{"id":65541,"date":"2022-01-19T09:00:40","date_gmt":"2022-01-19T12:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65541"},"modified":"2022-01-19T09:00:40","modified_gmt":"2022-01-19T12:00:40","slug":"o-que-sao-os-partidos-comunistas-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2022\/01\/19\/o-que-sao-os-partidos-comunistas-hoje\/","title":{"rendered":"O que s\u00e3o os Partidos Comunistas hoje?"},"content":{"rendered":"<p><em>Frente ao aumento do flagelo social e da destrui\u00e7\u00e3o do planeta causado pelo modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, a discuss\u00e3o sobre que alternativa \u00e9 poss\u00edvel a este sistema \u00e9 cada vez mais candente. A polariza\u00e7\u00e3o \u201ccomunismo vs capitalismo\u201d, que marcou o s\u00e9c. XX, se expressou no conflito entre EUA e URSS e generalizou uma ideia de que os Partidos Comunistas, que representam a pol\u00edtica do estalinismo pelo mundo, seriam a express\u00e3o do projeto comunista.<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por Joana Salay, de Portugal<\/p>\n<p>Passados 30 anos da dissolu\u00e7\u00e3o da URSS, interessa-nos discutir que legado trazem os atuais partidos comunistas que de alguma forma ainda persistem, e em pa\u00edses como Chile e Portugal ocupam lugar de destaque nas sa\u00eddas pol\u00edticas por dentro do sistema burgu\u00eas.<\/p>\n<h6><strong>Os PC\u00b4s atuais n\u00e3o s\u00e3o a continuidade da revolu\u00e7\u00e3o russa<\/strong><\/h6>\n<p>Queremos em primeiro lugar afirmar que o estalinismo \u00e9 o oposto do programa comunista. N\u00e3o iremos aqui desenvolver o processo de degenera\u00e7\u00e3o da URSS, apenas indicar que o estalinismo foi a express\u00e3o pol\u00edtica da burocracia no Partido Comunista e no Estado Sovi\u00e9tico.<\/p>\n<p>A derrota da revolu\u00e7\u00e3o chinesa em 1925-27 pelas m\u00e3os da pol\u00edtica traidora do aparato sovi\u00e9tico, j\u00e1 mostrava sinais de que o estalinismo que se fortalecia com a burocratiza\u00e7\u00e3o da URSS, se transformava num aparato mundial contrarrevolucion\u00e1rio.\u00a0 A chegada de Hitler ao poder na Alemanha em 1933, que Trotsky identificou como a\u00a0maior derrota hist\u00f3rica da classe oper\u00e1ria, ocorreu sem oposi\u00e7\u00e3o ativa do PC Alem\u00e3o e com a passividade do estalinismo. Era para Trotsky o esgotamento da III Internacional como alternativa pol\u00edtica e ficava n\u00edtido que o aparato estalinista n\u00e3o mantinha o legado da revolu\u00e7\u00e3o de outubro. A postura abertamente contrarrevolucion\u00e1ria das for\u00e7as sovi\u00e9ticas na Guerra Civil Espanhola, vaticinava a pol\u00edtica de Trotsky \u201ctodo nosso trabalho anterior deve tomar como ponto de partida a derrocada hist\u00f3rica da Internacional Comunista Oficial\u201d.<\/p>\n<p>No Programa de Transi\u00e7\u00e3o, em 1938, Trotsky descrevia o avan\u00e7o program\u00e1tico da corrente estalinista: \u201cA Internacional Comunista enveredou pelo caminho da social-democracia na \u00e9poca do capitalismo em decomposi\u00e7\u00e3o, quando n\u00e3o h\u00e1 mais lugar para reformas sociais sistem\u00e1ticas nem para a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de vida das massas, quando a burguesia retoma sempre com a m\u00e3o direita o dobro do que deu com a m\u00e3o esquerda, quando cada reivindica\u00e7\u00e3o s\u00e9ria do proletariado, e mesmo cada reivindica\u00e7\u00e3o progressista da pequena burguesia, conduzem inevitavelmente al\u00e9m dos limites da propriedade capitalista e do Estado burgu\u00eas.\u201d<\/p>\n<p>Para contradizer aqueles que viam no estalinismo a continuidade do bolchevismo, Trotsky questionava porque teve o estalinismo a necessidade de aniquilar fisicamente toda a velha guarda bolchevique para consolidar seu poder?\u00a0 O \u00faltimo bolchevique se apoiava nos milhares de revolucion\u00e1rios assassinados pela repress\u00e3o estalinista, que precisou cortar o fio de continuidade da revolu\u00e7\u00e3o de outubro.