{"id":64482,"date":"2021-07-19T12:13:34","date_gmt":"2021-07-19T15:13:34","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=64482"},"modified":"2021-07-19T12:13:34","modified_gmt":"2021-07-19T15:13:34","slug":"africa-do-sul-motins-e-saques-por-alimentos-giram-a-roda-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/07\/19\/africa-do-sul-motins-e-saques-por-alimentos-giram-a-roda-da-historia\/","title":{"rendered":"\u00c1frica do Sul: motins e saques por alimentos giram a roda da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><em>Nos \u00faltimos meses a \u00c1frica subsaariana vem sendo sacudida por in\u00fameras lutas. Lutas juvenis e populares no Zimb\u00e1bue, Nig\u00e9ria, Senegal, Suazil\u00e2ndia. Greves de trabalhadores no Qu\u00eania e Guin\u00e9. A \u00c1frica do Sul dirigida e controlada ferreamente h\u00e1 27 anos pelo consorcio CNA\/COSATU\/Partido Comunista, parecia imune a essa onda de lutas. As contradi\u00e7\u00f5es vinham se avolumando e por baixo a raiva foi crescendo e explodiu em forma de saques, inc\u00eandios e enfrentamentos com a pol\u00edcia. Neste texto vamos tentar explicar o p\u00f3s Apartheid e como o pa\u00eds foi governado nesses anos.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Cesar Neto<\/p>\n<ol>\n<li><strong> Mandela, o grande negociador<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Nelson Mandela esteve 27 anos preso. Foi advogado das lutas do movimento negro, esteve exilado e se relacionou com diversos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o da \u00c1frica. Acusado de pertencer a um movimento guerrilheiro<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> para derrotar o apartheid, foi preso e condenado.<\/p>\n<p>Quando a burguesia branca e a imperialista se deram conta de que era necess\u00e1rio garantir a governabilidade do pa\u00eds e controlar as mobiliza\u00e7\u00f5es se utilizaram dos bons of\u00edcios de Mandela.<\/p>\n<p>Em 1987, ainda no governo bonapartista, racista e ultraconservador de Pietr Botha, Mandela estabeleceu uma linha de di\u00e1logo com o governo por meio do, ent\u00e3o, Ministro da Justi\u00e7a, Kobie Coetsee. Foram mais de 11 reuni\u00f5es num espa\u00e7o de tr\u00eas anos. Nesse sentido, considera-se que negociar com o governo Botha, em meio \u00e0 onda crescente de lutas cada vez mais radicalizadas, equivaleria a negociar com o Regime de Videla, M\u00e9dici, Pinochet e outros ditadores.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>O fim negociado do apartheid<\/strong><\/p>\n<p>O final do Apartheid, sem d\u00favidas, foi fruto das lutas. A burguesia sul africana e o pr\u00f3prio imperialismo jogaram todas as suas cartas nas negocia\u00e7\u00f5es. A burguesia sul africana e o imperialismo sabiam que a situa\u00e7\u00e3o estava ficando ingovern\u00e1vel, e ainda havia um imenso sentimento de solidariedade internacional que tamb\u00e9m assustava aos capitalistas. Assim, foi sendo constru\u00eddo um imenso acordo.<\/p>\n<p>Nas sucessivas reuni\u00f5es entre Mandela e o enviado do ditador Pietr Botha,ficaram acertadas a liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos, a legaliza\u00e7\u00e3o do partido CNA e a desist\u00eancia da defesa de um governo de maioria negra. Al\u00e9m dessas medidas pol\u00edticas ainda foram negociadas medidas econ\u00f4micas como a irrestrita remessa de lucros das transnacionais de minera\u00e7\u00e3o e energia, a abertura para importa\u00e7\u00e3o de bens e produtos e flexibiliza\u00e7\u00e3o das regras financeiras.<\/p>\n<p>Em 1989, Pietr Botha foi afastado do governo devido a uma &#8220;grave doen\u00e7a&#8221;. A doen\u00e7a era t\u00e3o grave que ele morreu 18 anos depois aos 90 anos de idade. Na verdade, Botha saiu para a entrada de seu vice-presidente De Klerk, que era mais h\u00e1bil para conduzir a transi\u00e7\u00e3o burguesa, estava menos desgastado e, portanto, tinha melhores condi\u00e7\u00f5es de negociar. A negocia\u00e7\u00e3o, obviamente, inclu\u00eda a sa\u00edda pol\u00edtica e outras concess\u00f5es \u00e0 burguesia. Em 1993, juntos Mandela e De Klerk receberam o Nobel da Paz.