{"id":65519,"date":"2021-12-10T09:23:34","date_gmt":"2021-12-10T12:23:34","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65519"},"modified":"2021-12-10T09:23:34","modified_gmt":"2021-12-10T12:23:34","slug":"o-prognostico-de-trotsky-sobre-a-restauracao-capitalista-na-urss","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/12\/10\/o-prognostico-de-trotsky-sobre-a-restauracao-capitalista-na-urss\/","title":{"rendered":"O progn\u00f3stico de Trotsky sobre a restaura\u00e7\u00e3o capitalista na URSS"},"content":{"rendered":"<p><em>Quando em dezembro<\/em><em> de 1991 se <\/em><em>declarava a dissolu\u00e7\u00e3o da<\/em><em> URSS (<\/em><em>Uni\u00e3o das<\/em><em> Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas) <\/em><em>iniciou-se um<\/em><em> debate, que <\/em><em>continua atualmente<\/em><em>, sobre <\/em><em>as<\/em><em> causas <\/em><em>dessa dissolu\u00e7\u00e3o e o<\/em><em> significado hist\u00f3rico <\/em><em>e<\/em><em> pol\u00edtico <\/em><em>deste fato. <\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n<p>Houve quatro crit\u00e9rios para sua interpreta\u00e7\u00e3o. O mais difundido foi o que apresentaram o imperialismo e seus meios: tratava-se de um triunfo do capitalismo sobre o socialismo porque o capitalismo havia demonstrado ser um sistema econ\u00f4mico mais eficiente e, al\u00e9m disso, podia conceder a \u201cdemocracia\u201d (entendida como o mecanismo eleitoral burgu\u00eas). As massas dos \u201cpa\u00edses socialistas\u201d haviam compreendido esta superioridade e, por isso, derrubaram a URSS e restauraram o capitalismo, assim como em 1989 haviam derrubado o Muro de Berlin.<\/p>\n<p>Em numerosos artigos temos rebatido esta suposta superioridade do capitalismo e n\u00e3o vamos reiterar neste artigo esses debates. Por\u00e9m, basta ver a dur\u00edssima realidade mundial (aumento permanente dos n\u00edveis de pobreza, mis\u00e9ria e fome; destrui\u00e7\u00e3o da natureza; \u201cnormaliza\u00e7\u00e3o\u201d das pandemias&#8230;) para compreender o verdadeiro significado desse \u201ctriunfo\u201d.<\/p>\n<p>Por seu lado, o estalinismo (express\u00e3o pol\u00edtica da burocracia que governava a ex-URSS), que partia de uma avalia\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 do imperialismo sobre a realidade objetiva, acabava chegando \u00e0 mesma conclus\u00e3o: tanto a queda da URSS como a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo era, em \u00faltima inst\u00e2ncia, culpa das massas.<\/p>\n<p>Quando precisa explicar porque aconteceu isso, o estalinismo tem que apelar para uma l\u00f3gica bizarra. Porque diz que se bem o \u201csocialismo real\u201d tinha problemas, o processo ia avan\u00e7ando<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Por\u00e9m, as massas foram convencidas pela \u201cpropaganda imperialista\u201d e atuaram contra seus pr\u00f3prios interesses. Tal explica\u00e7\u00e3o antimarxista remete \u00e0 frase de uma can\u00e7\u00e3o de Silvio Rodr\u00edguez, que em outro contexto, diz <em>\u201cO inimigo nos apodreceu<\/em><em>\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Este racioc\u00ednio est\u00e1 destinado a ocultar o papel da burocracia estalinista da ex-URSS em todo o processo. Por um lado, o grande enfraquecimento do Estado oper\u00e1rio provocado por sua pol\u00edtica. Por outro, como a quest\u00e3o central, que foi a pr\u00f3pria burocracia estalinista a que restaurou o capitalismo.<\/p>\n<p><strong>A transi\u00e7\u00e3o ao<\/strong><strong> socialismo<\/strong><\/p>\n<p>Frente a esta explica\u00e7\u00e3o sim\u00e9trica do imperialismo e o estalinismo, n\u00f3s reivindicamos as an\u00e1lises, crit\u00e9rios, defini\u00e7\u00f5es e progn\u00f3sticos realizados pelo revolucion\u00e1rio russo Leon Trotsky na d\u00e9cada de 1930, em especial no seu livro <em>A revolu\u00e7\u00e3o tra\u00edda<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><em><strong>[2]<\/strong><\/em><\/a><em>. <\/em>Neste trabalho, Trotsky defende, como uma das alternativas do futuro da URSS, que a burocracia estalinista restauraria o capitalismo se n\u00e3o fosse expulsa do poder pela classe operaria. Este progn\u00f3stico foi realizado quase 60 anos antes do fim da URSS. Por isso, consideramos a \u00fanica an\u00e1lise marxista desse acontecimento, ou seja, uma an\u00e1lise cientifica e ajustada aos fatos da realidade.