{"id":65226,"date":"2024-11-11T00:53:42","date_gmt":"2024-11-11T00:53:42","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65226"},"modified":"2024-11-11T20:11:15","modified_gmt":"2024-11-11T20:11:15","slug":"neste-novembro-negro-gritamos-nao-voltaremos-para-as-senzalas-nem-para-os-poroes-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2024\/11\/11\/neste-novembro-negro-gritamos-nao-voltaremos-para-as-senzalas-nem-para-os-poroes-da-ditadura\/","title":{"rendered":"Neste Novembro Negro gritamos: N\u00e3o voltaremos para as senzalas nem para os por\u00f5es da ditadura!"},"content":{"rendered":"<p><em>O Brasil e o mundo atravessam uma das maiores crises da hist\u00f3ria. Mas, nessa crise, n\u00e3o estamos no mesmo barco. Enquanto o povo trabalhador, pobre e perif\u00e9rico est\u00e1 \u00e0 deriva, os grandes empres\u00e1rios, os banqueiros, os representantes do agroneg\u00f3cio e os pol\u00edticos que os representam passeiam em iates.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Wagner Miqu\u00e9ias e Wilson Hon\u00f3rio<\/p>\n<p>E se este abismo j\u00e1 \u00e9 gigantesco em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 enorme maioria da popula\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 ainda mais amplo quando falamos daqueles e daquelas que foram historicamente oprimidos e marginalizados, como negros(as), mulheres, LGBTIs, ind\u00edgenas e imigrantes, dentre outros.<\/p>\n<p>Algo que, aqui no Brasil, s\u00f3 tem se agravado sob Bolsonaro; um governo que tem se caracterizado por ampliar as j\u00e1 hist\u00f3ricas desigualdades socioecon\u00f4micas do pa\u00eds e, de forma particularmente perversa, tem assumido discursos e pr\u00e1ticas descaradamente racistas, machistas, LGBTIf\u00f3bicas e xen\u00f3fobas, para intensificar ainda mais explora\u00e7\u00e3o de amplos setores da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, Bolsonaro p\u00f4s S\u00e9rgio Camargo na presid\u00eancia da Funda\u00e7\u00e3o Palmares, que, como um leg\u00edtimo capit\u00e3o do mato, suspendeu as certifica\u00e7\u00f5es dos processos de titula\u00e7\u00e3o de terras quilombolas, tem atacado sistematicamente a mem\u00f3ria do movimento e at\u00e9 amea\u00e7ou, recentemente, praticar torturas, como seu \u00eddolo, o coronel Ustra. E, ainda, n\u00e3o esconde o desejo de reinstaurar uma ditadura no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Consci\u00eancia de ra\u00e7a e classe, contra o governo e pelo socialismo<\/strong><\/p>\n<p>No momento em que se inicia o \u201cNovembro Negro\u201d, \u00e9 preciso que discutamos, em primeiro lugar, a necessidade de derrubarmos, j\u00e1, este governo, sem alimentar nenhuma expectativa em rela\u00e7\u00e3o a uma ilus\u00f3ria sa\u00edda eleitoral em 2022, muito menos alicer\u00e7ada na concilia\u00e7\u00e3o com a burguesia, como querem Lula, o PT, a dire\u00e7\u00e3o do PSOL e, tamb\u00e9m, ativistas e setores dos movimentos negros, muitos deles embriagados pelas teorias reformistas ou p\u00f3s-modernas.<\/p>\n<p>Por isso, iremos tomar as ruas para gritar\u00a0\u201cFora Bolsonaro e Mour\u00e3o! Genocidas e saudosistas da Ditadura Militar!\u201d\u00a0e\u00a0\u201cFora S\u00e9rgio Camargo, lugar de capit\u00e3o do mato n\u00e3o \u00e9 Palmares!\u201d. E, pelos mesmos motivos, n\u00f3s, do PSTU, iremos nos somar \u00e0s \u201cMarchas da Periferia\u201d, que ter\u00e3o como lema \u201cN\u00e3o voltaremos para as senzalas nem para os por\u00f5es da ditadura\u201d.