<\/p>\n<h6><strong>Mesmo ap\u00f3s Kruschev, um aparato estalinista ao servi\u00e7o da contrarrevolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h6>\n<p>\u201cO chamado per\u00edodo de \u201cdesestaliniza\u00e7\u00e3o\u201d, iniciado a partir do XX Congresso do PCUS, no qual Nikita Kruschev apresentou seu famoso informe secreto que denunciou os crimes de Stalin, n\u00e3o significou\u00a0uma rutura com a ess\u00eancia do estalinismo: a coexist\u00eancia pac\u00edfica com o imperialismo, o abandono da revolu\u00e7\u00e3o mundial, a nega\u00e7\u00e3o da democracia oper\u00e1ria, a pol\u00edtica internacional de colabora\u00e7\u00e3o de classes por meio das frentes populares e, a partir de tudo isso, as sistem\u00e1ticas trai\u00e7\u00f5es a todas as revolu\u00e7\u00f5es que amea\u00e7assem seus interesses e seus acordos com a burguesia e o imperialismo. Por isso, denominamos \u201cestalinistas\u201d os governos que sucederam Stalin, apesar de suas den\u00fancias contra Stalin.\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Em s\u00edntese a ess\u00eancia do estalinismo \u00e9 uma rutura com os principais pontos program\u00e1ticos que identificam o in\u00edcio da Internacional Comunista: o internacionalismo revolucion\u00e1rio, a luta pela destrui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas e pelo poder oper\u00e1rio como transi\u00e7\u00e3o ao socialismo.<\/p>\n<p>E por n\u00e3o ter havido uma rutura de conte\u00fado com o programa estalinista, \u00e9 que destas correntes oriundas do estalinismo, n\u00e3o surgiu qualquer oposi\u00e7\u00e3o ao processo de restaura\u00e7\u00e3o capitalista que foi ocorrendo na URSS, independentemente das cr\u00edticas que alguns possam ter feito \u00e0 falta de democracia interna. N\u00e3o houve uma oposi\u00e7\u00e3o categ\u00f3rica ao projeto de restaura\u00e7\u00e3o de Gorbachov, que ap\u00f3s se tornar secret\u00e1rio-geral do partido comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1985, come\u00e7ou a Perestroika e a Glasnot, introduzindo mudan\u00e7as na economia e nas rela\u00e7\u00f5es internacionais e aprofundando a restaura\u00e7\u00e3o. A previs\u00e3o de Trotsky se confirmou e a burocracia, convertida no \u00f3rg\u00e3o da burguesia mundial no Estado oper\u00e1rio, destruiu as novas formas de propriedade e voltou a colocar o pa\u00eds no capitalismo. Das variantes do estalinismo nenhuma se op\u00f4s ativamente a esse processo de destrui\u00e7\u00e3o das conquistas da revolu\u00e7\u00e3o russa. \u00a0O facto \u00e9 que na busca pela manuten\u00e7\u00e3o do seu aparato burocr\u00e1tico o estalinismo como aparato mundial, com anos de degenera\u00e7\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o de classes a par com a coexist\u00eancia pac\u00edfica, foi se adaptando e se transformando diretamente num programa burgu\u00eas, sem nunca deixarem de ser estalinistas.<\/p>\n<p>De distintas formas a socialdemocratiza\u00e7\u00e3o dos PCs, descrita por Trotsky, foi se demonstrando. \u201cA partir do final dos anos 1950, os PCs passaram a ser campe\u00f5es em apoiar governos burgueses supostamente progressistas em todos os continentes. Na It\u00e1lia, por exemplo, defenderam o \u201ccompromisso hist\u00f3rico\u201d entre o PC, o maior partido comunista do ocidente, com a Democracia Crist\u00e3, maior partido burgu\u00eas na It\u00e1lia.\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> E ainda que at\u00e9 a queda do muro o estalinismo tenha se mantido como um aparato mundial, ao longo dos anos foi gerando din\u00e2micas nacionais distintas que se desenvolviam paralelamente junto dos interesses abertos a partir da consolida\u00e7\u00e3o dos PCs e suas burocracias nos seus pr\u00f3prios pa\u00edses. E foi nesse processo que o estalinismo sofreu diferentes crises, expressas principalmente na China e Iuguslavia; Cuba; e no eurocomunismo.<\/p>\n<h6><strong>Eurocomunismo: \u201cde serventes do Kremlin \u00e0 serventes da sua burguesia imperialista\u201d<\/strong><\/h6>\n<p>Em julho de 1975 a capa do Jornal Mundo Obrero, peri\u00f3dico do PC Espanhol, era categ\u00f3rica: \u201cSocialismo na democracia. Os clich\u00e9s sect\u00e1rios isolam a vanguarda.