{"id":65240,"date":"2021-11-01T10:26:00","date_gmt":"2021-11-01T13:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65240"},"modified":"2021-11-01T10:26:00","modified_gmt":"2021-11-01T13:26:00","slug":"65240-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/11\/01\/65240-2\/","title":{"rendered":"A pol\u00eamica com o stalinismo sobre Cuba e o\u00a0 15N"},"content":{"rendered":"<p><em>Um fato chamou a aten\u00e7\u00e3o dos ativistas de esquerda em todo mundo no dia 11 de julho. Mobiliza\u00e7\u00f5es populares, com peso importante da juventude pobre, sacudiram Cuba. As lutas come\u00e7aram no pequeno povoado de San Antonio de los Ba\u00f1os e rapidamente se estenderam a 60 cidades da ilha. Os relatos dos ativistas de esquerda cubanos constatavam que foram mobiliza\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas em Havana, dos bairros mais pobres.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Eduardo Almeida<\/p>\n<p>Imediatamente a ditadura cubana reprimiu as mobiliza\u00e7\u00f5es, ferindo e prendendo centenas de pessoas. At\u00e9 os dias de hoje, passaram pelas pris\u00f5es por conta do 11 J, ao redor de 1000 pessoas, uma boa parte deles bem jovens. Alguns est\u00e3o sendo condenados a v\u00e1rios anos de pris\u00e3o. A repress\u00e3o foi t\u00e3o violenta que artistas cubanos que n\u00e3o podem ser acusados de \u201cpr\u00f3-imperialistas\u201d \u2014 como Silvio Rodrigues, Pablo Milan\u00e9s e Leonardo Padura \u2014 a repudiaram e defenderam a liberta\u00e7\u00e3o dos presos.<\/p>\n<p>Ainda assim, o aparato stalinista mundial apoiou a repress\u00e3o em Cuba. Tanto o governo cubano como os PCs em todo mundo atribu\u00edram as mobiliza\u00e7\u00f5es aos \u201cagentes do imperialismo norte-americano\u201d.<\/p>\n<p>No dia 15 de novembro est\u00e3o sendo convocadas novas mobiliza\u00e7\u00f5es em Cuba.\u00a0 Quem fez o chamado foi a Plataforma Arquip\u00e9lago, organizada atrav\u00e9s da iniciativa de Yunior Garc\u00eda, dramaturgo e outros ativistas. A convocat\u00f3ria est\u00e1 centrada na defesa das liberdades democr\u00e1ticas na ilha e pela liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos do 11J. Foram pedidas autoriza\u00e7\u00f5es para essas manifesta\u00e7\u00f5es de acordo com a constitui\u00e7\u00e3o vigente em Cuba. A resposta do governo foi negar a autoriza\u00e7\u00e3o e amea\u00e7ar uma repress\u00e3o ainda mais violenta no dia 15 de novembro que no 11J.<\/p>\n<p>Novamente, existe uma enorme campanha do governo cubano, dos PCs em todo o mundo e de seus apoiadores, dizendo que as mobiliza\u00e7\u00f5es seriam de \u201cagentes do imperialismo\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, o governo cubano s\u00f3 tem de socialista o nome, com que se cobre para ter apoio internacional. Trata-se de uma ditadura burguesa, odiada pela popula\u00e7\u00e3o. A crise econ\u00f4mica e o recrudescimento da pandemia aumentaram a mis\u00e9ria das massas, assim como no mundo todo.\u00a0 E a explos\u00e3o do dia 11 de julho tem a mesma base dos processos de mobiliza\u00e7\u00e3o que ocorreram na Col\u00f4mbia no in\u00edcio do ano e agora se iniciam no Equador.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos o que vai ocorrer no dia 15 de novembro. Seguramente a ditadura vai reprimir fortemente. Pode ser at\u00e9 que consigam evitar a mobiliza\u00e7\u00e3o ou reduzir o seu peso. Mas at\u00e9 quando o governo castrista vai se manter? Est\u00e1 se gestando uma explos\u00e3o, um levante popular contra esse regime que pode acontecer, n\u00e3o sabemos em que prazo.