{"id":64783,"date":"2021-09-03T13:19:48","date_gmt":"2021-09-03T16:19:48","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=64783"},"modified":"2021-09-03T13:19:48","modified_gmt":"2021-09-03T16:19:48","slug":"uma-cronica-dos-protestos-de-11j-em-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/09\/03\/uma-cronica-dos-protestos-de-11j-em-cuba\/","title":{"rendered":"Uma cr\u00f4nica dos protestos de 11J em Cuba"},"content":{"rendered":"<p><em>Reproduzimos esta cr\u00f4nica sobre os acontecimentos de 11 de julho em Cuba, com a permiss\u00e3o de Mel Herrera, autora da nota. \u00c9 muito importante, em meio a tanta desinforma\u00e7\u00e3o e pol\u00eamica, conhecer os fatos, principalmente por meio de quem os protagonizou. O artigo foi publicado originalmente em: <\/em><a href=\"https:\/\/www.periodismodebarrio.org\/2021\/07\/sin-gaceniga-no-hay-revolucion\/amp\/?__twitter_impression=true\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.periodismodebarrio.org\/2021\/07\/sin-gaceniga-no-hay-revolucion\/amp\/?__twitter_impression=true<\/a><strong>\u00a0<\/strong><br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Sem gace\u00f1iga<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a> n\u00e3o h\u00e1 revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 11 de julho. Um domingo qualquer com seu t\u00e9dio e parcim\u00f4nia de costume. Ou isso parece ser, at\u00e9 que vejo em uma transmiss\u00e3o ao vivo que em San Antonio de los Ba\u00f1os as pessoas sa\u00edram \u00e0s ruas para protestar. \u00c9 um protesto numeroso e inesperado. Espont\u00e2neo e muito cubano: ao ritmo de conga, bicicletas, dores, assovios, &#8220;singaos&#8221;<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> a D\u00edaz-Canel, reclamos de liberdade.<\/p>\n<p><strong>Um amigo me enviou o link da transmiss\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea viu isso? \u2014, ele me pergunta. Eu respondo que sim, acabei de ver e n\u00e3o consigo acreditar. Sinto ansiedade. Ele me diz que tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho vontade de sair \u00e0 rua \u2014 acrescenta \u2014, ou estar l\u00e1.<\/p>\n<p>Nas redes, as pessoas compartilham e comentam com j\u00fabilo e esperan\u00e7a o v\u00eddeo do protesto. San Antonio de los Ba\u00f1os de repente se torna viral e a maioria v\u00ea na cidade a fa\u00edsca da liberdade. Ela deu o empurr\u00e3o. Em seguida, une-se o povoado de de Palma Soriano, em Santiago de Cuba e, pouco a pouco, v\u00e3o sendo acrescentadas outras comunidades e cidades da ilha. Alguns perguntam nas redes: &#8220;E Havana?&#8221;.<\/p>\n<p>\u2015O que fazemos? \u2015me pergunta meu amigo\u2015. \u00bfMaleconazo<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>?<\/p>\n<p>Respondo a ele com tr\u00eas\u00a0<em>emojis<\/em>\u00a0de gargalhadas.<\/p>\n<p>\u2015N\u00e3o ria e prepare a bolsa. Vamos para o Malec\u00f3n.<\/p>\n<p>Estou indecisa. Minha indecis\u00e3o tem a ver mais com a pregui\u00e7a dominical.<\/p>\n<p>\u2015Vamos, mulher. E te levo uma gace\u00f1iga.<\/p>\n<p>Deixo-me subornar e come\u00e7o a me vestir. De fato, \u00e9 algo que me devo: um dia provar o que \u00e9 fazer uso do direito de me manifestar. N\u00e3o fui \u00e0 marcha cuir<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> em 11 de maio de 2019 porque um funcion\u00e1rio da Seguran\u00e7a do Estado me avisou que era melhor n\u00e3o sair de casa naquele s\u00e1bado. Tampouco participei da vig\u00edlia em frente ao Minist\u00e9rio da Cultura no hist\u00f3rico 27 \u200b\u200bde novembro de 2020. N\u00e3o posso deixar esse 11 de julho passar, quando tudo indica que j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 um domingo qualquer.