{"id":65087,"date":"2021-10-13T12:32:56","date_gmt":"2021-10-13T15:32:56","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65087"},"modified":"2021-10-13T12:32:56","modified_gmt":"2021-10-13T15:32:56","slug":"opiniao-round-6-e-feliz-ao-propor-muitos-debates-sem-abrir-mao-de-um-bom-entretenimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/10\/13\/opiniao-round-6-e-feliz-ao-propor-muitos-debates-sem-abrir-mao-de-um-bom-entretenimento\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: Round 6 \u00e9 feliz ao propor muitos debates sem abrir m\u00e3o de um bom entretenimento"},"content":{"rendered":"<p><em>Nas \u00faltimas semanas a s\u00e9rie sul-coreana Round 6, lan\u00e7ada pela Netflix, tornou-se um sucesso mundial e j\u00e1 \u00e9 uma das s\u00e9ries mais vistas da hist\u00f3ria da plataforma. A s\u00e9rie narra a hist\u00f3ria de pessoas endividadas que aceitam participar de jogos violentos em troca de um pr\u00eamio vultoso de dinheiro. Com uma est\u00e9tica de videogame e com uma trama instigante, a s\u00e9rie \u00e9 realmente de prender a aten\u00e7\u00e3o e de tirar o f\u00f4lego. O roteiro chegou a ser recusado em 2009, quando foi criado, por ser considerado muito pesado.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por:Jorge Mendoza<\/p>\n<p>A s\u00e9rie tem muitos m\u00e9ritos, a come\u00e7ar pelo tom com que aborda as cenas de a\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia, caracter\u00edstico do cinema asi\u00e1tico. No cinema ocidental o melhor representante dessa caracter\u00edstica talvez seja Quentin Tarantino. Quem assistiu\u00a0Kill Bill\u00a0ou\u00a0Django Livre\u00a0sabe do que se trata. Mas sem abrir m\u00e3o disso,\u00a0Round 6\u00a0vai muito al\u00e9m e consegue estabelecer um di\u00e1logo com grandes motes do cinema mundial e debates sociais contempor\u00e2neos como a desigualdade social e reality shows sem cair em estere\u00f3tipos ou clich\u00eas. N\u00e3o \u00e0 toa, proliferam os memes e, da esquerda \u00e0 direita, todos tem usados suas cenas para fazer debates pol\u00edticos. Essa pot\u00eancia de discuss\u00e3o que seu enredo provoca \u00e9 possivelmente um dos grandes m\u00e9ritos da s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Se me pedissem para dizer qual o tema da s\u00e9rie eu diria: \u00e9 uma s\u00e9rie sobre o fracasso da sociedade em estabelecer igualdade entre as pessoas e em lidar com a natureza humana.<\/p>\n<p><strong>Gamefica\u00e7\u00e3o social<\/strong><\/p>\n<p>Todo o enredo de\u00a0Round 6\u00a0gira ao redor de um fato: a exist\u00eancia de uma camada de pessoas fracassadas, endividadas, sem perspectivas ou sem nada a perder. S\u00e3o essas pessoas que s\u00e3o recrutadas \u2013 e que aceitam \u2013 participar dos jogos. N\u00e3o \u00e0 toda a s\u00e9rie foi inevitavelmente comparada com\u00a0<a href=\"https:\/\/www.pstu.org.br\/no-fundo-do-poco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O po\u00e7o\u00a0(2020, Gael Gaztelu-Urrutia)<\/a>\u00a0e com\u00a0O parasita\u00a0(2019, Bong Joon-Ho), que tamb\u00e9m tratam do que o humano \u00e9 capaz em situa\u00e7\u00f5es extremas. Aparentemente inocentes e baseados em brincadeiras infantis, os jogos em\u00a0Round 6\u00a0acabam com a elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos participantes. No melhor estilo de\u00a0Jogos Vorazes\u00a0(2012, Gary Ross), mas no lugar do romantismo epopeico e her\u00f3ico, a trag\u00e9dia social. As pessoas que participam dos jogos em\u00a0Round 6\u00a0s\u00e3o pessoas \u201cdescart\u00e1veis\u201d, e isso nos ajuda a lidar com a viol\u00eancia da s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Um aspecto interessante da s\u00e9rie tamb\u00e9m \u00e9 a sua abordagem sobre a\u00a0gamefica\u00e7\u00e3o social\u00a0\u2013 a transforma\u00e7\u00e3o da vida em um jogo. E qualquer trabalhador do setor dos servi\u00e7os entende do que se trata. O casamento entre a ascens\u00e3o do discurso empreendedor, filosofia de\u00a0coachs\u00a0(neoliberalismo fantasiado de filosofia aristot\u00e9lica), obsess\u00e3o pelo \u201cengajamento\u201d e a plataformiza\u00e7\u00e3o (tipo