<\/p>\n<p>E o papel da esquerda mundial \u00e9 muito importante. O povo cubano acha que toda a esquerda no mundo apoia a ditadura castrista. E tem motivos para isso, pelo papel do aparato stalinista mundial e a fragilidade da esquerda n\u00e3o stalinista. \u00c9 isso que tem de mudar, a come\u00e7ar pelo dia 15 de novembro.<\/p>\n<p>Existe em Cuba toda uma nova vanguarda que veio se formando nos \u00faltimos anos e ganhou novo impulso com as mobiliza\u00e7\u00f5es de 11J. J\u00e1 existiam ativistas com um programa democr\u00e1tico, com peso entre artistas, jornalistas, lutadores de movimentos contra a opress\u00e3o contra os negros, LGBTIs e mulheres. Alguns deles se organizaram em maio de 2019, numa marcha LGBTI n\u00e3o autorizada. Outros setores se formaram em iniciativas que discutiam as liberdades democr\u00e1ticas em Cuba.\u00a0 Com o 11J, se formaram outros grupos, e, recentemente, a plataforma Arquip\u00e9lago. \u00c9 essa a vanguarda que de forma valente est\u00e1 impulsionando a mobiliza\u00e7\u00e3o do 15N.<\/p>\n<p><strong>A base ideol\u00f3gica do stalinismo <\/strong><\/p>\n<p>O stalinismo \u00e9 um aparato mundial ainda muito poderoso, embora bem menos do que nos tempos dos estados oper\u00e1rios burocr\u00e1ticos. Conta com muitos PCs em todo o mundo, alguns deles com peso como o PC do B e PC no Brasil, PC chileno, PC paraguaio, PC portugu\u00eas e etc. Al\u00e9m disso, tem o apoio de outros partidos reformistas, como o PT e o PSOL no Brasil, e muitos outros no mundo.<\/p>\n<p>O stalinismo substitui o m\u00e9todo de an\u00e1lise marxista das classes sociais pelo dos \u201ccampos progressivos\u201d. De um lado est\u00e3o os campos progressivos, que incluem os \u201cgovernos de esquerda\u201d e as \u201cburguesias progressivas\u201d. Do outro, est\u00e1 o imperialismo norte americano. Nos pa\u00edses dirigidos por esses \u201cgovernos de esquerda\u201d, n\u00e3o existe proletariado, burguesia, nem a luta de classes. Como esses governos s\u00e3o \u201cprogressivos\u201d, todos os que se op\u00f5em a eles s\u00e3o \u201cagentes do imperialismo norte americano\u201d.<\/p>\n<p>Como essa metodologia, os PCs afirmam que a China at\u00e9 hoje \u00e9 \u201csocialista\u201d. Partindo disso, os PCs apoiaram o massacre da Pra\u00e7a da Paz Celestial em 1989, quando milhares de chineses foram mortos em Pequim em uma manifesta\u00e7\u00e3o pac\u00edfica.<\/p>\n<p>A China \u00e9 uma pot\u00eancia capitalista, que ajudou o imperialismo a rebaixar os sal\u00e1rios dos trabalhadores de todo mundo com a imposi\u00e7\u00e3o de um brutal arrocho salarial nesse pa\u00eds. Para l\u00e1 se deslocou uma parte importante dos investimentos das grandes empresas multinacionais. A f\u00e1brica da Apple, a Foxcomm em Zhengzghou, virou uma refer\u00eancia mundial para o imperialismo fabricando iphones com trabalhadores com p\u00e9ssimos sal\u00e1rios e um ritmo brutal de trabalho.\u00a0 Em 2012, 150 trabalhadores subiram ao telhado da f\u00e1brica, amea\u00e7ando se suicidar se n\u00e3o houvesse melhorias nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Mas para o aparato stalinista mundial, a China \u00e9 \u201csocialista\u201d.<\/p>\n<p>Para justificar o injustific\u00e1vel, os PCs e seus apoiadores argumentam que esse \u00e9 o \u201csocialismo\u201d dos dias atuais, diferente da concep\u00e7\u00e3o socialista dos primeiros anos da URSS, assim como de Marx e Engels. No entanto, a transi\u00e7\u00e3o do capitalismo para o socialismo, em um estado oper\u00e1rio, pressup\u00f5e a estatiza\u00e7\u00e3o das grandes empresas, a planifica\u00e7\u00e3o da economia e o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior. Da mesma forma, os sete primeiros anos da URSS mostraram ao mundo um exemplo de democracia oper\u00e1ria jamais atingida por qualquer democracia burguesa. Esses n\u00e3o s\u00e3o \u201ccrit\u00e9rios do passado\u201d, s\u00e3o as bases marxistas, t\u00e3o validas hoje como no s\u00e9culo passado, porque o imperialismo segue dominando o mundo. O que existe disso na China?