<\/p>\n<p>Afinal de contas, o que pode acontecer? Que em Havana ningu\u00e9m saia \u00e0s ruas ou que as tr\u00eas ou quatro pessoas mais encorajadas a sair sejam reprimidas pela pol\u00edcia e afastadas de qualquer outra tentativa de manifesta\u00e7\u00e3o? Sempre haver\u00e1 a op\u00e7\u00e3o de sentar-se por a\u00ed e comer a <em>gace\u00f1iga<\/em>.<\/p>\n<p>Meu amigo e eu combinamos de nos encontrar em algum lugar perto do Malec\u00f3n, mas depois descobrimos que um grupo de artistas e ativistas iria para o ICRT. Melhor nos encontrarmos no El Vedado. Enfim, um lugar fica perto do outro. Mais tarde veremos o que decidimos. A ideia, por enquanto, \u00e9 sair. Nesse ponto, nem ele nem eu podemos ficar tranquilos dentro de casa. Mais e mais lugares est\u00e3o surgindo. Efeito domin\u00f3. Ou uma esp\u00e9cie de cont\u00e1gio por \u201ctransmiss\u00e3o aut\u00f3ctone\u201d, falando em termos de pandemia, quando a causa n\u00e3o \u00e9 um agente estrangeiro, mas sim local.<\/p>\n<p>Saio para pegar um t\u00e1xi e me dou conta que j\u00e1 cortaram a internet. Tinham demorado, penso. O Governo tomou a primeira das medidas para controlar o &#8220;cont\u00e1gio&#8221;: restringir a informa\u00e7\u00e3o que entra e sai, a possibilidade de outros protestos se organizarem atrav\u00e9s de redes e grupos de mensagens r\u00e1pidas e, ao mesmo tempo, esconder do mundo, pelo menos em tempo real, os atos de viol\u00eancia e a investida repressiva que usa contra os que discordam.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Governo nos ensinou, desde a noite de 26 de novembro de 2020, quando tirou os aquartelados de San Isidro de sua sede, que se corta a internet \u00e9 porque algo est\u00e1 acontecendo, alguma porta est\u00e1 derrubando para tirar os grevistas opositores, alguma moradia est\u00e1 sendo invadida, um ministro est\u00e1 dando um murro, algum grupo de artistas\/jornalistas est\u00e1 sendo colocado aos golpes em um \u00f4nibus. Cortar a internet em Cuba \u00e9 um alerta de repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o t\u00e1xi passa por <em>Neptuno<\/em>, perto de entrar no <em>El Vedado<\/em>, nos deparamos com um grupo de pessoas que se manifestam. A popula\u00e7\u00e3o do bairro de Centro Habana foi \u00e0s ruas. D\u00e3o passos firmes, uns cantam &#8220;P\u00e1tria e vida&#8221;, outros apenas gritam &#8220;Liberdade&#8221;. Aparecem cada vez mais pessoas. Fico impressionada. H\u00e1 policiais em uma esquina. Eles tamb\u00e9m assistem \u00e0 demonstra\u00e7\u00e3o com walkie-talkie em m\u00e3os, atordoados, como se n\u00e3o soubessem o que fazer e aguardam indica\u00e7\u00f5es do alto comando.<\/p>\n<p>O t\u00e1xi anda devagar para n\u00e3o atropelar ningu\u00e9m. Fico impaciente e ao mesmo tempo acho que nunca me senti t\u00e3o feliz em um engarrafamento como esse. Vale a pena. Eu quero descer e me juntar aos manifestantes, mas meu amigo me espera. Quando chego, ligo para ele e digo que j\u00e1 estou no El Vedado. Vou em dire\u00e7\u00e3o ao ICRT.<\/p>\n<p>De longe, vejo um grupo de jovens em frente \u00e0 entrada. Gritam algo, levantam as m\u00e3os, gesticulam, se movem. Alguns ve\u00edculos e pessoas param para olhar. \u00c0 medida que me aproximo, descubro rostos familiares. Tamb\u00e9m est\u00e1 se tornando mais claro para mim o que reivindicam. Pedem alguns minutos de resposta na televis\u00e3o. Uma televis\u00e3o \u00fanica em Cuba, controlada pelo Partido Comunista, que h\u00e1 meses se encarrega de assassinar publicamente a reputa\u00e7\u00e3o de todos eles, acusando-os de mercenarismo, revelando detalhes de suas vidas \u00edntimas, violando a privacidade de suas redes sociais. Uma televis\u00e3o sem contrapartida, difamat\u00f3ria e paternalista com seus usu\u00e1rios, a quem tenta explicar, atrav\u00e9s da condescend\u00eancia, o que chama de \u201cfarsa dos artistas e opositores pagos pelo inimigo\u201d.