{"id":64660,"date":"2021-08-17T10:16:28","date_gmt":"2021-08-17T13:16:28","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=64660"},"modified":"2021-08-17T10:16:28","modified_gmt":"2021-08-17T13:16:28","slug":"o-mantra-dos-governos-a-colaboracao-publico-privada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/08\/17\/o-mantra-dos-governos-a-colaboracao-publico-privada\/","title":{"rendered":"O mantra dos governos, \u00aba colabora\u00e7\u00e3o p\u00fablico-privada\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Entre muitas outras coisas, a pandemia revelou duas cruciais, uma, que os cortes na sa\u00fade p\u00fablica e a consequente privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os sanit\u00e1rios provocaram uma sobrecarga nesses servi\u00e7os durante a pandemia, e dois, a propriedade privada das patentes farmac\u00eauticas est\u00e1 retardando uma solu\u00e7\u00e3o para a crise global da sa\u00fade.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Luc\u00eda, de Corriente Roja<\/p>\n<p>N\u00e3o podem esconder o fato de que 80% dos vacinados a n\u00edvel mundial est\u00e3o nos pa\u00edses imperialistas, enquanto em na\u00e7\u00f5es semicoloniais do tamanho da \u00cdndia ou do Brasil, a Covid-19 continua forte, favorecido por estruturas pol\u00edticas corruptas at\u00e9 a medula.<\/p>\n<p>\u00c9 t\u00e3o evidente a contradi\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade p\u00fablica e propriedade privada, que a ocultam com esse bin\u00f4mio de \u00abcolabora\u00e7\u00e3o p\u00fablico-privada\u00bb como eufemismo que querem estender a um setor t\u00e3o aparentemente diferente como a Alcoa e seu plano de fechamento das f\u00e1bricas na Gal\u00edcia e Ast\u00farias. Diante disso, a pol\u00edtica do governo tem sido nos enrolar, com uma \u201cposs\u00edvel\u201d venda ao capital privado como \u00fanica salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste sentido, o delegado do Governo na Gal\u00edcia definiu perfeitamente o que entende por \u201ccolabora\u00e7\u00e3o p\u00fablico-privada<em>\u201d, \u201c(&#8230;) A SEPI &#8211; organismo estatal \u2013 se far\u00e1 presente para ajudar, colaborar, acompanhar e mediar, mas est\u00e1 claro que existem empresas interessadas na compra\u201d <\/em>(Europa Press, 18\/06\/21).<\/p>\n<p>Traduzido, o estado \u00e9 o protetor das empresas privadas, sejam elas as farmac\u00eauticas ou as de alum\u00ednio. N\u00e3o importa a mercadoria em quest\u00e3o em quest\u00e3o &#8211; pois para eles, tudo \u00e9 mercadoria \u2013 seja relacionada \u00e0 sa\u00fade, alum\u00ednio ou alimenta\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o \u00e9 como fazer com que as empresas da sa\u00fade, do metal, etc., obtenham lucros privados.<\/p>\n<p><strong>O plano 2030, a reconstru\u00e7\u00e3o da economia e o \u201cmantra\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Para garantir o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS) das Na\u00e7\u00f5es Unidas, a Uni\u00e3o Europeia (UE) (e as demais pot\u00eancias imperialistas) elaboraram planos\/agendas com investimentos p\u00fablicos multimilion\u00e1rios. Nos EUA s\u00e3o trilhon\u00e1rias, na UE, um pouco mais modestos, bilion\u00e1rias.<\/p>\n<p>O PC Chin\u00eas, por sua vez, aprovou planos que vem desde a d\u00e9cada dos anos 50, em primeiro lugar para internacionalizar a sua economia atrav\u00e9s da chamada \u201cnova rota da seda\u201d, e em segundo, para apoiar a sua classe m\u00e9dia e investimentos em infraestruturas agora que a \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d entrou em crise reduzindo as exporta\u00e7\u00f5es e est\u00e3o fortalecendo as tend\u00eancias aut\u00e1rquicas da economia (Brexit!).