<\/p>\n<p>O setor mais importante da economia chinesa s\u00e3o as grandes f\u00e1bricas de propriedade da burguesia nacional chinesa e multinacional. N\u00e3o existe nenhum monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior, nem planifica\u00e7\u00e3o da economia. Desde o ponto de vista pol\u00edtico, o que existe \u00e9 uma ditadura policial do PC, violenta e repressiva, como se manifestou no massacre de Tiananmen. N\u00e3o existe nenhum crit\u00e9rio marxista para entender a China como \u201csocialista\u201d. S\u00f3 sobra a apar\u00eancia, o fato do PC chin\u00eas seguir dirigindo o pa\u00eds, agora como express\u00e3o da grande burguesia chinesa.<\/p>\n<p>Com essa mesma metodologia, os PCs e seus apoiadores apoiam o genocida Assad, ditador s\u00edrio, que massacrou 500 mil habitantes e obrigou 5 milh\u00f5es a se exilarem, para bancar sua ditadura. Apoiam a ditadura burguesa e corrupta de Maduro na Venezuela. Apoiam a ditadura de Ortega na Nicar\u00e1gua, que matou 400 pessoas, reprimindo os protestos contra ele em 2018. Afinal de contas, esses s\u00e3o governos \u201cde esquerda\u201d, e os que se op\u00f5em a eles s\u00e3o \u201cagentes do imperialismo\u201d.<\/p>\n<p>Em todos esses pa\u00edses, mesmo que o stalinismo n\u00e3o reconhe\u00e7a, seguem existindo classes sociais. Existem trabalhadores, que passam fome e lutam por seus direitos. Existem fortes burguesias, como a chinesa que disputa o mercado mundial com os EUA. Existe a boliburguesia, que cresceu sob o aparato de Estado na Venezuela. Ortega \u00e9 um dos maiores milion\u00e1rios burgueses na Nicar\u00e1gua.<\/p>\n<p>Em todos esses pa\u00edses existe realmente a a\u00e7\u00e3o do imperialismo, que domina o mundo. Para ser preciso, a\u00e7\u00f5es dos v\u00e1rios pa\u00edses imperialistas. E essas ditaduras burguesas apoiadas pelos PCs, estiveram e est\u00e3o associadas a setores do imperialismo. A burguesia chinesa agora tem s\u00e9rias disputas com o imperialismo norte-americano. Mas \u00e9 ineg\u00e1vel que boa parte do crescimento chin\u00eas das \u00faltimas d\u00e9cadas se deu em completa associa\u00e7\u00e3o com as grandes empresas imperialistas, que investiram fortemente no pa\u00eds. Assad foi quem implementou as reformas neoliberais e as privatiza\u00e7\u00f5es na S\u00edria. Ortega era o queridinho dos governos dos EUA na Nicar\u00e1gua at\u00e9 poucos anos atr\u00e1s, garantindo todos os planos neoliberais. Maduro assegura at\u00e9 hoje a continuidade da explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo no pa\u00eds em associa\u00e7\u00e3o com as multinacionais imperialistas. Mas, para a f\u00e1bula stalinista, esses governos s\u00e3o \u201canti-imperialistas\u201d.<\/p>\n<p><strong>A restaura\u00e7\u00e3o capitalista em Cuba<\/strong><\/p>\n<p>Em Cuba se deu um processo de restaura\u00e7\u00e3o capitalista com algumas caracter\u00edsticas parecidas, outras bem diferentes, ao da China.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 90, a mesma dire\u00e7\u00e3o castrista que dirigiu a revolu\u00e7\u00e3o de 1959, comandou a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na ilha. Isso facilita o engano dos ativistas em todo o mundo. Afinal de contas, s\u00e3o os Partidos comunistas chin\u00eas e cubano que seguem no poder.