{"id":64478,"date":"2021-07-19T12:13:56","date_gmt":"2021-07-19T15:13:56","guid":{"rendered":"https:\/\/litci.org\/pt\/?p=64478"},"modified":"2021-07-19T12:13:56","modified_gmt":"2021-07-19T15:13:56","slug":"suazilandia-eswatini-saques-incendios-e-a-luta-contra-a-monarquia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/litci.org\/pt\/2021\/07\/19\/suazilandia-eswatini-saques-incendios-e-a-luta-contra-a-monarquia\/","title":{"rendered":"Suazil\u00e2ndia (eSwatini): Saques, inc\u00eandios e a luta contra a Monarquia"},"content":{"rendered":"<p><em>Suazil\u00e2ndia, um pequeno pa\u00eds africano, sem sa\u00edda ao mar e encravado dentro da \u00c1frica do Sul, est\u00e1 vivendo desde maio uma insurrei\u00e7\u00e3o\u00a0 que se aprofundou no m\u00eas de junho, e o colocou na mesma rota das violentas mobiliza\u00e7\u00f5es do Zimb\u00e1bue, Nig\u00e9ria e Senegal. As raz\u00f5es t\u00eam a ver com a queda dos pre\u00e7os das commodities por conta da crise capitalista e agravada pelo impacto da pandemia de covid 19 que aprofundou a mis\u00e9ria das massas. O pa\u00eds \u00e9 controlado pelo Rei Mswati III, uma das \u00faltimas monarquias absolutistas do mundo, e \u00e9 contra essa ditadura que as massas sa\u00edram as ruas, protestaram e colocaram fogo em com\u00e9rcios e planta\u00e7\u00f5es. Foram duramente reprimidas e ao final, h\u00e1 pelo menos 40 mortes neste min\u00fasculo pa\u00eds de 1 milh\u00e3o e 350 mil habitantes.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por: Cesar Neto<\/p>\n<p><strong>Produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e mineral para exporta\u00e7\u00e3o e pobreza infame<\/strong><\/p>\n<p>Como toda a economia africana, Suazil\u00e2ndia tem sua economia voltada para exporta\u00e7\u00e3o. Produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e c\u00edtricos com alto n\u00edvel de composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica de capital<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>como resultado da irriga\u00e7\u00e3o, mecaniza\u00e7\u00e3o, alta produtividade e trabalhadores semiescravos. No pa\u00eds, 90% dos alimentos e bens de consumo vem da \u00c1frica do Sul e por esse motivo sua moeda o lilangeni , est\u00e1 atrelada ao rand sul-africano , subordinando a pol\u00edtica monet\u00e1ria de eSwatini\/Suazil\u00e2ndia \u00a0\u00e0 \u00c1frica do Sul. Portanto, a \u00c1frica do Sul atua como uma sub-metr\u00f3pole \u00a0\u00e0 servi\u00e7o do imperialismo.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o, em uma economia monoexportadora e importadora de alimentos, com alta taxa de desemprego e servi\u00e7os de sa\u00fade bastante prec\u00e1rios, vive uma impressionante pobreza que contrasta com a vida de alto consumo da fam\u00edlia do Rei\u00a0\u00a0 Mswati III . Calcula-se que 30% da popula\u00e7\u00e3o seja portadora de HIV\/AIDS e h\u00e1 um alto \u00edndice de mortalidade por tuberculose. O pa\u00eds tem a 12\u00aa menor expectativa de vida no mundo, com a m\u00e9dia de 58 anos.<\/p>\n<p>O regime de governo<\/p>\n<p>Suazil\u00e2ndia \u00e9 governada por uma monarquia absolutista. Inclusive, em 2018, por decis\u00e3o do Rei Mswati III, o pa\u00eds Suazil\u00e2ndia mudou o nome para eSwatini. O chefe de Estado \u00e9 o rei Mswati III e que, por sua vez, compartilha o poder com sua pr\u00f3pria m\u00e3e, uma esp\u00e9cie de rainha espiritual. E ainda cabe ao rei nomear o primeiro Ministro e organizar as elei\u00e7\u00f5es para o parlamento realizada a cada cinco anos.<\/p>\n<p>O Parlamento \u00e9 composto pelo Senado com 30 membros, sendo 10 nomeados pela C\u00e2mara dos Deputados e 20 nomeados pelo rei. A C\u00e2mara dos Deputados tem 65 membros, 10 nomeados pelo rei e 55 eleitos pelo voto popular com mandato de cinco anos. Por\u00e9m, n\u00e3o existe o reconhecimento dos partidos pol\u00edticos e os candidatos se apresentam de forma avulsa.