\u201d No interior do jornal deixavam claro o conte\u00fado da mensagem \u201ca defesa da democracia, o caminho para o socialismo, a paz e a coopera\u00e7\u00e3o mundial passam pela alian\u00e7a dos comunistas com os socialistas, social-democratas, cat\u00f3licos e outras for\u00e7as do progresso.\u201d<\/p>\n<p>Cabe ressaltar que o momento era de grave instabilidade na Europa. A revolu\u00e7\u00e3o Portuguesa ainda n\u00e3o se tinha fechado, os regimes na It\u00e1lia e no Estado Espanhol tremiam, e o Partido Comunista Espanhol colocava como centro a defesa da democracia em alian\u00e7a com a social democracia.<\/p>\n<p>Naquele per\u00edodo a social democracia que havia se fortalecido na reconstru\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra e com o per\u00edodo de constru\u00e7\u00e3o do Estado de bem-estar social, estava sofrendo um forte desgaste. O ascenso de maio de 68 e a primavera de Praga, com a forte repress\u00e3o do ex\u00e9rcito vermelho, aumentavam o questionamento \u00e0 burocracia sovi\u00e9tica. O eurocomunismo por isso aparece numa diferencia\u00e7\u00e3o com o Kremlin, mas n\u00e3o no sentido de defender a derrota da burocracia sovi\u00e9tica e a defesa do estado oper\u00e1rio, mas sim na defesa de programas democr\u00e1ticos burgueses para os seus pa\u00edses.<\/p>\n<p>O eurocomunismo, longe de ter sido uma regenera\u00e7\u00e3o dos PCs, foi uma adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 burguesia imperialista nacional. Retiraram de vez a defesa da ditadura do proletariado do programa, uma vez que de conte\u00fado j\u00e1 n\u00e3o a defendiam h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o ascenso europeu da d\u00e9cada de 70, os PCs em Portugal, It\u00e1lia e Estado Espanhol foram decisivos para a reconstru\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es burguesas e da economia capitalista nos seus respetivos pa\u00edses. E foram parte das derrotas que foi sofrendo a classe trabalhadora europeia na d\u00e9cada de 80 e 90, com a perda de direitos, as privatiza\u00e7\u00f5es e a austeridade \u2013 a destrui\u00e7\u00e3o do estado de bem-estar social e a implementa\u00e7\u00e3o do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Uma nota importante \u00e9 que ainda que o PCP n\u00e3o tenha aderido ao Eurocomunismo, tendo se mantido como parte dos \u201ccomunistas ortodoxos\u201d at\u00e9 1991, a sua adapta\u00e7\u00e3o ao regime burgu\u00eas em Portugal acelerou rapidamente com a revolu\u00e7\u00e3o Portuguesa. Com a derrota da revolu\u00e7\u00e3o, para a qual o PCP foi fundamental, fizeram parte da estabiliza\u00e7\u00e3o do regime que permitiu a entrada do pa\u00eds na Uni\u00e3o Europeia, sendo a partir da sua localiza\u00e7\u00e3o no movimento oper\u00e1rio, um sustent\u00e1culo fundamental da estabilidade que a burguesia procurava.<\/p>\n<p>De alguma forma os partidos comunistas na Europa foram se adaptando ao regime e ao sistema e fazendo parte dos planos de ataques imperialistas \u00e0 classe trabalhadora no continente. O PCI adere \u00e0 concerta\u00e7\u00e3o social em 1978 e o PCP em 1984. Os PCs foram se adaptando e virando serventes \u00e0 sua pr\u00f3pria burguesia imperialista. Como burocracias, dependeram do Kremlin, num primeiro momento, e esta depend\u00eancia foi transitando para a manuten\u00e7\u00e3o do aparato que foram construindo nos seus pa\u00edses (parlamento, associa\u00e7\u00f5es, sindicatos).<\/p>\n<p>Com a queda do muro o aparato estalinista mundial que j\u00e1 vinha desgastado sofre o golpe final. Ocorre a debacle de v\u00e1rios PCs pelo mundo e de aparato mundial o estalinismo se transforma em diferentes burocracias nacionais, servindo ao mesmo: a estabilidade do regime burgu\u00eas atrav\u00e9s da concilia\u00e7\u00e3o de classes. Ap\u00f3s 1989 nenhum PC defende construir uma sociedade sem classes.<\/p>\n<div id=\"attachment_65543\" style=\"width: 1210px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65543\" class=\"wp-image-65543 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/2835.jpg\" alt=\"O que s\u00e3o os Partidos Comunistas \" width=\"1200\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/2835.jpg 1200w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/2835-300x180.