<\/p>\n<p><strong>Desindustrializa\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p>Em 1978, como forma de pressionar pelo fim do apartheid, a ONU votou um bloqueio econ\u00f4mico. Estavam proibidas transa\u00e7\u00f5es financeiras e comerciais entre os pa\u00edses membros da ONU e a \u00c1frica do Sul. A burguesia local desenvolveu uma grande ind\u00fastria nacional e as mercadorias produzidas eram consumidas pelo mercado interno. Nas negocia\u00e7\u00f5es de Mandela e Cia, se acordou o fim do bloqueio imposto pela ONU e a abertura da economia, com livre interc\u00e2mbio de mercadorias. Assim, a fr\u00e1gil burguesia local n\u00e3o resistiu \u00e0 concorr\u00eancia, muitas empresas fecharam e outras diretamente foram \u00e0 fal\u00eancia. Desse modo a \u00c1frica do Sul se desindustrializou e come\u00e7ou um profundo processo de desemprego.<\/p>\n<p><strong>Gigantesca concess\u00e3o \u00e0s empresas de minera\u00e7\u00e3o de capital estrangeiro<\/strong><\/p>\n<p>Em julho de 2010, o Banco Central da \u00c1frica do Sul, introduziu uma nova anistia para a fuga ilegal de capitais. Essa anistia perdoou, na pr\u00e1tica, a ilegal remessa de lucro, desde 1974, perpassando pelo in\u00edcio do governo Mandela, at\u00e9 2007, somando uma quantia equivalente a US$ 50 bilh\u00f5es. Segundo o Banco Central-BC da \u00c1frica do Sul, era um primeiro passo para completa liberaliza\u00e7\u00e3o dos fluxos de remessa de capitais. <em>&#8220;<\/em><em>Essa fuga de capitais n\u00e3o \u00e9 nova, mas piorou significativamente desde a derrota do apartheid. Em percentagem do PIB, aumentou de uma m\u00e9dia de 5,4 por cento ao ano entre 1980 e 1993 para 9,2 por cento entre 1994 e 2000, e em m\u00e9dia 12 por cento entre 2001 e 2007, chegando finalmente a impressionantes 20 por cento em 2007<\/em>&#8220;.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p><strong>Perd\u00e3o aos crimes da burguesia branca:<\/strong><\/p>\n<p>Havia muito \u00f3dio da popula\u00e7\u00e3o negra contra os brancos racistas. Como parte de uma sa\u00edda honrosa foi criada uma comiss\u00e3o da verdade para investigar os crimes racistas. Em um processo totalmente negociado foi criada a Comiss\u00e3o da Verdade e Reconcilia\u00e7\u00e3o. Por exemplo, um trabalhador denunciava os crimes raciais, o burgu\u00eas reconhecia o crime e dizia que o negro tamb\u00e9m havia cometido tal crime. Assim, como o objetivo maior era a reconcilia\u00e7\u00e3o, ambas as partes reconheciam seus erros e bola pra frente. Desmond Tutu, o bispo anglicano que ganhou o pr\u00eamio Nobel da Paz, curvava-se sobre a mesa, chorava e declarava o perd\u00e3o a todos! Talvez o melhor n\u00e3o fosse o Nobel da Paz, mas o Oscar por ator.<\/p>\n<p><strong>O assassinato de Chris Hani e o bombeiro<\/strong><\/p>\n<p>Chris Hani, era o mais popular l\u00edder do CNA, depois de Mandela, que no final de 1991 assumiu a lideran\u00e7a do Partido Comunista composta por uma base social jovem e mais radicalizada contra o Apartheid. Devido a sua localiza\u00e7\u00e3o em dirigir esta base social, muitas vezes, Chris Hani era tratado como rival pelas alas mais moderadas do CNA e do pr\u00f3prio Partido Comunista.<\/p>\n<p>No dia 10 de abril de 1993, j\u00e1 quase ao final do Apartheid, Chris Hani foi assassinado. Eram tempos de muitas revoltas e havia a possibilidade de que, com o assassinato, houvesse uma explos\u00e3o social. Ent\u00e3o, Mandela, e n\u00e3o o presidente De Klerk, foi \u00e0 TV naquela noite pedir calma \u00e0 na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> As consequ\u00eancias da desindustrializa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A desindustrializa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o apartheid fechou um cem n\u00famero de f\u00e1bricas e os antigos galp\u00f5es se transformaram em dep\u00f3sitos de produtos importados. Os empregos criados foram sempre na \u00e1rea de servi\u00e7os, turismo, com\u00e9rcio e financeiros. O grande emprego industrial e dos setores conexos desapareceu.