<\/p>\n<p>O antigo estado oper\u00e1rio burocratizado cubano desapareceu, permanecendo s\u00f3 sua apar\u00eancia, com o PC a frente, como na China.\u00a0 A restaura\u00e7\u00e3o incluiu uma modifica\u00e7\u00e3o completa na economia, que hoje tem seu centro no turismo, com grandes hot\u00e9is das redes espanholas Meli\u00e1 e Ibero Star \u00e0 frente. O rum cubano \u00e9 controlado pela empresa francesa Pernod.\u00a0Os charutos cubanos s\u00e3o comercializados por uma joint venture entre a estatal cubana e a Altadis, do grupo ingl\u00eas Imperial Tobacco Group PLC.\u00a0O aeroporto internacional de Havana foi privatizado para a empresa francesa A\u00e9roports de Paris. Joint ventures com empresas imperialistas comp\u00f5em a ess\u00eancia da nova burguesia cubana, originada na alta c\u00fapula das for\u00e7as armadas, e concentrada ao redor da GAESA (Grupo de Administraci\u00f3n Empresarial SA.)<\/p>\n<p>As conquistas da revolu\u00e7\u00e3o na sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, que foram mostradas com orgulho pelos ativistas de esquerda em toda a Am\u00e9rica Latina, est\u00e3o em retrocesso evidente. Um exemplo disso foi a terr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o de colapso na assist\u00eancia m\u00e9dica em Cuba com o recrudescimento da pandemia, bem parecido ao que ocorreu nos pa\u00edses latino-americanos. Isso levou com que, inclusive, o governo colocasse a culpa nos m\u00e9dicos do pa\u00eds, gerando manifesta\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de v\u00eddeos e cartas por todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>A mis\u00e9ria persegue Cuba, com baix\u00edssimos sal\u00e1rios para os trabalhadores. <\/strong><\/p>\n<p>Mais uma vez, o aparato stalinista tenta embelezar a restaura\u00e7\u00e3o capitalista ocorrida em Cuba como o \u201csocialismo de hoje\u201d, distinto dos tempos passados. Isso nada tem de marxista. N\u00e3o existe mais planifica\u00e7\u00e3o da economia cubana desde a d\u00e9cada de 90, quando come\u00e7ou a restaura\u00e7\u00e3o. As grandes empresas capitalistas fazem o que querem. N\u00e3o existe mais monop\u00f3lio do com\u00e9rcio exterior tampouco, pelo mesmo motivo. Seguem existindo empresas estatais em Cuba, como existem em muitos pa\u00edses capitalistas. Mas o setor mais importante da economia cubana \u2014 o turismo \u2014 \u00e9 dominado pelas empresas imperialistas europeias como a rede Meli\u00e1 e\u00a0 Iberostar.<\/p>\n<p>Os fatos desmentem a f\u00e1bula stalinista do \u201csocialismo cubano\u201d. O antigo estado cubano, mesmo burocratizado, era regido por sua planifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e as empresas estatais. A economia cubana hoje \u00e9 regida pela lei do valor, que rege todas as economias capitalistas. Uma demonstra\u00e7\u00e3o disso \u00e9 a recess\u00e3o ocorrida na ilha no ano passado, com queda de 11% do PIB, em fun\u00e7\u00e3o da recess\u00e3o na economia capitalista mundial. Basta comparar com a evolu\u00e7\u00e3o da economia na URSS, que durante a depress\u00e3o de 1929 crescia a produ\u00e7\u00e3o industrial a mais de 10% por ano.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2020, o governo stalinista de D\u00edaz-Canel imp\u00f4s um plano chamado \u201cTarefa de Ordenamento\u201d \u2014 que se assemelha, em termos de conte\u00fado, a um plano neoliberal dur\u00edssimo. Os stalinistas rejeitam a compara\u00e7\u00e3o do plano cubano com os planos neoliberais dos outros pa\u00edses. Eles falam isso porque n\u00e3o refletem os trabalhadores cubanos, mas os interesses do governo castrista.