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/2835-1024x614.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/2835-768x461.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/2835-150x90.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/2835-696x418.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/2835-1068x641.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><p id=\"caption-attachment-65543\" class=\"wp-caption-text\">Saudosos de Stalin e o stalinismo, na R\u00fassia<\/p><\/div>\n<p>Analisando o fen\u00f4meno do eurocomunismo e em pol\u00e9mica com Ernest Mandel, que via nesse processo um car\u00e1ter progressivo, Nahuel Moreno apontava para o risco de confundir o papel que os partidos poderiam cumprir nas lutas econ\u00f3micas com o papel pol\u00edtico que cumpriam. Afirmava que os PCs poderiam, dentro de um certo limite e a depender da situa\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio, serem pressionados a voltarem a cumprir um papel na luta econ\u00f3mica da classe trabalhadora, para poderem manter os seus aparatos sindicais. Assim foi por exemplo na It\u00e1lia, onde a Refunda\u00e7\u00e3o Comunista cumpriu um importante papel na reorganiza\u00e7\u00e3o sindical na d\u00e9cada de 90, sem romper com a vis\u00e3o pol\u00edtica de colabora\u00e7\u00e3o de classes do estalinismo. Por isso, nunca significaria uma mudan\u00e7a na ess\u00eancia pol\u00edtica do seu programa que serve \u00e0 domestica\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n<h6><strong>Parecem coveiros\u2026 e s\u00e3o!<\/strong><\/h6>\n<p>Como dissemos, as din\u00e2micas dos processos nacionais acabaram por se impor e por determinar os rumos dos distintos PCs pelo mundo. Na Am\u00e9rica Latina por exemplo, marcada por fortes processos revolucion\u00e1rios entre as d\u00e9cadas de 50 e 70, \u201cem nome da frente com a burguesia, os PCs apoiaram os governos ditos progressistas, como Joao Goulart no Brasil, em 1962-63, e a Unidade Popular de Allende no Chile, entre 1970-73. Em nome dessas alian\u00e7as, passaram a defender a legalidade e o Estado e chamaram a confiar nas for\u00e7as armadas, ditas patri\u00f3ticas. Com isso, desarmaram a resist\u00eancia aos golpes tanto no Brasil quanto no Chile.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Outras vertentes do estalinismo, como o mao\u00edsmo e o castrismo, foram surgindo. Por caminhos distintos estas burocracias adotaram a estrat\u00e9gia da guerrilha, levando inclusive \u00e0 rutura do PC Chin\u00eas com o Kremlin, que ganhou a ades\u00e3o de milhares de ativistas pelo mundo. No entanto, a pol\u00edtica internacional destas burocracias sempre foi de defesa de setores progressistas das burguesias nacionais.<\/p>\n<p>O caso de Cuba \u00e9 de destacar. Pelos ataques do imperialismo e pela for\u00e7a do pr\u00f3prio processo revolucion\u00e1rio cubano, a dire\u00e7\u00e3o cubana teve de avan\u00e7ar para a rutura com o capitalismo, diferente do que era o seu programa inicial. No entanto, em Cuba, os trabalhadores nunca puderam exercer o poder, tendo sido centralizado sempre nas m\u00e3os da burocracia castrista. Esta teve de se aproximar ao estalinismo e aderiu \u00e0 doutrina do socialismo num s\u00f3 pa\u00eds, cumprindo um papel regional de entrave \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. \u201cFidel Castro mostrou isso apoiando a alian\u00e7a de Allende com a burguesia no Chile e tamb\u00e9m quando disse aos sandinistas na revolu\u00e7\u00e3o da Nicar\u00e1gua, em 1979, que n\u00e3o se devia expropriar a burguesia, mas sim se aliar a ela. \u201cA Nicar\u00e1gua n\u00e3o deveria ser uma nova Cuba\u201d, disse.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Tendo tamb\u00e9m em Cuba passado pelas m\u00e3os da burocracia a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo e sendo hoje um regime de ditadura capitalista.