<\/p>\n<p>Os artistas em frente ao ICRT pedem, al\u00e9m disso, respeito aos direitos de express\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o, demonstra\u00e7\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o sem media\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. \u201cDireito a ter direitos!\u201d, clamam. Chego justamente no momento em que os manifestantes cantam o Hino Nacional. Fico emocionada. Abra\u00e7o o ator Daniel Triana, cumprimento Yunior Garc\u00eda Aguilera e outros conhecidos. Em seguida, uno-me \u00e0s suas demandas.<\/p>\n<p>Os trabalhadores do Instituto, parados na porta do pr\u00e9dio, respondem com consignas pr\u00f3-Governo. Lan\u00e7am vivas \u00e0 Fidel, Ra\u00fal e \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o. De vez em quando se lembram de D\u00edaz-Canel. Mais trabalhadores se unem a eles. Pela forma como chegaram, parecem ter sido convocados \u00e0s pressas. Trazem bandeiras cubanas, como se dessem mais import\u00e2ncia \u00e0 Cuba do que o resto. &#8220;Somos cubanos!&#8221; \u201cN\u00f3s somos iguais a voc\u00eas!\u201d, n\u00f3s os recordamos a plenos pulm\u00f5es. Sentamos no ch\u00e3o. N\u00e3o queremos confronto. Mesmo sentados, continuamos firmes a pedir que sejam respeitados os direitos que viemos exigir.<\/p>\n<p>Querem provar nosso verdadeiro interesse em Cuba, repetindo consignas como &#8220;Abaixo o bloqueio!&#8221;, &#8220;Cuba sim, ianques n\u00e3o!&#8221; . Rapidamente nos levantamos e, ao contr\u00e1rio deles, mostramos que podemos dizer suas consignas, as que conservam um pouco de sensatez. Isso os confunde. N\u00e3o se espera que falemos abertamente contra o bloqueio e contra a interfer\u00eancia norte-americana. Mas, como bons repetidores, eles retomam seu discurso. N\u00e3o conseguem pensar em outra coisa.<\/p>\n<p>Suas consignas carecem de criatividade. S\u00e3o as que o oficialismo ensinou desde 1959. Desde ent\u00e3o, toda originalidade e espontaneidade morreram. A Revolu\u00e7\u00e3o sem revolucion\u00e1rios. Ou com muito poucos, os poucos que tamb\u00e9m foram expulsos do oficialismo e difamados por terem se atrevido a discordar no m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Os &#8220;segurosos&#8221; ou agentes da Seguran\u00e7a do Estado come\u00e7am a chegar. V\u00e3o se localizando estrategicamente entre n\u00f3s. Alguns parecem nervosos, recebem liga\u00e7\u00f5es, desligam, suam, enxugam suor, olham para n\u00f3s, mexem no celular, metem a m\u00e3o no bolso, olham para n\u00f3s, roem as unhas, tentam se camuflar entre n\u00f3s. Mas sabemos como distingui-los. E geralmente estamos certos.<\/p>\n<p>Eles est\u00e3o esperando o momento prop\u00edcio para prender violentamente as figuras-chave da manifesta\u00e7\u00e3o e dissipar tudo. Estamos cercados. Eles est\u00e3o atr\u00e1s e nas laterais; em frente, os trabalhadores do ICRT, que aumentaram o tom, tornaram-se agressivos. O que eles entendem como um confronto para ver quem grita mais alto e quem mais defende Cuba, para n\u00f3s \u00e9 uma tentativa de di\u00e1logo, um desafio ao poder, um ensaio de democracia.