{"id":65511,"date":"2021-12-10T08:39:32","date_gmt":"2021-12-10T11:39:32","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65511"},"modified":"2022-11-09T21:49:32","modified_gmt":"2022-11-09T21:49:32","slug":"as-revolucoes-do-leste-e-seu-lugar-na-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/12\/10\/as-revolucoes-do-leste-e-seu-lugar-na-historia\/","title":{"rendered":"As revolu\u00e7\u00f5es do Leste e seu lugar na hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><em>O final da d\u00e9cada de 1980 e o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 foram marcados em todo o mundo por enormes processos revolucion\u00e1rios no Leste Europeu. No decorrer de alguns anos, o mundo configurado no segundo p\u00f3s-guerra mudou. As fronteiras e \u00e1reas de influ\u00eancia acordadas pelas pot\u00eancias vitoriosas em Yalta e Potsdam, que pareciam imut\u00e1veis \u200b\u200bpor d\u00e9cadas, foram subvertidas pela a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas da ex-URSS e do Leste Europeu. A URSS foi dissolvida, a Alemanha foi unificada, pa\u00edses desapareceram e outros surgiram ou mudaram de nome e houve guerras na Europa novamente. A express\u00e3o ic\u00f4nica disso foram os milhares de alem\u00e3es literalmente demolindo com pancadas o ignominioso Muro de Berlim. Mas a importante mudan\u00e7a provocada pela interven\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas foi o colapso dos regimes stalinistas, especialmente o da ex-URSS.<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por Jorge Rangel<\/p>\n<p>Esses processos geraram enormes debates que ainda continuam. A natureza aluvial dos eventos, o n\u00famero de pa\u00edses que percorreram, a profundidade e complexidade das mudan\u00e7as produzidas em sua \u00e9poca produziram in\u00fameras interpreta\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m confus\u00f5es. O elemento que mais as alimentou foi, sem d\u00favida, o desaparecimento de todos os antigos estados oper\u00e1rios e a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo em todos eles.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o que temos na LIT \u00e9 que o movimento oper\u00e1rio e de massas da ex-URSS e dos pa\u00edses do Leste Europeu protagonizaram revolu\u00e7\u00f5es colossais. Mas essas revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram feitas contra os &#8220;regimes socialistas&#8221; ou ditaduras burocr\u00e1ticas dos Estados Oper\u00e1rios, mas contra as ditaduras capitalistas, uma vez que foi a pr\u00f3pria burocracia stalinista que restaurou o capitalismo. As massas se levantaram contra as terr\u00edveis consequ\u00eancias que o avan\u00e7o da restaura\u00e7\u00e3o trouxe, mas devido \u00e0 falta de uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria n\u00e3o puderam impedir esse avan\u00e7o ou revert\u00ea-lo. Acreditamos tamb\u00e9m que eles alcan\u00e7aram um enorme triunfo com a derrota dos sinistros regimes dos Partidos Comunistas, apesar da grande derrota que significou previamente o desaparecimento desses Estados oper\u00e1rios e suas conquistas para as massas do Leste e do mundo.<\/p>\n<p><strong>Foram revolu\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Ao se analisar os acontecimentos que levaram \u00e0 queda dos regimes totalit\u00e1rios, destaca-se o fato de que em muitos casos o que prevaleceu foram apenas grandes mobiliza\u00e7\u00f5es de massas desarmadas, sem enfrentamentos violentos de magnitude com as for\u00e7as repressivas ou grandes crises e divis\u00f5es na base das for\u00e7as. For\u00e7as armadas (exceto Rom\u00eania). Tamb\u00e9m n\u00e3o houve desenvolvimento de organismos centralizados de duplo poder (embora houvesse processos embrion\u00e1rios de auto-organiza\u00e7\u00e3o). Esses elementos podem levar a questionar a defini\u00e7\u00e3o que fazemos de que foram revolu\u00e7\u00f5es. Acreditamos, ao contr\u00e1rio, que a mobiliza\u00e7\u00e3o independente das massas e sua violenta irrup\u00e7\u00e3o gerando mudan\u00e7as abruptas na superestrutura pol\u00edtica foram caracter\u00edsticas comuns \u00e0 maioria desses processos. Nesse sentido, sustentamos que foram revolu\u00e7\u00f5es e que tanto L\u00eanin quanto Trotsky deixaram defini\u00e7\u00f5es do conceito de revolu\u00e7\u00e3o que s\u00e3o aplic\u00e1veis \u200b\u200bneste caso. (1)<\/p>\n<p><strong>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista na URSS<\/strong><\/p>\n<p>Como explicamos em outro artigo, a partir da posse de Gorbachev como Secret\u00e1rio Geral do PCUS em mar\u00e7o de 1985, o poder \u00e9 controlado pelo setor da burocracia que possui um programa abertamente restauracionista. O XXVII Congresso do PCUS, de fevereiro de 1986, votou a renova\u00e7\u00e3o do CC e do Politburo e o in\u00edcio da aplica\u00e7\u00e3o de reformas econ\u00f4micas que colocam o capitalismo em ascenso. Foi o que ficou conhecido como Perestroika (reconstru\u00e7\u00e3o). Para ganhar o apoio do movimento de massas, essas medidas foram acompanhadas por uma certa abertura democr\u00e1tica controlada.<\/p>\n<p>Clubes de debate foram autorizados, presos pol\u00edticos foram libertados, o cientista dissidente Sakharov p\u00f4de retornar ao pa\u00eds, v\u00e1rios candidatos do partido foram autorizados a se apresentarem no n\u00edvel dos sovietes locais, quase todos os dirigentes bolcheviques assassinados por Stalin (exceto Trotsky) foram reabilitados, a censura foi afrouxada, etc. Essas medidas eram conhecidas como Glasnot (concerta\u00e7\u00e3o) (2)<\/p>\n<p>Esta foi a resposta da burocracia \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o e crise crescente da URSS, que se agravou com a ocupa\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o pelas tropas sovi\u00e9ticas desde 1979. Isso exigiu um grande or\u00e7amento para uma guerra na qual eles apenas colheram derrotas e desmoraliza\u00e7\u00e3o das tropas. (3)<\/p>\n<p><strong>Irrompem contradi\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Longe de resolver a crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social, a aplica\u00e7\u00e3o da Perestroika a agravou. A introdu\u00e7\u00e3o de mecanismos de mercado na economia produziu uma situa\u00e7\u00e3o cada vez mais ca\u00f3tica. A habilita\u00e7\u00e3o de empresas privadas no setor de servi\u00e7os, a possibilidade de forma\u00e7\u00e3o de &#8220;cooperativas&#8221; com funcion\u00e1rios de empresas estatais (geralmente controladas pelos ex-dirigentes burocr\u00e1ticos), a possibilidade de comercializar livremente com as empresas imperialistas fez crescer a corrup\u00e7\u00e3o, a acumula\u00e7\u00e3o, as m\u00e1fias, a escassez e a infla\u00e7\u00e3o. A desigualdade social aumentou abruptamente, muitas f\u00e1bricas foram paralisadas por falta de insumos e n\u00e3o pagavam sal\u00e1rios, e os sal\u00e1rios j\u00e1 n\u00e3o davam mais para comprar nem mesmo o necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Este ataque brutal \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida foi combinado, no caso das rep\u00fablicas n\u00e3o russas da URSS, com o problema hist\u00f3rico da opress\u00e3o nacional pelos gran russos ao resto das nacionalidades. Por esta raz\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 incomum que o processo de mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria tenha come\u00e7ado em dezembro de 1986 em Alma Ata, capital do Cazaquist\u00e3o, com uma revolta popular ap\u00f3s a nomea\u00e7\u00e3o de um russo para o cargo de Primeiro Secret\u00e1rio do PC.