{"id":65075,"date":"2021-10-13T12:33:21","date_gmt":"2021-10-13T15:33:21","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=65075"},"modified":"2021-10-13T12:33:21","modified_gmt":"2021-10-13T15:33:21","slug":"afeganistao-o-macabro-negocio-da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/10\/13\/afeganistao-o-macabro-negocio-da-guerra\/","title":{"rendered":"Afeganist\u00e3o: o macabro neg\u00f3cio da guerra"},"content":{"rendered":"<p><em>Em v\u00e1rios artigos publicados neste site, analisamos o significado pol\u00edtico da derrota imperialista na guerra do Afeganist\u00e3o. Agora queremos nos referir a outro aspecto: os grandes lucros que essa guerra representou para certas empresas.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n<p>Pois o capitalismo transforma tudo em neg\u00f3cios, at\u00e9 as piores trag\u00e9dias como as guerras. Uma premissa que mant\u00e9m toda a sua validade no quadro da dura derrota que sofreram as for\u00e7as imperialistas no pa\u00eds. A BBC, principal meio de comunica\u00e7\u00e3o de um dos pa\u00edses derrotados, expressou em um artigo: <em>\u201cO que para muitos pode ter sido uma guerra perdida, para outros foi uma oportunidade de obter grandes lucros\u201d<\/em> [1].<\/p>\n<p>Vejamos o montante total de dinheiro que o or\u00e7amento dos Estados Unidos movimentou neste conflito (ao qual teria que somar o que gastaram as outras pot\u00eancias imperialistas). <em>\u201cO conflito no Afeganist\u00e3o custou ao Tesouro dos Estados Unidos cerca de US $ 2,3 trilh\u00f5es, segundo c\u00e1lculos da o projeto Cost of War na Brown University (Rhode Island)<\/em> \u201d[2].<\/p>\n<p><strong>A terceiriza\u00e7\u00e3o da guerra<\/strong><\/p>\n<p>Neste contexto, as guerras do Afeganist\u00e3o e do Iraque revelaram um facto novo em rela\u00e7\u00e3o a outras guerras que o imperialismo travou no passado: a terceiriza\u00e7\u00e3o de toda uma s\u00e9rie de opera\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os que antes eram realizados por unidades militares e militares oficiais. <em>\u201cUma parte substancial desses fundos foi usada para pagar os servi\u00e7os de empresas privadas que apoiaram as opera\u00e7\u00f5es dos EUA no Afeganist\u00e3o. [&#8230;] No geral, havia o dobro de contratados do que soldados estadunidenses [&#8230;] o que significava que os contratados carregavam o combust\u00edvel nos avi\u00f5es, dirigiram os caminh\u00f5es, cozinharam, limpavam, pilotaram helic\u00f3pteros e transportavam todos os tipos de equipamentos e materiais . Tamb\u00e9m constru\u00edram bases militares, aeroportos, pistas de pouso, etc.\u2026 \u00bb[3].<\/em><\/p>\n<p>Mais de uma centena de empresas (dos Estados Unidos e de outros pa\u00edses) receberam contratos do Pent\u00e1gono para realizar todos os tipos de servi\u00e7os no Afeganist\u00e3o e entre elas estavam algumas que tinham receita de bilh\u00f5es de d\u00f3lares. As cinco primeiras incluem: DynCorp International: US$14,4 bilh\u00f5es, Fluor Corporation: 13,5; Raiz Kellogg Brown (KBR): 3,6; Raytheon Technologies: 2,5 e Aegis LLC: 1,2. A fonte desses dados \u00e9 a pesquisa de Heidi Peltier, diretora do projeto &#8220;20 Anos de Guerra&#8221; da Universidade de Boston. Peltier esclarece que &#8220;os n\u00fameros reais poderiam ser um pouco maiores se tiv\u00e9ssemos todas as informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis desde 2001&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que v\u00e1rias dessas empresas n\u00e3o se limitaram a prestar servi\u00e7os de log\u00edstica, transporte e constru\u00e7\u00e3o, mas assumiram tarefas pr\u00f3prias das for\u00e7as militares e\/ou de intelig\u00eancia. Por exemplo, a DynCorp, entre outras atribui\u00e7\u00f5es, ficou encarregada de equipar e treinar a Pol\u00edcia Nacional do Afeganist\u00e3o e suas for\u00e7as antinarc\u00f3ticos, al\u00e9m de disponibilizar uma equipe de guarda-costas para a prote\u00e7\u00e3o de Hamid Karzai, quando ele era presidente do pa\u00eds. A Fluor operou 76 bases operacionais avan\u00e7adas.<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o da terceiriza\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es e opera\u00e7\u00f5es militares chegou a tal ponto que hoje existem empresas muito fortes especializadas nisso. Vimos o caso da DynCorp, mas talvez a mais famosa seja a Blackwater, fundada em 1997, definida como &#8220;uma empresa militar privada de mercen\u00e1rios dos Estados Unidos que oferece servi\u00e7os de seguran\u00e7a&#8221; em todo o mundo [4]. Quase todo o seu faturamento vem de contratos com o Departamento de Estado e a CIA. Teve forte presen\u00e7a na guerra do Iraque, na qual seus homens tiveram imunidade diplom\u00e1tica e uma \u201ccarta livre\u201d para realizar pris\u00f5es e torturas.