<\/p>\n<p>Por outro lado, a pandemia, como vimos, evidenciou as consequ\u00eancias sociais e pol\u00edticas da contradi\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade p\u00fablica e propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o, que gerou eclos\u00f5es sociais desde a 1\u00aa pot\u00eancia, os EUA, at\u00e9 aos pa\u00edses pobres da \u00c1frica como o Senegal, passando pela metade da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Nesta contradi\u00e7\u00e3o, os te\u00f3ricos dos governos burgueses est\u00e3o retomando parcialmente as receitas que lhes deram muito bons resultados no p\u00f3s-guerra mundial, adotando algumas medidas do keynesianismo sintetizadas na frase de Biden diante das \u201cqueixas\u201d dos empres\u00e1rios de que n\u00e3o conseguem encontrar trabalhadores\/as: \u201cpaguem-lhes melhor\u201d. Uma queixa que parece generalizada, j\u00e1 que os empres\u00e1rios espanh\u00f3is da hotelaria dizem a mesma coisa.<\/p>\n<p>Este resgate do keynesianismo no contexto de um neoliberalismo dominante se traduz n\u00e3o na reconstru\u00e7\u00e3o pura e dura do estado do bem-estar; eles n\u00e3o precisam disso. Eles n\u00e3o t\u00eam mais diante de si, um ter\u00e7o da humanidade fora das cadeias do mercado capitalista na URSS, ou uma China n\u00e3o capitalista, etc., como exemplo pr\u00e1tico de sociedades que funcionavam sem capitalistas; mas de uma forma intermedi\u00e1ria com a chamada \u201ccolabora\u00e7\u00e3o p\u00fablico-privada\u201d, na qual o p\u00fablico (ou seja, o estado) cumpre o papel que o delegado do governo da Gal\u00edcia definiu perfeitamente: <em>\u201c&#8230; ajudar, colaborar, acompanhar, mediar, (&#8230;)\u201d<\/em>, n\u00e3o para resgatar, muito menos planificar.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o \u00e9 uma \u201ccolabora\u00e7\u00e3o\u201d, mas colocar o estado a servi\u00e7o da reconstru\u00e7\u00e3o da economia para continuar mantendo a tese que tanto gostam o PP quanto Rajoy, a teoria do transbordamento segundo a qual, se enriquecer os ricos, a riqueza mais cedo ou mais tarde se \u201ctransbordar\u00e1\u201d para todos os setores sociais como champanhe em uma torre de copos.<\/p>\n<p><strong>Os 140 bilh\u00f5es e o \u201cmantra\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Como se tratasse de loteria, o Estado Espanhol \u201ccoube\u201d 140 bilh\u00f5es dos 750 bilh\u00f5es que a UE vai distribuir para \u201creconstruir\u201d a economia ap\u00f3s o desastre da pandemia.<\/p>\n<p>Um esclarecimento para que n\u00e3o enganem com a propaganda: a UE n\u00e3o \u00e9 uma \u201cirm\u00e3 de caridade\u201d que \u201cd\u00e1\u201d dinheiro. Pelo contr\u00e1rio, metade desse dinheiro ser\u00e1 pago atrav\u00e9s de \u201cb\u00f4nus europeus\u201d criando uma d\u00edvida p\u00fablica europeia em m\u00e3os dos bancos, que ser\u00e3o pagos pelos cidad\u00e3os. A cria\u00e7\u00e3o direta de moeda (dinheiro vivo) pelo BCE est\u00e1 literalmente proibida no Tratado de Maastricht, que estabelece que a emiss\u00e3o de moeda deva ser feita atrav\u00e9s dos mercados financeiros.<\/p>\n<p>E, em segundo lugar, a outra metade ser\u00e1 financiada atrav\u00e9s de cr\u00e9ditos dos pr\u00f3prios estados nas mesmas condi\u00e7\u00f5es dos \u201ct\u00edtulos europeus\u201d, ou seja, criando mais d\u00edvida p\u00fablica estatal.<\/p>\n<p>Todo este dinheiro n\u00e3o chegar\u00e1 diretamente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o para refor\u00e7ar os sistemas sociais de sa\u00fade, para pagar as aposentadorias, etc., isso est\u00e1 expressamente exclu\u00eddo das condi\u00e7\u00f5es dos empr\u00e9stimos e a aceita\u00e7\u00e3o dos planos pela Uni\u00e3o Europeia, mas para financiar projetos empresariais que visem as metas do Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da ONU; a transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, a economia circular<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, a tecnologia 5G, o I+D+i<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, etc.