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o iremos parar por a\u00ed. Tamb\u00e9m queremos aproveitar as atividades que ir\u00e3o ocorrer para debater como a luta contra o racismo s\u00f3 poder\u00e1 ser vitoriosa se constru\u00edda em alian\u00e7a com a classe trabalhadora, independente da burguesia, e tendo como objetivo uma revolu\u00e7\u00e3o que nos permita erguer uma sociedade socialista, como j\u00e1 nos foi ensinado pelo militante trotskista negro C.L.R. James.<\/p>\n<p>\u201cA degrada\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica, social e cultural do povo negro, abaixo at\u00e9 mesmo dos n\u00edveis das camadas mais exploradas da classe trabalhadora, o coloca em uma posi\u00e7\u00e3o excepcional e o impele a desempenhar um papel excepcional dentro da estrutura social do capitalismo norte-americano\u201d\u00a0e, por isso mesmo,\u00a0\u201ca quest\u00e3o dos negros (\u2026) representa uma combina\u00e7\u00e3o \u00fanica da luta pela democracia, por parte de uma minoria\u00a0[no caso dos EUA]\u00a0oprimida, com a luta da classe trabalhadora pelo socialismo\u201d,\u00a0escreveu James no artigo\u00a0\u201cA liberta\u00e7\u00e3o do negro atrav\u00e9s do socialismo revolucion\u00e1rio\u201d, de maio de 1950.<\/p>\n<p>Uma luta obrigatoriamente de \u201cra\u00e7a e classe\u201d e cada vez mais urgente, at\u00e9 mesmo porque parte fundamental da \u201cl\u00f3gica irracional\u201d deste sistema diante de suas crises cada vez mais constantes e profundas \u00e9 atacar de forma ainda mais violenta os setores mais explorados e oprimidos da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h5><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>As muitas faces do genoc\u00eddio negro<\/strong><\/span><\/h5>\n<p><strong>Pandemia, fome, desemprego e viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade, como dizia Malcolm X, que\u00a0\u201cn\u00e3o h\u00e1 capitalismo sem racismo\u201d; tamb\u00e9m \u00e9 um fato que \u00e9 diante das crises do sistema que o racismo apresenta suas facetas mais cru\u00e9is. Algo penosamente evidente quando h\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o, sem precedentes, de uma profunda crise socioecon\u00f4mica, de uma pandemia, do avan\u00e7o da destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente e umas tantas outras mazelas.<\/p>\n<p>Uma combina\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica que atinge duramente as condi\u00e7\u00f5es de vida da enorme parcela da popula\u00e7\u00e3o mundial; mas, inegavelmente, de forma ainda mais brutal aqueles e aquelas que pertencem aos setores historicamente marginalizados. Algo que come\u00e7a pela viol\u00eancia racista que, segundo o \u201cAtlas da Viol\u00eancia\/2021\u201d, fez com que, em 2019, 77% das v\u00edtimas de homic\u00eddio fossem negras, dentre os quais a chance de ser assassinado \u00e9 2,6 vezes superior a uma n\u00e3o-negra. Mas, se expande para todas as \u00e1reas da sociedade.<\/p>\n<p><strong>O negacionismo genocida tamb\u00e9m \u00e9 racista<\/strong><\/p>\n<p>Bolsonaro \u00e9 o principal respons\u00e1vel pelas mais de 600 mil mortes por COVID-19, um verdadeiro genoc\u00eddio que tem atingido o povo pobre, preto e perif\u00e9rico de forma particularmente cruel, em fun\u00e7\u00e3o do racismo e tudo o que ele significa em termos de rebaixamento das condi\u00e7\u00f5es de vida e aumento das dificuldades no acesso a servi\u00e7os b\u00e1sicos, como os da sa\u00fade.