{"id":65682,"date":"2021-12-20T10:52:08","date_gmt":"2021-12-20T13:52:08","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65682"},"modified":"2021-12-20T10:52:08","modified_gmt":"2021-12-20T13:52:08","slug":"20-anos-depois-do-argentinazo-memorias-e-licoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/12\/20\/20-anos-depois-do-argentinazo-memorias-e-licoes\/","title":{"rendered":"20 anos depois do Argentinazo: mem\u00f3rias e li\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><em>Na d\u00e9cada de 1990, o Governo de Carlos Menem desenvolveu uma ofensiva neoliberal em nosso pa\u00eds. Assim que chegou ao poder, aliou-se a Alsogaray (uma mistura de Macri e Milei da \u00e9poca, agente de todas as ditaduras), privatizou as empresas nacionais, entregou nossa soberania ao capital estrangeiro, aprofundou a primariza\u00e7\u00e3o da economia (um modelo orientado para a produ\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas), generalizou a precariza\u00e7\u00e3o do emprego e a dispensa de centenas de milhares de trabalhadores do Estado. No final de seu governo, a mis\u00e9ria era impressionante, havia milh\u00f5es de desempregados.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: PSTU-Argentina<\/p>\n<p>As revoltas estouraram em todo o pa\u00eds (foi o in\u00edcio das organiza\u00e7\u00f5es sociais). Greves surgiam em todos os lugares. A Argentina era um vulc\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es de 1999, a <em>Alianza<\/em> De la R\u00faa venceu, uma esperan\u00e7a que n\u00e3o durou muito. Uma nova crise da d\u00edvida, a continuidade das privatiza\u00e7\u00f5es (por exemplo, a recusa em permitir que o Estado voltasse a retomar as Aerolinhas Argentinas), o aprofundamento do desemprego (mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o desempregada ou subempregada) tornaram a situa\u00e7\u00e3o insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os trabalhadores, que pela primeira vez em d\u00e9cadas haviam perdido todas as esperan\u00e7as no peronismo, n\u00e3o tinham sa\u00edda. Tratava-se de acabar com aquela situa\u00e7\u00e3o ou morrer de fome. V\u00e1rias greves gerais com bloqueios de estradas por movimentos sociais foram demolindo o governo.<\/p>\n<p>De la R\u00faa e Cavallo (ex-ministro de Menem, que a <em>Alianza<\/em> convocou como Ministro da Economia) decretaram o \u201c<em>corralito<\/em>\u201d, apropriando-se das poupan\u00e7as da classe m\u00e9dia, que foi \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o batendo panelas, e se organizou em assembleias de bairros. A rebeli\u00e3o tornou-se impar\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ao perder o controle, De la R\u00faa decretou o estado de s\u00edtio em 19 de dezembro. A resposta foi uma imensa mobiliza\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea que confrontou n\u00e3o s\u00f3 o Governo, mas tamb\u00e9m o Parlamento e a oposi\u00e7\u00e3o peronista, aos gritos de &#8220;<em>Fora Todos, que n\u00e3o fique nenhum&#8221;,<\/em> derrotando o Estado de S\u00edtio.<\/p>\n<p>No dia 20, centenas de milhares em Buenos Aires e em todo o pa\u00eds obrigaram De la R\u00faa a renunciar. Uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o derrubou pela primeira vez um governo eleito. Oper\u00e1ria e popular pela composi\u00e7\u00e3o social de quem a realizou e pelas tarefas que se prop\u00f4s. Anti-imperialista, pelo significado de suas reivindica\u00e7\u00f5es: as grandes empresas privatizadas e os bancos tiveram que soldar suas janelas ante o ataque de aposentados, oper\u00e1rios, mulheres, jovens.<\/p>\n<p>A ruptura com o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) foi um consigna comum nas assembleias. E foi violenta: de m\u00e3os vazias se enfrentou a pol\u00edcia e grupos armados que atiravam contra o movimento. Foram 35 mortos do povo, que ainda exigem vingan\u00e7a. Mas n\u00f3s os derrotamos.<\/p>\n<p>Cinco presidentes, o regime pol\u00edtico est\u00e1 em ru\u00ednas e n\u00e3o conseguia recuperar o controle. Acabou assumindo o peronista Eduardo Duhalde. Durante v\u00e1rios meses de 2002, mobiliza\u00e7\u00f5es permanentes mantiveram o novo Governo em suspenso.<\/p>\n<p>Em junho, Duhalde tentou fechar a crise com uma repress\u00e3o brutal. Naquele dia Kosteki e Santill\u00e1n morreram. A resposta r\u00e1pida obrigou Duhalde a recuar: os policiais assassinos foram presos (ainda que n\u00e3o os respons\u00e1veis pol\u00edticos como Duhalde ou os atuais funcion\u00e1rios Felipe Sol\u00e1 ou An\u00edbal Fern\u00e1ndez). E elei\u00e7\u00f5es foram convocadas para o in\u00edcio de 2003.<\/p>\n<p>Todos os partidos patronais, a burocracia sindical, at\u00e9 a grande maioria das organiza\u00e7\u00f5es protagonistas do Argentinazo, abandonaram as ruas e se voltaram para a campanha eleitoral. A maioria dos partidos de esquerda (os que hoje comp\u00f5em o FIT-U, o MAS etc.) fez o mesmo. Isso permitiu que o sistema capitalista argentino come\u00e7asse a emergir desta crise gigantesca.