<\/p>\n<p><strong>Desemprego: <\/strong>Hoje, os \u00edndices de desempregos s\u00e3o alarmantes. Antes da pandemia rondava a casa dos 35%. Durante a pandemia, 70% dos jovens estavam desempregados e esses jovens correspondem a 40% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Flexibiliza\u00e7\u00e3o dos Direitos Trabalhistas: <\/strong>Para combater o desemprego, ao longo dos anos, o governo usou de v\u00e1rias artimanhas para tentar acalmar os desempregados. Uma dessas medidas foi a flexibiliza\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas. Segundo o governo, flexibilizando os direitos, a contrata\u00e7\u00e3o ficaria mais barata e muitos empregos seriam criados. O resultado dessa pol\u00edtica \u00e9 uma precariza\u00e7\u00e3o total, trabalhadores contratados por dia, e em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Na cidade de Cape Town, no bairro onde est\u00e3o as confec\u00e7\u00f5es, na hora do almo\u00e7o, v\u00ea-se centenas de mulheres sentadas na sarjeta compartindo um p\u00e3o com abacate e algum refrigerante. Esse \u00e9 o almo\u00e7o da classe oper\u00e1ria em muitos setores.<\/p>\n<p>A <strong>Previd\u00eancia Social<\/strong>, est\u00e1 destro\u00e7ada. Homens e mulheres j\u00e1 com idade avan\u00e7ada s\u00e3o vistos trabalhando em servi\u00e7os desumanos para suas idades e com um grande ac\u00famulo de sofrimento.<\/p>\n<p>A <strong>destrui\u00e7\u00e3o dos sindicatos<\/strong> \u00e9 parte da pol\u00edtica para controle e domestica\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. Para consecu\u00e7\u00e3o dessa pol\u00edtica foi criado o NEDLAC\u00a0 (Conselho Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Trabalho\/National Economic Development and Labour Council). O NEDLAC \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o tripartite, composto pelo governo, empres\u00e1rios e trabalhadores. A decis\u00e3o dos trabalhadores em irem \u00e0 greve deve ser referendada pelo NEDLAC. Se este organismo tripartite estiver contra a greve, n\u00e3o pode haver greve e havendo \u00e9 considerada ilegal. Ent\u00e3o, a COSATU que \u00e9 parte do governo, caso tenha um arroubo grevista, dever\u00e1 ter o aval dos pr\u00f3prios governos e dos patr\u00f5es. A vontade dos trabalhadores n\u00e3o prevalece.<\/p>\n<p>O cons\u00f3rcio CNA\/COSATU\/PC, h\u00e1 27 anos j\u00e1 n\u00e3o tem novas medidas para enganar e controlar os trabalhadores. J\u00e1 flexibilizaram os direitos trabalhistas, j\u00e1 destru\u00edram os sindicatos, j\u00e1 prometeram e n\u00e3o cumpriram a gera\u00e7\u00e3o de novos empregos, resta culpar os estrangeiros pela falta de trabalho. Assim, de modo consciente, o Estado sul africano tem uma <strong>pol\u00edtica xenof\u00f3bica<\/strong> contra estrangeiros e vem praticando atos de barb\u00e1rie<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> para poder esconder sua pr\u00f3pria incompet\u00eancia frente a crise do sistema capitalista<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> A fal\u00eancia da Na\u00e7\u00e3o Arco \u00cdris, as divis\u00f5es inter-burgueses e as divis\u00f5es no bloco CNA\/COSATU\/PC<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O modelo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista na \u00c1frica do Sul est\u00e1 baseado no Complexo Mineral Energ\u00e9tico, com alta taxa de explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, a acumula\u00e7\u00e3o sendo dominada e dependente de v\u00e1rias empresas fortemente financiadas pelo Estado, na explora\u00e7\u00e3o de energia e minerais bruto ou semitransformados tais como ouro, diamante, a\u00e7o, carv\u00e3o, ferro e alum\u00ednio.