\u00a0 Dos 65 deputados da atual legislatura, apenas 3 s\u00e3o considerados de oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Uma monarquia absoluta integrada ao capitalismo mundial<\/strong><\/p>\n<p>Em abril de 1986, aos dezoito anos de idade o pr\u00edncipe, Makhosetive, deixou os estudos na Sherborne School, na Inglaterra, para ser condecorado como o Rei Mswati III. Na posse representando os EUA estava a filha do, ent\u00e3o, presidente Reagan, Maureen, o presidente de Mo\u00e7ambique, Samora Machel e o ditador sul africano, Pietr Botha.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Nesses trinta e cinco anos de governo, nas apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, Mswati III gosta de apresentar-se com peito nu, indument\u00e1rias confeccionadas com pele de leopardo e adere\u00e7os de origem animal. Anualmente participa de um evento onde as mulheres desfilam com os seios nus, saias e faixas tribais. No evento, o Rei pode escolher dentre as mulheres uma para ser sua esposa. Nessa condi\u00e7\u00e3o, tem quinze esposas e vinte e cinco filhos. Mswati III \u00e9 o sexag\u00e9simo s\u00e9timo filho do rei Sobhuza II, o qual dentro de tradi\u00e7\u00e3o local, dizem que teve duzentos e setenta filhos.<\/p>\n<p>Seu extremo controle sobre os limitados recursos econ\u00f4micos do pa\u00eds garante um estilo de vida de muita ostenta\u00e7\u00e3o, com carr\u00f5es, avi\u00f5es particulares e pal\u00e1cios luxuosos, e seus filhos exibem suas opulentas festas de anivers\u00e1rio nas redes sociais<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Se por um lado a monarquia absoluta apresenta v\u00e1rios tra\u00e7os extremamente reacion\u00e1rios por outro lado h\u00e1 uma not\u00e1vel integra\u00e7\u00e3o ao sistema capitalista mundial. Isso fica evidente no fato de Mswati III deter 53.1% da Royal Swazi Sugar Corporation e controlar 21.000 hectares de terras desse pequeno pa\u00eds,\u00a0 na qual tanto a produ\u00e7\u00e3o do a\u00e7\u00facar e a venda \u00e9 exclusivamente destina a empresa Coca Cola. A maioria das grandes empresas que operam no pa\u00eds s\u00e3o de capital sul africano e em todas tem participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria do Rei.<\/p>\n<p><strong>O assassinato de um estudante foi o come\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>A pol\u00edcia e o Ex\u00e9rcito da Suazil\u00e2ndia s\u00e3o extremamente violentos contra os trabalhadores e o povo pobre, al\u00e9m disso gozam de total impunidade dos \u00f3rg\u00e3os do Estado dirigido pela monarquia absolutista. Por\u00e9m, na segunda quinzena de maio, a viol\u00eancia policial sofreu um duro rev\u00e9s devido \u00e0 morte de um estudante universit\u00e1rio, de fam\u00edlia de classe m\u00e9dia alta, na qual ficou evidente a participa\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os policiais em seu assassinato. Imediatamente come\u00e7aram as mobiliza\u00e7\u00f5es juvenis que foram se radicalizando e incorporando outros setores sociais.<\/p>\n<p><strong>A mobiliza\u00e7\u00e3o se estendeu, aprofundou e se politizou<\/strong><\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o em decorr\u00eancia da morte do estudante Thabani Nkomonye, inicialmente se deu na capital e logo se estendeu para as zonas rurais onde vive 75% da popula\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos dias de maio e primeiros dias de junho o pa\u00eds viveu, segundo o jornal New York Times, a &#8220;mais explosiva agita\u00e7\u00e3o civil em seus 53 anos de independ\u00eancia&#8221;<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>De repente a ira explodiu e milhares de manifestantes tomaram as ruas de Mbabane, a capital do pa\u00eds e logo se estendeu para as zonas rurais, com in\u00fameros com\u00e9rcios e bancos incendiados e saqueados, em especial aqueles nos quais \u00e9 sabido que o rei tem participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria. Tamb\u00e9m foram saqueados e incendiados supermercados (Pick n Pay, Shoprite, Spar) e bancos (Standard Bank e Nedbank) de capital sul africanos.