<\/p>\n<p>Marx havia previsto que a revolu\u00e7\u00e3o socialista come\u00e7aria pelos pa\u00edses capitalistas mais desenvolvidos da \u00e9poca e que, necessariamente, deveria se estender em n\u00edvel internacional. Porque uma sociedade socialista seria uma sociedade superior, do ponto de vista econ\u00f4mico e cultural, que a mais avan\u00e7ada das sociedades capitalistas. A partir dessa premissa, ele considerava que, depois de uma curta transi\u00e7\u00e3o de reordenamento da economia segundo as novas pautas de funcionamento, come\u00e7aria a fase socialista da sociedade que, depois do grande desenvolvimento que esta permitiria, se chegaria \u00e0 fase do comunismo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, uma combina\u00e7\u00e3o de circunstancias hist\u00f3ricas fez com que a primeira revolu\u00e7\u00e3o desse tipo, que se consolidou, acontecesse na R\u00fassia, um pa\u00eds relativamente atrasado. Isso representava uma realidade nova, n\u00e3o prevista por Marx: a exist\u00eancia de um per\u00edodo mais extenso de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo, em que, pelas limita\u00e7\u00f5es do desenvolvimento econ\u00f4mico nacional, os par\u00e2metros socialistas n\u00e3o podiam se aplicar de modo pleno e subsistiriam certos crit\u00e9rios capitalistas de distribui\u00e7\u00e3o desigual da riqueza produzida. A forma como se distribu\u00eda estava condicionada pelo quanto se produzia. Isso determinava que a perman\u00eancia do Estado Oper\u00e1rio e seu aparato superestrutural seriam necess\u00e1rios durante todo esse per\u00edodo e n\u00e3o podiam se extinguir gradualmente em suas fun\u00e7\u00f5es, como havia previsto Marx no contexto do avan\u00e7o rumo ao comunismo.<\/p>\n<p>Para Lenin e Trotsky, a \u00fanica resolu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para essa limita\u00e7\u00e3o, e para a profunda contradi\u00e7\u00e3o que ela representava, era a extens\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o em n\u00edvel internacional, aos pa\u00edses capitalistas mais avan\u00e7ados. Por isso, puseram seus maiores esfor\u00e7os na constru\u00e7\u00e3o da III Internacional. Nesses anos, os olhares estavam voltados especialmente em impulsionar a revolu\u00e7\u00e3o na Alemanha.<\/p>\n<p><strong>A degenera\u00e7\u00e3o do<\/strong><strong> Estado <\/strong><strong>oper\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Contudo, a revolu\u00e7\u00e3o foi derrotada na Alemanha e tamb\u00e9m em outros pa\u00edses da Europa, por raz\u00f5es que n\u00e3o desenvolveremos aqui. A jovem URSS ficou isolada e submetida a \u00a0condi\u00e7\u00f5es extremamente dif\u00edceis. Uma situa\u00e7\u00e3o na qual foi se consolidando uma burocracia dentro do Estado oper\u00e1rio que, finalmente, conseguiu o controle completo do aparato do Estado. N\u00e3o foi um processo pacifico, mas uma verdadeira contrarrevolu\u00e7\u00e3o que assassinou ou perseguiu a maioria dos dirigentes do partido Bolchevique e a milhares de quadros e militantes dos anos da revolu\u00e7\u00e3o de 1917. Trotsky e seus seguidores combateram arduamente esse processo de burocratiza\u00e7\u00e3o e, por isso, foram duramente perseguidos. Trotsky foi expulso do partido, condenado ao exilio, e por fim assassinado no M\u00e9xico, em 1940.<\/p>\n<p>Quando falamos de burocratiza\u00e7\u00e3o nos referimos a dois processos intimamente ligados. Por um lado, o surgimento de um setor privilegiado e parasita que tinha um n\u00edvel de vida muito superior ao do conjunto da classe trabalhadora e das massas da URSS. Por outro lado, que, para defender esses privil\u00e9gios, construiu um aparato de repress\u00e3o e controle pol\u00edtico sobre as massas.<\/p>\n<p>Mas o principal crime que cometeu a burocracia estalinista foi abandonar a luta pela revolu\u00e7\u00e3o internacional e se dirigir de modo crescente para a \u201ccoexist\u00eancia pacifica\u201d com o imperialismo, com a reacion\u00e1ria teoria de que era poss\u00edvel construir o \u201csocialismo em um s\u00f3 pa\u00eds\u201d. Baseado nessa concep\u00e7\u00e3o, o estalinismo traiu in\u00fameras revolu\u00e7\u00f5es na Europa e no mundo.