{"id":65451,"date":"2021-11-29T10:54:40","date_gmt":"2021-11-29T13:54:40","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65451"},"modified":"2021-11-29T10:54:40","modified_gmt":"2021-11-29T13:54:40","slug":"derrotar-kast-nas-ruas-e-nas-urnas-nenhuma-confianca-em-boric","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/11\/29\/derrotar-kast-nas-ruas-e-nas-urnas-nenhuma-confianca-em-boric\/","title":{"rendered":"Derrotar Kast nas ruas e nas urnas! Nenhuma confian\u00e7a em Boric!"},"content":{"rendered":"<p><em>Os resultados eleitorais do \u00faltimo domingo foram tomados com surpresa dentro e fora do Chile. Muitos ativistas, jovens, trabalhadores e trabalhadoras se perguntam: como \u00e9 poss\u00edvel que depois da explos\u00e3o social do 18 de outubro, depois de um Plebiscito onde mais de 78% das pessoas votaram por mudar a constitui\u00e7\u00e3o, um candidato de extrema direita seja o mais votado nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais?<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: MIT-Chile<\/p>\n<p>A resposta a essa pregunta n\u00e3o \u00e9 simples, mas podemos come\u00e7ar por alguns dados eleitorais, que podem nos ajudar a entender o que aconteceu.<\/p>\n<p>Os primeiros derrotados das elei\u00e7\u00f5es foram os partidos que governaram o pa\u00eds nos \u00faltimos 30 anos. As candidaturas da direita e da ex Concerta\u00e7\u00e3o obtiveram o quarto e quinto lugares nestas elei\u00e7\u00f5es. No primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2017 essas duas coaliz\u00f5es tiveram 3,9 milh\u00f5es de votos. Nas elei\u00e7\u00f5es atuais, a vota\u00e7\u00e3o de Yasna Provoste e Sebasti\u00e1n Sichel somadas foi de 1,7 milh\u00e3o. Ou seja, os dois blocos juntos perderam mais de 2 milh\u00f5es de votos.<\/p>\n<p>Por outro lado, irrompem com for\u00e7a dois \u201cnovos\u201d blocos pol\u00edticos: a Frente Social Crist\u00e3, representada na figura de Jos\u00e9 Antonio Kast, e Aprovo Dignidade (Frente Ampla, Partido Comunista e outros) representado por Boric. O terceiro mais votado, Parisi, do Partido de <em>la Gente<\/em>, fez uma campanha in\u00e9dita, totalmente virtual, a partir dos Estados Unidos, por n\u00e3o poder entrar no pa\u00eds devido a ter problema com a justi\u00e7a pelo n\u00e3o pagamento de pens\u00f5es aliment\u00edcias.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Antonio Kast teve pouco mais de 1,9 milh\u00e3o de votos (27,9%), 500 mil votos a menos que Pi\u00f1era em 2017 e 300 mil votos a mais que o \u201cRecha\u00e7o\u201d no \u00faltimo Plebiscito. Evidentemente, muitos do \u201cRecha\u00e7o\u201d tamb\u00e9m votaram em Sichel, que teve quase 900 mil votos, e provavelmente em Parisi. A \u201cdireita\u201d em 2017 (Pi\u00f1era e Kast) teve 2,9 milh\u00f5es de votos no primeiro turno. Nas elei\u00e7\u00f5es atuais, Kast e Sichel tiveram 2,8 milh\u00f5es. Sem d\u00favida o voto pela direita hoje \u00e9 mais pol\u00edtico que em 2017, quando muitos trabalhadores votaram em Pi\u00f1era porque prometia mais empregos.