<\/p>\n<p>Segundo o N\u00facleo de Opera\u00e7\u00f5es e Intelig\u00eancia em Sa\u00fade, da PUC-Rio, em maio de 2020 (antes da pandemia se expandir), enquanto o \u00edndice de mortes chegava a 55% dos negros contaminados (somando-se aqueles que o IBGE classifica como \u201cpardos\u201d e \u201cpretos\u201d), a propor\u00e7\u00e3o entre brancos era de 38%.<\/p>\n<p>Outro estudo divulgado pela Rede de Pesquisa Solid\u00e1ria, em 20\/09\/2021, demonstrou que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave quando racismo e machismo se encontram. Dados do Sistema de Informa\u00e7\u00e3o sobre Mortalidade (SIM), relativos a 2020, revelaram que\u00a0\u201cmulheres negras morrem mais de covid-19 do que todos os outros grupos (mulheres brancas, homens brancos e negros) na base do mercado de trabalho, independentemente da ocupa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Para mulheres negras trabalhando em servi\u00e7os dom\u00e9sticos, por exemplo, o risco de morte era 112% maior do que o enfrentado por homens brancos nas mesmas ocupa\u00e7\u00f5es. J\u00e1 dentre os trabalhadores que alimentam a linha de produ\u00e7\u00e3o, uma mulher negra tinha mais que o dobro de risco (146%) de morrer de Covid-19 do que um homem branco.<\/p>\n<p><strong>Baixos sal\u00e1rios, desemprego, fome e precariza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m t\u00eam cor<\/strong><\/p>\n<p>Bolsonaro tamb\u00e9m \u00e9 o principal respons\u00e1vel pela destrui\u00e7\u00e3o de empregos, ao aplicar com Paulo Guedes, uma pol\u00edtica econ\u00f4mica em prol dos ricos. O desemprego atinge milh\u00f5es, a mis\u00e9ria e a fome se alastram pelo pa\u00eds, enquanto a infla\u00e7\u00e3o dispara. E, de novo, a popula\u00e7\u00e3o negra tem sido a mais penalizada.<\/p>\n<p>Segundo a S\u00edntese de Indicadores Sociais do IBGE, no ano passado a taxa m\u00e9dia geral de desemprego no Brasil foi de 13,5%. Entre os negros, contudo, atingiu 17,2% (contra 15,8% dos que se dizem pardos e 11,5% entre os brancos). No geral, a taxa de desemprego do ano foi 71,2% maior entre negros na compara\u00e7\u00e3o com brancos.<\/p>\n<p>Ainda segundo o IBGE, 63% das fam\u00edlias no Brasil s\u00e3o chefiadas por mulheres negras com filhos de at\u00e9 14 anos e s\u00e3o eles que formam a maioria das cerca de 19 milh\u00f5es de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de fome no Brasil, segundo dados de 2020 da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Penssan).<\/p>\n<p><strong>Sob o capitalismo, n\u00e3o h\u00e1 paz nem justi\u00e7a, muito menos espa\u00e7o para ilus\u00f5es!<\/strong><\/p>\n<p>Em 2020, o Dia da Consci\u00eancia Negra foi marcado pelo brutal espancamento e morte de Beto Freitas, em uma unidade do Carrefour, em Porto Alegre (RS). O setor varejista, ao mesmo tempo em que tem se destacado como um dos camp\u00f5es nas den\u00fancias de racismo, tamb\u00e9m \u00e9 um dos que mais lucrou durante a pandemia (exatos R$ 554 bilh\u00f5es, somente no ano passado).<\/p>\n<p>Mas, para a burguesia, n\u00e3o h\u00e1 limites para a hipocrisia. Pressionada por uma onda de manifesta\u00e7\u00f5es e a p\u00e9ssima repercuss\u00e3o na sociedade em geral, o Carrefour formou um \u201cComit\u00ea Externo de Diversidade e Inclus\u00e3o\u201d, com representantes da empresa e ativistas negros, como Silvio de Almeida (autor do livro \u201cO que \u00e9 racismo estrutural\u201d), Celso Athayde, da Central \u00danica das Favelas (Cufa), e Maur\u00edcio Pestana, da revista Ra\u00e7a Brasil, que, de quebra, aproveitaram para lan\u00e7ar a Frente Nacional Antirracista (FNA), que, no dia 11\/12\/2020, se reuniu com o bolsonarista Paulo Skaf, para criar um \u201ccomit\u00ea antirracista\u201d na Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo (Fiesp).