{"id":64725,"date":"2021-08-27T08:28:10","date_gmt":"2021-08-27T11:28:10","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=64725"},"modified":"2021-08-27T08:28:10","modified_gmt":"2021-08-27T11:28:10","slug":"o-atentado-no-aeroporto-de-cabul-e-mais-uma-mostra-da-derrota-americana-no-afeganistao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/08\/27\/o-atentado-no-aeroporto-de-cabul-e-mais-uma-mostra-da-derrota-americana-no-afeganistao\/","title":{"rendered":"O atentado no aeroporto de Cabul \u00e9 mais uma mostra da derrota americana no Afeganist\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>O fracasso do projeto americano no Afeganist\u00e3o ganha cores vivas nas cenas dram\u00e1ticas no aeroporto de Cabul onde milhares de estrangeiros e afeg\u00e3os se aglomeram para tentar sair do pa\u00eds desde o \u00faltimo dia 14.<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por F\u00e1bio Bosco<\/p>\n<p>Para piorar, no dia 26, uma pequena organiza\u00e7\u00e3o salafista dissidente do pr\u00f3prio Talib\u00e3 sem enraizamento social, o ISIS-K (Estado Isl\u00e2mico do Khorasan &#8211; antiga denomina\u00e7\u00e3o de parte do centro e sul asi\u00e1tico), conhecida por promover ataques terroristas contra a popula\u00e7\u00e3o civil hazara, promoveu duas explos\u00f5es criminosas na \u00e1rea externa do aeroporto de Cabul que provocaram mais de 80 mortes &#8211; a ampla maioria de afeg\u00e3os e 13 militares americanos, os primeiros americanos mortos desde o acordo com o Talib\u00e3 em fevereiro de 2020.<\/p>\n<p>O governo americano alertou que novos atentatos podem ocorrer at\u00e9 o fim de agosto quando encerra o prazo para a retirada de cidad\u00e3os estrangeiros e afeg\u00e3os que queiram sair do pa\u00eds conforme o acordo negociado entre o governo americano e o Talib\u00e3.<\/p>\n<p>A Liga Internacional dos Trabalhadores (Quarta Internacional) repudia esse atentado que vai na contram\u00e3o da luta das massas e est\u00e1 voltado a atingir a popula\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n<p>Uma primeira e breve avalia\u00e7\u00e3o mostra que esse atentado exp\u00f5e por um lado a colabora\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as americanas e o Talib\u00e3 desde fevereiro de 2020 que tende a se fortalecer neste momento. Por outro lado, reafirma o que j\u00e1 \u00e9 consenso entre os analistas pol\u00edticos: a realidade da derrota americana que pode ter como consequencias o fortalecimento de movimentos anti-imperialistas e a amplia\u00e7\u00e3o do sentimento anti-guerra entre a popula\u00e7\u00e3o americana, algo como uma &#8220;s\u00edndrome de Cabul&#8221; em refer\u00eancia aos mesmos efeitos decorrentes da derrota no Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>Na contra-corrente da hist\u00f3ria e da realidade, a grande imprensa lamenta que essa derrota\u00a0 levar\u00e1 ao desrespeito aos direitos humanos no Afeganist\u00e3o, alimentando a ilus\u00e3o de que os direitos humanos foram de alguma forma garantidos durante os 20 anos de regime de ocupa\u00e7\u00e3o americano.<\/p>\n<p><strong>O mito do imperialismo humanit\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Os Estados Unidos e seus aliados imperialistas n\u00e3o cumpriram qualquer papel humanit\u00e1rio no Afeganist\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, eles impuseram um regime de ocupa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds garantido por tropas que chegaram a ultrapassar a cifra de 100 mil soldados. Essas for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o promoveram bombardeios de aldeias e cidades al\u00e9m de massacres contra civis afeg\u00e3os. Estima-se que 47 mil civis foram mortos em decorr\u00eancia direta da ocupa\u00e7\u00e3o americana. Al\u00e9m destes, outros 66 mil soldados e policiais afeg\u00e3os e 51 mil combatentes do Talib\u00e3 e outras organiza\u00e7\u00f5es. Entre americanos as baixas superaram 6 mil entre soldados (2400) e terceirizados (3600). (I)<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-64727 alignright\" src=\"http:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/cuatro-razones-por-las-que-el-atentado-de-afganistan-debe-importarte-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1600\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/cuatro-razones-por-las-que-el-atentado-de-afganistan-debe-importarte-1.jpg 