<\/p>\n<p>\u00c9 a vers\u00e3o \u201c5G\u201d da teoria do transbordamento, dando dinheiro p\u00fablico aos capitalistas privados para que estes, com seus investimentos, acumulem mais riqueza que, com o tempo, transbordar\u00e1 para a sociedade com a cria\u00e7\u00e3o de empregos. \u00c9 isso que entendem por colabora\u00e7\u00e3o \u201cp\u00fablico-privada\u201d? N\u00e3o \u00e9 importante que os servi\u00e7os p\u00fablicos sejam cada vez mais desmantelados e que as aposentadorias do Estado sejam cada vez mais insuficientes, visto que utilizando ironicamente a frase b\u00edblica de que \u201cDeus prover\u00e1\u201d, a \u201cpropriedade privada prover\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Que isso signifique que os capitalistas utilizem as leis para disciplinar \u00e0 classe oper\u00e1ria (leis \u201cmorda\u00e7a\u201d, reformas trabalhistas, toques de recolher sob a ditadura da \u201csa\u00fade p\u00fablica\u201d, etc.), empobrecendo-a o suficiente para que as queixas dos empres\u00e1rios de que \u201cn\u00e3o conseguem encontrar trabalhadores\u201d sejam silenciadas sem necessidade de seguir o conselho de Biden (\u201cpaguem-lhes melhor\u201d), tamb\u00e9m n\u00e3o importa.<\/p>\n<p><strong>Depois da pandemia, o capitalismo morreu; viva o capitalismo \u201c5G\u201d!<\/strong><\/p>\n<p>Este slogan \u00e9 de todos aqueles que se autodenominam \u201cprogressistas\u201d (\u201ca moderniza\u00e7\u00e3o da Espanha\u201d, diz a ministra Yolanda Diaz), com os EUA que \u201cvoltaram\u201d para colocar ordem em um mundo que, segundo a m\u00eddia ocidental, foi alterada pelos capitalistas chineses e seus amigos russos com pandemias e concorr\u00eancias desleais.<\/p>\n<p>Como o capitalismo \u201c5G\u201d deve se diferenciar um pouco do \u201cvelho\u201d capitalismo neoliberal atingido pela crise de 2007\/2008, e golpeado pela pandemia &#8211; um capitalismo ligado aos Trump e Bolsonaros, que colocaram \u00e0 humanidade \u00e0 beira do desastre -, \u00e9 que resgatam a necessidade do papel do p\u00fablico (o estado) no controle de algumas de suas manifesta\u00e7\u00f5es mais selvagens.<\/p>\n<p>Diante da lei da selva desses dois presidentes histri\u00f4nicos e seus pais ideol\u00f3gicos, os neoliberais, os \u201cchicagos boys\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, etc., est\u00e3o popularizando a f\u00f3rmula \u201ccolabora\u00e7\u00e3o p\u00fablico-privada\u201d como se fosse uma supera\u00e7\u00e3o dos desastres gerados pelos \u201cmiltonfriedman\u201d, anunciando um futuro verde, sustent\u00e1vel, com o arco \u00edris como bandeira. O problema \u00e9 que o capitalismo \u00e9, antes de tudo, um sistema que se baseia na expropria\u00e7\u00e3o do trabalho humano e na pilhagem da natureza.<\/p>\n<p>O capitalismo \u201c5G\u201d n\u00e3o suprime a explora\u00e7\u00e3o, mas de uma forma tecnologicamente moderna (Ipad, tablets, telefones celulares e aplicativos correspondentes, etc.), est\u00e1 tornando \u00e0s rela\u00e7\u00f5es do trabalho mais semelhantes \u00e0s do s\u00e9culo XIX do que \u00e0s do final do XX; ou o fato de que uma pessoa tenha que estar atenta a um aplicativo de celular para ser contratado, n\u00e3o \u00e9 o mesmo que aquele que se dirigia \u00e0 Pra\u00e7a do Povo a espera que o escolhessem? A diferen\u00e7a \u00e9 formal, um aplicativo de celular substitui \u00e0 pra\u00e7a (a aldeia global de Macluhan<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>), mas o resultado final, a venda de for\u00e7a de trabalho por um sal\u00e1rio, permanece.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ao aumentar a capacidade produtiva do ser humano e do sistema em geral mantendo como objetivos a propriedade e o lucro privado, sendo o mercado o centro para a determina\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, as crises de superprodu\u00e7\u00e3o n\u00e3o desaparecer\u00e3o, mas arremessar\u00e3o mais seres humanos \u00e0 pobreza e a exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>O capitalismo \u201c5G\u201d, que promete um futuro verde e arco-\u00edris &#8211; diz a lenda irlandesa e celta que ao final do arco-\u00edris h\u00e1 uma chaleira com um tesouro -, n\u00e3o pode deixar de saquear a natureza. Pode acabar com o carv\u00e3o e o petr\u00f3leo, mas ser\u00e3o outros materiais como o l\u00edtio e as terras raras<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, o ouro, o coltan, o cobre, etc., o que provocariam a destrui\u00e7\u00e3o da natureza com a megaminera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O capitalismo \u201c5G\u201d, ao n\u00e3o suprimir