<\/p>\n<p>Eles nos olham com \u00f3dio e gritam &#8220;Abaixo a <em>gusanera<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a><\/em>!&#8221;. Aproximam-se para reafirmar na nossa cara: &#8220;Cuba Sim, ianques n\u00e3o!&#8221;. Seguimos: &#8220;Cuba sim, ianques n\u00e3o, autoritarismo oficialista e viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos tampouco!&#8221;. Respondemos a eles com &#8220;Viva Cuba Livre!&#8221;, Livre dos ianques e, tamb\u00e9m, dos autocratas e ditadores erroneamente chamados de revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Vejo meu amigo \u00e0 dist\u00e2ncia e saio da multid\u00e3o para encontr\u00e1-lo. Um <em>seguroso<\/em> me agarra pelo bra\u00e7o e pergunta para onde estou indo. Eu n\u00e3o respondo e apenas olho para a m\u00e3o dele em mim. Ele me solta. Ele est\u00e1 impaciente e sufocado. J\u00e1 quer come\u00e7ar sua manobra repressiva. \u2014 Est\u00e3o \u00e0 mostra \u2014 digo a ele. Enquanto me afasto, ou\u00e7o-o dizer a um:\u00a0 \u2014O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui? D\u00e1 o fora ou levo voc\u00ea tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Chego no local no qual est\u00e1 meu amigo e conto a ele o que aconteceu. Mantemos uma dist\u00e2ncia prudente. Ele pensa que esta \u00e9 uma tentativa fracassada. Um caminh\u00e3o estaciona logo atr\u00e1s dos manifestantes. Os trabalhadores do ICRT abafaram a manifesta\u00e7\u00e3o. Meu amigo fica irritado:<\/p>\n<p>\u2014 Mas voc\u00ea v\u00ea as idades? Voc\u00ea se d\u00e1 conta? O problema de Cuba \u00e9 geracional \u2014 sentencia. \u2014 Vamos ao Malec\u00f3n porque deve haver algo l\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que nos afastamos, o caos se arma. Colocam alguns artistas e ativistas \u00e0 for\u00e7a no caminh\u00e3o. A aglomera\u00e7\u00e3o raivosa &#8220;revolucion\u00e1ria&#8221; grita para eles embaixo, aprova a viol\u00eancia. \u00c9 c\u00famplice. Vemos pessoas correndo entre os carros, policiais e agentes da Seguran\u00e7a do Estado perseguindo e atacando jornalistas que filmaram os fatos. O mais certo \u00e9 que queiram apagar o que foi gravado e destruir seu equipamento de trabalho. Sinto frustra\u00e7\u00e3o e um pouco de ang\u00fastia. O que vai acontecer com eles?<\/p>\n<p>Descemos La Rampa e atravessamos Centro Habana pelas ruas pr\u00f3ximas ao Malec\u00f3n. A ideia \u00e9 aderir a qualquer protesto que apare\u00e7a. Ao longo do caminho, somos acompanhados por outros amigos e conhecidos. Um deles nos conta que D\u00edaz-Canel, na televis\u00e3o, acaba de chamar os revolucion\u00e1rios \u00e0s ruas para conter as manifesta\u00e7\u00f5es, o povo para enfrentar o povo. Ele disse que a ordem de combate foi dada. <em>Singao<\/em> come\u00e7a a perder ar homof\u00f3bico e agora me parece um adjetivo muito pobre para descrev\u00ea-lo.<\/p>\n<p>No momento n\u00e3o vemos nada, embora as ruas estejam tumultuadas. Nota-se que algo aconteceu. Cuba despertou com mais desejos de liberdade do que nunca. O sol est\u00e1 forte e estou come\u00e7ando a ter sede. Chegamos ao Prado. A\u00ed tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nada. Finalmente compramos \u00e1gua em uma lanchonete do Museu de Bellas Artes. Subimos em dire\u00e7\u00e3o ao Parque Central, cansados \u200b\u200be sem esperan\u00e7a. Acreditamos que tudo acabou.