{"id":64537,"date":"2021-07-24T10:57:09","date_gmt":"2021-07-24T13:57:09","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=64537"},"modified":"2021-07-24T10:57:09","modified_gmt":"2021-07-24T13:57:09","slug":"centenario-do-partido-comunista-chines-da-revolucao-a-ditadura-capitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/07\/24\/centenario-do-partido-comunista-chines-da-revolucao-a-ditadura-capitalista\/","title":{"rendered":"Centen\u00e1rio do Partido Comunista Chin\u00eas | Da revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura capitalista"},"content":{"rendered":"<p><em>Neste m\u00eas o Partido Comunista da China completa 100 anos de nascimento, em um momento em que o pa\u00eds desempenha um papel cada vez mais importante no mundo. Na China, as festividades foram impressionantes. No mundo, muitas correntes de esquerda, e inclusive burguesas, rendem homenagens e o mostram como um triunfo do \u201csocialismo\u201d, ao mesmo tempo em que falam de uma continuidade absoluta de objetivos desde sua long\u00ednqua funda\u00e7\u00e3o. De nossa parte, consideramos que, por tr\u00e1s das bandeiras vermelhas e da mesma simbologia, o partido atual representa o oposto daquele que foi fundado em Xangai.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por: Alejandro Iturbe<\/p>\n<p>Para fundamentar esta posi\u00e7\u00e3o, partimos de um conceito: na hist\u00f3ria, muitas vezes aconteceu que uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, embora tenha mantido seu nome, muda de forma regressiva seu car\u00e1ter, sua composi\u00e7\u00e3o e seu programa (sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica) devido ao impacto de diferentes processos pol\u00edticos e sociais.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu, por exemplo, com o partido bolchevique russo que deixou de ser o partido oper\u00e1rio que, depois de construir-se durante anos, dirigiu a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro (com Lenin como seu dirigente e depois tamb\u00e9m com Trotsky) e, posteriormente, com a dire\u00e7\u00e3o de Stalin se transformou no partido da burocracia do Estado oper\u00e1rio e, d\u00e9cadas mais tarde, restaurou o capitalismo na R\u00fassia [1].<\/p>\n<p>Ou, entre outros movimentos semelhantes, com o Congresso Nacional Africano de Nelson Mandela, que deixou de ser a express\u00e3o pol\u00edtica da luta dos negros sul-africanos por sua liberta\u00e7\u00e3o (luta pela qual seu l\u00edder passou muitos anos na pris\u00e3o) para se transformar no administrador e sustenta\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas, depois do pr\u00f3prio Mandela pactuar a transi\u00e7\u00e3o do fim do apartheid com a burguesia branca e o imperialismo[2].<\/p>\n<p>Com este crit\u00e9rio, consideramos que, nestes 100 anos, devemos caracterizar a exist\u00eancia de, pelo menos, tr\u00eas organiza\u00e7\u00f5es muito diferentes sob a denomina\u00e7\u00e3o de Partido Comunista Chin\u00eas: desde sua funda\u00e7\u00e3o at\u00e9 as derrotas de Xangai e Cant\u00e3o (1928); o partido liderado por Mao Zedong que encabe\u00e7ou a revolu\u00e7\u00e3o de 1949 e construiu o Estado oper\u00e1rio burocr\u00e1tico, e aquele que, ap\u00f3s sua morte (1976), sob a dire\u00e7\u00e3o de Deng Xiao Ping, restaura o capitalismo no pa\u00eds e inicia o processo que conduz \u00e0 China atual.<\/p>\n<p><span class=\"td_btn td_btn_md td_shadow_btn td_square_btn\"><strong>Primeira etapa<\/strong><\/span><\/p>\n<p>O Partido Comunista da China foi fundado em Xangai no in\u00edcio de julho de 1921, por um pequeno grupo de intelectuais e estudantes, sob a influ\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, no contexto de uma aten\u00e7\u00e3o cada vez maior da Terceira Internacional para o Oriente. Em seu Congresso de funda\u00e7\u00e3o participaram 12 delegados representando 50 membros. A reuni\u00e3o elegeu Chen Duxiu como secret\u00e1rio geral de um Comit\u00ea Central que tamb\u00e9m era integrado por Zhang Guotao e Li Dazhao [3].<\/p>\n<p>Em poucos anos, o partido passou a ter alguns milhares de membros e um peso crescente na incipiente classe trabalhadora das cidades de Xangai e Cant\u00e3o (portu\u00e1rios, trabalhadores do transporte e dos armaz\u00e9ns de com\u00e9rcio). Nesse contexto, a Terceira Internacional, j\u00e1 dirigida por Stalin, extrapola a pol\u00edtica de frente \u00fanica anti-imperialista com o Kuomintang (KMT, o partido da burguesia nacional chinesa), mantendo sua absoluta independ\u00eancia organizativa (contida nas Teses do Oriente votadas em 1922), e orienta o jovem PCCh a entrar no KMT e se submeter a sua disciplina[4].<\/p>\n<p>Essa orienta\u00e7\u00e3o acabaria sendo tr\u00e1gica. Ap\u00f3s a morte de seu fundador (Sun Yat-sen), seu sucessor no KMT, o general Chiang Kai-shek e seu ex\u00e9rcito come\u00e7am a atacar cada vez mais os comunistas e, em 1927, os expulsam do KMT e provocam os massacres de Xangai e Cant\u00e3o, com milhares de mortos. Os comunistas sobreviventes formaram o Ex\u00e9rcito Vermelho de Trabalhadores e Camponeses da China, e o jovem Mao Zedong \u00e9 nomeado seu comandante.