<\/p>\n<p>O voto em Kast expressa uma maior polariza\u00e7\u00e3o social, uma relocaliza\u00e7\u00e3o do voto \u201cconservador\u201d. Kast conseguiu expressar o temor que setores da sociedade t\u00eam contra o \u201ccomunismo\u201d, a \u201cdelinqu\u00eancia\u201d, \u201co terrorismo mapuche\u201d e o \u201cataque \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es\u201d. A vota\u00e7\u00e3o de Kast tamb\u00e9m teve um car\u00e1ter regional importante. O candidato ganhou na maioria das regi\u00f5es do sul, com exce\u00e7\u00e3o de Punta Arenas. Na capital, Kast perdeu para Boric em quase todas as comunas, salvo nas 5 comunas mais ricas (Lo Barnechea, Vitacura, Las Condes, La Reina e Providencia). Em algumas das comunas mais combativas e populares, como Puente Alto ou Maip\u00fa, Kast perdeu por ampla margem (Puente Alto: 51.800 por Boric e 26.500 por Kast; Maip\u00fa: Boric 76.000, Kast 42.000).<sup><a href=\"https:\/\/www.vozdelostrabajadores.cl\/a-derrotar-a-kast-en-las-calles-y-en-las-urnas-ninguna-confianza-en-boric#sdfootnote1sym\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1<\/a><\/sup><\/p>\n<p>A vit\u00f3ria parcial de Kast tamb\u00e9m expressa a hegemonia de um projeto pol\u00edtico da direita (que vem ganhando cada vez mais apoio dos grandes empres\u00e1rios): ir fechando completamente o espa\u00e7o para reformas (econ\u00f4micas e democr\u00e1ticas) e apostar no desgaste e desmoraliza\u00e7\u00e3o da Conven\u00e7\u00e3o Constituinte para vencer o referendo para ratificar a Constituinte em 2022.<\/p>\n<p>Por outro lado, Boric n\u00e3o obteve um grande resultado eleitoral. Sua vota\u00e7\u00e3o foi um pouco superior \u00e0 vota\u00e7\u00e3o das prim\u00e1rias de sua coaliz\u00e3o (passou de 1,7 milh\u00f5es para 1,8 milh\u00f5es). Aqui tamb\u00e9m temos que abrir um par\u00eantese, j\u00e1 que nas prim\u00e1rias seguramente Boric teve votos dos eleitores tradicionais da ex Concerta\u00e7\u00e3o e inclusive da direita para vencer o ex-candidato do PC, Daniel Jadue.<\/p>\n<p>Um dos elementos que explica a baixa vota\u00e7\u00e3o de Boric \u00e9 que este n\u00e3o \u00e9 um candidato que representa a maioria do enorme movimento social que explodiu em 18 de outubro de 2019. E mais, Boric colocou-se contra ele em v\u00e1rios momentos, por exemplo, quando votou a favor da Lei Antibarricadas e promoveu o Acordo pela Paz, que garantiu a impunidade a Pi\u00f1era e aos respons\u00e1veis pela guerra ao povo. Boric tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um candidato com enraizamento popular nem oper\u00e1rio e n\u00e3o foi uma das figuras do processo revolucion\u00e1rio. Isto fez com que muitos ativistas, povo pobre, trabalhadores\/as e jovens n\u00e3o fossem votar ou votaram em outras candidaturas (como a de Parisi, que teve uma expressiva vota\u00e7\u00e3o, principalmente no norte do pa\u00eds e na classe oper\u00e1ria). Parisi conseguiu capitalizar uma parte importante do descontentamento com a pol\u00edtica tradicional e tamb\u00e9m com o modelo econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o eleitoral foi em torno de 46,7%, uma vota\u00e7\u00e3o que n\u00e3o supera com muita diferen\u00e7a as tradicionais elei\u00e7\u00f5es presidenciais. Como j\u00e1 t\u00ednhamos previsto em outra declara\u00e7\u00e3o, n\u00e3o houve um grande entusiasmo pelas elei\u00e7\u00f5es atuais. A baixa participa\u00e7\u00e3o afeta principalmente as comunas populares e rurais. Nas comunas burguesas a participa\u00e7\u00e3o superou 50% ou 60%.<\/p>\n<p>O primeiro passo para entender os resultados eleitorais \u00e9 compreender que <strong>as elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o um espelho da realidade. S\u00e3o a realidade distorcida.