<\/p>\n<p>Parcerias como estas servem apenas como \u201cvitrine\u201d para que um setor da burguesia, que j\u00e1 n\u00e3o consegue sustentar o \u201cmito da democracia racial, consiga, agora, o endosso e a legitima\u00e7\u00e3o de reconhecidos ativistas negros para medidas p\u00edfias, que n\u00e3o atingem mais do que um punhado de negros e negras. E, ainda, vendem a ilus\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel combater o racismo por dentro do capitalismo e em alian\u00e7a com aqueles que sempre se beneficiaram com a opress\u00e3o racial.<\/p>\n<p>No geral, s\u00e3o concep\u00e7\u00f5es sintonizadas com a tese central do conceito de \u201cracismo estrutural\u201d, que defende que o combate ao racismo passa pela conquista de espa\u00e7os em lugares de \u201cpoder e prest\u00edgios\u201d (meios de comunica\u00e7\u00e3o, estruturas de comando das empresas etc.), apostando na possibilidade reformar o capitalismo e superar o racismo e a pobreza, tendo \u201ciniciativa\u201d, se \u201cempoderando\u201d e \u201cempreendendo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Por um Quilombo Socialista<\/strong><\/p>\n<p>O problema \u00e9 que esses pregadores de ilus\u00f5es est\u00e3o simplesmente ecoando projetos reformistas que defende \u201cum capitalismo com cara humana\u201d, constru\u00eddo atrav\u00e9s da concilia\u00e7\u00e3o de classes. No entanto, eles parecem ter esquecido que o racismo \u00e9 uma ideologia que, desde a escravid\u00e3o, esteve a servi\u00e7o do capitalismo em base \u00e0 opress\u00e3o racial. Como disse Marx,\u00a0\u201csem a escravid\u00e3o, n\u00e3o haveria algod\u00e3o, e sem algod\u00e3o n\u00e3o haveria ind\u00fastria moderna\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, a burguesia prega o respeito \u00e0s cercas de suas propriedades. Mas, n\u00f3s sabemos que seus latif\u00fandios vieram do roubo de terras ind\u00edgenas e quilombolas. Defende a meritocracia e tenta nos vender a ilus\u00e3o de que toda sua riqueza \u00e9 fruto do seu pr\u00f3prio trabalho. Mas, sabemos que sua fortuna \u00e9 banhada de sangue e suor dos nossos antepassados que foram sequestrados da \u00c1frica, traficados em navios negreiros, como coisas, e escravizados neste pa\u00eds.<\/p>\n<p>Prega, hipocritamente, o respeito \u00e0s leis e \u00e0 ordem (leis, ali\u00e1s, que ela criou). Mas, sabemos que, assim como a escravid\u00e3o era legal, mas imoral; a explora\u00e7\u00e3o capitalista de hoje \u00e9 legal, mas completamente vil e imoral.<\/p>\n<p>Os sinais de barb\u00e1rie que nos cercam por todos os lados provam que o capitalismo, que se alimentou da escravid\u00e3o e perpetua diariamente o racismo, fracassou. Por isso, neste Novembro Negro chamamos negros e negras, a juventude e a classe trabalhadora para tomarmos as ruas, gritando \u201cN\u00e3o voltaremos para as senzalas nem para os por\u00f5es da ditadura!\u201d. Mas, tamb\u00e9m, lembrando que lutaremos, sem tr\u00e9gua, pela constru\u00e7\u00e3o do socialismo, onde os trabalhadores governem com toda a sua diversidade e sem transformar diferen\u00e7as em desigualdades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil e o mundo atravessam uma das maiores crises da hist\u00f3ria. Mas, nessa crise, n\u00e3o estamos no mesmo barco. 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