<\/p>\n<p><strong>O progn\u00f3stico<\/strong><strong> alternativo <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 no marco do triunfo da burocracia estalinista que Trotsky escreve <em>A revolu\u00e7\u00e3o tra\u00edda<\/em> para analisar o que havia acontecido, definir em que havia se transformado a URSS, e quais eram suas perspectivas.<\/p>\n<p>A partir de uma an\u00e1lise muito profunda, conclui que a URSS ainda era um Estado oper\u00e1rio porque as bases econ\u00f4mico-sociais que havia constru\u00eddo a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro ainda existiam. Que a burocracia estalinista \u201c<em>a <\/em><em>sua maneira e com seus<\/em><em> m\u00e9todos\u201d <\/em>ainda as defendia. Essas bases, ainda que n\u00e3o permitisse superar o imperialismo (como pretendia o estalinismo) geraram um importante desenvolvimento econ\u00f4mico, de ritmos superiores aos do imperialismo que, depois da reconstru\u00e7\u00e3o posterior \u00e0 Segunda Guerra, fizeram com que chegasse a ser a segunda economia do mundo. Por isso, Trotsky come\u00e7a seu livro referindo-se a estes avan\u00e7os e conclui que a efic\u00e1cia da economia estatal centralmente planificada havia demonstrado sua validez n\u00e3o nos livros, mas em uma experi\u00eancia viva da realidade.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, depois dessa constata\u00e7\u00e3o, Trotsky n\u00e3o se enganava com o significado destas cifras que o estalinismo exibia orgulhosamente em defesa de sua teoria. Por um lado, ele era consciente da profunda superioridade produtiva que mantinha o imperialismo. Por outro, analisava as profundas contradi\u00e7\u00f5es e diferen\u00e7as sociais que existiam e cresciam no interior da URSS: em especial, os privil\u00e9gios da burocracia frente ao n\u00edvel de vida da classe oper\u00e1ria, mas tamb\u00e9m o surgimento de outros setores pequenos burgueses. Nesse contexto, considera que, se bem, a burocracia estalinista ainda defendia as bases econ\u00f4mico-sociais do Estado oper\u00e1rio, ao mesmo tempo, com seus m\u00e9todos e sua pol\u00edtica, as corro\u00eda de modo constante e as ia debilitando.<\/p>\n<div id=\"attachment_65520\" style=\"width: 1510px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65520\" class=\"size-full wp-image-65520\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Industria-URSS.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Industria-URSS.jpg 1500w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Industria-URSS-300x200.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Industria-URSS-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Industria-URSS-768x512.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Industria-URSS-150x100.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Industria-URSS-696x464.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Industria-URSS-1068x712.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><p id=\"caption-attachment-65520\" class=\"wp-caption-text\">DMITRII DEBABOV<\/p><\/div>\n<p>Para definir esta combina\u00e7\u00e3o altamente contradit\u00f3ria da subsist\u00eancia das bases econ\u00f4mico-sociais constru\u00eddas pela Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro com uma superestrutura estatal controlada pela burocracia estalinista, Trotsky se v\u00ea obrigado a criar uma nova categoria: a URSS de Stalin era um <strong>Estado <\/strong><strong>oper\u00e1rio<\/strong><strong> degenerado <\/strong>(ou doente).<\/p>\n<p>Ele considerava que essa combina\u00e7\u00e3o era altamente inst\u00e1vel e que seu destino (se avan\u00e7aria rumo ao socialismo ou retrocederia ao capitalismo) n\u00e3o estava definido de antem\u00e3o. A partir dessa base, Trotsky conclui afirmando um famoso progn\u00f3stico alternativo: ou a classe oper\u00e1ria derrubava a burocracia estalinista do poder (ou seja, realizava uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica) e reconstru\u00eda uma superestrutura estatal saud\u00e1vel, sem contradi\u00e7\u00f5es com as bases econ\u00f4mico-sociais deste Estado e <em>\u201cabria o caminho ao<\/em><em> socialismo\u201d, <\/em>ou a burocracia acabaria restaurando o capitalismo porque, para defender seus privil\u00e9gios, queria dar um car\u00e1ter permanente assegurado somente pelo \u201cdireito de propriedade privada\u201d.