<\/p>\n<p><span class=\"td_btn td_btn_md td_square_btn\"><strong>A ascens\u00e3o de Mao <\/strong><\/span><\/p>\n<p>Os n\u00facleos urbanos do PCCh tinham sido praticamente destru\u00eddos. Sob a forte press\u00e3o do Ex\u00e9rcito de Chiang, as tropas comandadas por Mao s\u00e3o for\u00e7adas a fugir permanentemente, primeiro para o leste e depois para o norte do pa\u00eds, o que viria a ser conhecido como a \u201cLonga Marcha\u201d. Pouco depois, por proposta da III Internacional j\u00e1 burocratizada, Mao \u00e9 nomeado secret\u00e1rio do partido substituindo Chen que, pouco depois, seria expulso da organiza\u00e7\u00e3o. Nesse processo, Chen aderiu \u00e0 Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda Internacional encabe\u00e7ada por Leon Trotsky.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica promovida por Mao era, de conte\u00fado, uma t\u00e1tica essencialmente defensiva, v\u00e1lida e ajustada \u00e0s circunst\u00e2ncias. Ap\u00f3s os massacres dos oper\u00e1rios de Xangai e Cant\u00e3o (dizimando milhares de militantes comunistas), os sobreviventes (entre eles Mao) n\u00e3o tiveram outra alternativa a n\u00e3o ser fugir para as \u00e1reas rurais onde havia milh\u00f5es de camponeses pobres. L\u00e1 eles come\u00e7aram a reconstruir o Partido Comunista e construir uma organiza\u00e7\u00e3o armada. Quando eram desalojados de uma regi\u00e3o, se moviam para outra, e, mais fortalecidos, repetiam o processo (a famosa \u201cLonga Marcha\u201d).<\/p>\n<p>No entanto, Mao fez \u201cde necessidade, virtude\u201d e transformou essa t\u00e1tica em teoria e estrat\u00e9gia: a base social da revolu\u00e7\u00e3o era permanentemente o campesinato pobre, o m\u00e9todo de luta era a \u201cguerra popular prolongada\u201d e o processo iria \u201cdo campo \u00e0 cidade\u201d [5].<\/p>\n<p>Para completar a concep\u00e7\u00e3o mao\u00edsta \u00e9 necess\u00e1rio agregar duas quest\u00f5es muito importantes. A primeira \u00e9 que a \u201cguerra popular prolongada\u201d estava a servi\u00e7o de concretizar uma alian\u00e7a social e pol\u00edtica chamada \u201cbloco das quatro classes\u201d: proletariado, campesinato, pequena burguesia urbana, e burguesia \u201cnacional democr\u00e1tica\u201d; isto \u00e9, uma variante da teoria estalinista da alian\u00e7a de classes. A segunda \u00e9 que a fus\u00e3o do partido com o ex\u00e9rcito o levou a impor aos militantes a mesma disciplina vertical pr\u00f3pria e imprescind\u00edvel da organiza\u00e7\u00e3o armada, ou seja, totalmente burocr\u00e1tica e sem nenhum direito ao debate democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Em outras palavras, com Mao n\u00e3o apenas muda a dire\u00e7\u00e3o do partido, mas se introduz uma mudan\u00e7a muito profunda em seu car\u00e1ter: deixa de ser um partido de base oper\u00e1ria para se tornar um partido de base camponesa, construindo-se como organiza\u00e7\u00e3o armada verticalmente disciplinada e, dessa forma, com uma total aus\u00eancia de democracia interna. Como uma express\u00e3o disso, chega ao extremo do \u201cculto \u00e0 personalidade\u201d de Mao (algo que j\u00e1 havia ocorrido com Stalin na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica burocratizada).<\/p>\n<p><span class=\"td_btn td_btn_md td_square_btn\"><strong>O Estado oper\u00e1rio burocratizado<\/strong><\/span><\/p>\n<p>A \u201cLonga Marcha\u201d expressava uma guerra civil m\u00f3vel entre o ex\u00e9rcito burgu\u00eas do general Chiang Kai-shek e as for\u00e7as comunistas de base camponesa. Essa guerra civil teve uma tr\u00e9gua de fato a partir da invas\u00e3o japonesa (1937), quando ambos os setores se concentraram em combater ao invasor.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a derrota do ex\u00e9rcito japon\u00eas (1945), o conflito interno recome\u00e7ou. Finalmente, em outubro de 1949, o ex\u00e9rcito campon\u00eas, encabe\u00e7ado por Mao, venceu e assumiu o poder. Foi uma grande revolu\u00e7\u00e3o triunfante que mais tarde daria origem a um novo Estado oper\u00e1rio e a uma economia de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo no pa\u00eds mais populoso da Terra. Por isso, o consideramos um dos mais importantes processos da luta de classes do s\u00e9culo XX [6].<\/p>\n<p>Podemos falar de uma nova mudan\u00e7a do car\u00e1ter do PCCh que deixou de ser uma dire\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica de uma grande luta para ser a dire\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica de um Estado oper\u00e1rio. No entanto, optamos por consider\u00e1-lo um est\u00e1gio dentro do que denominamos \u201cetapa mao\u00edsta\u201d.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio, foi um Estado oper\u00e1rio burocratizado, dominado pelo regime ditatorial do Partido Comunista estalinista e sua c\u00fapula. Dentro dele, Mao desempenhava o papel de \u201c\u00e1rbitro supremo\u201d entre as diferentes fra\u00e7\u00f5es do partido. Era um regime pol\u00edtico sem nenhuma liberdade democr\u00e1tica real para os trabalhadores. Durante quinze anos, o mao\u00edsmo foi parte do aparato estalinista mundial, hegemonizado pela burocracia da URSS. Mas, na d\u00e9cada de 1960 houve uma ruptura entre os dois setores, e o mao\u00edsmo (mantendo sua matriz estalinista) come\u00e7ou a construir seu pr\u00f3prio aparato pol\u00edtico mundial, a partir das rupturas dos PCs pr\u00f3-Moscou.