<\/p>\n<p>O plano tinha como objetivo imediato a unifica\u00e7\u00e3o das moedas vigentes em Cuba. Mas o resultado para as massas foi um rebaixamento salarial importante: o sal\u00e1rio-m\u00ednimo em Cuba hoje \u00e9 de 33 d\u00f3lares ao m\u00eas, com os produtos sendo vendidos a pre\u00e7os semelhantes aos de toda a Am\u00e9rica Latina. Al\u00e9m disso, houve uma eleva\u00e7\u00e3o brutal dos pre\u00e7os do g\u00e1s e energia el\u00e9trica. O plano causou tamb\u00e9m hiperinfla\u00e7\u00e3o e desabastecimento, que agravaram a mis\u00e9ria do povo cubano.<\/p>\n<p>Para piorar tudo, houve um recrudescimento da pandemia na ilha. Como ent\u00e3o, n\u00e3o se pode comparar com um pesad\u00edssimo plano neoliberal? S\u00f3 quem se favoreceu com esse plano foram as grandes empresas multinacionais instaladas em Cuba e os novos burgueses cubanos associados a elas.<\/p>\n<p>Essas foram as bases materiais da explos\u00e3o popular de 11 de julho. Por isso, as manifesta\u00e7\u00f5es foram muito parecidas as que ocorreram na Col\u00f4mbia no in\u00edcio do ano ou as do Chile em 2019 e 2020. Tinham como base material a fome e a mis\u00e9ria provocada por planos neoliberais. \u00c9 verdade que os efeitos do bloqueio norte americano se somam a esta realidade. Mas negar os efeitos desse plano para dizer que \u201ctudo \u00e9 consequ\u00eancia do bloqueio\u201d \u00e9 parte da farsa stalinista.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia e no Chile, governos direitistas impuseram planos neoliberais pesados e os trabalhadores e jovens sa\u00edram a lutar contra eles.\u00a0 N\u00f3s apoiamos essas lutas, e denunciamos a dura repress\u00e3o dos governos.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a repress\u00e3o de Cuba foi menor que a colombiana e a chilena. Mas isso foi porque as mobiliza\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m foram menores, parando no pr\u00f3prio dia 11 de julho. Lembremos do assassinato de milhares de jovens pela ditadura chinesa da Pra\u00e7a Tiananmen, que tamb\u00e9m foi defendida pelo aparato stalinista em todo o mundo. Isso tamb\u00e9m pode acontecer em Cuba, caso a mobiliza\u00e7\u00e3o de 15 de novembro ou outra no futuro, seja mais forte. E ser\u00e1 igualmente defendida pelos PCs em todo o mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe nenhuma democracia em Cuba, menos ainda uma \u201cdemocracia popular\u201d como falam os stalinistas. Eles falam que \u201creprimem os pr\u00f3-imperialistas\u201d, mas n\u00e3o permitem a exist\u00eancia de nenhum partido de esquerda que n\u00e3o apoie o governo, nenhum sindicato que defenda os trabalhadores. Trata-se de uma ditadura violenta que, para se encobrir, se chama de\u00a0 \u201cdemocracia popular\u201d.<\/p>\n<p>Essa ditadura reprimiu n\u00e3o s\u00f3 as mobiliza\u00e7\u00f5es de 11 de julho, mas a marcha LGBTI de maio de 2019, assim como as manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas independentes e todos os atos que a questionem.<\/p>\n<p>Para o stalinismo e seus apoiadores, todos os que lutam contra os governos da China, Nicar\u00e1gua, Venezuela, S\u00edria&#8230;e Cuba, s\u00e3o \u201cagentes do imperialismo\u201d.<\/p>\n<p>Existe tanta verdade na defesa de Cuba como \u201csocialista\u201d como na conversa fiada de Biden de que o governo dos EUA \u201cdefende a democracia\u201d em Cuba.<\/p>\n<p>N\u00f3s seguimos defendendo o marxismo como metodologia de an\u00e1lise e base para a forma\u00e7\u00e3o do programa. Por isso, caracterizamos que Cuba \u00e9 hoje um estado burgu\u00eas, uma ditadura capitalista. E defendemos uma nova revolu\u00e7\u00e3o socialista na ilha. Apoiamos as lutas dos trabalhadores e dos jovens na Col\u00f4mbia, no Chile e em todo o mundo, inclusive em Cuba.