particular de digitaliza\u00e7\u00e3o) do trabalho tem gerado isso que j\u00e1 \u00e9 uma tend\u00eancia no capitalismo contempor\u00e2neo. No fundo, n\u00e3o passa de uma maneira de for\u00e7ar os trabalhadores a baterem metas inating\u00edveis e aumentar a mais-valia absoluta, mas com aspectos de videogame. \u00c9 a competi\u00e7\u00e3o levada \u00e0 n\u00edveis elevad\u00edssimos e que acabam exigindo uma dose de entretenimento para serem suportadas. A naturaliza\u00e7\u00e3o dessa competi\u00e7\u00e3o como um jogo \u00e9 tamb\u00e9m o que est\u00e1 por tr\u00e1s dos reality shows que tanto vemos por a\u00ed \u2013 um aspecto tamb\u00e9m presente na trama de\u00a0Round 6.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o paralelo entre a sociedade da livre concorr\u00eancia n\u00e3o \u00e9 exagero. Ao contr\u00e1rio dos que dizem os defensores do livre mercado, de que a concorr\u00eancia absoluta geraria o equil\u00edbrio e o benef\u00edcio de todos, o que assistimos \u00e9 o descarte e elimina\u00e7\u00e3o da maioria em benef\u00edcio de um punhado. \u00c9 a sociedade baseada na competi\u00e7\u00e3o que gera, justamente, essa camada de pessoas descart\u00e1veis que, sem perspectivas, aceita participar dos jogos. Uma sociedade baseada na absoluta concorr\u00eancia \u00e9 uma sociedade baseada na barb\u00e1rie e na viol\u00eancia e o que assistimos acontecer na ilha isolada em\u00a0Round 6\u00a0\u00e9 s\u00f3 uma alegoria caricata e ir\u00f4nica do que vivemos no dia-a-dia. \u00c9 tudo pelo dinheiro e, pelo dinheiro, vale tudo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-65089\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"575\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R-1.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R-1-300x168.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R-1-768x431.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R-1-150x84.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R-1-696x391.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<div id=\"attachment_65090\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65090\" class=\"wp-image-65090 size-full\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R2.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"978\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R2.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R2-300x287.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R2-768x734.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R2-150x143.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R2-696x665.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-65090\" class=\"wp-caption-text\">As escadarias de Escher, uma simetria do absurdo e do il\u00f3gico.<\/p><\/div>\n<p><strong>Falsas simetrias<\/strong><\/p>\n<p>Mas a s\u00e9rie tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 de barato a cr\u00edtica da competi\u00e7\u00e3o social. Ela tamb\u00e9m faz a cr\u00edtica de sociedades autorit\u00e1rias que tentam, pela for\u00e7a, estabelecer uma igualdade fict\u00edcia e artificial. Parece ser esse o papel da personagem Sae-Beyok, que foge da ditadura norte-coreana para tentar uma vida melhor para a fam\u00edlia e termina nos jogos juntos com os fracassados sul-coreanos. \u00c9 muito interessante o fato de que os participantes poderem interromper o jogo a qualquer momento (o que sugere uma falsa ideia de liberdade) \u2013 como se houvessem escolhas no mudo l\u00e1 fora. Os jogos at\u00e9 s\u00e3o interrompidos em determinado momento, mas os participantes decidem livremente voltar aos jogos macabros para tentar a sorte. Afinal, dentro dos jogos s\u00e3o todos iguais e as chances de vencer o pr\u00eamio s\u00e3o as mesmas para todos. E nessa hora, do alto do nosso conforto social, a gente pensa: \u201cn\u00e3o acredito! O que essa gente tem na cabe\u00e7a?\u201d.