1600w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/cuatro-razones-por-las-que-el-atentado-de-afganistan-debe-importarte-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/cuatro-razones-por-las-que-el-atentado-de-afganistan-debe-importarte-1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/cuatro-razones-por-las-que-el-atentado-de-afganistan-debe-importarte-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/cuatro-razones-por-las-que-el-atentado-de-afganistan-debe-importarte-1-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/cuatro-razones-por-las-que-el-atentado-de-afganistan-debe-importarte-1-150x84.jpg 150w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/cuatro-razones-por-las-que-el-atentado-de-afganistan-debe-importarte-1-696x392.jpg 696w, https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/cuatro-razones-por-las-que-el-atentado-de-afganistan-debe-importarte-1-1068x601.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><\/p>\n<p>Em 20 anos foram gastos US$ 2,3 trilh\u00f5es, o que equivale a cerca de US$ 300 milh\u00f5es por dia. Esses recursos vultosos n\u00e3o foram aplicados em escolas, hospitais, moradia ou obras p\u00fablicas para gerar empregos. Foram gastos principalmente em soldados e material b\u00e9lico e posteriormente na forma\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas e policiais do governo t\u00edtere. Os poucos recursos destinados para o desenvolvimento do pa\u00eds foram parar nos bolsos da corrupta elite governante.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a situa\u00e7\u00e3o da mulher afeg\u00e3 n\u00e3o mudou de qualidade durante os 20 anos de ocupa\u00e7\u00e3o. Apenas 25% das mulheres s\u00e3o alfabetizadas. Metade delas se casa antes dos 18 anos de idade. O pagamento de dote para a fam\u00edlia da noiva e a imposi\u00e7\u00e3o do uso da burca s\u00e3o generalizados particularmente nas \u00e1reas rurais onde mora 75% da popula\u00e7\u00e3o afeg\u00e3. O regime de ocupa\u00e7\u00e3o nunca se preocupou em aplicar de fato a lei contra a viol\u00eancia dom\u00e9stica. Outra lei, a que garante a inclus\u00e3o do nome da m\u00e3e nos documentos de identidade dos filhos s\u00f3 foi votada no final de 2020. Na verdade, o imperialismo n\u00e3o ocupou o Afeganist\u00e3o para &#8220;salvar&#8221; as mulheres da opress\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, ele essencialmente se acomodou \u00e0s pr\u00e1ticas sociais machistas vigentes com algumas mudan\u00e7as cosm\u00e9ticas (algum recurso para ONGs, a presen\u00e7a de mulheres no parlamento do regime t\u00edtere entre outras).<\/p>\n<p>Por fim a &#8220;guerra \u00e0s drogas&#8221; n\u00e3o saiu do papel. O cultivo da papoula, da qual se produz o \u00f3pio e a hero\u00edna, cresceu 200% desde 2001 segundo o mais recente relat\u00f3rio da ONU, e seu processamento local se ampliou, beneficiando principalmente os senhores da guerra, parte da oligarquia rural al\u00e9m do pr\u00f3prio Talib\u00e3. O Afeganist\u00e3o responde por mais de 80% da oferta mundial de \u00f3pio e hero\u00edna. (II)<\/p>\n<p>Em resumo, atribuir \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o imperialista algum papel humanit\u00e1rio oculta a verdadeira viol\u00eancia terrorista contra a popula\u00e7\u00e3o e sua alian\u00e7a com a oligarquia rural e os senhores da guerra.<\/p>\n<p><strong>A invas\u00e3o sovi\u00e9tica &#8220;emancipadora&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>O mito civilizat\u00f3rio americano tem sua contraparte estalinista.<\/p>\n<p>Setores neo-estalinistas defendem que a invas\u00e3o sovi\u00e9tica de 1979 e o regime que se seguiu tiveram como objetivo garantir importantes reformas modernizadores como a reforma agr\u00e1ria e o fim do pagamento a t\u00edtulo de dote nupcial que \u00e9 uma forma de mercantiliza\u00e7\u00e3o da mulher.<\/p>\n<p>A verdade dos fatos est\u00e1 longe disso. Em 1973, Mohammed Daoud Khan d\u00e1 um golpe militar, destitui seu primo, o rei Mohammed Zahir Shah, elimina a monarquia e assume o poder com apoio sovi\u00e9tico e dos comunistas locais do Partido Democr\u00e1tico Popular do Afeganist\u00e3o (PDPA) que est\u00e3o organizados em duas alas: o Parcham (A Bandeira) e o Khalk (O Povo). Apesar de empregar uma ret\u00f3rica de esquerda, nada mudou em rela\u00e7\u00e3o ao poder da oligarquia rural. Isso n\u00e3o impediu o Parcham de apoiar o novo regime republicano.