{"id":65270,"date":"2021-11-03T15:18:18","date_gmt":"2021-11-03T18:18:18","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65270"},"modified":"2021-11-03T15:18:18","modified_gmt":"2021-11-03T18:18:18","slug":"65270-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/11\/03\/65270-2\/","title":{"rendered":"\u00c1frica do Sul: Trabalhadores metal\u00fargicos mostram o caminho da luta"},"content":{"rendered":"<p><em>Nos m\u00eas de julho deste ano a \u00c1frica do Sul viveu uma gigantesca onda de saques a supermercados, shoppings e com\u00e9rcios em geral. A repress\u00e3o tamb\u00e9m foi violenta e fala-se em mais de 300 mortos. Os debates entre os trabalhadores foram v\u00e1rios. Os dois mais importantes era se dever\u00edamos apoiar ou n\u00e3o os que saqueavam, e o outro debate foi sobre o significado dos saques.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Cesar Neto<\/p>\n<p><strong>Apoiar ou n\u00e3o apoiar os saques? <\/strong><\/p>\n<p>Partindo dessa pergunta havia aqueles que diziam que como foi a quadrilha de Zuma que come\u00e7ou os saques, n\u00e3o dever\u00edamos apoi\u00e1-lo. Quem pensava assim negava que os saques, se bem \u00e9 verdade que foram iniciados por disputas internas na ANC, depois do segundo dia adquiriu uma din\u00e2mica pr\u00f3pria com a entrada em cena da popula\u00e7\u00e3o pobre e faminta saqueando e tratando de conquistar aquilo que os baixos sal\u00e1rios os impedia de ter acesso.<\/p>\n<p>Nos grupos de esquerda, houve aqueles que negavam o apoio aos saques, pois segundo eles, por ser algo espont\u00e2neo, n\u00e3o servia para organizar as massas no partido revolucion\u00e1rio. E nesse sentido se sentiam no direito \u00e0 neutralidade.<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m aqueles, como o nosso caso, que dissemos que os saques eram a primeira manifesta\u00e7\u00e3o contra a fome e a mis\u00e9ria e que mesmo com todas as limita\u00e7\u00f5es das a\u00e7\u00f5es explosivas, n\u00f3s e todos aqueles que est\u00e3o ao lado dos trabalhadores, devemos apoiar a luta, organizar assembleias de bairros e democraticamente discutir os rumos do movimento. E diante da repress\u00e3o, denunciar o Estado burgu\u00eas e seus governos e defender incondicionalmente os trabalhadores.<\/p>\n<p><strong>Qual o significado dos saques?<\/strong><\/p>\n<p>Havia uma outra discuss\u00e3o. Qual o significado desses saques e para onde apontavam? Para n\u00f3s, os saques n\u00e3o podiam ser encarados como um fato isolado. Os saques significavam que os trabalhadores estavam come\u00e7ando a dizer basta e a atitude de Zuma foi apenas a fa\u00edsca que faltava e que a partir dali poderia se abrir um importante per\u00edodo de lutas<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Entender essa prov\u00e1vel din\u00e2mica \u00e9 fundamental para a organiza\u00e7\u00e3o marxista de quadros. Ao entender as lutas que se avizinham, cabe \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o marxista preparar seus quadros para intervir nesses processos vindouros.<\/p>\n<p><strong>Os metal\u00fargicos disseram: n\u00e3o!<\/strong><\/p>\n<p>A negocia\u00e7\u00e3o do Contrato Coletivo com dura\u00e7\u00e3o de tr\u00eas anos chegou ao impasse na medida que o NUMSA (o principal sindicato) que inicialmente reivindicava 15% e acabou reduzindo a \u00a08% de aumento e mais 2% acima da infla\u00e7\u00e3o em 2012 e 2013. A patronal, acostumada com um relativo receio ao desemprego, ofereceu 4,4% e, 05% e 1% acima da infla\u00e7\u00e3o nos dois pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>E os trabalhadores metal\u00fargicos disseram: n\u00e3o!<\/p>\n<p><strong>A for\u00e7a da greve<\/strong><\/p>\n<p>A greve iniciada no dia 5 de outubro foi muito forte. Forte pelo n\u00famero de empresas paralisadas, pela radicalidade dos trabalhadores e por todo o apoio recebido.<\/p>\n<p>Em Johanesburgo, uma cidade com quase um milh\u00e3o de habitantes, teve uma passeata com vinte mil pessoas. Ou seja, para cada cinquenta pessoas que moram na cidade, uma foi \u00e0 passeata! Os dias foram passando, a greve continuava forte apesar da repress\u00e3o praticada pelo Estado capitalista sul africano dirigido pelo CNA.