<\/p>\n<h6><strong>Fio de continuidade com a contrarrevolu\u00e7\u00e3o <\/strong><\/h6>\n<p>Hoje, em meio a uma grave crise do capitalismo, aparecem setores estalinistas que adotam distintos perfis. Tendo sido ofuscados pelo crescimento do neoreformismo no mundo, como Podemos e Siryza, com a r\u00e1pida crise desses projetos, os estalinistas v\u00e3o tentando se relocalizar. No Chile, que viveu um processo revolucion\u00e1rio e a uma forte instabilidade no regime, o PC aparece como uma \u201calternativa\u201d perante parte da vanguarda que lutou para mudar os rumos do pa\u00eds. Adotaram uma nova forma, incorporando figuras p\u00fablicas jovens e tentando se colar a um sector da vanguarda \u201cfeminista\u201d. Uma vertente semelhante \u00e9 o reaparecer de grupos estalinistas no Brasil que come\u00e7am a adotar um perfil distinto, com jovens, atuando fora dos sindicatos e priorizando as redes sociais, ainda que defendendo claramente a estrat\u00e9gia do socialismo real e o programa estalinista. Por outro lado, o PC portugu\u00eas mant\u00e9m o seu monolitismo e controlo burocr\u00e1tico do movimento sindical, se recusando a aderir \u00e0s lutas democr\u00e1ticas como a luta contra o racismo ou a defesa da eutan\u00e1sia.<\/p>\n<p>No entanto, independente das diferentes formas com que assumem, de conte\u00fado todos os estalinistas no mundo mant\u00eam o m\u00e9todo de abandono do crit\u00e9rio de classe para analisar os processos pol\u00edticos e defendem um suposto campo progressivo, mesmo que isso signifique defender ditaduras ante o levantamento do povo, como come\u00e7a a ocorrer em Cuba e Angola. Est\u00e3o de m\u00e3os dadas com ditaduras capitalistas onde nunca se chegou a expropriar a burguesia como a de Assad na S\u00edria, Maduro na Venezuela, Ortega na Nicar\u00e1gua, Jos\u00e9 Louren\u00e7o em Angola. Mas tamb\u00e9m onde a restaura\u00e7\u00e3o capitalista foi feita com a burocracia no poder, como a de Xi JinPing na China e D\u00edaz-Canel em Cuba.<\/p>\n<p>E de uma forma ou de outra acabam por servir aos projetos de setores da burguesia em seus pa\u00edses. O PCP esteve 6 anos a sustentar um Governo do PS que manteve todos os requisitos de austeridade da Uni\u00e3o Europeia. No Chile o PC n\u00e3o s\u00f3 participou do governo neoliberal de Bachelet, como agora, depois da revolu\u00e7\u00e3o, prop\u00f5e um programa por dentro do regime e da institucionalidade burguesa.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> No Brasil o PCdoB comp\u00f4s todos os governos do PT, e agora sofre uma crise forte com a perda de dirigentes para partidos tradicionalmente burgueses como o PSB.<\/p>\n<p>O facto \u00e9 que ap\u00f3s 30 anos da dissolu\u00e7\u00e3o da URSS, depois de terem apoiado a restaura\u00e7\u00e3o, e tentado maquilhar o seu programa estalinista, estes partidos mant\u00e9m a ess\u00eancia program\u00e1tica que apontamos acima, sem sequer defender a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade sem classes. O legado que hoje carregam os PCs pelo mundo \u00e9 de um programa burgu\u00eas e de rutura com os ensinamentos da revolu\u00e7\u00e3o russa.<\/p>\n<p>Parecem coveiros\u2026 e s\u00e3o! Alertava Moreno perante a capitula\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria da IV Internacional ao processo do eurocomunismo. Hoje, ainda mais do que h\u00e1 50 anos, isso est\u00e1 totalmente n\u00edtido. N\u00e3o h\u00e1 qualquer exemplo nacional que permita mostrar o estalinismo como uma alternativa pol\u00edtica e revolucion\u00e1ria para a classe trabalhadora. Em cada pa\u00eds carregam as lutas para a concilia\u00e7\u00e3o, a concerta\u00e7\u00e3o e a domestica\u00e7\u00e3o da luta de classes. E muitas vezes mant\u00e9m o m\u00e9todo que marcou o legado estalinista, o burocratismo, as cal\u00fanias, o monolitismo, o contr\u00e1rio da defesa de uma democracia oper\u00e1ria. Tudo o oposto do que defendiam os revolucion\u00e1rios bolcheviques que dirigiram a primeira revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria da hist\u00f3ria.<\/p>\n<h6><strong>Reafirmar a luta pela ditadura do proletariado<\/strong><\/h6>\n<p>Come\u00e7amos esse artigo com a constata\u00e7\u00e3o de que o capitalismo n\u00e3o nos oferece alternativa. Destr\u00f3i o planeta, as pessoas, gera desigualdade, fome e crise social. A busca por uma alternativa a este sistema \u00e9 mais do que necess\u00e1ria e atual, \u00e9 urgente.