<\/p>\n<p>Conforme nos aproximamos, um coro de vozes mais alto \u00e9 ouvido. J\u00e1 no parque somos surpreendidos por uma imensa quantidade de pessoas se manifestando. Isso \u00e9 impressionante. N\u00e3o vi uma concentra\u00e7\u00e3o assim em Cuba, portanto, n\u00e3o \u00e9 para os atos convocados pelo oficialismo, geralmente sob coa\u00e7\u00e3o. A alegria das pessoas \u00e9 contagiante. Meu amigo sorri, grava com seu celular. Fica emocionado e encorajando os que passam. Eu o ou\u00e7o dizer: \u201cIsso, isso \u00e9 o que precis\u00e1vamos fazer. Amanh\u00e3 Cuba amanhece livre\u201d.<\/p>\n<p>Imediatamente nos colocamos entre os manifestantes, que est\u00e3o passando pelo Prado em dire\u00e7\u00e3o ao Malec\u00f3n. Ningu\u00e9m pede interven\u00e7\u00e3o militar, ningu\u00e9m pede anexa\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos. Pelo menos l\u00e1, &#8220;P\u00e1tria e Vida!&#8221;, &#8220;Estamos com fome!&#8221;, &#8220;Rem\u00e9dios!&#8221;, &#8220;Fechem as lojas do MLC<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>!&#8221;, &#8220;Abaixo a ditadura!&#8221;, &#8220;Chega de viol\u00eancia e repress\u00e3o!&#8221; e &#8220;Liberdade!&#8221; S\u00e3o as reivindica\u00e7\u00f5es e consignas que dominam o protesto. \u00c9 verdade que tamb\u00e9m de vez em quando dedicam um <em>singao<\/em> a D\u00edaz-Canel.<\/p>\n<p>Os &#8220;boinas negras&#8221; e os poucos &#8220;revolucion\u00e1rios&#8221; que surgiram, tentam tomar o controle e nos isolar. Mas somos muitos; Somos uma massa de pessoas que nunca pensei que veria reunidas um dia. Os <em>boinas negras<\/em> nos intimidam com as suas armas e respondemos gritando que n\u00e3o temos medo, porque \u201co povo unido nunca ser\u00e1 vencido\u201d. A consigna que o oficialismo nos fez memorizar, hoje usamos contra ele. H\u00e1 assobios, aplausos, sorrisos, entona\u00e7\u00f5es do Hino Nacional cada vez que os <em>boinas negras<\/em> tentam aplicar sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>Impedem nossa passagem, mas descemos a toda velocidade uma rua perpendicular ao Prado at\u00e9 chegarmos \u00e0 do Museu da Revolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma virada inesperada para quem quer dissipar o protesto. As pessoas correm pelas laterais e jardins do museu em dire\u00e7\u00e3o ao Malec\u00f3n. Eu gosto do caos. O tr\u00e2nsito para, \u00f4nibus e carros d\u00e3o buzinadas, algumas pessoas nos encorajam das janelas dos \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Encontramos algumas jovens trans e travestis que tamb\u00e9m v\u00e3o \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o. Meu amigo me diz: \u201cA comunidade LGBTIQ est\u00e1 presente\u201d, e n\u00f3s dois rimos. Ele aperta minha m\u00e3o com for\u00e7a e continuamos. Eu paro para olhar para as pessoas que est\u00e3o protestando. A maioria delas s\u00e3o afrodescendentes, gente do bairro. Somos um batalh\u00e3o. Somos as pessoas que vivem em bairros e comunidades vulner\u00e1veis, para quem a Revolu\u00e7\u00e3o foi feita. &#8220;Marginais&#8221;, &#8220;vulgares&#8221;, &#8220;confusos&#8221;, &#8220;delinquentes&#8221;, diriam o presidente e alguns intelectuais.<\/p>\n<p>Atravessamos o t\u00fanel e nos aproximamos cada vez mais do Malec\u00f3n. Os <em>boinas pretas<\/em> est\u00e3o atr\u00e1s de n\u00f3s. Quando eles se aproximam de algu\u00e9m em particular, corremos para cerc\u00e1-los com as m\u00e3os para cima. N\u00e3o seremos violentos, mas n\u00e3o permitiremos que agridam ningu\u00e9m. Corremos de um lado para o outro. N\u00f3s os sufocamos. De repente, perco meu amigo. Ele me liga e me diz que est\u00e1 na est\u00e1tua de M\u00e1ximo G\u00f3mez. A esplanada circular est\u00e1 cheia de manifestantes. O grande bloco parece ter se fragmentado: alguns chegaram ao <em>Malec\u00f3n<\/em>, outros recuaram ou permaneceram sob o General\u00edssimo gritando &#8220;Liberdade&#8221;.