<\/p>\n<p>A economia planificada centralmente deu frutos muito importantes, como o fim da fome e das doen\u00e7as decorrentes da pobreza cr\u00f4nica. Grandes avan\u00e7os ocorreram nas \u00e1reas da educa\u00e7\u00e3o, a infraestrutura de servi\u00e7os e comunica\u00e7\u00f5es melhorou notavelmente, e, al\u00e9m disso, iniciou-se um processo incipiente de industrializa\u00e7\u00e3o. Mas estes avan\u00e7os partiam de uma base muito atrasada (que continuava sendo essencialmente agr\u00e1ria) e, ao mesmo tempo, esbarravam com dois obst\u00e1culos que conferiam limites intranspon\u00edveis. O primeiro foi \u00e0 concep\u00e7\u00e3o estalinista (adotada pelo mao\u00edsmo) de que era poss\u00edvel construir o \u201csocialismo em um s\u00f3 pa\u00eds\u201d. Uma ideia que Marx (no s\u00e9culo XIX) j\u00e1 havia combatido e que, em um pa\u00eds t\u00e3o atrasado como a China, se tornava ainda mais imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>O segundo obst\u00e1culo estava em que a economia era planificada centralmente, mas de forma totalmente burocr\u00e1tica e arbitr\u00e1ria pela c\u00fapula do PCCh, \u00a0que, em muitas ocasi\u00f5es, colocava objetivos delirantes. Isso aconteceu durante o chamado Grande Salto para Frente (1958-1961) onde se promoveu a cria\u00e7\u00e3o de um milh\u00e3o de \u201cmini-sider\u00fargicas\u201d nas fazendas camponesas: o metal obtido era de p\u00e9ssima qualidade e praticamente sem utilidade, o que significou uma grande perda de esfor\u00e7o, trabalho e materiais. Ou com a \u201ccoletiviza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada\u201d do campo (realizada naqueles mesmos anos segundo o modelo estalinista russo dos anos 30) que causou milh\u00f5es de mortes pela fome.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia dessas profundas contradi\u00e7\u00f5es, a economia planificada sofria grandes oscila\u00e7\u00f5es, e o aparato burocr\u00e1tico chin\u00eas e sua c\u00fapula sempre foram muito inst\u00e1veis, com choques e deslocamentos permanentes entre as diferentes fra\u00e7\u00f5es que o compunham. Por exemplo, a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural foi uma mobiliza\u00e7\u00e3o da juventude promovida pelo pr\u00f3prio Mao, desde 1966, para deslocar um setor da velha guarda a quem acusava de querer avan\u00e7ar na restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo. Foi o caso de Deng Xiao Ping que perdeu seu cargo na dire\u00e7\u00e3o e foi enviado para trabalhar como oper\u00e1rio no interior do pa\u00eds. Posteriormente, o pr\u00f3prio Mao freou o processo devido \u00e0 din\u00e2mica cada vez mais antiburocr\u00e1tica que estava adquirindo.<\/p>\n<p><span class=\"td_btn td_btn_md td_square_btn\"><strong>Deng Xiao Ping e a restaura\u00e7\u00e3o capitalista<\/strong><\/span><\/p>\n<p>No final dos anos 1960 e in\u00edcio dos anos de 1970, a economia do Estado oper\u00e1rio chin\u00eas estava em um estado de estagna\u00e7\u00e3o. Com esta situa\u00e7\u00e3o de fundo, e o debate sobre como enfrent\u00e1-la, Mao morre em 1976 e a luta entre as fra\u00e7\u00f5es da burocracia se intensifica ao extremo. V\u00e1rios dos deslocamentos da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural s\u00e3o revertidos e Deng Xiao Ping e seu n\u00facleo pr\u00f3ximo reintegram-se \u00e0 dire\u00e7\u00e3o, agrupando em torno deles uma corrente cada vez mais forte. Finalmente, a disputa termina em 1978 com o triunfo da sua ala direita que, mais tarde, fuzila os principais l\u00edderes de seus oponentes (conhecidos como o \u201cBando dos Quatro\u201d, entre eles a vi\u00fava de Mao, Jiang Qing).<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o encabe\u00e7ada por Deng iniciou o processo de restaura\u00e7\u00e3o capitalista no pa\u00eds associado ao imperialismo norte-americano, que aproveita ao m\u00e1ximo o espa\u00e7o que lhe foi aberto. Em 1979, Deng fez a primeira viagem de um l\u00edder comunista chin\u00eas aos EUA e se encontrou como o ent\u00e3o presidente Jimmy Carter. Um fato simb\u00f3lico da restaura\u00e7\u00e3o foi que, j\u00e1 no final de 1978, a Coca Cola anunciou seu projeto de instalar uma f\u00e1brica em Xangai.<\/p>\n<p>N\u00e3o vamos nos estender aqui sobre como se desenvolveu esse processo de restaura\u00e7\u00e3o. Os interessados podem ler diversos artigos publicados neste site [7]. A m\u00eddia mais s\u00e9ria do imperialismo assinala: <em>\u201c&#8230; a China de hoje parece completamente diferente &#8211; alguns diriam, quase oposta &#8211; ao pa\u00eds comunista concebido por Mao e os fundadores do PCCh\u201d<\/em> e creditam a Deng o \u201cm\u00e9rito\u201d dessa conquista [8]. Lembremos que, naqueles anos seu lema era: <em>\u201cEnriquecer \u00e9 glorioso\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Assim, foi produzida uma combina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica in\u00e9dita: o pr\u00f3prio aparato estalinista, que tinha dirigido a revolu\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o do Estado oper\u00e1rio burocratizado, n\u00e3o apenas restaurou o capitalismo, mas tamb\u00e9m continuou no poder ap\u00f3s t\u00ea-lo feito. S\u00f3 que agora j\u00e1 n\u00e3o defende as bases econ\u00f4mico-sociais do Estado oper\u00e1rio, mas est\u00e1 a servi\u00e7o do capitalismo imperialista.<\/p>\n<p>De um ponto de vista formal e de seu funcionamento, o regime e seu aparato pol\u00edtico (o PCCh) permanecem os mesmos: burocr\u00e1ticos e ditatoriais, disfar\u00e7ados por tr\u00e1s das bandeiras vermelhas e a linguagem \u201csocialista\u201d. Mas seu conte\u00fado social \u00e9 agora totalmente diferente: uma ditadura sangrenta a servi\u00e7o de uma das express\u00f5es mais ferozes e exploradoras do capitalismo atual [9]. H\u00e1 uma mudan\u00e7a qualitativa do car\u00e1ter do PCCh.