<\/p>\n<p>Esse Complexo Mineral Energ\u00e9tico, se apoiou na financeiriza\u00e7\u00e3o das atividades produtivas, combinando entrada de capital de curto prazo e fuga de capitais para <em>offshores<\/em> (para\u00edsos fiscais), concentrando na \u00c1frica do Sul somente a explora\u00e7\u00e3o mineral. Esse modelo gerou uma forma atrofiada de crescimento, sem empregos, persist\u00eancia da pobreza para a maioria da popula\u00e7\u00e3o e eleva\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de vida de uma pequena minoria e gerando novas elites, uma burguesia negra.<\/p>\n<p>A crise de 2007-2008 foi a p\u00e1 de cal desse modelo que se aprofundou com a crise de 2019 e tornou insuport\u00e1vel com a pandemia do Covid 19. Ent\u00e3o a crise econ\u00f4mica que vinha se desenvolvendo, desde antes de 2007, a partir de ent\u00e3o ganhou um salto de qualidade e transforma a crise econ\u00f4mica em crise pol\u00edtica.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong> CNA\/COSATO\/PC verdadeiro partido-Estado<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Antes de avan\u00e7ar na crise pol\u00edtica, gostar\u00edamos de ressaltar o car\u00e1ter do bloco de governo composto pelo CNA\/COSATU\/PC, no qual o CNA poder\u00edamos dizer que se parece em muito com o velho PRI do M\u00e9xico, na medida em que t\u00eam total controle do Estado e suas institui\u00e7\u00f5es (Legislativo, Judici\u00e1rio, For\u00e7as Armadas e Policiais). Neste sentido, podemos caracterizar o CNA como um partido-Estado.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong> O impeachment de Zuma e o aprofundamento da crise do bloco CNA\/COSATO\/PC<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A crise pol\u00edtica que levou ao <em>impeachment<\/em> de Jacob Zuma foi consequ\u00eancia direta da crise capitalista mundial, do esgotamento do modelo baseado no Complexo Mineral &#8211; Energ\u00e9tico e acima de tudo as mobiliza\u00e7\u00f5es que vinham se desenvolvendo especialmente na juventude (#feemustfall e #rhodesmustfall) e greves oper\u00e1rias explosivas que escapavam das garras da burocracia sindical e do NEDLAC.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria alian\u00e7a que governava o pa\u00eds atrav\u00e9s de Zuma foi quem colocou em vota\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional o <em>impeachment<\/em> do presidente. Foi um processo parecido com o de Dilma no Brasil e com duas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias. No Brasil o <em>impeachment<\/em> foi orquestrado pelos partidos de oposi\u00e7\u00e3o e na \u00c1frica do Sul pela pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 outra diferen\u00e7a importante: no pa\u00eds sul-americano a esquerda reformista disse que foi golpe, na \u00c1frica do Sul, a esquerda reformista aplaudiu.<\/p>\n<p>O <em>impeachment <\/em>de Zuma conduzido por Ramaphosa foi a declara\u00e7\u00e3o de guerra entre as fac\u00e7\u00f5es. Estava claramente aberta a fissura no bloco CNA-COSATU-PC e as consequ\u00eancias dessa guerra anunciada seriam vistas nos anos subsequentes ao <em>impeachment<\/em>.<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><strong> Zuma se nega a comparecer aos Tribunais. Condenado por desacato.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Os anos de governos de Zuma foram tempo de in\u00fameras den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o. Mais de 700 den\u00fancias foram apresentadas \u00e0 Justi\u00e7a e engavetadas. Depois do impeachment, tentando se cacifar, a Justi\u00e7a e o governo Ramaphosa, fizeram inumer\u00e1veis audi\u00eancias, horas e horas transmitidas ao vivo pela televis\u00e3o. Assim a popula\u00e7\u00e3o foi sendo ganha contra a &#8220;parte podre&#8221; que segundo as narrativas tinha &#8220;capturado o Estado&#8221; para fazer neg\u00f3cios il\u00edcitos.