<\/p>\n<p>Encontro meu amigo, que fica feliz por ver tudo o que se armou. Come\u00e7amos a nos sentir cansados \u200b\u200be com sede e decidimos ir embora. Um grupo de idosos armados com paus passa por n\u00f3s. S\u00e3o os convocados pelo presidente para lutar contra os manifestantes. S\u00e3o alguns velhos cansados. Podem ser meu av\u00f4. Naquele momento fico feliz porque meu av\u00f4, o combatente, morreu e morreu decepcionado. Ningu\u00e9m vai for\u00e7ar meu av\u00f4 a dar pauladas. Ningu\u00e9m vai busc\u00e1-lo para isso.<\/p>\n<p>Mais atr\u00e1s, vemos uma forma\u00e7\u00e3o de soldados do servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio e \u00f4nibus do qual descem civis para nos enfrentar. Alguns destes \u00faltimos nos alcan\u00e7am na Rua Habana quando pretendemos sair. Eles v\u00eam com bandeiras e consignas autom\u00e1ticas, seus aplausos a Fidel e \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o. V\u00eam com sua tradi\u00e7\u00e3o de atos de rep\u00fadio<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>, cantam para n\u00f3s \u201cPin pon fora, abaixo a <em>gusanera<\/em>\u201d, gritam: vende-p\u00e1tria, comprados, mercen\u00e1rios. Ainda me assombro com a facilidade dos oficialistas em chamar qualquer pessoa com um pensamento dissidente de mercen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Cantam &#8220;Eu sou Fidel!&#8221; e dizem que contra esta Revolu\u00e7\u00e3o ningu\u00e9m pode. A maioria s\u00e3o mulheres. Gritam e suas veias saltam, o rosto corado. Meu amigo pede a uma delas para levantar a m\u00e1scara. A mulher responde que tem mais coragem do que ele. Gritam-nos para sairmos, que abandonemos o pa\u00eds, que Cuba \u00e9 deles, os &#8220;revolucion\u00e1rios&#8221;. Exibem suas bandeiras com orgulho, como se desej\u00e1ssemos outra bandeira. Como se apenas eles fossem dignos de carreg\u00e1-las.<\/p>\n<p>Sinto uma profunda impot\u00eancia e desejo de respond\u00ea-los. Meu amigo me convence da improdutividade de tentar algum di\u00e1logo com eles. Os fan\u00e1ticos s\u00f3 acreditam em seus dogmas e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que os mova dessa posi\u00e7\u00e3o. Finalmente partimos. A tarde vai terminando. Ainda estamos sem internet, mas ficamos sabendo que em toda Cuba houve protestos, pris\u00f5es, viol\u00eancia excessiva das for\u00e7as policiais e at\u00e9 feridos.<\/p>\n<p>Voltamos para o Prado. H\u00e1 um tumulto confuso de &#8220;revolucion\u00e1rios&#8221; e manifestantes antigoverno. Encontramos outros amigos que nos dizem ter sido feito algo grande em Carlos III, tamb\u00e9m. Aqui vamos n\u00f3s. J\u00e1 estou cansada, ainda sigo sedenta e suando, mas, de fato, agora n\u00e3o h\u00e1 nada mais importante no meu pa\u00eds do que estar na rua e apoiar.<\/p>\n<p>No caminho, uma senhora nos pergunta:<\/p>\n<p>&#8220;E voc\u00eas, de que grupo s\u00e3o?&#8221; Da P\u00e1tria e Vida ou da P\u00e1tria ou Morte?<\/p>\n<p>Primeiro rimos, depois entendemos o que ele quis dizer. Um de n\u00f3s respondeu que da &#8220;P\u00e1tria e Vida.&#8221; \u201cSomos os que queremos uma vida melhor, liberdades, que nossos direitos sejam respeitados, uma Cuba Livre\u201d, agrego. Entendo tamb\u00e9m o que meu pai &#8211; eletricista e negro marginal de San Miguel del Padr\u00f3n, segundo a descri\u00e7\u00e3o da c\u00fapula do poder &#8211; quer dizer quando canta \u201cP\u00e1tria e Vida\u201d. Ele e os milhares que cantamos em todo o Prado.