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, o processo revolucion\u00e1rio combinar\u00e1 as lutas contra a opress\u00e3o nacional e em alguns casos pela independ\u00eancia, a demanda por liberdades democr\u00e1ticas e as greves oper\u00e1rias que rapidamente adquirem car\u00e1ter pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Nacionalidades oprimidas se levantam<\/strong><\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Russa herdou do czarismo uma &#8220;pris\u00e3o de nacionalidades&#8221; que foi incorporada ao imp\u00e9rio pela for\u00e7a e dominada pelos russos. A defesa incondicional do direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o nacional para todas as nacionalidades oprimidas por Lenin e o governo bolchevique, permitiu a incorpora\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria \u00e0 nascente URSS de quase todos elas, com exce\u00e7\u00e3o da Finl\u00e2ndia, Pol\u00f4nia, Est\u00f4nia, Let\u00f4nia e Litu\u00e2nia que decidiram n\u00e3o se integrar. A &#8220;Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos dos Povos da R\u00fassia&#8221;, aprovada pelo Congresso dos Soviets em 1917, inclu\u00eda expressamente o direito \u00e0 separa\u00e7\u00e3o se seus povos assim o decidissem. Mas esse enorme avan\u00e7o que permitiu \u00e0 classe trabalhadora e aos camponeses das diferentes na\u00e7\u00f5es come\u00e7arem a se unir fraternalmente, superando s\u00e9culos de ressentimento, preconceito e opress\u00e3o, foi revertido com o triunfo do stalinismo. Stalin, como parte de seu regime contrarrevolucion\u00e1rio, tamb\u00e9m refor\u00e7ou novamente a opress\u00e3o das na\u00e7\u00f5es mais fracas. E ainda agravou a situa\u00e7\u00e3o, anexando a Est\u00f4nia, Let\u00f4nia e Litu\u00e2nia e parte da Pol\u00f4nia como parte do pacto Molotov-Ribbentrop (1939).<\/p>\n<p>S\u00f3 para medir a import\u00e2ncia do problema, lembremos que em 1986 a URSS era composta por 15 rep\u00fablicas, 8 regi\u00f5es e 10 comarcas aut\u00f4nomas, eram faladas 130 l\u00ednguas e se escrevia em 5 alfabetos diferentes.<\/p>\n<p>Por isso, quando se rompeu a burocracia que comprimia os conflitos de d\u00e9cadas e se abriram alguns canais democr\u00e1ticos, a mobiliza\u00e7\u00e3o das nacionalidades oprimidas foi incontrol\u00e1vel. Ap\u00f3s a revolta do Cazaquist\u00e3o, o processo continuou em 1987 com a reivindica\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o de Nagorno Karavaj (de maioria arm\u00eania, mas localizada no Azerbaij\u00e3o) de ser incorporada \u00e0 Arm\u00eania e que foi acompanhada meses depois por uma greve geral em ambos os territ\u00f3rios. A Litu\u00e2nia declara sua independ\u00eancia em 1990 e, ap\u00f3s v\u00e1rias negocia\u00e7\u00f5es, Gorbachev finalmente envia tropas para Vilna, sua capital, causando 19 mortes, e depois faz o mesmo com Riga, capital da Let\u00f4nia. Tamb\u00e9m tenta um bloqueio econ\u00f4mico contra a Litu\u00e2nia, que \u00e9 derrotado pela solidariedade dos mineiros e outros setores do movimento oper\u00e1rio russo que re\u00fanem toneladas de mercadorias em apoio \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o dos lituanos. Tamb\u00e9m reprime as mobiliza\u00e7\u00f5es na Ge\u00f3rgia e no Azerbaij\u00e3o com dezenas de mortos, mas a demanda por independ\u00eancia cresce (tamb\u00e9m incentivada por setores da pr\u00f3pria burocracia das rep\u00fablicas que buscavam salvar seu poder). Em 1988, a Est\u00f4nia havia feito uma declara\u00e7\u00e3o de soberania da rep\u00fablica sobre todos os recursos e propriedades de seu territ\u00f3rio, colocando suas leis acima das da Uni\u00e3o. Esta declara\u00e7\u00e3o foi disseminada pela maioria das rep\u00fablicas, incluindo a R\u00fassia. J\u00e1 em agosto de 1991, Est\u00f4nia, Let\u00f4nia, Litu\u00e2nia, Ucr\u00e2nia e Ge\u00f3rgia haviam declarado sua independ\u00eancia e a maioria das rep\u00fablicas haviam assinado acordos entre si, por fora da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p><strong>Um gigante acordou<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender como foi poss\u00edvel o colapso desse formid\u00e1vel e tem\u00edvel regime contrarrevolucion\u00e1rio que foi o stalinismo, sem colocar em cena um protagonista central: o proletariado sovi\u00e9tico. Dentro disso, um lugar de honra corresponde aos mineiros que com suas greves hist\u00f3ricas colocaram Gorbachev na parede.<\/p>\n<p>1989 come\u00e7ou com uma gigantesca mobiliza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria em Minsk (Bielor\u00fassia) em fevereiro com reivindica\u00e7\u00f5es diretamente pol\u00edticas, sintetizadas em um cartaz que dizia &#8220;F\u00e1bricas para os oper\u00e1rios, terra para os camponeses e poder para o povo&#8221;. Em julho foi a vez dos mineiros de Kuzbass (Sib\u00e9ria) que se op\u00f5em ao aumento das taxas de produ\u00e7\u00e3o que ocasionaram acidentes de trabalho e exigem o abastecimento das necessidades b\u00e1sicas (comida, sab\u00e3o, etc.) e um reajuste salarial para jornada noturna, hora extra, etc. Eles formam um comit\u00ea de greve, se organizam a partir de assembleias massivas e imp\u00f5em seu controle sobre a cidade proibindo a venda de bebidas alco\u00f3licas, garantindo o abastecimento e requisitando as casas dos burocratas onde aparecem muitas das mercadorias que faltavam. A greve e sua metodologia revolucion\u00e1ria se espalharam como um inc\u00eandio nas \u00e1reas de minera\u00e7\u00e3o. As minas de Donbass e Dnipropetrovsk (Ucr\u00e2nia), Vorkuta (extremo norte da R\u00fassia) e Karaganda (Cazaquist\u00e3o) se somam rapidamente. Em Vorkuta e no Kuzbass, as reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas s\u00e3o incorporadas \u00e0s demandas econ\u00f4micas: o direito \u00e0 greve, a transfer\u00eancia do poder aos sovietes locais, a anula\u00e7\u00e3o do artigo 6 da Constitui\u00e7\u00e3o (que institu\u00eda o monop\u00f3lio do poder pelo PC), a elei\u00e7\u00e3o direta e secreta ao Soviete Supremo da URSS e aos sovietes locais. A greve \u00e9 \u200b\u200bsuspensa ap\u00f3s o embarque de remessas urgentes de sab\u00e3o e alimentos e promessas de melhorias nos suprimentos, servi\u00e7os m\u00e9dicos, aposentadorias e participa\u00e7\u00e3o na administra\u00e7\u00e3o das minas.<\/p>\n<p>O descumprimento de v\u00e1rias dessas promessas desencadear\u00e1 novas greves na minera\u00e7\u00e3o em julho de 1990 e, no final de outubro do mesmo ano, os mineiros dar\u00e3o mais um passo importante. Em um congresso da minera\u00e7\u00e3o com representantes de 678 minas, eles fundaram o primeiro sindicato independente e votaram pela rejei\u00e7\u00e3o do \u201cplano de 500 dias\u201d para acelerar a privatiza\u00e7\u00e3o. A nova greve dos mineiros convocada por este em mar\u00e7o de 1991 j\u00e1 exige, juntamente com o aumento salarial, a ren\u00fancia de Gorbachev, a dissolu\u00e7\u00e3o do Soviete Supremo da URSS e a convoca\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es. Pedem solidariedade em Moscou e ganham o apoio da popula\u00e7\u00e3o que colabora com toneladas de alimentos. O comit\u00ea coordenador da greve convoca uma greve geral pela remo\u00e7\u00e3o de Gorbachev e envia delega\u00e7\u00f5es aos principais centros industriais. Trabalhadores do complexo sider\u00fargico Ulramash nos Urais aderem \u00e0 greve. No final de mar\u00e7o, 165 minas na URSS ainda estavam paralisadas. Em 3 de abril, a f\u00e1brica eletromec\u00e2nica Kozlov em Minsk entra em greve. Em poucos dias, entram em greve e se mobilizam f\u00e1bricas em toda a Bielor\u00fassia e votam em uma assembleia de massas um comit\u00ea de greve da rep\u00fablica que convoca uma greve geral para assumir o programa dos mineiros. As greves se espalharam como um vendaval em abril por Leningrado, Sverdlosk, Baku (Azerbaij\u00e3o), Ucr\u00e2nia e no final do m\u00eas 50 milh\u00f5es param na R\u00fassia ante a convoca\u00e7\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o Russa de Sindicatos Independentes (ruptura dos sindicatos oficiais).