as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o, mant\u00e9m as terr\u00edveis consequ\u00eancias no ser humano produto da aliena\u00e7\u00e3o e da coisifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas, mas as exacerba. Estas continuar\u00e3o sendo medidas n\u00e3o pelas capacidades das pessoas, mas pelo valor que o capitalismo lhes d\u00e1 atrav\u00e9s do dinheiro. As doen\u00e7as mentais e f\u00edsicas que derivam dela n\u00e3o desaparecer\u00e3o. N\u00e3o devemos esquecer que 60% das doen\u00e7as que acontecem hoje s\u00e3o causadas por rela\u00e7\u00f5es sociais desumanizadas e pelo estresse que o trabalho assalariado, baseado no enriquecimento e ac\u00famulo de coisas, produz. No capitalismo \u201c5G\u201d, \u201cter\u201d continuar\u00e1 sendo superior a \u201cser\u201d.<\/p>\n<p><strong>O controle do Estado e o controle oper\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>A colabora\u00e7\u00e3o \u201cp\u00fablico-privada\u201d, mesmo em sua vers\u00e3o mais decadente como a citada acima, n\u00e3o deixa de ser um reconhecimento expl\u00edcito de que se tudo ficar nas m\u00e3os da \u201cm\u00e3o tenebrosa do mercado\u201d, esta leva \u00e0 sociedade \u00e0 crise, ao empobrecimento e ao desastre. \u00c9 o reconhecimento de que o capitalismo precisa de \u201ccontrole\u201d. Mas \u00e9 poss\u00edvel que o estado, este Estado possa realizar esse controle?<\/p>\n<p>A partir do \u201cprogressismo\u201d eles insistem na velha, velh\u00edssima ideia de que o Estado est\u00e1 acima das classes sociais, como uma entidade neutra que depende de quem esteja no governo para administrar \u201co comum\u201d em um sentido ou outro. Essa ideia fortaleceu-se ao longo da pandemia, quando no in\u00edcio de 2020 \u201cdeclararam\u201d guerra ao v\u00edrus Covid-19. Com isso, encobriram seu verdadeiro objetivo, \u201cque a economia n\u00e3o entrasse em colapso\u201d; ao \u201chumanizar\u201d o v\u00edrus como se tivesse vontade pr\u00f3pria e n\u00e3o fosse apenas um agente patog\u00eanico que adoecia as pessoas, desviou-se o objeto do medo das popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A culpa da pandemia tinha um \u201cv\u00edrus\u201d como \u00e0 personifica\u00e7\u00e3o do mal contra o qual os governos &#8211; menos os negacionistas de Bolsonaro e Trump, que se limitaram a n\u00e3o fazer nada &#8211; queriam combater, certo ou errado para proteger \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Afinal, o problema n\u00e3o eram as estruturas econ\u00f4micas e pol\u00edticas, por defini\u00e7\u00e3o, incapazes de defender \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, mas os governos que \u201cadministravam\u201d mal essas estruturas. O car\u00e1ter de classe do Estado e suas institui\u00e7\u00f5es, com os governos \u00e0 frente, foi abstra\u00eddo.<\/p>\n<p>O gerenciamento da pandemia teve um eixo comum em todos os casos, desde os negacionistas no Brasil e nos EUA at\u00e9 China, passando pela Europa, \u201cque a economia n\u00e3o despencasse\u201d. Sua grande preocupa\u00e7\u00e3o como Estados n\u00e3o era a sa\u00fade p\u00fablica, mas que a crise sanit\u00e1ria n\u00e3o afetasse muito os lucros dos propriet\u00e1rios dos meios de produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e financeiros, os velhos \u201cburgueses\u201d ou \u201ccapitalistas\u201d, e agiram de acordo com este crit\u00e9rio.<\/p>\n<p>O Estado e suas institui\u00e7\u00f5es, os governos \u00e0 cabe\u00e7a, foram \u00e0s salvaguardas desses interesses, quem quer que os administrem; se era Xi Jinping com a bandeira \u201cvermelha\u201d ou Trump com aquela das \u201clistras e as estrelas\u201d, porque o estado n\u00e3o \u00e9 essa entidade neutra, acima das classes; mas \u00e9 um conjunto de institui\u00e7\u00f5es onde mil fios pessoais, pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos se interligam a esses interesses. Os pol\u00edticos n\u00e3o precisam de \u201cportas girat\u00f3rias\u201d para defender os lucros capitalistas. O controle da economia pelo Estado burgu\u00eas, como pretendem fazer atrav\u00e9s da colabora\u00e7\u00e3o \u201cp\u00fablico-privada\u201d, est\u00e1 a servi\u00e7o desses lucros, como bem expressa o Delegado do Governo da Gal\u00edcia.