{"id":65112,"date":"2021-10-18T12:29:20","date_gmt":"2021-10-18T15:29:20","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65112"},"modified":"2021-10-18T12:29:20","modified_gmt":"2021-10-18T15:29:20","slug":"comunistas-contra-stalin-o-legado-de-uma-geracao-heroica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/10\/18\/comunistas-contra-stalin-o-legado-de-uma-geracao-heroica\/","title":{"rendered":"\u201cComunistas contra Stalin\u201d: O legado de uma gera\u00e7\u00e3o heroica"},"content":{"rendered":"<p><em>Tr\u00e1gico. Brutal. Comovedor. Inspirador. Todos esses adjetivos, e muitos mais, se aplicam ao livro \u201cComunistas contra Stalin: massacre de uma gera\u00e7\u00e3o\u201d que a Editora Sundermann acaba de publicar, pela primeira vez em l\u00edngua portuguesa.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Bernardo Cerdeira<\/p>\n<p>Em suas p\u00e1ginas, o historiador franc\u00eas Pierre Brou\u00e9 (1926-2005) conta uma hist\u00f3ria, at\u00e9 agora, ignorada ou minimizada pelos historiadores, mesmo aqueles que se reivindicam marxistas: a resist\u00eancia heroica dos comunistas, especialmente os da Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda trotskysta, contra a ditadura stalinista.<\/p>\n<p>Brou\u00e9 diz que \u00e9 \u201cuma hist\u00f3ria que foi zelosamente ocultada durante mais de meio s\u00e9culo\u201d. Mas, quem se ocupou com tanto zelo dessa opera\u00e7\u00e3o de ocultamento? \u00c9 claro que, acima de todos, estava o stalinismo. Ao calar as vozes da Oposi\u00e7\u00e3o e ocultar o massacre, Stalin buscava apresentar-se ao proletariado de todo o mundo como o herdeiro da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e \u00fanico representante do comunismo, para defender mais facilmente os privil\u00e9gios da casta burocr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Mas, o stalinismo n\u00e3o era o \u00fanico interessado. O imperialismo e seus ide\u00f3logos sempre trataram de ocultar essa hist\u00f3ria. Assim, esperavam apresentar a contrarrevolu\u00e7\u00e3o stalinista como continuidade do regime sovi\u00e9tico, dirigido pelo Partido Bolchevique de L\u00eanin e Trotsky, e identificar a ditadura stalinista com o comunismo, para desprestigiar este \u00faltimo.<\/p>\n<p><strong>A contrarrevolu\u00e7\u00e3o stalinista<\/strong><\/p>\n<p>O livro de Brou\u00e9 desmente tudo isso. Mostra, apoiando-se em dados dos arquivos sovi\u00e9ticos, que n\u00e3o houve continuidade entre o Partido Bolchevique de L\u00eanin e o Partido Comunista de Stalin; mas, sim, uma ruptura brutal provocada pela burocracia stalinista que exterminou a maioria da vanguarda revolucion\u00e1ria que dirigiu a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e lutou na Guerra Civil.<\/p>\n<p>De acordo com os arquivos sovi\u00e9ticos, durante 1937 e 1938, a pol\u00edcia secreta, chamada NKVD (sigla em russo para Comissariado do Povo para Assuntos Internos),\u00a0deteve 1.548.366 pessoas, das quais 681.692 foram executadas. Mas, historiadores calculam que as execu\u00e7\u00f5es ultrapassaram 800 mil pessoas, a maioria delas, comunistas. Isso sem contar centenas de milhares que morreram de fome, frio e doen\u00e7as nos campos de concentra\u00e7\u00e3o na Sib\u00e9ria ou que desapareceram sem deixar registros.<\/p>\n<p><strong>\u201cUm rio de sangue\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Entre o partido dirigido por L\u00eanin e o aparelho burocr\u00e1tico de Stalin h\u00e1, na express\u00e3o usada por Trotsky, \u201cum rio de sangue\u201d derramado por essas centenas de milhares de revolucion\u00e1rios e revolucion\u00e1rias assassinados. O stalinismo \u00e9 o contr\u00e1rio do bolchevismo.<\/p>\n<p>Mas, o livro de Brou\u00e9 vai muito al\u00e9m da den\u00fancia. Mostra que, mesmo derrotados e confinados nos campos de concentra\u00e7\u00e3o, mais de 30 mil trotskistas, segundo admitiu o pr\u00f3prio Stalin, continuaram resistindo e defendendo seu programa at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>Brou\u00e9 mostra que Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda tinha uma estrat\u00e9gia e um programa alternativos, em termos globais, ao stalinismo, baseados na experi\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e que se apoiavam no marxismo e na confian\u00e7a no proletariado mundial. Era um programa oposto pelo v\u00e9rtice ao programa da burocracia.<\/p>\n<p>Esse programa partia da an\u00e1lise do processo de burocratiza\u00e7\u00e3o do Partido Comunista e do Estado sovi\u00e9tico, provocado pela derrota das revolu\u00e7\u00f5es europeias e o consequente isolamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Al\u00e9m disso, o pa\u00eds estava devastado pela Guerra Civil e pelas invas\u00f5es imperialistas, assolado pela fome e atolado em seu atraso hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Isso permitiu o surgimento de uma casta burocr\u00e1tica de funcion\u00e1rios que foi adquirindo privil\u00e9gios diante da pen\u00faria do pa\u00eds. O stalinismo foi a express\u00e3o pol\u00edtica dessa burocracia no Partido Comunista e no Estado.