<\/p>\n<p>No final de abril, as greves terminam com a concess\u00e3o de reivindica\u00e7\u00f5es salariais e os mineiros suspendem em 5 de maio com a promessa de que suas reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas ser\u00e3o resolvidas com a transfer\u00eancia das minas para as m\u00e3os da rec\u00e9m-formada Federa\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n<p><strong>Golpe e triunfo da revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Em meados de agosto de 1991, Gorbachev havia perdido toda a base social e seu poder, pois o outrora poderoso Secret\u00e1rio-Geral do PCUS havia sido completamente liquefeito. Em cinco anos, seu plano de auto-reforma gradual e controlada do regime para controlar a rea\u00e7\u00e3o do movimento de massas frente ao avan\u00e7o das reformas capitalistas havia ido pelos ares. A luta conjunta dos povos das nacionalidades oprimidas, do movimento oper\u00e1rio e da juventude contra as consequ\u00eancias da restaura\u00e7\u00e3o capitalista e pelas liberdades democr\u00e1ticas, forma quebrando o aparelho do PCUS. E abrindo fissuras cada vez mais profundas no conjunto da burocracia que produziu o enfraquecimento do aparelho central, \u00e0 medida que as dire\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias de cada rep\u00fablica assumiam o controle das propriedades e das decis\u00f5es pol\u00edticas em seus territ\u00f3rios. Ao mesmo tempo, houve a ruptura de setores da burocracia com o PC, formando organiza\u00e7\u00f5es nacionalistas ou de oposi\u00e7\u00e3o como R\u00fassia Democr\u00e1tica. (4)<\/p>\n<p>Gorbachev havia promovido em 1988 a forma\u00e7\u00e3o de um parlamento (Congresso dos Deputados do Povo) cujos membros foram eleitos pela primeira vez por sufr\u00e1gio universal e secreto. Os candidatos tamb\u00e9m podem se apresentar por fora do PC. Mas no Congresso uma fac\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a emergir, chefiada pelo chefe em ascens\u00e3o do PC de Moscou, Boris Yeltsin (5). Ele se torna popular atacando Gorbachev, os privil\u00e9gios dos altos funcion\u00e1rios do partido, exigindo a redu\u00e7\u00e3o do aparato e a elimina\u00e7\u00e3o do artigo 6. Depois de v\u00e1rias mobiliza\u00e7\u00f5es de centenas de milhares, o Congresso vota em mar\u00e7o de 1990 pela revoga\u00e7\u00e3o do artigo, mas Gorbachev consegue ser votado como presidente pelo Congresso com amplos poderes. Assim, ele buscou se fortalecer como \u00e1rbitro bonapartista, apoiando-se em seu dom\u00ednio das for\u00e7as armadas e da KGB para controlar o processo. Mas j\u00e1 era tarde, a crise se aprofunda em julho no XXVIII e \u00faltimo congresso do PCUS. Inclui tamb\u00e9m o Komsomol (6) e os sindicatos. Yeltsin e a R\u00fassia democr\u00e1tica rompem com o PC e em dezembro tamb\u00e9m come\u00e7a a ruptura da \u201cEquipe da Perestroika\u201d (7) com Gorbachev.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Yeltsin vai se fortalecendo como l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, convocando mobiliza\u00e7\u00f5es para a destitui\u00e7\u00e3o de Gorbachev, apoiando a greve dos mineiros, ganhando setores do PC russo que rompem e finalmente sendo eleito presidente da Federa\u00e7\u00e3o Russa em junho de 1991 com 57% dos votos.<\/p>\n<p>Em meados de agosto de 1991, a crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica foi total e a URSS estava \u00e0 beira da desintegra\u00e7\u00e3o. A \u00fanica institui\u00e7\u00e3o que mantinha a unidade do pa\u00eds era o PCUS, j\u00e1 em crise total. Ap\u00f3s um plebiscito popular (8), o dia 20 de agosto havia sido definido como a data para a assinatura de um novo Acordo da Uni\u00e3o. Mas um setor do aparato central do governo, as For\u00e7as Armadas e a KGB decidem jogar sua \u00faltima cartada e promover um golpe bonapartista no estilo da burocracia chinesa em Tiananmen, aproveitando as f\u00e9rias de Gorbachev. \u00c9 importante esclarecer, ao contr\u00e1rio do que afirmam setores da esquerda (incluindo os trotskistas), que o setor golpista n\u00e3o teve diferen\u00e7as com o programa restauracionista de Gorbachev e Ieltsin. Na verdade, eles faziam parte do governo que o vinha aplicando. Seu objetivo n\u00e3o era restabelecer o antigo Estado oper\u00e1rio burocr\u00e1tico, mas esmagar a mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que impedia a transi\u00e7\u00e3o ordeira para o capitalismo como na China. (9)<\/p>\n<p>Os golpistas exigem primeiro que Gorbachev decrete o estado de s\u00edtio e, como ele se recusa, formam a Comiss\u00e3o Estatal do Estado de S\u00edtio (GKTChP) (10) em 18 que decreta a censura na m\u00eddia, a proibi\u00e7\u00e3o de mobiliza\u00e7\u00f5es, a destitui\u00e7\u00e3o de Gorbachev e a ocupa\u00e7\u00e3o de Moscou pelas tropas. No dia 19 estas s\u00e3o movimentadas na cidade e \u00e9 decretado toque de recolher. Mas a popula\u00e7\u00e3o se mobiliza para resistir. Yeltsin convoca para enfrentar o golpe e barricadas foram formadas em frente \u00e0 Casa Branca (11). Os mineiros de Vorkuta convocaram uma greve geral contra o golpe e imediatamente os trabalhadores de Kirov e Putilov de Leningrado aderiram, e a greve come\u00e7ou a se estender a Vladivostok (12). Yelstsin assume o comando de todas as institui\u00e7\u00f5es centrais no territ\u00f3rio russo por decreto, incluindo as for\u00e7as armadas, a KGB e os minist\u00e9rios. Os soldados e oficiais enviados recusam-se a cumprir as ordens dos golpistas. O golpe \u00e9 derrotado e os membros do GKTChP s\u00e3o presos. Gorbachev retorna a Moscou e dias depois renuncia ao cargo de secret\u00e1rio-geral do PCUS e dissolve o partido. A ditadura, agora capitalista, do PCUS caiu definitivamente e triunfou a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica democr\u00e1tica liderada pelas massas sovi\u00e9ticas. Em 25 de dezembro, Gorbachev renunciou ao cargo de presidente da URSS e a dissolveu formalmente, mas na verdade ela j\u00e1 havia deixado de existir e 11 das ex-rep\u00fablicas haviam formado a Comunidade de Estados Independentes.