<\/p>\n<p><strong>O bloqueio norte-americano e a burguesia cubana de Miami<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de ter se dado a restaura\u00e7\u00e3o capitalista tanto na China como em Cuba, trata-se de dois processos muito diferentes.<\/p>\n<p>A China \u00e9 um grande Estado, com uma economia capitalista que ocupou um lugar privilegiado na divis\u00e3o mundial de trabalho desde a d\u00e9cada de 90 do s\u00e9culo passado, como \u201cf\u00e1brica do mundo\u201d, e agora disputa com o imperialismo norte-americano um espa\u00e7o superior no mundo capitalista.<\/p>\n<p>Cuba \u00e9 uma pequena ilha, para a qual o governo castrista queria repetir o destino da China. O pr\u00f3prio D\u00edaz-Canel falou isso em sua visita \u00e0 China em 2018: \u201cCuba vai usar a China como modelo para o desenvolvimento da economia da ilha e na renova\u00e7\u00e3o de seu modelo social.\u201d (Isto \u00e9)<\/p>\n<p>No entanto, isso \u00e9 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Cuba n\u00e3o pode virar \u201cuma nova China\u201d. Em primeiro lugar, porque sua fr\u00e1gil economia s\u00f3 permitiu localizar o pa\u00eds na divis\u00e3o mundial de trabalho imperialista como mais uma base tur\u00edstica no caribe. Por isso, a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na ilha se deu de bra\u00e7os dados com o imperialismo europeu, para impor redes tur\u00edsticas espanholas. Trabalhadores cubanos s\u00e3o funcion\u00e1rios dessas redes imperialistas, em hot\u00e9is luxuosos para turistas estrangeiros, ganhando sal\u00e1rios miser\u00e1veis, vigiados pela ditadura castrista.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, Cuba n\u00e3o pode ser uma nova China, pelo conflito existente com a burguesia cubana radicada em Miami. Esses s\u00e3o os burgueses, expropriados pela revolu\u00e7\u00e3o em 1959, que se instalaram em Miami e passaram a ser parte integrante da burguesia imperialista, com peso nos partidos Republicano e Democrata.<\/p>\n<p>Essa burguesia n\u00e3o est\u00e1 de acordo com a restaura\u00e7\u00e3o conduzida pelo governo cubano. Quer a devolu\u00e7\u00e3o de suas propriedades e a derrubada do regime castrista.<\/p>\n<p>Foi essa burguesia a origem \u2014 e segue sendo a base atual \u2014 do criminoso bloqueio norte-americano a Cuba. Esse bloqueio existe desde 1960, e causa preju\u00edzos reais ao povo cubano.<\/p>\n<p>N\u00f3s lutamos h\u00e1 mais de cinquenta anos contra esse bloqueio. Trata-se de uma medida odiosa, do mais importante pa\u00eds imperialista contra uma pequena ilha. Independente de nossas cr\u00edticas ao governo cubano, lutamos contra esse bloqueio imperialista. A lei Helms-Burton, de 1996, agravou fortemente o bloqueio contra a ilha.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que o bloqueio ocasiona preju\u00edzos reais ao povo pobre cubano, agravando sua mis\u00e9ria at\u00e9 os dias de hoje.\u00a0 N\u00e3o concordamos com a propaganda stalinista que atribuiu todos os problemas da ilha ao bloqueio, como se n\u00e3o houvesse a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo em Cuba, como se n\u00e3o houvesse a pol\u00edtica concreta do governo castrista. Mas isso n\u00e3o nos leva a ignorar os pesados efeitos do bloqueio sobre Cuba.<\/p>\n<p>Denunciamos o cinismo dos governos norte-americanos \u2014 tanto Trump como Biden, assim como todos os outros \u2014 de falarem em \u201cdemocracia\u201d em Cuba, quando o que querem \u00e9 a devolu\u00e7\u00e3o das propriedades confiscadas em 1959 e a coloniza\u00e7\u00e3o da ilha.