<\/p>\n<p><span class=\"td_btn td_btn_md td_square_btn\"><strong>O massacre da Pra\u00e7a Tiananmen<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Com base na restaura\u00e7\u00e3o, a economia chinesa crescia a taxas anuais fabulosas: em 1988, alcan\u00e7ou 12%. Mas em 1989 come\u00e7ou a desacelerar e s\u00f3 chegaria a 4%. Simultaneamente, esse crescimento acumulava crescentes tens\u00f5es e desigualdades sociais. Buscando \u201cdestravar\u201d o crescimento capitalista, o governo decretou a \u201clibera\u00e7\u00e3o geral de pre\u00e7os\u201d, o que gerou uma grande insatisfa\u00e7\u00e3o e inquietude social. Ao mesmo tempo, novos setores da juventude urbana, mais modernos, surgidos do desenvolvimento recente, come\u00e7avam a aspirar a uma \u201cabertura democr\u00e1tica\u201d que o regime n\u00e3o estava disposto a dar, nem mesmo parcialmente.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de maio, os estudantes da Universidade de Pequim lan\u00e7aram um manifesto com reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e a eles se somaram uma pequena e incipiente federa\u00e7\u00e3o clandestina de novos sindicatos independentes que, al\u00e9m das demandas gerais, clama pelo direito de livre associa\u00e7\u00e3o sindical. Abre-se um processo maci\u00e7o de mobiliza\u00e7\u00e3o, com epicentro na Pra\u00e7a Tiananmen, em Pequim, por onde passam diariamente entre um e dois milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>O regime ficou paralisado, consciente de que esse processo amea\u00e7ava minar suas bases, por um lado, e o temor de um confronto frontal com as massas, pelo outro. Foi um per\u00edodo de aproximadamente um m\u00eas no qual, com o pano de fundo em Tiananmen, a c\u00fapula do PCCh realizou intens\u00edssimas discuss\u00f5es sobre que fazer. Uma vez mais, terminou predominando a \u201clinha dura\u201d e repressiva de Deng, e em 4 de junho, o ex\u00e9rcito chin\u00eas esmagou sangrentamente o movimento (prendendo a maioria de seus l\u00edderes) e desocupou definitivamente a Pra\u00e7a[10].<\/p>\n<p>Foi uma virada na rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e na situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica chinesa, que consolidou fortemente o regime ditatorial do PCCh e, ao mesmo tempo, significou o in\u00edcio de um salto nos investimentos estrangeiros e no desenvolvimento do atual modelo capitalista chin\u00eas.<\/p>\n<p><span class=\"td_btn td_btn_md td_square_btn\"><strong>Xi Jinping<\/strong><\/span><\/p>\n<p>A estrela indiscut\u00edvel da celebra\u00e7\u00e3o pelos 100 anos do PCCh foi Xi Jinping, falando do palanque, com grandes fotos de Mao atr\u00e1s dele e vestido com um singelo uniforme militar tal qual Mao usava habitualmente. Obviamente, tentava transmitir uma dupla mensagem: por um lado, a continuidade da revolu\u00e7\u00e3o; por outro, nela, \u201ceu sou o l\u00edder indiscut\u00edvel\u201d. O primeiro, como j\u00e1 vimos e aprofundaremos aqui, \u00e9 uma grande falsifica\u00e7\u00e3o. O segundo \u00e9, em grande parte, verdade.<\/p>\n<p>Vamos come\u00e7ar pela pessoa do pr\u00f3prio Xi Jinping. \u00a0Ele tem 68 anos, formou-se em engenharia qu\u00edmica e \u00e9 o primeiro l\u00edder chin\u00eas nascido ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de 1949, filho de Xi Zhongxun, um dirigente que foi relegado junto com Deng na Revolu\u00e7\u00e3o Cultural e depois retornou junto com este. Desde a d\u00e9cada de 1970, galgou um caminho ascendente no partido. Ap\u00f3s a restaura\u00e7\u00e3o, nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990 integrou o grupo dos chamados \u201cfilhos de dirigentes\u201d, que intermediavam os investimentos estrangeiros e faziam neg\u00f3cios com isso.<\/p>\n<p>Xi Jinping ascendeu ao mais alto escal\u00e3o do poder da China em 2012. Desde ent\u00e3o, se concentrou em duas quest\u00f5es: por um lado, promover e fortalecer o desenvolvimento capitalista chin\u00eas iniciado por Deng; por outro, unificar e fortalecer o aparelho repressivo do regime ditatorial ao seu redor. Vejamos os dois aspectos.<\/p>\n<p><span class=\"td_btn td_btn_md td_square_btn\"><strong>Um pa\u00eds capitalista at\u00e9 a medula<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Analisamos neste e em outros materiais que a China \u00e9 um pa\u00eds capitalista at\u00e9 a medula e que falar da \u201ccontinuidade do socialismo\u201d, como fazem muitas organiza\u00e7\u00f5es oriundas do estalinismo ortodoxo ou do mao\u00edsmo, \u00e9 uma falsifica\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria.<\/p>\n<p>O grande impulso desse desenvolvimento capitalista deve-se aos investimentos estrangeiros e investimentos de burgueses de origem chinesa daqueles que fugiram com a revolu\u00e7\u00e3o e se estabeleceram em Taiwan, Hong Kong e Cingapura. Mas, ao mesmo tempo, come\u00e7ou a se desenvolver uma burguesia pr\u00f3pria da China continental, profundamente associada ao PCCh e ao regime em seu conjunto, obtendo contratos e cr\u00e9ditos privilegiados.<\/p>\n<p>Alguns desses setores s\u00e3o essencialmente fornecedores de empresas imperialistas, como a Jinhua Tool Manufactures ou a Dailman Dinamic, que fabricam quadriciclos cortadores de grama e outras maquinarias e ferramentas que o Walmart vende em todo mundo.