<\/p>\n<p><strong>Os processos Glacis: da desapropria\u00e7\u00e3o \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s o triunfo heroico das massas sovi\u00e9ticas em Stalingrado (1943), que marca o in\u00edcio da derrota dos ex\u00e9rcitos nazistas, o Ex\u00e9rcito Vermelho ocupa os pequenos pa\u00edses do Leste Europeu que fazem fronteira com a URSS em acordo com o imperialismo. A ocupa\u00e7\u00e3o do Glacis (13) teve um duplo prop\u00f3sito para Stalin. Por um lado, para evitar a eclos\u00e3o de processos revolucion\u00e1rios nesse pa\u00eds e, por outro, para garantir a pilhagem desses pa\u00edses ao servi\u00e7o da reconstru\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da URSS. Nesse sentido, pode-se dizer que nesses pa\u00edses ocorreu um processo de semicoloniza\u00e7\u00e3o \u201csui generis\u201d, conforme explica Jan Talpe em seu livro \u201c<em>Os estados oper\u00e1rios da glacis<\/em>\u201d (14). Em sua primeira fase, isso foi realizado por meio de governos de coaliz\u00e3o entre PCs locais e pol\u00edticos burgueses e reformistas, mas controlados por emiss\u00e1rios de Stalin (15) e, a partir de 1950, por ditaduras burocr\u00e1ticas stalinistas baseadas na expropria\u00e7\u00e3o da burguesia e na nacionaliza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A burocracia stalinista recusou-se a integrar os novos estados oper\u00e1rios \u00e0 URSS e manteve suas fronteiras nacionais e sua exist\u00eancia como estados separados. Mas a partir de 1949 criou o COMECON (16) como uma zona econ\u00f4mica de interc\u00e2mbio comercial e articula\u00e7\u00e3o dos planos econ\u00f4micos de cada pa\u00eds do Glacis com os planos quinquenais da URSS.<\/p>\n<p>No quadro da rela\u00e7\u00e3o semicolonial que j\u00e1 apontamos, e do car\u00e1ter burocr\u00e1tico e totalit\u00e1rio dos regimes dos novos Estados oper\u00e1rios, a expropria\u00e7\u00e3o da burguesia e o planejamento centralizado permitiram neles um importante desenvolvimento industrial. O crescimento da produ\u00e7\u00e3o, a eleva\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de vida e da cultura e o peso da classe oper\u00e1ria come\u00e7aram a chocar-se com as crescentes desigualdades, os privil\u00e9gios burocr\u00e1ticos, a opress\u00e3o totalit\u00e1ria e nacional da URSS. Isso levou \u00e0 eclos\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica antiburocr\u00e1tica que teve diversos epis\u00f3dios. Este processo englobou a revolta dos metal\u00fargicos em Berlim Oriental (1953), a revolu\u00e7\u00e3o dos conselhos h\u00fangaros (1956), a Primavera de Praga (1968) e a revolu\u00e7\u00e3o na Pol\u00f4nia (1956 e 1980). Com exce\u00e7\u00e3o da Pol\u00f4nia (derrotada em 1981 pelo golpe militar de Jaruzelski), todas as outras revolu\u00e7\u00f5es foram esmagadas com a interven\u00e7\u00e3o das tropas do Pacto de Vars\u00f3via. (17)<\/p>\n<div id=\"attachment_65517\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65517\" class=\"size-full wp-image-65517\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Praga.tanks_.1968.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Praga.tanks_.1968.jpg 700w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Praga.tanks_.1968-300x169.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Praga.tanks_.1968-150x84.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Praga.tanks_.1968-696x392.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><p id=\"caption-attachment-65517\" class=\"wp-caption-text\">Tanques sovi\u00e9ticos em Praga, 1968.<\/p><\/div>\n<p>Na d\u00e9cada de 1970, as economias do COMECON, come\u00e7ando com a da URSS, entraram em um processo de estagna\u00e7\u00e3o, refletindo em parte a curva descendente da economia mundial iniciada por volta de 1968. Cumprindo o progn\u00f3stico de Trotsky (18) e apavorada com a possibilidade de novas revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que pudessem triunfar, a burocracia dos Estados Glacis avan\u00e7a na via dos acordos com o imperialismo e a restaura\u00e7\u00e3o capitalista. Com desigualdades e ritmos distintos desde o in\u00edcio dos anos 70, todos v\u00e3o se inclinando a estreitar os la\u00e7os econ\u00f4micos com os diversos pa\u00edses imperialistas em busca de investimentos e empr\u00e9stimos e, a partir da\u00ed, solicitar seu ingresso no FMI. (19) Esse processo deu um salto em 1986 quando a pr\u00f3pria burocracia sovi\u00e9tica se tornou a for\u00e7a motriz por tr\u00e1s das reformas capitalistas tamb\u00e9m no Glacis.<\/p>\n<p>O caso mais emblem\u00e1tico foi a Rom\u00eania, que foi pioneira no COMECON nesse sentido (embora n\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a outros estados oper\u00e1rios j\u00e1 que a Iugosl\u00e1via em 1965 e a China em 1978 haviam restaurado o capitalismo). (20) A Rom\u00eania que tinha aderido ao FMI em 1972, em 1981, pediu-lhe um empr\u00e9stimo para saldar suas d\u00edvidas crescentes com bancos internacionais e se submeteu a seus planos de ajuste. A partir de 1982, parte do sal\u00e1rio dos trabalhadores \u00e9 convertida em \u201ca\u00e7\u00f5es\u201d das empresas.<\/p>\n<p><strong>Revolu\u00e7\u00e3o no Glacis<\/strong><\/p>\n<p>A partir de 1986, Gorbachev viajou para a Alemanha Oriental e depois para a Tchecoslov\u00e1quia para promover a Perestroika e a Glasnot nos pa\u00edses do COMECON. Tenta convencer, acima de tudo, Honecker e Husak que governavam os estados oper\u00e1rios com as economias mais desenvolvidas e s\u00f3lidas e que estavam relutantes em aplicar o novo rumo. Em 1989, ele os far\u00e1 saber, bem como \u00e0s outras dire\u00e7\u00f5es dos PCs orientais, que eles n\u00e3o t\u00eam mais tropas sovi\u00e9ticas em caso de levantes revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Incentivadas pelo processo revolucion\u00e1rio aberto na URSS, as massas dos diferentes pa\u00edses protagonizam desde 1988 uma torrente de greves e mobiliza\u00e7\u00f5es que se refor\u00e7am mutuamente e derrotam as v\u00e1rias tentativas repressivas dos regimes ditatoriais. No decorrer de tr\u00eas anos, nenhum deles foi deixado de p\u00e9.<\/p>\n<p>Em alguns casos, como Hungria e Bulg\u00e1ria (1989), a burocracia \u00e9 rapidamente considerada derrotada antes do in\u00edcio das mobiliza\u00e7\u00f5es e ap\u00f3s o deslocamento dos ditadores (K\u00e1d\u00e1r e Zhivkov respectivamente) setores do pr\u00f3prio PC promovem a reforma do regime e sua transforma\u00e7\u00e3o em democracias burguesas. Deve-se ter em mente que devido ao processo particular de forma\u00e7\u00e3o dos estados oper\u00e1rios da glacis, todos conservavam formalmente um &#8220;parlamento&#8221; controlado pelo PC e onde era tolerada a participa\u00e7\u00e3o de partidos sat\u00e9lites, geralmente de base camponesa e pequeno-burguesa ou apoiado pela Igreja. Em geral, esses parlamentos ser\u00e3o reciclados eliminando o artigo que estabelece &#8220;o papel de lideran\u00e7a do PC nas constitui\u00e7\u00f5es&#8221; e convocando elei\u00e7\u00f5es multipartid\u00e1rias. No final do processo, todos os partidos comunistas da regi\u00e3o foram autodissolvidos e reciclados em geral como partidos socialdemocratas.<\/p>\n<p>Na Pol\u00f4nia, o ascenso come\u00e7ou em 1987 com uma mobiliza\u00e7\u00e3o reprimida, mas durante 1988 ocorreu um poderoso processo de greves contra o aumento dos pre\u00e7os e pela legalidade do Solidariedade (21), que colocou na parede o ditador Jaruzelski, que j\u00e1 vinha avan\u00e7ando com o plano de restaura\u00e7\u00e3o. Em fevereiro de 1989, por media\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica, foi convocada uma Mesa Redonda com a participa\u00e7\u00e3o de Walesa e o POUP (PC), al\u00e9m de outras organiza\u00e7\u00f5es e lideran\u00e7as cat\u00f3licas, e a\u00ed se chega ao acordo da legaliza\u00e7\u00e3o do Solidariedade e uma transi\u00e7\u00e3o com elei\u00e7\u00f5es limitadas \u00a0at\u00e9 que finalmente o POUP se dissolveu e um novo regime democr\u00e1tico burgu\u00eas foi instalado.