<\/p>\n<p>Bem, o que faz uma pessoa, exclu\u00edda e eliminada em uma sociedade baseada na competi\u00e7\u00e3o trocar essa \u201cliberdade de competi\u00e7\u00e3o\u201d por um projeto de \u201cliberdade\u201d baseado na viol\u00eancia e na for\u00e7a? Sim, parece absurdo. Mas a hist\u00f3ria pol\u00edtica moderna mostra que a decad\u00eancia de sociedades capitalistas liberais s\u00e3o sempre acompanhadas pela ascens\u00e3o de projetos ditatoriais e totalit\u00e1rios. Foi assim nos anos 1930, com o fascismo e nazismo p\u00f3s-crise de 1929, \u00e9 assim nos dias de hoje, com o reflorescimento da extrema direita em todo mundo p\u00f3s-crise de 2008. H\u00e1 sempre aqueles que, nos tempos de crise, querem controlar a sociedade pela for\u00e7a e viol\u00eancia sem abrir m\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o. \u201cA cadela do fascismo est\u00e1 sempre no cio\u201d, dizia Brecht. E \u00e9 exatamente o que ilustra\u00a0Round 6. Os jogos violentos n\u00e3o acabam com a competi\u00e7\u00e3o do mundo l\u00e1 fora, mas restabelecem a competi\u00e7\u00e3o com regras bem delimitadas e controladas pela for\u00e7a e viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas nem a sociedade baseada na competi\u00e7\u00e3o absoluta nem os projetos ditatoriais e totalit\u00e1rios s\u00e3o capazes de estabelecer uma verdadeira igualdade entre as pessoas. Os cen\u00e1rios onde acontecem os jogos em\u00a0Round 6\u00a0s\u00e3o todos bem limpos, higienizados, iluminados e neles reina a ordem e a disciplina. A trilha sonora ainda conta com Dan\u00fabio Azul, de Johann Strauss, que ajuda a dar o tom ordeiro refinado (imposs\u00edvel n\u00e3o pensar em\u00a02001 \u2013 Uma odiss\u00e9ia no espa\u00e7o). Mas nem toda essa apar\u00eancia \u00e9 suficiente para contornar o fato ineg\u00e1vel de que o que acontece ali \u00e9 a barb\u00e1rie. A todo momento a s\u00e9rie parece nos alertar: cuidado com falsos projetos de ordem e liberdade, podem ser apenas um esconderijo para o oposto. O discurso da livre concorr\u00eancia \u00e9 bonito no papel, mas \u00e9 a barb\u00e1rie na pr\u00e1tica. Porque o que a concorr\u00eancia elimina s\u00e3o pessoas.<\/p>\n<p>De todos os cen\u00e1rios, o que melhor representa isso s\u00e3o as escadarias do local, todas muito coloridas, alegres e bem organizadas. Nem parecem fazer parte de uma pris\u00e3o. \u00c9 ineg\u00e1vel a refer\u00eancia desse cen\u00e1rio \u00e0s obras de Maurits Escher, artista holand\u00eas que trabalhava bastante com isometria. O pr\u00f3prio Escher desenhou escadarias que, aparentemente, se mostram bem organizadas e encaixadas, mas que, sob um olhar mais atento, se revelam um completo absurdo il\u00f3gico. Tal como as escadas de Escher, os jogos em\u00a0Round 6\u00a0e a livre competi\u00e7\u00e3o (na qual se baseia o capitalismo), parecem organizadas, l\u00f3gicas, capazes de garantir igualdade e liberdade\u2026 mas n\u00e3o passam de uma falsa simetria. Um completo absurdo que esconde a viol\u00eancia e a barb\u00e1rie na qual se apoiam.<\/p>\n<div id=\"attachment_65091\" style=\"width: 1546px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65091\" class=\"size-full wp-image-65091\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R3.jpg\" alt=\"\" width=\"1536\" height=\"871\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R3.jpg 1536w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R3-300x170.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R3-1024x581.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R3-768x436.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R3-150x85.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R3-696x395.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R3-1068x606.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1536px) 100vw, 1536px\" \/><p id=\"caption-attachment-65091\" class=\"wp-caption-text\">De olhos bem fechados \u2013 quem se esconde por detr\u00e1s das m\u00e1scaras?<\/p><\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-65092\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R4.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R4.jpg 1280w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R4-300x169.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R4-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R4-768x432.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R4-150x84.