<\/p>\n<p>Quando o bando de Ramaphosa se sentiu suficientemente fortalecido convocou Jacob Zuma para depor e seu bando e ele pr\u00f3prio ignoraram a convoca\u00e7\u00e3o. Na sequ\u00eancia de lances, o Tribunal, ent\u00e3o, condenou Zuma a quinze meses de pris\u00e3o por desacato, restava prend\u00ea-lo. Zuma se fechou em sua casa e organizou grupos, inclusive alguns armados, para defend\u00ea-lo da pris\u00e3o. Quando a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as come\u00e7ou a ficar desfavor\u00e1vel, sem sa\u00edda, se apresentou \u00e0 pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Antes de se apresentar \u00e0 pol\u00edcia, Zuma tentou tirar uma carta da manga e dizer que era um problema racial contra os zulus povo do qual ele e Mandela s\u00e3o origin\u00e1rios. Assim, a carta o colocava como povo perseguido e colocava sua imagem \u00e0 de Mandela.<\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li><strong> Inc\u00eandios e saques nos neg\u00f3cios de imigrantes<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Os primeiros saques, ningu\u00e9m tem d\u00favida, foram iniciados por <em>lumpens<\/em> a mando do bando de Zuma. A ideia inicial era atacar os pequenos com\u00e9rcios dos estrangeiros imigrantes. Em Johanesburgo, a maioria das lojas atacadas eram de imigrantes do Paquist\u00e3o, Bangladesh, Eti\u00f3pia e Som\u00e1lia, conforme relata o F\u00f3rum da Di\u00e1spora Africana.<\/p>\n<p>\u201c<em>Recebemos um telefonema perto da meia-noite de s\u00e1bado, informando que as lojas de migrantes estavam sendo saqueadas em Jeppestown. Chegamos aqui esta manh\u00e3 e podemos ver que houve danos imensos<\/em>&#8220;, disse Amir Sheikh, que tamb\u00e9m \u00e9 l\u00edder do Conselho da Comunidade Somali.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<ol start=\"8\">\n<li><strong> As massas famintas e aterrorizadas com a III Onda de Covid, foram \u00e0 luta<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A origem dos saques como dissemos acima foram incentivados pelo bando de Zuma. A partir do momento que come\u00e7aram os saques, as massas famintas por conta da estrutura capitalista que os jogou na pobreza, por conta das consequ\u00eancias das crises econ\u00f4micas mundiais de 2007-2008 e 2019 e como se n\u00e3o fosse pouco um novo <em>lockdown<\/em> de quatorze dias, sem qualquer compensa\u00e7\u00e3o financeira e muita repress\u00e3o policial, come\u00e7aram a participar dos saques.<\/p>\n<p>Nos sucessivos v\u00eddeos que circularam pelas redes sociais, vemos a popula\u00e7\u00e3o dizer claramente: <em>&#8220;Estou aqui mas n\u00e3o \u00e9 por Zuma e nem por Ramaphosa. Estou aqui buscando comida para mim e minha fam\u00edlia &#8220;<\/em>Para entender melhor essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 bom levar em conta que:<\/p>\n<p>&#8220;A desnutri\u00e7\u00e3o e a subnutri\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a fome, na segunda maior economia da \u00c1frica \u00e9 o espelho da barb\u00e1rie <em>capitalista. Segundo a Pesquisa Nacional de Sa\u00fade e Nutri\u00e7\u00e3o da \u00c1frica do Sul (Sanhanes, sigla em ingl\u00eas), de 2013, <\/em><em>26% da popula\u00e7\u00e3o estava realmente enfrentando a fome, e 28% em situa\u00e7\u00e3o de risco. <\/em><em>A desnutri\u00e7\u00e3o provocada pela fome comumente \u00e9 associada a pessoas abaixo do peso, mas ela tamb\u00e9m pode levar ao sobrepeso ou \u00e0 obesidade. Na \u00c1frica do Sul, 26,5%\u00a0 das crian\u00e7as apresentam baixa estatura, e 68,3% das mulheres sul-africanas com mais de 20 anos est\u00e3o com sobrepeso e, destas, 42% s\u00e3o obesas; para os homens, as taxas s\u00e3o de 35% acima do peso, e 12% deles s\u00e3o obesos&#8221;.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o capitalista de alimentos s\u00e3o controladas por grandes empresas, fazendeiros e por um punhado de gigantes coorpora\u00e7\u00f5es que orientam a disponibilidade, o pre\u00e7o, a qualidade, a seguran\u00e7a e o valor nutricional dos alimentos consumidos para todos os sul-africanos. Esses produtores e distribuidores de alimentos s\u00e3o um poderoso grupo de press\u00e3o que influencia ativamente as pol\u00edticas de governo.