<\/p>\n<p>Subimos pela Belascoa\u00edn. A rua est\u00e1 cheia de gente e todos falam a mesma coisa: protestos e viol\u00eancia policial. Carlos III tem mais policiais do que civis. Parece que algo aconteceu aqui. Sentamos em um parque <em>wi-fi<\/em>. Uma das que vieram conosco consegue se conectar \u00e0 internet e nos conta o que aconteceu em outros munic\u00edpios e cidades do pa\u00eds. Aparentemente, na Plaza de la Revoluci\u00f3n houve um grande confronto. &#8220;Esse \u00e9 o lugar&#8221;, diz meu amigo. E para l\u00e1 iremos. Talvez cheguemos a tempo de algo.<\/p>\n<p>O cansa\u00e7o e a sede aumentam. Minhas pernas n\u00e3o aguentam mais e estou com fome. Todos olham para n\u00f3s na rua. As pessoas come\u00e7am a olhar com desconfian\u00e7a. N\u00f3s tamb\u00e9m a eles. Ser\u00e3o? O que ser\u00e3o? Ser\u00e3o &#8220;P\u00e1tria e Vida&#8221; ou &#8220;P\u00e1tria ou Morte?&#8221; Chegamos a uma das ruas que levam \u00e0 <em>Plaza<\/em>. Na esquina, h\u00e1 um grupo de pessoas observando algo. \u00c9 um desfile de \u201creafirma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d, preparado pelo Governo. Uma forma de limpar a honra da Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais \u00e0 frente, sob algumas \u00e1rvores, civis mais velhos tamb\u00e9m est\u00e3o observando. N\u00f3s passamos atr\u00e1s deles. Um menino que vem correndo conta que para l\u00e1 est\u00e1 militarizado. N\u00e3o v\u00e3o nos deixar passar at\u00e9 o final do desfile. Decidimos voltar. Os senhores que deixamos atr\u00e1s come\u00e7am a gritar coisas para n\u00f3s. Um deles, o mais velho, pergunta-nos o que fazemos e para onde vamos. N\u00f3s respondemos que vamos para a casa.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas sabem que isso \u00e9 mentira\u00a0 \u2014 \u00a0diz alterado. \u2014Voc\u00eas n\u00e3o estavam indo para casa. Saiam daqui provocadores.<\/p>\n<p>Eu vou em frente. Tento n\u00e3o me deixar provocar. Lembro-me das palavras do meu amigo: \u201cO problema de Cuba \u00e9 geracional\u201d. N\u00e3o vou negar que esses senhores reacion\u00e1rios me intimidam. Ficam agressivos em um minuto. Mas na realidade o que eles t\u00eam \u00e9 um profundo medo: alguns de perder sua posi\u00e7\u00e3o social e privil\u00e9gios, outros de perder algo que lhes faz falta h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e3o embora. As ruas s\u00e3o dos revolucion\u00e1rios \u2014 diz o anci\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, as ruas pertencem a todos os cubanos \u2014 respondeu um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>O velho fica gritando enquanto nos afastamos. Mais tarde, antes de entrar no El Vedado, vemos outro grupo de &#8220;revolucion\u00e1rios&#8221;. Uma mulher nos intercepta e nos pergunta tamb\u00e9m para onde vamos. Eu a reconhe\u00e7o. \u00c9 um daquelas que chegaram como refor\u00e7o e com bandeiras cubanas ao ICRT.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos para casa \u2014 dizemos a ela que nos olha com desconfian\u00e7a. Est\u00e3o convencidos de que as ruas s\u00e3o deles.<\/p>\n<p>S\u00e3o 8 da noite, estou com sede, n\u00e3o consigo sentir minhas pernas. Eu preciso de um banheiro. Na verdade, n\u00e3o estou com muita fome. O que menos pensei foi na <em>gace\u00f1iga<\/em>. Meu amigo n\u00e3o fez sua parte. Da pr\u00f3xima vez ser\u00e1, penso. J\u00e1 ningu\u00e9m pode nos parar.<\/p>\n<p>Naquela noite eu fico na casa dele. O toque de recolher me pegou. N\u00e3o consigo dormir, apesar do cansa\u00e7o. A experi\u00eancia durante o dia me mant\u00e9m extasiada. Foi uma inje\u00e7\u00e3o de energia. Finalmente adorme\u00e7o, satisfeita. Poder\u00e3o nos tirar as ruas, mas j\u00e1 perdemos o medo. Tivemos outro gostinho de liberdade e \u00e9 como quando descobrimos o sexo ou algum v\u00edcio. Sentimos a necessidade de repetir uma e outra vez mais.