<\/p>\n<p>Assim, n\u00f3s temos um ponto de acordo com o governo cubano e todo o aparato stalinista mundial: n\u00f3s lutamos incondicionalmente contra o bloqueio.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 um acordo t\u00e1tico, no marco de uma diferen\u00e7a estrat\u00e9gica, mesmo no terreno da luta anti-imperialista. N\u00f3s queremos o fim do bloqueio \u2014 na estrat\u00e9gia de derrotar os planos imperialistas norte-americano e europeu para a ilha \u2014 como parte de um processo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>O governo cubano, por seu lado, quer o fim do bloqueio para que as empresas imperialistas invistam e ocupem Cuba, como fazem hoje as europeias. Ou seja, o governo cubano quer o fim do bloqueio para prosseguir em seu plano de fazer de Cuba uma pequena China, semicolonizada tamb\u00e9m pelos EUA.<\/p>\n<p><strong>A a\u00e7\u00e3o imperialista sobre o 15N<\/strong><\/p>\n<p>Existe uma forte disputa entre o aparato stalinista cubano e mundial por um lado, e a propaganda imperialista por outro ao redor do 15N. Ambos dizem que s\u00f3 existem dois campos: o \u201csocialista\u201d e o imperialista.<\/p>\n<p>J\u00e1 vimos como o aparelho stalinista caracteriza tudo como uma \u201cmanobra imperialista\u201d.<\/p>\n<p>Mas a mobiliza\u00e7\u00e3o de 15 N \u00e9 diferente do 11J, que foi espont\u00e2nea. Dessa vez, a luta est\u00e1 sendo convocada por essa vanguarda, articulada ao redor da plataforma Arquip\u00e9lago, e tem apoio de boa parte dos ativistas democr\u00e1ticos da ilha.<\/p>\n<p>A burguesia cubana de Miami quer se aproveitar da atual crise do governo cubano, e disputar essa vanguarda. Recentemente, foi formado o chamado \u201cConsejo Nacional de Transici\u00f3n\u201d, que defende um programa democr\u00e1tico burgu\u00eas contra a ditadura cubana. Junto a isso, defendem a devolu\u00e7\u00e3o das propriedades confiscadas da burguesia de Miami e uma completa subordina\u00e7\u00e3o ao imperialismo norte-americano. Esse \u201cConsejo\u201d est\u00e1 apoiando a convoca\u00e7\u00e3o do 15 N. E a burguesia de Miami vai fazer mobiliza\u00e7\u00f5es de \u201capoio\u201d no mesmo dia.<\/p>\n<p>Esse \u201cConsejo\u201d est\u00e1 disputando a vanguarda que surgiu do 11J. E est\u00e1 ganhando uma parte dos movimentos contra a ditadura na ilha, como foi a ades\u00e3o ao \u201cConsejo\u201d do Movimiento San Isidro. Outra parte dessa vanguarda est\u00e1 contra as manobras imperialistas e esse \u201cConsejo\u201d.<\/p>\n<p>Da mesma forma, o aparato stalinista tamb\u00e9m est\u00e1 pressionando, amea\u00e7ando e disputando esta vanguarda. Alguns dos ativistas que participaram do 11J , se negaram a apoiar a mobiliza\u00e7\u00e3o de 15 de novembro, por ser \u201capoiada pelo Consejo\u201d.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do 15N, contra a ditadura cubana, em defesa da liberdade dos presos pol\u00edticos \u00e9 extremamente progressiva, da mesma forma que a manifesta\u00e7\u00e3o dos estudantes na Pra\u00e7a da Paz Celestial em 1989 tamb\u00e9m era.<\/p>\n<p>O imperialismo vai tentar capitalizar as crises, da mesma forma como tentou capitalizar a mobiliza\u00e7\u00e3o na China. Tentou tamb\u00e9m se aproveitar das lutas democr\u00e1ticas contra as ditaduras stalinistas na Hungria em 1956, na Tchecoslov\u00e1quia em 1968, que foram massacradas pelos tanques enviados pela burocracia sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o muda o car\u00e1ter democr\u00e1tico progressivo dessas mobiliza\u00e7\u00f5es. E, al\u00e9m disso, colocam um desafio para a esquerda mundial, como dissemos no in\u00edcio do artigo.