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R4-696x392.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R4-1068x601.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/p>\n<p><strong>Voyeurismo e sadismo<\/strong><\/p>\n<p>A s\u00e9rie tamb\u00e9m aborda quest\u00f5es que costumo incluir sob o guarda-chuva filos\u00f3fico das seguintes perguntas: existe uma natureza humana? Se sim, at\u00e9 onde ela pode ir? E esse \u00e9 um tema principal que a rela\u00e7\u00e3o entre as personagens parece evocar. Vale tudo em uma competi\u00e7\u00e3o? Mesmo que ela custe nossa vida? Do que somos capazes de fazer em condi\u00e7\u00f5es extrema? A esses dilemas, colocados em cada etapa dos jogos, os personagens v\u00e3o dando respostas diferentes.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3 para os competidores. \u00c9 poss\u00edvel entender esses questionamentos a todos os envolvidos nos jogos. A come\u00e7ar pelos \u201ctrabalhadores\u201d an\u00f4nimos, prontos para executar absolutamente qualquer ordem sem questionamentos e que assistem a tudo indiferentes, apenas cumprindo seu papel. At\u00e9 onde devemos simplesmente cumprir as ordens porque \u00e9 assim e assim deve ser feito? O tema j\u00e1 foi amplamente discutido e um dos pontos altos desse debate \u00e9 o epis\u00f3dio do julgamento e Adolf Eichmann, funcion\u00e1rio p\u00fablico nazista que alegou em sua defesa estar apenas cumprindo ordens que n\u00e3o eram absurdas em sua \u00e9poca. Sobre esse epis\u00f3dio que Hanna Arendt escreveu\u00a0Eichmann em Jerusal\u00e9m\u00a0(1963), onde discute o seu conceito de banalidade do mal. E sobre essa mesma ideia foi realizado e experimento do psic\u00f3logo Stanley Milgram em 1963, que acabou virando filme em 2012 (O Experimento de Milgram, Michael Almereyda).<\/p>\n<p>Mas os questionamentos sobre a natureza humana devem ser feitos, especialmente, para os VIPs, os rica\u00e7os por tr\u00e1s do financiamento dos jogos em\u00a0Round 6. Diz o dito popular que se quisermos conhecer verdadeiramente algu\u00e9m \u00e9 preciso dar poder a essa pessoa. E\u00a0Round 6\u00a0tamb\u00e9m p\u00f5e isso \u00e0 prova. O baile dos mascarados que se divertem sadicamente com a morte e a destrui\u00e7\u00e3o alheia sem perder a pose j\u00e1 foi tratado em outros cl\u00e1ssicos do cinema como\u00a0Sal\u00f3 ou os 120 dias de Sodoma\u00a0(1975, Pier Paolo Pasolini) ou\u00a0De olhos bem fechados\u00a0(1999, Stanley Kubrick). Ambos abordam tend\u00eancias s\u00e1dicas e voyeurismo (prazer em observar o que \u00e9 \u00edntimo ou m\u00f3rbido) praticados abertamente por aqueles que concentram o poder e que, justamente por isso, n\u00e3o se preocupam em satisfazer e manifestar seus piores aspectos. Mas o que\u00a0Round 6\u00a0p\u00f5e de novo no debate \u00e9 a gamefica\u00e7\u00e3o: al\u00e9m de serem tratados como apostas de cavalos pelos VIPs, tal como no\u00a0Big Brother Brasil, os jogadores eliminados v\u00e3o se apagando no tel\u00e3o. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar no sadismo e voyeurismo envolvido em entretenimento do g\u00eanero que se baseia na humilha\u00e7\u00e3o dos derrotados e que, no entanto, assistimos com naturalidade. E tal como em\u00a0Sal\u00f3, os magnatas de\u00a0Round 6\u00a0fazem tudo isso sem abrir m\u00e3o do refinamento cultural, recitando versos e ouvindo boa m\u00fasica. \u00c9 um retrato da hipocrisia do elitismo e do conservadorismo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-65093\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R5.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"641\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R5.jpg 1280w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R5-300x150.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R5-1024x513.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R5-768x385.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R5-150x75.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R5-696x349.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R5-1068x535.