03\/02\/internacional\/383871604_850215.html<\/a>&gt;, consultado 04\/12\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref33\" name=\"_ftn33\"><sup>[33]<\/sup><\/a>&nbsp;Idem.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref34\" name=\"_ftn34\"><sup>[34]<\/sup><\/a>&nbsp;Entre 1971 e 1973, as importa\u00e7\u00f5es cresceram 19,3% ao ano, enquanto as exporta\u00e7\u00f5es apenas 10,8%.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref35\" name=\"_ftn35\"><sup>[35]<\/sup><\/a>&nbsp;Ver: &lt; <a href=\"https:\/\/elpais.com\/diario\/1981\/02\/17\/internacional\/351212403_850215.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/elpais.com\/diario\/1981\/02\/17\/internacional\/351212403_850215.html<\/a> &gt;, consultado 04\/12\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref36\" name=\"_ftn36\"><sup>[36]<\/sup><\/a>&nbsp;A d\u00edvida externa da Pol\u00f3nia e quem deve super\u00e1-la. <em>Revista de Com\u00e9rcio Exterior<\/em>, vol. 37, n\u00e3o. 8, M\u00e9xico, agosto de 1987, p. 682.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref37\" name=\"_ftn37\"><sup>[37]<\/sup><\/a>&nbsp;Ver: &lt; <a href=\"https:\/\/elpais.com\/diario\/1981\/02\/17\/internacional\/351212403_850215.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/elpais.com\/diario\/1981\/02\/17\/internacional\/351212403_850215.html<\/a> &gt;, consultado 04\/12\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref38\" name=\"_ftn38\"><sup>[38]<\/sup><\/a>&nbsp;Ver: &lt;<a href=\"http:\/\/isj.org.uk\/the-rise-of-solidarnosc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/isj.org.uk\/the-rise-of-solidarnosc\/<\/a>&gt;, consultado 30\/11\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref39\" name=\"_ftn39\"><sup>[39]<\/sup><\/a>&nbsp;MORENO, Nahuel. <em>Escritos sobre revoluci\u00f3n pol\u00edtica\u2026<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref40\" name=\"_ftn40\"><sup>[40]<\/sup><\/a>&nbsp;MORENO, Nahuel. <em>Sobre a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica polonesa<\/em>(1981\/1982). Buenos Aires: CEHUS, 2018, p. 2.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref41\" name=\"_ftn41\"><sup>[41]<\/sup><\/a>&nbsp;Idem, p. 10.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref42\" name=\"_ftn42\"><sup>[42]<\/sup><\/a>&nbsp;MORENO, Nahuel. <em>Sobre a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica polonesa<\/em>\u2026, p. 11.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref43\" name=\"_ftn43\"><sup>[43]<\/sup><\/a>&nbsp;MORENO, Nahuel. <em>Sobre a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica polonesa<\/em>\u2026, p. 21.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref44\" name=\"_ftn44\"><sup>[44]<\/sup><\/a>&nbsp;MORENO, Nahuel.&nbsp; <em>Atualiza\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3o. Tese XXIII<\/em>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref45\" name=\"_ftn45\"><sup>[45]<\/sup><\/a>&nbsp;MORENO, Nahuel. <em>O marco hist\u00f3rico da revolu\u00e7\u00e3o h\u00fangara\u2026<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref46\" name=\"_ftn46\"><sup>[46]<\/sup><\/a>&nbsp;\u00cddem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m analisou t\u00e3o profundamente quanto Leon Trotsky o car\u00e1ter do Estado sovi\u00e9tico ap\u00f3s o triunfo da contrarrevolu\u00e7\u00e3o stalinista. Em 1936, em meio ao auge econ\u00f4mico vivido pela URSS, quando os fatos pareciam confirmar a corre\u00e7\u00e3o das teorias e pol\u00edticas da casta burocr\u00e1tica, Trotsky publicou um livro intitulado A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda. 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