\u00a0 Houve pelo menos dois mortos e algumas dezenas de feridos na repress\u00e3o. Depois de tr\u00eas semanas de greve chegou-se a um acordo. A patronal aceitou elevar sua proposta para 6% para os menores sal\u00e1rios e entre 5 e 5,5% para os maiores sal\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>Numsa, a dire\u00e7\u00e3o sindical<\/strong><\/p>\n<p>O Numsa (National Union of Metalworkers of South Africa\/ Sindicato Nacional dos Metal\u00fargicos da \u00c1frica do Sul) representa aproximadamente 400 mil trabalhadores. Nem todos s\u00e3o metal\u00fargicos, pois mesmo se chamando Sindicato Nacional dos Metal\u00fargicos, dentro do modelo de estrutura sindical sul-africana, ele tamb\u00e9m representa transportistas, comerci\u00e1rios, qu\u00edmicos, etc. Ent\u00e3o desses 400 mil afiliados, aproximadamente 155 mil s\u00e3o os metal\u00fargicos que estiveram em greve.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2018 o Numsa com o apoio de outras organiza\u00e7\u00f5es menores lan\u00e7ou um partido pol\u00edtico com o pomposo nome Partido Socialista Revolucion\u00e1rio dos Trabalhadores<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. O manifesto fazia muitas refer\u00eancias \u00e0 luta anticapitalista e pelo socialismo. Foi uma grande esperan\u00e7a at\u00e9 que foi lan\u00e7ado o projeto de estatuto extremamente centralizado, burocr\u00e1tico e ao modelo estalinista. Diga-se de passagem j\u00e1 no lan\u00e7amento reivindicavam a figura de Jos\u00e9 Stalin. Em 2019 participaram das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, e foi exatamente durante a campanha eleitoral que ficou evidente que sem democracia na base, n\u00e3o haveria envolvimento dos trabalhadores. Os in\u00fameros com\u00edcios consumiram grandes gastos de transporte, alimenta\u00e7\u00e3o e incentivo financeiro para que a popula\u00e7\u00e3o participasse e o resultado foi p\u00edfio, obtiveram 24.500 votos ou 0,14%.<\/p>\n<p><strong>O final da greve<\/strong><\/p>\n<p>A greve foi muito forte. Paralisa\u00e7\u00e3o total das f\u00e1bricas e a burguesia come\u00e7ou a sentir seus efeitos. A BWM estava tendo problemas com pe\u00e7as para produ\u00e7\u00e3o de carros que seriam exportados. A ind\u00fastria sider\u00fargica pressionava pela volta ao trabalho para n\u00e3o prejudicar suas exporta\u00e7\u00f5es para a China. Enquanto isso o Estado sul-africano governado pela coaliz\u00e3o CNA &#8211; COSATO &#8211; PC usava de todas as armas para pressionar. Das medidas jur\u00eddicas \u00e0 repress\u00e3o aberta. E os trabalhadores seguiam resistindo. A dire\u00e7\u00e3o do Numsa resolveu acabar com a greve. N\u00e3o conseguindo aprova\u00e7\u00e3o na base, aprovou na sua dire\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>O valor acordado com a patronal, pelo tamanho da greve e pela sua radicalidade, foi um fiasco. Tr\u00eas semanas de greve para conseguir apenas 6%, isto \u00e9 a infla\u00e7\u00e3o anual acumulada at\u00e9 outubro, ou entre 0,6 a 1,4% acima do inicialmente oferecido pela patronal.<\/p>\n<p><strong>A greve acabou, mas a vida n\u00e3o melhorou<\/strong><\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o do Numsa burocraticamente acabou com a greve. A situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora segue a mesma. Os sal\u00e1rios seguem insuficientes e, portanto a luta continua, como diz o refr\u00e3o usado na \u00c1frica do Sul. Disposi\u00e7\u00e3o de luta os trabalhadores j\u00e1 mostraram que t\u00eam. Mas para que a luta continue e obtenha os ganhos necess\u00e1rios \u00e9 preciso de uma nova dire\u00e7\u00e3o sindical para o Numsa, sem burocratas e com democracia oper\u00e1ria.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-65271 size-full\" style=\"text-align: center;\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Af-sul.png\" alt=\"\" width=\"767\" height=\"498\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Af-sul.png 767w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Af-sul-300x195.png 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Af-sul-150x97.png 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Af-sul-696x452.png 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 100vw, 767px\" \/><\/p>\n<p>Marcha em Johanesburgo em apoio a greve &#8211; 05.10.2021<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0 \u00c1frica do Sul: retomando o caminho da luta, contra o CNA e o Partido Comunista\u00a0 &#8211; https:\/\/litci.org\/pt\/64874-2\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos m\u00eas de julho deste ano a \u00c1frica do Sul viveu uma gigantesca onda de saques a supermercados, shoppings e com\u00e9rcios em geral. 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