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/p>\n<div id=\"attachment_65094\" style=\"width: 1290px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65094\" class=\"size-full wp-image-65094\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R6.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R6.jpg 1280w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R6-300x188.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R6-1024x640.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R6-768x480.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R6-150x94.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R6-696x435.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R6-1068x668.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><p id=\"caption-attachment-65094\" class=\"wp-caption-text\">Sal\u00f3: voyeurs da barb\u00e1rie sem perder o status social.<\/p><\/div>\n<p><strong>\u00c0 beira da morte, de frente com tudo isso<\/strong><\/p>\n<p>E no debate sobre nossa humanidade submetida \u00e0 situa\u00e7\u00f5es extremas, h\u00e1 um tema universal que \u00e9 o da morte. A morte \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o extrema que todos n\u00f3s enfrentaremos um dia e naturalmente ele est\u00e1 presente no cinema. A cena do homem em seu leito de morte se deparando com o sentido da vida \u00e9 um cl\u00e1ssico tamb\u00e9m presente tamb\u00e9m em\u00a0Round 6. Tanto em\u00a02001 \u2013 Uma odisseia no espa\u00e7o\u00a0(1968, Stanley Kubrick) quanto em\u00a0O cidad\u00e3o Kane\u00a0(1941, Orson Welles), o ponto alto do entendimento da narrativa se d\u00e1 no leito de morte quando paramos para pensar qual o sentido disso tudo? Em 2001, diante do monolito misterioso, o que nos torna humanos; para Charles Foster Kane, \u201cRosebud\u201d; e em\u00a0Round 6, \u201cqual a diferen\u00e7a entre uma pessoa muito pobre e uma pessoa muito rica?\u201d.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um grande gancho na hist\u00f3ria do cinema e a s\u00e9rie o aproveita para retomar o tema sobre a natureza humana sob condi\u00e7\u00f5es extremas. Mas n\u00e3o apenas fisicamente (por uma quest\u00e3o de vida ou morte nos jogos), mas sobre os extremos sociais: a absoluta mis\u00e9ria e a absoluta riqueza. Pode haver humanidade sob essas condi\u00e7\u00f5es? O que esse mundo t\u00e3o desigual tem feito conosco? S\u00e3o perguntas poss\u00edveis postas pela s\u00e9rie e para as quais n\u00e3o precisamos esperar o leito de morte para se perguntar. Se por um lado, h\u00e1 um certo consenso de que n\u00e3o deveriam existir pessoas miser\u00e1veis, a s\u00e9rie d\u00e1 margem para questionarmos o outro extremo: e bilion\u00e1rios, deveriam existir? Que risco isso nos oferece?<\/p>\n<div id=\"attachment_65095\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65095\" class=\"size-full wp-image-65095\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R7.jpeg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"525\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R7.jpeg 700w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R7-300x225.jpeg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R7-150x113.jpeg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R7-696x522.jpeg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><p id=\"caption-attachment-65095\" class=\"wp-caption-text\">O Cidad\u00e3o Kane, 1941<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_65096\" style=\"width: 1290px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65096\" class=\"size-full wp-image-65096\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R8.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R8.jpg 1280w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R8-300x169.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R8-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R8-768x432.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R8-150x84.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R8-696x392.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R8-1068x601.