<\/p>\n<p>Na Tchecoslov\u00e1quia, um processo de grandes mobiliza\u00e7\u00f5es pelas liberdades democr\u00e1ticas estourou desde 1988, que ser\u00e1 chamado de &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o de Veludo&#8221;. Estas ter\u00e3o um pico em novembro de 1989 com a manifesta\u00e7\u00e3o na Pra\u00e7a Wenzel de Praga com 800.000 pessoas. Apesar da repress\u00e3o sistem\u00e1tica do regime, das ren\u00fancias de dirigentes e concess\u00f5es, as mobiliza\u00e7\u00f5es continuaram at\u00e9 for\u00e7ar a ren\u00fancia de Husak e a assun\u00e7\u00e3o de um governo liderado por Vaclav Havel como presidente (um intelectual dissidente perseguido e preso) e Alexander Dubcek (ex-l\u00edder do PC &#8220;reformista&#8221; afastado ap\u00f3s a Primavera de Praga) como Presidente do Parlamento no final de 1989. A rec\u00e9m-criada Federa\u00e7\u00e3o Tcheca e Eslovaca (j\u00e1 capitalista) ser\u00e1 transformada em 1993 em dois pa\u00edses: a Rep\u00fablica Tcheca e a Rep\u00fablica Eslovaca.<\/p>\n<div id=\"attachment_65515\" style=\"width: 1210px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65515\" class=\"size-full wp-image-65515\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/revolucion-terciopelo-Praga-1989.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"664\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/revolucion-terciopelo-Praga-1989.jpg 1200w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/revolucion-terciopelo-Praga-1989-300x166.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/revolucion-terciopelo-Praga-1989-1024x567.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/revolucion-terciopelo-Praga-1989-768x425.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/revolucion-terciopelo-Praga-1989-150x83.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/revolucion-terciopelo-Praga-1989-696x385.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/revolucion-terciopelo-Praga-1989-1068x591.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><p id=\"caption-attachment-65515\" class=\"wp-caption-text\">Praga, 1989<\/p><\/div>\n<p>A Rom\u00eania \u00e9 onde o car\u00e1ter violento e insurrecional do processo revolucion\u00e1rio do Leste se desenvolver\u00e1 mais. O ditador Ceausescu se preparou para resistir ao levante revolucion\u00e1rio com sangue e fogo. Para isso tinha a sinistra Securitate, sua pol\u00edcia pol\u00edtica, de 50.000 homens com sal\u00e1rios privilegiados e muito bem armados.<\/p>\n<div id=\"attachment_65514\" style=\"width: 1259px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65514\" class=\"size-full wp-image-65514\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Tanques-Rumania-1989.jpg\" alt=\"\" width=\"1249\" height=\"1600\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Tanques-Rumania-1989.jpg 1249w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Tanques-Rumania-1989-234x300.jpg 234w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Tanques-Rumania-1989-799x1024.jpg 799w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Tanques-Rumania-1989-768x984.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Tanques-Rumania-1989-1199x1536.jpg 1199w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Tanques-Rumania-1989-150x192.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Tanques-Rumania-1989-300x384.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Tanques-Rumania-1989-696x892.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Tanques-Rumania-1989-1068x1368.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1249px) 100vw, 1249px\" \/><p id=\"caption-attachment-65514\" class=\"wp-caption-text\">Tanques na Rom\u00eania, 1989<\/p><\/div>\n<p>O duro plano de ajuste do FMI desencadeou uma greve em novembro de 1987 em uma f\u00e1brica de tratores com 20.000 trabalhadores e eles assaltaram a sede do PCR gritando &#8220;Abaixo a ditadura&#8221;. Em 16 de dezembro de 1989, houve manifesta\u00e7\u00f5es em apoio a um padre da oposi\u00e7\u00e3o na cidade de Timisoara, reprimidas com dezenas de mortos. As mobiliza\u00e7\u00f5es continuam e o regime organiza uma manifesta\u00e7\u00e3o de apoio a Ceaucescu na pra\u00e7a de Bucareste no dia 21, mas isso se transforma em uma manifesta\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o e eles cortam a transmiss\u00e3o de TV. Ceaucescu e sua esposa Elena fogem. A mobiliza\u00e7\u00e3o se intensifica, as massas atacam a casa do governo e outros pr\u00e9dios p\u00fablicos, h\u00e1 confrontos com a Securitate nas ruas e os soldados se juntam \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o. Um setor de oposi\u00e7\u00e3o do PCR liderado por Ion Iliescu muda de lado e, depois que a sede do r\u00e1dio e televis\u00e3o \u00e9 tomada no dia 22, eles anunciam a forma\u00e7\u00e3o de uma Frente de Salva\u00e7\u00e3o Nacional. O casal Ceaucescu \u00e9 capturado. Eles ser\u00e3o julgados e condenados por um tribunal militar que finalmente os fuzilar\u00e1 em 25 de dezembro. A multid\u00e3o na pra\u00e7a comemora. A revolu\u00e7\u00e3o triunfou ao custo de mais de 1.000 mortes. No dia seguinte, um governo de transi\u00e7\u00e3o foi formado e em janeiro de 1990 o PCR foi dissolvido.<\/p>\n<p><strong>Alemanha: revolu\u00e7\u00e3o, reunifica\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>No final da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha foi ocupada pelas pot\u00eancias aliadas vitoriosas: EUA, Inglaterra, Fran\u00e7a e URSS. O Ex\u00e9rcito Vermelho ocupou um ter\u00e7o na parte oriental onde ficava a capital, Berlim, cidade que por sua vez foi dividida em duas partes, uma das quais estava sob dom\u00ednio imperialista. Em 1949 foi proclamada no setor ocidental a Rep\u00fablica Federal da Alemanha (RFA), com capital em Bonn e no setor oriental a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 (RDA), que a partir de 1950 passou a ser um Estado oper\u00e1rio burocr\u00e1tico. Assim a divis\u00e3o do pa\u00eds e da classe oper\u00e1ria mais forte da Europa foram consumadas.<\/p>\n<p>Em 1953, como j\u00e1 dissemos, o primeiro levante antiburocr\u00e1tico no Leste foi esmagado em Berlim pelas tropas do Kremlim. Seguiu-se um per\u00edodo de desenvolvimento industrial e estabilidade do regime burocr\u00e1tico, at\u00e9 que a partir da d\u00e9cada de 1970 o ditador Erich Honecker iniciou um processo de reaproxima\u00e7\u00e3o e crescente endividamento com o imperialismo.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do processo revolucion\u00e1rio na URSS e no resto do Glacis, a RDA era a economia mais forte e com o padr\u00e3o de vida mais elevado da Europa Oriental. Mas a asfixia burocr\u00e1tica do regime totalit\u00e1rio, a estagna\u00e7\u00e3o e a compara\u00e7\u00e3o com a parte imperialista forneceram as condi\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento da mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria tamb\u00e9m ali.