<\/p>\n<p>Diante desse \u201ccontrole\u201d que \u00e9, na verdade, o lacaio do capital, em seu sentido pejorativo como \u201cquem faz os trabalhos desagrad\u00e1veis, sujos e servis em nome de outrem\u201d, \u00e9 preciso levantar outra perspectiva radicalmente diferente.<\/p>\n<p>Fazendo um esfor\u00e7o imaginativo para sair dos esquemas ideol\u00f3gicos burgueses, segundo os quais os limites da economia capitalista s\u00e3o irreform\u00e1veis, mesmo para os mais progressistas (o objetivo \u00e9 \u201cmelhorar a vida das pessoas\u201d como disse um de seus \u00eddolos, o ex-presidente do Uruguai, Mujica), vamos tentar ver como seria o gerenciamento da pandemia sem o problema de \u201cque a economia n\u00e3o despenque\u201d.<\/p>\n<p>Para abordar a situa\u00e7\u00e3o mais recente, as vacinas. Segundo a OMS, 80% das pessoas vacinadas pertencem aos estados \u201cricos\u201d &#8211; em termos marxistas, imperialistas -, e apenas 20% nos dependentes. Enquanto houver propriedade privada da ind\u00fastria farmac\u00eautica, que visa apenas aumentar os lucros, esta rela\u00e7\u00e3o desigual continuar\u00e1 a se produzir. \u00c9 claro que existe uma rela\u00e7\u00e3o direta, \u201ccausa-efeito\u201d, entre os lucros empresariais e a percentagem de vacinados, de modo que, somente com o fim dessa propriedade privada, toda a popula\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser vacinada de maneira justa.<\/p>\n<p>Isto, estendendo-se a todas as \u00e1reas da sociedade descobrimos que, o problema da vacina\u00e7\u00e3o \u00e9 a propriedade privada, para a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 a propriedade privada, para a explora\u00e7\u00e3o dos\/as trabalhadores\/as \u00e9 a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o. Acontece que a palavra \u201cproblema\u201d est\u00e1 ligada como unha \u00e0 carne \u00e0 \u201cpropriedade privada\u201d.<\/p>\n<p>Vamos inverter a ideia. Se em vez da propriedade privada estabelecemos a \u201cpropriedade comum\u201d, descobriremos que os lucros inerentes a essa propriedade privada desaparecem, e o que \u00e9 produzido pela sociedade com seu trabalho \u00e9 de propriedade comum, isto \u00e9, de todos\/as, do conjunto dessa sociedade.<\/p>\n<p>Se nenhum indiv\u00edduo tiver a propriedade desses meios de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, os lucros privados n\u00e3o ser\u00e3o os crit\u00e9rios para a produ\u00e7\u00e3o de bens e sua distribui\u00e7\u00e3o, mas, em princ\u00edpio, ser\u00e3o as necessidades desse \u201ctodos\u201d, isto \u00e9, sociais, as que regem os objetivos econ\u00f4micos. A economia estar\u00e1 ao servi\u00e7o dessas necessidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pode-se argumentar, e com certa raz\u00e3o, que isso j\u00e1 se tentou na URSS e nos chamados estados do \u201csocialismo realmente existente\u201d, e acabou como acabou.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade. Nessas sociedades, o controle da propriedade comum estava nas m\u00e3os de um setor delas, que pela for\u00e7a havia assumido o controle de Estado. N\u00e3o eram propriet\u00e1rios de nada, uma vez que n\u00e3o podiam legalmente ou deixar como heran\u00e7a para ningu\u00e9m; ao n\u00e3o haver propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, as leis de heran\u00e7a estavam limitadas a considera\u00e7\u00f5es muito pessoais. Mas se usufru\u00edam da posse do que era de todos e todas, e por essa via se beneficiavam de sua situa\u00e7\u00e3o de poder na sociedade. N\u00e3o eram capitalistas, mas burocratas, no sentido dos servidores p\u00fablicos dos imp\u00e9rios eg\u00edpcio ou chin\u00eas, que se beneficiavam de seu poder nas institui\u00e7\u00f5es em nome do fara\u00f3 ou do imperador, mas n\u00e3o eram propriet\u00e1rios de nada.