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><p id=\"caption-attachment-65096\" class=\"wp-caption-text\">2001 \u2013 Uma Odisseia no Espa\u00e7o<\/p><\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-65097\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R9.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"656\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R9.jpg 1280w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R9-300x154.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R9-1024x525.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R9-768x394.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R9-150x77.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R9-696x357.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R9-1068x547.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/p>\n<p><strong>Excesso de viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 quem questione\u00a0Round 6\u00a0por um suposto excesso e banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. Mas entendo que esse exagero seja parte central dos questionamentos levantados pela s\u00e9rie. Vivemos em um mundo violento, n\u00e3o apenas fisicamente, mas socialmente violento. E a desigualdade e a competi\u00e7\u00e3o social desenfreada s\u00e3os sintomas disso. O que a s\u00e9rie faz \u00e9, justamente, exagerar nesse retrato \u00e0 ponto de deix\u00e1-lo aceit\u00e1vel. \u00c9 esse exagero que faz com que as cenas percam o realismo e beirem a ironia, dando margem para que a gente reflita sobre isso.\u00a0Kill Bill\u00a0nunca foi criticado pelos seus exageros, pelo contr\u00e1rio, seu deboche \u00e9 considerado uma qualidade \u00fanica. \u00c9 o excesso que o torna palat\u00e1vel. Esse, ali\u00e1s, \u00e9 outro debate interessante. At\u00e9 onde as condi\u00e7\u00f5es sociais influenciam em nossa viol\u00eancia? \u00c9 um tema debatido pelo chamado experimento de Stanford, que acabou virando filme tamb\u00e9m:\u00a0O experimento de aprisionamento de Stanford\u00a0(2015, Kyle Patrick Alvarez).<\/p>\n<p>Mas para os que ainda duvidam da potencial vilania humana, vale procurar pela performance de Marina Abramovi\u0107 chamada Ritmo 0. A artista se p\u00f4s a disposi\u00e7\u00e3o durante 6 horas para que as pessoas fizessem o que bem entendessem com seu corpo livremente. Apenas isso. O que come\u00e7ou com flores e abra\u00e7os terminou como Marina violentada, mutilada e, por pouco, n\u00e3o saiu sem vida. Essa performance, de 1974, faz a viol\u00eancia de\u00a0Round 6\u00a0n\u00e3o parecer t\u00e3o absurda assim. Talvez apenas n\u00e3o queremos ver o qu\u00e3o violento pode ser o mundo.<\/p>\n<div id=\"attachment_65098\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-65098\" class=\"size-full wp-image-65098\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R10.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R10.jpg 640w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R10-300x169.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/R10-150x84.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><p id=\"caption-attachment-65098\" class=\"wp-caption-text\">Performance Ritmo 0, de Marina Abramovi\u0107 em 1974<\/p><\/div>\n<p>Round 6\u00a0\u00e9 feliz ao instigar todos esse debates \u2013 que s\u00e3o profundos \u2013 sem dar a eles uma resposta simples e f\u00e1cil. Faz uma caricatura sem ser caricato. E, l\u00f3gico, existem muitos outros debates e abordagens poss\u00edveis que n\u00e3o caberiam aqui por motivos de bom senso. Ao mesmo tempo que consegue abrir um di\u00e1logo como muitos temas e motes do cinema, faz tudo isso sem abrir m\u00e3o de um bom enredo e boas cenas de a\u00e7\u00e3o. Para quem quer s\u00f3 divers\u00e3o, ou para quem quer um bom debate, recomendo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas \u00faltimas semanas a s\u00e9rie sul-coreana Round 6, lan\u00e7ada pela Netflix, tornou-se um sucesso mundial e j\u00e1 \u00e9 uma das s\u00e9ries mais vistas da hist\u00f3ria da plataforma. A s\u00e9rie narra a hist\u00f3ria de pessoas endividadas que aceitam participar de jogos violentos em troca de um pr\u00eamio vultoso de dinheiro. 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