<\/p>\n<p>O ataque aos neg\u00f3cios e propriedades rurais do rei foi um recado claro de que as massas j\u00e1 n\u00e3o o suportam mais o regime. Mas tamb\u00e9m, ao incendiar e saquear os neg\u00f3cios sul africanos, significou um recado claro a Na\u00e7\u00e3o do Arco Iris na seguinte dire\u00e7\u00e3o em dizer a \u00c1frica do Sul que: voc\u00eas tamb\u00e9m t\u00eam responsabilidades na sustenta\u00e7\u00e3o dessa monarquia absolutista e ditatorial.<\/p>\n<p><strong>48 anos de ditadura: o atraso na organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora<\/strong><\/p>\n<p>Instalada em 1973, cinco anos ap\u00f3s a independ\u00eancia, a ditadura imposta pela monarquia absolutista, impediu a ferro e fogo a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Na cidade e no campo as poucas organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam muitas limita\u00e7\u00f5es, sem grandes tradi\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o por local de trabalho ou moradia, e quase n\u00e3o \u00e9 exercida a salutar pr\u00e1tica da democracia oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c9 muito importante constatar essa debilidade para entender os limites do atual ciclo de lutas e, ainda mais, a necessidade imperiosa de organizar sindicatos que atuem nas empresas e organiza\u00e7\u00f5es no campo. Organizar os que vivem da terra ganha especial import\u00e2ncia na medida em que 75% da popula\u00e7\u00e3o vive no campo.<\/p>\n<p><strong>As organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edtica de oposi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>As duas principais organiza\u00e7\u00f5es que se ligaram \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es foram o PUDEMO &#8211; Movimento Democr\u00e1tico Unido do Povo (People\u2019s United Democratic Movement) e o CPS &#8211; Partido Comunista da Suazil\u00e2ndia (Communist Party of Swaziland).<\/p>\n<p>O Movimento Democr\u00e1tico Unido do Povo (PUDEMO), segundo sua p\u00e1gina<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, &#8220;\u00e9 um movimento pol\u00edtico comprometido com a cria\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o de uma democracia multipartid\u00e1ria constitucional, um governo transparente e respons\u00e1vel, um ambiente prop\u00edcio ao crescimento econ\u00f4mico e ao empoderamento e ao desenvolvimento de uma democracia culturalmente vibrante e uma sociedade tolerante, baseada na m\u00e1xima participa\u00e7\u00e3o e no respeito \u00e0 vontade das pessoas&#8221;.<\/p>\n<p>O \u00a0CPS &#8211; Partido Comunista da Suazil\u00e2ndia, em sua p\u00e1gina<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> define como tarefas priorit\u00e1rias:1.Participa\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Multipartid\u00e1ria; 2. Liberdade incondicional dos presos pol\u00edticos; 3. Retorno seguro de todos os exilados; 4. Legaliza\u00e7\u00e3o de todos os partidos pol\u00edticos; 5. Constitui\u00e7\u00e3o para uma nova democracia; e 6. Realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es livres e justas.<\/p>\n<p>Tanto o programa apresentado pelo PUDEMO como o apresentado pelo CPS se restringem as liberdades formais do Estado burgu\u00eas. As tarefas transicionais como reforma agr\u00e1ria, n\u00e3o pagamento da d\u00edvida externa, expropria\u00e7\u00e3o das empresas da monarquia n\u00e3o constam do programa. Justamente quando os trabalhadores est\u00e3o convulsionados, dispostos a ouvir alternativas e lutar por elas, tanto o PUDEMO como o Partido Comunista se omitem dessa tarefa.