<\/p>\n<p>Na fabrica\u00e7\u00e3o e no processamento, algumas grandes coorpora\u00e7\u00f5es dominam o setor, entre elas a Foodcorp, a Pioneer Foods, a Tiger Brands, a Premier Foods e a Nestl\u00e9 S.A. A Comiss\u00e3o de Concorr\u00eancia (similar ao Cade, no Brasil) investigou como era fixado o pre\u00e7o do p\u00e3o, do trigo e do milho por meio de cart\u00e9is que operam h\u00e1 anos. As empresas Tiger Brands, Pioneer Foods, Foodcorp e Premier Foods foram consideradas culpadas de manipular os pre\u00e7os a seu favor.<\/p>\n<p>No setor de distribui\u00e7\u00e3o de alimentos no varejo, apenas cinco varejistas (Shoprite, Pick&#8217;n Pay, Spar, Massmart e Woolworths) det\u00eam mais de 65% do mercado formal. Outros 32% da distribui\u00e7\u00e3o s\u00e3o compartilhados pelo setor de com\u00e9rcio \u201cinformal\u201d, incluindo os pequenos atacadistas regionais, as biroscas nas <em>townships<\/em> (favelas) e os vendedores ambulantes. O processo de concentra\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o de alimentos via grandes supermercados faz com que essas empresas vendam mais caro, promovam alimentos processadosde baixa qualidade nutricional, quebrem os varejistas menores e destruam os vendedores informais. \u00c9 a concetra\u00e7\u00e3o do capital em poucas m\u00e3os produzindo mais pobreza, mais desemprego, mais empregos informais e mais fome!<\/p>\n<p>Nesses saques estamos de um lado. Estamos junto com as massas famintas, contra a burguesia monopolista seja produtores ou dos grandes supermercados que controlam a distribui\u00e7\u00e3o, o pre\u00e7o e a qualidade dos alimentos.<\/p>\n<ol start=\"9\">\n<li><strong> Com as massas, contra Zuma e Ramaphosa<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Depois de 27 anos no poder (desde maio de 1994), o cons\u00f3rcio Congresso Nacional Africano, Cosatu e Partido Comunista da \u00c1frica do Sul, n\u00e3o h\u00e1 como dizer que eles n\u00e3o t\u00eam responsabilidade no caos que est\u00e1 metido a \u00c1frica do Sul. Eles s\u00e3o respons\u00e1veis ainda por terem retirado as massas das ruas, garantido a governabilidade para a burguesia, aplicado todos os planos neoliberais t\u00e3o repudiado por todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Jacob Zuma, governou de maio de 2009 a fevereiro de 2018, seguiu aplicando e aprofundando a pol\u00edtica acima referida. S\u00f3 por esse motivo j\u00e1 \u00e9 considerado inimigo dos trabalhadores e do povo pobre. Al\u00e9m disso, \u00e9 um corrupto que formou uma verdadeira quadrilha para assaltar os cofres do Estado e se colocando acima do bem e do mal se negou a comparecer \u00e0 justi\u00e7a e responder pelas acusa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Cyril Ramaphosa,o atual presidente, governa desde fevereiro de 2018, com a mesma pol\u00edtica do CNA\/COSATU\/PC, agravado pelas privatiza\u00e7\u00f5es dos bens nacionais; no come\u00e7o da pandemia permitiu que as empresas fizessem empr\u00e9stimos com garantia de pagamento pelo Estado sul africano. Para os desempregados e famintos determinou <em>lockdown<\/em> sem nenhum tipo de ajuda. Al\u00e9m, disso Ramaphosa \u00e9 conhecido como o A\u00e7ougueiro de Marikhana. Nessa localidade se deu uma violenta repress\u00e3o \u00e0 greve dos trabalhadores da London Miners (Lomin)<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>ocasionando a morte de 34 trabalhadores. O fato virou uma como\u00e7\u00e3o nacional, o ent\u00e3o presidente Jacob Zuma nomeou uma Comiss\u00e3o de Inqu\u00e9rito, e esta que descobriu um email de Cyril Ramaphosa autorizando o massacre.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o temos bandido predileto. Nem Zuma, nem Ramaphosa. Todo poder aos trabalhadores. Est\u00e1 evidente que o CNA por 27 anos imp\u00f4s a pol\u00edtica de fome contra o povo pobre e a classe trabalhadora, por isso \u00e9 preciso colocar para fora este governo. Por um governo da classe trabalhadora.<\/p>\n<p><strong><em>Zuma deve pagar por seus crimes de corrup\u00e7\u00e3o.