<\/strong> O peso do poder econ\u00f4mico, dos meios de comunica\u00e7\u00e3o (que est\u00e3o nas m\u00e3os das fam\u00edlias mais poderosas do pa\u00eds) e as regras do sistema eleitoral geram uma baixa participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e muitas distor\u00e7\u00f5es na representa\u00e7\u00e3o da \u201cvontade popular\u201d. O sistema democr\u00e1tico burgu\u00eas \u00e9 feito sob medida para os poderosos.<\/p>\n<p><strong>O pr\u00f3ximo Congresso Nacional<\/strong><\/p>\n<p>A prova dessa \u201cfalsa\u201d representa\u00e7\u00e3o popular \u00e9 o Congresso. Como \u00e9 poss\u00edvel entender que as mesmas for\u00e7as pol\u00edticas que governaram o pa\u00eds nos \u00faltimos 30 anos s\u00e3o a maioria no Novo Congresso? Aqui fica ainda mais evidente a distor\u00e7\u00e3o do \u201csistema democr\u00e1tico\u201d, que privilegia os candidatos de partidos pol\u00edticos tradicionais, n\u00e3o d\u00e1 espa\u00e7o para os independentes e onde se expressa um enorme peso dos candidatos com alto financiamento e presen\u00e7a midi\u00e1tica.\u00a0 A crise da Lista do Povo, com os esc\u00e2ndalos de Diego Ancalao e Pelao Vade, tamb\u00e9m contribuiu para a falta de uma alternativa que expressasse de forma mais direta o movimento de massas.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo Congresso (Senado e C\u00e2mara) \u00e9 nefasta para o povo e para a classe trabalhadora. N\u00e3o podemos ter nenhuma confian\u00e7a nesse Congresso. A \u00fanica possibilidade de conquistar mudan\u00e7as ou reformas est\u00e1 na press\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o das e dos trabalhadores nas ruas, como j\u00e1 ficou demonstrado com as retiradas das AFPs e a conquista do Processo Constituinte. O grande resultado das elei\u00e7\u00f5es para o Congresso \u00e9 a entrada de Fabiola Campillai, ativista em situa\u00e7\u00e3o de incapacidade pela repress\u00e3o estatal, que teve a impressionante cifra de 402 mil votos, ganhando a primeira maioria na capital e superando resultados de listas completas de partidos pol\u00edticos.<\/p>\n<p><strong>Como interpretar os resultados? Revolu\u00e7\u00e3o e contrarrevolu\u00e7\u00e3o no Chile<\/strong><\/p>\n<p>Desde o 18 de outubro de 2019, argumentamos que no Chile abriu-se um processo revolucion\u00e1rio. Isso porque as massas trabalhadoras e a juventude tomaram as ruas de todo o pa\u00eds questionando tudo: as institui\u00e7\u00f5es, a desigualdade, a falta de direitos, o abuso empresarial, a destrui\u00e7\u00e3o da natureza, ou seja, o conjunto do modelo econ\u00f4mico, social e pol\u00edtico. Esse movimento ficou imortalizado na consigna \u201cN\u00e3o s\u00e3o 30 pesos, s\u00e3o 30 anos\u201d. Esse enorme movimento tamb\u00e9m foi acompanhado pela viol\u00eancia de massas, principalmente a autodefesa contra as For\u00e7as Policiais. As massas respaldaram a viol\u00eancia contra o aparato estatal repressor. Todos os acontecimentos do pa\u00eds come\u00e7aram a girar em torno da a\u00e7\u00e3o de massas nas ruas. Por isso dizemos que se abriu uma revolu\u00e7\u00e3o no Chile.<\/p>\n<p>Entretanto, em uma revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe s\u00f3 o campo revolucion\u00e1rio. Nenhuma revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo ininterrupto de a\u00e7\u00f5es de massas que v\u00e3o arrancando conquistas e conquistas. Isso porque os inimigos do povo tamb\u00e9m se reorganizam, fazem propaganda, reproduzem mentiras, reprimem, negociam com os partidos pol\u00edticos, etc.