<\/p>\n<p>O Argentinazo foi uma grande li\u00e7\u00e3o para os trabalhadores e para o povo. O kirchnerismo pinta 2001 como uma grande desgra\u00e7a. Isso \u00e9 falso. A desgra\u00e7a foi a mis\u00e9ria, a entrega e o desemprego a que todos os governos patronais nos conduziram.<\/p>\n<p>O Argentinazo foi a resposta heroica, que evitou que milh\u00f5es morressem de fome. Foi como um novo 17 de outubro de 45, mas em vez de enfrentar um governo militar por tr\u00e1s de um dirigente patronal, enfrentou, sem dirigentes, um governo &#8220;democr\u00e1tico&#8221;.<\/p>\n<p><strong>O Argentinazo n\u00e3o cumpriu seus objetivos<\/strong><\/p>\n<p>Tiveram que tomar algumas medidas com base em reivindica\u00e7\u00f5es populares, como a Inadimpl\u00eancia (N\u00e3o Pagamento) da D\u00edvida, a massifica\u00e7\u00e3o de subs\u00eddios e aposentadorias, as leis de impunidade dos militares foram anuladas. Mas o sistema capitalista e seu regime pol\u00edtico foram salvos. Os objetivos que estavam na mente e no cora\u00e7\u00e3o dos mobilizados n\u00e3o foram alcan\u00e7ados.<\/p>\n<div id=\"attachment_65683\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65683\" class=\"wp-image-65683 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/ARGENTINAZO-1.jpg\" alt=\"\" width=\"610\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/ARGENTINAZO-1.jpg 610w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/ARGENTINAZO-1-300x207.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/ARGENTINAZO-1-150x103.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/ARGENTINAZO-1-218x150.jpg 218w\" sizes=\"auto, (max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><p id=\"caption-attachment-65683\" class=\"wp-caption-text\">Telam 20\/12\/04: Levante popular de 19 de dezembro de 2001, que levou \u00e0 queda do governo de Fernando de la R\u00faa. Foto: Arquivo Fernando Gens \/ Telam<\/p><\/div>\n<p>Faltou um partido revolucion\u00e1rio que organizasse toda aquela energia, estendesse em organismos e coordena\u00e7\u00e3o regionais e nacionais, tivesse uma pol\u00edtica para que a classe oper\u00e1ria superasse suas lideran\u00e7as sindicais burocr\u00e1ticas colocando-se \u00e0 frente de todo o povo, e desenvolvesse a autodefesa da classe oper\u00e1ria contra a repress\u00e3o, atrav\u00e9s de piquetes e mil\u00edcias, por tr\u00e1s de um projeto de poder da classe oper\u00e1ria. Ou seja, que conduzisse o processo para uma Revolu\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria e Socialista. Essa tarefa ainda est\u00e1 pendente.<\/p>\n<p><strong>Eles aprenderam &#8230; E n\u00f3s?<\/strong><\/p>\n<p>Os capitalistas souberam tirar li\u00e7\u00f5es. Aprenderam a cooptar as novas dire\u00e7\u00f5es sindicais, dos desempregados e de qualquer processo, como a &#8220;mar\u00e9 verde&#8221;, direitos humanos etc. Quando h\u00e1 crises, ampliar o clientelismo, subornando seus dirigentes com privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>Eles sabem que nunca devem for\u00e7ar a luta para resolver as diferen\u00e7as entre eles: pode sair do controle.<\/p>\n<p>A burocracia sindical trava todos os chamados para a\u00e7\u00f5es da classe. Durante o macrismo, eles convocaram uma \u00fanica greve geral, porque os trabalhadores arrancaram o \u201cdia do p\u00falpito\u201d.<\/p>\n<p>Impedem qualquer coordena\u00e7\u00e3o ou organiza\u00e7\u00e3o independente dos trabalhadores e do povo.<\/p>\n<p>Eles se infiltram nas organiza\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas mais do que nunca, aprofundam os mecanismos jur\u00eddicos de controle social (criminaliza\u00e7\u00e3o, Lei Antiterrorista, etc.), enquanto educam as for\u00e7as armadas e de seguran\u00e7a para novas formas de repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Usam mais do que nunca as igrejas, a m\u00eddia e todos os tipos de engano, para parar a luta.<\/p>\n<p>N\u00f3s tamb\u00e9m devemos aprender. Pela a\u00e7\u00e3o direta da nossa classe, sem confian\u00e7a no Parlamento, nem na Justi\u00e7a do regime.<\/p>\n<p>A classe oper\u00e1ria na vanguarda, com seus \u00f3rg\u00e3os democr\u00e1ticos, autodeterminados e independentes dos patr\u00f5es e dos burocratas. Preparar de cada f\u00e1brica, empresa ou bairro a defesa de nossas lutas contra a repress\u00e3o: devemos nos defender com todos os recursos necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Com um programa oper\u00e1rio e de independ\u00eancia do FMI, das multinacionais e do imperialismo.<\/p>\n<p>E, sobretudo a constru\u00e7\u00e3o de um grande partido oper\u00e1rio revolucion\u00e1rio, de combate e luta, parte de uma organiza\u00e7\u00e3o internacional para lutar de forma unificada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na d\u00e9cada de 1990, o Governo de Carlos Menem desenvolveu uma ofensiva neoliberal em nosso pa\u00eds. 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