<\/p>\n<p>Em abril de 1978, Daoud Khan manda assassinar um dirigente comunista &#8211; Mir Akbar Khyber &#8211; e as duas alas de comunistas e unem e promovem um golpe militar. Daoud Khan \u00e9 executado e os comunistas assumem o poder. Este movimento \u00e9 chamado de Revolu\u00e7\u00e3o de Abril (Revolu\u00e7\u00e3o do Saur) e dois decretos progressistas s\u00e3o assinados: o da reforma agr\u00e1ria e o fim do dote nupcial.<\/p>\n<p>Sem apoio popular no campo, o novo regime enfrenta a oposi\u00e7\u00e3o liderada pelos propriet\u00e1rios rurais e pelos l\u00edderes religiosos locais, os mul\u00e1s ultra-conservadores.<\/p>\n<p>Com o advento da revolu\u00e7\u00e3o iraniana de fevereiro de 1979, a oposi\u00e7\u00e3o ao novo regime se fortalece apesar da repress\u00e3o intensa, e amea\u00e7a influenciar as massas dentro das rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas cuja popula\u00e7\u00e3o vive sob a opress\u00e3o do regime estalinista de Moscou.<\/p>\n<p>Frente a este cen\u00e1rio, o regime sovi\u00e9tico orienta os comunistas afeg\u00e3os a abandonarem a pol\u00edtica de reforma agr\u00e1ria e do fim do dote nupcial. A ala mais moderada, o Parcham liderado por Babrak Karmal, aceita as diretrizes sovi\u00e9ticas, mas s\u00e3o afastados do poder pelo Khalk liderado por Nur Mohammed Taraki e Hafizullah Amin. Karmal vai para o ex\u00edlio e v\u00e1rios dos integrantes do Parcham s\u00e3o presos, uma not\u00f3ria pr\u00e1tica de organiza\u00e7\u00f5es estalinistas tratarem seus dissidentes. (III)<\/p>\n<p>O regime sovi\u00e9tico se aproxima de Taraki e a KGB trabalha para eliminar Amin, mas \u00e9 este que elimina Taraki e assume o poder. Mesmo contr\u00e1rio \u00e0 invas\u00e3o sovi\u00e9tica, esta ocorre em dezembro de 1979 na qual Amin \u00e9 executado e Babrak Karmal retorna ao poder a bordo dos tanques sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p>A invas\u00e3o sovi\u00e9tica ampliou qualitativamente a oposi\u00e7\u00e3o popular apesar das concess\u00f5es \u00e0s elites agr\u00e1rias e aos mul\u00e1s ultra-conservadores ao retirar a proposta de reforma agr\u00e1ria e fim do dote nupcial. A ocupa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica recorre \u00e0 repress\u00e3o brutal que levou \u00e0 perda de algo ao redor de um milh\u00e3o de vidas. Entre os assassinados est\u00e1 Martire Meena, fundadora da RAWA (Associa\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria das Mulheres Afeg\u00e3s), assassinada pelo servi\u00e7o secreto do regime em 1987 por sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica e \u00e0s concess\u00f5es \u00e0s elites rurais. (IV)<\/p>\n<p>Finalmente v\u00e1rios grupos de guerrilheiros isl\u00e2micos conhecidos coletivamente como Mujahiddin liderados por senhores de guerra apoiados pelo regime paquistan\u00eas, pela CIA, pelo regime saudita, pela China e Reino Unido iniciam uma guerra de guerrilha que levar\u00e1 \u00e0 sa\u00edda das tropas sovi\u00e9ticas em 1989 e \u00e0 derrubada do regime liderado pelos comunistas em 1992. Posteriormente o Talib\u00e3 \u00e9 formado em 1994 com o apoio do regime paquistan\u00eas, da CIA e da Arabia Saudita, e chega ao poder em 1996 de onde ser\u00e1 derrubado pela ocupa\u00e7\u00e3o americana cinco anos depois.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que dizem esses setores estalinistas, a invas\u00e3o sovi\u00e9tica foi realizada para impedir que os ventos da revolu\u00e7\u00e3o iraniana chegassem \u00e0s rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas oprimidas e n\u00e3o para promover a reforma agr\u00e1ria e o fim do dote nupcial, pol\u00edticas as quais os estalinistas de Moscou sacrificaram para tentar garantir seu poder.<\/p>\n<p><strong>Talib\u00e3 paz e amor?