<\/p>\n<p>Surgiram empresas que passaram a exportar diretamente os produtos que fabricavam: as montadoras Geely, Chery e Jac; as empresas de maquin\u00e1rio de constru\u00e7\u00e3o, como a China Macre Group (marca Lite), a Jing Sheng, a Shantui Mafal e v\u00e1rias outras. Outros conglomerados diversificaram sua atua\u00e7\u00e3o. O Dalian Wanda Group foi fundado em 1998 por Wang Jianlin, e opera no setor imobili\u00e1rio, possui grandes cadeias comerciais, hot\u00e9is de luxo e a maior rede de cinemas do mundo.<\/p>\n<p>O HNA Group foi fundado por Chen Feng em 1993, com ajuda financeira de George Soros. Ele \u00e9 especialista em transporte (sua companhia a\u00e9rea Hainan, aeroportos, barcos, e aluguel de cont\u00eaineres), mas expandiu seus investimentos para os setores banc\u00e1rio e imobili\u00e1rio. As empresas de telefonia celular e novos computadores como a Huawei merecem um lugar de destaque.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que na China havia, h\u00e1 tr\u00eas anos, 568 bilion\u00e1rios (pessoas com uma fortuna pessoal de mais de um bilh\u00e3o de d\u00f3lares) e j\u00e1 ultrapassava os EUA nesta \u00e1rea (535). No topo dessa pir\u00e2mide encontrava-se Wang Jianlin, propriet\u00e1rio do Dailan Wanda Group, com 24 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Seguido por Lei Jun (um engenheiro eletr\u00f4nico, chamado \u201co Steve Jobs chin\u00eas\u201d), com 13 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. O citado Cheng Feng estava um pouco abaixo na lista: 7.5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. A mulher mais rica da China \u00e9 Zhou Qunfei, com 1.7 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. \u00c9 chamada de <em>Mobile Glass Queen<\/em> (rainha do cristal m\u00f3vel) porque fez sua fortuna fabricando telas e vidros dos celulares. Desta c\u00fapula de bilion\u00e1rios para baixo, existe uma pir\u00e2mide burguesa at\u00e9 chegar a um milh\u00e3o de chineses que possuem um capital superior a um milh\u00e3o de d\u00f3lares.<\/p>\n<p><span class=\"td_btn td_btn_md td_square_btn\"><strong>A explora\u00e7\u00e3o e a repress\u00e3o \u00e0 classe oper\u00e1ria<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Em contrapartida, a situa\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria \u00e9 oposta do que caberia esperar em um \u201cpa\u00eds socialista\u201d (ou em uma economia em transi\u00e7\u00e3o para o socialismo) que est\u00e1 se desenvolvendo progressivamente: ou seja, uma melhoria permanente das condi\u00e7\u00f5es de vida e de usufruto da maior riqueza produzida, com uma homogeneiza\u00e7\u00e3o ascendente cada vez maior. Ao contr\u00e1rio, a gigantesca classe oper\u00e1ria chinesa est\u00e1 submetida a condi\u00e7\u00f5es de superexplora\u00e7\u00e3o e profundamente dividida pela pr\u00f3pria legisla\u00e7\u00e3o e pela a\u00e7\u00e3o do Estado e dos sindicatos integrantes do regime [11].<\/p>\n<p>O sal\u00e1rio m\u00ednimo obrigat\u00f3rio (determinado pelo governo central, os estaduais e os municipais) \u00e9 a refer\u00eancia clara de um \u201cpiso salarial\u201d para os trabalhadores e oper\u00e1rios chineses. Em 2018, esse sal\u00e1rio oscilava entre 1.150 yuanes (166,40 d\u00f3lares) em alguns munic\u00edpios da prov\u00edncia de Anhui at\u00e9 2.420 (350,20) em Xangai. Embora a legisla\u00e7\u00e3o estabele\u00e7a uma jornada de trabalho b\u00e1sica de 8 horas di\u00e1rias e 48 semanais, isto s\u00f3 \u00e9 realidade nas empresas estatais centralizadas. Para completar a renda necess\u00e1ria, o habitual \u00e9 o trabalho semanal de 60 horas (6&#215;10) nas empresas imperialistas e de 72 horas (12 x 6) nas demais.<\/p>\n<p>Em muitos casos, as empresas nem mesmo pagam as horas extras como tais. Alguns anos atr\u00e1s, a Foxconn (que produz para a Apple e outros gigantes da telefonia celular e da inform\u00e1tica) foi denunciada internacionalmente por exigir de suas dezenas de milhares de trabalhadores jornadas de 12 horas (sem descanso semanal), e por submeter muitos trabalhadores migrantes a um sistema de \u201cdormit\u00f3rio interno\u201d, onde dormem em condi\u00e7\u00f5es de superlota\u00e7\u00e3o, limpeza e manuten\u00e7\u00e3o prec\u00e1rias. Em 2010, ocorreram explos\u00f5es devido ao ac\u00famulo de p\u00f3 de alum\u00ednio, com 4 mortos e 77 feridos. Nesse contexto, o sal\u00e1rio mensal total n\u00e3o chegava aos 500 d\u00f3lares, e tais condi\u00e7\u00f5es provocaram o suic\u00eddio de cerca de 20 trabalhadores.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 divis\u00e3o da classe oper\u00e1ria promovida pelo pr\u00f3prio regime, cabe assinalar alguns grandes fundamentos dessa divis\u00e3o salarial e de condi\u00e7\u00f5es de trabalho. O primeiro deles \u00e9 entre os trabalhadores das empresas estatais centralizadas, que conservam certos privil\u00e9gios e o setor privado de modo geral. No setor privado, se d\u00e1 entre aqueles das grandes f\u00e1bricas das empresas imperialistas e as pertencentes \u00e0 burguesia chinesa.