<\/p>\n<p>O controle do Estado oper\u00e1rio n\u00e3o estava nas m\u00e3os dos\/as trabalhadores\/as atrav\u00e9s de seus organismos democr\u00e1ticos, mas naqueles burocratas que controlavam os mecanismos do poder f\u00edsico, o ex\u00e9rcito, a pol\u00edcia, ou ideol\u00f3gico; legitimaram-se como herdeiros das revolu\u00e7\u00f5es que acabaram com o capitalismo e conquistaram a independ\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>O controle dos recursos da sociedade estava nas m\u00e3os dessa casta burocr\u00e1tica que determinava a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o dos bens n\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o das necessidades sociais, mas em base aos seus desejos individuais, sem o controle do mercado.<\/p>\n<p>Apesar de suas falhas estruturais, sob o capitalismo o mercado limita de maneira objetiva os desejos individuais dos capitalistas como pessoas, fazendo com que investimentos n\u00e3o rent\u00e1veis os conduzam \u00e0 ru\u00edna. Os burocratas tinham como os senhores feudais, todo o poder pol\u00edtico e militar para fazer o que quisessem, sem nenhum controle, nem do mercado nem do planejamento democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Como casta intermedi\u00e1ria com o controle das institui\u00e7\u00f5es do Estado oper\u00e1rio, n\u00e3o tinha limite \u00e0 sua vontade, o que acabou desorganizando totalmente as sociedades por eles dirigidas. Foi Che, em sua carta a Fidel de 26 de mar\u00e7o de 1965, quem previu as nefastas consequ\u00eancias que esse papel subjetivo da burocracia tem para a transi\u00e7\u00e3o ao socialismo.<\/p>\n<p>O controle oper\u00e1rio da produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 algo totalmente diferente. Nos primeiros anos da revolu\u00e7\u00e3o de outubro havia muitos elementos desse controle, mas pelo atraso da R\u00fassia da \u00e9poca, pelas tarefas que isso implicava &#8211; resolver muitos problemas da economia capitalista, como a distribui\u00e7\u00e3o da terra, que se rege pelas leis do mercado e n\u00e3o do planejamento -, e pelas condi\u00e7\u00f5es de guerra civil, isolamento, etc., esse controle durou muito pouco.<\/p>\n<p>O controle oper\u00e1rio sobre a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, que atenda aos crit\u00e9rios do planejamento democr\u00e1tico da economia e a resolu\u00e7\u00e3o das necessidades sociais, s\u00f3 ser\u00e1 plenamente poss\u00edvel em um est\u00e1gio de desenvolvimento muito elevado das for\u00e7as produtivas. At\u00e9 esse momento o controle \u00e9 pol\u00edtico, \u00e9 o dom\u00ednio do setor de vanguarda da classe oper\u00e1ria sobre a sociedade para romper a resist\u00eancia do capital.<\/p>\n<p>Por isso, embora a revolu\u00e7\u00e3o possa ocorrer mais cedo em pa\u00edses atrasados economicamente, onde as contradi\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o mais agudas pela inexist\u00eancia de uma classe m\u00e9dia \/ aristocracia oper\u00e1ria e suas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sindicais, que atuam como colch\u00e3o social; o planejamento democr\u00e1tico da economia em fun\u00e7\u00e3o das necessidades sociais s\u00f3 ser\u00e1 plenamente no socialismo; quando a fase pol\u00edtica da revolu\u00e7\u00e3o for superada, isto \u00e9, no momento em que a burguesia seja definitivamente derrotada.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O \u201cmantra\u201d da colabora\u00e7\u00e3o p\u00fablico-privada desnuda todas as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas progressistas, social-liberais e\/ou de esquerdas. Todas elas, sem exce\u00e7\u00e3o, quando chegam ao governo de qualquer institui\u00e7\u00e3o, desde a menor prefeitura at\u00e9 os governos centrais, t\u00eam nessa colabora\u00e7\u00e3o a forma de presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos que por sua natureza totalmente estrutural deveriam estar nas m\u00e3os do estado, e sob o controle da classe oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Seja o transporte coletivo, a sa\u00fade, a educa\u00e7\u00e3o, o solo ou a depend\u00eancia de insumos, esta institui\u00e7\u00e3o entrega \u00e0 empresa privada, em maior ou menor grau, a presta\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o. Mas n\u00e3o s\u00f3 isso, como se viu no in\u00edcio, agora que