<\/strong><\/p>\n<p>Em suas primeiras declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, representantes do Talib\u00e3 afirmaram que respeitar\u00e3o a propriedade privada, o direito das mulheres dentro das normas isl\u00e2micas, a integridade de estrangeiros, representa\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e jornalistas, al\u00e9m de anunciar a anistia para os oficiais e funcion\u00e1rios do antigo regime de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante notar que o pr\u00f3prio presidente dos Estados Unidos isentou o Talib\u00e3 do atentado no aeroporto e que as for\u00e7as americanas est\u00e3o trabalhando diretamente com o Talib\u00e3 para garantir a seguran\u00e7a do aeroporto.<\/p>\n<p>No entanto, parte dessas declara\u00e7\u00f5es est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o com os cinco anos os quais o Talib\u00e3 esteve a frente do Estado afeg\u00e3o e com os aliados que o Talib\u00e3 se vinculou desde ent\u00e3o. Vamos examinar algumas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>A primeira quest\u00e3o \u00e9 a propriedade da terra. No Afeganist\u00e3o, 75% da popula\u00e7\u00e3o vive no meio rural. A agricultura e o pastoreio s\u00e3o as principais atividades econ\u00f4micas do pa\u00eds sendo o \u00f3pio e derivados o principal produto de exporta\u00e7\u00e3o. De um lado est\u00e3o os grandes propriet\u00e1rios de terra. E de outro est\u00e3o os camponeses (pequenos propriet\u00e1rios) e uma massa de trabalhadores e trabalhadoras sem terra (meeiros e trabalhadores sazonais para \u00e9pocas de plantio e colheita). Segundo o Banco Mundial cerca de 12% das terras s\u00e3o ar\u00e1veis. Desta forma, a quest\u00e3o da reforma ou revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria \u00e9 uma quest\u00e3o chave. A pol\u00edtica do Talib\u00e3 nunca foi de promover qualquer reforma agr\u00e1ria, seja quando esteve a frente do governo (1996-2001) seja no processo de luta contra o antigo regime de ocupa\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, ele buscou uma acomoda\u00e7\u00e3o com as oligarquias rurais e tudo aponta que manter\u00e1 essa orienta\u00e7\u00e3o. Esta rela\u00e7\u00e3o explica como o Talib\u00e3 conseguiu tomar o pa\u00eds em apenas 11 dias. Al\u00e9m disso, h\u00e1 a quest\u00e3o da grilagem das terras de fam\u00edlias camponesas, particularmente quando s\u00e3o lideradas por mulheres (h\u00e1 2 milh\u00f5es de vi\u00favas no pa\u00eds). Ao se aliar \u00e0 oligarquia, \u00e9 razo\u00e1vel supor que o regime do talib\u00e3 v\u00e1 fechar os olhos \u00e0 grilagem como fizeram os regimes anteriores. E frente \u00e0s lutas e revoltas camponesas e de trabalhadores e trabalhadoras sem-terra que cedo ou tarde v\u00e3o ocorrer, o Talib\u00e3 vai recorrer \u00e0 repress\u00e3o brutal tal como governou o pa\u00eds por 5 anos.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o importante se relaciona com as empresas multinacionais que atuam no pa\u00eds. H\u00e1 estudos que apontam que a explora\u00e7\u00e3o de riquezas minerais pode gerar US$ 1 trilh\u00e3o. Hoje uma empresa chinesa explora cobre e uma indiana explora min\u00e9rio de ferro. Se o fim da guerra trouxer alguma estabilidade, com certeza vir\u00e3o novas mineradores al\u00e9m das petroleiras interessadas em construir oleodutos e explorar as reservas de g\u00e1s. Tudo indica que o regime do Talib\u00e3 se colocar\u00e1 a servi\u00e7o dessas empresas. N\u00e3o por acaso a China foi o primeiro pa\u00eds a reconhecer de fato o regime do talib\u00e3 e sua agenda gira ao redor de atividades econ\u00f4micas (entre as quais a nova rota da seda) e da repress\u00e3o aos grupos que lutam pelos direitos dos Uighures em Xingiang.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da China, a quest\u00e3o da repress\u00e3o a organiza\u00e7\u00f5es dissidentes \u00e9 de interesse de todos os regimes vizinhos (Paquist\u00e3o, Ir\u00e3, Usbequist\u00e3o, Tajiquist\u00e3o e Turcomenist\u00e3o), e pr\u00f3ximos (R\u00fassia e \u00cdndia). Alguns desses regimes apoiaram o Talib\u00e3 antes de sua ascens\u00e3o ao poder e todos os sinais s\u00e3o de integra\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem capitalista regional ainda que o conflito entre Paquist\u00e3o e \u00cdndia possa de alguma forma dificultar os entendimentos com o regime indiano.