<\/p>\n<p>Foi um progn\u00f3stico genial que, lamentavelmente, se verificaria, d\u00e9cadas mais tarde, em sua variante mais negativa. Porque isso \u00e9 o que aconteceu na China sob a dire\u00e7\u00e3o de Deng Xiaoping, em 1978, com as \u201cQuatro Moderniza\u00e7\u00f5es\u201d; na URSS com a Perestroika de Mijail Gorbachov, em 1986; e em Cuba, com o Per\u00edodo Especial levado adiante pela dire\u00e7\u00e3o castrista, na d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p>A burocracia havia deixado de defender as bases econ\u00f4mico-sociais a que nos referimos e come\u00e7ava o processo de restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo. Segundo os pr\u00f3prios crit\u00e9rios assinalados por Trotsky nos materiais citados (<em>\u201c<\/em><em>o car\u00e1ter<\/em><em> de <\/em><em>classe<\/em><em> de <\/em><em>um<\/em><em> Estado se define <\/em><em>pelo<\/em><em> tipo de <\/em><em>propriedade<\/em><em> que <\/em><em>defende\u201d), <\/em>esses pa\u00edses haviam deixado de ser Estados oper\u00e1rios e tinham se transformado em Estados capitalistas, ainda que o regime pol\u00edtico controlado pelos PCs seguisse sendo o mesmo. Por isso dissemos que esta elabora\u00e7\u00e3o central de Trotsky passou na prova da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em resumo, n\u00e3o foi a a\u00e7\u00e3o das massas, mas a burocracia estalinista encabe\u00e7ada por Gorbachov (associada ao imperialismo) que iniciou a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo, em 1986.<\/p>\n<p>Isso significa que quando, anos depois, a superestrutura pol\u00edtica da URSS foi dissolvida, ela n\u00e3o era mais um Estado oper\u00e1rio, mas um Estado capitalista, embora tanto a explica\u00e7\u00e3o do imperialismo quanto a do stalinismo unifiquem o significado de ambos marcos do processo.<\/p>\n<p><strong>Um erro<\/strong><strong> de Trotsky<\/strong><\/p>\n<p>Por\u00e9m, junto com sua brilhante analise, para n\u00f3s Trotsky incorre em um erro de progn\u00f3stico quando afirma que para restaurar o capitalismo a burocracia estalinista deveria levar adiante necessariamente uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o contra as massas, porque estas sairiam para defender as bases econ\u00f4mico-sociais do Estado oper\u00e1rio e as conquistas que representavam. A realidade, evidentemente n\u00e3o foi assim.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, esse erro de progn\u00f3stico se deve a que Trotsky n\u00e3o tirou a conclus\u00e3o de que \u2013dado que a contrarrevolu\u00e7\u00e3o estalinista realizada entre a segunda metade da d\u00e9cada de 1920 e 1936 (ano em que escreveu <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda) <\/em>havia significado uma dura derrota para os trabalhadores e as massas sovi\u00e9ticas- a burocracia tinha a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as necess\u00e1ria para restaurar o capitalismo, se assim definisse.<\/p>\n<p>Desde esse ano (1936) at\u00e9 1986 se produziram diversos acontecimentos e processos, como a invas\u00e3o dos ex\u00e9rcitos da Alemanha nazi e outros pa\u00edses do Eixo, na Segunda Guerra Mundial (uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o que, se houvesse triunfado, teria destru\u00eddo a URSS), e a resposta heroica em defesa do Estado oper\u00e1rio por parte das tropas e as massas sovi\u00e9ticas, apesar de que toda a pol\u00edtica pr\u00e9via de Stalin levava a uma terr\u00edvel derrota. Depois houve um per\u00edodo de reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois da morte de Stalin (1953), com Nikita Kruschov, a burocracia amea\u00e7ou algumas mudan\u00e7as no regime pol\u00edtico, que logo ficaram no esquecimento. Com seu sucessor, Leonid Brezhnev, ficou n\u00edtido que a pol\u00edtica aplicada era o que alguns analistas definiram como \u201cimobilismo\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Imobilismo do qual, com a subida de Gorbachov, a burocracia sairia com a pol\u00edtica de restaurar o capitalismo.