<\/p>\n<p>Por fim, a grande divis\u00e3o: o <em>houkou<\/em>: o passaporte interno exigido para se deslocar do interior para as cidades costeiras industriais e que determina o acesso \u00e0 moradia, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, transformando esses \u201cmigrantes\u201d em trabalhadores e cidad\u00e3os de segunda classe em seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Um estudo realizado com base em entrevistas com trabalhadores de v\u00e1rias f\u00e1bricas automotivas de empresas imperialistas conclui: <em>\u201cEles [os trabalhadores migrantes] se sentem discriminados porque s\u00e3o designados para as \u00e1reas mais pesadas e dif\u00edceis, porque realizam o mesmo trabalho que outros trabalhadores, mas recebem menos sal\u00e1rio e piores benef\u00edcios, e porque lhes s\u00e3o negados o mesmo treinamento e oportunidades de capacita\u00e7\u00e3o, com menores possibilidades de ascens\u00e3o na carreira e de conseguir estabilidade no emprego\u201d <\/em>[12].<\/p>\n<p>Finalmente, \u00e9 necess\u00e1rio destacar que apenas est\u00e3o autorizados os sindicatos oficiais associados ao regime (nucleados na Federa\u00e7\u00e3o Nacional Sindical Chinesa &#8211; ACTFU por suas siglas em ingl\u00eas). A legisla\u00e7\u00e3o pro\u00edbe a exist\u00eancia de outras organiza\u00e7\u00f5es sindicais. As greves e protestos coletivos tamb\u00e9m est\u00e3o proibidos. Um ativista sindical independente declarou: <em>\u201cEm caso de protesto, nenhuma lei impede que voc\u00ea seja demitido ou mesmo preso por perturbar a \u201charmonia social\u201d. Por isso, muitos aceitam as condi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o se atrevem a levantar a voz.\u201d<\/em> [13]<\/p>\n<p><span class=\"td_btn td_btn_md td_square_btn\"><strong>O car\u00e1ter de classe do PCCh atual<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Essa realidade que mostramos se choca de frente com os elogios feitos por aqueles que querem nos apresentar a atualidade chinesa como uma \u201cmarcha ao socialismo\u201d (por caminhos alternativos).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vai de encontro \u00e0 an\u00e1lise que, de forma mais sofisticada, \u00e9 feita em um site: analisar a composi\u00e7\u00e3o social dos membros do PCCh e, a partir da\u00ed, o car\u00e1ter do regime pol\u00edtico do pa\u00eds. Reconhece que existem burgueses, mas sua conclus\u00e3o \u00e9 a seguinte: <em>\u201cDe fato, com 95 milh\u00f5es de membros, o PCCh, a m\u00e1quina estatal e as empresas estatais est\u00e3o totalmente integrados e t\u00eam o controle da China. O PCCh n\u00e3o \u00e9 controlado pela classe capitalista. A maioria dos seus membros s\u00e3o trabalhadores (manuais, de colarinho branco e profissionais)\u201d <\/em>[14].<\/p>\n<p>Manobra sofisticada para a mesma falsifica\u00e7\u00e3o. O car\u00e1ter de classe de um partido n\u00e3o pode ser definido por quem s\u00e3o seus filiados, mas pelos interesses de classe que sua dire\u00e7\u00e3o expressa e defende. Dissemos, e acreditamos ter demonstrado que a China \u00e9 capitalista porque esse Estado funciona defendendo a propriedade, os interesses e os lucros das empresas imperialistas que investiram no pa\u00eds e das que s\u00e3o propriedade dos burgueses chineses. Se o PCCh \u00e9 a principal institui\u00e7\u00e3o do regime pol\u00edtico de um Estado burgu\u00eas\u00a0 <em>(\u201ct\u00eam o controle da China\u201d<\/em>), como se pode argumentar que ainda continua sendo um \u201cpartido dos trabalhadores\u201d (ou \u201cmisto\u201d, com uma ampla maioria deles)? Para n\u00f3s, \u00e9 claramente um partido que expressa e defende os interesses da burguesia.<\/p>\n<p>No caso do PCCh, a imensa maioria de seus membros n\u00e3o \u00e9 integrada por convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mas por obriga\u00e7\u00e3o ou por benef\u00edcio pessoal. Um artigo recente o assinala: <em>\u201cEm todo caso, em muitos lugares e setores do pa\u00eds, a \u00fanica forma para poder progredir profissionalmente &#8211; e, dadas as press\u00f5es sociais, pessoalmente &#8211; \u00e9 afiliar-se ao partido, que est\u00e1 presente em todos e em cada um dos aspectos da sociedade\u201d<\/em> [15]. Mas, al\u00e9m disso, em uma organiza\u00e7\u00e3o que \u00e9 absolutamente centralizada de forma burocr\u00e1tica como o PCCh, a imensa maioria desses membros n\u00e3o define absolutamente nada, mas as decis\u00f5es est\u00e3o nas m\u00e3os de uma reduzida estrutura de quadros e fundamentalmente de sua alta c\u00fapula.<\/p>\n<p>Uma c\u00fapula onde o peso da burguesia \u00e9 cada vez mais evidente. V\u00e1rios novos burgueses j\u00e1 eram filiados ao PCCh (como Cheng Feng ou Zhou Qunfei) ou se juntaram ao partido nesses anos. Embora n\u00e3o integrem formalmente a dire\u00e7\u00e3o ou o setor dos altos quadros, s\u00e3o uma fonte de \u201cconsulta\u201d em organismos assessores como a Confer\u00eancia Consultiva Pol\u00edtica do Povo da China, que se realiza anualmente; s\u00e3o delegados aos congressos do partido; ou deputados no Congresso do Povo. A verdade \u00e9 que a fortuna somada dos \u201cmembros mais ricos do partido\u201d (cerca de 150 pessoas que participaram de um encontro de 5.000 \u201cquadros\u201d, realizado em Beijing em 2018) era de 650 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Representava um crescimento de 28% sobre os 507 bilh\u00f5es que se acumularam na mesma reuni\u00e3o no ano anterior [16]. Assim, eles cumprem o slogan de Deng: \u201cEnriquecer-se \u00e9 glorioso\u201d.