<\/p>\n<p><strong>O complexo militar-industrial<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 dissemos que o capitalismo transforma a trag\u00e9dia da guerra em &#8220;oportunidade de neg\u00f3cios&#8221; para v\u00e1rias empresas. Esta oportunidade n\u00e3o \u00e9 apenas para aqueles que realizaram tarefas diretas no Afeganist\u00e3o e no Iraque, mas tamb\u00e9m para aqueles que comp\u00f5em o chamado complexo militar-industrial [5]. Linda Bilmes, uma das especialistas consultadas pela BBC, destaca que, al\u00e9m das empresas j\u00e1 mencionadas, \u201cas grandes empreiteiras de defesa dos Estados Unidos como Boeing, Raytheon, Lockheed Martin, General Dynamics e Northrop Grumman foram grandes benefici\u00e1rias da guerra no Afeganist\u00e3o. Eles ganharam muito dinheiro com a guerra.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil estimar quanto eles realmente faturaram pelo Afeganist\u00e3o, pois seus contratos n\u00e3o foram contabilizados como diretamente ligados \u00e0 guerra. <em>&#8220;Todos elas conseguiram contratos para fazer coisas nos Estados Unidos que eram usadas no Afeganist\u00e3o, mas n\u00e3o s\u00e3o contabilizadas como parte das despesas nesse pa\u00eds&#8221;,<\/em> disse Heidi Peltier. No entanto, o que o relat\u00f3rio mostra \u00e9 que <em>\u201cEntre os anos fiscais de 2001-2020, apenas essas cinco empresas compartilharam US $ 2,1 trilh\u00f5es em contratos do Pent\u00e1gono (calculados em d\u00f3lares de 2021)<\/em> \u201d.<\/p>\n<p>Algo que se expressou em lucros muito grandes para essas empresas. Um artigo no portal de jornalismo investigativo The Intercept mostra que: <em>\u201cSe voc\u00ea tivesse investido 10.000 d\u00f3lares nas cinco principais empresas militares dos EUA em setembro de 2001 e reinvestido todos os lucros desde ent\u00e3o, o mesmo portf\u00f3lio de a\u00e7\u00f5es hoje valeria dez vezes mais \u201d[6].<\/em><\/p>\n<p>Como informa\u00e7\u00e3o complementar, mas importante, n\u00e3o \u00e9 por acaso que todas essas empresas contam com ex-militares ou militares aposentados em seus conselhos de administra\u00e7\u00e3o que, quando estavam em atividade, ocuparam cargos muito elevados nas For\u00e7as Armadas. Uma fus\u00e3o de interesses e neg\u00f3cios que d\u00e1 um sentido muito profundo ao conceito de \u201ccomplexo militar-industrial\u201d.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, como \u00e9 habitual no capitalismo, essa rotatividade nos contratos estatais implica em negociatas e uso ineficiente de recursos por parte das empresas contratadas. Isso \u00e9 demonstrado pelos relat\u00f3rios de John Spoko, nomeado por Barack Obama &#8220;inspetor geral para a reconstru\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o&#8221;, em 2012. Relat\u00f3rios permanentes que foram sistematicamente ignorados [7].<\/p>\n<p>Entre outros fatos, Spoko denunciou em 2017 que 28 milh\u00f5es de d\u00f3lares foram desperdi\u00e7ados na fabrica\u00e7\u00e3o de uniformes camuflados para o ex\u00e9rcito afeg\u00e3o. O problema \u00e9 que a camuflagem escolhida foi a usada para regi\u00f5es com florestas e vegeta\u00e7\u00e3o, absolutamente in\u00fateis para o territ\u00f3rio predominantemente deserto e pedregoso do Afeganist\u00e3o. Um fato que seria quase c\u00f4mico se n\u00e3o fosse o contexto tr\u00e1gico em que ocorreu.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>[1] https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-internacional-58440346<\/p>\n<p>[2] Idem.<\/p>\n<p>[3] Ibid.<\/p>\n<p>[4] https:\/\/elpais.com\/internacional\/2014\/07\/02\/actualidad\/1404329138_563572.html<\/p>\n<p>[5] Sobre este assunto, recomendamos a leitura do respectivo subt\u00edtulo do artigo &#8220;EUA: A din\u00e2mica da economia e os setores da burguesia&#8221; https:\/\/litci.org\/pt\/63383-2\/<\/p>\n<p>[6] Citado em https:\/\/es.ara.cat\/internacional\/guerra-afganistan-negocio-billonario_1_4098709.html<\/p>\n<p>[7] Idem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em v\u00e1rios artigos publicados neste site, analisamos o significado pol\u00edtico da derrota imperialista na guerra do Afeganist\u00e3o. Agora queremos nos referir a outro aspecto: os grandes lucros que essa guerra representou para certas empresas.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":65081,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[4202,3519],"tags":[1551,4308,4309,4310],"class_list":["post-65075","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-afeganistao","category-eua","tag-alejandro-iturbe","tag-guerra-afeganistao","tag-lucro-e-guerra","tag-mercenarios-de-guerra"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/AFg-3.jpg","categories_names":["Afeganist\u00e3o","Estados Unidos"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65075","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=65075"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65075\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/65081"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=65075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=65075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=65075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}