<\/p>\n<p>Em todo o processo, o aparato repressivo e de controle pol\u00edtico do movimento das massas criado pelo estalinismo se mantinha essencialmente intacto. Ao mesmo tempo, nas f\u00e1bricas e empresas se desenvolveram uma permanente negocia\u00e7\u00e3o entre os diretores e os trabalhadores para o cumprimento dos planos, por um lado, e a obten\u00e7\u00e3o de alguns benef\u00edcios adicionais se esses se cumprissem, por outro.<\/p>\n<p>Os trabalhadores e as massas compreendiam que as bases econ\u00f4mico-sociais se expressavam em determinadas conquistas que n\u00e3o existiam no capitalismo, como o direito a ter um trabalho ou os bons n\u00edveis de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablicas e gratuitas. Em troca, toleravam a falta de democracia e os privil\u00e9gios da burocracia, mais ainda depois da derrota dos processos de revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Leste Europeu (Berlin, 1963; Hungria, 1956; Tchecoslov\u00e1quia, 1968; Pol\u00f4nia na d\u00e9cada de 1970). Esta combina\u00e7\u00e3o \u00e9 o que v\u00e1rios autores denominaram o <em>homo sovieticus<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><em><strong>[4]<\/strong><\/em><\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p>Nesse marco, os trabalhadores consideravam com total justi\u00e7a, que o aparato estatal da burocracia lhes era alheio: um lugar \u201cl\u00e1 em cima\u201d onde se decidiam os planos e as diretrizes que depois eles veriam como refletiria em seu trabalho e em sua vida cotidiana. Estavam acostumados que, de tempos em tempos esses planos e diretivas sofriam reviravoltas. A seus olhos, a Perestroika de Gorbachov aparecia ent\u00e3o como mais uma dessas reviravoltas l\u00e1 de cima, sem perceber que se tratava de algo muito mais profundo: uma mudan\u00e7a do car\u00e1ter de classe do Estado e o in\u00edcio do processo de restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando compreenderam que essa mudan\u00e7a os prejudicava e que, ao mesmo tempo, o regime pol\u00edtico repressivo seguia intacto, sa\u00edram a lutar contra ele, em especial depois da queda do Muro de Berlim (1989). Esse processo de luta derrubou o regime pol\u00edtico constru\u00eddo pelo estalinismo, mas n\u00e3o pode reverter a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Nossa confus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O erro parcial no prognostico de Trotsky gerou uma confus\u00e3o nas organiza\u00e7\u00f5es trotskistas, a partir do final da d\u00e9cada de 1970: havia come\u00e7ado a se produzir mudan\u00e7as no car\u00e1ter de classe dos Estado chamados \u201csocialistas\u201d e processos de restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo que n\u00e3o se percebeu porque n\u00e3o estava acompanhado por uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o contra as massas por parte da burocracia.<\/p>\n<p>A LIT-QI tamb\u00e9m sofreu essa confus\u00e3o durante v\u00e1rios anos, inclusive em vida de seu fundador Nahuel Moreno. N\u00e3o compreendemos, por exemplo, o significado das <em>Quatro Moderniza\u00e7\u00f5es<\/em> aplicadas por Deng Xiao Ping na China, a partir de 1978, e a definimos como \u201c<em>Uma<\/em><em> NEP dirigida por <\/em><em>Bukarin<\/em><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><em><strong>[5]<\/strong><\/em><\/a><em>\u201d<\/em>. Esta interpreta\u00e7\u00e3o logo se estendeu tamb\u00e9m \u00e0 Perestroika de Gorbachov.<\/p>\n<p>Este erro nos levou a outra confus\u00e3o pol\u00edtica posterior. Quando se produziu as mobiliza\u00e7\u00f5es que derrubaram o Muro de Berlim e a rebeli\u00e3o da Pra\u00e7a Tiananmen (ambas em 1989), caracterizamos como o in\u00edcio das revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas contra os regimes burocr\u00e1ticos dos Estados Oper\u00e1rios (prevista por Trotsky) e n\u00e3o como o que realmente eram: uma luta contra as ditaduras capitalistas.<\/p>\n<p>Desde o final da d\u00e9cada de 1990, se realizaram diversas elabora\u00e7\u00f5es que superaram esta confus\u00e3o e nos permitiram compreender o que havia ocorrido e ajustar nossa posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ante a realidade atual de pa\u00edses como a R\u00fassia, a China e Cuba<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Mas, inclusive com a considera\u00e7\u00e3o desse erro parcial (e da confus\u00e3o que tivemos ao mant\u00ea-lo), reafirmamos que a elabora\u00e7\u00e3o e os progn\u00f3sticos de Trotsky na Revolu\u00e7\u00e3o Tra\u00edda \u00e9 a \u00fanica analise marxista, cient\u00edfica e ajustada aos fatos da realidade sobre o que aconteceu.