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Ramaphosa deve pagar por seus crimes em Marikhana e de corrup\u00e7\u00e3o.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Nenhuma confian\u00e7a no governo do CNA\/COSATO\/PC<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Por uma \u00c1frica do Sul sem xenofobia<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Expropria\u00e7\u00e3o e estatiza\u00e7\u00e3o dos grandes grupos produtores e distribuidores de alimentos<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Fornecimento de energia el\u00e9trica gratuita para trabalhadores e desempregados.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Por uma \u00c1frica do Sul controlada pelos trabalhadores<\/em><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>O grupo de guerrilha que foi criado a partir de junho de 1961, o CNA permanecia formalmente comprometido com a n\u00e3o-viol\u00eancia, por\u00e9m seus principais dirigentes atuavam dentro do Umkhontowe Sizwe (conhecido como MK), Zulu e Xhosa para a \u201cLan\u00e7a da Na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>Ashman, a; Fine, B; Newman, S. Amnesty International? The Nature, Scale and Impact of Capital Flight from South Africa-\u00a0 Journal of Southern African Studies, Volume 37, Number 1, March 2011<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0 A Na\u00e7\u00e3o do Arco Iris criada por Mandela pratica atos de barb\u00e1rie contra negros imigrantes &#8211;\u00a0 https:\/\/litci.org\/pt\/64345-2\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>https:\/\/www.aa.com.tr\/en\/africa\/violence-over-ex-presidents-jailing-hits-south-africas-largest-city\/2301166<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> SANTOS, Adriana Gomes (org) \u00c1frica: colonialismo, genoc\u00eddio e repara\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Sundermann, 2019,pag. 114<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Saiba mais sobre o massacre em Marikhana. Assista o document\u00e1rio: Miners Shot Down &#8211; Marikana Massacre &#8211; Full Documentary &#8211; 2014 &#8211;\u00a0 https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=g2GbCoKioEs<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos meses a \u00c1frica subsaariana vem sendo sacudida por in\u00fameras lutas. Lutas juvenis e populares no Zimb\u00e1bue, Nig\u00e9ria, Senegal, Suazil\u00e2ndia. Greves de trabalhadores no Qu\u00eania e Guin\u00e9. A \u00c1frica do Sul dirigida e controlada ferreamente h\u00e1 27 anos pelo consorcio CNA\/COSATU\/Partido Comunista, parecia imune a essa onda de lutas. As contradi\u00e7\u00f5es vinham se avolumando [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":64485,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"litci_post_political_author":"","footnotes":""},"categories":[4053],"tags":[200,213,4139,4140,4120],"class_list":["post-64482","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-africa-do-sul","tag-apartheid","tag-cesar-neto","tag-nelson-mandela","tag-protestos-africa-do-sul","tag-saques-africa-do-sul"],"fimg_url":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Africa-3.jpg","categories_names":["\u00c1frica do Sul"],"author_info":{"name":"Javier f","pic":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/38f104112503b4b2d43a8972576238b0824db79ccc991f981595fcbc569b0601?s=96&d=mm&r=g"},"political_author":null,"tagline":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64482","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64482"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64482\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64485"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64482"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64482"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/litci.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64482"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}