<\/p>\n<p>Desde o 15 de novembro de 2019 (a negocia\u00e7\u00e3o que deu origem ao Processo Constituinte) as principais for\u00e7as pol\u00edticas do pa\u00eds (da direita \u00e0 esquerda, inclu\u00eddos a FA e o PC) concordaram em tentar canalizar o processo revolucion\u00e1rio atual pela via dos acordos, das negocia\u00e7\u00f5es, das mudan\u00e7as graduais, sem por em risco o conjunto da institucionalidade e o modelo econ\u00f4mico. Por isso, mantiveram o governo de Pi\u00f1era e estabeleceram limites muito estreitos \u00e0 atual Conven\u00e7\u00e3o Constitucional (n\u00e3o poder mudar os Tratados de Livre Com\u00e9rcio, ter que aprovar as normas constitucionais por \u2154 dos constituintes, etc.)<\/p>\n<p>O que se expressou nas elei\u00e7\u00f5es do \u00faltimo domingo, foi um primeiro fracasso dos que apostaram nessa via da negocia\u00e7\u00e3o. Por um lado, o candidato que defende fechar o processo revolucion\u00e1rio atrav\u00e9s da for\u00e7a foi o mais votado. Conseguiu canalizar todo o temor do setor mais conservador e privilegiado da sociedade, derrotando o setor mais \u201ccentrista\u201d da direita. Por outro, o candidato dos acordos e negocia\u00e7\u00f5es (que reproduz a mesma l\u00f3gica dos \u00faltimos 30 anos), Boric, foi castigado, j\u00e1 que n\u00e3o conseguiu mobilizar o voto popular, da imensa juventude, do povo pobre e da classe oper\u00e1ria. O pacto de 15 de novembro entra em sua primeira crise importante e o futuro est\u00e1 aberto.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora n\u00e3o surgiu nenhuma for\u00e7a popular e oper\u00e1ria que pudesse apresentar um projeto alternativo que levasse a fundo o questionamento ao capitalismo neoliberal chileno. Existe uma enorme crise de dire\u00e7\u00e3o no movimento que se iniciou em 18 de outubro. A r\u00e1pida e profunda crise da Lista do Povo tamb\u00e9m contribuiu para a falta de uma alternativa eleitoral que a classe trabalhadora pudesse identificar como sua. Por esses elementos \u00e9 que a burguesia consegue reorganizar-se, a partir de seu setor mais reacion\u00e1rio, e as for\u00e7as que defendem o pacto de 15 de novembro n\u00e3o conseguem satisfazer as necessidades populares e agora est\u00e3o sendo castigadas, embora ainda seja poss\u00edvel que Boric ganhe no segundo turno.<\/p>\n<p><strong>Os projetos apresentados<\/strong><\/p>\n<p>Kast e Boric representam projetos distintos. N\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa, embora no fundo ambos defendam o sistema capitalista. Kast defende aprofundar tudo o que existe hoje. Segundo ele e seus apoiadores, tudo est\u00e1 bem e os milh\u00f5es que foram \u00e0s ruas est\u00e3o equivocados ou s\u00e3o delinquentes. N\u00e3o sabemos reconhecer as maravilhas do Chile \u201cdesenvolvido\u201d e \u201cmoderno\u201d que existe hoje. O senhor Kast n\u00e3o tem ideia do que os trabalhadores vivem, porque faz parte da elite deste pa\u00eds e n\u00e3o tem nenhum dos problemas que n\u00f3s trabalhadores sofremos: os sal\u00e1rios miser\u00e1veis, as longas jornadas de trabalho, o amontoamento habitacional e um longo etc.<\/p>\n<p>Kast quer aprofundar o capitalismo neoliberal chileno. Manter o sistema de AFPs e o roubo das aposentadorias das e dos trabalhadores. Quer manter a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho do atual C\u00f3digo Trabalhista, elaborado pelo seu mestre Jos\u00e9 Pi\u00f1era e implementado pela ditadura. Prop\u00f5e aprofundar o \u201cextrativismo\u201d, ou seja, a produ\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios e pouco industrializados para exporta\u00e7\u00e3o. J\u00e1 conhecemos todas as consequ\u00eancias desse modelo: enorme destrui\u00e7\u00e3o ambiental, seca em regi\u00f5es inteiras, contamina\u00e7\u00e3o das comunidades, emprego prec\u00e1rio, impossibilidade de desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico e um longo etc. E tudo isso para que os empres\u00e1rios nacionais e estrangeiros continuem se enriquecendo, saqueando os produtos do nosso trabalho, nossa terra e mar. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 principal riqueza do pa\u00eds, o cobre, Kast vai ainda mais longe e prop\u00f5e privatizar o pouco que ainda est\u00e1 nas m\u00e3os do Estado, a empresa estatal Codelco. Sua proposta de privatiza\u00e7\u00e3o da Codelco vai no sentido contr\u00e1rio do que o pa\u00eds precisa. Enquanto a maioria do povo exige mais direitos na Nova Constitui\u00e7\u00e3o, Kast quer acabar de entregar a riqueza que permitiria financiar moradia, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, suas propostas relacionadas \u00e0s mulheres e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBTI s\u00e3o um enorme retrocesso em rela\u00e7\u00e3o aos poucos direitos em que se avan\u00e7ou. Prop\u00f5e acabar com o direito ao aborto nas tr\u00eas circunst\u00e2ncias (as aprovadas em 2017, ndt,), obrigando as mulheres a terem filhos inclusive nas piores condi\u00e7\u00f5es. Quer fazer retroceder os direitos da popula\u00e7\u00e3o LGBTI e aprofundar a discrimina\u00e7\u00e3o contra a diversidade sexual.<\/p>\n<p>E, por \u00faltimo, quer acabar com toda possibilidade de mudan\u00e7as que se abriram com a Conven\u00e7\u00e3o Constitucional. Sua resposta \u00e0s demandas populares \u00e9: piorar a vida do povo e se algu\u00e9m reclamar, colocar a pol\u00edcia e os militares para reprimir. Como bom herdeiro de Pinochet, quer perseguir os ativistas sociais e prend\u00ea-los, aprofundando a persegui\u00e7\u00e3o estatal que j\u00e1 existe hoje contra os mapuches, a juventude e a classe trabalhadora que se organiza.<\/p>\n<p><strong>Por isso chamamos a classe trabalhadora e a juventude a n\u00e3o votar em Kast e, al\u00e9m disso, combater essa candidatura. \u00c9 fundamental que enfrentemos as propostas reacion\u00e1rias de Kast e o grande empresariado com mobiliza\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m com o voto contra Kast no segundo turno.<\/strong><\/p>\n<p>Embora Kast tenha um projeto autorit\u00e1rio e nefasto para a maioria da popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o opinamos que Kast represente hoje um movimento fascista. O conceito de \u201cfascismo\u201d est\u00e1 muito banalizado entre o ativismo e em geral \u00e9 utilizado como sin\u00f4nimo de autoritarismo. Entretanto, autoritarismo e fascismo s\u00e3o coisas distintas. O fascismo foi um movimento muito reacion\u00e1rio, financiado pelo grande capital que se apoiava em setores mobilizados e militarizados do l\u00fampen e da pequena burguesia empobrecida, que utilizavam m\u00e9todos de guerra civil para acabar com as organiza\u00e7\u00f5es populares e oper\u00e1rias. Isso gerou o esmagamento do movimento popular e oper\u00e1rio na It\u00e1lia de Mussolini e na Alemanha nazista. Partidos ou movimentos pr\u00f3ximos a Kast podem ter embri\u00f5es de fascismo, mas esses elementos ainda est\u00e3o para serem desenvolvidos. Hoje inclusive Kast tenta fazer um movimento para o centro, moderando parte de seu discurso para disputar o voto de setores \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d da sociedade. Isto n\u00e3o significa que Kast n\u00e3o seja muito perigoso e que seu governo n\u00e3o ser\u00e1 mais repressor que o governo de Pi\u00f1era. Entretanto, devemos entender quem \u00e9 o inimigo para poder enfrent\u00e1-lo.