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ver, por exemplo o document\u00e1rio \u201cLa ca\u00edda de la URSS: el mito del colapso econ\u00f3mico\u201d<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Sobre este livro, em especial o seu cap\u00edtulo IX (Que \u00e9 a URSS?), tomamos a vers\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.fundacionfedericoengels.net\/images\/PDF\/La%20revolucion%20traicionada.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.fundacionfedericoengels.net\/images\/PDF\/La%20revolucion%20traicionada.pdf<\/a>. \u00a0\u00c9 interessante tamb\u00e9m ler o artigo Um estado n\u00e3o oper\u00e1rio e n\u00e3o burgu\u00eas em https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/trotsky\/1937\/11\/25.htm<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ver, por exemplo, <em>La Din\u00e1mica del Inmovilismo. El Sistema Sovi\u00e9tico entre Crisis y Reforma<\/em>, de Peter W. Schulze, en https:\/\/static.nuso.org\/media\/articles\/downloads\/1331_1.pdf<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ver, entre outros materiais,\u00a0(1986).\u00a0<em>Homo sovieticus<\/em> de <a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Aleksandr_Zin%C3%B3viev\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aleksandr Zin\u00f3viev<\/a> (Ed. Grove\/Atlantic, 1986) y <em>El fin del Homo sovieticus<\/em> de <a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Svetlana_Aleksi%C3%A9vich\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Svetlana Aleksi\u00e9vich<\/a> (Ed. Acantilado, 2015).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> A NEP (sigla em russo para Nova Pol\u00edtica Econ\u00f4mica) foi aplicada na URSS, a partir de 1921, por proposta de L\u00eanin. Consistia na autoriza\u00e7\u00e3o de funcionamento de crit\u00e9rios capitalistas de propriedade no campo, no com\u00e9rcio e na pequena ind\u00fastria. A partir de 1923, se foram surgindo alas no partido bolchevique sobre sua aplica\u00e7\u00e3o. A esquerda, liderada por Trotsky, era favor\u00e1vel \u00e0 sua continuidade, mas alertava para os riscos profundos que isso implicava, especialmente o enriquecimento dos propriet\u00e1rios rurais (os kulaks). A direita, expressa por Nicolai Bukharin, ao contr\u00e1rio, era a favor de promov\u00ea-la com o slogan &#8220;kulaks enriquecei-vos&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ver, por exemplo o artigo \u201cChina, mito y realidad\u201d (2001) en <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/china-mito-y-realidad\/\">https:\/\/litci.org\/es\/china-mito-y-realidad\/<\/a>; o \u201cDebate com os dirigentes cubanos\u201d (2001) em https:\/\/litci.org\/pt\/debate-com-os-dirigentes-cubanos-no-forum-social-mundial\/ e o libro <em>O veredicto da Historia, <\/em>de Mart\u00edn Hern\u00e1ndez (Ed. Sundermann, Brasil, 2008).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando em dezembro de 1991 se declarava a dissolu\u00e7\u00e3o da URSS (Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas) iniciou-se um debate, que continua atualmente, sobre as causas dessa dissolu\u00e7\u00e3o e o significado hist\u00f3rico e pol\u00edtico deste fato.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":65632,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3072],"tags":[3113,3551,1382,3074],"class_list":["post-65519","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-especial-urss","tag-especial-urss","tag-restauracao-capitalista","tag-trotsky","tag-urss"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/150821101330_trotsky_624x351_getty.jpg","categories_names":["Especial URSS"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65519","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=65519"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65519\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/65632"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=65519"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=65519"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=65519"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}