<\/p>\n<p><em>\u201cOs falat\u00f3rios de toda esp\u00e9cie, segundo os quais as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas n\u00e3o estariam &#8220;maduras&#8221; para o socialismo, s\u00e3o apenas produto da ignor\u00e2ncia ou de um engano consciente. As premissas objetivas da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria n\u00e3o est\u00e3o somente maduras: elas come\u00e7am a apodrecer. Sem vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o socialista no pr\u00f3ximo per\u00edodo hist\u00f3rico, toda a civiliza\u00e7\u00e3o humana est\u00e1 amea\u00e7ada de ser conduzida a uma cat\u00e1strofe. Tudo depende do proletariado, ou seja, antes de mais nada, de sua vanguarda revolucion\u00e1ria. <strong>A crise hist\u00f3rica da humanidade reduz-se \u00e0 crise da dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/strong>\u201d <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><strong>[6]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>A hora \u00e9 de reafirmar o legado e os princ\u00edpios que permitiram a conquista de um estado oper\u00e1rio, apontar como estrat\u00e9gia a luta pela Ditadura do Proletariado, que nada tem a ver com as ditaduras capitalistas, como na China e em Cuba, que se utilizam do legado da revolu\u00e7\u00e3o para aplastar a classe trabalhadora e defender os interessas da burguesia.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso defender a ditadura do proletariado, onde quem dita \u00e9 a classe trabalhadora, que reprime a burguesia para construir uma sociedade sem explora\u00e7\u00e3o nem opress\u00e3o, uma sociedade social, ambiental e coletivamente sustent\u00e1vel \u2013 uma sociedade socialista. \u00c9 preciso defender a ditadura do proletariado que se constr\u00f3i em base aos princ\u00edpios revolucion\u00e1rios de mobiliza\u00e7\u00e3o permanente da classe trabalhadora, democracia oper\u00e1ria e internacionalismo revolucion\u00e1rio. Que retoma os princ\u00edpios dos revolucion\u00e1rios russos e o legado do trotskismo como oposi\u00e7\u00e3o ao estalinismo. Esses s\u00e3o os princ\u00edpios que, de distintas formas de pa\u00eds para pa\u00eds, n\u00f3s da Liga Internacional dos Trabalhadores defendemos.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/prologo-ao-livro-o-veredicto-da-historia-de-martin-hernandez\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/teoriaerevolucao.pstu.org.br\/prologo-ao-livro-o-veredicto-da-historia-de-martin-hernandez\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/o-surgimento-e-o-papel-do-reformismo-stalinista-e-social-democrata-antes-e-depois-da-segunda-guerra\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/o-surgimento-e-o-papel-do-reformismo-stalinista-e-social-democrata-antes-e-depois-da-segunda-guerra\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <a href=\"https:\/\/litci.org\/pt\/o-surgimento-e-o-papel-do-reformismo-stalinista-e-social-democrata-antes-e-depois-da-segunda-guerra\/\">https:\/\/litci.org\/pt\/o-surgimento-e-o-papel-do-reformismo-stalinista-e-social-democrata-antes-e-depois-da-segunda-guerra\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Idem<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.vozdelostrabajadores.cl\/sobre-el-resultado-de-las-primarias-y-la-continuidad-de-la-lucha-popular\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.vozdelostrabajadores.cl\/sobre-el-resultado-de-las-primarias-y-la-continuidad-de-la-lucha-popular<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Trotsky, Programa de Transi\u00e7\u00e3o, 1938<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frente ao aumento do flagelo social e da destrui\u00e7\u00e3o do planeta causado pelo modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, a discuss\u00e3o sobre que alternativa \u00e9 poss\u00edvel a este sistema \u00e9 cada vez mais candente. A polariza\u00e7\u00e3o \u201ccomunismo vs capitalismo\u201d, que marcou o s\u00e9c. 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