<\/p>\n<p><strong>Seguir com as mobiliza\u00e7\u00f5es nas ruas at\u00e9 a queda da monarquia. <\/strong><\/p>\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es que tomaram conta do pa\u00eds colocaram a monarquia absolutista e o Rei Mswati III na defensiva. Mesmo com toda a repress\u00e3o, com mais de 40 mortos e 500 pessoas presas, a luta n\u00e3o foi derrotada.<\/p>\n<p>A burguesia conseguiu importantes declara\u00e7\u00f5es pelo &#8220;fim da viol\u00eancia&#8221;. Bispos cat\u00f3licos de nove pa\u00edses assinaram um manifesto pela paz. A SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da \u00c1frica Austral\/Southern African Development Community), a ONU, e outras organiza\u00e7\u00f5es apelaram pelo fim da viol\u00eancia. Mas essas mesmas organiza\u00e7\u00f5es nunca falaram nada contra o fato de 70% popula\u00e7\u00e3o viver na pobreza, com altos \u00edndices de viol\u00eancia contra a mulher e 30% da popula\u00e7\u00e3o com HIV por causa da contamina\u00e7\u00e3o hospitalar.<\/p>\n<p>S\u00f3 foi poss\u00edvel colocar a ditadura de Mswati III na defensiva devido \u00e0s mobiliza\u00e7\u00f5es. E por isso, as mobiliza\u00e7\u00f5es devem continuar at\u00e9 a queda de Mswati III e da monarquia.<\/p>\n<p>N\u00f3s da Liga Internacional dos Trabalhadores apoiamos integralmente a luta do povo swazi contra a ditadura e a burguesia que a sustenta.<\/p>\n<p><strong>Abaixo a ditadura de Swatini III e sua monarquia absolutista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Liberdade imediata de todos os presos pol\u00edticos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fora todos! Elei\u00e7\u00f5es livres e gerais.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Por uma Assembleia Constituinte que reconstrua o pa\u00eds, distribua terras e garanta direitos aos trabalhadores.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Monarquia nunca mais.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Solidariedade internacional \u00e0 luta do povo da Suazil\u00e2ndia.<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> A composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica de capital se d\u00e1 pelo capital constante (isto \u00e9 m\u00e1quinas, equipamentos e insumos agr\u00edcolas) e o capital vari\u00e1vel (isto \u00e9 pagamento de sal\u00e1rios). O estudo da composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica do capital vai determinar a taxa de lucro. No caso espec\u00edfico das planta\u00e7\u00f5es de cana de a\u00e7\u00facar naquele pa\u00eds, observamos um alto investimento de capital constante e baixos valores de capital vari\u00e1vel.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> https:\/\/archive.fo\/roR1R#selection-1529.25-1529.60<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> https:\/\/www.nytimes.com\/2021\/07\/02\/us\/africa-monarchy-eswatini-protests-swaziland.html<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> idem<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> https:\/\/www.pudemo.org\/index.phpoption=com_frontpage&amp;Itemid=1<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> https:\/\/www.facebook.com\/CPSwaziland\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Suazil\u00e2ndia, um pequeno pa\u00eds africano, sem sa\u00edda ao mar e encravado dentro da \u00c1frica do Sul, est\u00e1 vivendo desde maio uma insurrei\u00e7\u00e3o\u00a0 que se aprofundou no m\u00eas de junho, e o colocou na mesma rota das violentas mobiliza\u00e7\u00f5es do Zimb\u00e1bue, Nig\u00e9ria e Senegal. 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