<\/p>\n<p>Em Cuba, est\u00e1 se gestando uma grande explos\u00e3o contra essa ditadura burguesa e corrupta. O pior que pode passar \u00e9 a vit\u00f3ria da pol\u00edtica do stalinismo, que joga nos bra\u00e7os do imperialismo a forma\u00e7\u00e3o de alternativas democr\u00e1ticas em Cuba. Isso pode levar a que a derrubada da ditadura castrista termine sendo capitalizada por dire\u00e7\u00f5es imperialistas como Yeltsin na R\u00fassia, agora atrav\u00e9s da burguesia imperialista de Miami.<\/p>\n<p>N\u00f3s propomos o oposto: lutar contra a ditadura cubana como parte de uma estrat\u00e9gia socialista e anti-imperialista. N\u00f3s queremos uma nova revolu\u00e7\u00e3o socialista, reestatizando as empresas privatizadas, inclusive as que est\u00e3o em m\u00e3os do imperialismo europeu com uma profunda planifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e controle direto e real dos trabalhadores. Queremos uma democracia oper\u00e1ria em Cuba, oposta \u00e0 ditadura stalinista, que de fato tenha sua ess\u00eancia na participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores em todas as decis\u00f5es fundamentais e estrat\u00e9gicas da ilha.<\/p>\n<p>Os ativistas de esquerda que defendem a ditadura cubana pensando que, apesar dos erros, o stalinismo defende o que resta da revolu\u00e7\u00e3o cubana, devem refletir sobre o que ocorre na China. Devem repensar no que leva os PCs a defenderem ditaduras burguesas como a chinesa, a venezuelana, s\u00edria e nicaraguense. E ver se n\u00e3o existe semelhan\u00e7a com o que ocorre hoje em Cuba.<\/p>\n<p>A ditadura cubana n\u00e3o est\u00e1 defendendo o Estado Oper\u00e1rio burocratizado que h\u00e1 muito tempo n\u00e3o existe mais, mas sua alian\u00e7a com as grandes empresas europeias, seus lucros e privil\u00e9gios. Por isso \u00e9 odiada pelo povo cubano. Apoiar a ditadura stalinista \u00e9 fortalecer essa vis\u00e3o dos \u201ccampos progressivos junto com a burguesia\u201d, que ignora as classes sociais e o marxismo. E prepara uma nova derrota em Cuba.<\/p>\n<p>Mesmo os setores de esquerda que n\u00e3o concordem com nossa caracteriza\u00e7\u00e3o de que j\u00e1 ocorreu uma restaura\u00e7\u00e3o capitalista em Cuba, devem refletir sobre o significado de apoiar uma repress\u00e3o que pode ser dur\u00edssima contra ativistas que defendem liberdades democr\u00e1ticas e direitos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>A esquerda revolucion\u00e1ria latino-americana e mundial tem essa responsabilidade. Se capitular ao stalinismo, se considerar toda essa luta democr\u00e1tica, e a mobiliza\u00e7\u00e3o do dia 15 como \u201cpr\u00f3-imperialista\u201d, vai estar ajudando a ditadura burguesa stalinista a reprimir uma mobiliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica leg\u00edtima. Estar\u00e1 tamb\u00e9m deixando como \u00fanica alternativa de apoio para essa vanguarda democr\u00e1tica o \u201cConsejo\u201d e a burguesia de Miami.<\/p>\n<p>N\u00f3s da LIT, defendemos o lado dos trabalhadores e da juventude em Cuba. Achamos sua luta leg\u00edtima, justa e necess\u00e1ria. N\u00e3o se pode negar a realidade de profunda desigualdade econ\u00f4mica e a exist\u00eancia da repress\u00e3o \u00e0s liberdades democr\u00e1ticas. Da mesma maneira que defendemos esses trabalhadores e jovens na Col\u00f4mbia, no Chile e no Brasil, estamos com os cubanos que dizem basta, assim como contra as burguesias e suas ditaduras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um fato chamou a aten\u00e7\u00e3o dos ativistas de esquerda em todo mundo no dia 11 de julho. Mobiliza\u00e7\u00f5es populares, com peso importante da juventude pobre, sacudiram Cuba. 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