<\/p>\n<p>E aqui entra outra discuss\u00e3o: como enfrentamos Kast? \u00c9 suficiente votar em Boric e ficarmos tranquilos?<\/p>\n<p><strong>No segundo turno, propomos votar em Boric para que Kast n\u00e3o chegue \u00e0 presid\u00eancia. Entretanto, n\u00e3o devemos ter nenhuma confian\u00e7a no projeto de Boric e Aprovo Dignidade, porque sua estrat\u00e9gia conduz \u00e0 derrota do enorme movimento iniciado em outubro de 2019.<\/strong><\/p>\n<p>Boric tem um programa de reformas com v\u00e1rios pontos progressistas que vem do movimento social e popular: o fim das AFPs, o aumento das aposentadorias, a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, o direito ao aborto, etc. Entretanto, o maior problema de Boric \u00e9 a estrat\u00e9gia de seu bloco. Boric, a Frente Ampla e o Partido Comunista afirmam que \u00e9 poss\u00edvel conquistar reformas para a classe trabalhadora, negociando com o grande empresariado e respeitando a institucionalidade atual, que est\u00e1 totalmente a servi\u00e7o dos donos do pa\u00eds (Congresso, Justi\u00e7a, etc). Querem nos fazer acreditar que \u00e9 poss\u00edvel transformar o Chile, resolver o conflito mapuche, os problemas de emprego e ambientais atrav\u00e9s de reformas negociadas com o grande empresariado. Kast critica Boric e o PC por serem comunistas. Nada mais distante da realidade. Boric e o Partido Comunista s\u00e3o reformistas e suas propostas est\u00e3o totalmente dentro dos marcos do capitalismo: cobrar mais impostos dos ricos para financiar direitos sociais.<\/p>\n<p>Essa estrat\u00e9gia j\u00e1 fracassou com a ex Concerta\u00e7\u00e3o e vai fracassar novamente. Como Boric pretende aprovar suas reformas no Congresso atual? Como a Frente Ampla prop\u00f5e escrever uma Constitui\u00e7\u00e3o que mude profundamente o pa\u00eds se ter\u00e1 que negociar com a direita e com a ex Concerta\u00e7\u00e3o para chegar aos \u2154 dos votos? Como se prop\u00f5e mudar o modelo extrativista respeitando os Tratados de Livre Com\u00e9rcio que n\u00e3o permitem nenhum grau de soberania nacional?<\/p>\n<p>O giro \u00e0 direita de Boric \u00e9 cada vez mais evidente. Nos \u00faltimos dias, Boric fez discursos t\u00edpicos de candidatos da direita, dizendo que ter\u00e1 m\u00e3o pesada contra o narcotr\u00e1fico e questionando a liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos. Al\u00e9m disso, incorporou em seus comandos figuras de peso da ex Concerta\u00e7\u00e3o. Tudo isso para agradar o grande empresariado e mostrar que pode garantir a \u201cgovernabilidade\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, por que chamamos a votar em Boric?<\/strong><\/p>\n<p>Porque acreditamos que a vit\u00f3ria de Kast significaria uma vit\u00f3ria do grande empresariado e nos colocaria num cen\u00e1rio pior para as futuras lutas da classe trabalhadora e do povo. Uma vit\u00f3ria de Boric poderia gerar um maior movimento social que pressione o governo para que cumpra suas promessas e para arrancar mais conquistas para a classe trabalhadora, apesar da estrat\u00e9gia do PC e da FA.