<\/p>\n<p><strong>Havia outro caminho<\/strong><\/p>\n<p>Mas, apesar das dif\u00edceis condi\u00e7\u00f5es objetivas, a degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica do Estado sovi\u00e9tico poderia ter sido evitada. A compreens\u00e3o do processo de degenera\u00e7\u00e3o, a estrat\u00e9gia e o programa para combat\u00ea-la foi o que possibilitou ao n\u00facleo da Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda resistir, apesar das capitula\u00e7\u00f5es dos vacilantes.<\/p>\n<p>A Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda defendia que o \u00fanico futuro poss\u00edvel para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica era o desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o em escala mundial. Por isso, combateu duramente a falsa teoria do \u201csocialismo em um s\u00f3 pa\u00eds\u201d, que criou a fal\u00e1cia de que a R\u00fassia, por suas peculiaridades (extens\u00e3o territorial e riquezas nacionais), poderia alcan\u00e7ar o socialismo isoladamente.<\/p>\n<p>A Oposi\u00e7\u00e3o possu\u00eda uma moral revolucion\u00e1ria, uma disposi\u00e7\u00e3o militante e uma convic\u00e7\u00e3o na revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial e no futuro do comunismo. Brou\u00e9 mostra que a Oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixou de lutar em momento algum. Seus integrantes se organizaram na clandestinidade: primeiro nas f\u00e1bricas e nos locais de trabalho e, depois, nos locais de deporta\u00e7\u00e3o, nas pris\u00f5es e nos campos de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os militantes da Oposi\u00e7\u00e3o divulgavam suas ideias de diferentes formas: panfletos e publica\u00e7\u00f5es clandestinas, que chegavam aos oper\u00e1rios aos milhares e, depois, quando a repress\u00e3o se intensificou, com publica\u00e7\u00f5es que circulavam de m\u00e3o em m\u00e3o.<\/p>\n<p>O Boletim da Oposi\u00e7\u00e3o, editado por Leon Sedov e por Trotsky, de 1929 a 1941, em Berlim e Paris, era introduzido na ex-URSS por marinheiros, funcion\u00e1rios do servi\u00e7o diplom\u00e1tico, viajantes sovi\u00e9ticos em miss\u00f5es comerciais e cient\u00edficas etc.<\/p>\n<p><strong>O exterm\u00ednio da Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda<\/strong><\/p>\n<p>Nas pris\u00f5es e nos campos, os trotskistas lutaram contra os maus-tratos com o \u00fanico meio de que dispunham: as greves de fome. Foram muitas, desde a greve do Centro de Isolamento de Tomsk, em 1927, passando pela pris\u00e3o de Verkh-Neuralsk, em 1931 e em 1933, e terminando com as \u00faltimas greves de fome nos campos de prisioneiros de Vorkuta e Magadan, em 1936, quando foram fuzilados aos milhares.<\/p>\n<p>Brou\u00e9 tamb\u00e9m descreve em cores vivas como os militantes trotskistas discutiam (nas pris\u00f5es e nos campos) com diferentes posi\u00e7\u00f5es, escreviam sobre os mais variados temas e, inclusive, produziam publica\u00e7\u00f5es clandestinas.<\/p>\n<p>Em 2018, uma descoberta extraordin\u00e1ria ampliou as informa\u00e7\u00f5es do livro de Brou\u00e9. Durante uma reforma na pris\u00e3o de Verkh-Neuralsk, foram descobertos, sob um piso de madeira da Cela 312, 30 cadernos com documentos e publica\u00e7\u00f5es da Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda de 1932-33. As vozes dos trotskistas sovi\u00e9ticos voltaram a se fazer ouvir, 85 anos depois.<\/p>\n<p><strong>Um legado as futuras gera\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Esses verdadeiros bolcheviques-leninistas, como eles mesmos se chamavam, n\u00e3o escreviam s\u00f3 para manter a moral de suas fileiras. Esperavam que as futuras gera\u00e7\u00f5es resgatassem suas hist\u00f3rias e seus exemplos. Lutaram para preservar o marxismo revolucion\u00e1rio diante da monstruosa degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica e para que sua luta inspirasse os futuros revolucion\u00e1rios e revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Trotsky impediu que o stalinismo cortasse o fio de continuidade do marxismo revolucion\u00e1rio ao fundar a Quarta Internacional, mesmo pagando com sua pr\u00f3pria vida. Hoje, podemos dizer que os sacrif\u00edcios de Trotsky e da Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda sovi\u00e9tica n\u00e3o foram em v\u00e3o. Procuramos transmitir \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es os seus ensinamentos e honramos esses exemplos de vidas dedicadas \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial. E proclamamos que n\u00f3s, os trotskistas de hoje, reivindicamos ser os herdeiros e herdeiras orgulhosos dessa tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00e1gico. Brutal. Comovedor. Inspirador. 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