<\/p>\n<p>Quanto aos direitos das mulheres de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao trabalho, \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o de suas propriedades, de ir e vir sem qualquer guardi\u00e3o masculino, de decidir sua vestimenta sem imposi\u00e7\u00f5es, do fim de puni\u00e7\u00f5es cru\u00e9is como chibatadas e apedrejamento, do fim do casamento infantil e do dote nupcial, a trajet\u00f3ria do Talib\u00e3 sempre consistiu em limitar ou negar esses direitos. Mesmo sendo uma sociedade conservadora, a ascens\u00e3o do Talib\u00e3 ao poder em 1996 representou um retrocesso quantos aos direitos das mulheres. Um exemplo \u00e9 o uso da burqa, que era optativo e muito minorit\u00e1rio antes de 1996 mas se tornou obrigat\u00f3rio sob o regime do Talib\u00e3. Por esse motivo, \u00e9 improv\u00e1vel que o novo regime v\u00e1 reconhecer esses direitos, ainda que alguma mudan\u00e7a cosm\u00e9tica possa ser feita. Na verdade, estar\u00e1 nas m\u00e3os da classe trabalhadora, dos camponeses, da juventude e das mulheres a conquista de cada um desses direitos, e nessa luta enfrentar\u00e3o o regime do Talib\u00e3 aliado aos propriet\u00e1rios de terra e aos mul\u00e1s ultra-conservadores.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda a quest\u00e3o das minorias \u00e9tnicas oprimidas, particularmente os Hazaras, entre outras que o novo regime ter\u00e1 de lidar.<\/p>\n<p>O que fica claro \u00e9 que a tend\u00eancia do regime do Talib\u00e3 \u00e9 de &#8220;paz e amor&#8221; apenas com a elite de propriet\u00e1rios rurais, os regimes capitalistas vizinhos e as multinacionais. E talvez se estenda aos pr\u00f3prios Estados Unidos. Quanto \u00e0 sofrida classe trabalhadora rural e urbana, os camponeses, as mulheres e as nacionalidades oprimidas, a tend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 de paz nem de amor, mas de explora\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o e muita repress\u00e3o.<\/p>\n<p>A maioria da classe trabalhadora afeg\u00e3 apoiou a luta contra a ocupa\u00e7\u00e3o e este apoio foi decisivo para a derrota do imperialismo. Agora a classe trabalhadora ter\u00e1 que se aliar aos explorados e oprimidos dentro e fora do pa\u00eds para arrancar as liberdades democr\u00e1ticas, a reforma agr\u00e1ria, o direito a uma vida digna, luta que s\u00f3 terminar\u00e1 com a derrubada do regime do talib\u00e3 e de toda a ordem capitalista no pa\u00eds e no mundo.<\/p>\n<p>NOTAS:<\/p>\n<p>(I) <a href=\"https:\/\/apnews.com\/article\/middle-east-business-afghanistan-43d8f53b35e80ec18c130cd683e1a38f\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/apnews.com\/article\/middle-east-business-afghanistan-43d8f53b35e80ec18c130cd683e1a38f<\/a><\/p>\n<p>(II) <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2021\/08\/22\/como-os-eua-perderam-a-guerra-ao-opio-no-afeganistao.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2021\/08\/22\/como-os-eua-perderam-a-guerra-ao-opio-no-afeganistao.ghtml<\/a><\/p>\n<p>(III) <a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2021\/08\/relembrando-a-revolucao-saur\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/jacobin.com.br\/2021\/08\/relembrando-a-revolucao-saur\/<\/a><\/p>\n<p>(IV) <a href=\"http:\/\/www.rawa.org\/meena_pt.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.rawa.org\/meena_pt.htm<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fracasso do projeto americano no Afeganist\u00e3o ganha cores vivas nas cenas dram\u00e1ticas no aeroporto de Cabul onde milhares de estrangeiros e afeg\u00e3os se aglomeram para tentar sair do pa\u00eds desde o \u00faltimo dia 14.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":64726,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[4202],"tags":[4218],"class_list":["post-64725","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-afeganistao","tag-afeganistao"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/1525068170_517765_1525112128_noticia_normal.jpg","categories_names":["Afeganist\u00e3o"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64725","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64725"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64725\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64726"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64725"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64725"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64725"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}