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 necess\u00e1rio construir um novo projeto para a classe trabalhadora e os povos<\/strong><\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es atuais, n\u00e3o h\u00e1 um candidato que represente os interesses imediatos e hist\u00f3ricos da classe trabalhadora. Os povos do Chile, a juventude e a classe oper\u00e1ria devem construir um projeto de mudan\u00e7a radical do sistema capitalista neoliberal, que proponha uma estrat\u00e9gia para <strong>derrotar <\/strong>o grande empresariado e colocar as riquezas do pa\u00eds a servi\u00e7o da enorme maioria da popula\u00e7\u00e3o e da recupera\u00e7\u00e3o da natureza. O Chile pode ser um exemplo para todo o mundo na liberta\u00e7\u00e3o do sistema capitalista.<\/p>\n<p>Os povos que vivem no Chile e em Wallmapu devem elaborar um programa que passe pela recupera\u00e7\u00e3o das principais riquezas do pa\u00eds, para que tudo isso seja administrado pela classe trabalhadora e pelos povos organizados. Isto passa por nacionalizar todas as grandes empresas estrat\u00e9gicas do pa\u00eds, que hoje s\u00e3o as que garantem os lucros a um punhado de grandes empres\u00e1rios. \u00c9 necess\u00e1rio nacionalizar a grande minera\u00e7\u00e3o do cobre, l\u00edtio, as grandes empresas florestais, as AFPs e os bancos. Tudo isso deve ser colocado a servi\u00e7o da classe trabalhadora e do povo para que se possa planificar a economia de acordo com as necessidades dos povos e da recupera\u00e7\u00e3o da natureza. \u00c9 necess\u00e1rio acabar com o saque extrativista de nosso pa\u00eds, frear a explora\u00e7\u00e3o irracional dos bens minerais, das florestas, dos mares. Devemos frear os grandes projetos extrativistas e diversificar a economia em harmonia com a natureza, da qual somos parte.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 por isso que com nossa companheira Mar\u00eda Rivera e diversas organiza\u00e7\u00f5es sindicais e sociais apresentaremos um projeto para que a Nova Constitui\u00e7\u00e3o nacionalize o cobre, o l\u00edtio e a \u00e1gua, como um primeiro passo na recupera\u00e7\u00e3o de todas as riquezas do pa\u00eds. Sabemos que a maioria dos partidos pol\u00edticos na Constituinte n\u00e3o defende esse projeto, j\u00e1 que est\u00e3o a servi\u00e7o das grandes transnacionais. Por isso, acreditamos que seja necess\u00e1rio gerar um grande movimento oper\u00e1rio e popular para que os constituintes e o Estado respeitem a vontade do povo.<\/strong><\/p>\n<p>Para enfrentar Kast (ou inclusive Boric) \u00e9 necess\u00e1rio que a classe trabalhadora retome o caminho da organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1rio reconstruir as assembleias territoriais, recuperar os sindicatos para as m\u00e3os das e dos trabalhadores, fortalecer as organiza\u00e7\u00f5es de mulheres, diversidade sexual e juventude. Ir votar em 19 de dezembro \u00e9 parte dessa luta, mas n\u00e3o \u00e9 a parte mais central.<\/p>\n<p>N\u00f3s do MIT (Movimento Internacional dos Trabalhadores) estamos a servi\u00e7o de organizar a classe trabalhadora e a juventude para lutar contra Kast e contra todos os governos capitalistas. Essas lutas devem ter um objetivo final: a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade livre da explora\u00e7\u00e3o, desigualdade e opress\u00e3o. Convidamos todas e todos os lutadores sociais a conhecer o MIT e contribuir nesta constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilian Enck<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os resultados eleitorais do \u00faltimo domingo foram tomados com surpresa dentro e fora do Chile. 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