<\/p>\n<p>Na realidade, n\u00e3o \u00e9 completamente verdadeiro dizer que os \u201caltos quadros\u201d n\u00e3o se transformaram diretamente em burgueses. H\u00e1 alguns anos, o <em>New York Times<\/em> publicou a informa\u00e7\u00e3o de que o ex-primeiro-ministro Weng Jiabao acumulava uma fortuna de 2.7 bilh\u00f5es de d\u00f3lares [17]. Para evitar serem vinculados diretamente \u00e0s suas fortunas pessoais, muitos membros da chamada \u201cnobreza vermelha\u201d, fazem com que seus familiares criem empresas fantasmas em para\u00edsos fiscais, e operam atrav\u00e9s delas, tanto para seus investimentos na China como no exterior. De acordo com outra informa\u00e7\u00e3o vazada em 2014:<\/p>\n<p><em>\u201cUma base documental obtida pelo Cons\u00f3rcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) revela que pelo menos 13 parentes de m\u00e1ximos dirigentes do regime (inclu\u00eddos o atual presidente Xi Jinping e os ex-primeiros-ministro Wen Jiabao e Li Peng, bem como 15 grandes empres\u00e1rios e grandes companhias estatais mantiveram grande atividade em ref\u00fagios fiscais. Os registros&#8230; s\u00e3o oriundos de um vazamento de mais de dois milh\u00f5es de arquivos de duas gestoras \u00a0(Portcullis TrustNet e Commonwealth Trust) que operam nas Ilhas Virgens Brit\u00e2nicas&#8230; que tem mais de um milh\u00e3o de empresas registradas (40% procedente da China, Hong Kong e Cingapura)\u201d<\/em> [18].<\/p>\n<p>Nesses dados figuram pelo menos 13 parentes dos dirigentes da c\u00fapula \u201ccomunista\u201d em atividade, aposentados ou falecidos. Entre eles, o cunhado de Xi Jinping; o filho e o genro do ex-primeiro-ministro, Wen Jiabao; a filha de seu antecessor, Li Peng; um genro do falecido Deng Xiaoping, e o neto do legend\u00e1rio comandante da revolu\u00e7\u00e3o, Su Yu. Essas 13 pessoas aparecem vinculadas a pelo menos, 25 empresas na qualidade de \u201cacionistas\u201d ou \u201cdiretores\u201d.<\/p>\n<p><span class=\"td_btn td_btn_md td_square_btn\"><strong>Um regime cada vez mais fechado<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Se deixarmos de lado a grande mentira da \u201ccontinuidade da revolu\u00e7\u00e3o\u201d, ficamos com uma realidade: Xi Jinping \u00e9 o l\u00edder chin\u00eas mais poderoso desde Mao. Mas n\u00e3o a servi\u00e7o de um Estado oper\u00e1rio burocr\u00e1tico, mas de uma feroz ditadura capitalista. Um regime que se baseia na chamada \u201cSant\u00edssima Trindade do Estado-Partido-Ex\u00e9rcito\u201d que o transforma no que alguns meios de comunica\u00e7\u00e3o chamaram de uma \u201cditadura perfeita\u201d, com um controle muito r\u00edgido da sociedade, dos trabalhadores e das massas [19].<\/p>\n<p>Dentro dessa estrutura, Xi Jinping se posicionou como o epicentro desse regime, acumulando as chefias dos tr\u00eas componentes e o controle de todas as quest\u00f5es essenciais econ\u00f4micas, militares, de pol\u00edtica exterior e do aparato partid\u00e1rio. Ele \u00e9 indiscutivelmente \u201co grande l\u00edder\u201d desta feroz ditadura capitalista chinesa.<\/p>\n<p>Por isso, longe de render-lhe homenagens, dizemos que a tarefa central e a grande necessidade dos trabalhadores e das massas chinesas \u00e9 derrubar essa ditadura. E que esta luta deve apontar o caminho de uma nova revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e socialista que inicie a constru\u00e7\u00e3o de um novo Estado oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>O regime encabe\u00e7ado por Xi Jinping tem, \u00e9 claro, a alternativa de tentar frear esse processo com um massacre sangrento repressivo, como fez com o movimento de Tiananmen. Conta para isso, com ferramentas muito poderosas: for\u00e7as armadas com 3.500.000 efetivos, for\u00e7as policiais de 1.600.000, e um poderoso armamento, cada vez mais modernizado.<\/p>\n<p>Mas a estrutura social do pa\u00eds hoje \u00e9 muito diferente ao da \u00e9poca de Tiananmen. N\u00e3o se trataria de enfrentar apenas estudantes, setores m\u00e9dios e uma faixa minorit\u00e1ria de trabalhadores, como em 1989, mas uma classe oper\u00e1ria jovem e de dimens\u00f5es colossais, a maior do mundo. Por tr\u00e1s de sua aparente fortaleza, esse regime est\u00e1 assentado sobre um barril de p\u00f3lvora.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] Sobre este tema, recomendamos ler: https:\/\/litci.org\/pt\/bolchevismo-e-stalinismo-polos-opostos\/<\/p>\n<p>[2] Sobre este tema, recomendamos ler: https:\/\/www.pstu.org.br\/nelson-mandela-da-luta-a-capitulacao\/<\/p>\n<p>[3] Dados extra\u00eddos de <a href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20171222031024\/http:\/www.chinatoday.com\/org\/cpc\/cpc_1st_congress_standing_polibureau.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/web.archive.org\/web\/20171222031024\/http:\/\/www.chinatoday.com\/org\/cpc\/cpc_1st_congress_standing_polibureau.htm<\/a><\/p>\n<p>[4] Sobre uma vis\u00e3o cr\u00edtica da orienta\u00e7\u00e3o geral da Tese do Oriente e a Frente \u00danica Anti-imperialista, recomendamos ler a Tese XXIX de <em>Atualiza\u00e7\u00e3o do Programa de Transi\u00e7\u00e3<\/em>o em <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/actual\/apt_3.htm#t29\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/actual\/apt_3.htm#t29<\/a>, bem como o balan\u00e7o de Leon Trotsky sobre o processo chin\u00eas em seu livro <em>A revolu\u00e7\u00e3o permanente <\/em>(1929) em <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/revperm\/index.