<\/p>\n<p>Em 1987, Honecker havia feito alguns gestos de liberaliza\u00e7\u00e3o do regime, como parte de sua pol\u00edtica de reaproxima\u00e7\u00e3o com a RFA. (22) Mas em 1988 ele respondeu com repress\u00e3o e novas pris\u00f5es ao incipiente processo de protestos. Em meados de 1989, a situa\u00e7\u00e3o deu um salto no processo de ascenso, enfraquecimento e queda das ditaduras nos pa\u00edses vizinhos. Por um lado, dezenas de milhares come\u00e7am a fugir em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 RFA pela abertura das fronteiras da Hungria e da \u00c1ustria, e outros assaltam as embaixadas da RFA em Berlim Oriental, Praga e Budapeste, fazendo com que as deixassem viajar. No final de setembro, come\u00e7am os Montagsdemo (manifesta\u00e7\u00f5es de segunda-feira) em Leipzig, que crescem com dezenas de milhares de semana a semana, apesar da repress\u00e3o e causando crises na base das for\u00e7as repressivas. Wir sind das volk (N\u00f3s somos o povo!) \u00c9 o consigna mais popular.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o atinge seu primeiro triunfo no final de outubro. Honecker \u00e9 for\u00e7ado a renunciar e Egor Krenz assume, anunciando o Wende (mudan\u00e7a de pol\u00edtica). Mas as mobiliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o param. Em 4 de novembro, um festival de m\u00fasica autorizado em Berlim Oriental re\u00fane um milh\u00e3o de pessoas que reivindicam as liberdades democr\u00e1ticas e o fim do monop\u00f3lio da SED (PC). Em 9 de novembro, um porta-voz do CC da SED anunciou que a partir desse dia os regulamentos para solicitar uma autoriza\u00e7\u00e3o de viagem \u00e0 RFA foram modificados e naquela mesma noite uma multid\u00e3o se aglomerou no Port\u00e3o de Brandemburgo e obrigou os guardas a abrirem as portas da fronteira. O muro de Berlim caiu e nos pr\u00f3ximos dias mais de 2 milh\u00f5es de alem\u00e3es cruzam a fronteira.<\/p>\n<div id=\"attachment_65516\" style=\"width: 2570px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65516\" class=\"size-full wp-image-65516\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Trabant-cars-queing-at-Schnirnding-scaled-1.jpg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1673\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Trabant-cars-queing-at-Schnirnding-scaled-1.jpg 2560w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Trabant-cars-queing-at-Schnirnding-scaled-1-300x196.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Trabant-cars-queing-at-Schnirnding-scaled-1-1024x669.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Trabant-cars-queing-at-Schnirnding-scaled-1-768x502.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Trabant-cars-queing-at-Schnirnding-scaled-1-1536x1004.jpg 1536w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Trabant-cars-queing-at-Schnirnding-scaled-1-2048x1338.jpg 2048w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Trabant-cars-queing-at-Schnirnding-scaled-1-150x98.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Trabant-cars-queing-at-Schnirnding-scaled-1-696x455.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Trabant-cars-queing-at-Schnirnding-scaled-1-1068x698.jpg 1068w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Trabant-cars-queing-at-Schnirnding-scaled-1-1920x1255.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><p id=\"caption-attachment-65516\" class=\"wp-caption-text\">Alem\u00e3es da RDA indo para o oeste, novembro de 1989.<br \/>EPA\/CLAUS FELIX B\/W ONLY<\/p><\/div>\n<p>Nesse ponto, a crise do regime \u00e9 total. Durante o m\u00eas de novembro, ocorreram ren\u00fancias e mudan\u00e7as no CC e no governo, at\u00e9 que, em 1\u00ba de dezembro, o monop\u00f3lio de poder da SED foi eliminado. Nos dias seguintes, Honecker e seus amigos foram expulsos da SED, Krenz renunciou e, finalmente, Hans Modrow (SED) acabou co-governando com as organiza\u00e7\u00f5es de oposi\u00e7\u00e3o. O regime totalit\u00e1rio caiu, mas a mobiliza\u00e7\u00e3o em massa n\u00e3o para. A segunda tarefa democr\u00e1tica que impulsiona o levante permanece pendente e se sintetiza na mudan\u00e7a de consigna: Wir sind ein volk (Somos um povo) que agora se torna a principal (j\u00e1 havia come\u00e7ado a aparecer em setembro). As elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o convocadas para 18 de mar\u00e7o de 1990, quando uma coaliz\u00e3o de crist\u00e3os e liberais triunfa, prometendo reunifica\u00e7\u00e3o imediata.<\/p>\n<p>Finalmente, as massas imp\u00f5em a reunifica\u00e7\u00e3o da Alemanha em 1990 contra a vontade expressa dos principais l\u00edderes do imperialismo europeu, Gorbachev e o pr\u00f3prio Helmut Kohl, que tenta resistir e adiar a unidade at\u00e9 que se veem for\u00e7ados a aceit\u00e1-la. (23) O Estado oper\u00e1rio da RDA (j\u00e1 em desintegra\u00e7\u00e3o) \u00e9 absorvido pela RFA com base em sua Constitui\u00e7\u00e3o, mas as massas mobilizadas conseguem algumas concess\u00f5es, como a paridade 1 x 1 dos marcos da antiga RDA (24).<\/p>\n<p>No quadro do enorme triunfo que a unifica\u00e7\u00e3o significou para o povo alem\u00e3o, \u00e9 justo apontar que as massas da Alemanha Oriental perderam muitas conquistas do antigo estado oper\u00e1rio e n\u00e3o enfrentaram a restaura\u00e7\u00e3o. Mas, como diz Jan Talpe:<\/p>\n<p>\u201cEntretanto, o regime burocr\u00e1tico de Honecker tamb\u00e9m n\u00e3o era garantia contra a restaura\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio. (&#8230;) Com o colapso daquele estado, Honecker apelou ao apoio do imperialismo para preservar, n\u00e3o um \u201cEstado oper\u00e1rio\u201d, mas o \u201cseu\u201d Estado, que era conveniente ser classificado no \u201cter\u00e7o da humanidade socialista\u201d. Em v\u00e3o. Para se organizar em defesa de suas conquistas &#8211; e numa perspectiva hist\u00f3rica, para reconstruir um Estado oper\u00e1rio em bases prolet\u00e1rias &#8211; a primeira tarefa do proletariado alem\u00e3o era derrubar o regime ditatorial de Honecker, \u00fanica forma de enfrentar o imperialismo. \u00c9 o que fez. E numa rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com as lutas no pa\u00eds do primeiro Estado oper\u00e1rio, tamb\u00e9m ajudou a derrubar o aparelho stalinista. (&#8230;) A reunifica\u00e7\u00e3o foi indissoci\u00e1vel da vit\u00f3ria sobre o regime burocr\u00e1tico de Honecker. Na Cor\u00e9ia, o povo n\u00e3o alcan\u00e7ou tal vit\u00f3ria e n\u00e3o por isso o capitalismo deixou de ser restaurado, mas em condi\u00e7\u00f5es muito mais dram\u00e1ticas, com o proletariado coreano dividido\u201d(Op.cit.)<\/p>\n<p><strong>Uma vit\u00f3ria estrat\u00e9gica<\/strong><\/p>\n<p>A burocracia stalinista, desde a sua consolida\u00e7\u00e3o como express\u00e3o da contrarrevolu\u00e7\u00e3o no interior do Estado oper\u00e1rio que emergiu da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, imp\u00f4s um regime totalit\u00e1rio que Trotsky considerava \u201cg\u00eameo do fascismo\u201d. Para consolidar seu poder, assassinou mais de 800 mil revolucion\u00e1rios, incluindo grande parte da dire\u00e7\u00e3o do Partido Bolchevique que dirigiu a Revolu\u00e7\u00e3o. O mesmo regime se transferiu para a Terceira Internacional e todos os partidos comunistas. Tudo isso em nome da teoria reacion\u00e1ria do &#8220;socialismo em um pa\u00eds&#8221;, que exigia uma coexist\u00eancia pac\u00edfica com o imperialismo. Esta foi a ideologia com a qual a casta parasita encabe\u00e7ada por Stalin defendeu seus privil\u00e9gios a sangue e fogo, e \u00e0 custa da trai\u00e7\u00e3o por parte dos partidos comunistas dos processos revolucion\u00e1rios. Sua pol\u00edtica de colabora\u00e7\u00e3o de classes levou \u00e0 derrota da Segunda Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa (1925\/27) e depois \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Espanhola, enormes processos que poderiam ter mudado o curso da hist\u00f3ria. Seu reverso, a negativa ultraesquerda em promover a pol\u00edtica da frente \u00fanica oper\u00e1ria, abriu o caminho para o triunfo do nazismo na Alemanha. Isso foi complementado pelo pacto Hitler-Stalin, que deu a Hitler luz verde para a invas\u00e3o da Pol\u00f4nia e o in\u00edcio da Segunda Guerra Mundial, e mais tarde com a dissolu\u00e7\u00e3o do Comintern como parte do acordo com os imperialistas aliados.