ganhou na \u201cloteria\u201d e a Uni\u00e3o Europeia vai irrigar com milh\u00f5es o Estado Espanhol (e o resto), ser\u00e1 esta \u201ccolabora\u00e7\u00e3o\u201d a que far\u00e1 a partilha desses milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A \u201ccolabora\u00e7\u00e3o p\u00fablico-privada\u201d \u00e9 a fal\u00e1cia sob a qual se esconde a entrega de todos os recursos econ\u00f4micos e sociais a m\u00e3os privadas, deixando apenas em m\u00e3os p\u00fablicas, as que n\u00e3o s\u00e3o lucrativas. Todo o resto \u00e9 objeto dessa \u201ccolabora\u00e7\u00e3o\u201d, e desmontar essa fal\u00e1cia torna-se uma necessidade para enfrentar a ofensiva do capital contra os direitos sociais e trabalhistas da sociedade.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> \u00a0Economia circular &#8211; \u00e9 um sistema econ\u00f4mico que utiliza uma abordagem sist\u00eamica para manter o fluxo circular dos recursos, por meio da adi\u00e7\u00e3o, reten\u00e7\u00e3o e regenera\u00e7\u00e3o de seu valor, contribuindo para o desenvolvimento sustent\u00e1vel, ndt;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Pesquisa, desenvolvimento e inova\u00e7\u00e3o, \u00e9 um novo conceito adaptado aos estudos relacionados ao avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e investigativo voltado para o avan\u00e7o da sociedade, sendo uma das pe\u00e7as mais importantes dentro das tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, como supera\u00e7\u00e3o do conceito de I+D, ndt;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Alcunha dada aos economistas chilenos retornados dos EUA, durante a guerra fria, oriundos da Universidade de Chicago, cujo pai intelectual, Milton Friedman afirmava que a origem dos desastres econ\u00f4micos daquele s\u00e9culo n\u00e3o estava nos limites do capitalismo, mas na interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia, ndt;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Conceito desenvolvido por Marshall McLuhan para explicar a tend\u00eancia de evolu\u00e7\u00e3o do sistema medi\u00e1tico como elo de liga\u00e7\u00e3o entre os indiv\u00edduos num mundo sob o efeito das novas tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o, ndt;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <strong>As chamadas terras raras s\u00e3o compostas por um grupo de 17 elementos qu\u00edmicos essenciais<\/strong>\u00a0na fabrica\u00e7\u00e3o de telefones celulares, motores de ve\u00edculos el\u00e9tricos, rotores de turbinas e\u00f3licas e alguns tipos de baterias.\u00a0De todos eles<strong>, o l\u00edtio \u00e9 o principal mineral<\/strong>, pois \u00e9 o terceiro elemento mais leve do universo e o mais leve de todos os metais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre muitas outras coisas, a pandemia revelou duas cruciais, uma, que os cortes na sa\u00fade p\u00fablica e a consequente privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os sanit\u00e1rios provocaram uma sobrecarga nesses servi\u00e7os durante a pandemia, e dois, a propriedade privada das patentes farmac\u00eauticas est\u00e1 retardando uma solu\u00e7\u00e3o para a crise global da sa\u00fade.<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":64667,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[3512],"tags":[4196,3532,229,4197,4198],"class_list":["post-64660","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-estado-espanhol","tag-colaboracao-publico-privada","tag-coronavirus-estado-espanhol","tag-corriente-roja","tag-lucia","tag-plano-2030-estado-espanhol"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Espanha.jpg","categories_names":["Estado Espanhol"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64660","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64660"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64660\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64667"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64660"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64660"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64660"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}