<\/p>\n<p>Eles podem nos assustar com seus c\u00e3es, com seus tiros; podem nos violentar com seus bast\u00f5es e paus; deter, sitiar, interrogar, meter aos empurr\u00f5es em um caminh\u00e3o, cortar nossa internet, mas n\u00e3o podem negar que esta noite dormimos em uma Cuba um pouco mais livre. Eles podem criar desafetos familiares, com amigos e vizinhos, mas n\u00e3o me far\u00e3o esquecer que tenho uma<em> gace\u00f1iga<\/em> pendente para as pr\u00f3ximas revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Veja o mapa das manifesta\u00e7\u00f5es em Cuba:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.google.com\/maps\/d\/u\/0\/viewer?mid=1AQAArlWutvq3eqA2nK_WObSujttknlxZ&amp;ll=-75.39839033286893%2C-87.71745756047298&amp;z=3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.google.com\/maps\/d\/u\/0\/viewer?mid=1AQAArlWutvq3eqA2nK_WObSujttknlxZ&amp;ll=-75.39839033286893%2C-87.71745756047298&amp;z=3<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> A gace\u00f1iga cubana ou &#8220;pan de Gazzaniga&#8221; \u00e9 um p\u00e3o doce, muito simples de preparar e popular. A receita foi feita em sua homenagem \u00e0 cantora italiana Marietta Gazzaniga, que se apresentou em Havana no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Singao: insulto de origem homof\u00f3bica, semelhante a dizer um palavr\u00e3o como \u201carrombado\/cuz\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Manifesta\u00e7\u00e3o em La Habana, em 1994.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Manifesta\u00e7\u00e3o pelo direito das LGBTIs cubanas, 11\/05\/2019<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Gusano\/gusanera: refer\u00eancia aos desertores \u00e0 direita do regime.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Lojas que vendem produtos apenas em moeda estrangeira, inacess\u00edveis \u00e0 maioria da popula\u00e7\u00e3o,\u00a0\u00a0s\u00edmbolos da desigualdade no pa\u00eds.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Escrachos organizados pelo governo aos opositores do regime.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reproduzimos esta cr\u00f4nica sobre os acontecimentos de 11 de julho em Cuba, com a permiss\u00e3o de Mel Herrera, autora da nota. \u00c9 muito importante, em meio a tanta desinforma\u00e7\u00e3o e pol\u00eamica, conhecer os fatos, principalmente por meio de quem os protagonizou. O artigo foi publicado originalmente em: https:\/\/www.periodismodebarrio.org\/2021\/07\/sin-gaceniga-no-hay-revolucion\/amp\/?__twitter_impression=true\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":64785,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[1182],"tags":[4227,4228,4131],"class_list":["post-64783","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cuba","tag-11j-cuba","tag-mel-herrera","tag-protestos-cuba"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Cuba-1-1.jpg","categories_names":["Cuba"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64783","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64783"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64783\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64785"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64783"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64783"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64783"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}