<\/p>\n<p>Durante o segundo p\u00f3s-guerra, o stalinismo capitalizou o prest\u00edgio conquistado pelo Ex\u00e9rcito Vermelho e as guerrilhas comunistas na derrota do nazismo e seus aliados. Isso lhes permitiu, em alguns casos, impedir o triunfo dos processos revolucion\u00e1rios (It\u00e1lia, Fran\u00e7a, Gr\u00e9cia) e, em outros, fre\u00e1-los em algum momento e impedir seu avan\u00e7o. Como explica Mart\u00edn Hern\u00e1ndez em seu livro O Veredicto da Hist\u00f3ria, este foi um per\u00edodo de grandes triunfos t\u00e1ticos, mas de derrotas estrat\u00e9gicas:<\/p>\n<p>A partir de 1943, grandes triunfos revolucion\u00e1rios aconteceram, mas a crise da dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria continuou e se aprofundou, e isso levou, em repetidas ocasi\u00f5es, \u00e0s derrotas catastr\u00f3ficas de que falou Moreno (25) (que agora chamamos de &#8220;derrotas estrat\u00e9gicas&#8221;), E s\u00e3o precisamente essas derrotas que foram criando as condi\u00e7\u00f5es para a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p>A expropria\u00e7\u00e3o do capitalismo em um ter\u00e7o da humanidade fortaleceu os estados oper\u00e1rios, mas apenas no sentido conjuntural, uma vez que esses estados n\u00e3o foram colocados a servi\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial. Por outro lado, o acordo contrarrevolucion\u00e1rio de Stalin com o imperialismo mundial e, especialmente, a entrega do poder nos pa\u00edses centrais isolou esses mesmos estados oper\u00e1rios que j\u00e1 iniciavam um decl\u00ednio econ\u00f4mico permanente na d\u00e9cada de 1960. Os Estados do Leste, diante de sua crise, tinham duas alternativas: ou retomavam o caminho da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, ou seja, o caminho da revolu\u00e7\u00e3o mundial, ou se orientavam na dire\u00e7\u00e3o da restaura\u00e7\u00e3o. O primeiro caminho s\u00f3 poderia ser percorrido passando por cima do cad\u00e1ver da burocracia. Essa possibilidade foi levantada nas revolu\u00e7\u00f5es da Alemanha Oriental, Hungria, Pol\u00f4nia e Tchecoslov\u00e1quia. Mas essas revolu\u00e7\u00f5es foram esmagadas pela burocracia e, assim, o caminho para a restaura\u00e7\u00e3o foi pavimentado.<\/p>\n<p>A derrota do stalinismo, pelo contr\u00e1rio, foi uma vit\u00f3ria estrat\u00e9gica para o movimento de massas mundial, que destruiu o aparato contrarrevolucion\u00e1rio mais terr\u00edvel j\u00e1 conhecido. Um triunfo apenas compar\u00e1vel \u00e0 derrota do nazismo e que exigiu a a\u00e7\u00e3o conjunta do proletariado e dos povos de v\u00e1rios pa\u00edses. Ap\u00f3s seu colapso na ex-URSS e no Leste europeu, os partidos comunistas ficaram qualitativamente incapacitados de desempenhar o papel contrarrevolucion\u00e1rio que tiveram em grande parte do s\u00e9culo XX. Perderam o controle que exerciam sobre o movimento oper\u00e1rio e de massas mundial e quase desapareceram em muitos pa\u00edses, com poucas exce\u00e7\u00f5es como Portugal ou Chile, por exemplo, onde ainda conservam alguma for\u00e7a. Outras dire\u00e7\u00f5es e aparatos (nacionalistas burguesas, neorreformistas e burocraticas) conseguiram prest\u00edgio e v\u00eam intervindo nos processos revolucion\u00e1rios para control\u00e1-los e derrot\u00e1-los, mas nenhum pode se igualar \u00e0 for\u00e7a e efic\u00e1cia contrarrevolucion\u00e1ria do stalinismo. Nesse sentido, sua derrota abriu condi\u00e7\u00f5es qualitativamente mais favor\u00e1veis \u200b\u200bpara a supera\u00e7\u00e3o da crise da dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e para o avan\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o mundial. Esta \u00e9 a enorme contribui\u00e7\u00e3o que as massas da ex-URSS e do Leste Europeu deram com suas revolu\u00e7\u00f5es \u00e0 classe oper\u00e1ria mundial, e com elas conquistaram um lugar importante na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p>1- (\u2026) Revolu\u00e7\u00e3o, no sentido estrito e direto da palavra, \u00e9 justamente um per\u00edodo da vida do povo em que a raiva provocada pelas brutalidades dos Avr\u00e1mov e acumulada ao longo dos s\u00e9culos se expressa em a\u00e7\u00f5es e n\u00e3o em palavras, nas a\u00e7\u00f5es das massas populares e n\u00e3o de indiv\u00edduos isolados (&#8230;) o povo se apropria da liberdade pol\u00edtica, isto \u00e9, liberdade cuja realiza\u00e7\u00e3o os Avr\u00e1movs impediram; o povo cria um novo poder, o poder revolucion\u00e1rio, um poder sobre os Avr\u00e1movs, um poder sobre os energ\u00famenos do antigo regime policial (&#8230;) (Lenin,V.I. A vit\u00f3ria dos democratas constitucionais e as tarefas do partido dos trabalhadores. 28 \/ 3\/06, Obras Completas).<\/p>\n<p>O tra\u00e7o caracter\u00edstico mais indiscut\u00edvel das revolu\u00e7\u00f5es \u00e9 a interven\u00e7\u00e3o direta das massas nos eventos hist\u00f3ricos. Em tempos normais, o estado, seja ele mon\u00e1rquico ou democr\u00e1tico, est\u00e1 acima da na\u00e7\u00e3o; a hist\u00f3ria \u00e9 contada por especialistas nesta profiss\u00e3o: monarcas, ministros, burocratas, parlamentares, jornalistas. Mas em momentos decisivos, quando a ordem estabelecida se torna insuport\u00e1vel para as massas, elas rompem as barreiras que as separam da arena pol\u00edtica, derrubam seus representantes tradicionais e, com sua interven\u00e7\u00e3o, criam um ponto de partida para o novo regime. (&#8230;) A hist\u00f3ria das revolu\u00e7\u00f5es \u00e9 para n\u00f3s, antes de tudo, a hist\u00f3ria da violenta irrup\u00e7\u00e3o das massas no governo de seus pr\u00f3prios destinos. (Trotsky, Le\u00f3n. Hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, 1931).<\/p>\n<p>2- Conforme explica Jan Talpe (Os estados oper\u00e1rios da Glacis), o termo foi traduzido incorretamente como \u201ctranspar\u00eancia\u201d, provavelmente devido \u00e0 sua semelhan\u00e7a com a palavra inglesa \u201cglass\u201d (vidro). Na verdade, significa &#8220;di\u00e1logo ou acordo&#8221;.<\/p>\n<p>3- A retirada das tropas sovi\u00e9ticas do Afeganist\u00e3o come\u00e7ou em 15 de maio de 1988 e terminou em 15 de fevereiro de 1989.<\/p>\n<p>4- Entre os nacionalistas estavam o movimento saudita na Litu\u00e2nia e a Frente Popular do Azerbaij\u00e3o no Azerbaij\u00e3o. R\u00fassia democr\u00e1tica \u00e9 um grupo de oposi\u00e7\u00e3o a Gorbachev que surge a princ\u00edpios de 1990 na R\u00fassia para se apresentar nas elei\u00e7\u00f5es de sovietes locais. Em julho de 1990,\u00a0 rompe formalmente com o PCUS ap\u00f3s o XXVII Congresso.<\/p>\n<p>5- Ieltsin encabe\u00e7ou no Congresso do Povo o Grupo Inter-regional de Deputados que se op\u00f5e a Gorbachev e mais tarde encabe\u00e7ar\u00e1 a R\u00fassia Democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>6- A Juventude Comunista.