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/trotsky\/revperm\/index.htm<\/a><\/p>\n<p>[5] Para conhecer mais sobre este processo recomendamos ler o livro de Nahuel Moreno <em>As Revolu\u00e7\u00f5es Chinesa e Indochina<\/em> em:\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/obras\/06_nm.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/obras\/06_nm.htm<\/a><\/p>\n<p>[6] Idem.<\/p>\n<p>[7] Ver, entre outros artigos: <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/china-mito-y-realidad\/\">https:\/\/litci.org\/es\/china-mito-y-realidad\/<\/a>\u00a0y\u00a0<a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/la-restauracion-capitalista-china\/\">https:\/\/litci.org\/es\/la-restauracion-capitalista-china\/<\/a><\/p>\n<p>[8] <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-internacional-57689347\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-internacional-57689347<\/a><\/p>\n<p>[9] https:\/\/litci.org\/pt\/a-china-e-uma-ditadura-capitalista-disfarcada-de-vermelha\/<\/p>\n<p>[10] Sobre este tema, recomendamos ler: <a href=\"https:\/\/litci.org\/es\/la-masacre-tiananmen\/\">https:\/\/litci.org\/es\/la-masacre-tiananmen\/<\/a><\/p>\n<p>[11] Sobre este tema e os dados contidos nesta parte, recomendamos ler o artigo \u201cA classe oper\u00e1ria chinesa\u201d em <em>Marxismo Vivo &#8211; Nova \u00c9poca n\u00ba 15<\/em>, Edi\u00e7\u00f5es Marxismo Vivo, S\u00e3o Paulo, Brasil, 2019.<\/p>\n<p>[12] CHEN, Vincent; CHAN, Anita; <em>Regular and Agency Workers: Attitudes and Resistance in Chinese Auto Joint Ventures<\/em>; Revista <em>China Quarterly<\/em> 224 (mar\u00e7o, 2018) em: <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/322520102_Yiu_Por_Vincent_Chen_and_Anita_Chan_Regular_and_Agency_Workers_Attitudes_and_Resistance_in_Chinese_Auto_Joint_Ventures_China_Quarterly_March_2018_no_224\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/322520102_Yiu_Por_Vincent_Chen_and_Anita_Chan_Regular_and_Agency_Workers_Attitudes_and_Resistance_in_Chinese_Auto_Joint_Ventures_China_Quarterly_March_2018_no_224<\/a> (tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>[13] <a href=\"https:\/\/www.eldiario.es\/catalunya\/China-mucha-forzada-trabajar-salario_0_830467858.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.eldiario.es\/catalunya\/China-mucha-forzada-trabajar-salario_0_830467858.html<\/a><\/p>\n<p>[14] <a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2021\/07\/01\/chinese-communist-party-a-party-of-workers-or-capitalists\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2021\/07\/01\/chinese-communist-party-a-party-of-workers-or-capitalists\/<\/a> (original em ingl\u00eas, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>[15] <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-internacional-57673309\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-internacional-57673309<\/a><\/p>\n<p>[16] <a href=\"https:\/\/glamurama.uol.com.br\/fortuna-somada-dos-membros-mais-ricos-do-partido-comunista-chines-chega-a-us-650-bi\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/glamurama.uol.com.br\/fortuna-somada-dos-membros-mais-ricos-do-partido-comunista-chines-chega-a-us-650-bi\/<\/a><\/p>\n<p>[17] <a href=\"https:\/\/www.terra.com.br\/noticias\/mundo\/asia\/china-censura-informacao-sobre-fortuna-de-wen-jiabao,7b84d7cbad39a310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.terra.com.br\/noticias\/mundo\/asia\/china-censura-informacao-sobre-fortuna-de-wen-jiabao,7b84d7cbad39a310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html<\/a><\/p>\n<p>[18] <a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2014\/01\/21\/actualidad\/1390320982_008751.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/elpais.com\/internacional\/2014\/01\/21\/actualidad\/1390320982_008751.html<\/a><\/p>\n<p>[19] <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-internacional-57689347\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-internacional-57689347<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Rosangela Botelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste m\u00eas o Partido Comunista da China completa 100 anos de nascimento, em um momento em que o pa\u00eds desempenha um papel cada vez mais importante no mundo. Na China, as festividades foram impressionantes. No mundo, muitas correntes de esquerda, e inclusive burguesas, rendem homenagens e o mostram como um triunfo do \u201csocialismo\u201d, ao mesmo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":64541,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[365],"tags":[1551,4151,4152],"class_list":["post-64537","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-china","tag-alejandro-iturbe","tag-pc-chines","tag-restauracao-capitalista-china"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/China.jpg","categories_names":["China"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64537","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64537"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64537\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64541"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64537"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64537"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64537"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}