<\/p>\n<p>7- Em 21\/12\/90, o economista Shatalin e v\u00e1rios membros do Politburo renunciaram. Outras figuras do elenco, como Yakovlev e Petrakov, v\u00e3o romper nos meses seguintes.<\/p>\n<p>8- Em 17 de mar\u00e7o de 1991 realiza-se a vota\u00e7\u00e3o do plebiscito onde se prop\u00f5e a manuten\u00e7\u00e3o da URSS, mas como uma \u201cfedera\u00e7\u00e3o renovada de rep\u00fablicas soberanas e igualit\u00e1rias\u201d. Ganae o SIM por 76%, mas Arm\u00eania, Ge\u00f3rgia, Est\u00f4nia, Let\u00f4nia, Litu\u00e2nia e Mold\u00e1via n\u00e3o participam.<\/p>\n<p>9- https:\/\/litci.org\/es\/1991-un-golpe-de-derecha-disfrazado-con-la-bandera-roja\/<\/p>\n<p>10- Era composto por Yazov (Ministro da Defesa), Baklanov (Vice-Ministro da Defesa), Pavlov (Primeiro ministro), Kryuchkov (chefe da KGB), Pugo (ministro do Interior) e Yanaev (vice-presidente da URSS).<\/p>\n<p>11- Edif\u00edcio onde funcionavam o Soviete Supremo e o governo da Federa\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n<p>12- Cidade localizada na costa do Pac\u00edfico, extremo leste da R\u00fassia.<\/p>\n<p>13- O termo glacis refere-se a uma plan\u00edcie em torno de um castelo medieval, ao alcance de seus canh\u00f5es e desprovida de prote\u00e7\u00f5es naturais para um eventual agressor.<\/p>\n<p>14- O marxismo define semicol\u00f4nias como os pa\u00edses submetidos \u00e0s pot\u00eancias imperialistas por meio de pactos econ\u00f4micos, pol\u00edticos e militares. Para Jan Talpe, neste caso, tratava-se de uma \u201csemicoloniza\u00e7\u00e3o sui generis\u201d, pois \u201cSeu objetivo era o saque por meio da semicoloniza\u00e7\u00e3o. Mas isso, ao longo do tempo, n\u00e3o deixou de colocar a quest\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, devido \u00e0 falta de burguesia no pa\u00eds colonizador. (&#8230;) A burocracia da URSS teve que orquestrar a partir do Kremlin uma casta burocr\u00e1tica local \u00e0s sus ordens. E essa &#8220;burocracia nacional&#8221; teve que tirar do poder a &#8220;burguesia nacional&#8221; para fazer a pilhagem (&#8230;) (Os Estados Oper\u00e1rios da Glacis, 2019)<\/p>\n<p>15- \u201cEm cada um desses pa\u00edses, Stalin comandou, junto com o Ex\u00e9rcito Vermelho, seu plenipotenci\u00e1rio que havia passado a guerra em Moscou\u201d. (Boleslaw Bierut na Pol\u00f4nia, Walter Ulbricht na Alemanha, Klement Gottwald na Tchecoslov\u00e1quia, M\u00e1ty\u00e1s R\u00e1kosi na Hungria, Ana Pauker na Rom\u00eania, Georgi Dimitrov na Bulg\u00e1ria) (Idem)<\/p>\n<p>16- Conselho de Assist\u00eancia Econ\u00f4mica M\u00fatua (CAME). Criado em 4 de janeiro de 1949. Foi dissolvido em 28 de junho de 1991.<\/p>\n<p>17- Pacto militar assinado em Praga em 14 de maio de 1955 entre a URSS e os governos da RDA, Bulg\u00e1ria, Tchecoslov\u00e1quia, Hungria, Pol\u00f4nia, Rom\u00eania e Alb\u00e2nia (retirou-se em 1968). Foi oficialmente dissolvido em Praga em 1 \u00b0 de julho de 1991.<\/p>\n<p>18- \u201cO progn\u00f3stico pol\u00edtico tem um car\u00e1ter alternativo: ou a burocracia se transforma cada vez mais em \u00f3rg\u00e3o da burguesia mundial dentro do Estado Oper\u00e1rio, derrubando as novas formas de propriedade e devolvendo o pa\u00eds ao capitalismo; ou a classe trabalhadora esmaga a burocracia e abre o caminho para o socialismo. &#8221; (Trotsky, Le\u00f3n. Programa de Transi\u00e7\u00e3o, 1938)<\/p>\n<p>19- Rom\u00eania em 1972, Hungria em 1982 e Pol\u00f4nia em 1986 ingressaram no FMI. A Bulg\u00e1ria e a Tchecoslov\u00e1quia far\u00e3o isso em setembro de 1990.<\/p>\n<p>20- Em 1945 a Iugosl\u00e1via permanece nas m\u00e3os das guerrilhas comunistas dirigidas pelo Marechal Tito que consegue derrotar os nazistas, depois expropriar a burguesia e estabelecer um Estado Oper\u00e1rio. Ap\u00f3s a ruptura de Tito com Stalin em 1948, a Iugosl\u00e1via seguiu um curso independente do Glacis e em 1965 come\u00e7ou a aplica\u00e7\u00e3o de um programa restauracionista sob o nome de &#8220;autogest\u00e3o oper\u00e1ria&#8221;. Na d\u00e9cada de 1980, ingressou no FMI e a partir da\u00ed a crise se aprofundou e eclodiram greves e tens\u00f5es nacionais. A Iugosl\u00e1via era uma federa\u00e7\u00e3o de rep\u00fablicas de diferentes nacionalidades historicamente oprimidas pela S\u00e9rvia. No calor dos processos na URSS e no Glacis, eclodiram greves, mobiliza\u00e7\u00f5es e levantes das nacionalidades oprimidas que v\u00e3o levar a v\u00e1rias guerras sangrentas, interven\u00e7\u00e3o imperialista e finalmente a dissolu\u00e7\u00e3o da Jugosl\u00e1via. Dada a complexidade desses processos, n\u00e3o os tratamos neste artigo, pois excedem as possibilidades deste trabalho.<\/p>\n<p>21- Solidariedade, o grande sindicato independente que emergiu das hist\u00f3ricas greves nos estaleiros poloneses em 1980 e que tinha 10 milh\u00f5es de membros, continuou a operar na clandestinidade ap\u00f3s o golpe de Jaruzelski em 1981.<\/p>\n<p>22- \u00c9 autorizada uma marcha pacifista em setembro e em 12 de dezembro de 1987, por ocasi\u00e3o do 38\u00ba anivers\u00e1rio da funda\u00e7\u00e3o da RDA, cerca de 25.000 presos s\u00e3o anistiados.<\/p>\n<p>23- J\u00e1 em setembro de 1989, quando o Wir sind ein volk come\u00e7ou a aparecer no Lipzig Montagsdemo, Willy Brandt (ex-chanceler socialdemocrata da RFA) declarou \u201cA reunifica\u00e7\u00e3o \u00e9 um conceito de que gosto cada vez menos\u201d. Margaret Thatcher comentou com seu embaixador em Bonn: &#8220;Est\u00e1 n\u00edtido que a Gr\u00e3-Bretanha, a Fran\u00e7a e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica s\u00e3o fundamentalmente contra a reunifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3.&#8221; E Helmut Kohl, em 28 de novembro, quando as massas j\u00e1 haviam come\u00e7ado a impor a reunifica\u00e7\u00e3o de fato, ainda propunha um plano de &#8220;estrutura federativa entre os dois estados alem\u00e3es&#8221;, com 10 pontos: a reunifica\u00e7\u00e3o acabar\u00e1 sendo poss\u00edvel ap\u00f3s um longo processo, se as RDA &#8220;se democratizam&#8221;. (citado em The Workers &#8216;States of the Glacis)<\/p>\n<p>24- No momento da reunifica\u00e7\u00e3o, os marcos da RDA foram valiam a metade do valor dos da RFA.<\/p>\n<p>25- Refere-se a Nahuel Moreno, dirigente e fundador da nossa corrente, que levantou este conceito nas Teses para atualizar o programa de transi\u00e7\u00e3o (1980): (&#8230;) Podemos formular esta lei da seguinte forma: enquanto o proletariado n\u00e3o superar sua crise de dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, n\u00e3o ser\u00e1 capaz de derrotar o imperialismo mundial e, como consequ\u00eancia, todas as suas lutas estar\u00e3o cheios de triunfos que levar\u00e3o inevitavelmente a derrotas catastr\u00f3ficas (&#8230;) Enquanto os aparatos contrarrevolucion\u00e1rios continuarem a controlar o movimento de massas, qualquer vit\u00f3ria revolucion\u00e1ria se transformar\u00e1 inevitavelmente em derrota.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O final da d\u00e9cada de 1980 e o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 foram marcados em todo o mundo por enormes processos revolucion\u00e1rios no Leste Europeu. No decorrer de alguns anos, o mundo configurado no segundo p\u00f3s-guerra mudou. 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